Mais do livro (eu sei, tá ficando chato...)
Sutilmente, o autor caiu em uma discussão sobre a figura do pai. Talvez por estar falando do mentor, do exemplo que o jovem homem deveria seguir para atingir a maturidade. Bly já havia falado que, para crescer, o garoto precisava encontrar um "segundo pai", com qualidades e ensinamentos que o primeiro não era capaz de fornecer. Mas no capítulo seguinte, o autor comenta que a situação atual é ainda mais complicada, porque nem mesmo o primeiro pai é como era antes. Há uma "escassez de pai" no mundo atual.
A situação paterna citada é comum a todos nós, meninos e meninas. Veja.
Antigamente, quando a maioria das pessoas tinham trabalhos manuais simples (o pedreiro, o marceneiro, o padeiro), era comum que os pais levassem seus filhos para seus locais de trabalho. Fosse para dar uma folga para as mães ou para ajudar os próprios pais, os filhos eram fisica e simbolicamente transportados do mundo diário da mãe para o do pai. Do feminino para o masculino. Como consequência direta da observação, o menino sabia exatamente o que o pai fazia, recebia conselhos de como fazê-lo da melhor forma, absorvia parte da experiência de vida do pai. Era como se isso fornecesse não só o modelo do que era um homem adulto, mas também desse ao menino uma vantagem técnica, caso ele escolhesse seguir a carreira do pai.
E então veio a era industrial. O homem saía de casa cedo para um local onde as crianças não entravam (exceto por um ou outro dia e sob condições controladas pela empresa). Lá ele fazia uma diminuta parte de um processo que ele não compreendia direito e não sabia explicar ao filho. Ou seja, não era mais a figura do homem poderoso, que controlava todo seu próprio fazer. Mais do que isso, tornara-se tão ingênuo quanto o próprio filho a respeito dos grandes processos. Excluído, diminuído. Agora ele volta tarde para casa, cansado, frustrado e irritadiço. Não ensina nada ao filho, apenas que a vida adulta é fatigosa e desagradável, um ir ao trabalho e voltar para a TV em casa. E no entanto, ele continua a exigir o respeito e a lealdade que os pais de antigamente exigiam. Não faz seu trabalho, mas exige sua recompensa.
O principal disso tudo é que esse sistema cria um vácuo na mentalidade do filho. O que faz o pai durante essas horas todas que o filho não vê? Porque essa atividade o consome tanto se não é tão física quanto, digamos, construir uma mesa ou erguer uma parede em um edifício? O trabalho e a rotina do pai são incompreensíveis e assustadores. Eu mesmo, quando criança, não compreendia a rotina de meu pai. Dizia apenas, em minha expressividade pueril, que ele ficava "escrevendo e lendo". Mas o conteúdo e a relevância dessa atividade literária toda eu desconhecia. É nesse vácuo que os demônios brincam: as suspeitas de que o pai possa estar fazendo algo condenável que ele esconde, de que ele seja corrupto, de que tenha uma amante, de que isso seja de fato a vida adulta. As suspeitas nutrem a figura do pai obscuro. Em Guerra nas Estrelas, o pai ausente e obscuro que depois exige lealdade sem ter direito é chamado de Darth Vader (Dark Father, o pai obscuro).
Estou ainda lendo sobre diferentes reações que os filhos têm diante desse pai escasso. Uma delas, a mais óbvia, é permanecer no mundo feminino, porque a transferência nunca ocorreu. Continuar como o rapaz sensível e bondoso, fortemente ligado à mãe. O homem frouxo. A outra é alçar vôo, ser inspirado a superar a existência pequena e coitada do pai: chegar a um cargo maior que o dele na empresa, bater as conquistas dele e ser inconscientemente mais obscuro e viciado no trabalho do que ele. Porque há essa idéia de que ele sustentou a família mas não foi forte o suficiente para manter sua vitalidade como pai e que o filho acha que pode triunfar onde ele falhou. É possível? Bly ainda não respondeu.
Bits and pieces of my life that everyone ignores when I speak, but someone reads when I write.
quarta-feira, fevereiro 11, 2009
terça-feira, fevereiro 03, 2009
João de Ferro 2
Esse livro que Nana me emprestou fica cada vez melhor. Os paralelos com a minha vida e a situação masculina em geral aumentam a cada página e dá vontade de comentar cada capítulo por aqui. Talvez seja apenas um livro de auto-ajuda bem escrito. Mas confesso que está me fazendo bem.
Na parte onde estou, o garoto da história recebe uma tarefa do João de Ferro que ele não consegue cumprir. Expulso da floresta de modo suave (João de Ferro lhe promete que, se tiver dificuldades, poderá voltar à floresta e gritar por ajuda), o garoto vaga até uma cidade e consegue trabalho como ajudante em uma cozinha. O autor comenta sobre essa mudança brusca, de filho de um rei para ajudante de cozinheiro, e diz que essa "Descida" é muito necessária na formação do homem.
Vou arriscar escrever isso por aqui, porque suponho que já seja hora e se certas pessoas lerem não fará diferença agora: estou planejando minha Descida. Desde que trabalhei no pub em Londres (em uma cozinha, veja que coincidência...), percebi o quanto a minha formação era uma prisão dourada à minha volta. Um dos melhores colégios do país, duas das melhores faculdades, quatro idiomas no total... Tudo isso fazia de mim um esnobe que não aceitaria um emprego qualquer. E eis o resultado: quatro anos de labuta em agências, ganhando pouco, trabalhando como assistente de arte, ilustrador, tradutor e interprete e até revisor de texto, tudo ao mesmo tempo, e recebendo apenas como assistente. Trabalhei em cinco agências diferentes, e ninguém jamais ouviu falar de nenhuma delas ou viu meu trabalho, já que todas trabalhavam com endomarketing, a Sibéria da publicidade...
Pois chega! Em Março terei condições de pagar minhas últimas dívidas e então sairei da floresta. E quero mesmo a liberdade que senti em Londres. Aceitar que esta é minha vida, que não serei gerente de multinacional, ganhador de prêmio de Cannes ou nada disso. Me sujeitarei aos trabalhos humildes, ao status de trabalhador autônomo, aos empregos temporários e mesmo ao desemprego. Se isso me ensinar qualquer coisa e me pagar mais do que esse desrespeito que ganho hoje, serei feliz. Falta-me humildade e não vou esperar a que me joguem no chão para aprender a me levantar.
Na parte onde estou, o garoto da história recebe uma tarefa do João de Ferro que ele não consegue cumprir. Expulso da floresta de modo suave (João de Ferro lhe promete que, se tiver dificuldades, poderá voltar à floresta e gritar por ajuda), o garoto vaga até uma cidade e consegue trabalho como ajudante em uma cozinha. O autor comenta sobre essa mudança brusca, de filho de um rei para ajudante de cozinheiro, e diz que essa "Descida" é muito necessária na formação do homem.
Vou arriscar escrever isso por aqui, porque suponho que já seja hora e se certas pessoas lerem não fará diferença agora: estou planejando minha Descida. Desde que trabalhei no pub em Londres (em uma cozinha, veja que coincidência...), percebi o quanto a minha formação era uma prisão dourada à minha volta. Um dos melhores colégios do país, duas das melhores faculdades, quatro idiomas no total... Tudo isso fazia de mim um esnobe que não aceitaria um emprego qualquer. E eis o resultado: quatro anos de labuta em agências, ganhando pouco, trabalhando como assistente de arte, ilustrador, tradutor e interprete e até revisor de texto, tudo ao mesmo tempo, e recebendo apenas como assistente. Trabalhei em cinco agências diferentes, e ninguém jamais ouviu falar de nenhuma delas ou viu meu trabalho, já que todas trabalhavam com endomarketing, a Sibéria da publicidade...
Pois chega! Em Março terei condições de pagar minhas últimas dívidas e então sairei da floresta. E quero mesmo a liberdade que senti em Londres. Aceitar que esta é minha vida, que não serei gerente de multinacional, ganhador de prêmio de Cannes ou nada disso. Me sujeitarei aos trabalhos humildes, ao status de trabalhador autônomo, aos empregos temporários e mesmo ao desemprego. Se isso me ensinar qualquer coisa e me pagar mais do que esse desrespeito que ganho hoje, serei feliz. Falta-me humildade e não vou esperar a que me joguem no chão para aprender a me levantar.
quarta-feira, janeiro 28, 2009
Ocorreu-me um insight hoje, observando arte na internet.
Essa dificuldade de crescer está presente na arte de hoje. O que foi feito de realmente revolucionário e novo ultimamente? As poucas formas de arte realmente novas que me vêm à cabeça quando penso nas últimas décadas têm uma característica muito pueril. Fala-se muito de toy art, brinquedos compreendidos como obras de arte. Muita coisa que faz referência ao video game. Mesmo o grafite já foi considerado coisa de adolescente vândalo. Tá certo, concordo: essa arte nem sempre é feita por homens. Então pode-se dizer que a crise de maturidade é generalizada para ambos os sexos nessa área? Ou talvez a direção das artes ainda seja um assunto essencialmente controlado por homens. Não sei...
Mas tenho pensado muito nisso também: a falta de novidade nas artes. No século passado, artistas como Picasso, Duchamp e Warhol mudaram definitivamente o modo como se pensa em arte. Veja bem: eles mudaram o processo em si. A arte era uma coisa nos milênios antes deles e passou a ser outra depois. E eu não vejo ninguém tentando repetir a façanha há já uns bons 20 anos ou mais. São todos ótimos pintores, fotógrafos, performers. "Os melhores artistas de sua geração". Mas não mudarão a história da arte.
Me pego pensando sobre a street art nisso tudo. É a suposta vanguarda do momento, a coisa nova acontecendo nas galerias, nas cabeças dos formadores de opinião atuais. E mesmo ela já é uma forma de arte velha e que, a rigor, não muda nada. Muralistas mexicanos como Siqueiros, Orozco e Rivera já fazia isso e muito melhor.
Talvez a toy art seja uma opção de algo realmente novo e relevante. Será?
Claro, eu entendo: sendo filho do rei, o garoto será eternamente apenas o príncipe. Somos todos artistas filhos daquela geração anterior. Sobrepujar o pai não é apenas uma questão de vontade. Existiram centenas de artistas cubistas. Mas depois do Picasso todos eram apenas príncipes.
Essa dificuldade de crescer está presente na arte de hoje. O que foi feito de realmente revolucionário e novo ultimamente? As poucas formas de arte realmente novas que me vêm à cabeça quando penso nas últimas décadas têm uma característica muito pueril. Fala-se muito de toy art, brinquedos compreendidos como obras de arte. Muita coisa que faz referência ao video game. Mesmo o grafite já foi considerado coisa de adolescente vândalo. Tá certo, concordo: essa arte nem sempre é feita por homens. Então pode-se dizer que a crise de maturidade é generalizada para ambos os sexos nessa área? Ou talvez a direção das artes ainda seja um assunto essencialmente controlado por homens. Não sei...
Mas tenho pensado muito nisso também: a falta de novidade nas artes. No século passado, artistas como Picasso, Duchamp e Warhol mudaram definitivamente o modo como se pensa em arte. Veja bem: eles mudaram o processo em si. A arte era uma coisa nos milênios antes deles e passou a ser outra depois. E eu não vejo ninguém tentando repetir a façanha há já uns bons 20 anos ou mais. São todos ótimos pintores, fotógrafos, performers. "Os melhores artistas de sua geração". Mas não mudarão a história da arte.
Me pego pensando sobre a street art nisso tudo. É a suposta vanguarda do momento, a coisa nova acontecendo nas galerias, nas cabeças dos formadores de opinião atuais. E mesmo ela já é uma forma de arte velha e que, a rigor, não muda nada. Muralistas mexicanos como Siqueiros, Orozco e Rivera já fazia isso e muito melhor.
Talvez a toy art seja uma opção de algo realmente novo e relevante. Será?
Claro, eu entendo: sendo filho do rei, o garoto será eternamente apenas o príncipe. Somos todos artistas filhos daquela geração anterior. Sobrepujar o pai não é apenas uma questão de vontade. Existiram centenas de artistas cubistas. Mas depois do Picasso todos eram apenas príncipes.
João de Ferro
Continuo lendo o livro de Robert Bly, João de Ferro.
