Às vezes conto a história de como a minha tela Lettin' the Cables Sleep surgiu a partir de um flash de imagens que repentinamente brotou na minha cabeça. Daquelas coisas de artista estereotipado que repentinamente tem uma inspiração, como se baixasse o santo. Era um flash com várias imagens sobrepostas, pedaços do quebra-cabeça que eu fui organizando na tela final.
Ontem, voltando para casa, tive outra dessas.
Desta vez, só uma pedaço. De novo, voltei para a imagem daquela mulher gigantesca flutuando no céu como uma deusa medonha. Na imagem em minha cabeça, vi apenas o rosto. Mas era um rosto enorme virado em direção à cidade lá embaixo. A proporção era tamanha que as distorções da imagem me lembravam a forma gigantesca de Ayanami nas cenas do fim de Evangelion. Apenas um olho visível no perfil do rosto, com uma pupila diminuta, daquele jeito meio doente que os desenhistas de mangá fazem. O sorriso no rosto recebia os reflexos coloridos da cidade lá embaixo. E tanto cabelo, mas tanto cabelo, que caía sobre a cidade ao fundo e tampava parte da visão do suposto observador. Era uma imagem de medo. Do medo do feminino.
Em algum lugar deveria haver um garotinho nú de pele acinzentada. Talvez o foco do olhar daquela mulher terrível. Mas não estava na imagem que me veio à cabeça. Imagino que isso venha racionalmente, da coerência que pretendo manter entre essas telas.
Hora de voltar a pintar.
Bits and pieces of my life that everyone ignores when I speak, but someone reads when I write.
segunda-feira, maio 18, 2009
quinta-feira, maio 14, 2009
SP Arte
Começou hoje no Pavilhão da Bienal a 5ª edição da SP Arte.
A feira, organizada pela colecionadora Fernanda Feitosa, acontece anualmente e reúne 80 das principais galerias do mundo para comercializar seus acervos.
Pessoalmente, acho que a Feira causa-me mais interesse do que a falida Bienal, por vários motivos. Primeiramente, porque acho que há algo de muito verdadeiro, embora também meio satírico, em uma feira de arte. Sou de uma turma na faculdade que discutia largamente sobre a comercialização da arte em tons pejorativos, como se trabalhar para vender sua obra de arte fosse um sacrilégio. Sim, era bem isso: atribuíamos às obras (mesmo àquelas banais) uma qualidade sacra que era profanada com algo tão mundano como a venda. E de repente vemos aqui uma feira inteira dedicada a esse comportamento herege. Havia toda aquela discussão que ainda acho pertinente sobre como um patrono ou mecenas pode vir a influenciar de forma negativa no processo criativo do artista. Mas daí para essa fobia comercial, acho que demos o passo errado. Talvez por isso mesmo que da minha turma tenham saído tão poucos que hoje de fato vivem da arte enquanto alunos de outras turmas, como o Rodolpho Parigi, assumiram a arte como produto e vendem quadros a preços tão exorbitantes. Acho que o tom satírico-sério da SP Arte é acentuado ainda mais pelo caráter vil que a palavra feira tem no nosso país: aquele ambiente sujo, mambembe, cheio de gente competindo no grito e tentando vender seu produto mais barato do que a barraquinha do lado.
Mas, quando descemos do pedestal de sacralidade e superamos o nojo que temos do termo, a Feira torna-se de fato um ambiente cheio de potencial. Imagine você, pessoa ativa no mundo das artes, tendo ao seu alcance e em um só lugar todas aquelas galerias. As possibilidades são vastas: contatos, compras, vendas, serviços, empregos... Há dias que venho tentando arranjar tempo para montar um pequeno material, algumas folhas apenas, para deixar nos estandes. A pergunta é se me apresento como potencial empregado ou como artista. Quiçá como ambos.
Pesquisando sobre o evento por aí, soube da presença de Tanya Barson, curadora do Tate Modern [1][2][3]. Vontade que tenho de entregar-lhe algum material em mãos e pedir que ela me arranje um emprego (QUALQUER emprego) no TATE quando eu for para Londres novamente...
A SP Arte acontece no Pavilhão da Bienal. Hoje e amanhã, vai das 14h às 22h. No sábado e domingo, das 12h às 20h. A entrada custa a módica (¬.¬') quantia de R$ 25.
FONTES: [1] [2] [3]
A feira, organizada pela colecionadora Fernanda Feitosa, acontece anualmente e reúne 80 das principais galerias do mundo para comercializar seus acervos.
Pessoalmente, acho que a Feira causa-me mais interesse do que a falida Bienal, por vários motivos. Primeiramente, porque acho que há algo de muito verdadeiro, embora também meio satírico, em uma feira de arte. Sou de uma turma na faculdade que discutia largamente sobre a comercialização da arte em tons pejorativos, como se trabalhar para vender sua obra de arte fosse um sacrilégio. Sim, era bem isso: atribuíamos às obras (mesmo àquelas banais) uma qualidade sacra que era profanada com algo tão mundano como a venda. E de repente vemos aqui uma feira inteira dedicada a esse comportamento herege. Havia toda aquela discussão que ainda acho pertinente sobre como um patrono ou mecenas pode vir a influenciar de forma negativa no processo criativo do artista. Mas daí para essa fobia comercial, acho que demos o passo errado. Talvez por isso mesmo que da minha turma tenham saído tão poucos que hoje de fato vivem da arte enquanto alunos de outras turmas, como o Rodolpho Parigi, assumiram a arte como produto e vendem quadros a preços tão exorbitantes. Acho que o tom satírico-sério da SP Arte é acentuado ainda mais pelo caráter vil que a palavra feira tem no nosso país: aquele ambiente sujo, mambembe, cheio de gente competindo no grito e tentando vender seu produto mais barato do que a barraquinha do lado.
