quinta-feira, setembro 25, 2008

Juan Francisco Casas

Um dos exercícios que Lexy fez em aula recentemente resultou em uma idéia de fazer uma ação na internet para patrocinar um artista e com isso beneficiar tanto o artista quanto a marca do produto que ele usa. O artista que eles encontraram era uma referência antiga, o espanhol Juan Francisco Casas.
Não lembro ao certo quem foi que me passou a referência pela primeira vez, mas logo de cara me pareceu aquele tipo de idéia que me fez exclamar injuriado "por que que eu não fiz isso antes!?". Ele faz retratos colossalmente grandes a partir de fotos de conhecidos. Dessas fotos que tiramos com as atuais e abundantes máquinas digitais e seus flashes frontais e estourados. As fotos em si nos levam a concluir que Casas é um fotógrafo desleixado, mas ele compensa de forma primorosa pela escolha das expressões cotidianas e debochadas de seus amigos e pela técnica apuradíssima. Tenho que admitir que, se eu de fato tivesse feito isso antes, minhas obras teriam menos gosto do que as dele.

Mas o motivo da minha exclamação injuriada não é só esse.
Ele faz tudo com canetas esferográgicas.

Isso mesmo, canetas BIC, dessas que você compra e alguém pede emprestado e não devolve. Dessas que somem dos balcões das lojas se não estiverem amarradas com barbante. Mencionar isso já faz você, leitor, pensar em desenhos lineares dos contornos dos rostos. Mas vai lá, deixa de preguiça e clica no link do site dele. Sim, é mais do que isso. São verdadeiras pinturas, com volume, sombreado e tudo em uma absurda variedade de tons monocromáticos.
Lembro de ter feito uma anotação em um dos meus cadernos, junto a um desenho do retrato de Lilian que eu estava fazendo na época, sobre como era possível fazer diferentes tons com uma caneta BIC, bastando apenas um controle mais minucioso da pressão que a mão fazia sobre o papel e na proximidade entre as linhas.

A brincadeira de Casas me lembrou ainda de uma aula de história da arte. Claro que, como é típico dessas lembranças, eu não lembro de que período da arte essa aula falava, mas contava de como os franceses daquela época dividiam artistas entre desenhistas e coloristas, sendo que estes valorizavam a precisão na cor em detrimento do desenho e aqueles faziam o contrário. Ingres, por exemplo, era um colorista, e embora sua famosa banhista turca tenha cores e efeitos de luz bem realistas, continua tendo uma estranheza no modo como sua perna direita parece atravessar a cama e ter o joelho perdido em um limbo difícil de entender.
De fato, cada abordagem tem um raciocínio diferente, um modo diferente de compreender como é formada aquela imagem, que vai influenciar na produção de uma ilustração. Todo ilustrador parece ter uma queda para um dos lados, embora tente fazer um pouco dos dois. Eu mesmo tenho uma tendência a ser colorista e a tratar imagens como áreas de cor em vez de compreendê-las como formas lineares. Mas continuo desenhando nas telas antes de começar a pintar.
O divertido sobre o trabalho de Casas é que ele claramente segue um raciocínio colorista, tratando imagens também como áreas tonais mais escuras ou mais claras sem desenhar tantas linhas, mas usa o instrumento de um desenhista e apenas uma cor, o azul BIC.

Fiquei com vontade de fazer um exercício desses...

terça-feira, setembro 23, 2008

Tenho curtido bastante as sequências recentes do Sin Fest. Uma das jóias dos meus links de webcomics, a tirinha virtual é atualizada todos os dias, com páginas maiores e coloridas aos domingos. A frequência de atualização não tira a qualidade de cada tirinha, quem tem personagens muito expressivos e um roteiro hilário, recheado de humor negro e tiração de sarro.

Um dos pontos fortes do roteiro sempre foi sua atitude anti-maniqueísta, onde asseclas de Deus e do diabo travam batalha sem deixar claro quem tem vantagem sobre quem. Tudo isso enquanto um sereno e mudo Buda se nega a tomar qualquer partido na briga e se retira para ouvir seu iPod.
Mas ultimamente o criador da tirinha, o desenhista Tatsuya Ishida tirou lincença da atitude em-cima-do-muro para fazer sátiras políticas dos EUA. Começou timidamente com um dos personagens resolvendo se candidatar para presidente depois de saber dos escândalos sexuais envolvendo candidatos. Sua procura por mulheres para o cargo de vice-presidente chamou a atenção de outro personagem, um porquinho travestido de mulher vendo nisso sua chance de entrar para a política. Este, por sua vez, acabou sendo uma mistura entre Britney Spears e a escandalosamente idiotica candidata a vice do McCain, Sarah Pallin. Pra completar a pornochanchada, Ishida ainda fez uma mistura de Barack Obama com Lenny Kravitz (atenção para a referência ao vídeo do fã enlouquecido da Britney no último quadrinho) e uma curta participação de um McCain desafinado e tão ridículo e insípido quanto o verdadeiro.

As últimas tirinhas que vi tinham deixado esse assunto um pouco de lado. Concentram-se atualmente na derrocada do sistema econômico americano, completo com referências ao estouro das "bolhas" econômicas e a queda da bolsa de NY. O Tio Sam emo é a cereja do bolo nessa crônica do declínio do império americano.

Tempo

E de repente, dois anos se passaram desde que voltei de viagem.
O mais desesperador de tudo é que não os senti passarem. Um contraste amargo quando comparado aos seis meses daquela viagem que ainda não me saem da cabeça, e que pareceram por si só terem durado dois anos inteiros, um em cada país onde fiquei.

Foi pensando nisso e em tudo que meu irmão relatou de sua própria viagem que comecei a pensar sobre como a minha percepção de tempo está intimamente ligada à memória de eventos peculiares. Semanas de pura labuta, onde cada dia não se distingue do outro, não oferecem qualquer referência que as marque na memória. O tempo entre o hoje e a última vez que algo memorável aconteceu se estica em uma massa homogênea e imensurável a não ser pelos artifícios socias: os nomes dos dias, os números nos calendários, a movimentação bancária. Mas tudo isso são de fato apenas artifícios. A impressão que tenho é que o tempo não passou.
Será assim para todo mundo? Os anos ineventuais parecem passar depressa e os sabáticos parecem equivaler a três ou quatro?
O ano passado ao menos durou um pouco mais do que este. A banda pontilhou meus meses de noites especiais onde eu vivia aquele sonho de infância de estar sob o palco e reger uma pequena multidão. Mas este... Chegamos quase ao décimo mês e nada aconteceu. Faz-me sentir um desperdício de tempo, uma velhice prematura. Velhice esta que está até no modo como escrevo hoje, cheio de floreios barrocos e rugas.