O primeiro capítulo é todo sobre o mito europeu do próprio João de Ferro, que simboliza o Homem Natural com o qual os homens de hoje perderam o contato. Conta a história de como ele é tirado da floresta pelo rei local e trancafiado em uma jaula no pátio do castelo. O príncipe, um garoto pequeno, perde sua bola dourada dentro da jaula e João de Ferro lhe diz que só lha devolverá se o menino o libertar. A chave porém está debaixo do travesseiro da mãe, a rainha (muito Freud, né?). Há uma passagem muito interessante onde Bly deixa claro que o garoto precisa roubar a chave. Pedi-la à mãe não adianta porque ela não o leva a sério. Então ele aproveita enquanto os pais estão ausentes para roubar a chave. Gosto da passagem, porque subentende que o processo de crescer implica certa malícia que deve ser executada sem o consentimento (ou ajuda) dos pais, por conta própria. É como a primeira vez que o rapaz vai ao puteiro ou fuma um cigarro. Muitos de nós homens atuais chegamos a fazer isso, mas nunca de fato abrimos a jaula uma vez que temos a chave.
O capítulo termina com o garoto libertando João de Ferro e fugindo com ele para a floresta para escapar da punição pelos pais. No processo, ele machuca o dedo abrindo a jaula, mas isso é uma metáfora que provavelmente abordarei algum outro dia. Essa fuga é interpretada como a transferência que o garoto precisa fazer entre seu pai real e um segundo pai, um mestre, com qualidades novas que o pai biológico não possui. Alguém que irá instruir o garoto no jeito do mundo, em um ofício. Nas tribos indígenas e na antiguidade clássica, os garotos passava muito tempo na compania de homens adultos, aprendendo a caçar, a lutar, a fazer as coisas dos homens. Distanciavam-se assim do mundo feminino das mães, onde eles seriam para sempre filhos, crianças.
Acho que eu parei por aqui. Ensaiei tentativas de adotar diversas pessoas como mestres, mas acho que nunca de fato dei esse passo. O orientador da faculdade deveria ser essa figura, mas os relacionamentos que tive com ambos os orientadores de minhas duas faculdades deixaram muito a desejar nesse aspecto. Suponho que eu nunca encontrei alguém que eu respeitasse como mestre e que me respeitasse de fato como pupilo. Não sei dizer se é uma falha pessoal minha ou se esse modelo de coisas se perdeu em uma sociedade movida apenas pelo ganho financeiro (ninguém tem mais tempo para de fato treinar um pupilo, apenas deixam o estagiário se ferrar sozinho e aprender na marra...).
O primeiro capítulo é todo sobre o mito europeu do próprio João de Ferro, que simboliza o Homem Natural com o qual os homens de hoje perderam o contato. Conta a história de como ele é tirado da floresta pelo rei local e trancafiado em uma jaula no pátio do castelo. O príncipe, um garoto pequeno, perde sua bola dourada dentro da jaula e João de Ferro lhe diz que só lha devolverá se o menino o libertar. A chave porém está debaixo do travesseiro da mãe, a rainha (muito Freud, né?). Há uma passagem muito interessante onde Bly deixa claro que o garoto precisa roubar a chave. Pedi-la à mãe não adianta porque ela não o leva a sério. Então ele aproveita enquanto os pais estão ausentes para roubar a chave. Gosto da passagem, porque subentende que o processo de crescer implica certa malícia que deve ser executada sem o consentimento (ou ajuda) dos pais, por conta própria. É como a primeira vez que o rapaz vai ao puteiro ou fuma um cigarro. Muitos de nós homens atuais chegamos a fazer isso, mas nunca de fato abrimos a jaula uma vez que temos a chave.
O capítulo termina com o garoto libertando João de Ferro e fugindo com ele para a floresta para escapar da punição pelos pais. No processo, ele machuca o dedo abrindo a jaula, mas isso é uma metáfora que provavelmente abordarei algum outro dia. Essa fuga é interpretada como a transferência que o garoto precisa fazer entre seu pai real e um segundo pai, um mestre, com qualidades novas que o pai biológico não possui. Alguém que irá instruir o garoto no jeito do mundo, em um ofício. Nas tribos indígenas e na antiguidade clássica, os garotos passava muito tempo na compania de homens adultos, aprendendo a caçar, a lutar, a fazer as coisas dos homens. Distanciavam-se assim do mundo feminino das mães, onde eles seriam para sempre filhos, crianças.
Acho que eu parei por aqui. Ensaiei tentativas de adotar diversas pessoas como mestres, mas acho que nunca de fato dei esse passo. O orientador da faculdade deveria ser essa figura, mas os relacionamentos que tive com ambos os orientadores de minhas duas faculdades deixaram muito a desejar nesse aspecto. Suponho que eu nunca encontrei alguém que eu respeitasse como mestre e que me respeitasse de fato como pupilo. Não sei dizer se é uma falha pessoal minha ou se esse modelo de coisas se perdeu em uma sociedade movida apenas pelo ganho financeiro (ninguém tem mais tempo para de fato treinar um pupilo, apenas deixam o estagiário se ferrar sozinho e aprender na marra...).
quinta-feira, janeiro 15, 2009
Maysa
Ando assistindo essa minisséria sobre a Maysa. Não é tanto a personagem, mas a atriz que me lembra Lexy daquele jeito louco que eu lembro às vezes. Coincidências inverossímeis, visíveis apenas no ângulo e luz certos. Essa atriz, Larissa Maciel, tem as mesmas sobrancelhas, o mesmo olhar sempre delineado e cheio daquela qualidade inefável. A boca, embora diferente da dela, parece fazer as mesmas expressões. É algo no formato do rosto, do queixo.
Tem pouco do comportamento de Maysa em Lexy. Mas a imagem continua me lembrando a cada cena.
O seriado em si tem algumas ressalvas. Estou gostando da história. Mas saber que ela é feita pelo filho de Maysa me faz questionar constantemente essa versão da história. A romantização de uma personagem alcoólatra e inconsequente.
Por outro lado, uma faceta da minissérie parece muito atual: percebe-se na história contada que a cantora ganhava muito mais com as apresentações do que com qualquer venda de disco. Uma tendência atual que meu irmão andou apontando desde que resolveu lidar profissionalmente com música. Afinal, em épocas de eMule e semelhantes, onde a compra de discos passa a ser um luxo apenas para colecionadores, esse modelo de negócio em relação à música precisa ser repensado.
No episódio de hoje, ela cantou minha canção favorita do pouco que conheço de seu repertório. A música já tinha sido tema de outra minissérie, Presença de Anita. A original é em francês, mas a letra merece uma tradução pela beleza visceral. Olha só que lindo...
Não Me Deixes
Maysa
Não me deixes,
É preciso esquecer,
Tudo se pode esquecer
Que já para trás ficou.
Esquecer o tempo
dos mal-entendidos
E o tempo perdido
a querer saber como
Esquecer essas horas,
Que de tantos porquês,
Por vezes matavam a última felicidade.
Não me deixes (x3)
Te oferecerei
Pétalas de chuva
Vindas de países
Onde nunca chove;
Escavarei a terra
Até depois da morte,
Para cobrir teu corpo
Com ouro, com luzes.
Criarei um país
Onde o amor será rei,
Onde o amor será lei
E você a rainha.
Não me deixes, (x4)
Te Inventarei
Palavras absurdas
Que você compreenderá;
Te falarei
Daqueles amantes
Que viram de novo
Seus corações ateados;
Te contarei
A história daquele rei,
Que morreu por não ter
Podido te conhecer.
Não me deixes, (x3)
Quantas vezes
não se reacendeu o fogo
Do antigo vulcão
Que julgávamos velho?
Até há quem fale
De terras queimadas
A produzir mais trigo;
Que a melhor primavera
É quando a tarde cai,
Vê como o vermelho e o negro
Se casam para que o céu se inflame.
Não me deixes, (x4)
Não vou chorar mais,
Não vou falar mais,
Escondo-me aqui
Para te ver
Dançar e sorrir,
Para te ouvir
Cantar e rir.
Deixa-me ser
a sombra da tua sombra,
A sombra da tua mão,
A sombra do teu cão.
Não me deixes.(x3)
Tem pouco do comportamento de Maysa em Lexy. Mas a imagem continua me lembrando a cada cena.
O seriado em si tem algumas ressalvas. Estou gostando da história. Mas saber que ela é feita pelo filho de Maysa me faz questionar constantemente essa versão da história. A romantização de uma personagem alcoólatra e inconsequente.
Por outro lado, uma faceta da minissérie parece muito atual: percebe-se na história contada que a cantora ganhava muito mais com as apresentações do que com qualquer venda de disco. Uma tendência atual que meu irmão andou apontando desde que resolveu lidar profissionalmente com música. Afinal, em épocas de eMule e semelhantes, onde a compra de discos passa a ser um luxo apenas para colecionadores, esse modelo de negócio em relação à música precisa ser repensado.
No episódio de hoje, ela cantou minha canção favorita do pouco que conheço de seu repertório. A música já tinha sido tema de outra minissérie, Presença de Anita. A original é em francês, mas a letra merece uma tradução pela beleza visceral. Olha só que lindo...
Não Me Deixes
Maysa
Não me deixes,
É preciso esquecer,
Tudo se pode esquecer
Que já para trás ficou.
Esquecer o tempo
dos mal-entendidos
E o tempo perdido
a querer saber como
Esquecer essas horas,
Que de tantos porquês,
Por vezes matavam a última felicidade.
Não me deixes (x3)
Te oferecerei
Pétalas de chuva
Vindas de países
Onde nunca chove;
Escavarei a terra
Até depois da morte,
Para cobrir teu corpo
Com ouro, com luzes.
Criarei um país
Onde o amor será rei,
Onde o amor será lei
E você a rainha.
Não me deixes, (x4)
Te Inventarei
Palavras absurdas
Que você compreenderá;
Te falarei
Daqueles amantes
Que viram de novo
Seus corações ateados;
Te contarei
A história daquele rei,
Que morreu por não ter
Podido te conhecer.
Não me deixes, (x3)
Quantas vezes
não se reacendeu o fogo
Do antigo vulcão
Que julgávamos velho?
Até há quem fale
De terras queimadas
A produzir mais trigo;
Que a melhor primavera
É quando a tarde cai,
Vê como o vermelho e o negro
Se casam para que o céu se inflame.
Não me deixes, (x4)
Não vou chorar mais,
Não vou falar mais,
Escondo-me aqui
Para te ver
Dançar e sorrir,
Para te ouvir
Cantar e rir.
Deixa-me ser
a sombra da tua sombra,
A sombra da tua mão,
A sombra do teu cão.
Não me deixes.(x3)
quarta-feira, janeiro 14, 2009
João de Ferro
Previously, on the blog...
No final do ano passado, em uma apresentação da banda do meu irmão, sentei para conversar com Larissa, sua namorada, que havia então se lançado na carreira de dança e entrado para o âmbito das artes. Não lembro como viemos a discutir a falta de assunto da minha pintura, os retratos ideologicamente vazios e a minha procurar do que a ser representado através do como que eu já tinha desenvolvido. Daí a própria idéia dos retratos de mulheres feitos por um homem me veio à cabeça e a discussão do Masculismo voltou à tona.
É engraçado como pode-se propôr a mesma idéia quatro ou cinco vezes antes dela efetivamente criar raizes e começar a ser desenvolvida. Eu pensei em tratar desse assunto quando escrevi o Manifesto Masculinista em um esquecido Dia das Mulheres, mas nunca levei a cabo a idéia. Depois, ela apareceu meio timidamente em uma das minhas pinturas, o Lettin' the Cables Sleep. Mas ainda era um conceito em uma pintura, sem pesquisa ideológica e embasamento teórico. Não sei ao certo por que, mas só depois da conversa com Larissa que a idéia fixou-se na minha cabeça como um caminho a seguir. Talvez pelo fato de eu ter praticamente esgotado ou me desinteressado pelos outros.
Fiz então o que qualquer pessoa da minha idade à procura de teoria faria: procurei no Google. Tá bom, não é a forma mais ortodoxa de pesquisa, mas serve como termômetro do que estão dizendo por aí a respeito. Fui saber que "Masculinismo" era um termo empregado como zueira, pra tirar sarro da nova condição masculina. Sua contra-parte mais séria era chamada "Masculismo", uma sílaba a menos. Mas os sites só me davam a ponta do iceberg teórico, as aplicações práticas e discussões legais (guarda dos filhos no divórcio, direito a decidir sobre o aborto, obrigatoriedade do serviço militar, exposição a trabalhos de maior risco físico e outras questões discutíveis...). Já era uma severa expansão de mundo, mas não me dava muito para começar a pensar por mim mesmo no assunto.