Mas, quando descemos do pedestal de sacralidade e superamos o nojo que temos do termo, a Feira torna-se de fato um ambiente cheio de potencial. Imagine você, pessoa ativa no mundo das artes, tendo ao seu alcance e em um só lugar todas aquelas galerias. As possibilidades são vastas: contatos, compras, vendas, serviços, empregos... Há dias que venho tentando arranjar tempo para montar um pequeno material, algumas folhas apenas, para deixar nos estandes. A pergunta é se me apresento como potencial empregado ou como artista. Quiçá como ambos.
Pesquisando sobre o evento por aí, soube da presença de Tanya Barson, curadora do Tate Modern [1][2][3]. Vontade que tenho de entregar-lhe algum material em mãos e pedir que ela me arranje um emprego (QUALQUER emprego) no TATE quando eu for para Londres novamente...
A SP Arte acontece no Pavilhão da Bienal. Hoje e amanhã, vai das 14h às 22h. No sábado e domingo, das 12h às 20h. A entrada custa a módica (¬.¬') quantia de R$ 25.
FONTES: [1] [2] [3]
segunda-feira, maio 11, 2009
Projeto Tripé (SESC)
Vou começar a postar por aqui as oportunidades de artes plásticas das quais eu ficar sabendo.
PROJETO TRIPÉ DO SESC POMPÉIA
O projeto tripé estimula a produção contemporânea na área de artes visuais e apresenta obras de três artistas em cada uma de suas quatro edições previstas para cada ano, havendo uma temática para cada exposição.
O projeto, uma iniciativa do Núcleo de Artes Visuais e Multimeios do SESC Pompéia, reúne diferentes expressões artísticas, com as mostras trazendo discussões sobre os temas apresentados e promovendo encontros entre os artistas e estudiosos da área, acontecendo um bate-papo a cada exposição. O processo de seleção dos artistas participantes será de responsabilidade da equipe por meio de uma comissão de avaliação.
Para participar deverá mandar imagens da produção artística com currículo (CD ou impresso), aos cuidados de Julieta Machado e Natalia Nolli Sasso – Núcleo de Artes Visuais e Multimeios, na Rua Clélia, 93, cep 05042-000 Pompéia, São Paulo. Qualquer duvida pode ligar 3871.7738 / 3871.7793
Já fui ver duas das exposições desse projeto, uma delas com colegas minhas da faculdade de artes expondo: Thaís Albuquerque e Amanda Mei. O projeto é como todos esses projetos deveríam ser e não são: bem organizado, relevante, de fato promove artistas jovens em início de carreira. Detalhe raro hoje em dia é que esse projeto garante um pro-labore, um pagamento ao artista pela exposição, em vez de fazer como a grande maioria dos espaços que chegam com aquela conversa fiada de que você está ganhando visibilidade e não dão um centavo (alguém aí lembra do W.A.G.E.?). Fora isso há outras regalias: coquetel de abertura, equipe de montagem, dvulgação e catálogo no fim do ano com todos os artistas que participaram naquele ano.
A dica é de outra colega de profissão, Marcela Tiboni, que recomendou o projeto por experiência própria.
Artistas, participem!
PROJETO TRIPÉ DO SESC POMPÉIA
O projeto tripé estimula a produção contemporânea na área de artes visuais e apresenta obras de três artistas em cada uma de suas quatro edições previstas para cada ano, havendo uma temática para cada exposição.
O projeto, uma iniciativa do Núcleo de Artes Visuais e Multimeios do SESC Pompéia, reúne diferentes expressões artísticas, com as mostras trazendo discussões sobre os temas apresentados e promovendo encontros entre os artistas e estudiosos da área, acontecendo um bate-papo a cada exposição. O processo de seleção dos artistas participantes será de responsabilidade da equipe por meio de uma comissão de avaliação.
Para participar deverá mandar imagens da produção artística com currículo (CD ou impresso), aos cuidados de Julieta Machado e Natalia Nolli Sasso – Núcleo de Artes Visuais e Multimeios, na Rua Clélia, 93, cep 05042-000 Pompéia, São Paulo. Qualquer duvida pode ligar 3871.7738 / 3871.7793
Já fui ver duas das exposições desse projeto, uma delas com colegas minhas da faculdade de artes expondo: Thaís Albuquerque e Amanda Mei. O projeto é como todos esses projetos deveríam ser e não são: bem organizado, relevante, de fato promove artistas jovens em início de carreira. Detalhe raro hoje em dia é que esse projeto garante um pro-labore, um pagamento ao artista pela exposição, em vez de fazer como a grande maioria dos espaços que chegam com aquela conversa fiada de que você está ganhando visibilidade e não dão um centavo (alguém aí lembra do W.A.G.E.?). Fora isso há outras regalias: coquetel de abertura, equipe de montagem, dvulgação e catálogo no fim do ano com todos os artistas que participaram naquele ano.
A dica é de outra colega de profissão, Marcela Tiboni, que recomendou o projeto por experiência própria.
Artistas, participem!
domingo, maio 10, 2009
Welcome to your Quarterlife Crisis
Esta semana, uma amiga minha colocou no Twitter um link para uma matéria no site Eyeweekly sobre o que eles chamaram de Quarterlife Crisis. Traduzindo em miúdos, a "Crise de um Quarto de Vida". Geralmente referida por aqui como a dos Adolescentes de 25.
O começo do texto traça dois perfis, masculino e feminino, bem conhecidos por muita gente com a qual eu convivo. Pessoalmente, o que mais me chamou a atenção foi o segundo parágrafo:
Ele vai de bicicleta para seu trabalho em uma agência de publicidade, onde ele usa seu mestrado em Letras para revisar redação publicitária, e passa várias horas lendo blogs de música e assistindo traillers de filmes, Twitando atualizações periodicamente sobre seu dia de trabalho para seus 74 followers. Ele não odeia de fato seu trabalho, mas sente que sua pele está cheia de vermes rastejando nela durante a maior parte do tempo em que está lá, então ele planeja se mudar para a Tailândia, ou talvez escrever um livro. Ou fazer faculdade de direito.