Minha vida demanda uma mudança de vida. E planos já estão sendo feitos para que o ano que vem seja novamente duradouro.

domingo, setembro 21, 2008

Burning Man

Como todos os anos, o festival do Burning Man aconteceu na última semana de Agosto, tendo seu último dia no "Labor Day" americano. Este ano, reuniu 50 mil pessoas na cidade de Black Rock, Nevada, nos EUA. O festival reúne gente do mundo todo durante uma semana, para uma experiência única. O foco principal do evento está na expressão, nas mais variadas formas de arte. Claro que, estando no deserto, a ocupação de espaço tem um papel fundamental na diferença entre ser visto ou completamente ignorado. Por isso, obras tridimensionais gigantescas têm vantagem sobre a pintura ou outras formas de arte mais singelas. Os participantes usam os elementos ( o calor, o vento, a areia) na criação de obras flamejantes, trabalhos que se movem, coisas altivas que enfrentam o deserto.
Mas o festival não é só isso. Muita gente deixa a participação com obras físicas para experimentar com obras interativas ou experimentos sociais. Há uma outra característica fortíssima do Burning Man que é a questão social. De acordo com o site do evento, não há regras comportamentais (exceto aquelas que preservam a saúde e segurança da comunidade). Ou seja, você não é mais o outsider, o esquisito: tem sempre alguém fazendo algo mais inusitado. Dinheiro não tem valor no evento. Tudo é feito na base da troca e da bondade entre as pessoas. Você está lá para ter uma experiência fantástica e ajudar os outros a terem o mesmo. Você está lá não só para sobreviver ao deserto, mas para fazer dessa sobrevivência uma epifania artística.
Claro que nem tudo são flores. Ao que dizem os veteranos, o sol é inclemente durante o dia, e a noite é gélida. Característica do deserto. Não há lojas de comida no lugar e cada participante deve trazer seus mantimentos (água e comida) para toda a duração do evento. Chovem recomendações de protetor solar. Mas até mesmo a dificuldade deve ser encarada como um desafio esclarecedor. Quanto você precisa para passar uma semana no deserto?
A noite de sábado é reservada para o acontecimento que dá o nome ao evento: uma gigantesca construção em forma humana é queimada durante a noite em um ritual que encerra a edição daquele ano. Pelo que eu entendi, no fogo são queimados, entre outras coisas, o lixo e restos. Tudo para manter o ideal de não deixar nada no deserto. Claro que, após a fatídica semana, grupos de voluntários permaneccem no local para ajudar a retorná-lo à sua forma anterior. O evento não deixa vestígios a não ser a profunda transformação nos visitantes.

Depois de dois anos do mais absoluto marasmo que aconteceram após minha viagem à Europa, estou dando tratos à bola de participar do evento no ano que vem. Tenho um ano inteiro para ir atrás de informação, material e burocracia. Quem se candidata e ir comigo?

segunda-feira, setembro 15, 2008

2000e8 ao vivo

Na sexta passada, compareci novamente às palestras do grupo 2000e8. Desta vez, a conversa foi com os pintores Rodolpho Parigi e Rodrigo Bivar
A conversa teve início com um ponto muito interessante de se ouvir, com ambos explicando como a atenção atraída pela matéria de jornal há alguns meses atrás rendeu muita coisa, contatos, propostas, etc. Bivar tomou a palavra para questionar o modo como o grupo estava sendo alardeado como uma espécie de renascimento da pintura que, na opinião dele, sequer havia morrido. Comentou que para gerações anteriores de artistas, a pintura era uma questão complicada: por que pintar em uma era onde a captação e reprodução de imagens já era avançadíssima e o abstrato já tinha sido explorado à exaustão? Mas para o grupo 2000e8 (e, até certo grau, para os demais pintores atuais), essa questão estava superada (ignorada?): pintamos por gosto. O gosto pelo metier da pintura, seu processo de produção. A conversa seguiu então para um ponto que Parigi concordou, de que a arte atual havia alcançado uma situação onde, mais do que a qualidade do trabalho em si, havia uma importância exacerbada sobre as questões periféricas à arte: o mise en cene em torno do artista, da mídia, da moda, de vocativos e manchetes de jornal do tipo da "geração tinta fresca" que anunciava a matéria sobre o grupo. Ou seja, a relação com a arte, principalmente nos grandes centros, era indireta, mediada. As pessoas viam as obras pelas fotos do jornal, pelos sites, não pessoalmente.
Preciso concordar veementemente. A sensação de maravilhamento que tive diante do Eine Kleine Nachtmusik da Dorothea Tanning na Tate em Londres, por exemplo. Vê-la em livros já havia sido uma experiência poderosa, mas estar diante da obra em si, da precisão de minúcia das pinceladas, é outra coisa. E perdemos isso cada vez mais, pela possibilidade de procurar no Google e ter acesso a qualquer imagem.

Isto posto, o resto foi a apresentação dos trabalhos.
Parigi começou, apresentando seus abstratos. Seu jeito cômico, debochado e sexual aparecia nas pinturas [1][2], que misturavam cores extravagantes a efeitos de luz e formas que lembravam coisas úmidas, líquidas, orgânicas. Mas ele tinha ainda outro trabalho: abstratos gigantescos que tomavam conta de fachadas de prédios como o da Galeria Vermelho ou o interior da Nara Roesler. Ele explicava o uso exclusivo de preto para os desenhos devido à rapidez que ele precisava para executá-los. A mente trabalhava mais rápido do que as mãos, dizia ele, e a cor seria mais um dado que consumiria tempo demais para incorporar na produção. Mas havia outra coisa nisso: perguntei a ele se ele acreditava que seu trabalho em fachadas tinha algo a ver com o grafite ou pixação, aproveitando para citar o caso da Choque Cultural. E ele admitiu que tinha sua queda pela pixação. Mais do que pelo grafite, que ele considerava ingênuo. Obviamente, Parigi seria o típico alvo do protesto na Choque Cultural: o artista plástico que se apropria da linguagem do grafite/pixo sem nunca ter sentido a adrenalina transgressora de pixar sem autorização. Deve-se no entanto prestar atenção ao fato de que ele não se intitula pixador. Diz-se artista plástico, com muita propriedade. Apenas se interessa pela estética, a expressividade, e pelo conceito transgressor. De qualquer forma, deixou escapar que tem seus planos de consumar todo o ato da pixação. Proibições e tudo.

Me identifiquei, como pintor, com os trabalhos de Bivar. Apesar dele ousar menos com as cores, também pinta a partir de fotos de conhecidos. Sua procura, assim como com a Renata de Bonis na palestra anterior, é pela homogeneização. Ela procurava o menor contraste entre as cores. Ele, a menor diferença hierarquica entre os elementos da pintura. Por isso, dizia pintar um detalhe como um braço ou um rosto com o mesmo desprendimento que pintava um objeto inanimado. Entendi sua procura: era a tentativa de esvaziar os olhos de significado, ver até mesmo um corpo conhecido como não mais do que forma, sem o fardo do seu significado. Mas isso, na minha opinião, acaba sendo um detalhe pessoal de quem executa a pintura, difícil de ser compreendido por quem a observa. É como a minha sensação de lascívia ao pintar a curva de um lábio ou escolher o tom correto de uma pele de garota. O produto final, para o observador, raramente lhe transmite essa mesma experiência.
Mas será que isso torna a experiência do pintor menos válida?
O que vale mais, a experiência do artista ou a que ele causa no leigo?