Nana, ao ouvir a respeito, me emprestou alguns livros muito relevantes nesse sentido. Foi no João de Ferro do Robert Bly que eu encontrei pistas sobre o cerne do assunto. O autor traça uma cronologia dos últimos 50 anos e de como o modelo masculino mudou nesse tempo. Ele parte da década de 50 porque, segundo ele, foi onde o modelo masculino que conhecemos se consolidou nos Estados Unidos: o homem americano dos anos 50 "devia gostar de futebol, ser agressivo, defender os Estados Unidos, não chorar nunca e sempre sustentar a família." Nos anos 60, o paradigma mudou: em uma época onde ser homem adulto era ir para a guerra do Vietnã, muitos homens começaram a questionar o modelo do homem adulto dos anos 50. Junta-se a isso a chegada do Feminismo ao mainstream da época, e muitos homens, sendo expostos às questões do universo feminino que o homem dos anos 50 ignorava, começaram a tomar conhecimento de seu lado feminino e a aceitá-lo. Com isso, tornaram-se homens mais suaves, afáveis. Mas também homens frouxos. São compreensivos, sensíveis, agradam às mães e esposas, mas falta-lhes energia, ímpeto, atitude.
E nisso que o livro de Bly realmente me chamou a atenção. Porque era desse fenômeno que eu me queixava quando fazia os retratos. Era isso que eu observava na minha própria família. Essa situação atual onde as mulheres pós-Feminismo são fortes e decididas e os homens são uns bananas.
É daquela época que eu percebo que uma boa maioria dos homens que eu conheço são homens frouxos. Outra boa fatia de conhecidos ainda sequer passou daquele homem dos anos 50 e continua o macho estúpido, controlado por qualquer oferta de sexo enquanto zomba das mulheres como supostos seres inferiores.
Ainda estou no começo do livro. Mas o autor já rascunha uma solução para a situação vergonhosa do homem atual. Parece meio papo de auto-ajuda inspirado em muitos textos feministas, mas tem seu sentido. De acordo com Bly, o homem precisa reencontrar-se com o que ele chama de Homem Natural. Não é o selvagem truculento que se faz indiferente às suas próprias feridas pra mostrar que é macho. Esse ainda é o cerne do homem da década de 50. O Homem Natural é um estado masculino do "homem que faz", que decide uma decisão compassiva, que briga e exerce uma liderança generosa. O que mais me chama a atenção é esse fazer. Porque os homens frouxos atuais não fazem. Eles estão cercados de mães, esposas e amigas que fazem por ele porque têm pena dele. Cuidam dele como criança e ele nunca vai crescer.
Tento escrever sobre esse sentido que ele coloca tão bem nesse começo de livro e percebo que ainda não entendi o suficiente. É algo como ser incisivo sem ser truculento, impor sua vontade sem desrespeitar. Negociar em vez de mendigar ou invadir. Esse deveria ser o tom do Masculismo e de uma possível arte masculista.
Faz sentido?
No final do ano passado, em uma apresentação da banda do meu irmão, sentei para conversar com Larissa, sua namorada, que havia então se lançado na carreira de dança e entrado para o âmbito das artes. Não lembro como viemos a discutir a falta de assunto da minha pintura, os retratos ideologicamente vazios e a minha procurar do que a ser representado através do como que eu já tinha desenvolvido. Daí a própria idéia dos retratos de mulheres feitos por um homem me veio à cabeça e a discussão do Masculismo voltou à tona.
É engraçado como pode-se propôr a mesma idéia quatro ou cinco vezes antes dela efetivamente criar raizes e começar a ser desenvolvida. Eu pensei em tratar desse assunto quando escrevi o Manifesto Masculinista em um esquecido Dia das Mulheres, mas nunca levei a cabo a idéia. Depois, ela apareceu meio timidamente em uma das minhas pinturas, o Lettin' the Cables Sleep. Mas ainda era um conceito em uma pintura, sem pesquisa ideológica e embasamento teórico. Não sei ao certo por que, mas só depois da conversa com Larissa que a idéia fixou-se na minha cabeça como um caminho a seguir. Talvez pelo fato de eu ter praticamente esgotado ou me desinteressado pelos outros.
Fiz então o que qualquer pessoa da minha idade à procura de teoria faria: procurei no Google. Tá bom, não é a forma mais ortodoxa de pesquisa, mas serve como termômetro do que estão dizendo por aí a respeito. Fui saber que "Masculinismo" era um termo empregado como zueira, pra tirar sarro da nova condição masculina. Sua contra-parte mais séria era chamada "Masculismo", uma sílaba a menos. Mas os sites só me davam a ponta do iceberg teórico, as aplicações práticas e discussões legais (guarda dos filhos no divórcio, direito a decidir sobre o aborto, obrigatoriedade do serviço militar, exposição a trabalhos de maior risco físico e outras questões discutíveis...). Já era uma severa expansão de mundo, mas não me dava muito para começar a pensar por mim mesmo no assunto.
Nana, ao ouvir a respeito, me emprestou alguns livros muito relevantes nesse sentido. Foi no João de Ferro do Robert Bly que eu encontrei pistas sobre o cerne do assunto. O autor traça uma cronologia dos últimos 50 anos e de como o modelo masculino mudou nesse tempo. Ele parte da década de 50 porque, segundo ele, foi onde o modelo masculino que conhecemos se consolidou nos Estados Unidos: o homem americano dos anos 50 "devia gostar de futebol, ser agressivo, defender os Estados Unidos, não chorar nunca e sempre sustentar a família." Nos anos 60, o paradigma mudou: em uma época onde ser homem adulto era ir para a guerra do Vietnã, muitos homens começaram a questionar o modelo do homem adulto dos anos 50. Junta-se a isso a chegada do Feminismo ao mainstream da época, e muitos homens, sendo expostos às questões do universo feminino que o homem dos anos 50 ignorava, começaram a tomar conhecimento de seu lado feminino e a aceitá-lo. Com isso, tornaram-se homens mais suaves, afáveis. Mas também homens frouxos. São compreensivos, sensíveis, agradam às mães e esposas, mas falta-lhes energia, ímpeto, atitude.
E nisso que o livro de Bly realmente me chamou a atenção. Porque era desse fenômeno que eu me queixava quando fazia os retratos. Era isso que eu observava na minha própria família. Essa situação atual onde as mulheres pós-Feminismo são fortes e decididas e os homens são uns bananas.
É daquela época que eu percebo que uma boa maioria dos homens que eu conheço são homens frouxos. Outra boa fatia de conhecidos ainda sequer passou daquele homem dos anos 50 e continua o macho estúpido, controlado por qualquer oferta de sexo enquanto zomba das mulheres como supostos seres inferiores.
Ainda estou no começo do livro. Mas o autor já rascunha uma solução para a situação vergonhosa do homem atual. Parece meio papo de auto-ajuda inspirado em muitos textos feministas, mas tem seu sentido. De acordo com Bly, o homem precisa reencontrar-se com o que ele chama de Homem Natural. Não é o selvagem truculento que se faz indiferente às suas próprias feridas pra mostrar que é macho. Esse ainda é o cerne do homem da década de 50. O Homem Natural é um estado masculino do "homem que faz", que decide uma decisão compassiva, que briga e exerce uma liderança generosa. O que mais me chama a atenção é esse fazer. Porque os homens frouxos atuais não fazem. Eles estão cercados de mães, esposas e amigas que fazem por ele porque têm pena dele. Cuidam dele como criança e ele nunca vai crescer.
Tento escrever sobre esse sentido que ele coloca tão bem nesse começo de livro e percebo que ainda não entendi o suficiente. É algo como ser incisivo sem ser truculento, impor sua vontade sem desrespeitar. Negociar em vez de mendigar ou invadir. Esse deveria ser o tom do Masculismo e de uma possível arte masculista.
Faz sentido?
domingo, janeiro 11, 2009
Working Artists and the Greater Economy (W.A.G.E.)
Recebi do Marcos Moraes, coordenador do curso de artes da FAAP, e achei bem interessante. Porque, de fato, para artistas jovens, o único pagamento por uma exposição é a promessa de visibilidade para o seu trabalho.
===============================
Working Artists and the Greater Economy (W.A.G.E.) is an activist group of artists, art workers, performers and independent curators fighting to get paid for our labor.
W.A.G.E. works to draw attention to economic inequalities that exist in the arts, and to resolve them.
W.A.G.E. has been formed because we, as visual + performance artists and independent curators, provide a work force.
W.A.G.E. recognizes the organized irresponsibility of the art market and its supporting institutions, and demands an end of the refusal to pay fees for the work we're asked to provide: preparation, installation, presentation, consultation, exhibition and reproduction.
W.A.G.E. refutes the positioning of the artist as a speculator and calls for the remuneration of cultural value in capital value.
W.A.G.E. believes that the promise of exposure is a liability in a system that denies the value of our labor.
As an unpaid labor force within a robust art market from which others profit greatly,
W.A.G.E. recognizes an inherent exploitation and demands compensation.
W.A.G.E. calls for an address of the economic inequalities that are prevalent, and pro-actively preventing the art worker's ability to survive within the greater economy.
We demand payment for making the world more interesting.
W.A.G.E. wo/manifesto, 2009
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Working Artists and the Greater Economy (W.A.G.E.) is an activist group of artists, art workers, performers and independent curators fighting to get paid for our labor.
W.A.G.E. works to draw attention to economic inequalities that exist in the arts, and to resolve them.
W.A.G.E. has been formed because we, as visual + performance artists and independent curators, provide a work force.
W.A.G.E. recognizes the organized irresponsibility of the art market and its supporting institutions, and demands an end of the refusal to pay fees for the work we're asked to provide: preparation, installation, presentation, consultation, exhibition and reproduction.
W.A.G.E. refutes the positioning of the artist as a speculator and calls for the remuneration of cultural value in capital value.
W.A.G.E. believes that the promise of exposure is a liability in a system that denies the value of our labor.
As an unpaid labor force within a robust art market from which others profit greatly,
W.A.G.E. recognizes an inherent exploitation and demands compensation.
W.A.G.E. calls for an address of the economic inequalities that are prevalent, and pro-actively preventing the art worker's ability to survive within the greater economy.
We demand payment for making the world more interesting.
W.A.G.E. wo/manifesto, 2009
segunda-feira, janeiro 05, 2009
Balanço de 2008
Seguindo a tendência dos últimos fins de ano, neste curto e tedioso ano eu:
• ...comecei o ano com um reveillon nulo e esquecível.
• ...perdi minha câmera digital, vitimada possivelmente pelas tensões políticas do nordeste. Perdi com ela imagens muito inspiradas e o tesão de fazer meu mini-documentário sobre a família. [1]
• ...retornei ao Manifesto com os rapazes do Butcher’s Daughter para fechar o ciclo da nossa curta existência como banda.
• ...encerrei a existência da banda com o fatídico show na festa junina.
• ...participei da versão paulista do Slideluck Potshow, mostra de fotografia, trazendo a público pela primeira vez minhas fotos de lightpainting. [1][2]
• ...conheci o pessoal do estúdio Tochka, que me deixou no chinelo fazendo não só fotos de lightpainting, como também animações inteiras e um projeto muito profissional no Anima Mundi deste ano.
• ...comecei a usar óculos e rapidamente me acostumei.
• ...aproveitei o fim da banda e o conseqüente tempo livre para reabrir o ateliê e me disciplinar a pintar um pouco por semana.
• ...conheci os caras do 2000e8 e isso serviu de chacoalhão pra me fazer acordar um pouco. [1][2] [3][4]
• ...me convenci de que meu negócio é arte mesmo e que a publicidade só está me fazendo apático e tomando meu tempo.
• ...comecei a tomar providências para mudar de vida. Retomei contatos, reiniciei processos.
• ...participei ativamente dos cursos e exposições da Escola São Paulo.
• ...mudei minha opinião sobre o grafite e comecei a me interessar pelo modo como andou invadindo as galerias e lutando pelo status de forma de arte. 1][2][3][4][5]
• ...percebi como o meu blog está ficando chato para os leigos por tratar apenas de arte e irrelevante para os artistas por ainda não ter conteúdo suficiente.
• ...perdi o Zombie Walk... de novo.
• ...vi várias pessoas sumirem e me esquecerem.
• ...conheci muita gente nova e muito interessante.
• ...tive inveja saudável dos fantásticos brownies da Lexy e do potencial que a habilidade culinária dela tem de virar um ótimo negócio.
• ...tive um natal relativamente tranqüilo no âmbito familiar, mas bem agitado no âmbito profissional.
• ...passei o primeiro natal com a família da Lexy.
• ...me envolvi com a produção gráfica do CD produzido pelo meu irmão e conheci um monte de gente interessante.
• ...passei a respeitar mais o meu irmão na sua tentativa de ser músico e produtor musical.
• ...mudei minha opinião sobre algumas das minhas primas.
• ...encerrei o ano transformando mais um reveillon nulo e esquecível em uma experiência memorável.
• Deixar de fazer referência panacas a sacadinhas publicitárias de campanhas toscas.
• Conscientização, clareza, foco. Deixar a apatia e inércia de lado.
• Dobrar o número de participações em exposições.
• Viabilizar outras formas de sustento além do trabalho em agência.
