Socorram-me: estou virando idealista panfletário...
Quando vi o novo comercial do Axe recentemente, percebi o quanto este e todos os outros da linha principal deles denegriam a imagem masculina. Quer dizer, trata-se da premissa publicitária básica: use nosso produto e seja sobrenaturalmente vitorioso. Essa vitória, nesse caso, traduz-se em um número absurdo de mulheres se objetificando aos pés do consumidor homem.
Que o Axe não faça muito sucesso no consciente feminino, isso já é claro: um produto que promove a objetificação de mulheres que entram em transe diante de um homem perfumado com fragrâncias baratas deveria no mínimo chamar a atenção raivosa de algumas feministas.
Mas eu chamo a atenção para como o produto retrata os homens. Seres tão fracos e insignificantes, que precisam de um produto químico para lobotomizar mulheres. Mas principalmente seres que, mais do que procurar seu próprio aperfeiçoamento, só procuram uma coisa: sexo, sexo, sexo. Com o maior número de mulheres e com o menor nível de comprometimento possível, como se eles dessem conta de tudo isso. Porque afinal, homem só pensa nisso, néam? Pessoalmente, eu gosto de sexo descompromissado, mas daí pra promover isso como a razão da existência, já é meio humilhante e vazio demais.
Bits and pieces of my life that everyone ignores when I speak, but someone reads when I write.
segunda-feira, março 30, 2009
sexta-feira, março 27, 2009
The Path
E depois que a Electronic Arts lançou o jogo Alice em 2000, baseado obviamente na famosa personagem, agora chegou a vez da Chapeuzinho Vermelho invadir o mundo dos games. O game The Path compartilha o visual macabro do Alice, e aquela deliciosa sensação de perverter uma parte da infância quando chega a adolescência. Ele parte da premissa da história antiga da Chapeuzinho e modifica algumas coisas para agregar detalhes interessantes. A diferença da história que conhecemos? Chapeuzinho é dividida em seis personagens, mulheres em diferentes idades, da garotinha de nove anos da história original a uma mulher de vinte ciente da sua sexualidade. Cada uma destas irmãs tem um nome que remete ao vermelho (Robin - passaro com manchas vermelhas na penugem, Ginger - gíria para ruiva, Rose - a rosa, Ruby - a jóia rubi, Scarlet - inglês para carmin, Carmen - relativo à cor carmin). As irmãs conseguem chegar à casa da avó mais rápido se cruzarem pela floresta em vez de continuar no caminho. E a floresta está cheia coisas que despertam a curiosidade de jovens garotas. Mas nela encontra-se o lobo. O lobo é de fato um lobisomem, ou mais precisamente um homem selvagem. E homens selvagens fazem coisas ruins a jovens garotas.
Um jogo sobre o feminino, sobre crescer e sobre sexualidade. Todo feito com o visual e a música que lembra Johnny Hollow. Delícia!
Explorem o site porque vale a pena e vejam também este outro site com páginas específicas das personagens e outras coisinhas escondidas.
Um jogo sobre o feminino, sobre crescer e sobre sexualidade. Todo feito com o visual e a música que lembra Johnny Hollow. Delícia!
Explorem o site porque vale a pena e vejam também este outro site com páginas específicas das personagens e outras coisinhas escondidas.
Ótima dica da Nana, que estou colocando em um post para ficar mais evidente. Trata-se de um texto do Contardo Calligaris que une de forma inesperada os meus comentários sobre o Masculismo e outro assunto favorito meu: os atiradores adolescentes nas escolas americanas (e européias, de acordo com ele). O texto foi originalmente publicado na Folha, mas dá pra ler ele aqui.
quinta-feira, março 26, 2009
Jolly good!
Dizer que é aqui que tudo começou seria besteira.
Há pouco mais de um ano, já desiludido e insatisfeito com a minha vida na época (que não mudou muito até hoje...), fiquei sabendo de uma feira de intercâmbio perto da agência. Apareci por lá e não vi nada tão interessante. Essas feiras normalmente são voltadas para pessoas em áreas mais corporativas, estudantes de administração, coisas assim. Peguei alguns folhetos de faculdade com cursos de arte e me dirigi à saída, pronto para esquecer de tudo. Na porta, uma barraquinha distribuía folhetos do consulado britânico.
Acelerando a história: seis meses depois eu estava assistindo palestras sobre a Academy of the Arts em Londres, uma faculdade de arte que formou, entre outro, Anish Kapoor e Lucian Freud, dois dos meus ídolos. A gama de cursos possíveis era imensa: de cursos de idiomas, passando por intercâmbios de graduação, cursos de extensão e até mestrados. Graduações, eu já tenho duas. Restava-me a pós.
O raciocínio era relativamente simples: se a publicidade não me deu satisfação profissional nem dinheiro, eu ia voltar ao âmbito das artes. Se eu ia ganhar pouco nos dois, eu preferia ser um artista a um assistente de arte medíocre. Pelo menos a satisfação pessoal eu garantiria. Mas a única forma de fazer isso e se dar relativamente bem seria voltar a ter as chances e o momento que eu desperdicei na faculdade. A pós-graduação apareceu então como uma oportunidade de voltar ao ambiente acadêmico e fazer novos e melhores contatos, mas desta vez com a cabeça mais madura para aproveitá-los. O fim do raciocínio era simples: por que fazer isso neste país que eu desdenho, quando eu tenho o inglês, o passaporte e agora a chance de fazê-lo na Londres que eu amei?
A questão era: será que o meu trabalho tinha densidade para um mestrado? Foi um pouco por causa disso que eu comecei a realmente desenvolver e estudar as questões do Masculismo. O trabalho precisava de algum estofo teórico. Do contrário seria como a maioria dos trabalhos que estão à venda nas galerias de hoje: possívelmente belos, mas completamente vazios. Nada que entre para a história da arte, nada que mude alguma coisa.
E tome seis meses de correr atrás de documentos, estudar o Masculismo, elaborar um projeto, montar portfólio. Até tirei férias da agência: precisava de dedicação total.
Como tudo na vida de paulista, às duas da manhã de hoje eu estava terminando a montagem de portfólio. Tudo sempre deixado para o último momento por causa de outras coisas mais urgentes. A idéia era varar a noite se fossse preciso. Mas pelo menos um pouco de disciplina eu tenho, e consegui terminar ainda com algumas horas de sono tranquilo.
13:45 de hoje. O entrevistador chega atrasado (e ele é que é britânico...). E ao final de meia hora estranhamente calma para mim, trocando citações de artistas interessantes e da situação masculina atual, ele me dá um "high-five" como elogio, dizendo que foi uma das entrevistas mais interessantes que ele fez até agora. E isso que ele já esteve em duas outras cidades.
É uma sensação maravilhosa: você sente que daqui em diante pode fazer tudo, que o sucesso é garantido e você é invencível. Sabe quando você realmente percebe que aquele é o seu meio, o assunto que você domina? Não é convencional ou uma saída fácil como ser empresário, mas é meu e eu fui feito para isso. Certamente mais do que para a publicidade.
Até o dia 15, deverei ter uma versão digital do meu portfolio para mandar para Londres com o entrevistador. Mas por hoje chega. Estou terminando esta corrida de mais de seis meses e hoje só quero gozar deste momento de triunfo...
========================
If I were to write here that this is where it all began, I'd be lying.
A little over a year ago, already unsatisfied with the way my life had turned out (and it hasn't actually changed since...), I got word of an exchange program fair happening close to the agency. My visit brought nothing of interest. These fairs are usually devoted to business students and such. I took a few flyers of art courses and headed for the exit, ready to forget it all. At the door, a stand gave out flyers for the British Council.
Fast-forward: six months later I was watching lectures on the Academy of the Arts London, which counted amidst it's graduates personal idols of mine like Anish Kapoor and Lucian Freud. The range of courses was huge: from language courses to exchange programs in graduation, extension courses and even master's degrees. I have two graduate degrees already, so a post-grad course would be the thing for me.
The logic was fairly simple: if advertising never gave me professional satisfaction nor money, I was going back to the arts. If I was going to be paid very little on both, I would rather be an artist than a half-assed art assistant. At least I'd get some personal satisfaction. But the only way to make a new career in arts would be if I went back to the chances and momentum I had in college. The master's degree seemed like the best oportunity to go back to the academy and make new and better contacts, only this time with the maturity to acknowledge and use them. The closing statement in that logic was obvious: why do all that in this god forsaken country when I had the English, the passport and now the chance to do it in my beloved London?
The question was: was my work dense enough for a master's? That was one of the reasons why I started to actually develop and study the matters of Masculism. My work needed some theory to back it up. Otherwise it would be like most of the works for sale in the galleries today: possibly beautiful, but completely empty. Nothing that would make it into the history books, nothing that would change anything.
Then came six months of chasing documents, estudying Masculism, drafting a project, building a portfolio. I even went on vacations at the agency: I needed my full attention on this.
Like everything in the life of the denizens of this city, this project was running late. And at 2a.m. this morning I was still giving my portfolio it's final touches. Everything here is always postponed due to other urgencies. I would stay up all night if I had to. Luckily, my discipline allowed me to finish on time and get a few hours of untroubled sleep.
13:45 today. The interviewer arrives late (and he's the British here...). And at the end of half-an-hour of strangely calm chatter, jousting quotations of interesting artists and the general male situation today, he high-fives me as a compliment, saying it was one of the most interesting interviews he had so far. And he had already been to two other cities.
It's a wonderful feeling: you feel you can do anything from then on, success is guaranteed and you are invincible. Have you ever felt that this was your medium, the subject you know like the palm of your hand? It isn't a conventional and easy answer to a life, like being a businessman on a big company, but it's mine and I was made for this. At least certainly more than I was made for advertising.
I need to have a digitl version of my portfolio done by April 15th to send to London with the interviewer. But enough excitement for today. This is the end of a long six months and today I just want to bask in the glow of this moment.
