domingo, maio 10, 2009

Welcome to your Quarterlife Crisis

Esta semana, uma amiga minha colocou no Twitter um link para uma matéria no site Eyeweekly sobre o que eles chamaram de Quarterlife Crisis. Traduzindo em miúdos, a "Crise de um Quarto de Vida". Geralmente referida por aqui como a dos Adolescentes de 25.
O começo do texto traça dois perfis, masculino e feminino, bem conhecidos por muita gente com a qual eu convivo. Pessoalmente, o que mais me chamou a atenção foi o segundo parágrafo:
Ele vai de bicicleta para seu trabalho em uma agência de publicidade, onde ele usa seu mestrado em Letras para revisar redação publicitária, e passa várias horas lendo blogs de música e assistindo traillers de filmes, Twitando atualizações periodicamente sobre seu dia de trabalho para seus 74 followers. Ele não odeia de fato seu trabalho, mas sente que sua pele está cheia de vermes rastejando nela durante a maior parte do tempo em que está lá, então ele planeja se mudar para a Tailândia, ou talvez escrever um livro. Ou fazer faculdade de direito.

Não é totalmente idêntico a mim, mas é quase uma versão minha em um universo alternativo. Não vou de bicicleta para o trabalho ainda, mas o plano estava na minha cabeça há muito tempo, só esperando eu resolver a questão de chegar no trabalho suado e fedido. Estou em vias de conseguir um mestrado em artes plásticas que não vai mudar em nada o meu cargo de assistente de arte que pega serviços secundários e menores nas agências enquanto gente menos capaz pega o interessante. Passo boa parte do dia lendo webcomics e Twitando atualizações para meus 53 followers (Putz, tenho até menos do que o cara do exemplo...). Não odeio meu trabalho (de fato, é uma das agências mais gostosas e tranquilas nas quais trabalhei...), mas sinto que tudo aquilo tem um quê de perda de tempo às vezes e que eu poderia estar ganhando mais e fazendo algo que me desse mais satisfação pessoal. Planejo passar um tempo em Londres, ou talvez fazer exposições. Só não penso em fazer MAIS UMA faculdade...

O texto continua tentando explicar o fenômeno. Diz que acontece entre gente no fim dos vinte, começo dos trinta; de classe média-alta; bem educada e informada. Algo como a Charlotte, personagem de Scarlet Johansson em Lost in Translation.

Eles não conseguem tomar nenhuma decisão porque não sabem o que querem, e não sabem o que querem porque não sabem quem são, e não sabem quem são porque têm a permissão e possibilidade de serem o que eles quiserem.

Ao contrário da crise de meia-idade, onde o indivíduo se pega percebendo como tinha muitos sonhos e nenhum deles foi realizado, a crise de quarto-de-vida que a antecede encontra o indivíduo se perguntando qual é o plano, quais são os sonhos. Conheço muita gente, muita mesmo, acometida de casos severos de depressão porque não encontra gosto em nada do que faz. Lembro vagamente de diversas coisas que escrevi por aqui, sobre como o problema não era não ter aptidão alguma, mas ter várias aptidões. Sentir que cada decisão era a negação de várias outras possibilidades que talvez fossem a escolha certa.

De forma geral, o coração da crise de quarto-de-vida está nas promessas que nos foram feitas e nunca chegaram a ser realizadas. Eu acreditava, como uma boa maioria de colegas do colégio, que se eu estudasse bastante e entrasse em uma boa faculdade, eu teria um emprego rentável garantido em uma carreira criativa e interessante. A minha parte do acordo foi cumprida, mas o retorno nunca veio. Já é óbvio que não há vagas suficientes para suprir a quantidade crescente de pessoas saíndo das faculdades procurando trabalhos "criativos e interessantes" (que eu chamo de Empregos que Todos Querem). Então só estudo e boas faculdades não garantem a vida como garantiam nas gerações anteriores. De fato, esses caminhos de vida significam cada vez menos para a minha geração. Hoje vejo que as pessoas que estão de fato nos Empregos que Todos Querem são pessoas que parecem ter nascido apenas para aquilo e nada mais. Não há outra opção e eles se dedicam inteira e unicamente àquilo. Os outros, com mais do que uma única aptidão, acabam frustrados pelo que escolheram em detrimento das outras possibilidades. E esse sentimento é pesadíssimo.

Pra sair um pouco de cima do texto da Eyeweekly, fala-se muito que a educação mudaria para melhor a situação do país. Mas eu acho que a crise de quarto-de-vida mostra o contrário: com mais acesso à educação, mais pessoas estudariam para conseguir Empregos que Todos Querem, e teríamos mais pessoas concorrendo para vagas mais escassas. Claro que não posso advogar aqui que melhorar a educação no país seja uma coisa ruim (heresia!), mas tem suas consequências.

Voltando ao texto, um dos últimos parágrafos me surpreendeu fazendo uma interpretação pejorativa das mídias sociais como o Orkut e o Facebook:
Todo tipo de conhecidos meio esquecidos e amizades abandonadas reaparecem nesta planilha de razões potenciais para se sentir péssimo sobre você mesmo. Se você é tão mesquinho quanto eu, você passa boa parte do seu tempo no Facebook medindo seus próprios sentimentos de inadequação em relação direta com o sucesso dos outros. Todas essas pessoas para as quais você não dava a mínima alguns anos atrás são agora exemplos onipresentes e referências para medir todas a oportunidades que você tem ou não na vida.