• Manter e cativar os novos amigos, rever os velhos. Ser um cara mais sociável.
E vamos adiante!
• ...comecei o ano com um reveillon nulo e esquecível.
• ...perdi minha câmera digital, vitimada possivelmente pelas tensões políticas do nordeste. Perdi com ela imagens muito inspiradas e o tesão de fazer meu mini-documentário sobre a família. [1]
• ...retornei ao Manifesto com os rapazes do Butcher’s Daughter para fechar o ciclo da nossa curta existência como banda.
• ...encerrei a existência da banda com o fatídico show na festa junina.
• ...participei da versão paulista do Slideluck Potshow, mostra de fotografia, trazendo a público pela primeira vez minhas fotos de lightpainting. [1][2]
• ...conheci o pessoal do estúdio Tochka, que me deixou no chinelo fazendo não só fotos de lightpainting, como também animações inteiras e um projeto muito profissional no Anima Mundi deste ano.
• ...comecei a usar óculos e rapidamente me acostumei.
• ...aproveitei o fim da banda e o conseqüente tempo livre para reabrir o ateliê e me disciplinar a pintar um pouco por semana.
• ...conheci os caras do 2000e8 e isso serviu de chacoalhão pra me fazer acordar um pouco. [1][2] [3][4]
• ...me convenci de que meu negócio é arte mesmo e que a publicidade só está me fazendo apático e tomando meu tempo.
• ...comecei a tomar providências para mudar de vida. Retomei contatos, reiniciei processos.
• ...participei ativamente dos cursos e exposições da Escola São Paulo.
• ...mudei minha opinião sobre o grafite e comecei a me interessar pelo modo como andou invadindo as galerias e lutando pelo status de forma de arte. 1][2][3][4][5]
• ...percebi como o meu blog está ficando chato para os leigos por tratar apenas de arte e irrelevante para os artistas por ainda não ter conteúdo suficiente.
• ...perdi o Zombie Walk... de novo.
• ...vi várias pessoas sumirem e me esquecerem.
• ...conheci muita gente nova e muito interessante.
• ...tive inveja saudável dos fantásticos brownies da Lexy e do potencial que a habilidade culinária dela tem de virar um ótimo negócio.
• ...tive um natal relativamente tranqüilo no âmbito familiar, mas bem agitado no âmbito profissional.
• ...passei o primeiro natal com a família da Lexy.
• ...me envolvi com a produção gráfica do CD produzido pelo meu irmão e conheci um monte de gente interessante.
• ...passei a respeitar mais o meu irmão na sua tentativa de ser músico e produtor musical.
• ...mudei minha opinião sobre algumas das minhas primas.
• ...encerrei o ano transformando mais um reveillon nulo e esquecível em uma experiência memorável.
Promessas para 2 mil Inove
• Deixar de fazer referência panacas a sacadinhas publicitárias de campanhas toscas.
• Conscientização, clareza, foco. Deixar a apatia e inércia de lado.
• Dobrar o número de participações em exposições.
• Viabilizar outras formas de sustento além do trabalho em agência.
• Manter e cativar os novos amigos, rever os velhos. Ser um cara mais sociável.
E vamos adiante!
domingo, dezembro 28, 2008
Recentemente estive envolvido com a produção de um encarte de CD para um projeto do meu irmão. A experiência, embora uma nulidade financeira, foi muito gratificante em outros vários aspectos.
Primeiro, porque fazia muito tempo que eu não fazia freelas em casa. Lembro do fiasco que foi o anterior, uma comunicação visual para uma loja de roupas. Uma bagunça, noites sem dormir, tensão com o chefe da agência da época e um design muito ruim que não agradou o cliente. Mas assim como tudo na vida, vamos evoluindo, “passando de nível”, como em um jogo. Este encarte já rolou de uma forma muito mais tranqüila, e em poucos dias eu já tinha tudo pronto. Deu pra perceber como a rotina de tentativa e erro na agência já me deu bons resultados fora dela, tanto no prever os possíveis erros na gráfica, quanto nas sacadas de design que facilmente agradam o cliente. Tudo parece mais simples, como andar de bicicleta: no começo parece ilógico como alguém consegue se equilibrar em duas rodas, mas depois você faz sem perceber.
Claro, rolaram os stresses. A entrega em cima da hora nunca muda, as informações do cliente chegam depois que o prazo estoura e é você quem tem que correr, a gráfica não te passa nenhuma especificação e depois reclama que você mandou errado, etc...
Mas pelo menos eu já não me descabelo tanto quanto antes. Apenas um batimento cardíaco mais acelerado e um tamborilar de dedos sobre a mesa enquanto o lento computador grava os arquivos.
Outro aspecto gratificante foram as pessoas com as quais trabalhei. O produtor musical Daniel Barra é uma simpatia em pessoa. Jeito despojado, bem brasileiro. Desses que sabe que as coisas serão feitas às pressas e nas coxas, mas não se preocupa com isso. No fim, tudo dá certo e ele ainda consegue material de qualidade.
Outro parceiro interessante foi o grafiteiro Rafael Calazans, conhecido como Highraff, que fez a capa do encarte. Muito solícito, me passou as imagens vetorizadas, facilitando muito o meu trabalho. Ainda quero aproveitar o contato para fazer algumas perguntas. Estou pensando em escrever sobre os acontecimentos do ano passado com opiniões de grafiteiros, galeristas, guias da Bienal e etc. Uma pseudo-reportagem. Será que ele toparia?
Primeiro, porque fazia muito tempo que eu não fazia freelas em casa. Lembro do fiasco que foi o anterior, uma comunicação visual para uma loja de roupas. Uma bagunça, noites sem dormir, tensão com o chefe da agência da época e um design muito ruim que não agradou o cliente. Mas assim como tudo na vida, vamos evoluindo, “passando de nível”, como em um jogo. Este encarte já rolou de uma forma muito mais tranqüila, e em poucos dias eu já tinha tudo pronto. Deu pra perceber como a rotina de tentativa e erro na agência já me deu bons resultados fora dela, tanto no prever os possíveis erros na gráfica, quanto nas sacadas de design que facilmente agradam o cliente. Tudo parece mais simples, como andar de bicicleta: no começo parece ilógico como alguém consegue se equilibrar em duas rodas, mas depois você faz sem perceber.
Claro, rolaram os stresses. A entrega em cima da hora nunca muda, as informações do cliente chegam depois que o prazo estoura e é você quem tem que correr, a gráfica não te passa nenhuma especificação e depois reclama que você mandou errado, etc...
Mas pelo menos eu já não me descabelo tanto quanto antes. Apenas um batimento cardíaco mais acelerado e um tamborilar de dedos sobre a mesa enquanto o lento computador grava os arquivos.
Outro aspecto gratificante foram as pessoas com as quais trabalhei. O produtor musical Daniel Barra é uma simpatia em pessoa. Jeito despojado, bem brasileiro. Desses que sabe que as coisas serão feitas às pressas e nas coxas, mas não se preocupa com isso. No fim, tudo dá certo e ele ainda consegue material de qualidade.
Outro parceiro interessante foi o grafiteiro Rafael Calazans, conhecido como Highraff, que fez a capa do encarte. Muito solícito, me passou as imagens vetorizadas, facilitando muito o meu trabalho. Ainda quero aproveitar o contato para fazer algumas perguntas. Estou pensando em escrever sobre os acontecimentos do ano passado com opiniões de grafiteiros, galeristas, guias da Bienal e etc. Uma pseudo-reportagem. Será que ele toparia?
40ª Anual de Artes Plásticas da FAAP
A correria do fim de ano não me deixou escrever sobre a abertura da Anual de Artes Plásticas da FAAP, que aconteceu no mês passado.
Se eu dissesse que todas as edições da Anual têm um quê de repetitivas, eu é que estaria sendo repetitivo. Este ano, a sensação de deja vu ficou por conta do Paisagem inventadade um Guga Szabzon: uma tela onde a linha desenhada era substituída pela linha costurada. Deve ser a terceira ou quarta edição da Anual que conta com o mesmo trabalho. Na 34ª edição do evento, onde apresentei o retrato de Taís e a Virgem e o Menino, a colega Mariana Whately já tinha apresentado o mesmo trabalho, costurado durante a época em que ela estava hospitalizada devido a um acidente de trânsito. Claro, o fato leva a pensar em como mais de uma pessoa pode ter a mesma idéia, discussões sobre o inconsciente coletivo e toda aquela ladainha. Mas o que eu realmente me pergunto é o que o coordenador do curso de artes plásticas, Marcos Moraes, acha disso e porque é que ele permite que os diversos curadores que já organizaram a Anual continuem escolhendo esse mesmo trabalho, essa mesma idéia, ano após ano.
Falando em repetição, mas desta vez em outro contexto, eu quase não percebi o Esquadria de Tiago Tebet. Porque, como o nome diz, era apenas uma esquadria de alumínio pendurada no alto da parede. Mas depois que percebi tratar-se de um óleo sobre tela, a coisa começou a tomar outro sentido. Tebet conhece, ou ao menos deveria conhecer, o H de Julian Opie que atualmente encontra-se na Tate Modern em Londres [1][2][3]. Além da semelhança física entre ambos os trabalhos, eles têm aquele truque conceitual de fazer o visitante passar pela obra sem perceber que de fato é uma obra, e quando este finalmente percebe o trabalho, passa a perguntar-se sobre a própria natureza da obra de arte. Talvez um ponto positivo possa ser dado ao trabalho de Tebet porque, enquanto Opie de fato reproduzia uma esquadria em alumínio, como o objeto real, este aluno conseguiu um efeito similar com uma pintura. Um simulacro que, colocado convenientemente fora do alcance do público e em condições de iluminação meio precárias, não tem muita dificuldade de se passar por real.
Antes de prosseguir aos meus preferidos desta Anual, cito outros que me chamaram a atenção. Aline Yoshida apresentou um trabalho delicado que em muito me lembrou o tipo de poesia da Rivane Neuenschwander. Eram uma dezena de folhas de papel sulfite simples, nas quais estavam impressas em alto relevo frases quase imperceptíveis, mas de uma força tocante: "I need some meaning I can memorize", "é como não viver nunca", "feliz mas querendo morrer", "never-ending-nothing", "chorei em vários tons e velocidades diferentes", "waiting for something to say", entre outras. Frases de alguém que, como eu há algum tempo, estava vivendo um eterno nada, um marasmo de apatia, enquanto esperava algo novo acontecer. Um novo significado para a vida, uma nova causa, uma novidade qualquer. Um qualquer coisa. Enquanto isso, ela se desesperava com a própria pequenice, falta de grandeza espiritual. Falta até de conteúdo. Quis muito falar com Yoshida. Saber se suas frases eram suas ou de outros autores interessantes. Saber se eu tinha compreendido. Saber se ela era de fato como eu.
Em outro lugar, o menos conceitual e mais prático trabalho de Prieto Júnior era uma tela enorme coberta de betume e tinta acrílica. Me interessei muito pela tela porque era um escuro sujo, meio grunge. O tipo de fundo que iria muito bem com as minhas pinturas negras de metáforas deformadas. Melhor do que os meus fundos daquele preto chapado e infinito. O betume misturado à tinta acrílica dava uns efeitos irregulares, incontroláveis. Uma textura interessante e colorida, mesmo que o resultado geral continuasse sendo preto, sujo, feio. Um contraste bacana que me deu muito em que pensar para as próximas pinturas. Acho que vou passar a ter fundos mais instigantes.
Minhas duas obras favoritas não foram pinturas. Eis aí outra repetição: pinturas raramente são minhas obras favoritas nas Anuais. Aquela faculdade ainda há de produzir pintores que realmente me cativem algum dia.
Flávia Junqueira é uma conhecida minha. Amiga da Lu e uma daquelas pessoas com as quais eu gostaria muito de conviver mais, por parecerem ter um pouco daquela poesia tão densa que dá pra coletar e guardar, sabe? Flávia apresentou uma série de três fotos (colossalmente ampliadas e emolduradas...) entitulada Na companhia das coisas. Nelas, ela quase desaparece em meio a um mar de coisas. São centenas de peças de roupa (foto), ou brinquedos e outras bugigangas antigas de seu quarto, ou os livros e bibelôs de um escritório. As fotos são meticulosamente produzidas (e ela, maquiada, também), com uma boa iluminação e um arranjo dos elementos que dá a entender que ela teve um assistente muito paciente.