Há pouco mais de um ano, já desiludido e insatisfeito com a minha vida na época (que não mudou muito até hoje...), fiquei sabendo de uma feira de intercâmbio perto da agência. Apareci por lá e não vi nada tão interessante. Essas feiras normalmente são voltadas para pessoas em áreas mais corporativas, estudantes de administração, coisas assim. Peguei alguns folhetos de faculdade com cursos de arte e me dirigi à saída, pronto para esquecer de tudo. Na porta, uma barraquinha distribuía folhetos do consulado britânico.
Acelerando a história: seis meses depois eu estava assistindo palestras sobre a Academy of the Arts em Londres, uma faculdade de arte que formou, entre outro, Anish Kapoor e Lucian Freud, dois dos meus ídolos. A gama de cursos possíveis era imensa: de cursos de idiomas, passando por intercâmbios de graduação, cursos de extensão e até mestrados. Graduações, eu já tenho duas. Restava-me a pós.
O raciocínio era relativamente simples: se a publicidade não me deu satisfação profissional nem dinheiro, eu ia voltar ao âmbito das artes. Se eu ia ganhar pouco nos dois, eu preferia ser um artista a um assistente de arte medíocre. Pelo menos a satisfação pessoal eu garantiria. Mas a única forma de fazer isso e se dar relativamente bem seria voltar a ter as chances e o momento que eu desperdicei na faculdade. A pós-graduação apareceu então como uma oportunidade de voltar ao ambiente acadêmico e fazer novos e melhores contatos, mas desta vez com a cabeça mais madura para aproveitá-los. O fim do raciocínio era simples: por que fazer isso neste país que eu desdenho, quando eu tenho o inglês, o passaporte e agora a chance de fazê-lo na Londres que eu amei?
A questão era: será que o meu trabalho tinha densidade para um mestrado? Foi um pouco por causa disso que eu comecei a realmente desenvolver e estudar as questões do Masculismo. O trabalho precisava de algum estofo teórico. Do contrário seria como a maioria dos trabalhos que estão à venda nas galerias de hoje: possívelmente belos, mas completamente vazios. Nada que entre para a história da arte, nada que mude alguma coisa.
E tome seis meses de correr atrás de documentos, estudar o Masculismo, elaborar um projeto, montar portfólio. Até tirei férias da agência: precisava de dedicação total.
Como tudo na vida de paulista, às duas da manhã de hoje eu estava terminando a montagem de portfólio. Tudo sempre deixado para o último momento por causa de outras coisas mais urgentes. A idéia era varar a noite se fossse preciso. Mas pelo menos um pouco de disciplina eu tenho, e consegui terminar ainda com algumas horas de sono tranquilo.
13:45 de hoje. O entrevistador chega atrasado (e ele é que é britânico...). E ao final de meia hora estranhamente calma para mim, trocando citações de artistas interessantes e da situação masculina atual, ele me dá um "high-five" como elogio, dizendo que foi uma das entrevistas mais interessantes que ele fez até agora. E isso que ele já esteve em duas outras cidades.
É uma sensação maravilhosa: você sente que daqui em diante pode fazer tudo, que o sucesso é garantido e você é invencível. Sabe quando você realmente percebe que aquele é o seu meio, o assunto que você domina? Não é convencional ou uma saída fácil como ser empresário, mas é meu e eu fui feito para isso. Certamente mais do que para a publicidade.
Até o dia 15, deverei ter uma versão digital do meu portfolio para mandar para Londres com o entrevistador. Mas por hoje chega. Estou terminando esta corrida de mais de seis meses e hoje só quero gozar deste momento de triunfo...
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If I were to write here that this is where it all began, I'd be lying.
A little over a year ago, already unsatisfied with the way my life had turned out (and it hasn't actually changed since...), I got word of an exchange program fair happening close to the agency. My visit brought nothing of interest. These fairs are usually devoted to business students and such. I took a few flyers of art courses and headed for the exit, ready to forget it all. At the door, a stand gave out flyers for the British Council.
Fast-forward: six months later I was watching lectures on the Academy of the Arts London, which counted amidst it's graduates personal idols of mine like Anish Kapoor and Lucian Freud. The range of courses was huge: from language courses to exchange programs in graduation, extension courses and even master's degrees. I have two graduate degrees already, so a post-grad course would be the thing for me.
The logic was fairly simple: if advertising never gave me professional satisfaction nor money, I was going back to the arts. If I was going to be paid very little on both, I would rather be an artist than a half-assed art assistant. At least I'd get some personal satisfaction. But the only way to make a new career in arts would be if I went back to the chances and momentum I had in college. The master's degree seemed like the best oportunity to go back to the academy and make new and better contacts, only this time with the maturity to acknowledge and use them. The closing statement in that logic was obvious: why do all that in this god forsaken country when I had the English, the passport and now the chance to do it in my beloved London?
The question was: was my work dense enough for a master's? That was one of the reasons why I started to actually develop and study the matters of Masculism. My work needed some theory to back it up. Otherwise it would be like most of the works for sale in the galleries today: possibly beautiful, but completely empty. Nothing that would make it into the history books, nothing that would change anything.
Then came six months of chasing documents, estudying Masculism, drafting a project, building a portfolio. I even went on vacations at the agency: I needed my full attention on this.
Like everything in the life of the denizens of this city, this project was running late. And at 2a.m. this morning I was still giving my portfolio it's final touches. Everything here is always postponed due to other urgencies. I would stay up all night if I had to. Luckily, my discipline allowed me to finish on time and get a few hours of untroubled sleep.
13:45 today. The interviewer arrives late (and he's the British here...). And at the end of half-an-hour of strangely calm chatter, jousting quotations of interesting artists and the general male situation today, he high-fives me as a compliment, saying it was one of the most interesting interviews he had so far. And he had already been to two other cities.
It's a wonderful feeling: you feel you can do anything from then on, success is guaranteed and you are invincible. Have you ever felt that this was your medium, the subject you know like the palm of your hand? It isn't a conventional and easy answer to a life, like being a businessman on a big company, but it's mine and I was made for this. At least certainly more than I was made for advertising.
I need to have a digitl version of my portfolio done by April 15th to send to London with the interviewer. But enough excitement for today. This is the end of a long six months and today I just want to bask in the glow of this moment.
quarta-feira, março 18, 2009
Aulas!
Divulguem, divulguem!
E aproveitem, porque não sei quando que eu vou ter outra oportunidade de dar uma dessas!

Prestem atenção: os R$200 são para DOIS MESES de aulas. Tá mais barato do que parece!
E aproveitem, porque não sei quando que eu vou ter outra oportunidade de dar uma dessas!
Prestem atenção: os R$200 são para DOIS MESES de aulas. Tá mais barato do que parece!
terça-feira, março 17, 2009
Privacidade
Nota curta.
Vi nessa semana uma conhecida revista que publicou uma matéria sobre o Twitter, mencionando todas as velhas questões sobre privacidade e exposição na web, e como esta geração atual é uma vítima ao ter sua vida pessoal escancarada na rede.
Caros editores, ninguém está apontando uma arma na cabeça de ninguém e mandando escrever intimidades nas redes sociais. Os fatos estão lá porque os donos desses perfis os colocaram lá. Ninguém é exatamente vítima. Se não quer a invasão de privacidade, faça um perfil bem enxuto, desses que não dizem nada e nem têm foto. Se não quer que o outro saiba do seu pretê, ou que o chefe saiba o quão depravado você é nas horas vagas, não escreva a respeito! Quem tá na chuva é pra se molhar!
Cansei desse papinho...
Vi nessa semana uma conhecida revista que publicou uma matéria sobre o Twitter, mencionando todas as velhas questões sobre privacidade e exposição na web, e como esta geração atual é uma vítima ao ter sua vida pessoal escancarada na rede.
Caros editores, ninguém está apontando uma arma na cabeça de ninguém e mandando escrever intimidades nas redes sociais. Os fatos estão lá porque os donos desses perfis os colocaram lá. Ninguém é exatamente vítima. Se não quer a invasão de privacidade, faça um perfil bem enxuto, desses que não dizem nada e nem têm foto. Se não quer que o outro saiba do seu pretê, ou que o chefe saiba o quão depravado você é nas horas vagas, não escreva a respeito! Quem tá na chuva é pra se molhar!
Cansei desse papinho...
Atualizando
Meu blog sempre anda algumas semanas atrás dos acontecimentos, porque suponho que seja mais importante viver do que nerdear por aqui. Então, hora de atualizar os fatos!
Alguns de vocês já conhecem a história toda: logo depois que voltei da Argentina, passei na casa da Lexy pra resolvermos a contabilidade da viagem. Na saída, roubaram meu carro. Assim, do nada. Ele simplesmente não estava mais lá quando voltei. Estava parado na frente do prédio, sob vigilância das câmeras, trancado e com trava de câmbio e rastreador. E sumiu. Suspeitei de trabalho de profissional, que sabia tirar trava e desativar rastreador. Dei o carro como perdido.
Pra encurtar a história, ele foi encontrado quatro dias depois, há alguns quarteirões de onde tinha sido levado. Fora a fechadura da porta arrombada e o suposto rastreador sumido, estava do jeito que eu o deixara. Até a trava de câmbio ainda estava no lugar. O meliante dirigiu o carro por alguns quarteirões em marcha reversa, e abandonou-o quando percebeu que ficaria muito ridículo e suspeito andar de ré por aí até o desmanche.
Ou seja, voltei a ter carro. Tenho certas limitações até conseguir consertar a fechadura, mas pelo menos ele está aqui. E no entanto, essa história toda serviu para fazer pensar. Passei a tomar ainda mais o ônibus. Descobri que o Google Maps sugere linhas de ônibus com assustadora precisão. Comecei a andar por São Paulo cobrindo longas distâncias como eu fazia na Europa e recentemente na Argentina. Eu gosto de andar. E passei a encorajar outros a fazerem o mesmo. A dependerem menos do próprio carro ou da carona, a andar mais.
