Com a chegada do segundo semestre, começam a se intensificar as conversas sobre política. Mas as notícias do mundo da democracia são cada vez mais desanimadoras. Não vou me demorar muito no assunto porque, como todo mundo sabe, eu faço parte daquela geração de adolescentes desiludidos e apáticos com a política nacional, que acreditam realmente que todos os políticos são de fato iguais. Igualmente corruptos.
Há algumas semanas li uma notícia falando da mais nova peripécia do Berlusconi na Itália. O político, conhecido entre outras coisas por seus escândalos de infidelidade, ordenou que pintassem por cima de um quadro histórico (calma, era uma cópia...) no palácio do governo italiano, para esconder um seio à mostra de uma alegoria da verdade. Alardeou seu pudor com requintes de demagogia, e só conseguiu o escárnio da mídia (pelo menos da parte da mídia não controlada por ele...), que apontou o fato óbvio dele estar literalmente “encobrindo a verdade”.
Para mim, a questão que mais me chocou é: como diabos reelegeram o Berlusconi????? Lembro de quando eu estive por lá em meio ao primeiro turno das eleições italianas, e de ver Sara, uma das minhas colegas de apartamento, pulando de alegria e bradando para a vizinhança ouvir porque viu na televisão que Berlusconi perdia o primeiro turno. Lembro de não ter encontrado um só italiano consciente que respeitasse o político. Lembro de aulas sobre atualidade italiana onde me explicavam a mudança terrível que ele provocou na política italiana, inaugurando no país a época onde se votava no outro candidato, mesmo que ele não fosse decente, só para que este monstro não ganhasse (coisa que no Brasil já se faz há anos, mas que lá ainda era impensável). A manobra de mídia que ele deve ter empreendido deveria ser estudada e ensinada em escolas de publicidade.
Deste lado do atlântico, não bastou para os americanos terem oito anos de administração Bush, de um presidente que sempre aparece segurando livros de ponta-cabeça e balançando a bandeira americana ao contrário nas olimpíadas. Eu já não tinha digerido o fato deles reelegerem também este monstro e aceitarem o conseqüente declínio contínuo da imagem internacional do país. Agora parece que eles irão persistir no erro, elegendo para o próximo mandato um outro republicano. Veja bem, meu problema não é com os republicanos. Tenho lá meu lado conservador também e acho que o oba-oba dos democratas às vezes é meio extremo. O problema não é com as ideologias partidárias, mas com os candidatos em si.
De um lado, temos o republicano McCain. Um gagá de 75 anos que nem sabe quantas mansões tem (quando perguntado por um jornalista, respondeu confuso que sua equipe de assessores teria que responder isso por ele) e que sobrevive do dinheiro da mulher milionária. Com uma retórica senil e problemas crônicos de indecisão. Do outro lado, um político jovem, carismático, com uma língua afiada porém cuidadosa. E negro. O republicano está vencendo nas pesquisas. Porque pode ser gagá, indeciso e fraco, colaborando para a continuidade do declínio do império americano. Mas é branco.
Em terras tupiniquins, nossas eleições para prefeito deram de cara com os candidatos conhecidos. A sexóloga que, por falta de um, abriu dois buracos novos e completamente inúteis na cidade e criou um espetáculo midiático estrelado por seu casamento em ruínas. Outro político cuja carreira tem como principal falha sua própria falta total de carisma. E o terceiro e atual prefeito, que embora tenha feito muito do que precisava ser feito, tomou as medidas impopulares que outros não tinham coragem de tomar (algumas mais acertadas que outras, certo) e não puxou sacos suficientes para ser reeleito. E ao que tudo indica, aparentemente a sexóloga vai levar essa eleição por falta de outra opção. Votarão nela porque anular o voto é feio a papai do céu castiga.
Ta, eu sei que não existe atualmente nenhuma outra opção viável, mas eu realmente não acredito em democracia na era da mídia.
Bits and pieces of my life that everyone ignores when I speak, but someone reads when I write.
quarta-feira, agosto 27, 2008
terça-feira, agosto 19, 2008
Bateram no carro de minha mãe recentemente. Ao contrário dos meus infortúnios veiculares, não foi culpa dela. Mas em todo caso, ela ficou com o carro “confiscado” pelo mecânico durante algum tempo, tendo que se virar com o transporte público da cidade.
Sabe aquela cena do Wall•E onde o gordinho John é nocauteado fora da cadeira computadorizada pelo protagonista e, livre das telas e da programação, passa a perceber todo um mundo à sua volta que ele não sabia que existia? O acidente de trânsito teve um efeito similar em minha mãe. Mas falo sem tanta ironia, afinal, eu mesmo tive essa mesma experiência epifânica no meu primeiro de três acidentes automobilísticos (porra, como é que eu ainda vivo?). Segundo ela (e eu mesmo...), é perceber que você estava saindo da clausura do apartamento para a bolha do carro, e deste para o cárcere do escritório. Livre do calor, da estafa, dos pedintes e da publicidade. Mas também privado do contato humano, das novidades do bairro, das miríades de pequenas histórias acontecendo lá fora.
Recentemente, a questão tinha ganhado ainda outra conotação: com o trânsito cada vez mais insuportável, aquela hora no carro era sua dose diária de stress e perda de tempo em uma cidade onde tempo é um luxo. No transporte coletivo, havia tempo para ler, organizar os pensamentos, observar ou fechar os olhos. Tendo descoberto um ônibus que ia da porta de casa até o trabalho, ela decidiu que, mesmo após a volta do carro, passaria a usar o transporte público mais frequentemente.
Meu pai, que recentemente passou a trabalhar em casa, teve epifania similar ao ver que gastava menos tempo e dinheiro tomando um transporte coletivo em vez de procurando onde estacionar seu avantajado veículo. Aderiu facilmente ao estilo de vida do transporte público.
Eu mesmo tenho praticado isso desde meus acidentes. No meu caso, soma-se às benesses a questão financeira, já que me sai mais em conta tomar o ônibus do que abastecer o carro (mesmo a álcool) toda semana. Li só nesse ano mais do que eu lia obrigatoriamente no colégio, tudo durante meu trajeto entre casa e trabalho.
Daí me passaram há alguns meses o site do Apocalipse Motorizado. O site conta, sem poupar exageros teatrais de estilo dignos do panfletismo ideológico, sobre a batalha travada diariamente entre ciclistas e motoristas. Os ciclistas, claro, são apresentados como coitados subversivos sem apoio do governo. Os motoristas são demonizados, recebem apoio da “mídia motorizada” que vê como causa do trânsito tudo menos os próprios automóveis e convence a classe burguesa a perpetuar a “carrocracia”. Não digo que ele esteja errado. Principalmente depois da vergonha [1][2]que foi o primeiro Naked Bike Ride na cidade (e não estou falando dos ciclistas despudorados...). Mas os exageros causam em quem lê um impulso de desdenhar o conteúdo.
Exageros e linguajar panfletário aparte, quem conseguir ler o site como se lê uma Veja ou um Estadão (com bom senso e ignorando os dogmatismos), vai encontrar um site com uma mensagem clara e muito atraente: a bicicleta é um meio de transporte formidável. Ela resolve o trânsito, não polui, não gasta dinheiro e promove a saúde.
De fato, vivi esse estilo de vida pedalante durante algum tempo em Londres, onde os carros respeitam os pedestres e ciclistas, e achei muito divertido e saudável. Consegui, aproveitando-me do caos aéreo da época, trazer comigo uma daquelas bicicletas dobráveis [1] [2]. E agora estou aqui, há alguns meses tentando criar coragem para comprar o resto do material (capacete, luzes, essas coisas) e implementar esse estilo de vida na minha rotina, apesar de saber que a segurança por aqui não é tão garantida. Não acho que me tornarei tão fervoroso quanto o autor do Apocalipse, mas não posso negar que sou seduzido pela possibilidade utópica de começar a converter cada vez mais pessoas para essa modalidade de transporte diário e ver o trânsito e o ar da cidade melhorarem gradualmente.
Sabe aquela cena do Wall•E onde o gordinho John é nocauteado fora da cadeira computadorizada pelo protagonista e, livre das telas e da programação, passa a perceber todo um mundo à sua volta que ele não sabia que existia? O acidente de trânsito teve um efeito similar em minha mãe. Mas falo sem tanta ironia, afinal, eu mesmo tive essa mesma experiência epifânica no meu primeiro de três acidentes automobilísticos (porra, como é que eu ainda vivo?). Segundo ela (e eu mesmo...), é perceber que você estava saindo da clausura do apartamento para a bolha do carro, e deste para o cárcere do escritório. Livre do calor, da estafa, dos pedintes e da publicidade. Mas também privado do contato humano, das novidades do bairro, das miríades de pequenas histórias acontecendo lá fora.
Recentemente, a questão tinha ganhado ainda outra conotação: com o trânsito cada vez mais insuportável, aquela hora no carro era sua dose diária de stress e perda de tempo em uma cidade onde tempo é um luxo. No transporte coletivo, havia tempo para ler, organizar os pensamentos, observar ou fechar os olhos. Tendo descoberto um ônibus que ia da porta de casa até o trabalho, ela decidiu que, mesmo após a volta do carro, passaria a usar o transporte público mais frequentemente.
Meu pai, que recentemente passou a trabalhar em casa, teve epifania similar ao ver que gastava menos tempo e dinheiro tomando um transporte coletivo em vez de procurando onde estacionar seu avantajado veículo. Aderiu facilmente ao estilo de vida do transporte público.
Eu mesmo tenho praticado isso desde meus acidentes. No meu caso, soma-se às benesses a questão financeira, já que me sai mais em conta tomar o ônibus do que abastecer o carro (mesmo a álcool) toda semana. Li só nesse ano mais do que eu lia obrigatoriamente no colégio, tudo durante meu trajeto entre casa e trabalho.
Daí me passaram há alguns meses o site do Apocalipse Motorizado. O site conta, sem poupar exageros teatrais de estilo dignos do panfletismo ideológico, sobre a batalha travada diariamente entre ciclistas e motoristas. Os ciclistas, claro, são apresentados como coitados subversivos sem apoio do governo. Os motoristas são demonizados, recebem apoio da “mídia motorizada” que vê como causa do trânsito tudo menos os próprios automóveis e convence a classe burguesa a perpetuar a “carrocracia”. Não digo que ele esteja errado. Principalmente depois da vergonha [1][2]que foi o primeiro Naked Bike Ride na cidade (e não estou falando dos ciclistas despudorados...). Mas os exageros causam em quem lê um impulso de desdenhar o conteúdo.
Exageros e linguajar panfletário aparte, quem conseguir ler o site como se lê uma Veja ou um Estadão (com bom senso e ignorando os dogmatismos), vai encontrar um site com uma mensagem clara e muito atraente: a bicicleta é um meio de transporte formidável. Ela resolve o trânsito, não polui, não gasta dinheiro e promove a saúde.
De fato, vivi esse estilo de vida pedalante durante algum tempo em Londres, onde os carros respeitam os pedestres e ciclistas, e achei muito divertido e saudável. Consegui, aproveitando-me do caos aéreo da época, trazer comigo uma daquelas bicicletas dobráveis [1] [2]. E agora estou aqui, há alguns meses tentando criar coragem para comprar o resto do material (capacete, luzes, essas coisas) e implementar esse estilo de vida na minha rotina, apesar de saber que a segurança por aqui não é tão garantida. Não acho que me tornarei tão fervoroso quanto o autor do Apocalipse, mas não posso negar que sou seduzido pela possibilidade utópica de começar a converter cada vez mais pessoas para essa modalidade de transporte diário e ver o trânsito e o ar da cidade melhorarem gradualmente.
sábado, agosto 16, 2008
2000e8 ao vivo
Tive uma grata surpresa esta semana quando passei na Escola São Paulo. A produtora das exposições deles, Helena, ma falou que haveria uma palestra sobre pintura com a Ana Elisa Egreja e Renata de Bonis. O nome de Ana Elisa me pareceu familiar, porque conversei com uma prima dela em uma vernissage na Luisa Strina há alguns anos. Resolvi dar uma passada por lá.