Mas meu trabalho favorito da exposição foi a performance que tive a sorte de ver. Alguns minutos após a abertura, comecei a ouvir o distinto som de rodas de skate batendo contra o piso de madeira do salão. Guilherme Duque Peters tinha colocado uma mesa das salas de aula da faculdade no espaço de exposição, cheia de livros de história da arte. Sem pressa ou ansiedade, ele empilhava um livro por vez no chão, ao lado da mesa. A cada livro, ele tomava distância, colocava seu skate no chão e partia pra cima, saltando por cima dos livros para então colocar mais um na pilha. Caravaggio, Rembrandt, Schiele, Klimt, a escolha dos livros não parecia seguir qualquer critério. Apenas a história da arte hoje considerada "acadêmica". Ele só parou quando foi derrubado por Toulouse-Lautrec, colocando a pilha de volta sobre a mesa e encerrando a performance, chamada Over the top em referência à manobra de skate, mas também ao ato de transpôr o obstáculo.
Claro que escolher uma performance como trabalho favorito foge um pouco do meu perfil de viciado em técnica. Mas vale para mostrar como estou interessado na invasão qua a cultura de rua em geral tem promovido sobre a cultura acadêmica. Grafite, picho, skate. Houve uma época em que eu desdenharia tudo isso sem motivo algum, apenas por ser não-acadêmico. Da mesma forma que qualquer acadêmico desdenhava cultura de rua. Como se fosse menos importante, menos real, menos "sério". Mas hoje acho que eles têm questionado muito mais a natureza do que é considerado arte do que qualquer obra técnica. A performance de Duque Peters é o tipo de protesto relativamente bem-humorado que se vê nos próprios livros de história da arte que ele estava tentando superar. Um ato afirmativo, altivo, claro. "Eu existo! Não me ignore!" diz o seu salto sobre os séculos de arte institucionalizada, "Eu quero prevalecer!". Talvez não seja tão violento e nem venda tantos jornais quanto os outros ataques da cultura de rua, mas tem muito mais classe.
Se eu dissesse que todas as edições da Anual têm um quê de repetitivas, eu é que estaria sendo repetitivo. Este ano, a sensação de deja vu ficou por conta do Paisagem inventadade um Guga Szabzon: uma tela onde a linha desenhada era substituída pela linha costurada. Deve ser a terceira ou quarta edição da Anual que conta com o mesmo trabalho. Na 34ª edição do evento, onde apresentei o retrato de Taís e a Virgem e o Menino, a colega Mariana Whately já tinha apresentado o mesmo trabalho, costurado durante a época em que ela estava hospitalizada devido a um acidente de trânsito. Claro, o fato leva a pensar em como mais de uma pessoa pode ter a mesma idéia, discussões sobre o inconsciente coletivo e toda aquela ladainha. Mas o que eu realmente me pergunto é o que o coordenador do curso de artes plásticas, Marcos Moraes, acha disso e porque é que ele permite que os diversos curadores que já organizaram a Anual continuem escolhendo esse mesmo trabalho, essa mesma idéia, ano após ano.
Falando em repetição, mas desta vez em outro contexto, eu quase não percebi o Esquadria de Tiago Tebet. Porque, como o nome diz, era apenas uma esquadria de alumínio pendurada no alto da parede. Mas depois que percebi tratar-se de um óleo sobre tela, a coisa começou a tomar outro sentido. Tebet conhece, ou ao menos deveria conhecer, o H de Julian Opie que atualmente encontra-se na Tate Modern em Londres [1][2][3]. Além da semelhança física entre ambos os trabalhos, eles têm aquele truque conceitual de fazer o visitante passar pela obra sem perceber que de fato é uma obra, e quando este finalmente percebe o trabalho, passa a perguntar-se sobre a própria natureza da obra de arte. Talvez um ponto positivo possa ser dado ao trabalho de Tebet porque, enquanto Opie de fato reproduzia uma esquadria em alumínio, como o objeto real, este aluno conseguiu um efeito similar com uma pintura. Um simulacro que, colocado convenientemente fora do alcance do público e em condições de iluminação meio precárias, não tem muita dificuldade de se passar por real. Antes de prosseguir aos meus preferidos desta Anual, cito outros que me chamaram a atenção. Aline Yoshida apresentou um trabalho delicado que em muito me lembrou o tipo de poesia da Rivane Neuenschwander. Eram uma dezena de folhas de papel sulfite simples, nas quais estavam impressas em alto relevo frases quase imperceptíveis, mas de uma força tocante: "I need some meaning I can memorize", "é como não viver nunca", "feliz mas querendo morrer", "never-ending-nothing", "chorei em vários tons e velocidades diferentes", "waiting for something to say", entre outras. Frases de alguém que, como eu há algum tempo, estava vivendo um eterno nada, um marasmo de apatia, enquanto esperava algo novo acontecer. Um novo significado para a vida, uma nova causa, uma novidade qualquer. Um qualquer coisa. Enquanto isso, ela se desesperava com a própria pequenice, falta de grandeza espiritual. Falta até de conteúdo. Quis muito falar com Yoshida. Saber se suas frases eram suas ou de outros autores interessantes. Saber se eu tinha compreendido. Saber se ela era de fato como eu.
Em outro lugar, o menos conceitual e mais prático trabalho de Prieto Júnior era uma tela enorme coberta de betume e tinta acrílica. Me interessei muito pela tela porque era um escuro sujo, meio grunge. O tipo de fundo que iria muito bem com as minhas pinturas negras de metáforas deformadas. Melhor do que os meus fundos daquele preto chapado e infinito. O betume misturado à tinta acrílica dava uns efeitos irregulares, incontroláveis. Uma textura interessante e colorida, mesmo que o resultado geral continuasse sendo preto, sujo, feio. Um contraste bacana que me deu muito em que pensar para as próximas pinturas. Acho que vou passar a ter fundos mais instigantes.
Minhas duas obras favoritas não foram pinturas. Eis aí outra repetição: pinturas raramente são minhas obras favoritas nas Anuais. Aquela faculdade ainda há de produzir pintores que realmente me cativem algum dia.
Flávia Junqueira é uma conhecida minha. Amiga da Lu e uma daquelas pessoas com as quais eu gostaria muito de conviver mais, por parecerem ter um pouco daquela poesia tão densa que dá pra coletar e guardar, sabe? Flávia apresentou uma série de três fotos (colossalmente ampliadas e emolduradas...) entitulada Na companhia das coisas. Nelas, ela quase desaparece em meio a um mar de coisas. São centenas de peças de roupa (foto), ou brinquedos e outras bugigangas antigas de seu quarto, ou os livros e bibelôs de um escritório. As fotos são meticulosamente produzidas (e ela, maquiada, também), com uma boa iluminação e um arranjo dos elementos que dá a entender que ela teve um assistente muito paciente. Mas meu trabalho favorito da exposição foi a performance que tive a sorte de ver. Alguns minutos após a abertura, comecei a ouvir o distinto som de rodas de skate batendo contra o piso de madeira do salão. Guilherme Duque Peters tinha colocado uma mesa das salas de aula da faculdade no espaço de exposição, cheia de livros de história da arte. Sem pressa ou ansiedade, ele empilhava um livro por vez no chão, ao lado da mesa. A cada livro, ele tomava distância, colocava seu skate no chão e partia pra cima, saltando por cima dos livros para então colocar mais um na pilha. Caravaggio, Rembrandt, Schiele, Klimt, a escolha dos livros não parecia seguir qualquer critério. Apenas a história da arte hoje considerada "acadêmica". Ele só parou quando foi derrubado por Toulouse-Lautrec, colocando a pilha de volta sobre a mesa e encerrando a performance, chamada Over the top em referência à manobra de skate, mas também ao ato de transpôr o obstáculo.
Claro que escolher uma performance como trabalho favorito foge um pouco do meu perfil de viciado em técnica. Mas vale para mostrar como estou interessado na invasão qua a cultura de rua em geral tem promovido sobre a cultura acadêmica. Grafite, picho, skate. Houve uma época em que eu desdenharia tudo isso sem motivo algum, apenas por ser não-acadêmico. Da mesma forma que qualquer acadêmico desdenhava cultura de rua. Como se fosse menos importante, menos real, menos "sério". Mas hoje acho que eles têm questionado muito mais a natureza do que é considerado arte do que qualquer obra técnica. A performance de Duque Peters é o tipo de protesto relativamente bem-humorado que se vê nos próprios livros de história da arte que ele estava tentando superar. Um ato afirmativo, altivo, claro. "Eu existo! Não me ignore!" diz o seu salto sobre os séculos de arte institucionalizada, "Eu quero prevalecer!". Talvez não seja tão violento e nem venda tantos jornais quanto os outros ataques da cultura de rua, mas tem muito mais classe.
sexta-feira, dezembro 26, 2008
segunda-feira, dezembro 08, 2008
Andei pensando sobre essa clareza dos últimos meses.
Principalmente na idéia de que muito teria sido diferente na minha vida se tivessem me falado de certas coisas logo que eu saí da faculdade. Claro, esses conselhos da vida sempre estiveram aí, debaixo do meu nariz. Mas tem coisas que se não falam, nós não vemos. E se vemos, ignoramos.
Saí da faculdade de artes plásticas com o medo da pobreza instilado em mim pelas instituições nas quais cresci e pelas minhas próprias conclusões errôneas. O medo me levou à publicidade e a quatro anos de nada. E só agora eu aceito que estou no caminho totalmente errado.
Que sejam ditas então algumas verdades básicas às novas gerações de artistas plásticos ainda em formação.
Em primeiro lugar, estejam preparados psicologicamente para passarem sim os primeiros anos após a faculdade em um voto de pobreza. Não achem que a dependência do dinheiro de papai acaba após a formatura, porque ela ainda continua algum tempo além da faculdade. Esta não é uma profissão institucionalizada onde faz-se estágio ainda na graduação e processos seletivos para entrar em empresas concorridas. É uma profissão de empregos temporários e de caça à próxima fonte de renda. Mas saibam e entendam que esse primeiro período de pobreza é fundamental. Aprende-se na marra a garimpar o sustento com atividades menores, que não interfiram negativamente na produção artística que, durante a faculdade, ganhou momento, inércia. Mais importante para o artista do que arranjar emprego fixo, é manter esse momento, continuar produzindo na mesma intensidade que se produzia na faculdade. Quem diminui o ritmo para procurar emprego de carteira assinada está decretando seu suicídio como artista profissional e relegando a arte à condição de hobby.
E eis aqui a segunda lição: manter esse momento é fundamental para comunicar o seu comprometimento. Nisso a arte assemelha-se a um verdadeiro business: os possíveis investidores em arte (galeristas, curadores, colecionadores, produtores culturais, etc) não vão investir seu tempo e dinheiro em gente não-comprometida. Ainda que você tenha um trabalho fantástico e revolucionário, se você não mostra comprometimento e perseverância, que garantia eles têm de que você não vai deixá-los na mão porque foi promovido no outro emprego e precisa trabalhar mais horas? Ou que você vai continuar estudando arte e evoluíndo em vez de estudar a mais nova versão dos programas de computador necessários para o seu outro emprego? Ou seja, trocando em miúdos, esse comprometimento é uma questão de foco. É você poder ser (ou pelo menos parecer) uma pessoa que sabe dizer não ao que não importa e persistir no que importa, seja lá o que isso for. Esses investidores querem que seu foco seja na arte e que, dado a chance de escolher entre um emprego assalariado e uma oportunidade de arte, você não seja tentado pelo dinheiro.
Cabe aqui um pequeno parágrafo de alívio.
A vida do artista plástico não vai ser para sempre esse eterno voto de pobreza e viver com os pais até os 30. Se você sobreviveu esse primeiro período de pobreza e aprendeu a desenvolver um trabalho de arte coeso e convincente, o próximo passo é a pós-graduação. A oportunidade de voltar à academia como uma espécie de oficial de patente mais alta. Ter acesso a algumas regalias, bolsas de pesquisa, contatos mais interessantes. E depois disso, a possibilidade de ensinar em faculdades, onde finalmente o sustento passa a ser algo mais garantido, sem comprometer a produção artística. Até porque você precisará estar atuando no mercado apra ser considerado um professor relevante.
Quanto a mim, como eu disse, fui pelo caminho completamente errado. Intimidado pela perspectiva da pobreza, desbravei a selva das pequenas agências de publicidade, achando que o dinheiro estaria por aí e que, com um pouco de sorte, alguém relevante descobriria as pinturas que eu fazia nas poucas horas vagas. O resultado foi óbvio: passei três anos cansado demais pra ter saco para terminar uma pintura (desperdiçando totalmente o momento pós-faculdade) e quem viu meus trabalhos e gostou, não investiu porque eu claramente não estava comprometido. O golpe de misericórdia veio da comparação com meus ex-colegas: com seus trabalhos temporários como guias de exposição e professores de desenho e pintura, estavam ganhando tanto ou mais do que eu na publicidade. Com a diferença de que suas pesquisas artísticas estavam evoluindo e a minha não. Estavam até viajando tanto quanto eu, indo para a Europa, porém para fazerem residências artísticas e continuar a pesquisa.