E nessas andanças vi daqueles personagens que só se vê nas cidades grandes. A velha indigente da Augusta que passa o dia subindo e descendo a rua, gritando em um gromelô incompreensível que soa como briga de gato. A oriental sem pernas que continua sentada em frente ao mesmo local da Paulista balançando o potinho com moedas desde que eu fazia a faculdade de artes. A nigeriana com um pedaço de pano amarrado em volta da cabeça, entre o nariz e a boca, parecendo um bigode de tecido. E não são só os mendigos. Tem as modeletes esguias andando na Oscar Freire, ex-colegas de faculdade que eu encontro no ônibus e até um quarteto de cordas completo tocando em frente à estação de metrô da Consolação.
A cidade tem suas peculiaridades. E a gente perde muito de dentro do carro.
Alguns de vocês já conhecem a história toda: logo depois que voltei da Argentina, passei na casa da Lexy pra resolvermos a contabilidade da viagem. Na saída, roubaram meu carro. Assim, do nada. Ele simplesmente não estava mais lá quando voltei. Estava parado na frente do prédio, sob vigilância das câmeras, trancado e com trava de câmbio e rastreador. E sumiu. Suspeitei de trabalho de profissional, que sabia tirar trava e desativar rastreador. Dei o carro como perdido.
Pra encurtar a história, ele foi encontrado quatro dias depois, há alguns quarteirões de onde tinha sido levado. Fora a fechadura da porta arrombada e o suposto rastreador sumido, estava do jeito que eu o deixara. Até a trava de câmbio ainda estava no lugar. O meliante dirigiu o carro por alguns quarteirões em marcha reversa, e abandonou-o quando percebeu que ficaria muito ridículo e suspeito andar de ré por aí até o desmanche.
Ou seja, voltei a ter carro. Tenho certas limitações até conseguir consertar a fechadura, mas pelo menos ele está aqui. E no entanto, essa história toda serviu para fazer pensar. Passei a tomar ainda mais o ônibus. Descobri que o Google Maps sugere linhas de ônibus com assustadora precisão. Comecei a andar por São Paulo cobrindo longas distâncias como eu fazia na Europa e recentemente na Argentina. Eu gosto de andar. E passei a encorajar outros a fazerem o mesmo. A dependerem menos do próprio carro ou da carona, a andar mais.
E nessas andanças vi daqueles personagens que só se vê nas cidades grandes. A velha indigente da Augusta que passa o dia subindo e descendo a rua, gritando em um gromelô incompreensível que soa como briga de gato. A oriental sem pernas que continua sentada em frente ao mesmo local da Paulista balançando o potinho com moedas desde que eu fazia a faculdade de artes. A nigeriana com um pedaço de pano amarrado em volta da cabeça, entre o nariz e a boca, parecendo um bigode de tecido. E não são só os mendigos. Tem as modeletes esguias andando na Oscar Freire, ex-colegas de faculdade que eu encontro no ônibus e até um quarteto de cordas completo tocando em frente à estação de metrô da Consolação.
A cidade tem suas peculiaridades. E a gente perde muito de dentro do carro.
quinta-feira, março 05, 2009
Matthew Barney na Escola São Paulo
O americano Matthew Barney divide com o inglês Damien Hirst o título de artista mais influente de sua geração. Mas é difícil compreender seu trabalho tomando apenas uma das obras. Dora me apresentou os trabalhos de Barney em 2002, por meio de seu ciclo de vídeos Cremaster. O termo que dá nome ao ciclo refere-se a um músculo que provoca a descida das gônadas para fora do corpo do embrião masculino em vez de subir no feminino, sendo o acontecimento que define o sexo do feto em formação. O ciclo é composto de cinco vídeos que são uma colagem de imagens muitas vezes bizarras e perturbadoras e que fazem contínua alusão à diferenciação entre os sexos.
O Cremaster ficou conhecido como o trabalho mais famoso de Barney. Pessoalmente, aprendi muito com ele. Sobre mitologia pessoal, criação de sentido através da insistência, simbologia e outras coisas. Mas não vou esmiuçar tudo por aqui, porque a exposição da Escola São Paulo evitou o ciclo. Há livros a respeito e uma ou outra referência, mas no geral, os trabalhos colocados lá falam de outra série de Barney que eu acho filosoficamente mais importante: o Drawing Restraint.
Barney era um atleta na faculdade. Jogava futebol americano e fazia luta greco-romana. Quando resolveu ingressar no curso de arte da faculdade de Yale, trouxe um pouco do conceito de superação de limites físicos do esporte para seu trabalho. Passou a fazer performances onde ele criava impedimentos, tensões e obstáculos para o simples ato de desenhar. Desenhava pendurado no teto, ou tensionado por um elástico que o puxava para longe do desenho, ou saltando de uma cama elástica. Daí os vários sentidos do título da série: "drawing" pode ser compreendido como substantivo (desenho) ou verbo (desenhando) ou ainda outro verbo (atraindo, delimitando, produzindo); enquanto "restraint" também pode ser substrantivo (restrição, obstáculo, limite) e verbo (restrito, amarrado, impedido). "Desenho restringido", "desenhando limite", "delimitando restrições".
É difícil escrever sobre ele sem entediá-los com detalhes muito abstratos ou deixar de fora detalhes importantes. Mas quem sabe uma visita à exposição esclareça bastante coisa. Se alguém topar, eu me ofereço de guia!
MOSTRA MATTHEW BARNEY
De 3 a 13 de março, seg a sex das 10h às 22h, sab de 10 às 19h com sessões às 12h, 16h, 18h e 20h
Escola São Paulo: Rua Augusta, 2239 - Metrô Consolação - São Paulo - SP - Brasil - CEP 01413-000
sábado, fevereiro 28, 2009
Improvisado #26 na Casa das Caldeiras
Demorei pra colocar isso por aqui, mas queria ter tudo já pronto de uma vez.
No último dia 18, realizei a primeira exposição com o foco voltado para a teoria do Masculismo que eu estava lendo até agora. Foi na Casa das Caldeiras, graças ao contato de uma colega de trabalho com um dos integrantes do grupo de jazz Improvisado, que toca lá quinzenalmente e sempre convida artistas plásticos para expor junto das apresentações deles. Nesta edição estávamos eu e Achiles Luciano, um pintor muito gente boa que fazia seus quadros ao vivo com pinceladas bem dinâmicas e coloridas. Eu pude ficar com todo o túnel da Casa das Caldeiras enquanto o Achiles pintava perto do palco com o trio.
Para fazer a ponte entre os retratos e a teoria Masculista, fiz uns cartazes grandes, escritos à mão como se fossem pixação, para dar uma estética condizente com o espaço. Neles, diversos textos, alguns meus e algumas citações e referências. Achei que dava um embasamento filosófico para a coisa toda. No fim do extenso corredor, na chaminé final, extendi o meu Lettin' the Cables Sleep. Achei mesmo que não haveria lugar melhor para ele: resumindo o sentimento de um homem diminuído e infantilizado diante de uma mulher endeusada. Uma conclusão legal para a caminhada teórica nesse túnel. O efeito seria aumentado ainda mais pelo aspecto fálico da chaminé, apontando para o céu, que me lembrava a torre no centro da pintura, apontando para a mulher e representando o anseio do garoto em alcançá-la.
No fim, achei que esse último efeito ficou um pouco prejudicado por questões de montagem. Afinal, eu não podia pregar nada nas paredes do túnel e tive que pendurar a tela como dava. Queria ter colocado ela bem no centro da chaminé, mas não havia nada onde amarrá-la.
De qualquer jeito, a exposição foi boa. Muita gente comentando, vindo falar comigo, lendo e argumentando sobre as coisas escritas. Me deu uma sensação de finalmente ter encontrado o assunto para falar com a minha arte. Saí de lá com uma sensação de realização e algumas boas idéias de novas obras na cabeça.
Aguardem!
Veja as fotos do evento no Flickr (Alguém sabe #comofas pra colocar em ordem depois de ter feito o upload?)!
Abaixo, segue a transcrição dos textos que estavam na exposição:
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Il faut oublier
Tout peut s'oublier
Qui s'enfuit déjà
Oublier le temps
Des malentendus
Et le temps perdu
A savoir comment
Oublier ces heures
Qui tuaient parfois
A coups de pourquoi le coeur du bonheure
Ne me quitte pas (x3)
Moi je t'offrirai
Des perles de pluie
Venues de pays
Où il ne pleut pas
Je creuserai la terre
Jusqu'aprè ma mort
Pour couvrir ton corps
D'or et de lumière
Je ferai un domaine
Où l'amour sera roi
Où l'amour sera loi
Où tu seras reine
Ne me quitte pás (x4)
Je t'inventerai
Des mots insensés
Que tu comprendras
Je te parlerai
De ces amants-là
Qui ont vue deux fois
Leurs coeurs s'embraser
Je te racontrai
L'histoire de ce roi
Mort de n'avoir pas
Pu te rencontrer
Ne me quitte pás (x3)
On a vu souvent
Rejaillir le feu
De l'ancien volcan
Qu'on croyait trop vieux
Il est paraît-il
Des terres brûlées
Donnant plus de blé
Qu'un meilleur avril
Et quand vient le soir
Pour qu'un ciel flamboie
Le rouge et le noir
Ne s'épousent-ils pas
Ne me quitte pas(x4)
Je ne vais plus pleurer
Je ne vais plus parler
Je me cacherai là
A te regarder
Danser et sourire
Et à t'écouter
Chanter et puis rire
Laisse-moi devenir
L'ombre de ton ombre
L'ombre de ta main
L'ombre de ton chien
Ne me quitte pás (x3)
===============
Não Me Deixes
Não me deixes,
É preciso esquecer,
Tudo se pode esquecer
Que já para trás ficou.
Esquecer o tempo
dos mal-entendidos
E o tempo perdido
a querer saber como
Esquecer essas horas,
Que de tantos porquês,
Por vezes matavam a última felicidade.
Não me deixes (x3)
Te oferecerei
Pétalas de chuva
Vindas de países
Onde nunca chove;
Escavarei a terra
Até depois da morte,
Para cobrir teu corpo
Com ouro, com luzes.
Criarei um país
Onde o amor será rei,
Onde o amor será lei
E você a rainha.