A próxima palestra do grupo 2000e8 acontece no dia 17 de Outubro, às 19:30, na Escola São Paulo. Desta vez, com a presença de Bruno Dunley e Regina Parra.

terça-feira, setembro 09, 2008

Ataque à galeria Choque Cultural

Essa história do grafite está me rendendo muito assunto por aqui.

Recebi notícias hoje sobre um ataque acontecido neste fim de semana à galeria Choque Cultural, protagonizado por cerca de 30 pixadores [1][2][3]. Ao que tudo indica, o ataque foi organizado por Rafael Guedes Augustaitiz (Rafael Pixobomb), o mesmo artista que em julho deste ano tinha sido expulso da Faculdade de Belas Artes por ter apresentado como trabalho final uma ação semelhante, onde pixou as dependências da faculdade. Os donos da galeria estavam fora do país quando tudo aconteceu. A "ação" foi documentada com fotos em uma conta de Flickr onde li a maior parte da discussão gerada.

Diz-se por aí que o ataque foi um protesto dos pixadores contra a "comercialização, institucionalização e domesticação da Cultura de Rua", revoltados com a popularidade que os grafiteiros conquistaram recentemente (vendendo-se para "O Sistema"), enquanto o "pixo" ainda é marginalizado. Cabe aqui uma breve explicação que talvez eu não tenha escrito por aqui. Com a ascensão dos grafiteiros ao status de artistas, abriu-se ainda mais o abismo entre o grafite e a pixação. Entenda-se grafite como um estilo de arte predominantemente figurativo, ilustrativo, executado em muros da cidade. O pouco de texto que se vê é estilizado e abusa das cores. Já a pixação é compreendida como o ato de demarcar território (geralmente em lugares altos e de difícil acesso) com assinaturas etilizadas e pouco uso de imagem. A cor principal é o preto fosco, embora alguns pixadores experimentem com outras cores. Ambos têm fortes ligações com a questão do espaço publico e sua privatização pelas chamadas "classes burguesas" e "O Sistema". Mas de forma geral (e mesmo antes da ascensão do grafite), a primeira é vista como uma forma de expressão tolerada em maior ou menor grau, e a segunda ainda é vista por muitos com o desprezo reservado apenas a animais que mijam para marcar território.

Muito bem, vamos às questões...
Sabe-se contra o quê foi o protesto. Mas contra quem foi? Contra a galeria? Acho que isso é o mesmo que vandalizar um McDonald's e esperar que isso afete o capitalismo. Não, segundo talita virginia, uma das pessoas comentando no Flickr, o ataque não foi contra quem quer levar a arte das ruas para a galeria, mas contra quem se diz "grafiteiro" e faz "arte de rua" sem nunca ter pintado um muro. Certo. Vamos às duas questões consequentes.
Primeiro, se o ataque era contra esse tipo de falso grafiteiro, então por que detonaram a galeria em vez de ir ter com os falsários em si? E segundo, concordo que é falso dizer-se grafiteiro sem nunca ter pintado uma parede, mas se o individuo em questão se diz artista plástico e se apropria dessa estética pra usar em outro contexto (uma pintura em tela, por exemplo), ele está tão errado assim? Tem muito ex-grafiteiro que virou artista plástico. Mas os que eu conheço sempre tiveram a decência de separar as duas coisas.
A Choque Cultural nunca afirmou vender grafite. Usando de termos ambíguos, afirmou ser dedicada à estética underground. Os defensores da galeria afirmam que de fato ela nunca vendeu grafite: para isso teria que vender um muro inteiro. E isso é espaço público. Ela comercializa coisas vendáveis (telas, esculturas, revistas, etc) com a estética underground.
Fiquei surpreso ao ver muitos pixadores comentando no Flickr contra a ação. Aparentemente, há uma regra de conduta entre pixadores de que não se pixa sobre trabalho dos outros. "Atropelou é TOY", escreveu um, usando a gíria que significa, trocando uma tribo urbana pela outra, ser n00b (newbie, o novato e inexperiente que só faz besteira, entre tribos da internet) em pixação. Fez-me lembrar de outra questão recente tratada na mídia, onde os punks veteranos que tinham motivos para a violência desobediente criticaram as gangs de punks recentes, que promovem a violência pela violência. Estes pixadores parecem promover o "pixo pelo pixo", sem pensar direito na subversão que pretendiam promover. Reitero meu repúdio a esse pensamento tipicamente americano do "rebelde sem causa", do "ser diferente, único e contra O Sistema" só porque disseram que é legal. Outro dos que comentaram, jotapepabst, exemplificou essa minha sensação escrevendo "o trabalho que tava exposto na galeria era de um inglês chamado gerald laing, que tem o dobro da minha e da sua idade juntos, que participou de outro tipo de subversão em outra época... e nunca se disse grafiteiro. batalhou muitos anos pra chegar onde ele tá agora e poder viver com dignidade fazendo o trampo dele. esse cara foi atropelado, inexoravelmente. só me diz o que ele tinha a ver com a história".

A dona da galeria, Mariana Pabst Martins, não desceu do salto e deu uma resposta à altura no próprio Flickr em questão, comentando que eles tinham deixado uns quadros legais por lá, que deveriam ser muito valorizados com o ocorrido. O comentário deu o tom para o sarro da discussão, transformando o ataque sofrido em uma ajuda imprevista à galeria e ao que ela representa e completando a desmoralização do grupo de pixadores.

O resto ainda está meio confuso para mim. Há quem diga que a ação foi encomendada, como um marketing de guerrilha. Se comprovado, o feito faria apenas desmoralizar ainda mais os pixadores que participaram, por colaborarem com "O Sistema", e enaltecer a galeria entre os publicitários (mas não entre os artistas...), porque convenhamos, seria uma estratégia bizarra mas muito eficiente de gerar buzz (tá, me processem, eu uso termos publicitários...). Há quem aponte para o fato de terem tirado fotos e publicado no Flickr como indício de que o negócio foi armado. Mas para uma galera que vandaliza as coisas assinando a própria identidade, acho que segredo não é uma prioridade. De qualquer jeito, é algo a se pensar: nas fotos do Flickr, as únicas obras pixadas são as que têm moldura com vidro pra proteger...