A grata surpresa foi perceber, assim que cheguei, que a palestra era a primeira de um ciclo de cinco palestras com os integrantes do grupo 2000e8 (aquele). Era a chance que eu esperava para poder entrar em contato e conversar!
A palestra foi ótima.
Ana Elisa Egreja me lembrou fisicamente a personagem de Annabella Sciorra em What Dreams May Come. Comentou sobre suas pinturas com estampas [1] e sobre seu trajeto, de uma pintura mais geométrica e abstrata, para o surgimento desses pássaros que se tornaram seus personagens e a fase atual, onde os pássaros figuram mortos e a profusão de detalhes das penas e cores passa a ser outra estampa sobre a estampa do fundo, deixando meu confusa a relação figura/fundo. Muito se falou entre os que assistiram à palestra sobre a relação dela com a morte e uma beleza vinda da figura morta. Porém ela parecia querer mais procurar um meio de transformar aquela ave viva em forma pura, sem vida, do que pesquisar uma estética mórbida.
A sorridente Renata de Bonis mostrou suas pinturas de paisagens [1] com as cores do Morandi, inspiradas em sua viagem à Europa. Reconheci na experiência dela a minha, de estar na neve pela primeira vez, de peregrinar até cidades que ninguém ouviu falar atrás de obras de arte remotas.
Ambas as linhas de pesquisa tinham um detalhe em comum na procura por uma espécie de homogeneidade. No caso de Renata, pela subtração de cores e estímulos até atingir um estado neutro, onde há muito pouco estímulo entre uma figura e outra. Assim, colocando apenas o mínimo necessário para diferencias a paisagem branca, ela chega em um homogêneo nada. No caso de Ana Elisa, pela adição de uma profusão de cores e estímulos até que nenhum centímetro da tela esteja livre de detalhe. E assim, tentando anular a diferença entre espaços preenchidos e vazios, ela também chega em um homogêneo nada (tudo).
Após a palestra, fui bater papo com o grupo. Lembrava de muitos dos rostos da faculdade de artes. Mas não tinha idéia de que faziam pintura também. Todos pareceram muito abertos à conversa, riam, contavam suas experiências. E no meio de tudo fui lembrar do post que tinha escrito por aqui. Ana Elisa chegou a lembrar do meu nome em relação ao texto, que eles tinham descoberto através do Google e lido há algum tempo. Medo de talvez ter escrito algo pejorativo... Mas ao mesmo tempo, me senti feliz de saber que minhas linhas estava indo além dos meus amigos próximos.
A próxima palestra do Grupo 2000e8 acontece no dia 12 de Setembro, às 19:30, lá na Escola São Paulo. Desta vez, com Rodolpho Parigi e Rodrigo Bivar.
quarta-feira, agosto 13, 2008
Jogos abstratos - o Jogo da Vida de Conway
Minha monografia de conclusão da faculdade de publicidade deveria ter sido sobre videogames e a tentativa de defini-los como uma forma de arte junto do cinema. Para fazer isso, precisei definir o que eu considerava arte. A definição cresceu tanto, que tornou-se o objetivo principal da monografia e os jogos passaram a ser apenas um capítulo. Mas dentro desse capítulo, eu mencionei o antigo Tetris, dizendo que se os jogos eram uma forma de arte, o Tetris seria sua variação abstrata. Isso porque o jogo não conta uma história como a maioria dos outros. Ele simplesmente dá uma tarefa, um conjunto de regras, e você que se vire pra cumprir. Não precisa disfarçar isso de uma história bonitinha com moral e tudo. A idéia não é originalmente minha: Stephen Poole já a mencionou no seu ótimo Trigger Happy. Mas gostei tanto da comparação, que passei a me interessar muito por jogos abstratos. Infelizmente, não encontrei muitos, mas nessa semana achei em um blog por aí uma imagem que prontamente reconheci. Era uma versão do Jogo da Vida do matemático britânico John Horton Conway.
O Jogo foi criado em 1970, baseado em um problema teórico de outro matemárico chamado John von Neumann, sobre uma máquina hipotética que pudesse se multiplicar. A variação de Conway considerou que tal máquina o fizesse interagindo com outras. Os cálculos e o jogo matemático que surgiram como consequência dessas hipóteses deram origem ao jogo de Conway, que serve como metáfora de interação entre entidades e inaugurou um novo campo de estudo na matemática, o de automatos celulares (lembre-se de fractais, partes que agem para formar um todo), além de considerações nas áreas de biologia, filosofia e sociologia.
Na verdade, não dá pra chamar a obra do Conway exatamente de um jogo no sentido popular da palavra, porque não há objetivo, e nem uma forma de vencer ou perder. Trata-se de um grid (teoricamente infinito) onde cada quadrado pode ser "ligado" (vivo) ou "desligado" (morto). A partir daí, quatro regras entram em ação:
1. Qualquer célula viva com menos de dois vizinhos vivos morre de solidão
2. Qualquer célula com mais de três vizinhos vivos morre por superpopulação
3. Qualquer célula com dois ou três vizinhos passa inalterada para a próxima geração
4. Qualquer célula morta com exatos três vizinhos vivos passa a viver na próxima geração.
O jogador então aciona o jogo para que ele calcule a progressão das próximas gerações.
E porque uma coisa tão simples é chamada de Jogo da Vida? Porque, à medida que jogamos o jogo, podemos notar o surgimento de entidades maiores, compostas destas entidades celulares, com comportamentos específicos e às vezes bem complexos. São conjuntos de células que navegam pelo grid mantendo seu número de células e avançando algumas casas a cada n gerações, conjuntos que ficam no lugar e resistem ao "ataque" de conjuntos próximos, conjuntos que alternam entre várias outras formas e retornam à forma original, conjuntos que anulam outros, uma infinidade de entidades.
Foi depois de ter visto esse jogo no colégio que comecei a cogitar a hipótese de que a vida como se acredita, aquela energia mágica e inexplicável, talvez fosse algo muito mais simples que ninguém queria aceitar. Uma evolução, ao longo de bilhões de anos, de processos naturais mais simples se acumulando para gerar processos mais complicados.
O Jogo foi criado em 1970, baseado em um problema teórico de outro matemárico chamado John von Neumann, sobre uma máquina hipotética que pudesse se multiplicar. A variação de Conway considerou que tal máquina o fizesse interagindo com outras. Os cálculos e o jogo matemático que surgiram como consequência dessas hipóteses deram origem ao jogo de Conway, que serve como metáfora de interação entre entidades e inaugurou um novo campo de estudo na matemática, o de automatos celulares (lembre-se de fractais, partes que agem para formar um todo), além de considerações nas áreas de biologia, filosofia e sociologia.
Na verdade, não dá pra chamar a obra do Conway exatamente de um jogo no sentido popular da palavra, porque não há objetivo, e nem uma forma de vencer ou perder. Trata-se de um grid (teoricamente infinito) onde cada quadrado pode ser "ligado" (vivo) ou "desligado" (morto). A partir daí, quatro regras entram em ação:
1. Qualquer célula viva com menos de dois vizinhos vivos morre de solidão
2. Qualquer célula com mais de três vizinhos vivos morre por superpopulação
3. Qualquer célula com dois ou três vizinhos passa inalterada para a próxima geração
4. Qualquer célula morta com exatos três vizinhos vivos passa a viver na próxima geração.
O jogador então aciona o jogo para que ele calcule a progressão das próximas gerações.
E porque uma coisa tão simples é chamada de Jogo da Vida? Porque, à medida que jogamos o jogo, podemos notar o surgimento de entidades maiores, compostas destas entidades celulares, com comportamentos específicos e às vezes bem complexos. São conjuntos de células que navegam pelo grid mantendo seu número de células e avançando algumas casas a cada n gerações, conjuntos que ficam no lugar e resistem ao "ataque" de conjuntos próximos, conjuntos que alternam entre várias outras formas e retornam à forma original, conjuntos que anulam outros, uma infinidade de entidades.
Foi depois de ter visto esse jogo no colégio que comecei a cogitar a hipótese de que a vida como se acredita, aquela energia mágica e inexplicável, talvez fosse algo muito mais simples que ninguém queria aceitar. Uma evolução, ao longo de bilhões de anos, de processos naturais mais simples se acumulando para gerar processos mais complicados.
sábado, agosto 09, 2008
Ontem acordei com a abertura das olimpíadas de Pequim passando na TV. Não importa quantas instâncias do fenômeno eu veja, é sempre impressionante se perder naquele mar infinito de chineses muito parecidos. Vendo a infinidade geometricamente perfeita de chineses se apresentando, meu pai comentou em frente à TV: "dizem que são mais de 2.000 pessoas só nessa apresentação. Mas isso pra eles não é nada". De fato. E ainda assim, em uma cultura que preza pela homogeneização de seus integrantes, sugem vez por outra alguns artistas que se destacam da massa.
Fui escarafunchar em algo que eu tinha guardado no quarto. O Caderno 2 do Estado do dia 21 de Julho tinha uma matéria de capa falando do bairro 798 em Pequim, um bairro que, segundo a manchete, "reúne o maior número de artistas, estúdios e galerias e parece praticamente imune à rígida censura do país". Entre a variedade de nomes inpronunciáveis e imemorizáveis do texto, encontrei algumas fotos de obras que eu reconheci ter visto em galerias por aí. Reconheci de cara (perdoem a tirada cretina) os retratos de Zhang Xiaogang, os rostos com uma seriedade serena em preto e branco e um único integrante da família destacado por cores. Todos com o característico uniforme do comunismo chinês. E se estas obras me pareceram muito sérias ou melancólicas, não pude evitar de abrir um sorriso diante dos quadros de Yue Minjun. Daria pra falar bastante dele. Sobre como, por definição, ele pega imagens (até mesmo outros quadros famosos) que retratam algum tipo de violência, e substitui todos os rostos pelo seu próprio viso estupidamente sorridente. Ah! Ele também "apaga" todas as armas da cena, deixando os atiradores empunhando nada em direção às vítimas. A bizarra "edição de imagem" de Minjun faz lembrar a forte censura chinesa, que substitui o que não quer mostrar por coisas "mais amenas" e patrióticas,auto-referentes (como o fato do artista pintar a ele mesmo). E no entanto, os rostos sorridentes me causam uma interessante ambiguidade, porque ao mesmo tempo me parecem muito macabros em sua repetição e ignorância da violência, mas me fazem sorrir junto com esses personagens e suas bocas descomunais.
A grande maioria das obras citadas no jornal faz alguma referência ao governo socialista, ao massacre da Praça Tiananmen em 1989, à censura. São obras com uma forte ligação com a realidade dos artistas, um forte teor político, ainda que seja difícil tirar impacto e força de fatos políticos que aconteceram há mais de vinte anos. São trabalhos pra gerar questionamento. Assim como, suponho, seja toda essa olimpíada.
O artigo me fez lembrar de uma exposição sobre arte oriental que aconteceu na faculdade de arte há alguns anos. Vendo as obras de artistas cujos nomes não anotei, tive a impressão de estar diante de um conjunto de valores estéticos bem diferentes dos ocidentais. Tanto na procura do que é belo, quanto do que é artisticamente relevante. Uma cultura que ainda era fortemente ilustrativa e realista, mas muito menos alienada ou conformada.