Não é totalmente idêntico a mim, mas é quase uma versão minha em um universo alternativo. Não vou de bicicleta para o trabalho ainda, mas o plano estava na minha cabeça há muito tempo, só esperando eu resolver a questão de chegar no trabalho suado e fedido. Estou em vias de conseguir um mestrado em artes plásticas que não vai mudar em nada o meu cargo de assistente de arte que pega serviços secundários e menores nas agências enquanto gente menos capaz pega o interessante. Passo boa parte do dia lendo webcomics e Twitando atualizações para meus 53 followers (Putz, tenho até menos do que o cara do exemplo...). Não odeio meu trabalho (de fato, é uma das agências mais gostosas e tranquilas nas quais trabalhei...), mas sinto que tudo aquilo tem um quê de perda de tempo às vezes e que eu poderia estar ganhando mais e fazendo algo que me desse mais satisfação pessoal. Planejo passar um tempo em Londres, ou talvez fazer exposições. Só não penso em fazer MAIS UMA faculdade...
O texto continua tentando explicar o fenômeno. Diz que acontece entre gente no fim dos vinte, começo dos trinta; de classe média-alta; bem educada e informada. Algo como a Charlotte, personagem de Scarlet Johansson em Lost in Translation.
Eles não conseguem tomar nenhuma decisão porque não sabem o que querem, e não sabem o que querem porque não sabem quem são, e não sabem quem são porque têm a permissão e possibilidade de serem o que eles quiserem.
Ao contrário da crise de meia-idade, onde o indivíduo se pega percebendo como tinha muitos sonhos e nenhum deles foi realizado, a crise de quarto-de-vida que a antecede encontra o indivíduo se perguntando qual é o plano, quais são os sonhos. Conheço muita gente, muita mesmo, acometida de casos severos de depressão porque não encontra gosto em nada do que faz. Lembro vagamente de diversas coisas que escrevi por aqui, sobre como o problema não era não ter aptidão alguma, mas ter várias aptidões. Sentir que cada decisão era a negação de várias outras possibilidades que talvez fossem a escolha certa.
De forma geral, o coração da crise de quarto-de-vida está nas promessas que nos foram feitas e nunca chegaram a ser realizadas. Eu acreditava, como uma boa maioria de colegas do colégio, que se eu estudasse bastante e entrasse em uma boa faculdade, eu teria um emprego rentável garantido em uma carreira criativa e interessante. A minha parte do acordo foi cumprida, mas o retorno nunca veio. Já é óbvio que não há vagas suficientes para suprir a quantidade crescente de pessoas saíndo das faculdades procurando trabalhos "criativos e interessantes" (que eu chamo de Empregos que Todos Querem). Então só estudo e boas faculdades não garantem a vida como garantiam nas gerações anteriores. De fato, esses caminhos de vida significam cada vez menos para a minha geração. Hoje vejo que as pessoas que estão de fato nos Empregos que Todos Querem são pessoas que parecem ter nascido apenas para aquilo e nada mais. Não há outra opção e eles se dedicam inteira e unicamente àquilo. Os outros, com mais do que uma única aptidão, acabam frustrados pelo que escolheram em detrimento das outras possibilidades. E esse sentimento é pesadíssimo.
Pra sair um pouco de cima do texto da Eyeweekly, fala-se muito que a educação mudaria para melhor a situação do país. Mas eu acho que a crise de quarto-de-vida mostra o contrário: com mais acesso à educação, mais pessoas estudariam para conseguir Empregos que Todos Querem, e teríamos mais pessoas concorrendo para vagas mais escassas. Claro que não posso advogar aqui que melhorar a educação no país seja uma coisa ruim (heresia!), mas tem suas consequências.
Voltando ao texto, um dos últimos parágrafos me surpreendeu fazendo uma interpretação pejorativa das mídias sociais como o Orkut e o Facebook:
Todo tipo de conhecidos meio esquecidos e amizades abandonadas reaparecem nesta planilha de razões potenciais para se sentir péssimo sobre você mesmo. Se você é tão mesquinho quanto eu, você passa boa parte do seu tempo no Facebook medindo seus próprios sentimentos de inadequação em relação direta com o sucesso dos outros. Todas essas pessoas para as quais você não dava a mínima alguns anos atrás são agora exemplos onipresentes e referências para medir todas a oportunidades que você tem ou não na vida.
Cogito saír do Orkut... Na verdade, o mais correto seria ouvir a Lexy e parar de me comparar aos outros. Se você souber como fazer isso, por favor me conte.
O começo do texto traça dois perfis, masculino e feminino, bem conhecidos por muita gente com a qual eu convivo. Pessoalmente, o que mais me chamou a atenção foi o segundo parágrafo:
Ele vai de bicicleta para seu trabalho em uma agência de publicidade, onde ele usa seu mestrado em Letras para revisar redação publicitária, e passa várias horas lendo blogs de música e assistindo traillers de filmes, Twitando atualizações periodicamente sobre seu dia de trabalho para seus 74 followers. Ele não odeia de fato seu trabalho, mas sente que sua pele está cheia de vermes rastejando nela durante a maior parte do tempo em que está lá, então ele planeja se mudar para a Tailândia, ou talvez escrever um livro. Ou fazer faculdade de direito.
Não é totalmente idêntico a mim, mas é quase uma versão minha em um universo alternativo. Não vou de bicicleta para o trabalho ainda, mas o plano estava na minha cabeça há muito tempo, só esperando eu resolver a questão de chegar no trabalho suado e fedido. Estou em vias de conseguir um mestrado em artes plásticas que não vai mudar em nada o meu cargo de assistente de arte que pega serviços secundários e menores nas agências enquanto gente menos capaz pega o interessante. Passo boa parte do dia lendo webcomics e Twitando atualizações para meus 53 followers (Putz, tenho até menos do que o cara do exemplo...). Não odeio meu trabalho (de fato, é uma das agências mais gostosas e tranquilas nas quais trabalhei...), mas sinto que tudo aquilo tem um quê de perda de tempo às vezes e que eu poderia estar ganhando mais e fazendo algo que me desse mais satisfação pessoal. Planejo passar um tempo em Londres, ou talvez fazer exposições. Só não penso em fazer MAIS UMA faculdade...