Cogito saír do Orkut... Na verdade, o mais correto seria ouvir a Lexy e parar de me comparar aos outros. Se você souber como fazer isso, por favor me conte.

sábado, maio 02, 2009

O Homem da Tarja Preta

Ricardo Bittencourt em O Homem da Tarja Preta Começam a surgir com cada vez maior profusão as formas de expressão que se debruçam sobre essas questões masculinas atuais que tanto me interessam.
Neste feriado da sexta-feira, dia do Trabalho onde ninguém trabalha, levei Lexy para assistir comigo ao Homem da Tarja Preta, monólogo escrito pelo colunista Contardo Calligaris (que já figurou neste blog alguns posts atrás, fazendo uma ligação interessante entre a crise masculina e os atiradores em escolas) e encenado pelo ator baiano Ricardo Bittencourt no teatro Eva Hertz (no Conjunto Nacional da Paulista). A peça é curta: cerca de uma hora. A primeira parte da peça, um desbocado revelar da vida íntima de um homem de negócios cross dresser, podia ter sido um pouco menor. Mas o texto compensa logo em seguida, abordando com relevância algumas daquelas questões complicadas dos homens atuais. Admito que esperava ver ainda mais desses assuntos encenados no palco, mas só o fato da peça ser inteira dedicada a esse questionamento já é um avanço para os homens.
O personagem passa seus primeiros minutos despindo-se da roupa de homem de negócios (a real travestia) e vestindo-se de mulher para entrar no chat e se oferecer aos outros homens. Revela que nunca nada acontece de fato e que a graça não está no acontecer, mas no simples ato de oferecer-se. Daí parte para uma conversa honesta e desbocada sobre o que é ser homem numa época onde não há mais referências confiáveis do que é ser homem, do que é certo no sexo, do que o excita.
Ele aborda outros pontos dos que já mencionei por aqui além da falta de referências masculinas. A imposição feita ao homem de ser alguém na vida enquanto a mulher, mesmo após o Feminismo, ainda pode casar-se com um homem rico e considerar-se realizada (perceba que a situação oposta torna o homem "menos homem"). O medo do homem da possível tendência homossexual e como isso o enfraquece. A tênue linha que ele imagina existir que separa o homo do hetero ("Beijar outro homem, tudo bem, é divertido. Mas dar eu não dou, porque é coisa de bicha"). As múltiplas variações, graus e hierarquias de homossexualidade criadas por ele para "manter alguma dignidade" mesmo dentro de suas perversões ("Posso ser cross dresser, mas não sou viado"). O declínio do arquétipo de macho provedor em uma época onde as mulheres se sustentam. Uma geração inteira de homens que não sabem mais brigar, apáticos, passivos, domesticados.

A questão das hierarquias me pareceu particularmente interessante na peça. Ele fazia de tudo para justificar que, apesar de seu "desvio", ele ainda era macho. E em dado momento, a quantidade de referências a variações de homossexualidade era tamanha que me levou a perguntar: será tudo isso de fato necessário? Por que é que uma mulher é hetero ou lésbica enquanto um homem é heterossexual, homossexual, metrossexual, überssexual, travesti, cross dresser, drag e outras tantas variações? Aliás, porque é que uma mulher usa roupas masculinas sem perder a feminilidade e os homens rotulam, dissecam, questionam, rebaixam?
Pensando nisso, me veio à cabeça a animação simples porém relevante do Rodrigo Burdman chamada Homo Erectus. Acho difícil não rir dela. E no entanto ela ao mesmo tempo se aproveita dessa mania masculina de rotular para neutralizar aquilo de que tem medo, enquanto joga na cara o maior medo masculino e termina com sabedoria. Assista!
Mas aqui eu já estou fazendo resenha dentro de resenha e a coisa tá ficando meio complicada...

Ricardo Bittencourt em O Homem da Tarja Preta


A peça está em cartaz no teatro Eva Hertz (na Livraria Cultura do Conjunto Nacional - av. Paulista, 2.073, tel. 0/xx/11/3170-4059), quintas e sextas às 21hrs, até 19/6. Custa R$20 e sugiro comprar com bastante antecedência, porque lota mesmo!

segunda-feira, abril 27, 2009

Vik Muniz no MASP

Começou na sexta passada a exposição do Vik Muniz no MASP.

Vik Muniz começou a ser notícia quando eu estava começando o curso de arte da faculdade. Eu tinha passado da fase imatura de gostar de Dalí e Caravaggio pra procurar referências que não fossem tão óbvias e ele foi um dos meus primeiros ídolos daquela época, antes que eu tomasse conhecimento da existência do Gerhard Richter. Meu interesse por Muniz baseava-se na esperança: em uma época onde eu via tanta arte abstrata, conceitual e que menosprezava as técnicas antigas e a ilustração que eu tanto adorava, ele estava fazendo muito sucesso e enriquecendo rápida e assustadoramente fazendo um tipo de arte que me parecia nadar contra a corrente. Ele ilustrava enquanto todos os professores da faculdade estavam tentando fazer-nos desistir da ilustração pura e simples.

De forma resumida, Muniz não faz nada muito diferente do que nós ou qualquer entusiasta de desenho faz para exercitar sua habilidade. Ele arranja fotos, muitas vezes bem famosas, e apenas as reproduz, sem alterar nada. O que faz seus exercícios valerem muito no mercado é o material que ele usa.
A primeira obra de Vik Muniz que me chamou a atenção foi sua recriação da Medusa do Caravaggio usando macarrão e molho de tomate. Como eu disse, eu estava saindo da fase de idolatrar o Caravaggio. Foi da mesma época a ilustração da foto do Freud feita com calda de chocolate, que lhe rendeu o convite para fazer a capa do CD dos Tribalistas. No caso do retrato de Freud, ainda acho que há uma ligação mais forte entre a imagem e a matéria, com todo aquele negócio de grandes quantidades de chocolate terem o mesmo efeito bioquímico do sexo, tema muito explorado pelo psicanalista austríaco.
Os trabalhos subseqüentes exploraram melhor esse tipo de ligação e procuraram se distanciar das imagens kitsch. Muniz já fez retratos de crianças que trabalhavam em plantações de cana com açúcar e retratos de catadores de lixo com (dããã...) lixo, só pra citar alguns exemplos.
Outros trabalhos foram menos felizes. Ele desenhou nuvens no céu com a ajuda de aviões de publicidade (desses que escrevem com fumaça) e ossos na terra com a ajuda de tratores. Explorava mais a relação entre um signo e o objeto que ele significa (daí a brincadeira de desenhos de nuvens feitos com nuvens). Embora estes trabalhos tivessem mais a ver com as discussões atuais do pós-modernismo, Muniz já havia caído no gosto popular e enriquecido com seus retratos mais simples de serem compreendidos pelo público leigo e rapidamente voltou a fazer coisas naquele âmbito.