Fui escarafunchar em algo que eu tinha guardado no quarto. O Caderno 2 do Estado do dia 21 de Julho tinha uma matéria de capa falando do bairro 798 em Pequim, um bairro que, segundo a manchete, "reúne o maior número de artistas, estúdios e galerias e parece praticamente imune à rígida censura do país". Entre a variedade de nomes inpronunciáveis e imemorizáveis do texto, encontrei algumas fotos de obras que eu reconheci ter visto em galerias por aí. Reconheci de cara (perdoem a tirada cretina) os retratos de Zhang Xiaogang, os rostos com uma seriedade serena em preto e branco e um único integrante da família destacado por cores. Todos com o característico uniforme do comunismo chinês. E se estas obras me pareceram muito sérias ou melancólicas, não pude evitar de abrir um sorriso diante dos quadros de Yue Minjun. Daria pra falar bastante dele. Sobre como, por definição, ele pega imagens (até mesmo outros quadros famosos) que retratam algum tipo de violência, e substitui todos os rostos pelo seu próprio viso estupidamente sorridente. Ah! Ele também "apaga" todas as armas da cena, deixando os atiradores empunhando nada em direção às vítimas. A bizarra "edição de imagem" de Minjun faz lembrar a forte censura chinesa, que substitui o que não quer mostrar por coisas "mais amenas" e patrióticas,auto-referentes (como o fato do artista pintar a ele mesmo). E no entanto, os rostos sorridentes me causam uma interessante ambiguidade, porque ao mesmo tempo me parecem muito macabros em sua repetição e ignorância da violência, mas me fazem sorrir junto com esses personagens e suas bocas descomunais.
A grande maioria das obras citadas no jornal faz alguma referência ao governo socialista, ao massacre da Praça Tiananmen em 1989, à censura. São obras com uma forte ligação com a realidade dos artistas, um forte teor político, ainda que seja difícil tirar impacto e força de fatos políticos que aconteceram há mais de vinte anos. São trabalhos pra gerar questionamento. Assim como, suponho, seja toda essa olimpíada.
O artigo me fez lembrar de uma exposição sobre arte oriental que aconteceu na faculdade de arte há alguns anos. Vendo as obras de artistas cujos nomes não anotei, tive a impressão de estar diante de um conjunto de valores estéticos bem diferentes dos ocidentais. Tanto na procura do que é belo, quanto do que é artisticamente relevante. Uma cultura que ainda era fortemente ilustrativa e realista, mas muito menos alienada ou conformada.
quinta-feira, agosto 07, 2008
E por falar em grafite, um dos expositores deste ano no FILE (Festival Internacional de Linguagem Eletrônica que começou na terça, dia 5) é o coletivo novaiorquino Grafitti Research Lab (que tem sua vertente brasileira). Pelo que entendi, trata-se de um grupo realmente dedicado a transformar o modo como o grafite é percebido, usando e abusando de tecnologia de ponta. No Festival deste ano, o grupo usará tecnologia laser para projetar inofensivas (apenas no quesito mídia, não no conteúdo...) em alguns dos prédios e monumentos históricos da cidade. Mais detalhes sobre o assunto podem ser encontrados no site do Festival, que infelizmente para muitos, está em um inglês macarrônico. Mas pelo que entendi, o grupo só estará apresentando seu projeto até amanhã, dia 8, e os locais não são abertamente divulgados no site, embora a Av. Paulista tenha aparecido como forte candidata.
Mas além desse experimento com grafite que tem roubado a cena, o Festival está cheio de outras coisas interessantes. O tema desse ano, explicitado pela imagem em vermelho berrante no início do site do Festival, gira em torno da inovação do cinema 4K, uma forma de altíssima definição de vídeo digital que produz imagens com mais de 8 milhões de pixels (4 vezes a definição do Blu Ray e 24 vezes a de uma TV normal). Pelo que andam dizendo nos jornais, a técnica já chega a se equiparar a filmes produzidos em película de 35mm, com qualidade fotográfica.
Bom, eu tenho um pequeno grau de miopia e astigmatismo, e mesmo com meus óculos de lentes perenemente engorduradas, não consigo enxergar tanta definição assim. Ou seja, tanta tecnologia me parece tão relevante quanto comprar uma Ferrari em São Paulo: você gasta uma grana, não usa todo o potencial do produto por limitações técnicas, e só tem o benefício de se gabar para os amigos. Mas na verdade estou reclamando sem ter experimentado. Pelo que li nos jornais, a vantagem da tecnologia é que ela permite a definição da película de 35mm, sem o efeito de "flickering" da passagem entre frames e sem os chiados, riscos e defeitos da mídia física. E tem ainda uma outra vantagem bem palpável sobre o método anterior: a película precisa ser revelada e digitalizada para ser editada, e isso leva tempo. A tecnologia 4K permite que o cinegrafista grave a imagem e já a tenha pronta para edição em questão de minutos (desde que o computador aguente todo o processamento...).
Outros três assuntos me chamaram a atenção nessa edição do FILE, embora em menor intensidade.
O primeiro foi a presença de uma colega minha do curso de artes, Anaísa Franco. Formou-se do curso com um trabalho em arte eletrônica que misturava robótica, realidade virtual e internet, chamado Spiderrr. Não tenho certeza dos detalhes, mas lembro que a aranha em questão simbolizava agentes de busca online que vagam pela "teia" da web atrás de determinada informação. Gostaria muito de ver o quanto aquele trabalho evoluiu da forma primária que vi na faculdade. Mas ela trouxe outro trabalho para o FILE: uma peça intrigante e muito simbólica chamada Connected Memories. Tive alguma dificuldade de entender o inglês de Anaísa, mas entendi que a obra é composta de duas cabeças de acrílico cheias de equipamentos eletrônicos que conversam entre si. Sensíveis à luz, as cabeças reagem à presença de pessoas no recinto, emitindo luzes coloridas para representar emoções. Cada uma tem receptores Bluetooth, para que os visitantes transfiram para elas seus arquivos de imagem e som, que são reproduzidos por sistemas de voz sintética e TV e entram para a memória expansiva da obra, passando a fazer parte da conversa entre as duas cabeças. E, de certa forma, passando a fazer parte de uma conversa maior, entre todos os que entraram em contato com a obra. Não sei se Anaísa tem a noção completa da força da obra, que fala de globalização, da era da comunicação, mas também tem um quê de solidão, da dificuldade que as pessoas têm de transmitir os dados (conceitos, emoções, vontades) que estão dentro delas para dentro de outras pessoas. Ah, se todo mundo tivesse um receptor Bluetooth ligado no cérebro...
A segunda coisa que me chamou a atenção foi o FILE Innovation. Uma novidade na programação do Festival, o programa contempla obras que transitam entre a arte, a tecnologia, e a economia, procurando finalidades comercializáveis e práticas para as obras. Quem chegou a ler a minha monografia e a a hipótese de que toda arte não tem finalidade prática perceberá o quanto essas obras chegam perigosamente perto de anularem sua natureza de obras de arte. A discussão deve render boas reflexões sobre o assunto.
Por último, não tenho certeza desde quando, mas há algum tempo que o FILE vem divulgando jogos em suas edições. O site deste ano diz que o evento conta com 50 jogos eletrônicos experimentais e artísticos. E o que seriam jogos experimentais e artísticos? Isso é assunto para um próximo post...
Mas além desse experimento com grafite que tem roubado a cena, o Festival está cheio de outras coisas interessantes. O tema desse ano, explicitado pela imagem em vermelho berrante no início do site do Festival, gira em torno da inovação do cinema 4K, uma forma de altíssima definição de vídeo digital que produz imagens com mais de 8 milhões de pixels (4 vezes a definição do Blu Ray e 24 vezes a de uma TV normal). Pelo que andam dizendo nos jornais, a técnica já chega a se equiparar a filmes produzidos em película de 35mm, com qualidade fotográfica.
Bom, eu tenho um pequeno grau de miopia e astigmatismo, e mesmo com meus óculos de lentes perenemente engorduradas, não consigo enxergar tanta definição assim. Ou seja, tanta tecnologia me parece tão relevante quanto comprar uma Ferrari em São Paulo: você gasta uma grana, não usa todo o potencial do produto por limitações técnicas, e só tem o benefício de se gabar para os amigos. Mas na verdade estou reclamando sem ter experimentado. Pelo que li nos jornais, a vantagem da tecnologia é que ela permite a definição da película de 35mm, sem o efeito de "flickering" da passagem entre frames e sem os chiados, riscos e defeitos da mídia física. E tem ainda uma outra vantagem bem palpável sobre o método anterior: a película precisa ser revelada e digitalizada para ser editada, e isso leva tempo. A tecnologia 4K permite que o cinegrafista grave a imagem e já a tenha pronta para edição em questão de minutos (desde que o computador aguente todo o processamento...).
Outros três assuntos me chamaram a atenção nessa edição do FILE, embora em menor intensidade.
O primeiro foi a presença de uma colega minha do curso de artes, Anaísa Franco. Formou-se do curso com um trabalho em arte eletrônica que misturava robótica, realidade virtual e internet, chamado Spiderrr. Não tenho certeza dos detalhes, mas lembro que a aranha em questão simbolizava agentes de busca online que vagam pela "teia" da web atrás de determinada informação. Gostaria muito de ver o quanto aquele trabalho evoluiu da forma primária que vi na faculdade. Mas ela trouxe outro trabalho para o FILE: uma peça intrigante e muito simbólica chamada Connected Memories. Tive alguma dificuldade de entender o inglês de Anaísa, mas entendi que a obra é composta de duas cabeças de acrílico cheias de equipamentos eletrônicos que conversam entre si. Sensíveis à luz, as cabeças reagem à presença de pessoas no recinto, emitindo luzes coloridas para representar emoções. Cada uma tem receptores Bluetooth, para que os visitantes transfiram para elas seus arquivos de imagem e som, que são reproduzidos por sistemas de voz sintética e TV e entram para a memória expansiva da obra, passando a fazer parte da conversa entre as duas cabeças. E, de certa forma, passando a fazer parte de uma conversa maior, entre todos os que entraram em contato com a obra. Não sei se Anaísa tem a noção completa da força da obra, que fala de globalização, da era da comunicação, mas também tem um quê de solidão, da dificuldade que as pessoas têm de transmitir os dados (conceitos, emoções, vontades) que estão dentro delas para dentro de outras pessoas. Ah, se todo mundo tivesse um receptor Bluetooth ligado no cérebro...
A segunda coisa que me chamou a atenção foi o FILE Innovation. Uma novidade na programação do Festival, o programa contempla obras que transitam entre a arte, a tecnologia, e a economia, procurando finalidades comercializáveis e práticas para as obras. Quem chegou a ler a minha monografia e a a hipótese de que toda arte não tem finalidade prática perceberá o quanto essas obras chegam perigosamente perto de anularem sua natureza de obras de arte. A discussão deve render boas reflexões sobre o assunto.
Por último, não tenho certeza desde quando, mas há algum tempo que o FILE vem divulgando jogos em suas edições. O site deste ano diz que o evento conta com 50 jogos eletrônicos experimentais e artísticos. E o que seriam jogos experimentais e artísticos? Isso é assunto para um próximo post...
quarta-feira, agosto 06, 2008
A música voltou
Hoje de manhã, meu irmão chegou da Europa. Veio corado de alguns dias nas praias de Portugal.
E novamente, a casa encheu-se de música. De sua bossa na voz do xará João Gilberto e dos ideais que não são exatamente socialistas, mas também não são de direita (seu modo de vida que a cada dia me parece mais correto e sensato).