O texto continua tentando explicar o fenômeno. Diz que acontece entre gente no fim dos vinte, começo dos trinta; de classe média-alta; bem educada e informada. Algo como a Charlotte, personagem de Scarlet Johansson em Lost in Translation.
Eles não conseguem tomar nenhuma decisão porque não sabem o que querem, e não sabem o que querem porque não sabem quem são, e não sabem quem são porque têm a permissão e possibilidade de serem o que eles quiserem.
Ao contrário da crise de meia-idade, onde o indivíduo se pega percebendo como tinha muitos sonhos e nenhum deles foi realizado, a crise de quarto-de-vida que a antecede encontra o indivíduo se perguntando qual é o plano, quais são os sonhos. Conheço muita gente, muita mesmo, acometida de casos severos de depressão porque não encontra gosto em nada do que faz. Lembro vagamente de diversas coisas que escrevi por aqui, sobre como o problema não era não ter aptidão alguma, mas ter várias aptidões. Sentir que cada decisão era a negação de várias outras possibilidades que talvez fossem a escolha certa.
De forma geral, o coração da crise de quarto-de-vida está nas promessas que nos foram feitas e nunca chegaram a ser realizadas. Eu acreditava, como uma boa maioria de colegas do colégio, que se eu estudasse bastante e entrasse em uma boa faculdade, eu teria um emprego rentável garantido em uma carreira criativa e interessante. A minha parte do acordo foi cumprida, mas o retorno nunca veio. Já é óbvio que não há vagas suficientes para suprir a quantidade crescente de pessoas saíndo das faculdades procurando trabalhos "criativos e interessantes" (que eu chamo de Empregos que Todos Querem). Então só estudo e boas faculdades não garantem a vida como garantiam nas gerações anteriores. De fato, esses caminhos de vida significam cada vez menos para a minha geração. Hoje vejo que as pessoas que estão de fato nos Empregos que Todos Querem são pessoas que parecem ter nascido apenas para aquilo e nada mais. Não há outra opção e eles se dedicam inteira e unicamente àquilo. Os outros, com mais do que uma única aptidão, acabam frustrados pelo que escolheram em detrimento das outras possibilidades. E esse sentimento é pesadíssimo.
Pra sair um pouco de cima do texto da Eyeweekly, fala-se muito que a educação mudaria para melhor a situação do país. Mas eu acho que a crise de quarto-de-vida mostra o contrário: com mais acesso à educação, mais pessoas estudariam para conseguir Empregos que Todos Querem, e teríamos mais pessoas concorrendo para vagas mais escassas. Claro que não posso advogar aqui que melhorar a educação no país seja uma coisa ruim (heresia!), mas tem suas consequências.
Voltando ao texto, um dos últimos parágrafos me surpreendeu fazendo uma interpretação pejorativa das mídias sociais como o Orkut e o Facebook:
Todo tipo de conhecidos meio esquecidos e amizades abandonadas reaparecem nesta planilha de razões potenciais para se sentir péssimo sobre você mesmo. Se você é tão mesquinho quanto eu, você passa boa parte do seu tempo no Facebook medindo seus próprios sentimentos de inadequação em relação direta com o sucesso dos outros. Todas essas pessoas para as quais você não dava a mínima alguns anos atrás são agora exemplos onipresentes e referências para medir todas a oportunidades que você tem ou não na vida.
Cogito saír do Orkut... Na verdade, o mais correto seria ouvir a Lexy e parar de me comparar aos outros. Se você souber como fazer isso, por favor me conte.
sábado, maio 02, 2009
O Homem da Tarja Preta
Neste feriado da sexta-feira, dia do Trabalho onde ninguém trabalha, levei Lexy para assistir comigo ao Homem da Tarja Preta, monólogo escrito pelo colunista Contardo Calligaris (que já figurou neste blog alguns posts atrás, fazendo uma ligação interessante entre a crise masculina e os atiradores em escolas) e encenado pelo ator baiano Ricardo Bittencourt no teatro Eva Hertz (no Conjunto Nacional da Paulista). A peça é curta: cerca de uma hora. A primeira parte da peça, um desbocado revelar da vida íntima de um homem de negócios cross dresser, podia ter sido um pouco menor. Mas o texto compensa logo em seguida, abordando com relevância algumas daquelas questões complicadas dos homens atuais. Admito que esperava ver ainda mais desses assuntos encenados no palco, mas só o fato da peça ser inteira dedicada a esse questionamento já é um avanço para os homens.
O personagem passa seus primeiros minutos despindo-se da roupa de homem de negócios (a real travestia) e vestindo-se de mulher para entrar no chat e se oferecer aos outros homens. Revela que nunca nada acontece de fato e que a graça não está no acontecer, mas no simples ato de oferecer-se. Daí parte para uma conversa honesta e desbocada sobre o que é ser homem numa época onde não há mais referências confiáveis do que é ser homem, do que é certo no sexo, do que o excita.
Ele aborda outros pontos dos que já mencionei por aqui além da falta de referências masculinas. A imposição feita ao homem de ser alguém na vida enquanto a mulher, mesmo após o Feminismo, ainda pode casar-se com um homem rico e considerar-se realizada (perceba que a situação oposta torna o homem "menos homem"). O medo do homem da possível tendência homossexual e como isso o enfraquece. A tênue linha que ele imagina existir que separa o homo do hetero ("Beijar outro homem, tudo bem, é divertido. Mas dar eu não dou, porque é coisa de bicha"). As múltiplas variações, graus e hierarquias de homossexualidade criadas por ele para "manter alguma dignidade" mesmo dentro de suas perversões ("Posso ser cross dresser, mas não sou viado"). O declínio do arquétipo de macho provedor em uma época onde as mulheres se sustentam. Uma geração inteira de homens que não sabem mais brigar, apáticos, passivos, domesticados.
