domingo, novembro 02, 2008

Acho que já faz mais de seis meses que a banda se apresentou pela última vez, no Manifesto. O fato teve o gosto daquelas coincidências que só aconteciam na Itália: o Manifesto foi o mesmo lugar da nossa primeira apresentação, e pareceu o fim perfeito para tudo, o fechamento de um ciclo. A partir daí foi tudo ladeira abaixo até a fatídica conversa em Julho, em um Starbucks. Não vou falar de motivos, mas achei que precisava colocar uma nota disso aqui. Senti na época que não devia, mas hoje sinto que ficou esse vácuo, essa notícia não noticiada, porque muita gente ainda vem me perguntar sobre os próximos shows.

A banda acabou mesmo.

Cada um foi para o seu canto. Pessoalmente, eu voltei a ser artista plástico. Reabri o ateliê em Junho, um mês antes, e voltei a pintar com alguma disciplina que me faltava desde que saí da faculdade, e que estava dedicando à banda. Faz mais sentido: estudei para isso, me interesso por isso, já tenho conhecimento nessa área para me considerar mais que um leigo nisso. No rock, eu sempre serei um leigo. Um leigo com voz, mas um leigo.

And yet, houve uma época em que fazer arte com o afinco e maravilhamento de um leigo, para que até leigos entendessem, era parte da minha ideologia...

Por falar na voz, o lado positivo disso tudo é que já não penso mais na minha garganta. Me dei conta disso hoje: não consigo lembrar quando foi que deixei de pigarrear, tossir seco e viver com um incômodo na garganta. Cada ensaio tinha um prazer como arrancar casca de ferida: é delicioso, mas você sabe que faz mal e reabre um machucado. Mesmo assim, você não consegue parar de fazer. Comparação bizarra, né?

Quer outra coisa bizarra? Nas piores épocas desse meu relacionamento laríngico, eu tinha medo de calejar a garganta, perder a voz e ter que gastar uma fortuna com tratamentos para algo que surgiu de um hobby. Até aí, uma preocupação normal, iniciada pelos conselhos de outros cantores amadores. O bizarro era que havia uma outra preocupação dessas meio infundadas, ridículas, mas que ficava ecoando num recôndito abafado da mente: o câncer. A observação de casos de câncer na família me levou a ter uma crença supersticiosa de que a doença se desenvolve em órgãos usados abusivamente, constantemente maltratados. Câncer cerebral nos mais brilhantes, de laringe nos fumantes, de pâncreas nas doceiras. Mórbido, bizarro e ridículo ao mesmo tempo, eu sei...

Mas enfim, hoje tudo isso são medos do passado. Eu volto a me divertir nos karaokês quando possível e a cantar por prazer e não por obrigação auto-imposta.

Também sentirei muitas saudades daquela época.
Saudades do palco e daquele momento único, que pontilhava meus meses de lembranças e fazia o ano ser mais longo. Saudades de fazer arte de tempo e não de matéria. E saudade de ter aquele conjunto de amigos. Era muito bom e muito tenso ao mesmo tempo. Bom, porque eram amigos que se preocupavam, que se interessavam, que me queriam por perto, presente, enquanto outros nem sabem se eu voltei da Europa ainda. E isso é cada vez mais raro nesta cidade ocupada. Era bom ser parte de algo, não estar sozinho.

[Sabe quando você tem aquela noção de que um post tem alto potencial de causar respostas enfurecidas de gente que entendeu tudo errado?]

sexta-feira, outubro 31, 2008

A verdade sobre publicitários

Recebi este texto por e-mail no trabalho. Acho que ele resume toda minha frustração com a carreira de publiciotário e o porque venho tentando fazer menos disso e mais arte de verdade a cada dia.

Criação: são exatamente o tipinho que as pessoas que não conhecem nenhum publicitário imaginam como sendo um publicitário. Consideram-se o cérebro da agência de publicidade, mas na realidade são os primeiros na cadeia alimentar, diariamente estuprados por todos os outros setores da agência. Porém, estrategicamente a diretoria os oferece vagas no estacionamento, os melhores computadores disponíveis, liberdade de chegar mais tarde no trabalho (um pouquinho mais tarde), e mais algumas regalias baratas e dispensáveis, o que os fazem acreditar que são o setor de maior prestígio dentro da agência. É um prática comum dentre os criativos se masturbar olhando o espelho, uns chegam até a levar ao banheiro um espelhinho de mão escondido no meio da revista Meio & Mensagem. Dividem-se em alguns cargos/castas que variam de nome e função dentre os tipos de agência, mas que de modo geral são:


Redatores:
vestem preto ou casacos Adidas, usam tênis coloridos e têm cara de nerd . São pseudo-intelectuais insuportáveis, acreditam saber mais do que todo mundo em absolutamente QUALQUER assunto. Adoram supervalorizar o próprio trabalho a ponto de demorar 3 horas para decidir se no "Compre já!" deve entrar uma exclamação ou não. Trabalham anos e anos em troca de salários mínimos, com o sonho de ganhar prêmios e dinheiro. Quando isso ocorre (se um dia ocorrer), já estão velhos, impotentes e flácidos demais para poder aproveitar. Decidem então se dedicar a escrever um livro genial, brilhante e revolucionário, que nunca será publicado.

Diretores de arte: Fumam maconha , usam calças jeans rasgadas, tênis all-star sujo e geralmente possuem brincos ou tatuagens. Reclamam o tempo inteiro sobre tudo. Às vezes saem pra almoçar apenas para reclamar: reclamam do trabalho, do clima, do atendimento do garçom, da própria barriga que não pára de crescer. Possuem olheiras e cara de sujo que são, além de estilinho, decorrentes das centenas de noites em claro e finais de semana dedicados a anúncios que não servirão pra nada além da inscrição em prêmios que só outros publicitários verão, ou para grandes e memoráveis obras de arte como o selo de "Saldão de Natal". Consideram-se grandes artistas, mas quando chegam aos trinta e muitos, frustrados com a carreira dedicada a campanhas "humanizadas" de lojas de departamento ou bancos, montam uma confecção de camisetas moderninhas e "com conceito".