Well, fuck this... I’m outta here!
Já devia há muito tempo ter tomado essa decisão. Em seis meses, reabri o ateliê, retomei contatos, reiniciei processos. No início, apenas levando adiante idéias e pinturas antigas que eu tinha anotado e esquecido. Eu não tinha momento ou inspiração para idéias novas. Mas gradualmente, fui voltando a ter aqueles flashes, aqueles insights, aquela coisa pseudo-mística que se atribui ao artista. Era como se, de fato, eu nunca deixara de ter.
E nesse lento caminhar, essa sensação de clareza foi se assentando. Uma sensação do que importava e do que era dispensável. Sabe, antes disso o foco era algo emocionalmente caro. Custava-me dizer não aos projetos paralelos, aos eventos legais e aos favores a amigos para me focar no relevante. Custava-me sentir a frustração deles, mas eu ignorava a minha.
Estou botando a casa em ordem nesse aspecto. Saíndo de projetos estéreis que não levam a nada, me desculpando por favores com os quais não posso me comprometer, deixando diversões para depois das responsabilidades. Pensando um pouco mais no meu futuro e menos no presente dos outros. Egoísmo? Julgue como quiser. Não sinto mais pudor em dizer não.
E agora?
Enquanto estou colhendo os frutos destes últimos seis meses em uma exposição que abre nesta quarta na Escola São Paulo, vou planejando e colocando em movimento as coisas para o ano que vem. Há uma sensação gostosa de possibilidade no ar. Daquela que se tem diante de um vasto horizonte aberto, a possibilidade de ir para qualquer lado na velocidade que eu quiser. Medo? Claro que eu tenho. De ir mais rápido do que eu posso aguentar. De correr, correr e não achar nada nem nunca alcançar o horizonte. Não tem soluções fáceis: é incerto, mas é empolgante e desesperador. E pela primeira vez na vida eu realmente quero enfrentar.
É engraçado, mas a imagem que me vem à cabeça sobre estes anos passados na publicidade era bem o oposto. Era como viver nesta metrópole: prédios por todos os lados. Só é possível enxergar até a próxima esquina, alguns metros adiante, e mesmo que está do seu lado tem que falar alto para ser ouvido. Vez por outra se vê um horizonte entre os prédios, mas dura segundos e chegar lá é complicado. Era bem assim: eu só tinha olhos e consciência para as atividades da semana atual e não via futuro além disso. Oportunidades perfeitas do meu lado tinham que falar alto para serem ouvidas. Era uma rotina fácil. E era segura, chata e ainda mais desesperadora.
Principalmente na idéia de que muito teria sido diferente na minha vida se tivessem me falado de certas coisas logo que eu saí da faculdade. Claro, esses conselhos da vida sempre estiveram aí, debaixo do meu nariz. Mas tem coisas que se não falam, nós não vemos. E se vemos, ignoramos.
Saí da faculdade de artes plásticas com o medo da pobreza instilado em mim pelas instituições nas quais cresci e pelas minhas próprias conclusões errôneas. O medo me levou à publicidade e a quatro anos de nada. E só agora eu aceito que estou no caminho totalmente errado.
Que sejam ditas então algumas verdades básicas às novas gerações de artistas plásticos ainda em formação.
Em primeiro lugar, estejam preparados psicologicamente para passarem sim os primeiros anos após a faculdade em um voto de pobreza. Não achem que a dependência do dinheiro de papai acaba após a formatura, porque ela ainda continua algum tempo além da faculdade. Esta não é uma profissão institucionalizada onde faz-se estágio ainda na graduação e processos seletivos para entrar em empresas concorridas. É uma profissão de empregos temporários e de caça à próxima fonte de renda. Mas saibam e entendam que esse primeiro período de pobreza é fundamental. Aprende-se na marra a garimpar o sustento com atividades menores, que não interfiram negativamente na produção artística que, durante a faculdade, ganhou momento, inércia. Mais importante para o artista do que arranjar emprego fixo, é manter esse momento, continuar produzindo na mesma intensidade que se produzia na faculdade. Quem diminui o ritmo para procurar emprego de carteira assinada está decretando seu suicídio como artista profissional e relegando a arte à condição de hobby.
E eis aqui a segunda lição: manter esse momento é fundamental para comunicar o seu comprometimento. Nisso a arte assemelha-se a um verdadeiro business: os possíveis investidores em arte (galeristas, curadores, colecionadores, produtores culturais, etc) não vão investir seu tempo e dinheiro em gente não-comprometida. Ainda que você tenha um trabalho fantástico e revolucionário, se você não mostra comprometimento e perseverância, que garantia eles têm de que você não vai deixá-los na mão porque foi promovido no outro emprego e precisa trabalhar mais horas? Ou que você vai continuar estudando arte e evoluíndo em vez de estudar a mais nova versão dos programas de computador necessários para o seu outro emprego? Ou seja, trocando em miúdos, esse comprometimento é uma questão de foco. É você poder ser (ou pelo menos parecer) uma pessoa que sabe dizer não ao que não importa e persistir no que importa, seja lá o que isso for. Esses investidores querem que seu foco seja na arte e que, dado a chance de escolher entre um emprego assalariado e uma oportunidade de arte, você não seja tentado pelo dinheiro.
Cabe aqui um pequeno parágrafo de alívio.
A vida do artista plástico não vai ser para sempre esse eterno voto de pobreza e viver com os pais até os 30. Se você sobreviveu esse primeiro período de pobreza e aprendeu a desenvolver um trabalho de arte coeso e convincente, o próximo passo é a pós-graduação. A oportunidade de voltar à academia como uma espécie de oficial de patente mais alta. Ter acesso a algumas regalias, bolsas de pesquisa, contatos mais interessantes. E depois disso, a possibilidade de ensinar em faculdades, onde finalmente o sustento passa a ser algo mais garantido, sem comprometer a produção artística. Até porque você precisará estar atuando no mercado apra ser considerado um professor relevante.
Quanto a mim, como eu disse, fui pelo caminho completamente errado. Intimidado pela perspectiva da pobreza, desbravei a selva das pequenas agências de publicidade, achando que o dinheiro estaria por aí e que, com um pouco de sorte, alguém relevante descobriria as pinturas que eu fazia nas poucas horas vagas. O resultado foi óbvio: passei três anos cansado demais pra ter saco para terminar uma pintura (desperdiçando totalmente o momento pós-faculdade) e quem viu meus trabalhos e gostou, não investiu porque eu claramente não estava comprometido. O golpe de misericórdia veio da comparação com meus ex-colegas: com seus trabalhos temporários como guias de exposição e professores de desenho e pintura, estavam ganhando tanto ou mais do que eu na publicidade. Com a diferença de que suas pesquisas artísticas estavam evoluindo e a minha não. Estavam até viajando tanto quanto eu, indo para a Europa, porém para fazerem residências artísticas e continuar a pesquisa.
Well, fuck this... I’m outta here!
Já devia há muito tempo ter tomado essa decisão. Em seis meses, reabri o ateliê, retomei contatos, reiniciei processos. No início, apenas levando adiante idéias e pinturas antigas que eu tinha anotado e esquecido. Eu não tinha momento ou inspiração para idéias novas. Mas gradualmente, fui voltando a ter aqueles flashes, aqueles insights, aquela coisa pseudo-mística que se atribui ao artista. Era como se, de fato, eu nunca deixara de ter.
E nesse lento caminhar, essa sensação de clareza foi se assentando. Uma sensação do que importava e do que era dispensável. Sabe, antes disso o foco era algo emocionalmente caro. Custava-me dizer não aos projetos paralelos, aos eventos legais e aos favores a amigos para me focar no relevante. Custava-me sentir a frustração deles, mas eu ignorava a minha.
Estou botando a casa em ordem nesse aspecto. Saíndo de projetos estéreis que não levam a nada, me desculpando por favores com os quais não posso me comprometer, deixando diversões para depois das responsabilidades. Pensando um pouco mais no meu futuro e menos no presente dos outros. Egoísmo? Julgue como quiser. Não sinto mais pudor em dizer não.
E agora?
Enquanto estou colhendo os frutos destes últimos seis meses em uma exposição que abre nesta quarta na Escola São Paulo, vou planejando e colocando em movimento as coisas para o ano que vem. Há uma sensação gostosa de possibilidade no ar. Daquela que se tem diante de um vasto horizonte aberto, a possibilidade de ir para qualquer lado na velocidade que eu quiser. Medo? Claro que eu tenho. De ir mais rápido do que eu posso aguentar. De correr, correr e não achar nada nem nunca alcançar o horizonte. Não tem soluções fáceis: é incerto, mas é empolgante e desesperador. E pela primeira vez na vida eu realmente quero enfrentar.
É engraçado, mas a imagem que me vem à cabeça sobre estes anos passados na publicidade era bem o oposto. Era como viver nesta metrópole: prédios por todos os lados. Só é possível enxergar até a próxima esquina, alguns metros adiante, e mesmo que está do seu lado tem que falar alto para ser ouvido. Vez por outra se vê um horizonte entre os prédios, mas dura segundos e chegar lá é complicado. Era bem assim: eu só tinha olhos e consciência para as atividades da semana atual e não via futuro além disso. Oportunidades perfeitas do meu lado tinham que falar alto para serem ouvidas. Era uma rotina fácil. E era segura, chata e ainda mais desesperadora.
quinta-feira, novembro 20, 2008
Aniversário - clareza
[A pedidos...]
Sabe quando uma coisa é esquisita, mas muito boa?
Não choveu no meu aniversário. Isso por sí só já diz muita coisa. Há um decreto divino que estabelece que em todo dia 15 de novembro os céus verterão água. Pode ser, como no caso do ano passado, uma garoa fina. Pode ser um daqueles dilúvios de verão. Mas sempre chove. Neste ano, os céus estiveram perfeitamente limpos o dia inteiro e a noite contou com uma temperatura muito agradável.
A balada foi no Berlin, que quem conhece disse ter ótima música. O ambiente me lembrava uma versão menor e com pessoas mais comportadas do extinto Atari. E embora o primeiro DJ tenha sido terrível, o que seguiu depois da banda de punk-rock tocou músicas latinas bem interessantes.
Minha Lexy cometeu a loucura de trazer um bolo à festa, que acabou sendo repartido entre mais do que apenas os convidados, mas foi uma loucura gostosa, de generosidade, de delícia. Ajudou-me ainda a fazer um flyer do evento e a montar uma lista de e-mails para mandar.
E como estou eu com essa idade toda? Bom, sabe quando uma coisa é esquisita, mas muito boa?
Nesses meses que antecederam o aniversário, a vida dotou-se de uma extraordinária clareza. Sobre quem eu sou hoje e o que quero ser daqui pra frente. Sobre o que vou fazer no ano que vem. Sobre uma carreira de arte e uma produção que eu retomei este ano. Sobre o que eu quero dizer na minha pintura daqui pra frente. Sobre quem eu quero que esteja comigo daqui pra frente.
É claro que houve a discussão de quem foi e quem deixou de ir. Mas mesmo essa discussão foi recebida com uma clareza dolorosa. Você não sai da sua confortável preguiça e adia compromissos menores e gasta dinheiro e vai para um boteco que não toca o seu tipo de música e conversa com pessoas que não falam o seu tipo de papo por qualquer conhecido seu. Em uma cidade onde todo mundo lida com pelo menos cinco turmas separadas (a do colégio, a da faculdade, a do prédio, a do trabalho e a família) e quinhentos outros micro-universos isolados, você só responde ao chamado de pessoas que realmente valem a pena. E não há tristeza, culpa ou pena de mim mesmo quando digo que eu sei que pra muita gente eu não valho a pena. Eu sou um conhecido. Um conhecido legal, mas apenas um conhecido. Eu também não vou às suas festinhas de aniversário. Todos nós temos lugares muito melhores para ir.
Mas assim como o meu projeto do ano que vem é mudar quem eu sou e o que eu faço, o jeito com o qual eu me relaciono com as pessoas também há de mudar. Pra ganhar importância, relevância, crédito. Pra ser alguém para quem é alguém pra mim.
Sabe quando uma coisa é esquisita, mas muito boa?
Não choveu no meu aniversário. Isso por sí só já diz muita coisa. Há um decreto divino que estabelece que em todo dia 15 de novembro os céus verterão água. Pode ser, como no caso do ano passado, uma garoa fina. Pode ser um daqueles dilúvios de verão. Mas sempre chove. Neste ano, os céus estiveram perfeitamente limpos o dia inteiro e a noite contou com uma temperatura muito agradável.