Recentemente andei lendo o Postmodernism de Eleanor Heartney que comprei durante o carnaval passado na Argentina. O começo do livro faz uma ligação entre o pós-moderno e uma vertente da semiótica chamada pós-estruturalismo. Se antes considerava-se que a linguagem se referia a uma verdade incontestável que estava "lá fora", no mundo real; essa idéia mudou com o estruturalismo, onde a linguagem era um conjunto de significantes (palavras) que tinham seus significados (conceitos) variados e mutáveis, mas que ainda de certa forma faziam referência a um mundo real. O pós-estruturalismo dispensa o real e fica apenas com a multiplicidade de sentidos possíveis da relação entre as palavras. Ele abre caminho para sentidos completamente surreais, para frases com entre-linhas que dizem o oposto.
Heartney usa este conceito da negação da realidade para falar de uma arte que pertence a uma época onde a compreensão do mundo se dá através de imagens mediadas (TV, mídia impressa, internet) e não pelo contato direto. E que muitas vezes, a ausência desse mundo real não é sequer sentida.
O livro também fala do pós-moderno como uma negação ou reação a alguns aspectos do modernismo (entre eles, a necessidade da abstração), ou mesmo um retorno a um estado anterior a ele.
Por meio desses conceitos dá pra entender como os retratos do Vik Muniz são atuais: brincam com a relação de significantes na escolha do material (Freud - chocolate); negam a abstração a favor de uma técnica bem mais antiga e, pelo menos nos primeiros retratos, usam imagens mediadas como referência em vez do contato direto.

[EDIT]
Não tinha me dado conta na primeira vez que vi, mas tem um comercial da Nextel com o Vik Muniz passando há algum tempo. Bacana. [/EDIT]

A exposição no MASP fica aberta de terça a domingo, das 11h às 18h (quintas até as 20h) e vai até o dia 12 de Julho. O preço é de R$15,00 (terça é de graça!!). Mais informações pelo telefone (011) 3251-5644.

quinta-feira, abril 23, 2009

Papo de Artista

Há algum tempo que estou tentando transformar este blog em alguma coisa especializada em arte. Não é coisa fácil para quem já não tem mais tanto tempo de escrever (ainda por cima com o servidor da agência bloqueando o acesso ao Blogspot). Esses dias encontrei uma inspiração (ou motivo de inveja, sei lá...). É o Papo de Artista, um blog que comenta e dá dicas sobre as principais exposições que estão acontecendo e outras coisas interessantes sobre o mundinho das artes plásticas. Será que se eu me dedicar mais eu chego em um nível parecido? Será que isso espantaria os meus poucos leitores sobreviventes? Veremos...

segunda-feira, março 30, 2009

Axe

Socorram-me: estou virando idealista panfletário...

Quando vi o novo comercial do Axe recentemente, percebi o quanto este e todos os outros da linha principal deles denegriam a imagem masculina. Quer dizer, trata-se da premissa publicitária básica: use nosso produto e seja sobrenaturalmente vitorioso. Essa vitória, nesse caso, traduz-se em um número absurdo de mulheres se objetificando aos pés do consumidor homem.
Que o Axe não faça muito sucesso no consciente feminino, isso já é claro: um produto que promove a objetificação de mulheres que entram em transe diante de um homem perfumado com fragrâncias baratas deveria no mínimo chamar a atenção raivosa de algumas feministas.
Mas eu chamo a atenção para como o produto retrata os homens. Seres tão fracos e insignificantes, que precisam de um produto químico para lobotomizar mulheres. Mas principalmente seres que, mais do que procurar seu próprio aperfeiçoamento, só procuram uma coisa: sexo, sexo, sexo. Com o maior número de mulheres e com o menor nível de comprometimento possível, como se eles dessem conta de tudo isso. Porque afinal, homem só pensa nisso, néam? Pessoalmente, eu gosto de sexo descompromissado, mas daí pra promover isso como a razão da existência, já é meio humilhante e vazio demais.

sexta-feira, março 27, 2009

The Path

E depois que a Electronic Arts lançou o jogo Alice em 2000, baseado obviamente na famosa personagem, agora chegou a vez da Chapeuzinho Vermelho invadir o mundo dos games. O game The Path compartilha o visual macabro do Alice, e aquela deliciosa sensação de perverter uma parte da infância quando chega a adolescência. Ele parte da premissa da história antiga da Chapeuzinho e modifica algumas coisas para agregar detalhes interessantes. A diferença da história que conhecemos? Chapeuzinho é dividida em seis personagens, mulheres em diferentes idades, da garotinha de nove anos da história original a uma mulher de vinte ciente da sua sexualidade. Cada uma destas irmãs tem um nome que remete ao vermelho (Robin - passaro com manchas vermelhas na penugem, Ginger - gíria para ruiva, Rose - a rosa, Ruby - a jóia rubi, Scarlet - inglês para carmin, Carmen - relativo à cor carmin). As irmãs conseguem chegar à casa da avó mais rápido se cruzarem pela floresta em vez de continuar no caminho. E a floresta está cheia coisas que despertam a curiosidade de jovens garotas. Mas nela encontra-se o lobo. O lobo é de fato um lobisomem, ou mais precisamente um homem selvagem. E homens selvagens fazem coisas ruins a jovens garotas.

Um jogo sobre o feminino, sobre crescer e sobre sexualidade. Todo feito com o visual e a música que lembra Johnny Hollow. Delícia!