Me lembrou muito do modo como eu voltei da minha viagem. Cheio de idéias, com aquele brilho nos olhos de quem tinha visto uma verdade maravilhosa além do horizonte e não sabia expressá-la em palavras. Mas veio também com a mesma impressão que eu tive, de que essa viagem foi, nas palavras dele, um pisar cauteloso em um novo terreno para ver se o piso aguenta. Quem sabe, na segunda visita ao velho continente, tenhamos meios e hardware para realmente fixar raízes por lá por algum tempo. Eu, quando voltei, tinha uma ponta de sentimento de fracasso por não ter conseguido ficar por lá já na primeira tentativa. Mas hoje entendo o quão despreparado eu estava e o que é preciso.
Mas enfim, meu irmão voltou. E de novo aquele gosto de conversar com ele de um jeito e com uma intimidade que só se tem com irmão. E que cresceu durante a minha viagem e a dele, por parágrafos de e-mail e saudade.
Devo admitir: estava acostumado com a vida como filho único. Ter a casa só para mim nos fins de semana, essas coisas. Detalhes egoístas. Mas é bom tê-lo de volta. Porque depois de muito tempo eu posso admitir (pra mim mesmo) que eu aprendo muito com ele o tempo todo. Sobre uma maneira artistica, ecológica, sociológica e ideologicamente correta de se viver.
E novamente, a casa encheu-se de música. De sua bossa na voz do xará João Gilberto e dos ideais que não são exatamente socialistas, mas também não são de direita (seu modo de vida que a cada dia me parece mais correto e sensato).
Me lembrou muito do modo como eu voltei da minha viagem. Cheio de idéias, com aquele brilho nos olhos de quem tinha visto uma verdade maravilhosa além do horizonte e não sabia expressá-la em palavras. Mas veio também com a mesma impressão que eu tive, de que essa viagem foi, nas palavras dele, um pisar cauteloso em um novo terreno para ver se o piso aguenta. Quem sabe, na segunda visita ao velho continente, tenhamos meios e hardware para realmente fixar raízes por lá por algum tempo. Eu, quando voltei, tinha uma ponta de sentimento de fracasso por não ter conseguido ficar por lá já na primeira tentativa. Mas hoje entendo o quão despreparado eu estava e o que é preciso.
Mas enfim, meu irmão voltou. E de novo aquele gosto de conversar com ele de um jeito e com uma intimidade que só se tem com irmão. E que cresceu durante a minha viagem e a dele, por parágrafos de e-mail e saudade.
Devo admitir: estava acostumado com a vida como filho único. Ter a casa só para mim nos fins de semana, essas coisas. Detalhes egoístas. Mas é bom tê-lo de volta. Porque depois de muito tempo eu posso admitir (pra mim mesmo) que eu aprendo muito com ele o tempo todo. Sobre uma maneira artistica, ecológica, sociológica e ideologicamente correta de se viver.
segunda-feira, agosto 04, 2008
The Dark Knight
Tinha escrito isso logo após conseguir ver a sessão de estréia do filme. Mas como a internet não funcionava em casa, fiquei de postar depois. Esqueci.
==============================================
[Spoilers adiante! Quem ainda não viu o filme, esteja avisado.]
A carta do coringa é chamada em muitos jogos de wildcard, uma expressão que denota que, em um ambiente onde tudo é relativamente organizado e tem seu valor definido, ela traz um pouco de imprevisibilidade. Ela pode assumir qualquer valor, pode ser qualquer coisa. Ela não está acima e nem abaixo de nenhuma outra na ordem das cartas.
No novo filme do Batman, o Coringa do infelizmente falecido Heath Ledger cumpre excepcionalmente bem o papel. Ele não tem passado, não tem motivo, não tem modus operandi. Ele inventa histórias aleatórias sobre as cicatrizes no rosto, jamais diz seu nome verdadeiro ou mesmo seu nome de guerra (chamam-no assim por causa das cartas que deixa).
Ele personifica um medo (devo dizer até um medo pessoal) do caos. O diretor Christopher Nolan não tinha, segundo os jornais, a intenção de fazer uma parábola sobre a política, mas o resultado cai bem no assunto. Suponho que se posa dizer não só da política americana, mas a de vários países. Em uma época onde os Estados paralelos de traficantes levam a própria polícia à corrupção e empresários como o Dantas espelham boa parte dos empresários do país, precisando burlar as leis incongruentes e ter contatos políticos para não falir, o filme poderia muito bem ter sido roteirizado por um brasileiro. Mas como eu entendo pouco de política, vou sair deste terreno pantanoso...
Voltando ao Coringa de Ledger, ele bate o antigo e cartunesco personagem do Jack Nicholson de mil a zero. Mas não é surpresa, sendo que o único filme da série antiga do Batman que realmente valeu algo era o segundo, dirigido por Tim Burton. Esta nova série está indiscutivelmente mais pesada, densa e menos maniqueísta, com um herói claramente não muito heróico e de métodos discutíveis. Pode-se dizer, em tempos em que o sargento Nascimento do Wagner Moura é saudado como exemplo de patriotismo, que a série ficou mais realista. Tá bom, é cômico dizer isso de uma história de super-herói, mas é a sensação que passa. Nem todo mundo é só bom ou só mau, nem todos os atos de truculência são condenáveis, nem todos os seus objetivos ruins. A lei só atrapalha as coisas e deve ser quebrada (típicamente americano o pensamento...) e dá pra sentir a corrupção em tudo. Kinda like real life.
Mas tenho que admitir que não é justo dizer que "o Coringa de Ledger" é ótimo, porque o real valor desta personagem não está apenas na fantástica atuação (metade do cinema perguntava "porra, por que é que ele teve que morrer?"). E dizem que Ledger se trancou num quarto de hotel por semanas para criar o personagem. Boa parte dos louros vão para o roteiro, para os planos mirabolantes e bem executados do palhaço. É como o símbolo de Ying e Yang: se os mocinhos precisam usar de métodos corruptos para vencer, a personificação do caos precisa de planos bem arquitetados e executados de forma ordenada para fazer o que faz. E que planos! O Coringa anterior matava pessoas ele mesmo. Este, muito mais sádico, joga a responsabilidade pela destruição nas mãos da população e vê todo mundo entrando em pânico, matando uns aos outros pra não morrer. Ele espalha corrupção e desordem, a morte é só uma consequência. E ela normalmente vem em tiradas brilhantes de sadismo que fizeram meu lado escorpiano mais grotesco gargalhar como demente enquanto as coisas explodiam.
Mas o principal a se falar dele é que o Coringa atual é punk. O anterior usava ternos perfeitos e limpos (de cores berrantes, mas limpos...). Este usa as coisas sujas da rua, da estética de decomposição, do subvertido. O cabelo tingido é ensebado e despenteado, a maquiagem é feita às pressas e sem precisão alguma. E seu único objetivo parece ser mostrar às pessoas que a ordem é muito frágil. Por que? Porque ele pode. Simples assim, como o ideal do punk.
Há alguns meses eu li uma reportagem em uma revista Wired sobre grievers, aqueles jogadores de jogos online que entram lá só pra destruir a lógica do jogo e infernizar a vida dos jogadores "sérios". Só pra mostrar que aquilo tudo é uma ilusão e não devia ser levada a sério ("why so serious?"). Esse Coringa, em última análise, é como um griever: com uma simplicidade e clareza insanas, ele só está lá pra ver o circo pegar fogo. Porque ele pode.
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[Spoilers adiante! Quem ainda não viu o filme, esteja avisado.]
A carta do coringa é chamada em muitos jogos de wildcard, uma expressão que denota que, em um ambiente onde tudo é relativamente organizado e tem seu valor definido, ela traz um pouco de imprevisibilidade. Ela pode assumir qualquer valor, pode ser qualquer coisa. Ela não está acima e nem abaixo de nenhuma outra na ordem das cartas.
No novo filme do Batman, o Coringa do infelizmente falecido Heath Ledger cumpre excepcionalmente bem o papel. Ele não tem passado, não tem motivo, não tem modus operandi. Ele inventa histórias aleatórias sobre as cicatrizes no rosto, jamais diz seu nome verdadeiro ou mesmo seu nome de guerra (chamam-no assim por causa das cartas que deixa).
Ele personifica um medo (devo dizer até um medo pessoal) do caos. O diretor Christopher Nolan não tinha, segundo os jornais, a intenção de fazer uma parábola sobre a política, mas o resultado cai bem no assunto. Suponho que se posa dizer não só da política americana, mas a de vários países. Em uma época onde os Estados paralelos de traficantes levam a própria polícia à corrupção e empresários como o Dantas espelham boa parte dos empresários do país, precisando burlar as leis incongruentes e ter contatos políticos para não falir, o filme poderia muito bem ter sido roteirizado por um brasileiro. Mas como eu entendo pouco de política, vou sair deste terreno pantanoso...
Voltando ao Coringa de Ledger, ele bate o antigo e cartunesco personagem do Jack Nicholson de mil a zero. Mas não é surpresa, sendo que o único filme da série antiga do Batman que realmente valeu algo era o segundo, dirigido por Tim Burton. Esta nova série está indiscutivelmente mais pesada, densa e menos maniqueísta, com um herói claramente não muito heróico e de métodos discutíveis. Pode-se dizer, em tempos em que o sargento Nascimento do Wagner Moura é saudado como exemplo de patriotismo, que a série ficou mais realista. Tá bom, é cômico dizer isso de uma história de super-herói, mas é a sensação que passa. Nem todo mundo é só bom ou só mau, nem todos os atos de truculência são condenáveis, nem todos os seus objetivos ruins. A lei só atrapalha as coisas e deve ser quebrada (típicamente americano o pensamento...) e dá pra sentir a corrupção em tudo. Kinda like real life.
Mas tenho que admitir que não é justo dizer que "o Coringa de Ledger" é ótimo, porque o real valor desta personagem não está apenas na fantástica atuação (metade do cinema perguntava "porra, por que é que ele teve que morrer?"). E dizem que Ledger se trancou num quarto de hotel por semanas para criar o personagem. Boa parte dos louros vão para o roteiro, para os planos mirabolantes e bem executados do palhaço. É como o símbolo de Ying e Yang: se os mocinhos precisam usar de métodos corruptos para vencer, a personificação do caos precisa de planos bem arquitetados e executados de forma ordenada para fazer o que faz. E que planos! O Coringa anterior matava pessoas ele mesmo. Este, muito mais sádico, joga a responsabilidade pela destruição nas mãos da população e vê todo mundo entrando em pânico, matando uns aos outros pra não morrer. Ele espalha corrupção e desordem, a morte é só uma consequência. E ela normalmente vem em tiradas brilhantes de sadismo que fizeram meu lado escorpiano mais grotesco gargalhar como demente enquanto as coisas explodiam.
Mas o principal a se falar dele é que o Coringa atual é punk. O anterior usava ternos perfeitos e limpos (de cores berrantes, mas limpos...). Este usa as coisas sujas da rua, da estética de decomposição, do subvertido. O cabelo tingido é ensebado e despenteado, a maquiagem é feita às pressas e sem precisão alguma. E seu único objetivo parece ser mostrar às pessoas que a ordem é muito frágil. Por que? Porque ele pode. Simples assim, como o ideal do punk.
Há alguns meses eu li uma reportagem em uma revista Wired sobre grievers, aqueles jogadores de jogos online que entram lá só pra destruir a lógica do jogo e infernizar a vida dos jogadores "sérios". Só pra mostrar que aquilo tudo é uma ilusão e não devia ser levada a sério ("why so serious?"). Esse Coringa, em última análise, é como um griever: com uma simplicidade e clareza insanas, ele só está lá pra ver o circo pegar fogo. Porque ele pode.
quarta-feira, julho 30, 2008
Grafite
Grande é o homem que consegue reconhecer que estava errado.