Diretores de criação: "Vai tocando aí e no domingo de tarde a gente dá uma olhada". "Ainda não temos. Pensem mais nisso durante a madrugada e amanhã de manhã a gente vê". "Sei que é chato, mas vamos precisar da força de todo mundo nesse feriado. É uma concorrência muito importante que se rolar, vamos poder contratar mais gente pra dasafogar vocês e dar uma ajeitada no salário da galera". Se você nunca ouviu frases assim, não conhece nenhum diretor de criação. Esses sujeitos estão para o Yoda assim como os redatores e diretores de arte estão para os jedis. O Yoda já foi um grande jedi um dia, acumulou grande poder e conhecimento, mas acabou por virar um monstrinho velhinho e recluso que se esconde em um pântano. Um dia um garoto ambicioso com potencial para virar o mais poderoso jedi vai encontrá-lo, receber seus ensinamentos e depois da morte do mestre Yoda, vai ter sua companhia como um espírito que opina e se intromete, até que o mesmo aconteça com ele.


Atendimento: "Cara, se a gente não fizer isso, vamos perder a conta!". "Varejão! Cores fortes, título chamativo, splash falando da novidade e bastante destaque no logo e site". "Devemos criar uma comunicação criativa, envolvente e impactante. Porém não temos verba e nem prazo.". Essas frases são típicas tanto na fala quantos textos do profissional de atendimento. Provavelmente em seus teclados, cada um dos F (F1, F2, etc) é o atalho com uma dessas frases. Possuir um sorriso maroto e ser mais escorregadio que um sapo besuntado de manteiga são pré-requisitos para ser um profissional de atendimento bem-sucedido. Normalmente não conseguiram entrar na área de criação e fazem de conta que são importantes na agência. Vivem em sites de conteúdo compartilhado falando mal do pessoal da criação. Classificam-se hierarquicamente como segue:

Estagiários: tiradores de xerox, digitadores, carregadores de pasta e aprendizes de técnicas de furtividade. Por um incrível fenômeno da economia brasileira, ganham 500 reais de salário mas dirigem um C3 0Km e têm uma renda mensal que ultrapassa os 3000 reais. E, por uma coincidência incrível, seus pais são clientes dos seus colegas de outro grupo de atendimento, que sentam a uns 4 metros pro lado.

Assistentes: basicamente fazem o trabalho dos executivos e gerentes de conta, mas ganham o mesmo que a babá dos mesmos.

Executivos: nesse ponto da carreira já são peritos nas disciplinas ninja de furtividade e das bombas de fumaça. O uso de outras pessoas como escudo humano e as zarabatanas com dardos envenenados já é prática comum.

Gerentes: a única diferença do gerente de conta para um executivo de conta é a espetacular coincidência de ele ser amigo pessoal do diretor de atendimento.

Diretor de conta: são como todo mestre ninja em filmes de ação dos anos 80. À primeira vista, são beberrões e bon vivants, mas no momento de perigo revelam-se grandes mestres do subterfúgio.

Diretor de atendimento: são o Kaiser Sose da propaganda. Alguns funcionários dizem que não passam de uma lenda. Outros dizem que são ninjas tão poderosos que ninguém os vê, ninguém os ouve, mas todos ficam sabendo de seus incríveis feitos.

Puta acéfala: São um tipo curioso de profissional de atendimento, pois são denominados como qualquer um dos cargos citados acima, porém possuem designações completamente diferentes. Suas atividades se resumem a sorrir, vestir decotes e roupas justas, abaixar para pegar coisas estrategicamente derrubadas em frente a clientes e permancer alcoolizadas em festinhas e happy hours que contam com a presença de clientes e membros da diretoria.


Mídia: o dia do mídia geralmente segue um padrão muito particular, independente do sujeito ser estagiário ou diretor de mídia. Eles chegam na agência 9:30, até as 10:45 olham os e-mails pessoais, os e-mails de sacanagem, as notícias, sites de fofoca, o horóscopo, o guia da tv a cabo e, por fim, os e-mails de trabalho. Aí é o momento aonde vão até a copa pegar um café e bater papo até umas 11:30.
Então começam a decidir aonde será o almoço, que só voltam depois das 14:30. Até as 15:30 é tempo mais do que suficiente para escovar os dentes, ir ao banheiro, conversar sobre como o almoço foi gostoso e olhar mais e-mails pessoais. Aí então é hora de pegar no batente. E dá-lhe números, tabelas e valores até as 17:00, quando param para aproveitar os doces, cestas, bolos, chocolates e diversos outros mimos que receberam dos veículos de mídia (canais de tv, revistas, empresas de mídia exterior, etc). Depois, até as 18:00, é hora de combinar com os amigos sobre o show do Eric Clapton, do qual ganharam de algum veículo vários convites para o camarote VIP. Como nessa hora os colegas de outros setores da agência ainda estão trabalhando, costumam ir acompanhados de outros mídias de outras agências.

Planejamento: esses indivíduos, que costumam se auto-intitular "planners", são de fato os verdadeiros gênios da propaganda. Não por suas realizações profissionais (que na verdade não são nada mais do que pura encheção de lingüiça), mas por terem convencido o mercado inteiro que, para realizar o seu trabalho fantasticamente genial, não podem ter sua brilhante mente perturbada por problemas mundanos como prazos e baixos salários. Ganham razoavelmente bem, chegam tarde, fazem 3 horas de almoço, vão embora cedo, entram em sites de qualquer besteira o dia inteiro com o argumento de estarem pesquisando as tendências do momento e, aos 40 minutos do segundo tempo, montam um power point recheado de expressões em inglês que não fazem muito sentido ( "out of the box", "apettite appeal", "brand development") e ensaiam uma apresentação para o cliente com explicações e defesas tão enroladas e absurdas que o mesmo, com vergonha de fazer papel de estúpido, classifica como genial e os aplaude de pé.

Estúdio, RTV, Produção Gráfica e Tráfego: o dia a dia dessas áreas da agência fariam o Jack Bauer sentar num canto e chorar. Ganham miseravelmente mal, trabalham em condições desumanas e lidam diariamente com todo o tipo de explosivos, animais venenosos, ataques terroristas e invasões de extraterrestres, geralmente encaminhados a eles pelo pessoal do atendimento. E, para piorar, enquanto tentam matar um tiranossauro com um canivete, ainda precisam aturar o pessoal da criação criticando a cor desbotada do cabo do canivete e insistindo na maneira conceitualmente correta de se desviar de uma abocanhada do gigantesco animal.

Presidência e Vice-presidência: autênticos deuses do Olimpo. Ficam lá em cima se divertindo às custas dos pobres mortais, inventando desastres naturais, guerras e maldições. Só descem ao mundo dos mortais para possuir as mais belas donzelas ou deixar seus nomes marcados nas grandes batalhas, nas quais não podem se ferir".