A questão das hierarquias me pareceu particularmente interessante na peça. Ele fazia de tudo para justificar que, apesar de seu "desvio", ele ainda era macho. E em dado momento, a quantidade de referências a variações de homossexualidade era tamanha que me levou a perguntar: será tudo isso de fato necessário? Por que é que uma mulher é hetero ou lésbica enquanto um homem é heterossexual, homossexual, metrossexual, überssexual, travesti, cross dresser, drag e outras tantas variações? Aliás, porque é que uma mulher usa roupas masculinas sem perder a feminilidade e os homens rotulam, dissecam, questionam, rebaixam?
Pensando nisso, me veio à cabeça a animação simples porém relevante do Rodrigo Burdman chamada Homo Erectus. Acho difícil não rir dela. E no entanto ela ao mesmo tempo se aproveita dessa mania masculina de rotular para neutralizar aquilo de que tem medo, enquanto joga na cara o maior medo masculino e termina com sabedoria. Assista!
Mas aqui eu já estou fazendo resenha dentro de resenha e a coisa tá ficando meio complicada...
A peça está em cartaz no teatro Eva Hertz (na Livraria Cultura do Conjunto Nacional - av. Paulista, 2.073, tel. 0/xx/11/3170-4059), quintas e sextas às 21hrs, até 19/6. Custa R$20 e sugiro comprar com bastante antecedência, porque lota mesmo!
segunda-feira, abril 27, 2009
Vik Muniz no MASP
Começou na sexta passada a exposição do Vik Muniz no MASP.
Vik Muniz começou a ser notícia quando eu estava começando o curso de arte da faculdade. Eu tinha passado da fase imatura de gostar de Dalí e Caravaggio pra procurar referências que não fossem tão óbvias e ele foi um dos meus primeiros ídolos daquela época, antes que eu tomasse conhecimento da existência do Gerhard Richter. Meu interesse por Muniz baseava-se na esperança: em uma época onde eu via tanta arte abstrata, conceitual e que menosprezava as técnicas antigas e a ilustração que eu tanto adorava, ele estava fazendo muito sucesso e enriquecendo rápida e assustadoramente fazendo um tipo de arte que me parecia nadar contra a corrente. Ele ilustrava enquanto todos os professores da faculdade estavam tentando fazer-nos desistir da ilustração pura e simples.
De forma resumida, Muniz não faz nada muito diferente do que nós ou qualquer entusiasta de desenho faz para exercitar sua habilidade. Ele arranja fotos, muitas vezes bem famosas, e apenas as reproduz, sem alterar nada. O que faz seus exercícios valerem muito no mercado é o material que ele usa.
A primeira obra de Vik Muniz que me chamou a atenção foi sua recriação da Medusa do Caravaggio usando macarrão e molho de tomate. Como eu disse, eu estava saindo da fase de idolatrar o Caravaggio. Foi da mesma época a ilustração da foto do Freud feita com calda de chocolate, que lhe rendeu o convite para fazer a capa do CD dos Tribalistas. No caso do retrato de Freud, ainda acho que há uma ligação mais forte entre a imagem e a matéria, com todo aquele negócio de grandes quantidades de chocolate terem o mesmo efeito bioquímico do sexo, tema muito explorado pelo psicanalista austríaco.
Os trabalhos subseqüentes exploraram melhor esse tipo de ligação e procuraram se distanciar das imagens kitsch. Muniz já fez retratos de crianças que trabalhavam em plantações de cana com açúcar e retratos de catadores de lixo com (dããã...) lixo, só pra citar alguns exemplos.
Outros trabalhos foram menos felizes. Ele desenhou nuvens no céu com a ajuda de aviões de publicidade (desses que escrevem com fumaça) e ossos na terra com a ajuda de tratores. Explorava mais a relação entre um signo e o objeto que ele significa (daí a brincadeira de desenhos de nuvens feitos com nuvens). Embora estes trabalhos tivessem mais a ver com as discussões atuais do pós-modernismo, Muniz já havia caído no gosto popular e enriquecido com seus retratos mais simples de serem compreendidos pelo público leigo e rapidamente voltou a fazer coisas naquele âmbito.
Recentemente andei lendo o Postmodernism de Eleanor Heartney que comprei durante o carnaval passado na Argentina. O começo do livro faz uma ligação entre o pós-moderno e uma vertente da semiótica chamada pós-estruturalismo. Se antes considerava-se que a linguagem se referia a uma verdade incontestável que estava "lá fora", no mundo real; essa idéia mudou com o estruturalismo, onde a linguagem era um conjunto de significantes (palavras) que tinham seus significados (conceitos) variados e mutáveis, mas que ainda de certa forma faziam referência a um mundo real. O pós-estruturalismo dispensa o real e fica apenas com a multiplicidade de sentidos possíveis da relação entre as palavras. Ele abre caminho para sentidos completamente surreais, para frases com entre-linhas que dizem o oposto.
Heartney usa este conceito da negação da realidade para falar de uma arte que pertence a uma época onde a compreensão do mundo se dá através de imagens mediadas (TV, mídia impressa, internet) e não pelo contato direto. E que muitas vezes, a ausência desse mundo real não é sequer sentida.
O livro também fala do pós-moderno como uma negação ou reação a alguns aspectos do modernismo (entre eles, a necessidade da abstração), ou mesmo um retorno a um estado anterior a ele.
Por meio desses conceitos dá pra entender como os retratos do Vik Muniz são atuais: brincam com a relação de significantes na escolha do material (Freud - chocolate); negam a abstração a favor de uma técnica bem mais antiga e, pelo menos nos primeiros retratos, usam imagens mediadas como referência em vez do contato direto.
[EDIT]
Não tinha me dado conta na primeira vez que vi, mas tem um comercial da Nextel com o Vik Muniz passando há algum tempo. Bacana. [/EDIT]
A exposição no MASP fica aberta de terça a domingo, das 11h às 18h (quintas até as 20h) e vai até o dia 12 de Julho. O preço é de R$15,00 (terça é de graça!!). Mais informações pelo telefone (011) 3251-5644.