Explorem o site porque vale a pena e vejam também este outro site com páginas específicas das personagens e outras coisinhas escondidas.
Ótima dica da Nana, que estou colocando em um post para ficar mais evidente. Trata-se de um texto do Contardo Calligaris que une de forma inesperada os meus comentários sobre o Masculismo e outro assunto favorito meu: os atiradores adolescentes nas escolas americanas (e européias, de acordo com ele). O texto foi originalmente publicado na Folha, mas dá pra ler ele aqui.

quinta-feira, março 26, 2009

Jolly good!

Dizer que é aqui que tudo começou seria besteira.
Há pouco mais de um ano, já desiludido e insatisfeito com a minha vida na época (que não mudou muito até hoje...), fiquei sabendo de uma feira de intercâmbio perto da agência. Apareci por lá e não vi nada tão interessante. Essas feiras normalmente são voltadas para pessoas em áreas mais corporativas, estudantes de administração, coisas assim. Peguei alguns folhetos de faculdade com cursos de arte e me dirigi à saída, pronto para esquecer de tudo. Na porta, uma barraquinha distribuía folhetos do consulado britânico.
Acelerando a história: seis meses depois eu estava assistindo palestras sobre a Academy of the Arts em Londres, uma faculdade de arte que formou, entre outro, Anish Kapoor e Lucian Freud, dois dos meus ídolos. A gama de cursos possíveis era imensa: de cursos de idiomas, passando por intercâmbios de graduação, cursos de extensão e até mestrados. Graduações, eu já tenho duas. Restava-me a pós.
O raciocínio era relativamente simples: se a publicidade não me deu satisfação profissional nem dinheiro, eu ia voltar ao âmbito das artes. Se eu ia ganhar pouco nos dois, eu preferia ser um artista a um assistente de arte medíocre. Pelo menos a satisfação pessoal eu garantiria. Mas a única forma de fazer isso e se dar relativamente bem seria voltar a ter as chances e o momento que eu desperdicei na faculdade. A pós-graduação apareceu então como uma oportunidade de voltar ao ambiente acadêmico e fazer novos e melhores contatos, mas desta vez com a cabeça mais madura para aproveitá-los. O fim do raciocínio era simples: por que fazer isso neste país que eu desdenho, quando eu tenho o inglês, o passaporte e agora a chance de fazê-lo na Londres que eu amei?
A questão era: será que o meu trabalho tinha densidade para um mestrado? Foi um pouco por causa disso que eu comecei a realmente desenvolver e estudar as questões do Masculismo. O trabalho precisava de algum estofo teórico. Do contrário seria como a maioria dos trabalhos que estão à venda nas galerias de hoje: possívelmente belos, mas completamente vazios. Nada que entre para a história da arte, nada que mude alguma coisa.

E tome seis meses de correr atrás de documentos, estudar o Masculismo, elaborar um projeto, montar portfólio. Até tirei férias da agência: precisava de dedicação total.

Como tudo na vida de paulista, às duas da manhã de hoje eu estava terminando a montagem de portfólio. Tudo sempre deixado para o último momento por causa de outras coisas mais urgentes. A idéia era varar a noite se fossse preciso. Mas pelo menos um pouco de disciplina eu tenho, e consegui terminar ainda com algumas horas de sono tranquilo.

13:45 de hoje. O entrevistador chega atrasado (e ele é que é britânico...). E ao final de meia hora estranhamente calma para mim, trocando citações de artistas interessantes e da situação masculina atual, ele me dá um "high-five" como elogio, dizendo que foi uma das entrevistas mais interessantes que ele fez até agora. E isso que ele já esteve em duas outras cidades.

É uma sensação maravilhosa: você sente que daqui em diante pode fazer tudo, que o sucesso é garantido e você é invencível. Sabe quando você realmente percebe que aquele é o seu meio, o assunto que você domina? Não é convencional ou uma saída fácil como ser empresário, mas é meu e eu fui feito para isso. Certamente mais do que para a publicidade.

Até o dia 15, deverei ter uma versão digital do meu portfolio para mandar para Londres com o entrevistador. Mas por hoje chega. Estou terminando esta corrida de mais de seis meses e hoje só quero gozar deste momento de triunfo...

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If I were to write here that this is where it all began, I'd be lying.
A little over a year ago, already unsatisfied with the way my life had turned out (and it hasn't actually changed since...), I got word of an exchange program fair happening close to the agency. My visit brought nothing of interest. These fairs are usually devoted to business students and such. I took a few flyers of art courses and headed for the exit, ready to forget it all. At the door, a stand gave out flyers for the British Council.

Fast-forward: six months later I was watching lectures on the Academy of the Arts London, which counted amidst it's graduates personal idols of mine like Anish Kapoor and Lucian Freud. The range of courses was huge: from language courses to exchange programs in graduation, extension courses and even master's degrees. I have two graduate degrees already, so a post-grad course would be the thing for me.

The logic was fairly simple: if advertising never gave me professional satisfaction nor money, I was going back to the arts. If I was going to be paid very little on both, I would rather be an artist than a half-assed art assistant. At least I'd get some personal satisfaction. But the only way to make a new career in arts would be if I went back to the chances and momentum I had in college. The master's degree seemed like the best oportunity to go back to the academy and make new and better contacts, only this time with the maturity to acknowledge and use them. The closing statement in that logic was obvious: why do all that in this god forsaken country when I had the English, the passport and now the chance to do it in my beloved London?

The question was: was my work dense enough for a master's? That was one of the reasons why I started to actually develop and study the matters of Masculism. My work needed some theory to back it up. Otherwise it would be like most of the works for sale in the galleries today: possibly beautiful, but completely empty. Nothing that would make it into the history books, nothing that would change anything.

Then came six months of chasing documents, estudying Masculism, drafting a project, building a portfolio. I even went on vacations at the agency: I needed my full attention on this.

Like everything in the life of the denizens of this city, this project was running late. And at 2a.m. this morning I was still giving my portfolio it's final touches. Everything here is always postponed due to other urgencies. I would stay up all night if I had to. Luckily, my discipline allowed me to finish on time and get a few hours of untroubled sleep.