[DISCLAIMER]
Pessoalmente, eu nunca pintei um muro que não fosse meu ou de amigos. Nunca senti a adrenalina do grafite ou pixação (coisa que, entre os comentários, parece validar alguém como artista de rua). Sou de um estilo de arte bem mais conservador e careta, longe da street art. Portanto pode-se dizer que não me cabe esse juizo de valores. Mas ainda sou livre para ter opiniões.[/DISCLAIMER]

[EDIT]Mais links adicionados em 11/09/2008[/EDIT]

quinta-feira, setembro 04, 2008

Complementando

Pra complementar coisas que eu tenho postado por aqui, vi duas notícias que me chamaram a atenção recentemente.

A primeira é um de um site sobre grafite ecológico (?) que lista as 35 maiores obras de grafite reverso.
O grafite reverso, como o nome indica, é a ação executada por alguns grafiteiros que trocam as latas de spray e outros instrumentos mais rotineiros por material de limpeza. Ou seja, em vez deles gerarem ilustrações por um processo de adição, colocando tinta em superfícies públicas; eles realizam os seus trabalhos por subtração, limpando partes de superfícies imundas da cidade para criar suas imagens. Achei fantástico. Sem falar que reverte a idéia de que grafite é uma coisa suja.

A segunda notícia veio do site do Yahoo!. Parece que uma empresa está se preparando para lançar bicicletas elétricas por aqui. A idéia é suprir um crescente mercado de gente que não aguenta mais o transito desta cidade (que tem batido récordes e deixado muita gente perplexa ultimamente), mas também não gosta da idéia de chegar suado no local de trabalho logo de manhã. Embora a notícia não dê palpite sobre o preço, diz que com certeza será menos do que as motos mais baratas. Quem sabe... Agora só falta o governo acordar para a realidade e cooperar com as ciclovias.

quinta-feira, agosto 28, 2008

Citações

"The purest surrealist act would be to go into a crowd and fire at random."
"O mais puro ato surrealista seria entrar no meio de uma multidão e atirar a esmo"
André Breton, 1896-1966

Encontrei essa citação por aí. Imagino que, se a tivesse encontrado na época da faculdade, eu teria levado a cabo a performance que eu pensei em fazer na época do massacre de Columbine.


"O verdadeiro crescimento é a capacidade demonstrada por uma sociedade de transferir quantidades cada vez maiores de energia e atenção do aspecto material da vida para o aspecto não-material e, assim, evoluir em cultura, potencial de compaixão, sentido de comunidade e força democrática."
Arnold Toynbee

Essa eu encontrei no blog de uma amiga. E cheguei a pensar nessa idéia quando escrevi a monografia. Sobre como a arte é a ação de um indivíduo que está em uma sociedade tão bem estruturada, que não precisa mais gastar tempo e raciocínio com coisas basais do tipo comer ou se defender. Não restando outra responsabilidade, ele gasta esse tempo e energia na arte que, de acordo com a minha teoria, não tem função prática alguma.

28ª Bienal de São Paulo

O site da Bienal lançou há algumas semanas a lista dos 40 artistas que participarão da 28ª Bienal de São Paulo. Escrevi um post enorme a respeito, mas na espera para chegar mais perto da data do evento, acabei dando chance para que meu computador perdesse o arquivo. Cá está minha tentativa de recriá-lo.

Com o nome de 28ª Bienal de São Paulo - Em Vivo Contato, a exposição deste ano tem curadoria de Ivo Mesquita e Ana Paula Cohen. Pessoalmente não conheço muito de ambos, além do fato de que o nome de Mesquita sempre figura entre curadores de renome. Por exemplo, está sempre no edital do Salão de Santo André, que inclui uma área para os participantes votarem em quem será o curador.

O primeiro nome a me saltar à vista foi justamente o da minha orientadora do curso de artes, Dora Longo Bahia. Dora sempre foi, entre os alunos da fundação, uma figura lendária. Capaz de suscitar antipatia e respeito em iguais proporções, sempre rodeada de jovens artistas que atualmente ajudam em seus trabalhos. Em uma matéria no Caderno 2 da semana passada, todos apareciam em um esforço coletivo para cobrir o chão do terceiro andar do pavilhão da Bienal com uma enorme pintura baseada em padrões da arquitetura islâmica. A participação de Dora também inclui um painel onde a cada dia um de seus asseclas colocará uma obra por cima da anterior, com o intuito de criar um trabalho co-autoral.
Sinto falta das pinturas antigas de Dora. De uma época em que ela realmente pintava. Porque isso ela fazia maravilhosamente bem. Mas também não posso dizer que essa nova empreitada grupal não tenha seu charme e apelo.

O segundo andar da Bienal permanecerá completamente vazio, segundo o Caderno 2. A decisão já dotou esta edição da Beinal do apelido de "Bienal do Vazio". Mas tem para mim a cara dos trabalhos de Iran do Espírito Santo. Vindo da cidade de Mococa, no interior paulista, ele tem entre seus trabalhos mais conhecidos, tentativas de preencher espaços vazios e "atacar o padrão arquitetônico moderno de escala humana" [1]. Em exposição recente na Galeria Fortes Vilaça, ele pintou as paredes em 54 tons de cinza, criando uma sensação estranha onde não se sabe exatamente onde estão as bordas e acessos da sala. O resto da galeria permaneceu vazio [2].

A última conterrânea a me chamar a atenção na lista da Bienal foi Rivane Neuenschwander. Seus trabalhos tem aquela dicotomia de serem imagens que evocam leveza e banlidade, mas com detalhes de uma carga poética e emotiva que carrega todo o peso do mundo. Para citar exemplos, seu Andando em Círculos [2000] tinha círculos concentricos de adesivo aplicados ao chão de uma galeria que só eram visíveis depois que visitantes andavam sobre eles e deixavam suas marcas de sujeira. Carta Faminta tinha caminhos feitos em cartas por lesmas que comeram o papel. Em exposição na Fortes Vilaça em 2004, ela forrou as paredes de feltro verde e colocou máquinas de escrever modificadas (as letras substituídas por pontos) onde as pessoas podíam escrever suas mensagens indecifráveis e pregar no feltro [3]. E em Eu Desejo Seu Desejo [2003], ela cobriu as paredes da galeria com fitas de Nosso Senhor do Bonfim, impressas com os desejos de diversas pessoas [4]. Deu pra sentir o que quero dizer? Ela fala de relacionamentos humanos, de linguagem. Do que é pesado e exige delicadeza para entender.
E no entanto, é difícil imaginar que Rivane seja aproveitada em uma megaexposição como a Bienal. Seus trabalhos requerem uma paciência e contemplação, um tempo que não existe em um evento daquele tamanho, com 40 artistas para ver antes do corpo entrar em colapso por causa do cansaço. Minha dica é vê-la primeiro. Ou separar uma segunda visita para isso.