Vik Muniz começou a ser notícia quando eu estava começando o curso de arte da faculdade. Eu tinha passado da fase imatura de gostar de Dalí e Caravaggio pra procurar referências que não fossem tão óbvias e ele foi um dos meus primeiros ídolos daquela época, antes que eu tomasse conhecimento da existência do Gerhard Richter. Meu interesse por Muniz baseava-se na esperança: em uma época onde eu via tanta arte abstrata, conceitual e que menosprezava as técnicas antigas e a ilustração que eu tanto adorava, ele estava fazendo muito sucesso e enriquecendo rápida e assustadoramente fazendo um tipo de arte que me parecia nadar contra a corrente. Ele ilustrava enquanto todos os professores da faculdade estavam tentando fazer-nos desistir da ilustração pura e simples.
De forma resumida, Muniz não faz nada muito diferente do que nós ou qualquer entusiasta de desenho faz para exercitar sua habilidade. Ele arranja fotos, muitas vezes bem famosas, e apenas as reproduz, sem alterar nada. O que faz seus exercícios valerem muito no mercado é o material que ele usa.
A primeira obra de Vik Muniz que me chamou a atenção foi sua recriação da Medusa do Caravaggio usando macarrão e molho de tomate. Como eu disse, eu estava saindo da fase de idolatrar o Caravaggio. Foi da mesma época a ilustração da foto do Freud feita com calda de chocolate, que lhe rendeu o convite para fazer a capa do CD dos Tribalistas. No caso do retrato de Freud, ainda acho que há uma ligação mais forte entre a imagem e a matéria, com todo aquele negócio de grandes quantidades de chocolate terem o mesmo efeito bioquímico do sexo, tema muito explorado pelo psicanalista austríaco.
Os trabalhos subseqüentes exploraram melhor esse tipo de ligação e procuraram se distanciar das imagens kitsch. Muniz já fez retratos de crianças que trabalhavam em plantações de cana com açúcar e retratos de catadores de lixo com (dããã...) lixo, só pra citar alguns exemplos.
Outros trabalhos foram menos felizes. Ele desenhou nuvens no céu com a ajuda de aviões de publicidade (desses que escrevem com fumaça) e ossos na terra com a ajuda de tratores. Explorava mais a relação entre um signo e o objeto que ele significa (daí a brincadeira de desenhos de nuvens feitos com nuvens). Embora estes trabalhos tivessem mais a ver com as discussões atuais do pós-modernismo, Muniz já havia caído no gosto popular e enriquecido com seus retratos mais simples de serem compreendidos pelo público leigo e rapidamente voltou a fazer coisas naquele âmbito.
Recentemente andei lendo o Postmodernism de Eleanor Heartney que comprei durante o carnaval passado na Argentina. O começo do livro faz uma ligação entre o pós-moderno e uma vertente da semiótica chamada pós-estruturalismo. Se antes considerava-se que a linguagem se referia a uma verdade incontestável que estava "lá fora", no mundo real; essa idéia mudou com o estruturalismo, onde a linguagem era um conjunto de significantes (palavras) que tinham seus significados (conceitos) variados e mutáveis, mas que ainda de certa forma faziam referência a um mundo real. O pós-estruturalismo dispensa o real e fica apenas com a multiplicidade de sentidos possíveis da relação entre as palavras. Ele abre caminho para sentidos completamente surreais, para frases com entre-linhas que dizem o oposto.
Heartney usa este conceito da negação da realidade para falar de uma arte que pertence a uma época onde a compreensão do mundo se dá através de imagens mediadas (TV, mídia impressa, internet) e não pelo contato direto. E que muitas vezes, a ausência desse mundo real não é sequer sentida.
O livro também fala do pós-moderno como uma negação ou reação a alguns aspectos do modernismo (entre eles, a necessidade da abstração), ou mesmo um retorno a um estado anterior a ele.
Por meio desses conceitos dá pra entender como os retratos do Vik Muniz são atuais: brincam com a relação de significantes na escolha do material (Freud - chocolate); negam a abstração a favor de uma técnica bem mais antiga e, pelo menos nos primeiros retratos, usam imagens mediadas como referência em vez do contato direto.
[EDIT]
Não tinha me dado conta na primeira vez que vi, mas tem um comercial da Nextel com o Vik Muniz passando há algum tempo. Bacana. [/EDIT]
A exposição no MASP fica aberta de terça a domingo, das 11h às 18h (quintas até as 20h) e vai até o dia 12 de Julho. O preço é de R$15,00 (terça é de graça!!). Mais informações pelo telefone (011) 3251-5644.
quinta-feira, abril 23, 2009
Papo de Artista
Há algum tempo que estou tentando transformar este blog em alguma coisa especializada em arte. Não é coisa fácil para quem já não tem mais tanto tempo de escrever (ainda por cima com o servidor da agência bloqueando o acesso ao Blogspot). Esses dias encontrei uma inspiração (ou motivo de inveja, sei lá...). É o Papo de Artista, um blog que comenta e dá dicas sobre as principais exposições que estão acontecendo e outras coisas interessantes sobre o mundinho das artes plásticas. Será que se eu me dedicar mais eu chego em um nível parecido? Será que isso espantaria os meus poucos leitores sobreviventes? Veremos...
segunda-feira, março 30, 2009
Axe
Socorram-me: estou virando idealista panfletário...
Quando vi o novo comercial do Axe recentemente, percebi o quanto este e todos os outros da linha principal deles denegriam a imagem masculina. Quer dizer, trata-se da premissa publicitária básica: use nosso produto e seja sobrenaturalmente vitorioso. Essa vitória, nesse caso, traduz-se em um número absurdo de mulheres se objetificando aos pés do consumidor homem.
Que o Axe não faça muito sucesso no consciente feminino, isso já é claro: um produto que promove a objetificação de mulheres que entram em transe diante de um homem perfumado com fragrâncias baratas deveria no mínimo chamar a atenção raivosa de algumas feministas.