Não me deixes, (x4)
Te Inventarei
Palavras absurdas
Que você compreenderá;
Te falarei
Daqueles amantes
Que viram de novo
Seus corações ateados;
Te contarei
A história daquele rei,
Que morreu por não ter
Podido te conhecer.
Não me deixes, (x3)
Quantas vezes
não se reacendeu o fogo
Do antigo vulcão
Que julgávamos velho?
Até há quem fale
De terras queimadas
A produzir mais trigo;
Que a melhor primavera
É quando a tarde cai,
Vê como o vermelho e o negro
Se casam para que o céu se inflame.
Não me deixes, (x4)
Não vou chorar mais,
Não vou falar mais,
Escondo-me aqui
Para te ver
Dançar e sorrir,
Para te ouvir
Cantar e rir.
Deixa-me ser
a sombra da tua sombra,
A sombra da tua mão,
A sombra do teu cão.
Não me deixes.(x3)
==================
E se eu recusasse sexo?
E se eu estivesse a pensar em outro assunto, outro prazer, outro objetivo?
E se eu já tivesse me saciado do corpo alheio? Tudo, até mesmo o sexo, tem um limite de saturação.
“Herege!” é o que me diriam, em outras palavras menos castas (“Viado!”, “Gay!”, “Bicha!”, “Fruta!”)
E não seria apenas a Mulher a me castigar com impropérios, mas o próprio Homem. Ele, que tolera mais facilmente, porém não sem escárnio, que eu seja fraco para a bebida, mas não perdoa a recusa ao sexo.
Oh, como o Homem teme essas palavras! E que nesga de auto-estima tenra e vulnerável é essa chamada masculinidade.
Pense a respeito: tudo que a Mulher precisa fazer é prometer. Sequer precisa cumprir, apenas prometer. A promessa de seu apreço, seu carinho, seu agrado. Em troca disso, o Homem ver-se-á obrigado a fazer qualquer coisa. Ele trará pétalas de chuva de países onde nunca chove.
============================
Há um poema do Drummond sobre um rapaz que tem seu primeiro encontro sexual com uma lavadeira mulata. À noite, ardendo em febre, alucina com uma lavadeira enorme, com peitos enormes, girando pelo quarto. Ou seja, ela o exaure a tal ponto de deixá-lo enfermo: é Mulher demais para um rapaz.
Em outro poema, este de Álvares de Azevedo, ele assiste enquanto uma Mulher dorme, torcendo para que não acorde. Acontece que ele não consegue de fato lidar com ela, com a pessoa que é ela, e quer apenas lidar com sua forma. Teme que ela ria dele: é patético demais para uma mulher.
============================
Depois de assistir Closer, ela divagou longamente sobre Homens e Mulheres.
[...]
Sobre os Homens, disse existirem Homens como Jude Law e Homens como Clive Owen.
Os primeiros eram artistas. Sensíveis, compreensivos. Confortáveis.
Os segundos eram cientistas. Pragmáticos, factuais. Confiáveis.
Ela comentou o quanto gostava de Homens como Clive Owen. Homens massudos, angulosos, decididos. E brutos e certeiros na hora do sexo, porque sexo tinha que ser áspero. Homem que não chora, porra!
Claro que ela sabia que eu era um Homem como Jude Law. Franzino, sorrateiro e sensível.
Na rua, entre os amigos e na minha família, Jude Law. Somos todos e cada vez mais de nós. Kafkianamente patéticos: envelheceremos como Jeremy Irons, o europeu patético por excelência.
===============================
Do “João de Ferro” de Robert Bly
Na década de 1950 supunha-se que o homem devia gostar de futebol, ser agressivo, defender [seu país], não chorar nunca e sempre sustentar a família. Faltava, porém, o espaço receptivo, ou espaço íntimo, a essa imagem de homem. Faltava à sua personalidade certo sentido de fluxo. À psique faltava compaixão, de uma maneira que estimulava a continuação desequilibrada da guerra do Vietnã [...].
O homem da década de 1950 tinha uma visão clara do que devia ser e das responsabilidades masculinas, mas o isolamento e a unilateralidade dessa visão eram perigosos.
Durante a década de 1960 surgiu outro tipo de homem. O desperdício e a violência da guerra do Vietnã fizeram os homens questionar se realmente sabiam o que era um adulto. Se masculinidade significava o Vietnã, queriam eles participar dela? Enquanto isso, o movimento feminista estimulava a que olhassem realmente para as mulheres, forçando-os a se conscientizarem das preocupações e dos sofrimentos que o homem da década de 1950 procurou evitar.
[...]
O homem, a partir da década de 1970, tornou-se mais ponderado, mais suave. Esse processo, porém, não o tornou mais livre. Ele é um bom menino, que agrada não só a sua mãe, mas também a jovem com quem vive. [...] Mesmo hoje, quando por vezes olho para um auditório, talvez metade dos homens jovens sejam o que eu chamaria de frouxos.
Para fazer a ponte entre os retratos e a teoria Masculista, fiz uns cartazes grandes, escritos à mão como se fossem pixação, para dar uma estética condizente com o espaço. Neles, diversos textos, alguns meus e algumas citações e referências. Achei que dava um embasamento filosófico para a coisa toda. No fim do extenso corredor, na chaminé final, extendi o meu Lettin' the Cables Sleep. Achei mesmo que não haveria lugar melhor para ele: resumindo o sentimento de um homem diminuído e infantilizado diante de uma mulher endeusada. Uma conclusão legal para a caminhada teórica nesse túnel. O efeito seria aumentado ainda mais pelo aspecto fálico da chaminé, apontando para o céu, que me lembrava a torre no centro da pintura, apontando para a mulher e representando o anseio do garoto em alcançá-la.
No fim, achei que esse último efeito ficou um pouco prejudicado por questões de montagem. Afinal, eu não podia pregar nada nas paredes do túnel e tive que pendurar a tela como dava. Queria ter colocado ela bem no centro da chaminé, mas não havia nada onde amarrá-la.
De qualquer jeito, a exposição foi boa. Muita gente comentando, vindo falar comigo, lendo e argumentando sobre as coisas escritas. Me deu uma sensação de finalmente ter encontrado o assunto para falar com a minha arte. Saí de lá com uma sensação de realização e algumas boas idéias de novas obras na cabeça.
Aguardem!
Veja as fotos do evento no Flickr (Alguém sabe #comofas pra colocar em ordem depois de ter feito o upload?)!
Abaixo, segue a transcrição dos textos que estavam na exposição:
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Il faut oublier
Tout peut s'oublier
Qui s'enfuit déjà
Oublier le temps
Des malentendus
Et le temps perdu
A savoir comment
Oublier ces heures
Qui tuaient parfois
A coups de pourquoi le coeur du bonheure
Ne me quitte pas (x3)
Moi je t'offrirai
Des perles de pluie
Venues de pays
Où il ne pleut pas
Je creuserai la terre
Jusqu'aprè ma mort
Pour couvrir ton corps
D'or et de lumière
Je ferai un domaine
Où l'amour sera roi
Où l'amour sera loi
Où tu seras reine
Ne me quitte pás (x4)
Je t'inventerai
Des mots insensés
Que tu comprendras
Je te parlerai
De ces amants-là
Qui ont vue deux fois
Leurs coeurs s'embraser
Je te racontrai
L'histoire de ce roi
Mort de n'avoir pas
Pu te rencontrer
Ne me quitte pás (x3)
On a vu souvent
Rejaillir le feu
De l'ancien volcan
Qu'on croyait trop vieux
Il est paraît-il
Des terres brûlées
Donnant plus de blé
Qu'un meilleur avril
Et quand vient le soir
Pour qu'un ciel flamboie
Le rouge et le noir
Ne s'épousent-ils pas
Ne me quitte pas(x4)
Je ne vais plus pleurer
Je ne vais plus parler
Je me cacherai là
A te regarder
Danser et sourire
Et à t'écouter
Chanter et puis rire
Laisse-moi devenir
L'ombre de ton ombre
L'ombre de ta main
L'ombre de ton chien
Ne me quitte pás (x3)
===============
Não Me Deixes
Não me deixes,
É preciso esquecer,
Tudo se pode esquecer
Que já para trás ficou.
Esquecer o tempo
dos mal-entendidos
E o tempo perdido
a querer saber como
Esquecer essas horas,
Que de tantos porquês,
Por vezes matavam a última felicidade.
Não me deixes (x3)
Te oferecerei
Pétalas de chuva
Vindas de países
Onde nunca chove;
Escavarei a terra
Até depois da morte,
Para cobrir teu corpo
Com ouro, com luzes.
Criarei um país
Onde o amor será rei,
Onde o amor será lei
E você a rainha.
Não me deixes, (x4)
Te Inventarei
Palavras absurdas
Que você compreenderá;
Te falarei
Daqueles amantes
Que viram de novo
Seus corações ateados;
Te contarei
A história daquele rei,
Que morreu por não ter
Podido te conhecer.
Não me deixes, (x3)
Quantas vezes
não se reacendeu o fogo
Do antigo vulcão
Que julgávamos velho?
Até há quem fale
De terras queimadas
A produzir mais trigo;
Que a melhor primavera
É quando a tarde cai,
Vê como o vermelho e o negro
Se casam para que o céu se inflame.
Não me deixes, (x4)
Não vou chorar mais,
Não vou falar mais,
Escondo-me aqui
Para te ver
Dançar e sorrir,
Para te ouvir
Cantar e rir.
Deixa-me ser
a sombra da tua sombra,
A sombra da tua mão,
A sombra do teu cão.
Não me deixes.(x3)
==================
E se eu recusasse sexo?
E se eu estivesse a pensar em outro assunto, outro prazer, outro objetivo?
E se eu já tivesse me saciado do corpo alheio? Tudo, até mesmo o sexo, tem um limite de saturação.
“Herege!” é o que me diriam, em outras palavras menos castas (“Viado!”, “Gay!”, “Bicha!”, “Fruta!”)