Fonte desconhecida, mas divertida

terça-feira, outubro 28, 2008

Zombie Walk 2008

Zombie Walk 2008


É neste domingo! Preparem a anilina e dentes postiços!

Pensando sobre o Vazio

Deitado na cama hoje de manhã, tentando criar coragem para mais um dia maçante de publicidade, ouvi a notícia de que o segundo andar da Bienal havia sido pixado na noite de domingo, dia da abertura. A minha primeira reação, como a de muita gente, foi de revolta, raiva mesmo. Mas por volta da hora em que eu entrava no banho, comecei a ser tomado de outros sentimentos. Quanto mais pensava no assunto, mais me parecia que a revolta frente a esse ato era uma demonstração de puritanismo. Eu, que defendia as ações de Eric Haris e Dylan Klebold como uma forma de expressão desesperada, me opor a este tipo de manifestação?



Deixemos claro algumas coisas.

Eu já mencionei por aqui que ainda tenho lá meus conservadorismos que dificultam que eu aceite o pixo como forma de arte. Já foi difícil aceitar o grafite, e este apenas quando passou para o âmbito das galerias (mesmo ciente de que isso o invalidava como street art). Eu não consideraria um pixador específico um artista, nem um grupo de pixadores um coletivo. Mas preciso admitir que as ações deste grupo enorme e organizado de pixadores estão perigando por áreas que chamam a atenção de interessados em arte. Não se trata mais de moleques deixando uns poucos rabiscos estilizados em lugares aparentemente impossíveis. Não se trata daquela atitude primitiva de marcar território. Eles estão questionando. E questionando com razão e ideologia. Questionam a apropriação da estética de rua por artistas que a usam para se promoverem como alternativos dentro de instituições d’O Sistema. Questionam a apropriação dos termos “espaço e patrimônio público” por instituições que, na primeira oportunidade, vetam, proíbem e negam.

É temerário e inconseqüente dizer isso, mas essa entidade que é esse grupo de pixadores está ganhando aos poucos o meu interesse assim como o Picasso fez na época da faculdade: o conceito geral é muito instigante, embora o visual do produto final seja horrendo.



Isto posto, vamos ao ocorrido.

No domingo, dia da abertura da Bienal, um grupo de 40 pixadores (o número é basicamente sempre o mesmo...) compareceu à Bienal, inicialmente para “avaliar o terreno”. Mais tarde, entraram com as latas de tinta e começaram a intervenção no segundo andar, que permanecia vazio por decisão dos curadores. Houve choque com os seguranças e os pixadores fugiram, deixando para trás apenas uma integrante do grupo, denominada Carol, de 23 anos, que foi levada ao 36º DP da rua Tutóia.

O segundo andar da Bienal foi uma proposta esquisita desde o começo. Do ponto de vista mais mercadológico, deixar um andar vazio diminuía o espaço ocupado por arte e o número de participações possíveis, a menos que todo mundo fizesse trabalhos bem pequenos (uma impossibilidade em tempos tão megalomaníacos...). Do ponto de vista crítico, como citado por um dos que comentaram a notícia no link acima, essa proposta só fazia mostrar o “esvaziamento da importância desse tipo de mostra”. Do ponto de vista teórico, o espaço vazio devia “provocar uma reflexão a respeito do espaço”.

Sobre este último, cada pessoa tem direito à sua própria reflexão. Há quem considere Balthus um pedófilo e quem veja valor em suas pinturas. Há quem entre no segundo andar da Bienal para pensar sobre arquitetura e quem entre para pensar sobre o conceito abstrato do vazio. Há quem receba esse estímulo de forma passiva, e quem resolva agir sobre ele (como no caso dos referidos pixadores...). Ou seja, cada um reage a essa proposta do seu jeito. Se a proposta era uma reflexão sobre o espaço, achei fantástico que alguém tentasse ocupá-lo, primeira idéia que vem à cabeça em épocas de superpopulação. E mais: depois de se ver tanta proposta de arte dita “interativa” por aí, acho um retrocesso condenar uma intervenção que agrega tanto à idéia inicial.

A reação dos curadores também é algo a ser comentado. Depois do alarde feito em torno da Choque Cultural e do precedente trabalho de graduação do Rafael Augustaitiz (Rafael Pixobomb), achei que a galera tivesse entendido que todo esse barulho na mídia só fortalece a rebeldia dessa turma. De certa forma, eles são como ereção fora de hora: quanto mais você mexer e pensar nesse inconveniente, pior fica.

quinta-feira, outubro 23, 2008

Há alguns dias que a turma da publicidade vem discutindo a discussão (pleonasmo, eu sei...) que rolou entre os titãs do meio, Nizan Guanaes e Fábio Fernandes, no evento Maximídia. Achei ao menos relevante deixar por aqui uma opinião a respeito, já que pelo menos por enquanto continuo publicitário...

Entendo o lado do Nizan (o que não significa, conforme explico a seguir, que concorde com ele). Ele atualmente comanda um grupo de empresas de propaganda que cuida de clientes altamente influentes, com investimentos em publicidade da ordem de milhões. Perder um só desses clientes não é uma coisa leve. São empresas cujos gerentes normalmente são homens de negócios, pessoas de números, de fatos, pouco ou nada criativas e relativamente conservadoras. Pessoas que em tempos de crise tentarão agir de forma cautelosa e ainda menos criativa. O discurso dele não é para os ouvidos da platéia do Maximídia e sim para os ouvidos de possíveis clientes que estejam prestando alguma atenção. Ele quer parecer seguro.
Mais do que isso, seu discurso tem uma alarmante semelhança com a ideologia republicana norte-americana do controle pelo medo. Diga que a situação está ruim, mais ruim do que parece. Afirme e ameace que ela vai ficar pior. Logo em seguida, ofereça-se como o salvador, o porto seguro. Votem em mim e às favas com a opinião pública.
Nizan não liga para a opinião do Fábio. Não liga para a opinião das centenas de micro-agências de publicidade que estão hoje execrando seu nome e o de suas empresas. Não tem por que ligar. Ele liga para a opinião de seus investidores. E está agindo de acordo.
Eu entendo o lado dele, mas realmente não dá pra levar a sério tanta teatralidade.