13:45 today. The interviewer arrives late (and he's the British here...). And at the end of half-an-hour of strangely calm chatter, jousting quotations of interesting artists and the general male situation today, he high-fives me as a compliment, saying it was one of the most interesting interviews he had so far. And he had already been to two other cities.

It's a wonderful feeling: you feel you can do anything from then on, success is guaranteed and you are invincible. Have you ever felt that this was your medium, the subject you know like the palm of your hand? It isn't a conventional and easy answer to a life, like being a businessman on a big company, but it's mine and I was made for this. At least certainly more than I was made for advertising.

I need to have a digitl version of my portfolio done by April 15th to send to London with the interviewer. But enough excitement for today. This is the end of a long six months and today I just want to bask in the glow of this moment.

quarta-feira, março 18, 2009

Aulas!

Divulguem, divulguem!

E aproveitem, porque não sei quando que eu vou ter outra oportunidade de dar uma dessas!

Workshop: teoria e prática do desenho


Prestem atenção: os R$200 são para DOIS MESES de aulas. Tá mais barato do que parece!

terça-feira, março 17, 2009

Privacidade

Nota curta.
Vi nessa semana uma conhecida revista que publicou uma matéria sobre o Twitter, mencionando todas as velhas questões sobre privacidade e exposição na web, e como esta geração atual é uma vítima ao ter sua vida pessoal escancarada na rede.
Caros editores, ninguém está apontando uma arma na cabeça de ninguém e mandando escrever intimidades nas redes sociais. Os fatos estão lá porque os donos desses perfis os colocaram lá. Ninguém é exatamente vítima. Se não quer a invasão de privacidade, faça um perfil bem enxuto, desses que não dizem nada e nem têm foto. Se não quer que o outro saiba do seu pretê, ou que o chefe saiba o quão depravado você é nas horas vagas, não escreva a respeito! Quem tá na chuva é pra se molhar!

Cansei desse papinho...

Atualizando

Meu blog sempre anda algumas semanas atrás dos acontecimentos, porque suponho que seja mais importante viver do que nerdear por aqui. Então, hora de atualizar os fatos!

Alguns de vocês já conhecem a história toda: logo depois que voltei da Argentina, passei na casa da Lexy pra resolvermos a contabilidade da viagem. Na saída, roubaram meu carro. Assim, do nada. Ele simplesmente não estava mais lá quando voltei. Estava parado na frente do prédio, sob vigilância das câmeras, trancado e com trava de câmbio e rastreador. E sumiu. Suspeitei de trabalho de profissional, que sabia tirar trava e desativar rastreador. Dei o carro como perdido.
Pra encurtar a história, ele foi encontrado quatro dias depois, há alguns quarteirões de onde tinha sido levado. Fora a fechadura da porta arrombada e o suposto rastreador sumido, estava do jeito que eu o deixara. Até a trava de câmbio ainda estava no lugar. O meliante dirigiu o carro por alguns quarteirões em marcha reversa, e abandonou-o quando percebeu que ficaria muito ridículo e suspeito andar de ré por aí até o desmanche.

Ou seja, voltei a ter carro. Tenho certas limitações até conseguir consertar a fechadura, mas pelo menos ele está aqui. E no entanto, essa história toda serviu para fazer pensar. Passei a tomar ainda mais o ônibus. Descobri que o Google Maps sugere linhas de ônibus com assustadora precisão. Comecei a andar por São Paulo cobrindo longas distâncias como eu fazia na Europa e recentemente na Argentina. Eu gosto de andar. E passei a encorajar outros a fazerem o mesmo. A dependerem menos do próprio carro ou da carona, a andar mais.
E nessas andanças vi daqueles personagens que só se vê nas cidades grandes. A velha indigente da Augusta que passa o dia subindo e descendo a rua, gritando em um gromelô incompreensível que soa como briga de gato. A oriental sem pernas que continua sentada em frente ao mesmo local da Paulista balançando o potinho com moedas desde que eu fazia a faculdade de artes. A nigeriana com um pedaço de pano amarrado em volta da cabeça, entre o nariz e a boca, parecendo um bigode de tecido. E não são só os mendigos. Tem as modeletes esguias andando na Oscar Freire, ex-colegas de faculdade que eu encontro no ônibus e até um quarteto de cordas completo tocando em frente à estação de metrô da Consolação.

A cidade tem suas peculiaridades. E a gente perde muito de dentro do carro.

quinta-feira, março 05, 2009

Matthew Barney na Escola São Paulo

Matthew BarneyComeçou ontem e vai até o dia 13 a mostra das obras do Matthew Barney na Escola São Paulo.