E não seria apenas a Mulher a me castigar com impropérios, mas o próprio Homem. Ele, que tolera mais facilmente, porém não sem escárnio, que eu seja fraco para a bebida, mas não perdoa a recusa ao sexo.
Oh, como o Homem teme essas palavras! E que nesga de auto-estima tenra e vulnerável é essa chamada masculinidade.
Pense a respeito: tudo que a Mulher precisa fazer é prometer. Sequer precisa cumprir, apenas prometer. A promessa de seu apreço, seu carinho, seu agrado. Em troca disso, o Homem ver-se-á obrigado a fazer qualquer coisa. Ele trará pétalas de chuva de países onde nunca chove.
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Há um poema do Drummond sobre um rapaz que tem seu primeiro encontro sexual com uma lavadeira mulata. À noite, ardendo em febre, alucina com uma lavadeira enorme, com peitos enormes, girando pelo quarto. Ou seja, ela o exaure a tal ponto de deixá-lo enfermo: é Mulher demais para um rapaz.
Em outro poema, este de Álvares de Azevedo, ele assiste enquanto uma Mulher dorme, torcendo para que não acorde. Acontece que ele não consegue de fato lidar com ela, com a pessoa que é ela, e quer apenas lidar com sua forma. Teme que ela ria dele: é patético demais para uma mulher.
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Depois de assistir Closer, ela divagou longamente sobre Homens e Mulheres.
[...]
Sobre os Homens, disse existirem Homens como Jude Law e Homens como Clive Owen.
Os primeiros eram artistas. Sensíveis, compreensivos. Confortáveis.
Os segundos eram cientistas. Pragmáticos, factuais. Confiáveis.
Ela comentou o quanto gostava de Homens como Clive Owen. Homens massudos, angulosos, decididos. E brutos e certeiros na hora do sexo, porque sexo tinha que ser áspero. Homem que não chora, porra!
Claro que ela sabia que eu era um Homem como Jude Law. Franzino, sorrateiro e sensível.
Na rua, entre os amigos e na minha família, Jude Law. Somos todos e cada vez mais de nós. Kafkianamente patéticos: envelheceremos como Jeremy Irons, o europeu patético por excelência.
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Do “João de Ferro” de Robert Bly
Na década de 1950 supunha-se que o homem devia gostar de futebol, ser agressivo, defender [seu país], não chorar nunca e sempre sustentar a família. Faltava, porém, o espaço receptivo, ou espaço íntimo, a essa imagem de homem. Faltava à sua personalidade certo sentido de fluxo. À psique faltava compaixão, de uma maneira que estimulava a continuação desequilibrada da guerra do Vietnã [...].
O homem da década de 1950 tinha uma visão clara do que devia ser e das responsabilidades masculinas, mas o isolamento e a unilateralidade dessa visão eram perigosos.
Durante a década de 1960 surgiu outro tipo de homem. O desperdício e a violência da guerra do Vietnã fizeram os homens questionar se realmente sabiam o que era um adulto. Se masculinidade significava o Vietnã, queriam eles participar dela? Enquanto isso, o movimento feminista estimulava a que olhassem realmente para as mulheres, forçando-os a se conscientizarem das preocupações e dos sofrimentos que o homem da década de 1950 procurou evitar.
[...]
O homem, a partir da década de 1970, tornou-se mais ponderado, mais suave. Esse processo, porém, não o tornou mais livre. Ele é um bom menino, que agrada não só a sua mãe, mas também a jovem com quem vive. [...] Mesmo hoje, quando por vezes olho para um auditório, talvez metade dos homens jovens sejam o que eu chamaria de frouxos.
quarta-feira, fevereiro 11, 2009
João de Ferro 3
Mais do livro (eu sei, tá ficando chato...)
Sutilmente, o autor caiu em uma discussão sobre a figura do pai. Talvez por estar falando do mentor, do exemplo que o jovem homem deveria seguir para atingir a maturidade. Bly já havia falado que, para crescer, o garoto precisava encontrar um "segundo pai", com qualidades e ensinamentos que o primeiro não era capaz de fornecer. Mas no capítulo seguinte, o autor comenta que a situação atual é ainda mais complicada, porque nem mesmo o primeiro pai é como era antes. Há uma "escassez de pai" no mundo atual.
A situação paterna citada é comum a todos nós, meninos e meninas. Veja.
Antigamente, quando a maioria das pessoas tinham trabalhos manuais simples (o pedreiro, o marceneiro, o padeiro), era comum que os pais levassem seus filhos para seus locais de trabalho. Fosse para dar uma folga para as mães ou para ajudar os próprios pais, os filhos eram fisica e simbolicamente transportados do mundo diário da mãe para o do pai. Do feminino para o masculino. Como consequência direta da observação, o menino sabia exatamente o que o pai fazia, recebia conselhos de como fazê-lo da melhor forma, absorvia parte da experiência de vida do pai. Era como se isso fornecesse não só o modelo do que era um homem adulto, mas também desse ao menino uma vantagem técnica, caso ele escolhesse seguir a carreira do pai.
E então veio a era industrial. O homem saía de casa cedo para um local onde as crianças não entravam (exceto por um ou outro dia e sob condições controladas pela empresa). Lá ele fazia uma diminuta parte de um processo que ele não compreendia direito e não sabia explicar ao filho. Ou seja, não era mais a figura do homem poderoso, que controlava todo seu próprio fazer. Mais do que isso, tornara-se tão ingênuo quanto o próprio filho a respeito dos grandes processos. Excluído, diminuído. Agora ele volta tarde para casa, cansado, frustrado e irritadiço. Não ensina nada ao filho, apenas que a vida adulta é fatigosa e desagradável, um ir ao trabalho e voltar para a TV em casa. E no entanto, ele continua a exigir o respeito e a lealdade que os pais de antigamente exigiam. Não faz seu trabalho, mas exige sua recompensa.
O principal disso tudo é que esse sistema cria um vácuo na mentalidade do filho. O que faz o pai durante essas horas todas que o filho não vê? Porque essa atividade o consome tanto se não é tão física quanto, digamos, construir uma mesa ou erguer uma parede em um edifício? O trabalho e a rotina do pai são incompreensíveis e assustadores. Eu mesmo, quando criança, não compreendia a rotina de meu pai. Dizia apenas, em minha expressividade pueril, que ele ficava "escrevendo e lendo". Mas o conteúdo e a relevância dessa atividade literária toda eu desconhecia. É nesse vácuo que os demônios brincam: as suspeitas de que o pai possa estar fazendo algo condenável que ele esconde, de que ele seja corrupto, de que tenha uma amante, de que isso seja de fato a vida adulta. As suspeitas nutrem a figura do pai obscuro. Em Guerra nas Estrelas, o pai ausente e obscuro que depois exige lealdade sem ter direito é chamado de Darth Vader (Dark Father, o pai obscuro).
Estou ainda lendo sobre diferentes reações que os filhos têm diante desse pai escasso. Uma delas, a mais óbvia, é permanecer no mundo feminino, porque a transferência nunca ocorreu. Continuar como o rapaz sensível e bondoso, fortemente ligado à mãe. O homem frouxo. A outra é alçar vôo, ser inspirado a superar a existência pequena e coitada do pai: chegar a um cargo maior que o dele na empresa, bater as conquistas dele e ser inconscientemente mais obscuro e viciado no trabalho do que ele. Porque há essa idéia de que ele sustentou a família mas não foi forte o suficiente para manter sua vitalidade como pai e que o filho acha que pode triunfar onde ele falhou. É possível? Bly ainda não respondeu.
Sutilmente, o autor caiu em uma discussão sobre a figura do pai. Talvez por estar falando do mentor, do exemplo que o jovem homem deveria seguir para atingir a maturidade. Bly já havia falado que, para crescer, o garoto precisava encontrar um "segundo pai", com qualidades e ensinamentos que o primeiro não era capaz de fornecer. Mas no capítulo seguinte, o autor comenta que a situação atual é ainda mais complicada, porque nem mesmo o primeiro pai é como era antes. Há uma "escassez de pai" no mundo atual.
A situação paterna citada é comum a todos nós, meninos e meninas. Veja.
Antigamente, quando a maioria das pessoas tinham trabalhos manuais simples (o pedreiro, o marceneiro, o padeiro), era comum que os pais levassem seus filhos para seus locais de trabalho. Fosse para dar uma folga para as mães ou para ajudar os próprios pais, os filhos eram fisica e simbolicamente transportados do mundo diário da mãe para o do pai. Do feminino para o masculino. Como consequência direta da observação, o menino sabia exatamente o que o pai fazia, recebia conselhos de como fazê-lo da melhor forma, absorvia parte da experiência de vida do pai. Era como se isso fornecesse não só o modelo do que era um homem adulto, mas também desse ao menino uma vantagem técnica, caso ele escolhesse seguir a carreira do pai.
E então veio a era industrial. O homem saía de casa cedo para um local onde as crianças não entravam (exceto por um ou outro dia e sob condições controladas pela empresa). Lá ele fazia uma diminuta parte de um processo que ele não compreendia direito e não sabia explicar ao filho. Ou seja, não era mais a figura do homem poderoso, que controlava todo seu próprio fazer. Mais do que isso, tornara-se tão ingênuo quanto o próprio filho a respeito dos grandes processos. Excluído, diminuído. Agora ele volta tarde para casa, cansado, frustrado e irritadiço. Não ensina nada ao filho, apenas que a vida adulta é fatigosa e desagradável, um ir ao trabalho e voltar para a TV em casa. E no entanto, ele continua a exigir o respeito e a lealdade que os pais de antigamente exigiam. Não faz seu trabalho, mas exige sua recompensa.