Dentre as surpresas estrangeiras, me surpreendi com a presença da dupla novaiorquina do Fischerspooner. Estava acostumado a ouvir o nome relacionado à música eletrônica, mas nunca soube que se aventuravam nas artes plásticas. A página de Wikipedia dedicada a eles conta a história do grupo, além de comparar seu trabalho ao de bandas como o Kraftwerk e Depeche Mode. Se estas referência forem corretas, podemos esperar trabalhos na Bienal que tenham uma qualidade técnica forte e temas meio viajantes e malucos. Mas não posso dizer ao certo, porque nunca vi trabalhos visuais deles. Uma procura no Google pode revelar coisas interessantes...

Meu deleite nesta edição da Bienal com certeza será a francesa Sophie Calle. Fui apresentado ao trabalho dela enquanto pintava meus retratos. Mais especificamente, quando contei a um professor o processo de stalkear e fotografar Lilian para o segundo retrato da série que pintei. Posteriormente escrevi um pouco sobre cada mulher retratada. Sophie fazia algo similar. Ela perseguia pessoas e documentava sua existência com fotografias e anotações. Na era pré-internet, era preciso fazer tudo isso pessoalmente, descobrindo os detalhes pela proximidade física com a pessoa.
Sua página de Wikipedia conta sobre alguns de seus trabalhos, muitos do quais despertam em mim a vontade de fazer coisa similar. Em Address Book [1983], ela faz cópias de uma agenda encontrada na rua antes de devolvê-la ao dono. Passa então a ligar para os contatos e perguntar a respeito do sujeito, tentando conhecer sua personalidade através dos conhecidos. Tudo é documentado com fotografias dele em atividades cotidianas. O homem em questão ameaçou processar Calle e forçou o jornal que tinha escrito sobre o trabalho a publicar uma foto da artista nua como retaliação. Duvido queCalle, que sempre se interessou muito por experiências de intimidade e identidade, tenha se incomodado com o fato.
Em The Hotel [1981], Sophie se empregou como camareira em um hotel e fotografou a bagunça criada pelos hospedes, como expressão da tentativa de cada pessoa em transformar os espaços frios e o conforto impessoal de quartos de hotel e dotá-los de identidade e familiaridade. Personalizar o genérico.
O que me interessa em Sophie Calle, além da identificação com uma stalker muito mais experiente, é o fato dela conseguir usar o status de arte para transmutar o que seria um comportamento socialmente condenável em algo de um relativo valor. Ao publicar suas conclusões, ela deixa de ser uma sociopata e torna-se artista. Quão tênue é essa linha?

E por falar em comportamentos estranhos, talvez o destaque desta Bienal fique para a iugoslava Marina Abramovic. Com uma daquelas infâncias conturbadas que normalmente geram psicóticos ou gênios da arte, ela começou a fazer performances em 1973, com sua série de apresentações intituladas Rythm (Ritmo). Cada uma testava os limites físicos e de consciência da artista. Na última e mais controversa destas performances (Rythm 0 [1974]), Marina colocou à disposição do público 72 objetos em uma mesa, para que fossem usados à vontade em seu corpo por 6 horas. O público inicialmente reagiu com pudor e respeito, mas à medida que as horas avançavam e a artista não esboçava reação, os atos ficaram cada vez mais violentos, com pessoas enterrando espinhos de rosa na pele da artista, cortando suas roupas e cabelo e alguém apontando-lhe ao rosto uma arma com uma única bala. Após seis horas, a artista se levantou, causando grande alvoroço entre o público, que fugiu temendo alguma retaliação.
Em 1976, Marina Abramovic conheceu o alemão Uwe Laysiepen (apelidado Ulay), com o qual manteve um relacionamento de forte teor metafísico durante pouco mais de uma década. Faziam tudo juntos: vestiam-se como gêmeos, moravam juntos, colaboravam em trabalhos artísticos. O relacionamento em si funcionou como um grande experimento artístico, onde ambos tentavam anular seus próprios egos para serem reconhecidos como uma entidade única, assexuada, Abramovic/Ulay.
Em 1988, realizaram seu último trabalho co-autoral. Como um meio de acabar um relacionamento extremamente simbólico, organizaram uma performance na Grande Muralha da China. Ulay começou no deserte de Gobi. Marina no Mar Amarelo. Cada um caminhou seu trajeto da Grande Muralha e, ao se encontrarem no meio, se despediram e voltaram a existirem como pessoas separadas.
Mais recentemente, Marina comprou um teatro em Hudson, perto de Nova Iorque, onde pretende criar uma ONG para a preservação de arte performática. Imagino que o trabalho nesta Bienal tenha algo a ver com essa nova empreitada.

A 28ª Bienal de São Paulo - Em Vivo Contato acontece de 26 de Outubro a 6 de Dezembro, no Parque do Ibirapuera. Ainda não tenho certeza, mas se repetirem a iniciativa dos anos anteriores para atrair o público, a entrada será gratuita.

quarta-feira, agosto 27, 2008

Com a chegada do segundo semestre, começam a se intensificar as conversas sobre política. Mas as notícias do mundo da democracia são cada vez mais desanimadoras. Não vou me demorar muito no assunto porque, como todo mundo sabe, eu faço parte daquela geração de adolescentes desiludidos e apáticos com a política nacional, que acreditam realmente que todos os políticos são de fato iguais. Igualmente corruptos.

Há algumas semanas li uma notícia falando da mais nova peripécia do Berlusconi na Itália. O político, conhecido entre outras coisas por seus escândalos de infidelidade, ordenou que pintassem por cima de um quadro histórico (calma, era uma cópia...) no palácio do governo italiano, para esconder um seio à mostra de uma alegoria da verdade. Alardeou seu pudor com requintes de demagogia, e só conseguiu o escárnio da mídia (pelo menos da parte da mídia não controlada por ele...), que apontou o fato óbvio dele estar literalmente “encobrindo a verdade”.
Para mim, a questão que mais me chocou é: como diabos reelegeram o Berlusconi????? Lembro de quando eu estive por lá em meio ao primeiro turno das eleições italianas, e de ver Sara, uma das minhas colegas de apartamento, pulando de alegria e bradando para a vizinhança ouvir porque viu na televisão que Berlusconi perdia o primeiro turno. Lembro de não ter encontrado um só italiano consciente que respeitasse o político. Lembro de aulas sobre atualidade italiana onde me explicavam a mudança terrível que ele provocou na política italiana, inaugurando no país a época onde se votava no outro candidato, mesmo que ele não fosse decente, só para que este monstro não ganhasse (coisa que no Brasil já se faz há anos, mas que lá ainda era impensável). A manobra de mídia que ele deve ter empreendido deveria ser estudada e ensinada em escolas de publicidade.