A Revista da Folha da semana passada trouxe na capa uma reportagem sobre grafiteiros e como eles estão sendo reconhecidos como artistas. De fato, até o dia 25 de Agosto, a fachada do TATE Modern em Londres permanecerá decorada com obras de diversos grafiteiros de vários países, incluíndo duas de brasileiros (uma da famosa dupla osgemeos e outra de alguém que se apelida Nunca).
O fato que deu base para a matéria da revista foi o pedido de desculpas do atual prefeito Gilberto Kassab, que chamou a dupla osgemeos para uma conversa depois que seu programa Cidade Limpa passou tinta cinza por cima de um grafite histórico de 680 metros na Avenida 23 de Maio. A obra continha contribuições de grafiteiros reconhecidos tanto no mainstream quanto no underground como Nina Pandolfo, osgemeos, Vitché e Herbert Baglion. A dupla de grafiteiros chamada para a conversa parece fazer a ponte entre uma técnica relegada às ruas, considerada coisa de marginal, e a sociedade de status das galerias de arte e instituições governamentais. Deixaram de ser moleques, ganham a vida com isso de forma madura e foram provavelmente a escolha mais sensata para conversar com o prefeito.
Já a atitude da prefeitura foi o mais estereotipado possível: passar o cinza, a cor da poluição e da apatia, por cima de uma obra cheia de cor e expressividade. Entusiastas da semiótica teriam orgasmos em cima disso...
Mas escrevi a primeira frase deste post não para falar do Kassab, mas de fato para falar de mim mesmo.
Minha turma da faculdade de arte era composta de pouco mais de 40 pessoas, e uma minoria de homens. Dessa minoria, exceto por mim e outro rapaz, os outros eram todos grafiteiros ou simpatizantes do assunto. Eu os enxergava com o desdém de quem nasceu em família de classe alta, o preconceito academicista de quem praticava pintura de cavalete. O preconceito estereotipado de achar que eles eram arruaceiros de pouca inteligência. E a raiva de perceber que o grafiteiro-mor da classe, Giuliano Montijo,era premiado com bolsas de estudo em todas as exposições anuais da faculdade.
Pausa para traçar um paralelo com a história.
O rock, especialmente nas vertentes do fim do século XX, também era considerado coisa de arruaceiros acéfalos. Principalmente por ignorar as convenções do que era considerada boa música na época e permitir a exisência de movimentos como o punk já mencionado por aqui, onde não era preciso saber tocar para ter uma banda. Mas por ser extremamente popular, o estilo continuou existindo e evoluíndo até chegar na forma respeitada de hoje. Em parte porque seus expoentes desenvolveram, ao longo do tempo e da prática, suas próprias convenções do que é considerada boa música. E em parte porque existem a tanto tempo que não é possível ignorá-los como parte da história da música. Bom ou ruim, é o que a maioria das pessoas estava escutando durante metade do século passado e isso por si só já representa uma era.
O grafite já passa pelo mesmo processo. A estética já é tão desenvolvida que as pessoas no meio publicitário procuram um visual relacionado ao movimento para falar de coisas populares. Fala-se de uma "cara de grafite". E lembro de conversas entre os grafiteiros do curso de artes, que conseguiam reconhecer o estilo deste ou daquele colega por minúcias estilísticas.
Não é possível negar que o mesmo paralelo acontece no quesito histórico. Alguns painéis existem desde tempo imemoriais, como o que foi apagado na 23 de Maio. Provavelmente figuram em fotos históricas da cidade. E por serem fruto de pessoas que têm esse contato direto com a rua e a realidade da cidade, provavelmente dizem muito mais sobre o contexto histórico e com muito mais propriedade e sentimento do que qualquer pintura de cavalete produzida por um filho de classe alta, preconceituoso e isolado como eu.
Aos meus colegas de classe e aos grafiteiros em geral, minhas desculpas.
A Revista da Folha da semana passada trouxe na capa uma reportagem sobre grafiteiros e como eles estão sendo reconhecidos como artistas. De fato, até o dia 25 de Agosto, a fachada do TATE Modern em Londres permanecerá decorada com obras de diversos grafiteiros de vários países, incluíndo duas de brasileiros (uma da famosa dupla osgemeos e outra de alguém que se apelida Nunca).
O fato que deu base para a matéria da revista foi o pedido de desculpas do atual prefeito Gilberto Kassab, que chamou a dupla osgemeos para uma conversa depois que seu programa Cidade Limpa passou tinta cinza por cima de um grafite histórico de 680 metros na Avenida 23 de Maio. A obra continha contribuições de grafiteiros reconhecidos tanto no mainstream quanto no underground como Nina Pandolfo, osgemeos, Vitché e Herbert Baglion. A dupla de grafiteiros chamada para a conversa parece fazer a ponte entre uma técnica relegada às ruas, considerada coisa de marginal, e a sociedade de status das galerias de arte e instituições governamentais. Deixaram de ser moleques, ganham a vida com isso de forma madura e foram provavelmente a escolha mais sensata para conversar com o prefeito.
Já a atitude da prefeitura foi o mais estereotipado possível: passar o cinza, a cor da poluição e da apatia, por cima de uma obra cheia de cor e expressividade. Entusiastas da semiótica teriam orgasmos em cima disso...
Mas escrevi a primeira frase deste post não para falar do Kassab, mas de fato para falar de mim mesmo.
Minha turma da faculdade de arte era composta de pouco mais de 40 pessoas, e uma minoria de homens. Dessa minoria, exceto por mim e outro rapaz, os outros eram todos grafiteiros ou simpatizantes do assunto. Eu os enxergava com o desdém de quem nasceu em família de classe alta, o preconceito academicista de quem praticava pintura de cavalete. O preconceito estereotipado de achar que eles eram arruaceiros de pouca inteligência. E a raiva de perceber que o grafiteiro-mor da classe, Giuliano Montijo,era premiado com bolsas de estudo em todas as exposições anuais da faculdade.
Pausa para traçar um paralelo com a história.
O rock, especialmente nas vertentes do fim do século XX, também era considerado coisa de arruaceiros acéfalos. Principalmente por ignorar as convenções do que era considerada boa música na época e permitir a exisência de movimentos como o punk já mencionado por aqui, onde não era preciso saber tocar para ter uma banda. Mas por ser extremamente popular, o estilo continuou existindo e evoluíndo até chegar na forma respeitada de hoje. Em parte porque seus expoentes desenvolveram, ao longo do tempo e da prática, suas próprias convenções do que é considerada boa música. E em parte porque existem a tanto tempo que não é possível ignorá-los como parte da história da música. Bom ou ruim, é o que a maioria das pessoas estava escutando durante metade do século passado e isso por si só já representa uma era.
O grafite já passa pelo mesmo processo. A estética já é tão desenvolvida que as pessoas no meio publicitário procuram um visual relacionado ao movimento para falar de coisas populares. Fala-se de uma "cara de grafite". E lembro de conversas entre os grafiteiros do curso de artes, que conseguiam reconhecer o estilo deste ou daquele colega por minúcias estilísticas.
Não é possível negar que o mesmo paralelo acontece no quesito histórico. Alguns painéis existem desde tempo imemoriais, como o que foi apagado na 23 de Maio. Provavelmente figuram em fotos históricas da cidade. E por serem fruto de pessoas que têm esse contato direto com a rua e a realidade da cidade, provavelmente dizem muito mais sobre o contexto histórico e com muito mais propriedade e sentimento do que qualquer pintura de cavalete produzida por um filho de classe alta, preconceituoso e isolado como eu.
Aos meus colegas de classe e aos grafiteiros em geral, minhas desculpas.
terça-feira, julho 29, 2008
Anima Mundi 2008 - aftermath
"Salvo exceções, todos os meus amigos são uns avós. Minha chefe foi comigo no Anima, mas vocês não!" - Lexy, no Twitter.
Deixo claro que gostei muito do Anima Mundi desse ano. Muito da minha satisfação estava no nível de organização que minha Lexy me ajudou a conseguir, tendo todas as sessões que eu sugeri organizadas, os ingressos comprados de antemão, os horários estrategicamente pensados. Provamos que, com boa organização, até um evento lotado fica muito agradável. Assistimos a todas as sessões do sábado e algumas dos outros dias. Até nossa chefe compareceu com a filha e mais alguns outros da agência.
No entanto, preciso também apontar que o evento desse ano já mostrou sinais de que está se desgastando. Sinais claros como a falta de uma sinalização mais adequada e principalmente de um staff mais treinado. Acho que vi crianças em todas as sessões proibidas para menores de 16, incluíndo o violento e pronográfico (mas muito bom) Princess. E como que a sessão da Blizzard pode estar na categoria "Papo Animado" se não havia ninguém da empresa lá para falar (a sessão mostrou apenas várias animações de jogos conhecidos)?
Tirando esses deslizes, o resto do evento estava de fato muito bom. A programação nos deu algumas boas surpresas. Acho que Lexy até agora não tem opinião sobre o Princess. Eu gostei, embora concorde que às vezes ficou meio gratuito demais.
A Curtas 17 tinha coisas ótimas. O belíssimo Come again in Spring sobre um velho que engana a morte. Me impressionei, porque nunca gostei de nada do National Film Board of Canada. Mas este era diferente. Ri muito com o Harmonix "Rockband" (assista no link!). A abertura é exatamente a sensação de poder que eu queria ter com a voz e nunca tive. A sessão terminou com uma aula de geografia s história muito doida em Fra Alaska til Kenya.
Em seguida pegamos a Curtas 14, que tinha diversas coisas muito boas, mas nada tão bom quanto o Oktapodi, que ganhou o prêmio de melhor filme de estudante.
A Curtas 12, do filme da Disney, decepcionou um pouco. Não era tão hilário quanto os desenhos antigos que eu assisti. Lembro de rir até ficar sem fôlego nos desenhos dele. Esse foi mais aquela risada "hehe" do que uma gargalhada.
A Curtas 07 tinha o Hot Dog do Bill Plympton (que você assiste aqui). Não tenho o que dizer: é Plympton. Sou meio suspeito pra falar porque sempre gosto das coisas dele.
Saímos no meio da sessão para conseguir pegar o workshop do grupo Tochka. Eu estava acompanhando o grupo há algum tempo, porque eles chegaram na mesma idéia que eu em relação às possibilidades da fotografia, mas levaram ao próximo passo, fazendo animações com a técnica! Fiquei muito surpreso quando soube que eles estariam no Anima Mundi e não podia deixar passar a chance de participar. Vou tentar encontrar a animação que fizemos e colocar o link por aqui.
Por causa do workshop, perdemos o segundo longa da mostra, o brasileiro Belowars. Conhecidos nossos que assistiram não pareceram muito entusiastas a respeito. É bom perceber que fizemos a escolha certa. De fato, a obra ficou em último na competição do festival.
Logo em seguida, pegamos talvez a melhor sessão de todas. A Curtas 01 tinha surpresas fantásticas: o hilário Office Noise, que tenho certeza que teve muitos simpatizantes;
o belíssimo Le Jour de Glorie, onde os mortos da guerra de trincheiras, de tão cobertos de lama, caem no chão e se fundem à terra; Franz Kafka Inaka Isha, baseado na obra do Kafka e com uma estética que faz juz ao escritor (achei que só eu ia gostar, mas todo mundo adorou); e o gostoso Glago's Guest, também da Disney.
Terminamos o sábado com o longa do Bill Plympton, Idiots and Angels. Como eu disse, é Plympton e eu gosto de tudo que ele faz. Mas confesso que esse podia ter uma meia hora a menos se o roteiro fosse bem decupado.
Pra terminar esse post que já tá lotado de link, você pode conferir os ganhadores do festival no blog oficial do evento. E se você quer ver mais curtas interessantes, a Bruna Calheiros (popular Baunilha) postou vários no blog dela.