O principal disso tudo é que esse sistema cria um vácuo na mentalidade do filho. O que faz o pai durante essas horas todas que o filho não vê? Porque essa atividade o consome tanto se não é tão física quanto, digamos, construir uma mesa ou erguer uma parede em um edifício? O trabalho e a rotina do pai são incompreensíveis e assustadores. Eu mesmo, quando criança, não compreendia a rotina de meu pai. Dizia apenas, em minha expressividade pueril, que ele ficava "escrevendo e lendo". Mas o conteúdo e a relevância dessa atividade literária toda eu desconhecia. É nesse vácuo que os demônios brincam: as suspeitas de que o pai possa estar fazendo algo condenável que ele esconde, de que ele seja corrupto, de que tenha uma amante, de que isso seja de fato a vida adulta. As suspeitas nutrem a figura do pai obscuro. Em Guerra nas Estrelas, o pai ausente e obscuro que depois exige lealdade sem ter direito é chamado de Darth Vader (Dark Father, o pai obscuro).
Estou ainda lendo sobre diferentes reações que os filhos têm diante desse pai escasso. Uma delas, a mais óbvia, é permanecer no mundo feminino, porque a transferência nunca ocorreu. Continuar como o rapaz sensível e bondoso, fortemente ligado à mãe. O homem frouxo. A outra é alçar vôo, ser inspirado a superar a existência pequena e coitada do pai: chegar a um cargo maior que o dele na empresa, bater as conquistas dele e ser inconscientemente mais obscuro e viciado no trabalho do que ele. Porque há essa idéia de que ele sustentou a família mas não foi forte o suficiente para manter sua vitalidade como pai e que o filho acha que pode triunfar onde ele falhou. É possível? Bly ainda não respondeu.
terça-feira, fevereiro 03, 2009
João de Ferro 2
Esse livro que Nana me emprestou fica cada vez melhor. Os paralelos com a minha vida e a situação masculina em geral aumentam a cada página e dá vontade de comentar cada capítulo por aqui. Talvez seja apenas um livro de auto-ajuda bem escrito. Mas confesso que está me fazendo bem.
Na parte onde estou, o garoto da história recebe uma tarefa do João de Ferro que ele não consegue cumprir. Expulso da floresta de modo suave (João de Ferro lhe promete que, se tiver dificuldades, poderá voltar à floresta e gritar por ajuda), o garoto vaga até uma cidade e consegue trabalho como ajudante em uma cozinha. O autor comenta sobre essa mudança brusca, de filho de um rei para ajudante de cozinheiro, e diz que essa "Descida" é muito necessária na formação do homem.
Vou arriscar escrever isso por aqui, porque suponho que já seja hora e se certas pessoas lerem não fará diferença agora: estou planejando minha Descida. Desde que trabalhei no pub em Londres (em uma cozinha, veja que coincidência...), percebi o quanto a minha formação era uma prisão dourada à minha volta. Um dos melhores colégios do país, duas das melhores faculdades, quatro idiomas no total... Tudo isso fazia de mim um esnobe que não aceitaria um emprego qualquer. E eis o resultado: quatro anos de labuta em agências, ganhando pouco, trabalhando como assistente de arte, ilustrador, tradutor e interprete e até revisor de texto, tudo ao mesmo tempo, e recebendo apenas como assistente. Trabalhei em cinco agências diferentes, e ninguém jamais ouviu falar de nenhuma delas ou viu meu trabalho, já que todas trabalhavam com endomarketing, a Sibéria da publicidade...
Pois chega! Em Março terei condições de pagar minhas últimas dívidas e então sairei da floresta. E quero mesmo a liberdade que senti em Londres. Aceitar que esta é minha vida, que não serei gerente de multinacional, ganhador de prêmio de Cannes ou nada disso. Me sujeitarei aos trabalhos humildes, ao status de trabalhador autônomo, aos empregos temporários e mesmo ao desemprego. Se isso me ensinar qualquer coisa e me pagar mais do que esse desrespeito que ganho hoje, serei feliz. Falta-me humildade e não vou esperar a que me joguem no chão para aprender a me levantar.
Na parte onde estou, o garoto da história recebe uma tarefa do João de Ferro que ele não consegue cumprir. Expulso da floresta de modo suave (João de Ferro lhe promete que, se tiver dificuldades, poderá voltar à floresta e gritar por ajuda), o garoto vaga até uma cidade e consegue trabalho como ajudante em uma cozinha. O autor comenta sobre essa mudança brusca, de filho de um rei para ajudante de cozinheiro, e diz que essa "Descida" é muito necessária na formação do homem.
Vou arriscar escrever isso por aqui, porque suponho que já seja hora e se certas pessoas lerem não fará diferença agora: estou planejando minha Descida. Desde que trabalhei no pub em Londres (em uma cozinha, veja que coincidência...), percebi o quanto a minha formação era uma prisão dourada à minha volta. Um dos melhores colégios do país, duas das melhores faculdades, quatro idiomas no total... Tudo isso fazia de mim um esnobe que não aceitaria um emprego qualquer. E eis o resultado: quatro anos de labuta em agências, ganhando pouco, trabalhando como assistente de arte, ilustrador, tradutor e interprete e até revisor de texto, tudo ao mesmo tempo, e recebendo apenas como assistente. Trabalhei em cinco agências diferentes, e ninguém jamais ouviu falar de nenhuma delas ou viu meu trabalho, já que todas trabalhavam com endomarketing, a Sibéria da publicidade...
Pois chega! Em Março terei condições de pagar minhas últimas dívidas e então sairei da floresta. E quero mesmo a liberdade que senti em Londres. Aceitar que esta é minha vida, que não serei gerente de multinacional, ganhador de prêmio de Cannes ou nada disso. Me sujeitarei aos trabalhos humildes, ao status de trabalhador autônomo, aos empregos temporários e mesmo ao desemprego. Se isso me ensinar qualquer coisa e me pagar mais do que esse desrespeito que ganho hoje, serei feliz. Falta-me humildade e não vou esperar a que me joguem no chão para aprender a me levantar.
quarta-feira, janeiro 28, 2009
Ocorreu-me um insight hoje, observando arte na internet.
Essa dificuldade de crescer está presente na arte de hoje. O que foi feito de realmente revolucionário e novo ultimamente? As poucas formas de arte realmente novas que me vêm à cabeça quando penso nas últimas décadas têm uma característica muito pueril. Fala-se muito de toy art, brinquedos compreendidos como obras de arte. Muita coisa que faz referência ao video game. Mesmo o grafite já foi considerado coisa de adolescente vândalo. Tá certo, concordo: essa arte nem sempre é feita por homens. Então pode-se dizer que a crise de maturidade é generalizada para ambos os sexos nessa área? Ou talvez a direção das artes ainda seja um assunto essencialmente controlado por homens. Não sei...
Mas tenho pensado muito nisso também: a falta de novidade nas artes. No século passado, artistas como Picasso, Duchamp e Warhol mudaram definitivamente o modo como se pensa em arte. Veja bem: eles mudaram o processo em si. A arte era uma coisa nos milênios antes deles e passou a ser outra depois. E eu não vejo ninguém tentando repetir a façanha há já uns bons 20 anos ou mais. São todos ótimos pintores, fotógrafos, performers. "Os melhores artistas de sua geração". Mas não mudarão a história da arte.
Me pego pensando sobre a street art nisso tudo. É a suposta vanguarda do momento, a coisa nova acontecendo nas galerias, nas cabeças dos formadores de opinião atuais. E mesmo ela já é uma forma de arte velha e que, a rigor, não muda nada. Muralistas mexicanos como Siqueiros, Orozco e Rivera já fazia isso e muito melhor.
Talvez a toy art seja uma opção de algo realmente novo e relevante. Será?
Claro, eu entendo: sendo filho do rei, o garoto será eternamente apenas o príncipe. Somos todos artistas filhos daquela geração anterior. Sobrepujar o pai não é apenas uma questão de vontade. Existiram centenas de artistas cubistas. Mas depois do Picasso todos eram apenas príncipes.
Essa dificuldade de crescer está presente na arte de hoje. O que foi feito de realmente revolucionário e novo ultimamente? As poucas formas de arte realmente novas que me vêm à cabeça quando penso nas últimas décadas têm uma característica muito pueril. Fala-se muito de toy art, brinquedos compreendidos como obras de arte. Muita coisa que faz referência ao video game. Mesmo o grafite já foi considerado coisa de adolescente vândalo. Tá certo, concordo: essa arte nem sempre é feita por homens. Então pode-se dizer que a crise de maturidade é generalizada para ambos os sexos nessa área? Ou talvez a direção das artes ainda seja um assunto essencialmente controlado por homens. Não sei...
Mas tenho pensado muito nisso também: a falta de novidade nas artes. No século passado, artistas como Picasso, Duchamp e Warhol mudaram definitivamente o modo como se pensa em arte. Veja bem: eles mudaram o processo em si. A arte era uma coisa nos milênios antes deles e passou a ser outra depois. E eu não vejo ninguém tentando repetir a façanha há já uns bons 20 anos ou mais. São todos ótimos pintores, fotógrafos, performers. "Os melhores artistas de sua geração". Mas não mudarão a história da arte.
Me pego pensando sobre a street art nisso tudo. É a suposta vanguarda do momento, a coisa nova acontecendo nas galerias, nas cabeças dos formadores de opinião atuais. E mesmo ela já é uma forma de arte velha e que, a rigor, não muda nada. Muralistas mexicanos como Siqueiros, Orozco e Rivera já fazia isso e muito melhor.
Talvez a toy art seja uma opção de algo realmente novo e relevante. Será?
Claro, eu entendo: sendo filho do rei, o garoto será eternamente apenas o príncipe. Somos todos artistas filhos daquela geração anterior. Sobrepujar o pai não é apenas uma questão de vontade. Existiram centenas de artistas cubistas. Mas depois do Picasso todos eram apenas príncipes.
João de Ferro
Continuo lendo o livro de Robert Bly, João de Ferro.