Deste lado do atlântico, não bastou para os americanos terem oito anos de administração Bush, de um presidente que sempre aparece segurando livros de ponta-cabeça e balançando a bandeira americana ao contrário nas olimpíadas. Eu já não tinha digerido o fato deles reelegerem também este monstro e aceitarem o conseqüente declínio contínuo da imagem internacional do país. Agora parece que eles irão persistir no erro, elegendo para o próximo mandato um outro republicano. Veja bem, meu problema não é com os republicanos. Tenho lá meu lado conservador também e acho que o oba-oba dos democratas às vezes é meio extremo. O problema não é com as ideologias partidárias, mas com os candidatos em si.
De um lado, temos o republicano McCain. Um gagá de 75 anos que nem sabe quantas mansões tem (quando perguntado por um jornalista, respondeu confuso que sua equipe de assessores teria que responder isso por ele) e que sobrevive do dinheiro da mulher milionária. Com uma retórica senil e problemas crônicos de indecisão. Do outro lado, um político jovem, carismático, com uma língua afiada porém cuidadosa. E negro. O republicano está vencendo nas pesquisas. Porque pode ser gagá, indeciso e fraco, colaborando para a continuidade do declínio do império americano. Mas é branco.

Em terras tupiniquins, nossas eleições para prefeito deram de cara com os candidatos conhecidos. A sexóloga que, por falta de um, abriu dois buracos novos e completamente inúteis na cidade e criou um espetáculo midiático estrelado por seu casamento em ruínas. Outro político cuja carreira tem como principal falha sua própria falta total de carisma. E o terceiro e atual prefeito, que embora tenha feito muito do que precisava ser feito, tomou as medidas impopulares que outros não tinham coragem de tomar (algumas mais acertadas que outras, certo) e não puxou sacos suficientes para ser reeleito. E ao que tudo indica, aparentemente a sexóloga vai levar essa eleição por falta de outra opção. Votarão nela porque anular o voto é feio a papai do céu castiga.

Ta, eu sei que não existe atualmente nenhuma outra opção viável, mas eu realmente não acredito em democracia na era da mídia.

terça-feira, agosto 19, 2008

Bateram no carro de minha mãe recentemente. Ao contrário dos meus infortúnios veiculares, não foi culpa dela. Mas em todo caso, ela ficou com o carro “confiscado” pelo mecânico durante algum tempo, tendo que se virar com o transporte público da cidade.
Sabe aquela cena do Wall•E onde o gordinho John é nocauteado fora da cadeira computadorizada pelo protagonista e, livre das telas e da programação, passa a perceber todo um mundo à sua volta que ele não sabia que existia? O acidente de trânsito teve um efeito similar em minha mãe. Mas falo sem tanta ironia, afinal, eu mesmo tive essa mesma experiência epifânica no meu primeiro de três acidentes automobilísticos (porra, como é que eu ainda vivo?). Segundo ela (e eu mesmo...), é perceber que você estava saindo da clausura do apartamento para a bolha do carro, e deste para o cárcere do escritório. Livre do calor, da estafa, dos pedintes e da publicidade. Mas também privado do contato humano, das novidades do bairro, das miríades de pequenas histórias acontecendo lá fora.
Recentemente, a questão tinha ganhado ainda outra conotação: com o trânsito cada vez mais insuportável, aquela hora no carro era sua dose diária de stress e perda de tempo em uma cidade onde tempo é um luxo. No transporte coletivo, havia tempo para ler, organizar os pensamentos, observar ou fechar os olhos. Tendo descoberto um ônibus que ia da porta de casa até o trabalho, ela decidiu que, mesmo após a volta do carro, passaria a usar o transporte público mais frequentemente.

Meu pai, que recentemente passou a trabalhar em casa, teve epifania similar ao ver que gastava menos tempo e dinheiro tomando um transporte coletivo em vez de procurando onde estacionar seu avantajado veículo. Aderiu facilmente ao estilo de vida do transporte público.

Eu mesmo tenho praticado isso desde meus acidentes. No meu caso, soma-se às benesses a questão financeira, já que me sai mais em conta tomar o ônibus do que abastecer o carro (mesmo a álcool) toda semana. Li só nesse ano mais do que eu lia obrigatoriamente no colégio, tudo durante meu trajeto entre casa e trabalho.

Daí me passaram há alguns meses o site do Apocalipse Motorizado. O site conta, sem poupar exageros teatrais de estilo dignos do panfletismo ideológico, sobre a batalha travada diariamente entre ciclistas e motoristas. Os ciclistas, claro, são apresentados como coitados subversivos sem apoio do governo. Os motoristas são demonizados, recebem apoio da “mídia motorizada” que vê como causa do trânsito tudo menos os próprios automóveis e convence a classe burguesa a perpetuar a “carrocracia”. Não digo que ele esteja errado. Principalmente depois da vergonha [1][2]que foi o primeiro Naked Bike Ride na cidade (e não estou falando dos ciclistas despudorados...). Mas os exageros causam em quem lê um impulso de desdenhar o conteúdo.
Exageros e linguajar panfletário aparte, quem conseguir ler o site como se lê uma Veja ou um Estadão (com bom senso e ignorando os dogmatismos), vai encontrar um site com uma mensagem clara e muito atraente: a bicicleta é um meio de transporte formidável. Ela resolve o trânsito, não polui, não gasta dinheiro e promove a saúde.
De fato, vivi esse estilo de vida pedalante durante algum tempo em Londres, onde os carros respeitam os pedestres e ciclistas, e achei muito divertido e saudável. Consegui, aproveitando-me do caos aéreo da época, trazer comigo uma daquelas bicicletas dobráveis [1] [2]. E agora estou aqui, há alguns meses tentando criar coragem para comprar o resto do material (capacete, luzes, essas coisas) e implementar esse estilo de vida na minha rotina, apesar de saber que a segurança por aqui não é tão garantida. Não acho que me tornarei tão fervoroso quanto o autor do Apocalipse, mas não posso negar que sou seduzido pela possibilidade utópica de começar a converter cada vez mais pessoas para essa modalidade de transporte diário e ver o trânsito e o ar da cidade melhorarem gradualmente.

sábado, agosto 16, 2008

2000e8 ao vivo

Grupo 2000e8

Tive uma grata surpresa esta semana quando passei na Escola São Paulo. A produtora das exposições deles, Helena, ma falou que haveria uma palestra sobre pintura com a Ana Elisa Egreja e Renata de Bonis. O nome de Ana Elisa me pareceu familiar, porque conversei com uma prima dela em uma vernissage na Luisa Strina há alguns anos. Resolvi dar uma passada por lá.
A grata surpresa foi perceber, assim que cheguei, que a palestra era a primeira de um ciclo de cinco palestras com os integrantes do grupo 2000e8 (aquele). Era a chance que eu esperava para poder entrar em contato e conversar!
A palestra foi ótima.
Ana Elisa Egreja me lembrou fisicamente a personagem de Annabella Sciorra em What Dreams May Come. Comentou sobre suas pinturas com estampas [1] e sobre seu trajeto, de uma pintura mais geométrica e abstrata, para o surgimento desses pássaros que se tornaram seus personagens e a fase atual, onde os pássaros figuram mortos e a profusão de detalhes das penas e cores passa a ser outra estampa sobre a estampa do fundo, deixando meu confusa a relação figura/fundo. Muito se falou entre os que assistiram à palestra sobre a relação dela com a morte e uma beleza vinda da figura morta. Porém ela parecia querer mais procurar um meio de transformar aquela ave viva em forma pura, sem vida, do que pesquisar uma estética mórbida.
A sorridente Renata de Bonis mostrou suas pinturas de paisagens [1] com as cores do Morandi, inspiradas em sua viagem à Europa. Reconheci na experiência dela a minha, de estar na neve pela primeira vez, de peregrinar até cidades que ninguém ouviu falar atrás de obras de arte remotas.

