Natal passado no nordeste, visitando a família.
Para enfrentar o caos do sistema aéreo brasileiro, comprei o volume 4 da série
The Dark Tower, do Stephen King. Mal lembrava eu que o volume anterior havia acabado com nossos heróis viajando a fatal velocidade abordo de um trêm dotado de uma inteligência artifical que, após séculos de negligência e desuso, tornara-se suicida. Livro ótimo pra ler abordo de um avião da TAM a 10 mil pés de altura, né?
A cidade de minhas tias continuava lá, de pé naquela terra onde a vegetacão é violenta e a lei inexiste. Cortada pelos trilhos de um trem que, neste ano, passava pintado patrioticamente com as cores da bandeira.
E talvez pela primeira vez senti naquele lugar a passagem dos anos. Estava na ausência de tia
Margot, cujo nome agora enfeitava o posto de saúde da cidade; na surdez e confusão da geração de tias solteiras de 80 anos (exceto por tia
Tereze, que ainda tem mais saúde do que muito adolescente...), nas cores mais acinzentadas dos seus cabelos e o amarelo brilhoso e levemente senil das suas peles.
A cidade estava acabando. Já era uma noção presente em tudo, como no universo do livro de King, onde o mundo que o protagonista conhecia estava
moving on, passando, se deturpando e deixando de existir para dar lugar a outra coisa desconhecida. A cidade de minhas tias estava
moving on. A família já estava se reunindo em torno das mesas nos lendários almoços de natal a discutir o destino deste ou daquele membro, das próprias tias, de bens e etc.
No ar, a sensação palpável (tão palpável quanto o calor nordestino) da violência aumentando em direção à nossa família, a aristocracia da região. Da hostilidade tensionando pronta para o bote no olhar dos matutos na estação de trem. No olhar dos vigias vigicobiçando a propriedade. Um leve cheiro de turba ensandecida no ar, misturado aos cheiros comuns de vinhaça da usina de açucar, de maresia das praias, de cajú na mata.
E de fato, a violência explodiu poucos dias depois do natal. Caminhávamos na praia, eu, meus pais e meu irmão. Descuido: trouxera minha câmera para fotografar uma das minhas praias favoritas, onde aprendi a pegar onda quando criança. Eu normalmente não levo câmeras para a praia com medo de que a areia danifique o mecanismo.
A família caminhou pela orla: meus pais pelo exercício, eu e meu irmão pela compania. Conversavam sobre filosofia e eu, sentindo-me seguro quando dobramos pela parte mais desabitada da praia, tirei a câmera da capa e comecei a fotografar e fazer pequenos vídeos de minha família caminhando pela areia, o calor fazendo a imagem bruxulear diante das lentes.
Na volta (tinha acabado de fotografar uma caravela portuguesa, espécie de água viva que andava infestando as praias nordestinas e que encantava pelos tons de violeta e rosa, e colocara a câmera de volta na capa), dois rapazes apareceram do nada. Aliás, seria um eufemismo dizer que apareceram do nada: vemos os vultos de pessoas caminhando pela praia a quilômetros de distância, mas minha atenção estava na fotografia. Antes que pudesse avaliar o perfil dos rapazes e perceber o perigo, já estavam a poucos metros. De um trapo em uma das mãos, um deles tirou um revolver. Trinta e oito, reluzente, bem azeitado. Arma de polícia, porque bandido não mantém um ferro desse jeito. Meu pai diria depois que não viu pontas de bala nos buracos do cilindro, mas vai saber se não tinha uma na agulha (a única necessária pra fazer um estrago)?
-"Senta no chão e não olha"- o outro gritava. O rapaz armado apontava o revolver pra o rosto de meu pai e cobria o rosto com o trapo de onde o tirara.
Tudo ganhou aquele tom de realidade, à medida em que a adrenalina invadia meu sangue. Tudo mais nítido, mais lá. Como se o resto dos meus 26 anos tivesse sido um sonho bom.
Sentamos na areia. Eles recolheram nossos pertences, incluíndo a câmera pendurada no meu ombro. Depois devolveram documentos e a chave do carro. Me levantaram primeiro e disseram que me sentasse mais acima na areia. Depois sentaram meu irmão junto. No medo, estive pronto para ouvir disparos. Mataríam os pais e os filhos, no desespero, não correriam atrás dos bandidos em fuga. Mas logo em seguida meus pais sentaram-se ao meu lado.
Meu irmão, sempre de boa índole, murmurava suave alguma coisa que nos acalmasse, algo sobre bens materiais e prescindíveis. E então eu retruquei: "é, mas lá se vai a minha câmera...".
Todos sabíamos: o ruim não era perder a câmera. Um pouco de dinheiro e eu podia comprar outra. Mas aquele aparelho guardava imagens inspiradas do que talvez fosse o último almoço em família na casa das tias. Aqueles rapazes roubavam boas memórias. Como Alzheimer.
De volta à parte movimentada da praia, procurei a delegacia. Os nativos do lugar diziam até que não me desse ao trabalho: ela estava sempre fechada. Mais tarde, no povoado vizinho, encontramos um comunicado na porta da delegacia dizendo que a polícia estava em greve. Pelo vermelho descolorido da impressão, eu suspeitava no mínimo uns seis meses de greve. O delegado levou meu pai a uma salinha. Quando meu pai descreveu os bandidos dizendo serem dois, o delegado completou: "mulatos?" Ele até sabia quem eram. Não disse, mas era óbvio: policiais encenando crimes para chamar a atenção de um governo que não dava ouvidos à sua greve. Depois deu aquele conselho bem brasileiro: "doutor, vai curtir sua praia".
Digam o que disserem deste pais. Que tem cultura, que é lindo e toda a ladainha. Eu saio dele na primeira chance que tiver de um emprego decente lá fora.