O primeiro capítulo é todo sobre o mito europeu do próprio João de Ferro, que simboliza o Homem Natural com o qual os homens de hoje perderam o contato. Conta a história de como ele é tirado da floresta pelo rei local e trancafiado em uma jaula no pátio do castelo. O príncipe, um garoto pequeno, perde sua bola dourada dentro da jaula e João de Ferro lhe diz que só lha devolverá se o menino o libertar. A chave porém está debaixo do travesseiro da mãe, a rainha (muito Freud, né?). Há uma passagem muito interessante onde Bly deixa claro que o garoto precisa roubar a chave. Pedi-la à mãe não adianta porque ela não o leva a sério. Então ele aproveita enquanto os pais estão ausentes para roubar a chave. Gosto da passagem, porque subentende que o processo de crescer implica certa malícia que deve ser executada sem o consentimento (ou ajuda) dos pais, por conta própria. É como a primeira vez que o rapaz vai ao puteiro ou fuma um cigarro. Muitos de nós homens atuais chegamos a fazer isso, mas nunca de fato abrimos a jaula uma vez que temos a chave.
O capítulo termina com o garoto libertando João de Ferro e fugindo com ele para a floresta para escapar da punição pelos pais. No processo, ele machuca o dedo abrindo a jaula, mas isso é uma metáfora que provavelmente abordarei algum outro dia. Essa fuga é interpretada como a transferência que o garoto precisa fazer entre seu pai real e um segundo pai, um mestre, com qualidades novas que o pai biológico não possui. Alguém que irá instruir o garoto no jeito do mundo, em um ofício. Nas tribos indígenas e na antiguidade clássica, os garotos passava muito tempo na compania de homens adultos, aprendendo a caçar, a lutar, a fazer as coisas dos homens. Distanciavam-se assim do mundo feminino das mães, onde eles seriam para sempre filhos, crianças.
Acho que eu parei por aqui. Ensaiei tentativas de adotar diversas pessoas como mestres, mas acho que nunca de fato dei esse passo. O orientador da faculdade deveria ser essa figura, mas os relacionamentos que tive com ambos os orientadores de minhas duas faculdades deixaram muito a desejar nesse aspecto. Suponho que eu nunca encontrei alguém que eu respeitasse como mestre e que me respeitasse de fato como pupilo. Não sei dizer se é uma falha pessoal minha ou se esse modelo de coisas se perdeu em uma sociedade movida apenas pelo ganho financeiro (ninguém tem mais tempo para de fato treinar um pupilo, apenas deixam o estagiário se ferrar sozinho e aprender na marra...).
O primeiro capítulo é todo sobre o mito europeu do próprio João de Ferro, que simboliza o Homem Natural com o qual os homens de hoje perderam o contato. Conta a história de como ele é tirado da floresta pelo rei local e trancafiado em uma jaula no pátio do castelo. O príncipe, um garoto pequeno, perde sua bola dourada dentro da jaula e João de Ferro lhe diz que só lha devolverá se o menino o libertar. A chave porém está debaixo do travesseiro da mãe, a rainha (muito Freud, né?). Há uma passagem muito interessante onde Bly deixa claro que o garoto precisa roubar a chave. Pedi-la à mãe não adianta porque ela não o leva a sério. Então ele aproveita enquanto os pais estão ausentes para roubar a chave. Gosto da passagem, porque subentende que o processo de crescer implica certa malícia que deve ser executada sem o consentimento (ou ajuda) dos pais, por conta própria. É como a primeira vez que o rapaz vai ao puteiro ou fuma um cigarro. Muitos de nós homens atuais chegamos a fazer isso, mas nunca de fato abrimos a jaula uma vez que temos a chave.
O capítulo termina com o garoto libertando João de Ferro e fugindo com ele para a floresta para escapar da punição pelos pais. No processo, ele machuca o dedo abrindo a jaula, mas isso é uma metáfora que provavelmente abordarei algum outro dia. Essa fuga é interpretada como a transferência que o garoto precisa fazer entre seu pai real e um segundo pai, um mestre, com qualidades novas que o pai biológico não possui. Alguém que irá instruir o garoto no jeito do mundo, em um ofício. Nas tribos indígenas e na antiguidade clássica, os garotos passava muito tempo na compania de homens adultos, aprendendo a caçar, a lutar, a fazer as coisas dos homens. Distanciavam-se assim do mundo feminino das mães, onde eles seriam para sempre filhos, crianças.
Acho que eu parei por aqui. Ensaiei tentativas de adotar diversas pessoas como mestres, mas acho que nunca de fato dei esse passo. O orientador da faculdade deveria ser essa figura, mas os relacionamentos que tive com ambos os orientadores de minhas duas faculdades deixaram muito a desejar nesse aspecto. Suponho que eu nunca encontrei alguém que eu respeitasse como mestre e que me respeitasse de fato como pupilo. Não sei dizer se é uma falha pessoal minha ou se esse modelo de coisas se perdeu em uma sociedade movida apenas pelo ganho financeiro (ninguém tem mais tempo para de fato treinar um pupilo, apenas deixam o estagiário se ferrar sozinho e aprender na marra...).
quinta-feira, janeiro 15, 2009
Maysa
Ando assistindo essa minisséria sobre a Maysa. Não é tanto a personagem, mas a atriz que me lembra Lexy daquele jeito louco que eu lembro às vezes. Coincidências inverossímeis, visíveis apenas no ângulo e luz certos. Essa atriz, Larissa Maciel, tem as mesmas sobrancelhas, o mesmo olhar sempre delineado e cheio daquela qualidade inefável. A boca, embora diferente da dela, parece fazer as mesmas expressões. É algo no formato do rosto, do queixo.
Tem pouco do comportamento de Maysa em Lexy. Mas a imagem continua me lembrando a cada cena.
O seriado em si tem algumas ressalvas. Estou gostando da história. Mas saber que ela é feita pelo filho de Maysa me faz questionar constantemente essa versão da história. A romantização de uma personagem alcoólatra e inconsequente.
Por outro lado, uma faceta da minissérie parece muito atual: percebe-se na história contada que a cantora ganhava muito mais com as apresentações do que com qualquer venda de disco. Uma tendência atual que meu irmão andou apontando desde que resolveu lidar profissionalmente com música. Afinal, em épocas de eMule e semelhantes, onde a compra de discos passa a ser um luxo apenas para colecionadores, esse modelo de negócio em relação à música precisa ser repensado.
No episódio de hoje, ela cantou minha canção favorita do pouco que conheço de seu repertório. A música já tinha sido tema de outra minissérie, Presença de Anita. A original é em francês, mas a letra merece uma tradução pela beleza visceral. Olha só que lindo...
Não Me Deixes
Maysa
Não me deixes,
É preciso esquecer,
Tudo se pode esquecer
Que já para trás ficou.
Esquecer o tempo
dos mal-entendidos
E o tempo perdido
a querer saber como
Esquecer essas horas,
Que de tantos porquês,
Por vezes matavam a última felicidade.
Não me deixes (x3)
Te oferecerei
Pétalas de chuva
Vindas de países
Onde nunca chove;
Escavarei a terra
Até depois da morte,
Para cobrir teu corpo
Com ouro, com luzes.
Criarei um país
Onde o amor será rei,
Onde o amor será lei
E você a rainha.
Não me deixes, (x4)
Te Inventarei
Palavras absurdas
Que você compreenderá;
Te falarei
Daqueles amantes
Que viram de novo
Seus corações ateados;
Te contarei
A história daquele rei,
Que morreu por não ter
Podido te conhecer.
Não me deixes, (x3)
Quantas vezes
não se reacendeu o fogo
Do antigo vulcão
Que julgávamos velho?
Até há quem fale
De terras queimadas
A produzir mais trigo;
Que a melhor primavera
É quando a tarde cai,
Vê como o vermelho e o negro
Se casam para que o céu se inflame.
Não me deixes, (x4)
Não vou chorar mais,
Não vou falar mais,
Escondo-me aqui
Para te ver
Dançar e sorrir,
Para te ouvir
Cantar e rir.
Deixa-me ser
a sombra da tua sombra,
A sombra da tua mão,
A sombra do teu cão.
Não me deixes.(x3)
Tem pouco do comportamento de Maysa em Lexy. Mas a imagem continua me lembrando a cada cena.
O seriado em si tem algumas ressalvas. Estou gostando da história. Mas saber que ela é feita pelo filho de Maysa me faz questionar constantemente essa versão da história. A romantização de uma personagem alcoólatra e inconsequente.
Por outro lado, uma faceta da minissérie parece muito atual: percebe-se na história contada que a cantora ganhava muito mais com as apresentações do que com qualquer venda de disco. Uma tendência atual que meu irmão andou apontando desde que resolveu lidar profissionalmente com música. Afinal, em épocas de eMule e semelhantes, onde a compra de discos passa a ser um luxo apenas para colecionadores, esse modelo de negócio em relação à música precisa ser repensado.
No episódio de hoje, ela cantou minha canção favorita do pouco que conheço de seu repertório. A música já tinha sido tema de outra minissérie, Presença de Anita. A original é em francês, mas a letra merece uma tradução pela beleza visceral. Olha só que lindo...
Não Me Deixes
Maysa
Não me deixes,
É preciso esquecer,
Tudo se pode esquecer
Que já para trás ficou.
Esquecer o tempo
dos mal-entendidos
E o tempo perdido
a querer saber como
Esquecer essas horas,
Que de tantos porquês,
Por vezes matavam a última felicidade.
Não me deixes (x3)
Te oferecerei
Pétalas de chuva
Vindas de países
Onde nunca chove;
Escavarei a terra
Até depois da morte,
Para cobrir teu corpo
Com ouro, com luzes.
Criarei um país
Onde o amor será rei,
Onde o amor será lei
E você a rainha.
Não me deixes, (x4)
Te Inventarei
Palavras absurdas
Que você compreenderá;
Te falarei
Daqueles amantes
Que viram de novo
Seus corações ateados;
Te contarei
A história daquele rei,
Que morreu por não ter
Podido te conhecer.
Não me deixes, (x3)
Quantas vezes
não se reacendeu o fogo
Do antigo vulcão
Que julgávamos velho?
Até há quem fale
De terras queimadas
A produzir mais trigo;
Que a melhor primavera
É quando a tarde cai,
Vê como o vermelho e o negro
Se casam para que o céu se inflame.
Não me deixes, (x4)
Não vou chorar mais,
Não vou falar mais,
Escondo-me aqui
Para te ver
Dançar e sorrir,
Para te ouvir
Cantar e rir.