Ufa! Já calei!
Deixo claro que gostei muito do Anima Mundi desse ano. Muito da minha satisfação estava no nível de organização que minha Lexy me ajudou a conseguir, tendo todas as sessões que eu sugeri organizadas, os ingressos comprados de antemão, os horários estrategicamente pensados. Provamos que, com boa organização, até um evento lotado fica muito agradável. Assistimos a todas as sessões do sábado e algumas dos outros dias. Até nossa chefe compareceu com a filha e mais alguns outros da agência.
No entanto, preciso também apontar que o evento desse ano já mostrou sinais de que está se desgastando. Sinais claros como a falta de uma sinalização mais adequada e principalmente de um staff mais treinado. Acho que vi crianças em todas as sessões proibidas para menores de 16, incluíndo o violento e pronográfico (mas muito bom) Princess. E como que a sessão da Blizzard pode estar na categoria "Papo Animado" se não havia ninguém da empresa lá para falar (a sessão mostrou apenas várias animações de jogos conhecidos)?
Tirando esses deslizes, o resto do evento estava de fato muito bom. A programação nos deu algumas boas surpresas. Acho que Lexy até agora não tem opinião sobre o Princess. Eu gostei, embora concorde que às vezes ficou meio gratuito demais.
A Curtas 17 tinha coisas ótimas. O belíssimo Come again in Spring sobre um velho que engana a morte. Me impressionei, porque nunca gostei de nada do National Film Board of Canada. Mas este era diferente. Ri muito com o Harmonix "Rockband" (assista no link!). A abertura é exatamente a sensação de poder que eu queria ter com a voz e nunca tive. A sessão terminou com uma aula de geografia s história muito doida em Fra Alaska til Kenya.
Em seguida pegamos a Curtas 14, que tinha diversas coisas muito boas, mas nada tão bom quanto o Oktapodi, que ganhou o prêmio de melhor filme de estudante.
A Curtas 12, do filme da Disney, decepcionou um pouco. Não era tão hilário quanto os desenhos antigos que eu assisti. Lembro de rir até ficar sem fôlego nos desenhos dele. Esse foi mais aquela risada "hehe" do que uma gargalhada.
A Curtas 07 tinha o Hot Dog do Bill Plympton (que você assiste aqui). Não tenho o que dizer: é Plympton. Sou meio suspeito pra falar porque sempre gosto das coisas dele.
Saímos no meio da sessão para conseguir pegar o workshop do grupo Tochka. Eu estava acompanhando o grupo há algum tempo, porque eles chegaram na mesma idéia que eu em relação às possibilidades da fotografia, mas levaram ao próximo passo, fazendo animações com a técnica! Fiquei muito surpreso quando soube que eles estariam no Anima Mundi e não podia deixar passar a chance de participar. Vou tentar encontrar a animação que fizemos e colocar o link por aqui.
Por causa do workshop, perdemos o segundo longa da mostra, o brasileiro Belowars. Conhecidos nossos que assistiram não pareceram muito entusiastas a respeito. É bom perceber que fizemos a escolha certa. De fato, a obra ficou em último na competição do festival.
Logo em seguida, pegamos talvez a melhor sessão de todas. A Curtas 01 tinha surpresas fantásticas: o hilário Office Noise, que tenho certeza que teve muitos simpatizantes;
o belíssimo Le Jour de Glorie, onde os mortos da guerra de trincheiras, de tão cobertos de lama, caem no chão e se fundem à terra; Franz Kafka Inaka Isha, baseado na obra do Kafka e com uma estética que faz juz ao escritor (achei que só eu ia gostar, mas todo mundo adorou); e o gostoso Glago's Guest, também da Disney.
Terminamos o sábado com o longa do Bill Plympton, Idiots and Angels. Como eu disse, é Plympton e eu gosto de tudo que ele faz. Mas confesso que esse podia ter uma meia hora a menos se o roteiro fosse bem decupado.
Pra terminar esse post que já tá lotado de link, você pode conferir os ganhadores do festival no blog oficial do evento. E se você quer ver mais curtas interessantes, a Bruna Calheiros (popular Baunilha) postou vários no blog dela.
Ufa! Já calei!
domingo, julho 27, 2008
Fazia muito tempo que eu não respondia uma dessas.
Four jobs I’ve had
1. Assistente de arte mal-pago
2. Garçom de pub
3. Mesa de informações em feira de surfwear
4. Assistente de arte um pouco menos mal-pago
Four movies I can watch over and over
1. Matrix
2. Princess Mononoke
3. The Dark Knight
4. Empate entre Entrevista com o Vampiro e Drácula do Coppola
Four places I’ve lived
1. Bogotá, Colômbia
2. São Paulo, Brasil
3. Perugia, Itália
4. Acton Town, Londres, Inglaterra
Four TV shows I love
1. Lost
2. Evangelion / Gasaraki
3. Cowboy Bebop
4. Friends
Four places I’ve vacationed
1. Maceió, Alagoas, Brasil
2. Bonito, no Pantanal
3. Bariloche / Buenos Aires (com o colégio – BLARGH!)
4. Disney (mas era inverno e não fui no Typhoon Lagoon!)
Four of my favorite dishes
1. SUSHI! Sushisushisushisushisushisushisushi!!
2. Qualquer coisa com gorgonzola, a descoberta culinária do milênio.
3. Empate técnico entre pudim de leite, pavê e marzipan
4. Sushisushisushisushisushisushisushi!!
Four sites I visit daily
1. Yahoo! Mail
2. Brainstorm #9
3. Who killed Bambi
4. Sinfest
Four places I would rather be right now
1. Em um barco no meio do mar aberto no Caribe, com tanques de mergulho
2. Em um riacho no meio da mata, fazendo trilha.
3. Em um BF Night , varando a noite jogando Battlefield na extinta VegaMax.
4. Na TATE Modern, em Londres, na frente do Eine Kleine Nachtmusik da Dorothea Tanning. Na verdade, o museu e o quadro são opcionais, o que importa é Londres.
Four bloggers I am tagging
Se eu for enumerar os blogueiros que sobraram depois do suicídio bloguístico coletivo dos últimos anos, eu dificilmente vou chegar a quatro pessoas... People grow up. Mas aparentemente, eu não.
Four jobs I’ve had
1. Assistente de arte mal-pago
2. Garçom de pub
3. Mesa de informações em feira de surfwear
4. Assistente de arte um pouco menos mal-pago
Four movies I can watch over and over
1. Matrix
2. Princess Mononoke
3. The Dark Knight
4. Empate entre Entrevista com o Vampiro e Drácula do Coppola
Four places I’ve lived
1. Bogotá, Colômbia
2. São Paulo, Brasil
3. Perugia, Itália
4. Acton Town, Londres, Inglaterra
Four TV shows I love
1. Lost
2. Evangelion / Gasaraki
3. Cowboy Bebop
4. Friends
Four places I’ve vacationed
1. Maceió, Alagoas, Brasil
2. Bonito, no Pantanal
3. Bariloche / Buenos Aires (com o colégio – BLARGH!)
4. Disney (mas era inverno e não fui no Typhoon Lagoon!)
Four of my favorite dishes
1. SUSHI! Sushisushisushisushisushisushisushi!!
2. Qualquer coisa com gorgonzola, a descoberta culinária do milênio.
3. Empate técnico entre pudim de leite, pavê e marzipan
4. Sushisushisushisushisushisushisushi!!
Four sites I visit daily
1. Yahoo! Mail
2. Brainstorm #9
3. Who killed Bambi
4. Sinfest
Four places I would rather be right now
1. Em um barco no meio do mar aberto no Caribe, com tanques de mergulho
2. Em um riacho no meio da mata, fazendo trilha.
3. Em um BF Night , varando a noite jogando Battlefield na extinta VegaMax.
4. Na TATE Modern, em Londres, na frente do Eine Kleine Nachtmusik da Dorothea Tanning. Na verdade, o museu e o quadro são opcionais, o que importa é Londres.
Four bloggers I am tagging
Se eu for enumerar os blogueiros que sobraram depois do suicídio bloguístico coletivo dos últimos anos, eu dificilmente vou chegar a quatro pessoas... People grow up. Mas aparentemente, eu não.
quarta-feira, julho 23, 2008
Anima Mundi 2008 - Info
Começa hoje a edição de 2008 do Anima Mundi! E depois do sucesso que foi a nossa visita anterior altamente planejada com requintes de Guerrilha Cultural, Lexy e eu resolvemos planejar esta ainda melhor. Monitorei os jornais para saber das animações mais cotadas e vasculhamos a programação da mostra no site oficial atrás de nomes conhecidos e coisinhas interessantes. Tudo compilado e organizado em uma tabela que vocês encontram aqui.
[DISCLAIMER]
Levem em conta apenas algumas coisas.
Em primeiro lugar, nós desencanamos das sessões no CCBB, colocando na nossa programação apenas as sessões que acontecem nas três salas do Memorial da América Latina. Isso porque ir de um lugar para o outro a tempo de pegar as sessões nos pareceu meio inviável (principalmente considerando que os meios de transporte estarão lotados de gente tentando fazer justamente isso). A decisão sacrificou algumas coisas legais como a retrospectiva do Ray Harryhausen, animador de stop motion que fez muitos dos filmes de mitologia antigões ("Viagem de Sindbad", "Jasão e os Argonautas", "Duelo de Titãs"). Segundo, cada sessão de curtas passa duas vezes, portanto se você perde uma, consulte o site do evento para ver um horário alternativo. Por último, nem mesmo com tanta Guerrilha Cultural dá pra ver tudo. Tem algumas coisas legais que não entraram para a nossa planilha por questões meramente financeiras ou de tempo. Pesquise!
[/DICLAIMER]
E para quem quiser nos acompanhar em alguma das sessões desta maratona animada ou simplesmente quiser uma dica de algo legal, vai abaixo alguns comentário de coisas que achamos interessantes na edição deste ano.
Na quinta, o Curtas 10 (sala 1, às 22h00) tem como destaque o Dossiê Rê Bordosa, que conta como o Angeli matou sua famosa personagem dos quadrinhos, interpretada recentemente no cinema por Rita Lee em Wood & Stock: sexo, orégano e rock n’ roll. Não sei se é ela fazendo a voz da personagem no curta, mas há boas chances de ser.
A sexta tem como destaque o longa Pricess (sala 1, às 22h00) do dinamarquês Morgenthaler. É um desenho animado com um tema pesado (pra ver que desenho não é só coisa de criança) e uma técnica que mistura animação e live action (atores de verdade, que nem no Roger Rabbit). Pessoalmente, eu adoro temas pesados, mas quem quiser uma coisa mais leve, pode ver a sessão Portfólio (sala 3, às 21h30): uma sessão de animações publicitárias. A mesma sessão acontece no domingo (ver horário e sala abaixo) e recomendo que nós, publicitários, passemos para dar uma olhada.
O sábado é o dia mais lotado. Começa com a Curtas 17 (sala 1, às 12h00), com destaque para o Passo de Alê Abreu. Ele é figura carimbada do Anima Mundi, participou das últimas três ou quatro edições e na última estreou seu longa Garoto Cósmico. Mais adiante, o Curtas 12 (sala 1, 16h00) tem How to hook up your home theatre (Como instalar seu home theater), curta da Disney com o Pateta, naquele clássico formato pseudo-didático onde ele ensina como fazer alguma coisa do jeito errado. Logo em seguida, o Curtas 07 (sala 2, 17:00) tem o Hot Dog do Bill Plympton. Quem conhece animação, conhece Plympton, que também sempre está no festival e com animações hilárias com um estilo bem legal. Ele é americano e vive criticando o estilo de vida. Hot Dog é o terceiro curta com o personagem de um cachorro (desenhado de uma forma meio torta e irreal, mas muito engraçada). O horário seguinte tem uma escolha a ser feita. O longa Belowars (sala 1, 18h00), único brasileiro concorrendo na competição dos longas, dura mais de uma hora, e torna impossível sair da sessão para entrar na Curtas 16 (sala 2, 19h00), que tem como destaque o Weatherman de Will Beecher, que já trabalhou com o pessoal do estúdio Aardman, que faz Wallace & Gromit e o delicioso Creature Comforts que dá pra ser encontrado no YouTube. O dia termina de forma magistral com o longa Idiots and Angels (sala 1, 22h00) do já mencionado Bill Plympton.