O americano Matthew Barney divide com o inglês Damien Hirst o título de artista mais influente de sua geração. Mas é difícil compreender seu trabalho tomando apenas uma das obras. Dora me apresentou os trabalhos de Barney em 2002, por meio de seu ciclo de vídeos Cremaster. O termo que dá nome ao ciclo refere-se a um músculo que provoca a descida das gônadas para fora do corpo do embrião masculino em vez de subir no feminino, sendo o acontecimento que define o sexo do feto em formação. O ciclo é composto de cinco vídeos que são uma colagem de imagens muitas vezes bizarras e perturbadoras e que fazem contínua alusão à diferenciação entre os sexos.
O Cremaster ficou conhecido como o trabalho mais famoso de Barney. Pessoalmente, aprendi muito com ele. Sobre mitologia pessoal, criação de sentido através da insistência, simbologia e outras coisas. Mas não vou esmiuçar tudo por aqui, porque a exposição da Escola São Paulo evitou o ciclo. Há livros a respeito e uma ou outra referência, mas no geral, os trabalhos colocados lá falam de outra série de Barney que eu acho filosoficamente mais importante: o Drawing Restraint.
Barney era um atleta na faculdade. Jogava futebol americano e fazia luta greco-romana. Quando resolveu ingressar no curso de arte da faculdade de Yale, trouxe um pouco do conceito de superação de limites físicos do esporte para seu trabalho. Passou a fazer performances onde ele criava impedimentos, tensões e obstáculos para o simples ato de desenhar. Desenhava pendurado no teto, ou tensionado por um elástico que o puxava para longe do desenho, ou saltando de uma cama elástica. Daí os vários sentidos do título da série: "drawing" pode ser compreendido como substantivo (desenho) ou verbo (desenhando) ou ainda outro verbo (atraindo, delimitando, produzindo); enquanto "restraint" também pode ser substrantivo (restrição, obstáculo, limite) e verbo (restrito, amarrado, impedido). "Desenho restringido", "desenhando limite", "delimitando restrições".
Drawing RestraintO intuito por trás da série é um conceito simples: pega-se um ato simples e cria-se uma série de obstáculos para ele, para que a superação destes obstáculo leve a um novo nível daquele ato simples. Vemos esse conceito nos esportes, onde o desenvolvimento de músculos normalmente se dá por fazê-los agir contra uma força opositora, um obstáculo. Vemos o conceito na natureza e de fato me pergunto porque é que Barney ainda não usou a metáfora da borboleta saíndo do casulo que, se ajudada, não se desenvolve completamente. E vemos o conceito no próprio ato de desenhar, onde a linha do desenho surge pressionando um material contra uma superfície que lhe faz resistência. Muito viajante? Talvez. Mas Matthew Barney insiste tanto em diversas versões desse mesmo conceito, que o conjunto de sua obra acaba validando cada obra individual. Ele sabe do que está falando e tem milhões de maneiras muito criativas para dizê-lo.

É difícil escrever sobre ele sem entediá-los com detalhes muito abstratos ou deixar de fora detalhes importantes. Mas quem sabe uma visita à exposição esclareça bastante coisa. Se alguém topar, eu me ofereço de guia!

MOSTRA MATTHEW BARNEY
De 3 a 13 de março, seg a sex das 10h às 22h, sab de 10 às 19h com sessões às 12h, 16h, 18h e 20h
Escola São Paulo: Rua Augusta, 2239 - Metrô Consolação - São Paulo - SP - Brasil - CEP 01413-000

sábado, fevereiro 28, 2009

Improvisado #26 na Casa das Caldeiras

Demorei pra colocar isso por aqui, mas queria ter tudo já pronto de uma vez.


FlyerNo último dia 18, realizei a primeira exposição com o foco voltado para a teoria do Masculismo que eu estava lendo até agora. Foi na Casa das Caldeiras, graças ao contato de uma colega de trabalho com um dos integrantes do grupo de jazz Improvisado, que toca lá quinzenalmente e sempre convida artistas plásticos para expor junto das apresentações deles. Nesta edição estávamos eu e Achiles Luciano, um pintor muito gente boa que fazia seus quadros ao vivo com pinceladas bem dinâmicas e coloridas. Eu pude ficar com todo o túnel da Casa das Caldeiras enquanto o Achiles pintava perto do palco com o trio.
Para fazer a ponte entre os retratos e a teoria Masculista, fiz uns cartazes grandes, escritos à mão como se fossem pixação, para dar uma estética condizente com o espaço. Neles, diversos textos, alguns meus e algumas citações e referências. Achei que dava um embasamento filosófico para a coisa toda. No fim do extenso corredor, na chaminé final, extendi o meu Lettin' the Cables Sleep. Achei mesmo que não haveria lugar melhor para ele: resumindo o sentimento de um homem diminuído e infantilizado diante de uma mulher endeusada. Uma conclusão legal para a caminhada teórica nesse túnel. O efeito seria aumentado ainda mais pelo aspecto fálico da chaminé, apontando para o céu, que me lembrava a torre no centro da pintura, apontando para a mulher e representando o anseio do garoto em alcançá-la.
No fim, achei que esse último efeito ficou um pouco prejudicado por questões de montagem. Afinal, eu não podia pregar nada nas paredes do túnel e tive que pendurar a tela como dava. Queria ter colocado ela bem no centro da chaminé, mas não havia nada onde amarrá-la.
De qualquer jeito, a exposição foi boa. Muita gente comentando, vindo falar comigo, lendo e argumentando sobre as coisas escritas. Me deu uma sensação de finalmente ter encontrado o assunto para falar com a minha arte. Saí de lá com uma sensação de realização e algumas boas idéias de novas obras na cabeça.

Aguardem!




Veja as fotos do evento no Flickr (Alguém sabe #comofas pra colocar em ordem depois de ter feito o upload?)!

Abaixo, segue a transcrição dos textos que estavam na exposição:

Ne me quitte pas

Ne me quitte pas
Il faut oublier
Tout peut s'oublier
Qui s'enfuit déjà
Oublier le temps
Des malentendus
Et le temps perdu
A savoir comment
Oublier ces heures
Qui tuaient parfois
A coups de pourquoi le coeur du bonheure
Ne me quitte pas (x3)

Moi je t'offrirai
Des perles de pluie
Venues de pays
Où il ne pleut pas
Je creuserai la terre
Jusqu'aprè ma mort
Pour couvrir ton corps
D'or et de lumière
Je ferai un domaine
Où l'amour sera roi
Où l'amour sera loi
Où tu seras reine
Ne me quitte pás (x4)

Je t'inventerai
Des mots insensés
Que tu comprendras
Je te parlerai
De ces amants-là
Qui ont vue deux fois
Leurs coeurs s'embraser
Je te racontrai
L'histoire de ce roi
Mort de n'avoir pas
Pu te rencontrer
Ne me quitte pás (x3)

On a vu souvent
Rejaillir le feu
De l'ancien volcan
Qu'on croyait trop vieux
Il est paraît-il
Des terres brûlées
Donnant plus de blé
Qu'un meilleur avril
Et quand vient le soir
Pour qu'un ciel flamboie
Le rouge et le noir
Ne s'épousent-ils pas
Ne me quitte pas(x4)

Je ne vais plus pleurer
Je ne vais plus parler
Je me cacherai là
A te regarder
Danser et sourire
Et à t'écouter
Chanter et puis rire
Laisse-moi devenir
L'ombre de ton ombre
L'ombre de ta main
L'ombre de ton chien
Ne me quitte pás (x3)

