Não há como não ser influenciado pelas opiniões a respeito da Bienal. Estão em toda parte, superadas apenas pelas opiniões sobre a vitória de
Obama para a presidencia dos EUA. E para quem se liga mais em arte do que em política, é impossível pensar em outra coisa.
Fui sozinho à minha primeira visita à Bienal deste ano. Queria dar o devido tempo às obras que me chamassem a atenção, sem lidar com a pressa alheia. Porém, mais do que isso, queria que minha opinião sobre o evento e as obras fosse só minha. Porque quando estou com alguém nessas exposições, tenho a tendência a fazer o papel de advogado do diabo, defendendo trabalhos que, em outras circunstâncias, eu teria desprezado.
As matérias de jornal se enganam ao dizer que esta edição da Bienal conta com um andar vazio. Na verdade é um andar e meio. O primeiro piso do prédio da Bienal tem sua primeira metade, logo antes da rampa, que não está propriamente vazio, mas quase. Pelo que relatam os textos estilosamente aplicados na dita rampa, essa primeira parte tem o propósito de servir como uma espécie de praça pública, um espaço aberto e verdadeiramente público. Essa era, segundo os curadores, a idéia inicial de
Niemeyer para aquele espaço. Só não pude dizer que o espaço está vazio porque ainda estavam por lá os restos do palco do show do
Fischerspooner, que a galerinha mais
hype disse que foi ótimo. Além disso, há uma curiosa, embora sorrateira videoinstalação do
Rubens Mano em um cubículo imperceptível abraçando uma coluna, e a intervenção da turma da
Anarcademia (espécie de coletivo de jovens artistas formado pelos asseclas da
Dora).
Por causa da "intervenção" dos pixadores no andar vazio, a entrada para a Bienal propriamente dita é agora controlada por um forte esquema de segurança, que inclui detectores de metal, guarda-volumes para bolsas suspeitas e muitos homens de preto. Meus parabéns à turma do Pixobomb... Podem não ter mudado a opinião pública sobre o pixo, mas mudaram a atitude da Bienal, que ficou bem menos receptiva.
Logo na entrada, dei de cara com o
Mundo Explicado do argentino
Erick Beltrán. Me pareceu um projeto interessante, valendo-se da interatividade com o público e da noção popular (de "nao-especialistas", como ele chama o público) sobre diversos assuntos para criar uma espécie de enciclopédia de conhecimentos gerais e explicações chucras do mundo. O projeto contava com uma pequena equipe de editores, uma impressora off-set e um intrincado sistema de dados.
Outro detalhe que me chamou a atenção no primeiro andar foi o projeto
Talisman de
Paul Ramirez Jonas. Um chaveiro instalado na Bienal entregava supostas cópias da chave do pavilhão em troca de cópias das chaves dos visitantes. O visitante pode, teoricamente, vir até o pavilhão pela manhã para abrir a Bienal daquele dia. Uma troca interessante, mas acho que depois do ataque ao segundo andar, ações desse tipo ganham outros ares e muitos medos.
Mas o que realmente toma boa parte da atenção e relevância do primeiro andar é a sessão de vídeos. Os curadores desta edição devem ser realmente apaixonados pela mídia, já que dedicaram uma área dividida em várias partes intensamente organizadas a essa forma de expressão. Trata-se quase de uma mostra dentro da mostra, relatando um pouco dos primeiros experimentos em video arte, questões políticas relacionadas e vídeos com uma linguagem mais recente. O mais interessante dessa área de vídeos é que seu conteúdo muda a cada semana. Não sei exatamente o que pensar disso: se a estratégia foi divisada para conseguir expor tão vasto acervo, ou para convencer o visitante a voltar inúmeras vezes, aumentando assim as estatísticas desta edição do evento. Quiçá seja por ambos os motivos.
E então, o segundo andar. O andar "vazio". Escrito assim, entre aspas, porque uma das entradas para os escorregadores do belga
Carsten Höller fica aqui. E já fica aqui a minha primeira crítica sobre o segundo andar: se é para ser vazio, que seja realmente vazio. Da forma como está, virou "o andar do escorregador". No mais, embora eu admita que é algo relativamente impressionante estar naquele enorme andar vazio, qualquer visitante assíduo do Ibirapuera vê aquilo se olhar através das enormes janelas do pavilhão nas épocas em que ele está fechado e sem exposições. Ou seja, nenhuma novidade. Até cheguei a murmurar maravilhado sobre como seria legal andar de patins naquele chão perfeitamente liso. Ah, é... pra isso tem a marquise lá fora. Ou seja, nenhuma novidade MESMO.