A balada foi no Berlin, que quem conhece disse ter ótima música. O ambiente me lembrava uma versão menor e com pessoas mais comportadas do extinto Atari. E embora o primeiro DJ tenha sido terrível, o que seguiu depois da banda de punk-rock tocou músicas latinas bem interessantes.
Minha Lexy cometeu a loucura de trazer um bolo à festa, que acabou sendo repartido entre mais do que apenas os convidados, mas foi uma loucura gostosa, de generosidade, de delícia. Ajudou-me ainda a fazer um flyer do evento e a montar uma lista de e-mails para mandar.
E como estou eu com essa idade toda? Bom, sabe quando uma coisa é esquisita, mas muito boa?
Nesses meses que antecederam o aniversário, a vida dotou-se de uma extraordinária clareza. Sobre quem eu sou hoje e o que quero ser daqui pra frente. Sobre o que vou fazer no ano que vem. Sobre uma carreira de arte e uma produção que eu retomei este ano. Sobre o que eu quero dizer na minha pintura daqui pra frente. Sobre quem eu quero que esteja comigo daqui pra frente.
É claro que houve a discussão de quem foi e quem deixou de ir. Mas mesmo essa discussão foi recebida com uma clareza dolorosa. Você não sai da sua confortável preguiça e adia compromissos menores e gasta dinheiro e vai para um boteco que não toca o seu tipo de música e conversa com pessoas que não falam o seu tipo de papo por qualquer conhecido seu. Em uma cidade onde todo mundo lida com pelo menos cinco turmas separadas (a do colégio, a da faculdade, a do prédio, a do trabalho e a família) e quinhentos outros micro-universos isolados, você só responde ao chamado de pessoas que realmente valem a pena. E não há tristeza, culpa ou pena de mim mesmo quando digo que eu sei que pra muita gente eu não valho a pena. Eu sou um conhecido. Um conhecido legal, mas apenas um conhecido. Eu também não vou às suas festinhas de aniversário. Todos nós temos lugares muito melhores para ir.
Mas assim como o meu projeto do ano que vem é mudar quem eu sou e o que eu faço, o jeito com o qual eu me relaciono com as pessoas também há de mudar. Pra ganhar importância, relevância, crédito. Pra ser alguém para quem é alguém pra mim.
sexta-feira, novembro 14, 2008
28ª Bienal de São Paulo
Não há como não ser influenciado pelas opiniões a respeito da Bienal. Estão em toda parte, superadas apenas pelas opiniões sobre a vitória de Obama para a presidencia dos EUA. E para quem se liga mais em arte do que em política, é impossível pensar em outra coisa.
Fui sozinho à minha primeira visita à Bienal deste ano. Queria dar o devido tempo às obras que me chamassem a atenção, sem lidar com a pressa alheia. Porém, mais do que isso, queria que minha opinião sobre o evento e as obras fosse só minha. Porque quando estou com alguém nessas exposições, tenho a tendência a fazer o papel de advogado do diabo, defendendo trabalhos que, em outras circunstâncias, eu teria desprezado.
As matérias de jornal se enganam ao dizer que esta edição da Bienal conta com um andar vazio. Na verdade é um andar e meio. O primeiro piso do prédio da Bienal tem sua primeira metade, logo antes da rampa, que não está propriamente vazio, mas quase. Pelo que relatam os textos estilosamente aplicados na dita rampa, essa primeira parte tem o propósito de servir como uma espécie de praça pública, um espaço aberto e verdadeiramente público. Essa era, segundo os curadores, a idéia inicial de Niemeyer para aquele espaço. Só não pude dizer que o espaço está vazio porque ainda estavam por lá os restos do palco do show do Fischerspooner, que a galerinha mais hype disse que foi ótimo. Além disso, há uma curiosa, embora sorrateira videoinstalação do Rubens Mano em um cubículo imperceptível abraçando uma coluna, e a intervenção da turma da Anarcademia (espécie de coletivo de jovens artistas formado pelos asseclas da Dora).
Por causa da "intervenção" dos pixadores no andar vazio, a entrada para a Bienal propriamente dita é agora controlada por um forte esquema de segurança, que inclui detectores de metal, guarda-volumes para bolsas suspeitas e muitos homens de preto. Meus parabéns à turma do Pixobomb... Podem não ter mudado a opinião pública sobre o pixo, mas mudaram a atitude da Bienal, que ficou bem menos receptiva.
Logo na entrada, dei de cara com o Mundo Explicado do argentino Erick Beltrán. Me pareceu um projeto interessante, valendo-se da interatividade com o público e da noção popular (de "nao-especialistas", como ele chama o público) sobre diversos assuntos para criar uma espécie de enciclopédia de conhecimentos gerais e explicações chucras do mundo. O projeto contava com uma pequena equipe de editores, uma impressora off-set e um intrincado sistema de dados.
Outro detalhe que me chamou a atenção no primeiro andar foi o projeto Talisman de Paul Ramirez Jonas. Um chaveiro instalado na Bienal entregava supostas cópias da chave do pavilhão em troca de cópias das chaves dos visitantes. O visitante pode, teoricamente, vir até o pavilhão pela manhã para abrir a Bienal daquele dia. Uma troca interessante, mas acho que depois do ataque ao segundo andar, ações desse tipo ganham outros ares e muitos medos.
Mas o que realmente toma boa parte da atenção e relevância do primeiro andar é a sessão de vídeos. Os curadores desta edição devem ser realmente apaixonados pela mídia, já que dedicaram uma área dividida em várias partes intensamente organizadas a essa forma de expressão. Trata-se quase de uma mostra dentro da mostra, relatando um pouco dos primeiros experimentos em video arte, questões políticas relacionadas e vídeos com uma linguagem mais recente. O mais interessante dessa área de vídeos é que seu conteúdo muda a cada semana. Não sei exatamente o que pensar disso: se a estratégia foi divisada para conseguir expor tão vasto acervo, ou para convencer o visitante a voltar inúmeras vezes, aumentando assim as estatísticas desta edição do evento. Quiçá seja por ambos os motivos.
E então, o segundo andar. O andar "vazio". Escrito assim, entre aspas, porque uma das entradas para os escorregadores do belga Carsten Höller fica aqui. E já fica aqui a minha primeira crítica sobre o segundo andar: se é para ser vazio, que seja realmente vazio. Da forma como está, virou "o andar do escorregador". No mais, embora eu admita que é algo relativamente impressionante estar naquele enorme andar vazio, qualquer visitante assíduo do Ibirapuera vê aquilo se olhar através das enormes janelas do pavilhão nas épocas em que ele está fechado e sem exposições. Ou seja, nenhuma novidade. Até cheguei a murmurar maravilhado sobre como seria legal andar de patins naquele chão perfeitamente liso. Ah, é... pra isso tem a marquise lá fora. Ou seja, nenhuma novidade MESMO.
Encontrei Marcela Tiboni no andar vazio. Vendo-a chegar à distância e reconhecendo-a através da minha miopia. Marcela organizou o corpo de monitores desta edição, chegando até a me mandar um e-mail convidando-me a participar. Vontades de largar a agência de publicidade e ir... Conversamos sobre o ocorrido no domingo de abertura, sobre os pixadores. Ela estava lá no embate entre eles e os seguranças e contou da violência de ambas as partes. Relatou ainda que depois daquilo, muita gente ia ao segundo andar só pra fazer rebeldia gratuita, se comportar mal e gritar aos quatro ventos que estava sendo agredido por seguranças d'O Sistema. Achei talvez a parte mais interessante e estimulante da minha visita ao segundo andar: ouvir em primeira mão o relato do outro lado da história. O de quem tem que lidar com os pixadores na prática, e não apenas fazer divagações teóricas sobre a validade artística dos atos deles. Marcela não queria saber da validade de porra nenhuma. Tinha sido agredida por gente que viera atrapalhar seu trabalho e não teria um pingo de simpatia por aqueles pixadores, artistas ou não. E isso tudo era mais real e dizia mais a ela do que qualquer arte.
O terceiro andar é, via de regra, o melhor da Bienal. Em quase todas as edições que fui. E embora eu não tenha visto tudo por estar começando a sentir os efeitos do cansaço (a impaciência, a dispersão...), gostei muito do que consegui ver. Logo de cara, passei quase uma hora no trabalho de minha ídola Sophie Calle. Assim como os vídeos, a montagem de Calle era uma mostra dentro da mostra. Centrando-se em um trabalho específico, La Filature (A Perseguição), com fotos e anotações penduradas em uma parede sobre a experiência que fez pedindo que sua mãe contratasse um detetive para segui-la, a montagem trazia também cadeiras às quais estavam amarrados exemplares de um livro documentando a experiência simbiótica entre Calle e o escritorPaul Auster. Ele criou uma personagem baseada nas pesquisas e performances de Calle sobre intimidade e identidade para um de seus livros, enquanto ela procurou viver as performances e situações que a personagem de Auster viveu. Nesse processo, diversos dos trabalhos anteriores de Calle foram descritos e documentados no livro, que serve quase como um catálogo da carreira da artista. Poderia escrever um post separado sobre Sophie Calle (talvez o faça algum dia...). Seu trabalho parece validar atitudes tidas como perversas como o voyeurismo, a obssessão e todas as atitudes de um bom stalker.
Logo ao lado, o aguardado trabalho de Marina Abramovic não tinha nada a ver com a fundação que ela criou depois de separar-se de Ulay, como eu tinha previsto. Era um trabalho antigo, uma coleção de auto-retratos em vídeo. Ela os chamava de retratos por serem closes de seu rosto em diversas situações. Fez-me lembrar dos meus retratos, que eram justamente isso: ilustrações de rostos que tomavam toda a tela. Deu vontade de fazer vídeos como os dela. Mas acho que falta-me a poesia. Abramovic também figurou em diversos vídeos da área de vídeos do primeiro andar. Vários deles com o ex-parceiro. Não tenho certeza, mas acho que tem um vídeo dela para cada semana da Bienal na última sessão da área do primeiro andar.
De saída, fiquei com vontade de escrever nas máquinas alteradas de Rivane Neuenschwander. O trabalho também era antigo e conhecido, das máquinas de escrever modificadas, mas a interação do público é sempre interessante. Às vezes acho-a mais interessante do que o próprio trabalho da artista, por ser uma amostra de criatividade anônima, pública, desconhecida. Mas não escrevi nas máquinas. Porque, conforme eu tinha escrito antes, o trabalho de Rivane precisa de seu próprio tempo e dedicação. É um trabalho sutil, delicado, para sentar, apreciar e pensar a respeito por alguns minutos. E colocado assim, no fim de uma longa exposição de várias horas, acaba vitimado pelo cansaço e impaciência do visitante que já saturou-se de arte e quer ir para casa.
Também não desci pelos escorregadores do Carsten Höller. O trabalho faz sucesso e a fila para acessá-lo é consideravelmente longa. Não tiro o mérito do trabalho: embora ele não convide a uma reflexão tão profunda quanto outros trabalhos, é divertido e mantem as crianças ocupadas. Mas quem sabe uma próxima vez...
Fui sozinho à minha primeira visita à Bienal deste ano. Queria dar o devido tempo às obras que me chamassem a atenção, sem lidar com a pressa alheia. Porém, mais do que isso, queria que minha opinião sobre o evento e as obras fosse só minha. Porque quando estou com alguém nessas exposições, tenho a tendência a fazer o papel de advogado do diabo, defendendo trabalhos que, em outras circunstâncias, eu teria desprezado.
As matérias de jornal se enganam ao dizer que esta edição da Bienal conta com um andar vazio. Na verdade é um andar e meio. O primeiro piso do prédio da Bienal tem sua primeira metade, logo antes da rampa, que não está propriamente vazio, mas quase. Pelo que relatam os textos estilosamente aplicados na dita rampa, essa primeira parte tem o propósito de servir como uma espécie de praça pública, um espaço aberto e verdadeiramente público. Essa era, segundo os curadores, a idéia inicial de Niemeyer para aquele espaço. Só não pude dizer que o espaço está vazio porque ainda estavam por lá os restos do palco do show do Fischerspooner, que a galerinha mais hype disse que foi ótimo. Além disso, há uma curiosa, embora sorrateira videoinstalação do Rubens Mano em um cubículo imperceptível abraçando uma coluna, e a intervenção da turma da Anarcademia (espécie de coletivo de jovens artistas formado pelos asseclas da Dora).
Por causa da "intervenção" dos pixadores no andar vazio, a entrada para a Bienal propriamente dita é agora controlada por um forte esquema de segurança, que inclui detectores de metal, guarda-volumes para bolsas suspeitas e muitos homens de preto. Meus parabéns à turma do Pixobomb... Podem não ter mudado a opinião pública sobre o pixo, mas mudaram a atitude da Bienal, que ficou bem menos receptiva.