Ambas as linhas de pesquisa tinham um detalhe em comum na procura por uma espécie de homogeneidade. No caso de Renata, pela subtração de cores e estímulos até atingir um estado neutro, onde há muito pouco estímulo entre uma figura e outra. Assim, colocando apenas o mínimo necessário para diferencias a paisagem branca, ela chega em um homogêneo nada. No caso de Ana Elisa, pela adição de uma profusão de cores e estímulos até que nenhum centímetro da tela esteja livre de detalhe. E assim, tentando anular a diferença entre espaços preenchidos e vazios, ela também chega em um homogêneo nada (tudo).

Após a palestra, fui bater papo com o grupo. Lembrava de muitos dos rostos da faculdade de artes. Mas não tinha idéia de que faziam pintura também. Todos pareceram muito abertos à conversa, riam, contavam suas experiências. E no meio de tudo fui lembrar do post que tinha escrito por aqui. Ana Elisa chegou a lembrar do meu nome em relação ao texto, que eles tinham descoberto através do Google e lido há algum tempo. Medo de talvez ter escrito algo pejorativo... Mas ao mesmo tempo, me senti feliz de saber que minhas linhas estava indo além dos meus amigos próximos.

A próxima palestra do Grupo 2000e8 acontece no dia 12 de Setembro, às 19:30, lá na Escola São Paulo. Desta vez, com Rodolpho Parigi e Rodrigo Bivar.

quarta-feira, agosto 13, 2008

Jogos abstratos - o Jogo da Vida de Conway

Minha monografia de conclusão da faculdade de publicidade deveria ter sido sobre videogames e a tentativa de defini-los como uma forma de arte junto do cinema. Para fazer isso, precisei definir o que eu considerava arte. A definição cresceu tanto, que tornou-se o objetivo principal da monografia e os jogos passaram a ser apenas um capítulo. Mas dentro desse capítulo, eu mencionei o antigo Tetris, dizendo que se os jogos eram uma forma de arte, o Tetris seria sua variação abstrata. Isso porque o jogo não conta uma história como a maioria dos outros. Ele simplesmente dá uma tarefa, um conjunto de regras, e você que se vire pra cumprir. Não precisa disfarçar isso de uma história bonitinha com moral e tudo. A idéia não é originalmente minha: Stephen Poole já a mencionou no seu ótimo Trigger Happy. Mas gostei tanto da comparação, que passei a me interessar muito por jogos abstratos. Infelizmente, não encontrei muitos, mas nessa semana achei em um blog por aí uma imagem que prontamente reconheci. Era uma versão do Jogo da Vida do matemático britânico John Horton Conway.
O Jogo foi criado em 1970, baseado em um problema teórico de outro matemárico chamado John von Neumann, sobre uma máquina hipotética que pudesse se multiplicar. A variação de Conway considerou que tal máquina o fizesse interagindo com outras. Os cálculos e o jogo matemático que surgiram como consequência dessas hipóteses deram origem ao jogo de Conway, que serve como metáfora de interação entre entidades e inaugurou um novo campo de estudo na matemática, o de automatos celulares (lembre-se de fractais, partes que agem para formar um todo), além de considerações nas áreas de biologia, filosofia e sociologia.
Na verdade, não dá pra chamar a obra do Conway exatamente de um jogo no sentido popular da palavra, porque não há objetivo, e nem uma forma de vencer ou perder. Trata-se de um grid (teoricamente infinito) onde cada quadrado pode ser "ligado" (vivo) ou "desligado" (morto). A partir daí, quatro regras entram em ação:

1. Qualquer célula viva com menos de dois vizinhos vivos morre de solidão
2. Qualquer célula com mais de três vizinhos vivos morre por superpopulação
3. Qualquer célula com dois ou três vizinhos passa inalterada para a próxima geração
4. Qualquer célula morta com exatos três vizinhos vivos passa a viver na próxima geração.

O jogador então aciona o jogo para que ele calcule a progressão das próximas gerações.
E porque uma coisa tão simples é chamada de Jogo da Vida? Porque, à medida que jogamos o jogo, podemos notar o surgimento de entidades maiores, compostas destas entidades celulares, com comportamentos específicos e às vezes bem complexos. São conjuntos de células que navegam pelo grid mantendo seu número de células e avançando algumas casas a cada n gerações, conjuntos que ficam no lugar e resistem ao "ataque" de conjuntos próximos, conjuntos que alternam entre várias outras formas e retornam à forma original, conjuntos que anulam outros, uma infinidade de entidades.

Foi depois de ter visto esse jogo no colégio que comecei a cogitar a hipótese de que a vida como se acredita, aquela energia mágica e inexplicável, talvez fosse algo muito mais simples que ninguém queria aceitar. Uma evolução, ao longo de bilhões de anos, de processos naturais mais simples se acumulando para gerar processos mais complicados.