Porém também piso em ovos ao dizer que concordo plenamente com o Fábio. Porque do lado dele, o discurso parece ter aquele som de "o amor (ou a criatividade, nesse caso) conquista tudo, move montanhas, vence obstáculos". Embora seja um discurso muito mais acreditável no meio publicitário, tem ares de inconsequência romântica, como um bom bordão publicitário que te diz "beba a minha marca de refrigerante e seja hype". Parece daquele tipo de coisa que somos ensinados a gostar, daquele tipo de valor que estamos anestesiados demais para questionar. Porque ele é rosa e bonitinho e confortável.
Acho estranho um profissional, dono de uma agência/empresa ($$) ir para um painel denominado "Indústria da Comunicação - Oportunidades e Riscos" e só falar esses tipos de "slogans da publicidade para publicitários" em vez de realmente falar de indústria, de oportunidades e riscos, de coisas palpáveis.

Ou seja, é difícil escolher lados em conversa de publicitário. Pessoalmente, não estou nem com um e nem com o outro.

sábado, outubro 18, 2008

2000e8 ao vivo

A palestra mais recente do grupo 2000e8 aconteceu na sexta, na Escola São Paulo. Desta vez com Regina Parra e Bruno Dunley, moderada por Marcos Brias (outro membro do 2000e8) devido à ausênca de última hora do moderador oficial.

A dupla seguia a tendência dessas palestras de juntar dois integrantes do grupo com pesquisas visuais bem diferentes.

Dunley foi o primeiro a expor seus trabalhos [1][2], que de cara me lembraram a neutralidade de cores das naturezas-mortas do Giorgio Morandi, que ele logo citou como uma de suas referências. E me pareceu mais que coincidência ver entre a platéia o Paulo Pasta: havia um diálogo entre as pinturas de ambos, na materialização descompromissada de vastas áreas de cor aplicada em camadas grossas de tinta, pinceladas bem visíveis. Um tibuto à cor e uma fome por sua corporificação.
Mais adiante, Dunley apresentou séries que saíam do abstrato e adentravam a pintura figurativa, ilustrando paredes, pisos de azulejo e outras partes de interiores. Alguém (acredito que tenha sido Rodolpho Parigi) comentou que a procura de Dunley parecia girar em torno de ambientes caseiros. O comentário pareceu atingi-lo com o valor de uma revelação, de algo que ele de fato não tinha percebido, mas que era uma verdade incontestável.
Nas últimas séries mostradas, ele aplicava uma linha grossa de tinta pura, sem pincelada, diretamente acima da tela. O intuito era devolver a materialidade à pintura que, enveredando para a ilustração, tinha perdido um pouco da densidade dos abstratos. Me lembrou do meu retrato de Taís, onde eu tinha colado o pedaço de tela e pintado por cima para incluir um elemento que lhe desse uma relevância tridimensional, e não apenas plana. Esse elemento final de Dunley era como a assinatura, o fechamento, a "nota fiscal" da pintura acabada, como ele chegou a comentar.

Me identifiquei mais com os trabalhos de Regina Parra. Não tanto por serem pinturas figurativas [1][2], mas por um interesse em assuntos perversos que, em seu trabalho, tinham bastante a ver com identidade e identificação. Eu já tinha visto sua série chamada Devir, de retratos de crianças que cresceriam para se tornarem assassinos. Mas ela apresentou ontem sua série mais recente, de pinturas baseadas em imagens de câmeras de vigilância. Parecendo inicialmente banais, as pinturas ganhavam enorme poder e terror depois de alguns segundos, quando se percebia de onde vinham suas referências: aquele casal com a garotinha no carro de supemercado era a família Nardoni; aquele avião na pista era o fatídico vôo da TAM que saiu da pista de Congonhas; e a que mais levantou controvérsia na noite, de um frame de um interrogatório na prisão de Guantanamo. Todas imagens que teríam sido apagadas para dar lugar a outras de igual efemeridade, mas que são valorizadas ao serem materializadas em pintura. Mais do que isso, Parra coloca uma questão digna de nota: toda essa vigilância parece irrelevante ao percebermos que ela não previne os atos horrendos que acontecem a seguir. Um olhar inútil, obsoleto, ineficaz.
Parra faz uma escolha hábil com os títulos de sua pinturas, evitando a obviedade de chamar a pintura do casal de "Nardoni" ou a do interrogatório de "Guantánamo". Ela quer sim chamar atenção para o poder destas imagens, mas sem cair no ato kitsch de fazer um julgamento socio-político, de fazer mais barulho em cima de assuntos que já foram suficientemente alardeados.
Devo ainda comentar aqui que, ao escolher as imagens de baixa resolução das câmeras de vigilância como referência, Parra lembra bastante das pinturas de mortos do Gerhard Richter[1]. Não apenas pela escolha do assunto mórbido, mas pela qualidade de imagem desfocada e de cores lavadas que as câmeras antigas e de arquivos policiais tinham. Um visual que, mesmo na pintura, lembra um monitor de TV e transforma o que seria uma ineficiência (de resolução) em uma qualidade estética. Processo parecido ao que Richter fazia quando pintou o oficial alemão ou seu famoso nu descendo as escadas.

quinta-feira, outubro 16, 2008

Adendos à lista de webcomics

Incluí três webcomics na minha lista crescente neste blog.
Não lembro muito bem como foi que de de cara com o Abominable Charles Christopher de Karl Kerschl. Com uma versão traduzida para o português, a tirinha conta a história de um pé-grande vivendo em uma floresta prestes a ser desmatada pelo Homem. O personagem principal em si é mudo, de uma doçura e ingenuidade comoventes. No entanto os animais falam. E muito. Acho que o que de fato me conquistou foi a tirinha dos gambás publicitários, mas aconselho a começar do começo.

Através do Abominável, descobri a delícia estética que é Kukuburi, de Ramón Perez. Infelizmente não há tradução disponível, mas vale pelos gráficos e pelo modo como ele conta a história, que gira em torno de uma garota que acidentalmente atravessa um portal para um outro mundo muito louco, onde tem início uma disputa entre o bem e o mal por esta visitante que parece ter poderes importantíssimos nesse novo mundo.