Logo na entrada, dei de cara com o Mundo Explicado do argentino Erick Beltrán. Me pareceu um projeto interessante, valendo-se da interatividade com o público e da noção popular (de "nao-especialistas", como ele chama o público) sobre diversos assuntos para criar uma espécie de enciclopédia de conhecimentos gerais e explicações chucras do mundo. O projeto contava com uma pequena equipe de editores, uma impressora off-set e um intrincado sistema de dados.
Outro detalhe que me chamou a atenção no primeiro andar foi o projeto Talisman de Paul Ramirez Jonas. Um chaveiro instalado na Bienal entregava supostas cópias da chave do pavilhão em troca de cópias das chaves dos visitantes. O visitante pode, teoricamente, vir até o pavilhão pela manhã para abrir a Bienal daquele dia. Uma troca interessante, mas acho que depois do ataque ao segundo andar, ações desse tipo ganham outros ares e muitos medos.
Mas o que realmente toma boa parte da atenção e relevância do primeiro andar é a sessão de vídeos. Os curadores desta edição devem ser realmente apaixonados pela mídia, já que dedicaram uma área dividida em várias partes intensamente organizadas a essa forma de expressão. Trata-se quase de uma mostra dentro da mostra, relatando um pouco dos primeiros experimentos em video arte, questões políticas relacionadas e vídeos com uma linguagem mais recente. O mais interessante dessa área de vídeos é que seu conteúdo muda a cada semana. Não sei exatamente o que pensar disso: se a estratégia foi divisada para conseguir expor tão vasto acervo, ou para convencer o visitante a voltar inúmeras vezes, aumentando assim as estatísticas desta edição do evento. Quiçá seja por ambos os motivos.
E então, o segundo andar. O andar "vazio". Escrito assim, entre aspas, porque uma das entradas para os escorregadores do belga Carsten Höller fica aqui. E já fica aqui a minha primeira crítica sobre o segundo andar: se é para ser vazio, que seja realmente vazio. Da forma como está, virou "o andar do escorregador". No mais, embora eu admita que é algo relativamente impressionante estar naquele enorme andar vazio, qualquer visitante assíduo do Ibirapuera vê aquilo se olhar através das enormes janelas do pavilhão nas épocas em que ele está fechado e sem exposições. Ou seja, nenhuma novidade. Até cheguei a murmurar maravilhado sobre como seria legal andar de patins naquele chão perfeitamente liso. Ah, é... pra isso tem a marquise lá fora. Ou seja, nenhuma novidade MESMO.
Encontrei Marcela Tiboni no andar vazio. Vendo-a chegar à distância e reconhecendo-a através da minha miopia. Marcela organizou o corpo de monitores desta edição, chegando até a me mandar um e-mail convidando-me a participar. Vontades de largar a agência de publicidade e ir... Conversamos sobre o ocorrido no domingo de abertura, sobre os pixadores. Ela estava lá no embate entre eles e os seguranças e contou da violência de ambas as partes. Relatou ainda que depois daquilo, muita gente ia ao segundo andar só pra fazer rebeldia gratuita, se comportar mal e gritar aos quatro ventos que estava sendo agredido por seguranças d'O Sistema. Achei talvez a parte mais interessante e estimulante da minha visita ao segundo andar: ouvir em primeira mão o relato do outro lado da história. O de quem tem que lidar com os pixadores na prática, e não apenas fazer divagações teóricas sobre a validade artística dos atos deles. Marcela não queria saber da validade de porra nenhuma. Tinha sido agredida por gente que viera atrapalhar seu trabalho e não teria um pingo de simpatia por aqueles pixadores, artistas ou não. E isso tudo era mais real e dizia mais a ela do que qualquer arte.
O terceiro andar é, via de regra, o melhor da Bienal. Em quase todas as edições que fui. E embora eu não tenha visto tudo por estar começando a sentir os efeitos do cansaço (a impaciência, a dispersão...), gostei muito do que consegui ver. Logo de cara, passei quase uma hora no trabalho de minha ídola Sophie Calle. Assim como os vídeos, a montagem de Calle era uma mostra dentro da mostra. Centrando-se em um trabalho específico, La Filature (A Perseguição), com fotos e anotações penduradas em uma parede sobre a experiência que fez pedindo que sua mãe contratasse um detetive para segui-la, a montagem trazia também cadeiras às quais estavam amarrados exemplares de um livro documentando a experiência simbiótica entre Calle e o escritorPaul Auster. Ele criou uma personagem baseada nas pesquisas e performances de Calle sobre intimidade e identidade para um de seus livros, enquanto ela procurou viver as performances e situações que a personagem de Auster viveu. Nesse processo, diversos dos trabalhos anteriores de Calle foram descritos e documentados no livro, que serve quase como um catálogo da carreira da artista. Poderia escrever um post separado sobre Sophie Calle (talvez o faça algum dia...). Seu trabalho parece validar atitudes tidas como perversas como o voyeurismo, a obssessão e todas as atitudes de um bom stalker.
Logo ao lado, o aguardado trabalho de Marina Abramovic não tinha nada a ver com a fundação que ela criou depois de separar-se de Ulay, como eu tinha previsto. Era um trabalho antigo, uma coleção de auto-retratos em vídeo. Ela os chamava de retratos por serem closes de seu rosto em diversas situações. Fez-me lembrar dos meus retratos, que eram justamente isso: ilustrações de rostos que tomavam toda a tela. Deu vontade de fazer vídeos como os dela. Mas acho que falta-me a poesia. Abramovic também figurou em diversos vídeos da área de vídeos do primeiro andar. Vários deles com o ex-parceiro. Não tenho certeza, mas acho que tem um vídeo dela para cada semana da Bienal na última sessão da área do primeiro andar.
De saída, fiquei com vontade de escrever nas máquinas alteradas de Rivane Neuenschwander. O trabalho também era antigo e conhecido, das máquinas de escrever modificadas, mas a interação do público é sempre interessante. Às vezes acho-a mais interessante do que o próprio trabalho da artista, por ser uma amostra de criatividade anônima, pública, desconhecida. Mas não escrevi nas máquinas. Porque, conforme eu tinha escrito antes, o trabalho de Rivane precisa de seu próprio tempo e dedicação. É um trabalho sutil, delicado, para sentar, apreciar e pensar a respeito por alguns minutos. E colocado assim, no fim de uma longa exposição de várias horas, acaba vitimado pelo cansaço e impaciência do visitante que já saturou-se de arte e quer ir para casa.
Também não desci pelos escorregadores do Carsten Höller. O trabalho faz sucesso e a fila para acessá-lo é consideravelmente longa. Não tiro o mérito do trabalho: embora ele não convide a uma reflexão tão profunda quanto outros trabalhos, é divertido e mantem as crianças ocupadas. Mas quem sabe uma próxima vez...
domingo, novembro 02, 2008
Acho que já faz mais de seis meses que a banda se apresentou pela última vez, no Manifesto. O fato teve o gosto daquelas coincidências que só aconteciam na Itália: o Manifesto foi o mesmo lugar da nossa primeira apresentação, e pareceu o fim perfeito para tudo, o fechamento de um ciclo. A partir daí foi tudo ladeira abaixo até a fatídica conversa em Julho, em um Starbucks. Não vou falar de motivos, mas achei que precisava colocar uma nota disso aqui. Senti na época que não devia, mas hoje sinto que ficou esse vácuo, essa notícia não noticiada, porque muita gente ainda vem me perguntar sobre os próximos shows.
A banda acabou mesmo.
Cada um foi para o seu canto. Pessoalmente, eu voltei a ser artista plástico. Reabri o ateliê em Junho, um mês antes, e voltei a pintar com alguma disciplina que me faltava desde que saí da faculdade, e que estava dedicando à banda. Faz mais sentido: estudei para isso, me interesso por isso, já tenho conhecimento nessa área para me considerar mais que um leigo nisso. No rock, eu sempre serei um leigo. Um leigo com voz, mas um leigo.
And yet, houve uma época em que fazer arte com o afinco e maravilhamento de um leigo, para que até leigos entendessem, era parte da minha ideologia...
Por falar na voz, o lado positivo disso tudo é que já não penso mais na minha garganta. Me dei conta disso hoje: não consigo lembrar quando foi que deixei de pigarrear, tossir seco e viver com um incômodo na garganta. Cada ensaio tinha um prazer como arrancar casca de ferida: é delicioso, mas você sabe que faz mal e reabre um machucado. Mesmo assim, você não consegue parar de fazer. Comparação bizarra, né?
Quer outra coisa bizarra? Nas piores épocas desse meu relacionamento laríngico, eu tinha medo de calejar a garganta, perder a voz e ter que gastar uma fortuna com tratamentos para algo que surgiu de um hobby. Até aí, uma preocupação normal, iniciada pelos conselhos de outros cantores amadores. O bizarro era que havia uma outra preocupação dessas meio infundadas, ridículas, mas que ficava ecoando num recôndito abafado da mente: o câncer. A observação de casos de câncer na família me levou a ter uma crença supersticiosa de que a doença se desenvolve em órgãos usados abusivamente, constantemente maltratados. Câncer cerebral nos mais brilhantes, de laringe nos fumantes, de pâncreas nas doceiras. Mórbido, bizarro e ridículo ao mesmo tempo, eu sei...
Mas enfim, hoje tudo isso são medos do passado. Eu volto a me divertir nos karaokês quando possível e a cantar por prazer e não por obrigação auto-imposta.
Também sentirei muitas saudades daquela época.
Saudades do palco e daquele momento único, que pontilhava meus meses de lembranças e fazia o ano ser mais longo. Saudades de fazer arte de tempo e não de matéria. E saudade de ter aquele conjunto de amigos. Era muito bom e muito tenso ao mesmo tempo. Bom, porque eram amigos que se preocupavam, que se interessavam, que me queriam por perto, presente, enquanto outros nem sabem se eu voltei da Europa ainda. E isso é cada vez mais raro nesta cidade ocupada. Era bom ser parte de algo, não estar sozinho.
[Sabe quando você tem aquela noção de que um post tem alto potencial de causar respostas enfurecidas de gente que entendeu tudo errado?]
A banda acabou mesmo.
Cada um foi para o seu canto. Pessoalmente, eu voltei a ser artista plástico. Reabri o ateliê em Junho, um mês antes, e voltei a pintar com alguma disciplina que me faltava desde que saí da faculdade, e que estava dedicando à banda. Faz mais sentido: estudei para isso, me interesso por isso, já tenho conhecimento nessa área para me considerar mais que um leigo nisso. No rock, eu sempre serei um leigo. Um leigo com voz, mas um leigo.
And yet, houve uma época em que fazer arte com o afinco e maravilhamento de um leigo, para que até leigos entendessem, era parte da minha ideologia...
Por falar na voz, o lado positivo disso tudo é que já não penso mais na minha garganta. Me dei conta disso hoje: não consigo lembrar quando foi que deixei de pigarrear, tossir seco e viver com um incômodo na garganta. Cada ensaio tinha um prazer como arrancar casca de ferida: é delicioso, mas você sabe que faz mal e reabre um machucado. Mesmo assim, você não consegue parar de fazer. Comparação bizarra, né?
Quer outra coisa bizarra? Nas piores épocas desse meu relacionamento laríngico, eu tinha medo de calejar a garganta, perder a voz e ter que gastar uma fortuna com tratamentos para algo que surgiu de um hobby. Até aí, uma preocupação normal, iniciada pelos conselhos de outros cantores amadores. O bizarro era que havia uma outra preocupação dessas meio infundadas, ridículas, mas que ficava ecoando num recôndito abafado da mente: o câncer. A observação de casos de câncer na família me levou a ter uma crença supersticiosa de que a doença se desenvolve em órgãos usados abusivamente, constantemente maltratados. Câncer cerebral nos mais brilhantes, de laringe nos fumantes, de pâncreas nas doceiras. Mórbido, bizarro e ridículo ao mesmo tempo, eu sei...
Mas enfim, hoje tudo isso são medos do passado. Eu volto a me divertir nos karaokês quando possível e a cantar por prazer e não por obrigação auto-imposta.
Também sentirei muitas saudades daquela época.
Saudades do palco e daquele momento único, que pontilhava meus meses de lembranças e fazia o ano ser mais longo. Saudades de fazer arte de tempo e não de matéria. E saudade de ter aquele conjunto de amigos. Era muito bom e muito tenso ao mesmo tempo. Bom, porque eram amigos que se preocupavam, que se interessavam, que me queriam por perto, presente, enquanto outros nem sabem se eu voltei da Europa ainda. E isso é cada vez mais raro nesta cidade ocupada. Era bom ser parte de algo, não estar sozinho.
[Sabe quando você tem aquela noção de que um post tem alto potencial de causar respostas enfurecidas de gente que entendeu tudo errado?]
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