Mas eu chamo a atenção para como o produto retrata os homens. Seres tão fracos e insignificantes, que precisam de um produto químico para lobotomizar mulheres. Mas principalmente seres que, mais do que procurar seu próprio aperfeiçoamento, só procuram uma coisa: sexo, sexo, sexo. Com o maior número de mulheres e com o menor nível de comprometimento possível, como se eles dessem conta de tudo isso. Porque afinal, homem só pensa nisso, néam? Pessoalmente, eu gosto de sexo descompromissado, mas daí pra promover isso como a razão da existência, já é meio humilhante e vazio demais.
Quando vi o novo comercial do Axe recentemente, percebi o quanto este e todos os outros da linha principal deles denegriam a imagem masculina. Quer dizer, trata-se da premissa publicitária básica: use nosso produto e seja sobrenaturalmente vitorioso. Essa vitória, nesse caso, traduz-se em um número absurdo de mulheres se objetificando aos pés do consumidor homem.
Que o Axe não faça muito sucesso no consciente feminino, isso já é claro: um produto que promove a objetificação de mulheres que entram em transe diante de um homem perfumado com fragrâncias baratas deveria no mínimo chamar a atenção raivosa de algumas feministas.
Mas eu chamo a atenção para como o produto retrata os homens. Seres tão fracos e insignificantes, que precisam de um produto químico para lobotomizar mulheres. Mas principalmente seres que, mais do que procurar seu próprio aperfeiçoamento, só procuram uma coisa: sexo, sexo, sexo. Com o maior número de mulheres e com o menor nível de comprometimento possível, como se eles dessem conta de tudo isso. Porque afinal, homem só pensa nisso, néam? Pessoalmente, eu gosto de sexo descompromissado, mas daí pra promover isso como a razão da existência, já é meio humilhante e vazio demais.
sexta-feira, março 27, 2009
The Path
E depois que a Electronic Arts lançou o jogo Alice em 2000, baseado obviamente na famosa personagem, agora chegou a vez da Chapeuzinho Vermelho invadir o mundo dos games. O game The Path compartilha o visual macabro do Alice, e aquela deliciosa sensação de perverter uma parte da infância quando chega a adolescência. Ele parte da premissa da história antiga da Chapeuzinho e modifica algumas coisas para agregar detalhes interessantes. A diferença da história que conhecemos? Chapeuzinho é dividida em seis personagens, mulheres em diferentes idades, da garotinha de nove anos da história original a uma mulher de vinte ciente da sua sexualidade. Cada uma destas irmãs tem um nome que remete ao vermelho (Robin - passaro com manchas vermelhas na penugem, Ginger - gíria para ruiva, Rose - a rosa, Ruby - a jóia rubi, Scarlet - inglês para carmin, Carmen - relativo à cor carmin). As irmãs conseguem chegar à casa da avó mais rápido se cruzarem pela floresta em vez de continuar no caminho. E a floresta está cheia coisas que despertam a curiosidade de jovens garotas. Mas nela encontra-se o lobo. O lobo é de fato um lobisomem, ou mais precisamente um homem selvagem. E homens selvagens fazem coisas ruins a jovens garotas.
Um jogo sobre o feminino, sobre crescer e sobre sexualidade. Todo feito com o visual e a música que lembra Johnny Hollow. Delícia!
Explorem o site porque vale a pena e vejam também este outro site com páginas específicas das personagens e outras coisinhas escondidas.
Um jogo sobre o feminino, sobre crescer e sobre sexualidade. Todo feito com o visual e a música que lembra Johnny Hollow. Delícia!
Explorem o site porque vale a pena e vejam também este outro site com páginas específicas das personagens e outras coisinhas escondidas.
Ótima dica da Nana, que estou colocando em um post para ficar mais evidente. Trata-se de um texto do Contardo Calligaris que une de forma inesperada os meus comentários sobre o Masculismo e outro assunto favorito meu: os atiradores adolescentes nas escolas americanas (e européias, de acordo com ele). O texto foi originalmente publicado na Folha, mas dá pra ler ele aqui.
quinta-feira, março 26, 2009
Jolly good!
Dizer que é aqui que tudo começou seria besteira.
Há pouco mais de um ano, já desiludido e insatisfeito com a minha vida na época (que não mudou muito até hoje...), fiquei sabendo de uma feira de intercâmbio perto da agência. Apareci por lá e não vi nada tão interessante. Essas feiras normalmente são voltadas para pessoas em áreas mais corporativas, estudantes de administração, coisas assim. Peguei alguns folhetos de faculdade com cursos de arte e me dirigi à saída, pronto para esquecer de tudo. Na porta, uma barraquinha distribuía folhetos do consulado britânico.
Acelerando a história: seis meses depois eu estava assistindo palestras sobre a Academy of the Arts em Londres, uma faculdade de arte que formou, entre outro, Anish Kapoor e Lucian Freud, dois dos meus ídolos. A gama de cursos possíveis era imensa: de cursos de idiomas, passando por intercâmbios de graduação, cursos de extensão e até mestrados. Graduações, eu já tenho duas. Restava-me a pós.
O raciocínio era relativamente simples: se a publicidade não me deu satisfação profissional nem dinheiro, eu ia voltar ao âmbito das artes. Se eu ia ganhar pouco nos dois, eu preferia ser um artista a um assistente de arte medíocre. Pelo menos a satisfação pessoal eu garantiria. Mas a única forma de fazer isso e se dar relativamente bem seria voltar a ter as chances e o momento que eu desperdicei na faculdade. A pós-graduação apareceu então como uma oportunidade de voltar ao ambiente acadêmico e fazer novos e melhores contatos, mas desta vez com a cabeça mais madura para aproveitá-los. O fim do raciocínio era simples: por que fazer isso neste país que eu desdenho, quando eu tenho o inglês, o passaporte e agora a chance de fazê-lo na Londres que eu amei?
A questão era: será que o meu trabalho tinha densidade para um mestrado? Foi um pouco por causa disso que eu comecei a realmente desenvolver e estudar as questões do Masculismo. O trabalho precisava de algum estofo teórico. Do contrário seria como a maioria dos trabalhos que estão à venda nas galerias de hoje: possívelmente belos, mas completamente vazios. Nada que entre para a história da arte, nada que mude alguma coisa.