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Não Me Deixes

Não me deixes,
É preciso esquecer,
Tudo se pode esquecer
Que já para trás ficou.
Esquecer o tempo
dos mal-entendidos
E o tempo perdido
a querer saber como
Esquecer essas horas,
Que de tantos porquês,
Por vezes matavam a última felicidade.
Não me deixes (x3)

Te oferecerei
Pétalas de chuva
Vindas de países
Onde nunca chove;
Escavarei a terra
Até depois da morte,
Para cobrir teu corpo
Com ouro, com luzes.
Criarei um país
Onde o amor será rei,
Onde o amor será lei
E você a rainha.
Não me deixes, (x4)

Te Inventarei
Palavras absurdas
Que você compreenderá;
Te falarei
Daqueles amantes
Que viram de novo
Seus corações ateados;
Te contarei
A história daquele rei,
Que morreu por não ter
Podido te conhecer.
Não me deixes, (x3)

Quantas vezes
não se reacendeu o fogo
Do antigo vulcão
Que julgávamos velho?
Até há quem fale
De terras queimadas
A produzir mais trigo;
Que a melhor primavera
É quando a tarde cai,
Vê como o vermelho e o negro
Se casam para que o céu se inflame.
Não me deixes, (x4)

Não vou chorar mais,
Não vou falar mais,
Escondo-me aqui
Para te ver
Dançar e sorrir,
Para te ouvir
Cantar e rir.
Deixa-me ser
a sombra da tua sombra,
A sombra da tua mão,
A sombra do teu cão.
Não me deixes.(x3)

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E se eu recusasse sexo?
E se eu estivesse a pensar em outro assunto, outro prazer, outro objetivo?
E se eu já tivesse me saciado do corpo alheio? Tudo, até mesmo o sexo, tem um limite de saturação.

“Herege!” é o que me diriam, em outras palavras menos castas (“Viado!”, “Gay!”, “Bicha!”, “Fruta!”)

E não seria apenas a Mulher a me castigar com impropérios, mas o próprio Homem. Ele, que tolera mais facilmente, porém não sem escárnio, que eu seja fraco para a bebida, mas não perdoa a recusa ao sexo.

Oh, como o Homem teme essas palavras! E que nesga de auto-estima tenra e vulnerável é essa chamada masculinidade.

Pense a respeito: tudo que a Mulher precisa fazer é prometer. Sequer precisa cumprir, apenas prometer. A promessa de seu apreço, seu carinho, seu agrado. Em troca disso, o Homem ver-se-á obrigado a fazer qualquer coisa. Ele trará pétalas de chuva de países onde nunca chove.

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Há um poema do Drummond sobre um rapaz que tem seu primeiro encontro sexual com uma lavadeira mulata. À noite, ardendo em febre, alucina com uma lavadeira enorme, com peitos enormes, girando pelo quarto. Ou seja, ela o exaure a tal ponto de deixá-lo enfermo: é Mulher demais para um rapaz.

Em outro poema, este de Álvares de Azevedo, ele assiste enquanto uma Mulher dorme, torcendo para que não acorde. Acontece que ele não consegue de fato lidar com ela, com a pessoa que é ela, e quer apenas lidar com sua forma. Teme que ela ria dele: é patético demais para uma mulher.

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Depois de assistir Closer, ela divagou longamente sobre Homens e Mulheres.
[...]

Sobre os Homens, disse existirem Homens como Jude Law e Homens como Clive Owen.
Os primeiros eram artistas. Sensíveis, compreensivos. Confortáveis.
Os segundos eram cientistas. Pragmáticos, factuais. Confiáveis.

Ela comentou o quanto gostava de Homens como Clive Owen. Homens massudos, angulosos, decididos. E brutos e certeiros na hora do sexo, porque sexo tinha que ser áspero. Homem que não chora, porra!

Claro que ela sabia que eu era um Homem como Jude Law. Franzino, sorrateiro e sensível.
Na rua, entre os amigos e na minha família, Jude Law. Somos todos e cada vez mais de nós. Kafkianamente patéticos: envelheceremos como Jeremy Irons, o europeu patético por excelência.

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Do “João de Ferro” de Robert Bly

Na década de 1950 supunha-se que o homem devia gostar de futebol, ser agressivo, defender [seu país], não chorar nunca e sempre sustentar a família. Faltava, porém, o espaço receptivo, ou espaço íntimo, a essa imagem de homem. Faltava à sua personalidade certo sentido de fluxo. À psique faltava compaixão, de uma maneira que estimulava a continuação desequilibrada da guerra do Vietnã [...].
O homem da década de 1950 tinha uma visão clara do que devia ser e das responsabilidades masculinas, mas o isolamento e a unilateralidade dessa visão eram perigosos.
Durante a década de 1960 surgiu outro tipo de homem. O desperdício e a violência da guerra do Vietnã fizeram os homens questionar se realmente sabiam o que era um adulto. Se masculinidade significava o Vietnã, queriam eles participar dela? Enquanto isso, o movimento feminista estimulava a que olhassem realmente para as mulheres, forçando-os a se conscientizarem das preocupações e dos sofrimentos que o homem da década de 1950 procurou evitar.
[...]
O homem, a partir da década de 1970, tornou-se mais ponderado, mais suave. Esse processo, porém, não o tornou mais livre. Ele é um bom menino, que agrada não só a sua mãe, mas também a jovem com quem vive. [...] Mesmo hoje, quando por vezes olho para um auditório, talvez metade dos homens jovens sejam o que eu chamaria de frouxos.

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

João de Ferro 3

Mais do livro (eu sei, tá ficando chato...)