Finalmente, através de um link no VG Cats, cheguei em MS Paint Adventures. O nome sugere que a tirinha é criada inteiramente no MS Paint, programa antiquíssimo de imagem da Microsoft. Mas o próprio autor (simplesmente chamado de Andrew) confessa que, embora esse tenha sido o intuito, ele preferiu mudar para o Photoshop porque, bom, "Paint blows" (Paint é um saco). Mas manteve o visual sem anti-aliasing e bem tosco. A história desse webcomic simula os antigos RPGs de computador, com a cena acontecendo na tela e uma linha de texto onde era possível digitar o comando para o personagem. Começa com o "jogador" na pele de um detetive cheio de auto-confiança e sem noção do ridículo, que precisa apenas sair de sua sala (alguém aí jogou Crimson Room, Viridian Room ou White Chamber, da FASCO-CS?). A cada atualização, o autor recolhe as sugestões dos visitantes para a próxima ação do personagem. Os resultados são imprevisíveis e completamente hilários.
MS Paint chama a atenção pelos detalhes que só quem jogou esses jogos (e outros) lembra. A arma logo na primeira cena que, devido a um "bug" do sistema, às vezes reveza seu lugar com uma chave; as janelas falsas que dão para outras dimensões; os menus cheios de ítens sem sentido a serem coletados ao longo da aventura; os poderes de ataque dos personagens, que ficam cada vez mais complexos à medida que eles avançam de nível. O autor usa dessas coisas para criar um universo de regras muito próprias. Por exemplo, em determinado momento do começo, alguém sugeriu que o personagem pegasse as coisas de sua sala e montasse um forte. Sob o efeito do alcool, o personagem entrou na edificação e foi transportado para uma realidade alternativa, um sonho coletivo com outros personagens. A ação foi repetida inúmeras vezes para resolver os mais diversos problemas.
Em alguns momentos, principalmente depois de tanto tempo avançando, as várias pontas soltas dessa história non-sense transformam tudo em um novelo muito complexo e incompreensível. Mas o humor prevalece e o autor resolve esses impasses com muita criatividade e referências de games.

segunda-feira, outubro 06, 2008

I had read it before somewhere...

Trechos do livro Galapagos de Kurt Vonnegut. Para você, que como eu, não entende chongas de economia e ainda tem a pretensão de entender a crise econômica atual.

"México e Chile e Brazil e Argentina estavam igualmente falidos - e a Indonésia e as Filipinas e o Paquistão e a Índia e a Tailândia e a Itália e a Irlanda e a Bélgica e a Turquia. Nações inteiras estavam repentinamente na mesma situação que o San Mateo, incapazes de comprar com seu dinheiro de papel e moedas, ou suas promessas de pagar mais tarde, mesmo as coisas mais essenciais. Pessoas com qualquer mantimento para vender, compatriotas e estrangeiros, estavam se recusando a trocar seus bens por dinheiro. Eles estava de repente dizendo para pessoas com nada além de representações de riqueza em papel, "Acordem, seus idiotas! O que fez vocês pensarem que papel era tão valioso?

Ainda havia bastante comida e combustível e tal para todos os humanos no planetas, mesmo sendo tão numerosos, mas milhões e milhões deles estava começando a morrer de fome. Os mais saudáveis deles poderiam durar sem comida apenas por volta de quarenta dias, e então a morte chegaria.
E essa fome era tão puramente o produto de cérebros enormes quanto era a Nona Sinfonia de Beethoven.
Estava tudo na cabeça das pessoas. Elas tinham simplesmente mudado sua opinião sobre a riqueza de papel[...]."

Eu sei, a crise é mais complexa do que isso. Mas a visão simplista aplicada à história de Vonnegut realmente faz pensar. No fim das contas estamoss todos aqui discutindo que papel vale mais do que os outros, quando tudo não passa realmente de papel.

quinta-feira, setembro 25, 2008

Juan Francisco Casas

Um dos exercícios que Lexy fez em aula recentemente resultou em uma idéia de fazer uma ação na internet para patrocinar um artista e com isso beneficiar tanto o artista quanto a marca do produto que ele usa. O artista que eles encontraram era uma referência antiga, o espanhol Juan Francisco Casas.
Não lembro ao certo quem foi que me passou a referência pela primeira vez, mas logo de cara me pareceu aquele tipo de idéia que me fez exclamar injuriado "por que que eu não fiz isso antes!?". Ele faz retratos colossalmente grandes a partir de fotos de conhecidos. Dessas fotos que tiramos com as atuais e abundantes máquinas digitais e seus flashes frontais e estourados. As fotos em si nos levam a concluir que Casas é um fotógrafo desleixado, mas ele compensa de forma primorosa pela escolha das expressões cotidianas e debochadas de seus amigos e pela técnica apuradíssima. Tenho que admitir que, se eu de fato tivesse feito isso antes, minhas obras teriam menos gosto do que as dele.

Mas o motivo da minha exclamação injuriada não é só esse.
Ele faz tudo com canetas esferográgicas.

Isso mesmo, canetas BIC, dessas que você compra e alguém pede emprestado e não devolve. Dessas que somem dos balcões das lojas se não estiverem amarradas com barbante. Mencionar isso já faz você, leitor, pensar em desenhos lineares dos contornos dos rostos. Mas vai lá, deixa de preguiça e clica no link do site dele. Sim, é mais do que isso. São verdadeiras pinturas, com volume, sombreado e tudo em uma absurda variedade de tons monocromáticos.
Lembro de ter feito uma anotação em um dos meus cadernos, junto a um desenho do retrato de Lilian que eu estava fazendo na época, sobre como era possível fazer diferentes tons com uma caneta BIC, bastando apenas um controle mais minucioso da pressão que a mão fazia sobre o papel e na proximidade entre as linhas.

A brincadeira de Casas me lembrou ainda de uma aula de história da arte. Claro que, como é típico dessas lembranças, eu não lembro de que período da arte essa aula falava, mas contava de como os franceses daquela época dividiam artistas entre desenhistas e coloristas, sendo que estes valorizavam a precisão na cor em detrimento do desenho e aqueles faziam o contrário. Ingres, por exemplo, era um colorista, e embora sua famosa banhista turca tenha cores e efeitos de luz bem realistas, continua tendo uma estranheza no modo como sua perna direita parece atravessar a cama e ter o joelho perdido em um limbo difícil de entender.
De fato, cada abordagem tem um raciocínio diferente, um modo diferente de compreender como é formada aquela imagem, que vai influenciar na produção de uma ilustração. Todo ilustrador parece ter uma queda para um dos lados, embora tente fazer um pouco dos dois. Eu mesmo tenho uma tendência a ser colorista e a tratar imagens como áreas de cor em vez de compreendê-las como formas lineares. Mas continuo desenhando nas telas antes de começar a pintar.
O divertido sobre o trabalho de Casas é que ele claramente segue um raciocínio colorista, tratando imagens também como áreas tonais mais escuras ou mais claras sem desenhar tantas linhas, mas usa o instrumento de um desenhista e apenas uma cor, o azul BIC.