Encontrei
Marcela Tiboni no andar vazio. Vendo-a chegar à distância e reconhecendo-a através da minha miopia.
Marcela organizou o corpo de monitores desta edição, chegando até a me mandar um e-mail convidando-me a participar. Vontades de largar a agência de publicidade e ir... Conversamos sobre o ocorrido no domingo de abertura, sobre os pixadores. Ela estava lá no embate entre eles e os seguranças e contou da violência de ambas as partes. Relatou ainda que depois daquilo, muita gente ia ao segundo andar só pra fazer rebeldia gratuita, se comportar mal e gritar aos quatro ventos que estava sendo agredido por seguranças d'O Sistema. Achei talvez a parte mais interessante e estimulante da minha visita ao segundo andar: ouvir em primeira mão o relato do outro lado da história. O de quem tem que lidar com os pixadores na prática, e não apenas fazer divagações teóricas sobre a validade artística dos atos deles.
Marcela não queria saber da validade de porra nenhuma. Tinha sido agredida por gente que viera atrapalhar seu trabalho e não teria um pingo de simpatia por aqueles pixadores, artistas ou não. E isso tudo era mais real e dizia mais a ela do que qualquer arte.
O terceiro andar é, via de regra, o melhor da Bienal. Em quase todas as edições que fui. E embora eu não tenha visto tudo por estar começando a sentir os efeitos do cansaço (a impaciência, a dispersão...), gostei muito do que consegui ver. Logo de cara, passei quase uma hora no trabalho de minha ídola
Sophie Calle. Assim como os vídeos, a montagem de
Calle era uma mostra dentro da mostra. Centrando-se em um trabalho específico,
La Filature (A Perseguição), com fotos e anotações penduradas em uma parede sobre a experiência que fez pedindo que sua mãe contratasse um detetive para segui-la, a montagem trazia também cadeiras às quais estavam amarrados exemplares de um livro documentando a experiência simbiótica entre
Calle e o escritor
Paul Auster. Ele criou uma personagem baseada nas pesquisas e performances de
Calle sobre intimidade e identidade para um de seus livros, enquanto ela procurou viver as performances e situações que a personagem de
Auster viveu. Nesse processo, diversos dos trabalhos anteriores de
Calle foram descritos e documentados no livro, que serve quase como um catálogo da carreira da artista. Poderia escrever um post separado sobre
Sophie Calle (talvez o faça algum dia...). Seu trabalho parece validar atitudes tidas como perversas como o voyeurismo, a obssessão e todas as atitudes de um bom
stalker.
Logo ao lado, o aguardado trabalho de
Marina Abramovic não tinha nada a ver com a fundação que ela criou depois de separar-se de
Ulay, como eu tinha previsto. Era um trabalho antigo, uma coleção de auto-retratos em vídeo. Ela os chamava de retratos por serem closes de seu rosto em diversas situações. Fez-me lembrar dos meus retratos, que eram justamente isso: ilustrações de rostos que tomavam toda a tela. Deu vontade de fazer vídeos como os dela. Mas acho que falta-me a poesia.
Abramovic também figurou em diversos vídeos da área de vídeos do primeiro andar. Vários deles com o ex-parceiro. Não tenho certeza, mas acho que tem um vídeo dela para cada semana da Bienal na última sessão da área do primeiro andar.
De saída, fiquei com vontade de escrever nas máquinas alteradas de
Rivane Neuenschwander. O trabalho também era
antigo e conhecido, das máquinas de escrever modificadas, mas a interação do público é sempre interessante. Às vezes acho-a mais interessante do que o próprio trabalho da artista, por ser uma amostra de criatividade anônima, pública, desconhecida. Mas não escrevi nas máquinas. Porque, conforme eu tinha escrito antes, o trabalho de
Rivane precisa de seu próprio tempo e dedicação. É um trabalho sutil, delicado, para sentar, apreciar e pensar a respeito por alguns minutos. E colocado assim, no fim de uma longa exposição de várias horas, acaba vitimado pelo cansaço e impaciência do visitante que já saturou-se de arte e quer ir para casa.
Também não desci pelos escorregadores do
Carsten Höller. O trabalho faz sucesso e a fila para acessá-lo é consideravelmente longa. Não tiro o mérito do trabalho: embora ele não convide a uma reflexão tão profunda quanto outros trabalhos, é divertido e mantem as crianças ocupadas. Mas quem sabe uma próxima vez...