sábado, agosto 09, 2008

Ontem acordei com a abertura das olimpíadas de Pequim passando na TV. Não importa quantas instâncias do fenômeno eu veja, é sempre impressionante se perder naquele mar infinito de chineses muito parecidos. Vendo a infinidade geometricamente perfeita de chineses se apresentando, meu pai comentou em frente à TV: "dizem que são mais de 2.000 pessoas só nessa apresentação. Mas isso pra eles não é nada". De fato. E ainda assim, em uma cultura que preza pela homogeneização de seus integrantes, sugem vez por outra alguns artistas que se destacam da massa.
Fui escarafunchar em algo que eu tinha guardado no quarto. O Caderno 2 do Estado do dia 21 de Julho tinha uma matéria de capa falando do bairro 798 em Pequim, um bairro que, segundo a manchete, "reúne o maior número de artistas, estúdios e galerias e parece praticamente imune à rígida censura do país". Entre a variedade de nomes inpronunciáveis e imemorizáveis do texto, encontrei algumas fotos de obras que eu reconheci ter visto em galerias por aí. Reconheci de cara (perdoem a tirada cretina) os retratos de Zhang Xiaogang, os rostos com uma seriedade serena em preto e branco e um único integrante da família destacado por cores. Todos com o característico uniforme do comunismo chinês. E se estas obras me pareceram muito sérias ou melancólicas, não pude evitar de abrir um sorriso diante dos quadros de Yue Minjun. Daria pra falar bastante dele. Sobre como, por definição, ele pega imagens (até mesmo outros quadros famosos) que retratam algum tipo de violência, e substitui todos os rostos pelo seu próprio viso estupidamente sorridente. Ah! Ele também "apaga" todas as armas da cena, deixando os atiradores empunhando nada em direção às vítimas. A bizarra "edição de imagem" de Minjun faz lembrar a forte censura chinesa, que substitui o que não quer mostrar por coisas "mais amenas" e patrióticas,auto-referentes (como o fato do artista pintar a ele mesmo). E no entanto, os rostos sorridentes me causam uma interessante ambiguidade, porque ao mesmo tempo me parecem muito macabros em sua repetição e ignorância da violência, mas me fazem sorrir junto com esses personagens e suas bocas descomunais.

A grande maioria das obras citadas no jornal faz alguma referência ao governo socialista, ao massacre da Praça Tiananmen em 1989, à censura. São obras com uma forte ligação com a realidade dos artistas, um forte teor político, ainda que seja difícil tirar impacto e força de fatos políticos que aconteceram há mais de vinte anos. São trabalhos pra gerar questionamento. Assim como, suponho, seja toda essa olimpíada.

O artigo me fez lembrar de uma exposição sobre arte oriental que aconteceu na faculdade de arte há alguns anos. Vendo as obras de artistas cujos nomes não anotei, tive a impressão de estar diante de um conjunto de valores estéticos bem diferentes dos ocidentais. Tanto na procura do que é belo, quanto do que é artisticamente relevante. Uma cultura que ainda era fortemente ilustrativa e realista, mas muito menos alienada ou conformada.

quinta-feira, agosto 07, 2008

E por falar em grafite, um dos expositores deste ano no FILE (Festival Internacional de Linguagem Eletrônica que começou na terça, dia 5) é o coletivo novaiorquino Grafitti Research Lab (que tem sua vertente brasileira). Pelo que entendi, trata-se de um grupo realmente dedicado a transformar o modo como o grafite é percebido, usando e abusando de tecnologia de ponta. No Festival deste ano, o grupo usará tecnologia laser para projetar inofensivas (apenas no quesito mídia, não no conteúdo...) em alguns dos prédios e monumentos históricos da cidade. Mais detalhes sobre o assunto podem ser encontrados no site do Festival, que infelizmente para muitos, está em um inglês macarrônico. Mas pelo que entendi, o grupo só estará apresentando seu projeto até amanhã, dia 8, e os locais não são abertamente divulgados no site, embora a Av. Paulista tenha aparecido como forte candidata.

Mas além desse experimento com grafite que tem roubado a cena, o Festival está cheio de outras coisas interessantes. O tema desse ano, explicitado pela imagem em vermelho berrante no início do site do Festival, gira em torno da inovação do cinema 4K, uma forma de altíssima definição de vídeo digital que produz imagens com mais de 8 milhões de pixels (4 vezes a definição do Blu Ray e 24 vezes a de uma TV normal). Pelo que andam dizendo nos jornais, a técnica já chega a se equiparar a filmes produzidos em película de 35mm, com qualidade fotográfica.
Bom, eu tenho um pequeno grau de miopia e astigmatismo, e mesmo com meus óculos de lentes perenemente engorduradas, não consigo enxergar tanta definição assim. Ou seja, tanta tecnologia me parece tão relevante quanto comprar uma Ferrari em São Paulo: você gasta uma grana, não usa todo o potencial do produto por limitações técnicas, e só tem o benefício de se gabar para os amigos. Mas na verdade estou reclamando sem ter experimentado. Pelo que li nos jornais, a vantagem da tecnologia é que ela permite a definição da película de 35mm, sem o efeito de "flickering" da passagem entre frames e sem os chiados, riscos e defeitos da mídia física. E tem ainda uma outra vantagem bem palpável sobre o método anterior: a película precisa ser revelada e digitalizada para ser editada, e isso leva tempo. A tecnologia 4K permite que o cinegrafista grave a imagem e já a tenha pronta para edição em questão de minutos (desde que o computador aguente todo o processamento...).

Outros três assuntos me chamaram a atenção nessa edição do FILE, embora em menor intensidade.
O primeiro foi a presença de uma colega minha do curso de artes, Anaísa Franco. Formou-se do curso com um trabalho em arte eletrônica que misturava robótica, realidade virtual e internet, chamado Spiderrr. Não tenho certeza dos detalhes, mas lembro que a aranha em questão simbolizava agentes de busca online que vagam pela "teia" da web atrás de determinada informação. Gostaria muito de ver o quanto aquele trabalho evoluiu da forma primária que vi na faculdade. Mas ela trouxe outro trabalho para o FILE: uma peça intrigante e muito simbólica chamada Connected Memories. Tive alguma dificuldade de entender o inglês de Anaísa, mas entendi que a obra é composta de duas cabeças de acrílico cheias de equipamentos eletrônicos que conversam entre si. Sensíveis à luz, as cabeças reagem à presença de pessoas no recinto, emitindo luzes coloridas para representar emoções. Cada uma tem receptores Bluetooth, para que os visitantes transfiram para elas seus arquivos de imagem e som, que são reproduzidos por sistemas de voz sintética e TV e entram para a memória expansiva da obra, passando a fazer parte da conversa entre as duas cabeças. E, de certa forma, passando a fazer parte de uma conversa maior, entre todos os que entraram em contato com a obra. Não sei se Anaísa tem a noção completa da força da obra, que fala de globalização, da era da comunicação, mas também tem um quê de solidão, da dificuldade que as pessoas têm de transmitir os dados (conceitos, emoções, vontades) que estão dentro delas para dentro de outras pessoas. Ah, se todo mundo tivesse um receptor Bluetooth ligado no cérebro...

A segunda coisa que me chamou a atenção foi o FILE Innovation. Uma novidade na programação do Festival, o programa contempla obras que transitam entre a arte, a tecnologia, e a economia, procurando finalidades comercializáveis e práticas para as obras. Quem chegou a ler a minha monografia e a a hipótese de que toda arte não tem finalidade prática perceberá o quanto essas obras chegam perigosamente perto de anularem sua natureza de obras de arte. A discussão deve render boas reflexões sobre o assunto.

Por último, não tenho certeza desde quando, mas há algum tempo que o FILE vem divulgando jogos em suas edições. O site deste ano diz que o evento conta com 50 jogos eletrônicos experimentais e artísticos. E o que seriam jogos experimentais e artísticos? Isso é assunto para um próximo post...