Fiquei com vontade de fazer um exercício desses...

terça-feira, setembro 23, 2008

Tenho curtido bastante as sequências recentes do Sin Fest. Uma das jóias dos meus links de webcomics, a tirinha virtual é atualizada todos os dias, com páginas maiores e coloridas aos domingos. A frequência de atualização não tira a qualidade de cada tirinha, quem tem personagens muito expressivos e um roteiro hilário, recheado de humor negro e tiração de sarro.

Um dos pontos fortes do roteiro sempre foi sua atitude anti-maniqueísta, onde asseclas de Deus e do diabo travam batalha sem deixar claro quem tem vantagem sobre quem. Tudo isso enquanto um sereno e mudo Buda se nega a tomar qualquer partido na briga e se retira para ouvir seu iPod.
Mas ultimamente o criador da tirinha, o desenhista Tatsuya Ishida tirou lincença da atitude em-cima-do-muro para fazer sátiras políticas dos EUA. Começou timidamente com um dos personagens resolvendo se candidatar para presidente depois de saber dos escândalos sexuais envolvendo candidatos. Sua procura por mulheres para o cargo de vice-presidente chamou a atenção de outro personagem, um porquinho travestido de mulher vendo nisso sua chance de entrar para a política. Este, por sua vez, acabou sendo uma mistura entre Britney Spears e a escandalosamente idiotica candidata a vice do McCain, Sarah Pallin. Pra completar a pornochanchada, Ishida ainda fez uma mistura de Barack Obama com Lenny Kravitz (atenção para a referência ao vídeo do fã enlouquecido da Britney no último quadrinho) e uma curta participação de um McCain desafinado e tão ridículo e insípido quanto o verdadeiro.

As últimas tirinhas que vi tinham deixado esse assunto um pouco de lado. Concentram-se atualmente na derrocada do sistema econômico americano, completo com referências ao estouro das "bolhas" econômicas e a queda da bolsa de NY. O Tio Sam emo é a cereja do bolo nessa crônica do declínio do império americano.

Tempo

E de repente, dois anos se passaram desde que voltei de viagem.
O mais desesperador de tudo é que não os senti passarem. Um contraste amargo quando comparado aos seis meses daquela viagem que ainda não me saem da cabeça, e que pareceram por si só terem durado dois anos inteiros, um em cada país onde fiquei.

Foi pensando nisso e em tudo que meu irmão relatou de sua própria viagem que comecei a pensar sobre como a minha percepção de tempo está intimamente ligada à memória de eventos peculiares. Semanas de pura labuta, onde cada dia não se distingue do outro, não oferecem qualquer referência que as marque na memória. O tempo entre o hoje e a última vez que algo memorável aconteceu se estica em uma massa homogênea e imensurável a não ser pelos artifícios socias: os nomes dos dias, os números nos calendários, a movimentação bancária. Mas tudo isso são de fato apenas artifícios. A impressão que tenho é que o tempo não passou.
Será assim para todo mundo? Os anos ineventuais parecem passar depressa e os sabáticos parecem equivaler a três ou quatro?
O ano passado ao menos durou um pouco mais do que este. A banda pontilhou meus meses de noites especiais onde eu vivia aquele sonho de infância de estar sob o palco e reger uma pequena multidão. Mas este... Chegamos quase ao décimo mês e nada aconteceu. Faz-me sentir um desperdício de tempo, uma velhice prematura. Velhice esta que está até no modo como escrevo hoje, cheio de floreios barrocos e rugas.

Minha vida demanda uma mudança de vida. E planos já estão sendo feitos para que o ano que vem seja novamente duradouro.

domingo, setembro 21, 2008

Burning Man

Como todos os anos, o festival do Burning Man aconteceu na última semana de Agosto, tendo seu último dia no "Labor Day" americano. Este ano, reuniu 50 mil pessoas na cidade de Black Rock, Nevada, nos EUA. O festival reúne gente do mundo todo durante uma semana, para uma experiência única. O foco principal do evento está na expressão, nas mais variadas formas de arte. Claro que, estando no deserto, a ocupação de espaço tem um papel fundamental na diferença entre ser visto ou completamente ignorado. Por isso, obras tridimensionais gigantescas têm vantagem sobre a pintura ou outras formas de arte mais singelas. Os participantes usam os elementos ( o calor, o vento, a areia) na criação de obras flamejantes, trabalhos que se movem, coisas altivas que enfrentam o deserto.
Mas o festival não é só isso. Muita gente deixa a participação com obras físicas para experimentar com obras interativas ou experimentos sociais. Há uma outra característica fortíssima do Burning Man que é a questão social. De acordo com o site do evento, não há regras comportamentais (exceto aquelas que preservam a saúde e segurança da comunidade). Ou seja, você não é mais o outsider, o esquisito: tem sempre alguém fazendo algo mais inusitado. Dinheiro não tem valor no evento. Tudo é feito na base da troca e da bondade entre as pessoas. Você está lá para ter uma experiência fantástica e ajudar os outros a terem o mesmo. Você está lá não só para sobreviver ao deserto, mas para fazer dessa sobrevivência uma epifania artística.
Claro que nem tudo são flores. Ao que dizem os veteranos, o sol é inclemente durante o dia, e a noite é gélida. Característica do deserto. Não há lojas de comida no lugar e cada participante deve trazer seus mantimentos (água e comida) para toda a duração do evento. Chovem recomendações de protetor solar. Mas até mesmo a dificuldade deve ser encarada como um desafio esclarecedor. Quanto você precisa para passar uma semana no deserto?
A noite de sábado é reservada para o acontecimento que dá o nome ao evento: uma gigantesca construção em forma humana é queimada durante a noite em um ritual que encerra a edição daquele ano. Pelo que eu entendi, no fogo são queimados, entre outras coisas, o lixo e restos. Tudo para manter o ideal de não deixar nada no deserto. Claro que, após a fatídica semana, grupos de voluntários permaneccem no local para ajudar a retorná-lo à sua forma anterior. O evento não deixa vestígios a não ser a profunda transformação nos visitantes.