Sutilmente, o autor caiu em uma discussão sobre a figura do pai. Talvez por estar falando do mentor, do exemplo que o jovem homem deveria seguir para atingir a maturidade. Bly já havia falado que, para crescer, o garoto precisava encontrar um "segundo pai", com qualidades e ensinamentos que o primeiro não era capaz de fornecer. Mas no capítulo seguinte, o autor comenta que a situação atual é ainda mais complicada, porque nem mesmo o primeiro pai é como era antes. Há uma "escassez de pai" no mundo atual.

A situação paterna citada é comum a todos nós, meninos e meninas. Veja.
Antigamente, quando a maioria das pessoas tinham trabalhos manuais simples (o pedreiro, o marceneiro, o padeiro), era comum que os pais levassem seus filhos para seus locais de trabalho. Fosse para dar uma folga para as mães ou para ajudar os próprios pais, os filhos eram fisica e simbolicamente transportados do mundo diário da mãe para o do pai. Do feminino para o masculino. Como consequência direta da observação, o menino sabia exatamente o que o pai fazia, recebia conselhos de como fazê-lo da melhor forma, absorvia parte da experiência de vida do pai. Era como se isso fornecesse não só o modelo do que era um homem adulto, mas também desse ao menino uma vantagem técnica, caso ele escolhesse seguir a carreira do pai.
E então veio a era industrial. O homem saía de casa cedo para um local onde as crianças não entravam (exceto por um ou outro dia e sob condições controladas pela empresa). Lá ele fazia uma diminuta parte de um processo que ele não compreendia direito e não sabia explicar ao filho. Ou seja, não era mais a figura do homem poderoso, que controlava todo seu próprio fazer. Mais do que isso, tornara-se tão ingênuo quanto o próprio filho a respeito dos grandes processos. Excluído, diminuído. Agora ele volta tarde para casa, cansado, frustrado e irritadiço. Não ensina nada ao filho, apenas que a vida adulta é fatigosa e desagradável, um ir ao trabalho e voltar para a TV em casa. E no entanto, ele continua a exigir o respeito e a lealdade que os pais de antigamente exigiam. Não faz seu trabalho, mas exige sua recompensa.
O principal disso tudo é que esse sistema cria um vácuo na mentalidade do filho. O que faz o pai durante essas horas todas que o filho não vê? Porque essa atividade o consome tanto se não é tão física quanto, digamos, construir uma mesa ou erguer uma parede em um edifício? O trabalho e a rotina do pai são incompreensíveis e assustadores. Eu mesmo, quando criança, não compreendia a rotina de meu pai. Dizia apenas, em minha expressividade pueril, que ele ficava "escrevendo e lendo". Mas o conteúdo e a relevância dessa atividade literária toda eu desconhecia. É nesse vácuo que os demônios brincam: as suspeitas de que o pai possa estar fazendo algo condenável que ele esconde, de que ele seja corrupto, de que tenha uma amante, de que isso seja de fato a vida adulta. As suspeitas nutrem a figura do pai obscuro. Em Guerra nas Estrelas, o pai ausente e obscuro que depois exige lealdade sem ter direito é chamado de Darth Vader (Dark Father, o pai obscuro).
Estou ainda lendo sobre diferentes reações que os filhos têm diante desse pai escasso. Uma delas, a mais óbvia, é permanecer no mundo feminino, porque a transferência nunca ocorreu. Continuar como o rapaz sensível e bondoso, fortemente ligado à mãe. O homem frouxo. A outra é alçar vôo, ser inspirado a superar a existência pequena e coitada do pai: chegar a um cargo maior que o dele na empresa, bater as conquistas dele e ser inconscientemente mais obscuro e viciado no trabalho do que ele. Porque há essa idéia de que ele sustentou a família mas não foi forte o suficiente para manter sua vitalidade como pai e que o filho acha que pode triunfar onde ele falhou. É possível? Bly ainda não respondeu.

terça-feira, fevereiro 03, 2009

João de Ferro 2

Esse livro que Nana me emprestou fica cada vez melhor. Os paralelos com a minha vida e a situação masculina em geral aumentam a cada página e dá vontade de comentar cada capítulo por aqui. Talvez seja apenas um livro de auto-ajuda bem escrito. Mas confesso que está me fazendo bem.
Na parte onde estou, o garoto da história recebe uma tarefa do João de Ferro que ele não consegue cumprir. Expulso da floresta de modo suave (João de Ferro lhe promete que, se tiver dificuldades, poderá voltar à floresta e gritar por ajuda), o garoto vaga até uma cidade e consegue trabalho como ajudante em uma cozinha. O autor comenta sobre essa mudança brusca, de filho de um rei para ajudante de cozinheiro, e diz que essa "Descida" é muito necessária na formação do homem.
Vou arriscar escrever isso por aqui, porque suponho que já seja hora e se certas pessoas lerem não fará diferença agora: estou planejando minha Descida. Desde que trabalhei no pub em Londres (em uma cozinha, veja que coincidência...), percebi o quanto a minha formação era uma prisão dourada à minha volta. Um dos melhores colégios do país, duas das melhores faculdades, quatro idiomas no total... Tudo isso fazia de mim um esnobe que não aceitaria um emprego qualquer. E eis o resultado: quatro anos de labuta em agências, ganhando pouco, trabalhando como assistente de arte, ilustrador, tradutor e interprete e até revisor de texto, tudo ao mesmo tempo, e recebendo apenas como assistente. Trabalhei em cinco agências diferentes, e ninguém jamais ouviu falar de nenhuma delas ou viu meu trabalho, já que todas trabalhavam com endomarketing, a Sibéria da publicidade...

Pois chega! Em Março terei condições de pagar minhas últimas dívidas e então sairei da floresta. E quero mesmo a liberdade que senti em Londres. Aceitar que esta é minha vida, que não serei gerente de multinacional, ganhador de prêmio de Cannes ou nada disso. Me sujeitarei aos trabalhos humildes, ao status de trabalhador autônomo, aos empregos temporários e mesmo ao desemprego. Se isso me ensinar qualquer coisa e me pagar mais do que esse desrespeito que ganho hoje, serei feliz. Falta-me humildade e não vou esperar a que me joguem no chão para aprender a me levantar.