Deixa-me ser
a sombra da tua sombra,
A sombra da tua mão,
A sombra do teu cão.
Não me deixes.(x3)
quarta-feira, janeiro 14, 2009
João de Ferro
Previously, on the blog...
No final do ano passado, em uma apresentação da banda do meu irmão, sentei para conversar com Larissa, sua namorada, que havia então se lançado na carreira de dança e entrado para o âmbito das artes. Não lembro como viemos a discutir a falta de assunto da minha pintura, os retratos ideologicamente vazios e a minha procurar do que a ser representado através do como que eu já tinha desenvolvido. Daí a própria idéia dos retratos de mulheres feitos por um homem me veio à cabeça e a discussão do Masculismo voltou à tona.
É engraçado como pode-se propôr a mesma idéia quatro ou cinco vezes antes dela efetivamente criar raizes e começar a ser desenvolvida. Eu pensei em tratar desse assunto quando escrevi o Manifesto Masculinista em um esquecido Dia das Mulheres, mas nunca levei a cabo a idéia. Depois, ela apareceu meio timidamente em uma das minhas pinturas, o Lettin' the Cables Sleep. Mas ainda era um conceito em uma pintura, sem pesquisa ideológica e embasamento teórico. Não sei ao certo por que, mas só depois da conversa com Larissa que a idéia fixou-se na minha cabeça como um caminho a seguir. Talvez pelo fato de eu ter praticamente esgotado ou me desinteressado pelos outros.
Fiz então o que qualquer pessoa da minha idade à procura de teoria faria: procurei no Google. Tá bom, não é a forma mais ortodoxa de pesquisa, mas serve como termômetro do que estão dizendo por aí a respeito. Fui saber que "Masculinismo" era um termo empregado como zueira, pra tirar sarro da nova condição masculina. Sua contra-parte mais séria era chamada "Masculismo", uma sílaba a menos. Mas os sites só me davam a ponta do iceberg teórico, as aplicações práticas e discussões legais (guarda dos filhos no divórcio, direito a decidir sobre o aborto, obrigatoriedade do serviço militar, exposição a trabalhos de maior risco físico e outras questões discutíveis...). Já era uma severa expansão de mundo, mas não me dava muito para começar a pensar por mim mesmo no assunto.
Nana, ao ouvir a respeito, me emprestou alguns livros muito relevantes nesse sentido. Foi no João de Ferro do Robert Bly que eu encontrei pistas sobre o cerne do assunto. O autor traça uma cronologia dos últimos 50 anos e de como o modelo masculino mudou nesse tempo. Ele parte da década de 50 porque, segundo ele, foi onde o modelo masculino que conhecemos se consolidou nos Estados Unidos: o homem americano dos anos 50 "devia gostar de futebol, ser agressivo, defender os Estados Unidos, não chorar nunca e sempre sustentar a família." Nos anos 60, o paradigma mudou: em uma época onde ser homem adulto era ir para a guerra do Vietnã, muitos homens começaram a questionar o modelo do homem adulto dos anos 50. Junta-se a isso a chegada do Feminismo ao mainstream da época, e muitos homens, sendo expostos às questões do universo feminino que o homem dos anos 50 ignorava, começaram a tomar conhecimento de seu lado feminino e a aceitá-lo. Com isso, tornaram-se homens mais suaves, afáveis. Mas também homens frouxos. São compreensivos, sensíveis, agradam às mães e esposas, mas falta-lhes energia, ímpeto, atitude.
E nisso que o livro de Bly realmente me chamou a atenção. Porque era desse fenômeno que eu me queixava quando fazia os retratos. Era isso que eu observava na minha própria família. Essa situação atual onde as mulheres pós-Feminismo são fortes e decididas e os homens são uns bananas.
É daquela época que eu percebo que uma boa maioria dos homens que eu conheço são homens frouxos. Outra boa fatia de conhecidos ainda sequer passou daquele homem dos anos 50 e continua o macho estúpido, controlado por qualquer oferta de sexo enquanto zomba das mulheres como supostos seres inferiores.
Ainda estou no começo do livro. Mas o autor já rascunha uma solução para a situação vergonhosa do homem atual. Parece meio papo de auto-ajuda inspirado em muitos textos feministas, mas tem seu sentido. De acordo com Bly, o homem precisa reencontrar-se com o que ele chama de Homem Natural. Não é o selvagem truculento que se faz indiferente às suas próprias feridas pra mostrar que é macho. Esse ainda é o cerne do homem da década de 50. O Homem Natural é um estado masculino do "homem que faz", que decide uma decisão compassiva, que briga e exerce uma liderança generosa. O que mais me chama a atenção é esse fazer. Porque os homens frouxos atuais não fazem. Eles estão cercados de mães, esposas e amigas que fazem por ele porque têm pena dele. Cuidam dele como criança e ele nunca vai crescer.
Tento escrever sobre esse sentido que ele coloca tão bem nesse começo de livro e percebo que ainda não entendi o suficiente. É algo como ser incisivo sem ser truculento, impor sua vontade sem desrespeitar. Negociar em vez de mendigar ou invadir. Esse deveria ser o tom do Masculismo e de uma possível arte masculista.
Faz sentido?
No final do ano passado, em uma apresentação da banda do meu irmão, sentei para conversar com Larissa, sua namorada, que havia então se lançado na carreira de dança e entrado para o âmbito das artes. Não lembro como viemos a discutir a falta de assunto da minha pintura, os retratos ideologicamente vazios e a minha procurar do que a ser representado através do como que eu já tinha desenvolvido. Daí a própria idéia dos retratos de mulheres feitos por um homem me veio à cabeça e a discussão do Masculismo voltou à tona.
É engraçado como pode-se propôr a mesma idéia quatro ou cinco vezes antes dela efetivamente criar raizes e começar a ser desenvolvida. Eu pensei em tratar desse assunto quando escrevi o Manifesto Masculinista em um esquecido Dia das Mulheres, mas nunca levei a cabo a idéia. Depois, ela apareceu meio timidamente em uma das minhas pinturas, o Lettin' the Cables Sleep. Mas ainda era um conceito em uma pintura, sem pesquisa ideológica e embasamento teórico. Não sei ao certo por que, mas só depois da conversa com Larissa que a idéia fixou-se na minha cabeça como um caminho a seguir. Talvez pelo fato de eu ter praticamente esgotado ou me desinteressado pelos outros.
Fiz então o que qualquer pessoa da minha idade à procura de teoria faria: procurei no Google. Tá bom, não é a forma mais ortodoxa de pesquisa, mas serve como termômetro do que estão dizendo por aí a respeito. Fui saber que "Masculinismo" era um termo empregado como zueira, pra tirar sarro da nova condição masculina. Sua contra-parte mais séria era chamada "Masculismo", uma sílaba a menos. Mas os sites só me davam a ponta do iceberg teórico, as aplicações práticas e discussões legais (guarda dos filhos no divórcio, direito a decidir sobre o aborto, obrigatoriedade do serviço militar, exposição a trabalhos de maior risco físico e outras questões discutíveis...). Já era uma severa expansão de mundo, mas não me dava muito para começar a pensar por mim mesmo no assunto.
Nana, ao ouvir a respeito, me emprestou alguns livros muito relevantes nesse sentido. Foi no João de Ferro do Robert Bly que eu encontrei pistas sobre o cerne do assunto. O autor traça uma cronologia dos últimos 50 anos e de como o modelo masculino mudou nesse tempo. Ele parte da década de 50 porque, segundo ele, foi onde o modelo masculino que conhecemos se consolidou nos Estados Unidos: o homem americano dos anos 50 "devia gostar de futebol, ser agressivo, defender os Estados Unidos, não chorar nunca e sempre sustentar a família." Nos anos 60, o paradigma mudou: em uma época onde ser homem adulto era ir para a guerra do Vietnã, muitos homens começaram a questionar o modelo do homem adulto dos anos 50. Junta-se a isso a chegada do Feminismo ao mainstream da época, e muitos homens, sendo expostos às questões do universo feminino que o homem dos anos 50 ignorava, começaram a tomar conhecimento de seu lado feminino e a aceitá-lo. Com isso, tornaram-se homens mais suaves, afáveis. Mas também homens frouxos. São compreensivos, sensíveis, agradam às mães e esposas, mas falta-lhes energia, ímpeto, atitude.
E nisso que o livro de Bly realmente me chamou a atenção. Porque era desse fenômeno que eu me queixava quando fazia os retratos. Era isso que eu observava na minha própria família. Essa situação atual onde as mulheres pós-Feminismo são fortes e decididas e os homens são uns bananas.
É daquela época que eu percebo que uma boa maioria dos homens que eu conheço são homens frouxos. Outra boa fatia de conhecidos ainda sequer passou daquele homem dos anos 50 e continua o macho estúpido, controlado por qualquer oferta de sexo enquanto zomba das mulheres como supostos seres inferiores.
Ainda estou no começo do livro. Mas o autor já rascunha uma solução para a situação vergonhosa do homem atual. Parece meio papo de auto-ajuda inspirado em muitos textos feministas, mas tem seu sentido. De acordo com Bly, o homem precisa reencontrar-se com o que ele chama de Homem Natural. Não é o selvagem truculento que se faz indiferente às suas próprias feridas pra mostrar que é macho. Esse ainda é o cerne do homem da década de 50. O Homem Natural é um estado masculino do "homem que faz", que decide uma decisão compassiva, que briga e exerce uma liderança generosa. O que mais me chama a atenção é esse fazer. Porque os homens frouxos atuais não fazem. Eles estão cercados de mães, esposas e amigas que fazem por ele porque têm pena dele. Cuidam dele como criança e ele nunca vai crescer.
Tento escrever sobre esse sentido que ele coloca tão bem nesse começo de livro e percebo que ainda não entendi o suficiente. É algo como ser incisivo sem ser truculento, impor sua vontade sem desrespeitar. Negociar em vez de mendigar ou invadir. Esse deveria ser o tom do Masculismo e de uma possível arte masculista.
Faz sentido?
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