Depois dessa maratona toda, o domingo é mais sossegado. O destaque para os rapazes fissurados em games como eu é a palestra do pessoal da Blizzard (sala 3, 15h00), famosa produtora de vídeo games que lançou sagas completas como Warcraft, Starcraft e Diablo. A palestra de Andréas Hykade acontece algumas horas depois (sala 1, 18h00). Ele é pouco conhecido, mas tem um estilo de desenho parecido com o grafite, e temas sempre mais adultos, entre crítica e erotismo. O dia termina com a sessão Portfólio (sala 3, 21h30) de animações para publicdade, ótima forma de terminar o fim de semana de animação e ainda chegar pra trabalhar na segunda com publicidade na cabeça.
Bom, as dicas ficaram quilométricas, mas ajuda quem quiser nos acompanhar em uma ou outra sessão da maratona! Eu queria botar links para imagens dos diversos animadores aqui, mas aí eu já estaria entrando naquele nível de blogagem pouco saudável que minha mãe chama de perda de tempo...
Agora, sigam-me os bons!
[DISCLAIMER]
Levem em conta apenas algumas coisas.
Em primeiro lugar, nós desencanamos das sessões no CCBB, colocando na nossa programação apenas as sessões que acontecem nas três salas do Memorial da América Latina. Isso porque ir de um lugar para o outro a tempo de pegar as sessões nos pareceu meio inviável (principalmente considerando que os meios de transporte estarão lotados de gente tentando fazer justamente isso). A decisão sacrificou algumas coisas legais como a retrospectiva do Ray Harryhausen, animador de stop motion que fez muitos dos filmes de mitologia antigões ("Viagem de Sindbad", "Jasão e os Argonautas", "Duelo de Titãs"). Segundo, cada sessão de curtas passa duas vezes, portanto se você perde uma, consulte o site do evento para ver um horário alternativo. Por último, nem mesmo com tanta Guerrilha Cultural dá pra ver tudo. Tem algumas coisas legais que não entraram para a nossa planilha por questões meramente financeiras ou de tempo. Pesquise!
[/DICLAIMER]
E para quem quiser nos acompanhar em alguma das sessões desta maratona animada ou simplesmente quiser uma dica de algo legal, vai abaixo alguns comentário de coisas que achamos interessantes na edição deste ano.
Na quinta, o Curtas 10 (sala 1, às 22h00) tem como destaque o Dossiê Rê Bordosa, que conta como o Angeli matou sua famosa personagem dos quadrinhos, interpretada recentemente no cinema por Rita Lee em Wood & Stock: sexo, orégano e rock n’ roll. Não sei se é ela fazendo a voz da personagem no curta, mas há boas chances de ser.
A sexta tem como destaque o longa Pricess (sala 1, às 22h00) do dinamarquês Morgenthaler. É um desenho animado com um tema pesado (pra ver que desenho não é só coisa de criança) e uma técnica que mistura animação e live action (atores de verdade, que nem no Roger Rabbit). Pessoalmente, eu adoro temas pesados, mas quem quiser uma coisa mais leve, pode ver a sessão Portfólio (sala 3, às 21h30): uma sessão de animações publicitárias. A mesma sessão acontece no domingo (ver horário e sala abaixo) e recomendo que nós, publicitários, passemos para dar uma olhada.
O sábado é o dia mais lotado. Começa com a Curtas 17 (sala 1, às 12h00), com destaque para o Passo de Alê Abreu. Ele é figura carimbada do Anima Mundi, participou das últimas três ou quatro edições e na última estreou seu longa Garoto Cósmico. Mais adiante, o Curtas 12 (sala 1, 16h00) tem How to hook up your home theatre (Como instalar seu home theater), curta da Disney com o Pateta, naquele clássico formato pseudo-didático onde ele ensina como fazer alguma coisa do jeito errado. Logo em seguida, o Curtas 07 (sala 2, 17:00) tem o Hot Dog do Bill Plympton. Quem conhece animação, conhece Plympton, que também sempre está no festival e com animações hilárias com um estilo bem legal. Ele é americano e vive criticando o estilo de vida. Hot Dog é o terceiro curta com o personagem de um cachorro (desenhado de uma forma meio torta e irreal, mas muito engraçada). O horário seguinte tem uma escolha a ser feita. O longa Belowars (sala 1, 18h00), único brasileiro concorrendo na competição dos longas, dura mais de uma hora, e torna impossível sair da sessão para entrar na Curtas 16 (sala 2, 19h00), que tem como destaque o Weatherman de Will Beecher, que já trabalhou com o pessoal do estúdio Aardman, que faz Wallace & Gromit e o delicioso Creature Comforts que dá pra ser encontrado no YouTube. O dia termina de forma magistral com o longa Idiots and Angels (sala 1, 22h00) do já mencionado Bill Plympton.
Depois dessa maratona toda, o domingo é mais sossegado. O destaque para os rapazes fissurados em games como eu é a palestra do pessoal da Blizzard (sala 3, 15h00), famosa produtora de vídeo games que lançou sagas completas como Warcraft, Starcraft e Diablo. A palestra de Andréas Hykade acontece algumas horas depois (sala 1, 18h00). Ele é pouco conhecido, mas tem um estilo de desenho parecido com o grafite, e temas sempre mais adultos, entre crítica e erotismo. O dia termina com a sessão Portfólio (sala 3, 21h30) de animações para publicdade, ótima forma de terminar o fim de semana de animação e ainda chegar pra trabalhar na segunda com publicidade na cabeça.
Bom, as dicas ficaram quilométricas, mas ajuda quem quiser nos acompanhar em uma ou outra sessão da maratona! Eu queria botar links para imagens dos diversos animadores aqui, mas aí eu já estaria entrando naquele nível de blogagem pouco saudável que minha mãe chama de perda de tempo...
Agora, sigam-me os bons!
quinta-feira, julho 10, 2008
Explosão
O Armindo Trevisan comentava no Como Apreciar Arte que existem dois tipos de arte, uma relacionada à matéria e ao objeto físico em si; e uma outra relacionada ao tempo, à apresentação. Uma das conseqüências lógicas da constatação é que a arte de matéria (pintura, fotografia, escultura) não depende de tempo. Ou melhor, cada um escolhe seu tempo de fruição, podendo demorar-se horas (às vezes anos) para absorver completamente uma pintura ou apenas alguns segundos. Enquanto isso, a arte de tempo (música, teatro e até mesmo a literatura) não depende de matéria, mas sim daquele momento específico da apresentação onde determinado elemento é revelado para causar seu impacto. Ou seja, se você lê um clássico da literatura em papel ou na tela do computador, a obra é essencialmente a mesma: o que vale é o momento de cada estímulo ser apresentado.
Quis a vida que eu acabasse me dedicando mais às artes de matéria. Todas as questões de representação que sempre me interessaram foram do âmbito da matéria (cor, luz, textura, volume). Mas tem uma questão de tempo que sempre me seduziu muito. Por falta de termo técnico, eu chamei de explosão. Os casos mais significativos que tenho na memória são todos relacionados à música, embora eu possa citar outros se tentar lembrar. Canções que cresciam, cresciam, e então liberavam toda a energia em um único acorde/batida de percussão/grito. A dança do Michael Jackson era toda sobre explosão: em vez de fluir, ele disparava os braços, as pernas, o grito; como para dissipar uma energia que ele não conseguia conter. E era tudo pontual, em um momento específico. Procurem o clipe de Dirty Diana: o diretor de arte do clipe até ilustrou o que eu quero dizer, fazendo eletricidade emanar dos dedos do cantor a cada movimento mais explosivo.
Me seduz profundamente a vontade de executar uma explosão assim. Liberar de uma só vez toda a energia que represo durante o dia retendo emoções para evitar conflitos (poupem-me dos insights de psicólogo sobre o quanto isso é prejudicial e errado, eu já ouvi vários...).
Cheguei a experimentar, na literatura. O final de Margot era uma tentativa disso. Mas no texto, a explosão fica mais no prazer de quem lê a cena do que de quem a escreve. Não há explosão no escrever.
No teatro era mais fácil. A última coisa que fiz há alguns anos foi um monólogo apresentado na USP. Em certo momento, eu tirava do rosto a máscara de cerâmica que estava usando e a jogava no chão, pulverizando a argila seca. A platéia segurava a respiração por um deliciosamente tenso momento.
Mais recentemente, tentei na música, com a banda. Descobri que era possível faze-lo em conjunto: a banda inteira crescendo para um estouro final, como no que fizemos com o Fall to Pieces do Velvet Revolver ou momentos não tão pontuais como o Sweet Dreams are Made of This. Mas como o momento de explosão não fica exatamente sob meu comando, não é a experiência liberadora que eu esperava (apesar de ainda ser um efeito animal!). A outra possibilidade, de explodir a voz e soltar com ela toda a raiva contida, encontrou um contratempo de “hardware”: a mente e o ímpeto disparam em direção à nota e o volume perfeitos, mas a garganta não acompanha.
Quis a vida que eu acabasse me dedicando mais às artes de matéria. Todas as questões de representação que sempre me interessaram foram do âmbito da matéria (cor, luz, textura, volume). Mas tem uma questão de tempo que sempre me seduziu muito. Por falta de termo técnico, eu chamei de explosão. Os casos mais significativos que tenho na memória são todos relacionados à música, embora eu possa citar outros se tentar lembrar. Canções que cresciam, cresciam, e então liberavam toda a energia em um único acorde/batida de percussão/grito. A dança do Michael Jackson era toda sobre explosão: em vez de fluir, ele disparava os braços, as pernas, o grito; como para dissipar uma energia que ele não conseguia conter. E era tudo pontual, em um momento específico. Procurem o clipe de Dirty Diana: o diretor de arte do clipe até ilustrou o que eu quero dizer, fazendo eletricidade emanar dos dedos do cantor a cada movimento mais explosivo.
Me seduz profundamente a vontade de executar uma explosão assim. Liberar de uma só vez toda a energia que represo durante o dia retendo emoções para evitar conflitos (poupem-me dos insights de psicólogo sobre o quanto isso é prejudicial e errado, eu já ouvi vários...).
Cheguei a experimentar, na literatura. O final de Margot era uma tentativa disso. Mas no texto, a explosão fica mais no prazer de quem lê a cena do que de quem a escreve. Não há explosão no escrever.
No teatro era mais fácil. A última coisa que fiz há alguns anos foi um monólogo apresentado na USP. Em certo momento, eu tirava do rosto a máscara de cerâmica que estava usando e a jogava no chão, pulverizando a argila seca. A platéia segurava a respiração por um deliciosamente tenso momento.