Depois de dois anos do mais absoluto marasmo que aconteceram após minha viagem à Europa, estou dando tratos à bola de participar do evento no ano que vem. Tenho um ano inteiro para ir atrás de informação, material e burocracia. Quem se candidata e ir comigo?

segunda-feira, setembro 15, 2008

2000e8 ao vivo

Na sexta passada, compareci novamente às palestras do grupo 2000e8. Desta vez, a conversa foi com os pintores Rodolpho Parigi e Rodrigo Bivar
A conversa teve início com um ponto muito interessante de se ouvir, com ambos explicando como a atenção atraída pela matéria de jornal há alguns meses atrás rendeu muita coisa, contatos, propostas, etc. Bivar tomou a palavra para questionar o modo como o grupo estava sendo alardeado como uma espécie de renascimento da pintura que, na opinião dele, sequer havia morrido. Comentou que para gerações anteriores de artistas, a pintura era uma questão complicada: por que pintar em uma era onde a captação e reprodução de imagens já era avançadíssima e o abstrato já tinha sido explorado à exaustão? Mas para o grupo 2000e8 (e, até certo grau, para os demais pintores atuais), essa questão estava superada (ignorada?): pintamos por gosto. O gosto pelo metier da pintura, seu processo de produção. A conversa seguiu então para um ponto que Parigi concordou, de que a arte atual havia alcançado uma situação onde, mais do que a qualidade do trabalho em si, havia uma importância exacerbada sobre as questões periféricas à arte: o mise en cene em torno do artista, da mídia, da moda, de vocativos e manchetes de jornal do tipo da "geração tinta fresca" que anunciava a matéria sobre o grupo. Ou seja, a relação com a arte, principalmente nos grandes centros, era indireta, mediada. As pessoas viam as obras pelas fotos do jornal, pelos sites, não pessoalmente.
Preciso concordar veementemente. A sensação de maravilhamento que tive diante do Eine Kleine Nachtmusik da Dorothea Tanning na Tate em Londres, por exemplo. Vê-la em livros já havia sido uma experiência poderosa, mas estar diante da obra em si, da precisão de minúcia das pinceladas, é outra coisa. E perdemos isso cada vez mais, pela possibilidade de procurar no Google e ter acesso a qualquer imagem.

Isto posto, o resto foi a apresentação dos trabalhos.
Parigi começou, apresentando seus abstratos. Seu jeito cômico, debochado e sexual aparecia nas pinturas [1][2], que misturavam cores extravagantes a efeitos de luz e formas que lembravam coisas úmidas, líquidas, orgânicas. Mas ele tinha ainda outro trabalho: abstratos gigantescos que tomavam conta de fachadas de prédios como o da Galeria Vermelho ou o interior da Nara Roesler. Ele explicava o uso exclusivo de preto para os desenhos devido à rapidez que ele precisava para executá-los. A mente trabalhava mais rápido do que as mãos, dizia ele, e a cor seria mais um dado que consumiria tempo demais para incorporar na produção. Mas havia outra coisa nisso: perguntei a ele se ele acreditava que seu trabalho em fachadas tinha algo a ver com o grafite ou pixação, aproveitando para citar o caso da Choque Cultural. E ele admitiu que tinha sua queda pela pixação. Mais do que pelo grafite, que ele considerava ingênuo. Obviamente, Parigi seria o típico alvo do protesto na Choque Cultural: o artista plástico que se apropria da linguagem do grafite/pixo sem nunca ter sentido a adrenalina transgressora de pixar sem autorização. Deve-se no entanto prestar atenção ao fato de que ele não se intitula pixador. Diz-se artista plástico, com muita propriedade. Apenas se interessa pela estética, a expressividade, e pelo conceito transgressor. De qualquer forma, deixou escapar que tem seus planos de consumar todo o ato da pixação. Proibições e tudo.

Me identifiquei, como pintor, com os trabalhos de Bivar. Apesar dele ousar menos com as cores, também pinta a partir de fotos de conhecidos. Sua procura, assim como com a Renata de Bonis na palestra anterior, é pela homogeneização. Ela procurava o menor contraste entre as cores. Ele, a menor diferença hierarquica entre os elementos da pintura. Por isso, dizia pintar um detalhe como um braço ou um rosto com o mesmo desprendimento que pintava um objeto inanimado. Entendi sua procura: era a tentativa de esvaziar os olhos de significado, ver até mesmo um corpo conhecido como não mais do que forma, sem o fardo do seu significado. Mas isso, na minha opinião, acaba sendo um detalhe pessoal de quem executa a pintura, difícil de ser compreendido por quem a observa. É como a minha sensação de lascívia ao pintar a curva de um lábio ou escolher o tom correto de uma pele de garota. O produto final, para o observador, raramente lhe transmite essa mesma experiência.
Mas será que isso torna a experiência do pintor menos válida?
O que vale mais, a experiência do artista ou a que ele causa no leigo?

A próxima palestra do grupo 2000e8 acontece no dia 17 de Outubro, às 19:30, na Escola São Paulo. Desta vez, com a presença de Bruno Dunley e Regina Parra.

terça-feira, setembro 09, 2008

Ataque à galeria Choque Cultural

Essa história do grafite está me rendendo muito assunto por aqui.

Recebi notícias hoje sobre um ataque acontecido neste fim de semana à galeria Choque Cultural, protagonizado por cerca de 30 pixadores [1][2][3]. Ao que tudo indica, o ataque foi organizado por Rafael Guedes Augustaitiz (Rafael Pixobomb), o mesmo artista que em julho deste ano tinha sido expulso da Faculdade de Belas Artes por ter apresentado como trabalho final uma ação semelhante, onde pixou as dependências da faculdade. Os donos da galeria estavam fora do país quando tudo aconteceu. A "ação" foi documentada com fotos em uma conta de Flickr onde li a maior parte da discussão gerada.

Diz-se por aí que o ataque foi um protesto dos pixadores contra a "comercialização, institucionalização e domesticação da Cultura de Rua", revoltados com a popularidade que os grafiteiros conquistaram recentemente (vendendo-se para "O Sistema"), enquanto o "pixo" ainda é marginalizado. Cabe aqui uma breve explicação que talvez eu não tenha escrito por aqui. Com a ascensão dos grafiteiros ao status de artistas, abriu-se ainda mais o abismo entre o grafite e a pixação. Entenda-se grafite como um estilo de arte predominantemente figurativo, ilustrativo, executado em muros da cidade. O pouco de texto que se vê é estilizado e abusa das cores. Já a pixação é compreendida como o ato de demarcar território (geralmente em lugares altos e de difícil acesso) com assinaturas etilizadas e pouco uso de imagem. A cor principal é o preto fosco, embora alguns pixadores experimentem com outras cores. Ambos têm fortes ligações com a questão do espaço publico e sua privatização pelas chamadas "classes burguesas" e "O Sistema". Mas de forma geral (e mesmo antes da ascensão do grafite), a primeira é vista como uma forma de expressão tolerada em maior ou menor grau, e a segunda ainda é vista por muitos com o desprezo reservado apenas a animais que mijam para marcar território.

Muito bem, vamos às questões...
Sabe-se contra o quê foi o protesto. Mas contra quem foi? Contra a galeria? Acho que isso é o mesmo que vandalizar um McDonald's e esperar que isso afete o capitalismo. Não, segundo talita virginia, uma das pessoas comentando no Flickr, o ataque não foi contra quem quer levar a arte das ruas para a galeria, mas contra quem se diz "grafiteiro" e faz "arte de rua" sem nunca ter pintado um muro. Certo. Vamos às duas questões consequentes.
Primeiro, se o ataque era contra esse tipo de falso grafiteiro, então por que detonaram a galeria em vez de ir ter com os falsários em si? E segundo, concordo que é falso dizer-se grafiteiro sem nunca ter pintado uma parede, mas se o individuo em questão se diz artista plástico e se apropria dessa estética pra usar em outro contexto (uma pintura em tela, por exemplo), ele está tão errado assim? Tem muito ex-grafiteiro que virou artista plástico. Mas os que eu conheço sempre tiveram a decência de separar as duas coisas.
A Choque Cultural nunca afirmou vender grafite. Usando de termos ambíguos, afirmou ser dedicada à estética underground. Os defensores da galeria afirmam que de fato ela nunca vendeu grafite: para isso teria que vender um muro inteiro. E isso é espaço público. Ela comercializa coisas vendáveis (telas, esculturas, revistas, etc) com a estética underground.
Fiquei surpreso ao ver muitos pixadores comentando no Flickr contra a ação. Aparentemente, há uma regra de conduta entre pixadores de que não se pixa sobre trabalho dos outros. "Atropelou é TOY", escreveu um, usando a gíria que significa, trocando uma tribo urbana pela outra, ser n00b (newbie, o novato e inexperiente que só faz besteira, entre tribos da internet) em pixação. Fez-me lembrar de outra questão recente tratada na mídia, onde os punks veteranos que tinham motivos para a violência desobediente criticaram as gangs de punks recentes, que promovem a violência pela violência. Estes pixadores parecem promover o "pixo pelo pixo", sem pensar direito na subversão que pretendiam promover. Reitero meu repúdio a esse pensamento tipicamente americano do "rebelde sem causa", do "ser diferente, único e contra O Sistema" só porque disseram que é legal. Outro dos que comentaram, jotapepabst, exemplificou essa minha sensação escrevendo "o trabalho que tava exposto na galeria era de um inglês chamado gerald laing, que tem o dobro da minha e da sua idade juntos, que participou de outro tipo de subversão em outra época... e nunca se disse grafiteiro. batalhou muitos anos pra chegar onde ele tá agora e poder viver com dignidade fazendo o trampo dele. esse cara foi atropelado, inexoravelmente. só me diz o que ele tinha a ver com a história".

A dona da galeria, Mariana Pabst Martins, não desceu do salto e deu uma resposta à altura no próprio Flickr em questão, comentando que eles tinham deixado uns quadros legais por lá, que deveriam ser muito valorizados com o ocorrido. O comentário deu o tom para o sarro da discussão, transformando o ataque sofrido em uma ajuda imprevista à galeria e ao que ela representa e completando a desmoralização do grupo de pixadores.

O resto ainda está meio confuso para mim. Há quem diga que a ação foi encomendada, como um marketing de guerrilha. Se comprovado, o feito faria apenas desmoralizar ainda mais os pixadores que participaram, por colaborarem com "O Sistema", e enaltecer a galeria entre os publicitários (mas não entre os artistas...), porque convenhamos, seria uma estratégia bizarra mas muito eficiente de gerar buzz (tá, me processem, eu uso termos publicitários...). Há quem aponte para o fato de terem tirado fotos e publicado no Flickr como indício de que o negócio foi armado. Mas para uma galera que vandaliza as coisas assinando a própria identidade, acho que segredo não é uma prioridade. De qualquer jeito, é algo a se pensar: nas fotos do Flickr, as únicas obras pixadas são as que têm moldura com vidro pra proteger...

[DISCLAIMER]
Pessoalmente, eu nunca pintei um muro que não fosse meu ou de amigos. Nunca senti a adrenalina do grafite ou pixação (coisa que, entre os comentários, parece validar alguém como artista de rua). Sou de um estilo de arte bem mais conservador e careta, longe da street art. Portanto pode-se dizer que não me cabe esse juizo de valores. Mas ainda sou livre para ter opiniões.[/DISCLAIMER]

[EDIT]Mais links adicionados em 11/09/2008[/EDIT]

quinta-feira, setembro 04, 2008

Complementando

Pra complementar coisas que eu tenho postado por aqui, vi duas notícias que me chamaram a atenção recentemente.

A primeira é um de um site sobre grafite ecológico (?) que lista as 35 maiores obras de grafite reverso.
O grafite reverso, como o nome indica, é a ação executada por alguns grafiteiros que trocam as latas de spray e outros instrumentos mais rotineiros por material de limpeza. Ou seja, em vez deles gerarem ilustrações por um processo de adição, colocando tinta em superfícies públicas; eles realizam os seus trabalhos por subtração, limpando partes de superfícies imundas da cidade para criar suas imagens. Achei fantástico. Sem falar que reverte a idéia de que grafite é uma coisa suja.

A segunda notícia veio do site do Yahoo!. Parece que uma empresa está se preparando para lançar bicicletas elétricas por aqui. A idéia é suprir um crescente mercado de gente que não aguenta mais o transito desta cidade (que tem batido récordes e deixado muita gente perplexa ultimamente), mas também não gosta da idéia de chegar suado no local de trabalho logo de manhã. Embora a notícia não dê palpite sobre o preço, diz que com certeza será menos do que as motos mais baratas. Quem sabe... Agora só falta o governo acordar para a realidade e cooperar com as ciclovias.