Mais recentemente, tentei na música, com a banda. Descobri que era possível faze-lo em conjunto: a banda inteira crescendo para um estouro final, como no que fizemos com o Fall to Pieces do Velvet Revolver ou momentos não tão pontuais como o Sweet Dreams are Made of This. Mas como o momento de explosão não fica exatamente sob meu comando, não é a experiência liberadora que eu esperava (apesar de ainda ser um efeito animal!). A outra possibilidade, de explodir a voz e soltar com ela toda a raiva contida, encontrou um contratempo de “hardware”: a mente e o ímpeto disparam em direção à nota e o volume perfeitos, mas a garganta não acompanha.
sábado, junho 28, 2008
The dead man
There was a dead man on the corner just outside my building last night. Gunshot wound to the head. At first, I didn't notice him. Never even noticed all the comotion on the street. I was on my way to buy brownies for desert from the nearby bakery. In upper class neighborhoods, when violence erupts, no one actually screams or runs like in the movies. We keep our mild and civilized tone of voice while calling the police. I stoped on the curb, looking up to gaze at the green light and wait for my turn to walk, faintly noticing the people around me: the couple who had walked in front of me up the block whispering to each other, the man anxiously talking on his mobile phone, the guy lying on the street right next to me on the curb. Had I taken another step and I would have kicked his leg. I took another step to my left to avoid having to step over him when the lights turned red and then looked down to see him. It seems incredibly stupid of when I think of it now to have ignored him up to that point. Ignored him until he was so close. How often do you see a man lying motionless on the street?
The foot I had almost kicked was clad in simple tennis shoes. His right leg was stretched with his foot awkwardly turned inward: a position no living man would sustain unless there was a propper reason for it. His other leg was bent outward, toward the street. He wore bright orange shorts and a red shirt (how could I have missed those screaming colours?). Both of his arms were under his body, as if he had held onto something on his stomach. His head was turned slightly to the right, but still facing the ground. And then there was all the blood. It was still flowing from him, but now very slowly, indicating that the heart was no longer pumping. And it was that same unreal movie-like shade of crimson, only it seemed thicker. Oozing from the side of his head and slowly reaching the gutter. Pink froth floating along.
The sight of his blood faintly triggered that sense of reality, as if things were really there, suddenly more focused. That cliche about having lived in a daydream and suddenly awakening. It lasted for about five seconds. Long enough for me to realize I was standing next to a dead body and needed to move. Long enough to fear being connected to what had just happened there.
And then the lights turned red and I was on the move and that other part of me kicked in. The one that I hardwired into myself as a kid to counter the actions of schoolyard bullies. The one that says I should never react instantly to what is happening, because that's what they want and it's a mistake. Just pretend it's all very normal and go about your business while you give your brain time to think about what to do next. Do not react. This protocol has been so deeply conditioned into my behaviour, that it switches on in every stressful situation nowadays.
So I crossed the street, went into the bakery and payed five bucks on a box of brownies. All very casual and ordinary. The police cars sped by the bakery as I was at the cash registers, the cashiers giggling nervoursly and asking each other what was going on: "is he dead?", "I don't know, I'm not going out there, I'm scared of these things!".
On my way back, the officers were aproaching the body as if it were rigged with explosives and ready to burst. As one gropped for the pulse on the dead man's wrist, the other asked beside the vehicle: "is he zeroed?". Affirmative. He is dead. On the curb, a small crowd of half-a-dozen upper-class citizens had gathered like mourners on an early wake. I stood beside them with my plastic bag of brownies on one hand. That unreactive program in me told me not to be affraid and to actually experience this, witness this. Had there been less people around, I would have drawn closer, hunkered around beside him. A perverse part of me wanted to know if he was still warm. I had never seen a real bullet wound before. It made me curious.
Most of all, it surprised me that I wasn't as... startled or upset about it as one should be. Perhaps it was the programming: I just didn't allow myself to be upset about it. I went back home, had dinner and made my mind not to speak about it until the next day, when it would all be gone into the past. Then again, I suppose the fact that I am writting this down hints that it bothered me to some minimal extent.
The foot I had almost kicked was clad in simple tennis shoes. His right leg was stretched with his foot awkwardly turned inward: a position no living man would sustain unless there was a propper reason for it. His other leg was bent outward, toward the street. He wore bright orange shorts and a red shirt (how could I have missed those screaming colours?). Both of his arms were under his body, as if he had held onto something on his stomach. His head was turned slightly to the right, but still facing the ground. And then there was all the blood. It was still flowing from him, but now very slowly, indicating that the heart was no longer pumping. And it was that same unreal movie-like shade of crimson, only it seemed thicker. Oozing from the side of his head and slowly reaching the gutter. Pink froth floating along.
The sight of his blood faintly triggered that sense of reality, as if things were really there, suddenly more focused. That cliche about having lived in a daydream and suddenly awakening. It lasted for about five seconds. Long enough for me to realize I was standing next to a dead body and needed to move. Long enough to fear being connected to what had just happened there.
And then the lights turned red and I was on the move and that other part of me kicked in. The one that I hardwired into myself as a kid to counter the actions of schoolyard bullies. The one that says I should never react instantly to what is happening, because that's what they want and it's a mistake. Just pretend it's all very normal and go about your business while you give your brain time to think about what to do next. Do not react. This protocol has been so deeply conditioned into my behaviour, that it switches on in every stressful situation nowadays.
So I crossed the street, went into the bakery and payed five bucks on a box of brownies. All very casual and ordinary. The police cars sped by the bakery as I was at the cash registers, the cashiers giggling nervoursly and asking each other what was going on: "is he dead?", "I don't know, I'm not going out there, I'm scared of these things!".
On my way back, the officers were aproaching the body as if it were rigged with explosives and ready to burst. As one gropped for the pulse on the dead man's wrist, the other asked beside the vehicle: "is he zeroed?". Affirmative. He is dead. On the curb, a small crowd of half-a-dozen upper-class citizens had gathered like mourners on an early wake. I stood beside them with my plastic bag of brownies on one hand. That unreactive program in me told me not to be affraid and to actually experience this, witness this. Had there been less people around, I would have drawn closer, hunkered around beside him. A perverse part of me wanted to know if he was still warm. I had never seen a real bullet wound before. It made me curious.
Most of all, it surprised me that I wasn't as... startled or upset about it as one should be. Perhaps it was the programming: I just didn't allow myself to be upset about it. I went back home, had dinner and made my mind not to speak about it until the next day, when it would all be gone into the past. Then again, I suppose the fact that I am writting this down hints that it bothered me to some minimal extent.
quinta-feira, junho 26, 2008
Tenho passado noites no ateliê, mesmo com o frio. O macacão de pintura sobre a roupa esquenta o suficiente. Tenho receio de relatar essas coisas, porque tenho uma superstição de que quando eu falo, as coisas não acontecem. Parte de mim já está apostando quanto tempo esse ímpeto vai durar.
Ímpeto é a palavra certa. Estou fazendo duas pinturas grandes ao mesmo tempo, coisas antigas que nunca terminei, e já cogitando começar uma terceira, um retrato da Lexy. É o que eu sempre quis fazer: começar a sessão com as pinceladas vigorosas necessárias pra cobrir um fundo de cor uniforme ou fazer um degradê perfeito, e depois pendurar a tela pra secar enquanto faço detalhes mais minuciosos em outra. E dividir tanto o ímpeto e maravilhamento como o saco cheio entre as duas telas, pra não cansar e desistir de nenhuma delas.
Ontem, saíndo de lá, tranquei a porta e dei de cara com uma pintura em azulejo que tem logo na entrada da casa. É uma pintura de um artista relativamente importante, cujo nome esqueci. Ela mostra um grupo de negros: dois garotos pequenos, dois homens adultos e uma mulher, todos sentados no chão. O que sempre gostei dessa pintura é a expressão dos rostos, porque ela conta uma história enorme. A mulher está de braços cruzados, a cabeça baixa para sua direita, os olhos fechados. Tem uma expressão no rosto de um sofrimento resignado, daquele que literalmente diz "eu sofro sim, sinta pena de mim". Expressão de quem usa a pena alheia como estratéga de defesa. Mas não é a expressão de uma mulher fraca. Ela é corpulenta, forte, resistente. Mas injustiçada, sofrida. Ouso dizer: é uma expressão de escrava. Ao seu lado, os dois homens adultos têm rostos tão parecidos e estão tão juntos, um olhando sobre o ombro do outro, que são obviamente irmãos. Sua relação com a mulher é desconhecida e um deles coloca-lhe a mão no ombro. Esse gesto e seu olhar de cabeça baixa, lateral e culpado, pede desculpas por alguma injustiça que lhe fizeram. Ou talvez não seja tanta culpa, mas um compadecimento diante da companheira injustiçada. O fato é que nada é dito na pintura sobre o que aconteceu à mulher. Mas eu sempre tive a impressão de que os responsáveis pelo sofrimento dela são os irmãos. Aos pés da mulher, uma das crianças senta-se quase de costas para nós, olhando para cima, para o rosto da mulher (mãe?), com aquela expressão dopada de boca aberta que as crianças bem pequenas fazem quando estão perscrutando essas coisas do mundo adulto. É uma ilustração perfeita dessa expressão. O outro moleque está encolhido no outro canto do quadro, perto dos homens adultos e oposto à mulher. Não fica muito claro, mas tenho uma noção bem diáfana de que ele antagoniza com ela. Como se talvez eles dois tenham brigado feio e os outros personagens só estão lá, assistindo e tentando acalmar a situação.
Ímpeto é a palavra certa. Estou fazendo duas pinturas grandes ao mesmo tempo, coisas antigas que nunca terminei, e já cogitando começar uma terceira, um retrato da Lexy. É o que eu sempre quis fazer: começar a sessão com as pinceladas vigorosas necessárias pra cobrir um fundo de cor uniforme ou fazer um degradê perfeito, e depois pendurar a tela pra secar enquanto faço detalhes mais minuciosos em outra. E dividir tanto o ímpeto e maravilhamento como o saco cheio entre as duas telas, pra não cansar e desistir de nenhuma delas.
Ontem, saíndo de lá, tranquei a porta e dei de cara com uma pintura em azulejo que tem logo na entrada da casa. É uma pintura de um artista relativamente importante, cujo nome esqueci. Ela mostra um grupo de negros: dois garotos pequenos, dois homens adultos e uma mulher, todos sentados no chão. O que sempre gostei dessa pintura é a expressão dos rostos, porque ela conta uma história enorme. A mulher está de braços cruzados, a cabeça baixa para sua direita, os olhos fechados. Tem uma expressão no rosto de um sofrimento resignado, daquele que literalmente diz "eu sofro sim, sinta pena de mim". Expressão de quem usa a pena alheia como estratéga de defesa. Mas não é a expressão de uma mulher fraca. Ela é corpulenta, forte, resistente. Mas injustiçada, sofrida. Ouso dizer: é uma expressão de escrava. Ao seu lado, os dois homens adultos têm rostos tão parecidos e estão tão juntos, um olhando sobre o ombro do outro, que são obviamente irmãos. Sua relação com a mulher é desconhecida e um deles coloca-lhe a mão no ombro. Esse gesto e seu olhar de cabeça baixa, lateral e culpado, pede desculpas por alguma injustiça que lhe fizeram. Ou talvez não seja tanta culpa, mas um compadecimento diante da companheira injustiçada. O fato é que nada é dito na pintura sobre o que aconteceu à mulher. Mas eu sempre tive a impressão de que os responsáveis pelo sofrimento dela são os irmãos. Aos pés da mulher, uma das crianças senta-se quase de costas para nós, olhando para cima, para o rosto da mulher (mãe?), com aquela expressão dopada de boca aberta que as crianças bem pequenas fazem quando estão perscrutando essas coisas do mundo adulto. É uma ilustração perfeita dessa expressão. O outro moleque está encolhido no outro canto do quadro, perto dos homens adultos e oposto à mulher. Não fica muito claro, mas tenho uma noção bem diáfana de que ele antagoniza com ela. Como se talvez eles dois tenham brigado feio e os outros personagens só estão lá, assistindo e tentando acalmar a situação.
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