E tome seis meses de correr atrás de documentos, estudar o Masculismo, elaborar um projeto, montar portfólio. Até tirei férias da agência: precisava de dedicação total.
Como tudo na vida de paulista, às duas da manhã de hoje eu estava terminando a montagem de portfólio. Tudo sempre deixado para o último momento por causa de outras coisas mais urgentes. A idéia era varar a noite se fossse preciso. Mas pelo menos um pouco de disciplina eu tenho, e consegui terminar ainda com algumas horas de sono tranquilo.
13:45 de hoje. O entrevistador chega atrasado (e ele é que é britânico...). E ao final de meia hora estranhamente calma para mim, trocando citações de artistas interessantes e da situação masculina atual, ele me dá um "high-five" como elogio, dizendo que foi uma das entrevistas mais interessantes que ele fez até agora. E isso que ele já esteve em duas outras cidades.
É uma sensação maravilhosa: você sente que daqui em diante pode fazer tudo, que o sucesso é garantido e você é invencível. Sabe quando você realmente percebe que aquele é o seu meio, o assunto que você domina? Não é convencional ou uma saída fácil como ser empresário, mas é meu e eu fui feito para isso. Certamente mais do que para a publicidade.
Até o dia 15, deverei ter uma versão digital do meu portfolio para mandar para Londres com o entrevistador. Mas por hoje chega. Estou terminando esta corrida de mais de seis meses e hoje só quero gozar deste momento de triunfo...
========================
If I were to write here that this is where it all began, I'd be lying.
A little over a year ago, already unsatisfied with the way my life had turned out (and it hasn't actually changed since...), I got word of an exchange program fair happening close to the agency. My visit brought nothing of interest. These fairs are usually devoted to business students and such. I took a few flyers of art courses and headed for the exit, ready to forget it all. At the door, a stand gave out flyers for the British Council.
Fast-forward: six months later I was watching lectures on the Academy of the Arts London, which counted amidst it's graduates personal idols of mine like Anish Kapoor and Lucian Freud. The range of courses was huge: from language courses to exchange programs in graduation, extension courses and even master's degrees. I have two graduate degrees already, so a post-grad course would be the thing for me.
The logic was fairly simple: if advertising never gave me professional satisfaction nor money, I was going back to the arts. If I was going to be paid very little on both, I would rather be an artist than a half-assed art assistant. At least I'd get some personal satisfaction. But the only way to make a new career in arts would be if I went back to the chances and momentum I had in college. The master's degree seemed like the best oportunity to go back to the academy and make new and better contacts, only this time with the maturity to acknowledge and use them. The closing statement in that logic was obvious: why do all that in this god forsaken country when I had the English, the passport and now the chance to do it in my beloved London?
The question was: was my work dense enough for a master's? That was one of the reasons why I started to actually develop and study the matters of Masculism. My work needed some theory to back it up. Otherwise it would be like most of the works for sale in the galleries today: possibly beautiful, but completely empty. Nothing that would make it into the history books, nothing that would change anything.
Then came six months of chasing documents, estudying Masculism, drafting a project, building a portfolio. I even went on vacations at the agency: I needed my full attention on this.
Like everything in the life of the denizens of this city, this project was running late. And at 2a.m. this morning I was still giving my portfolio it's final touches. Everything here is always postponed due to other urgencies. I would stay up all night if I had to. Luckily, my discipline allowed me to finish on time and get a few hours of untroubled sleep.
13:45 today. The interviewer arrives late (and he's the British here...). And at the end of half-an-hour of strangely calm chatter, jousting quotations of interesting artists and the general male situation today, he high-fives me as a compliment, saying it was one of the most interesting interviews he had so far. And he had already been to two other cities.
It's a wonderful feeling: you feel you can do anything from then on, success is guaranteed and you are invincible. Have you ever felt that this was your medium, the subject you know like the palm of your hand? It isn't a conventional and easy answer to a life, like being a businessman on a big company, but it's mine and I was made for this. At least certainly more than I was made for advertising.
I need to have a digitl version of my portfolio done by April 15th to send to London with the interviewer. But enough excitement for today. This is the end of a long six months and today I just want to bask in the glow of this moment.
Há pouco mais de um ano, já desiludido e insatisfeito com a minha vida na época (que não mudou muito até hoje...), fiquei sabendo de uma feira de intercâmbio perto da agência. Apareci por lá e não vi nada tão interessante. Essas feiras normalmente são voltadas para pessoas em áreas mais corporativas, estudantes de administração, coisas assim. Peguei alguns folhetos de faculdade com cursos de arte e me dirigi à saída, pronto para esquecer de tudo. Na porta, uma barraquinha distribuía folhetos do consulado britânico.
Acelerando a história: seis meses depois eu estava assistindo palestras sobre a Academy of the Arts em Londres, uma faculdade de arte que formou, entre outro, Anish Kapoor e Lucian Freud, dois dos meus ídolos. A gama de cursos possíveis era imensa: de cursos de idiomas, passando por intercâmbios de graduação, cursos de extensão e até mestrados. Graduações, eu já tenho duas. Restava-me a pós.
O raciocínio era relativamente simples: se a publicidade não me deu satisfação profissional nem dinheiro, eu ia voltar ao âmbito das artes. Se eu ia ganhar pouco nos dois, eu preferia ser um artista a um assistente de arte medíocre. Pelo menos a satisfação pessoal eu garantiria. Mas a única forma de fazer isso e se dar relativamente bem seria voltar a ter as chances e o momento que eu desperdicei na faculdade. A pós-graduação apareceu então como uma oportunidade de voltar ao ambiente acadêmico e fazer novos e melhores contatos, mas desta vez com a cabeça mais madura para aproveitá-los. O fim do raciocínio era simples: por que fazer isso neste país que eu desdenho, quando eu tenho o inglês, o passaporte e agora a chance de fazê-lo na Londres que eu amei?
A questão era: será que o meu trabalho tinha densidade para um mestrado? Foi um pouco por causa disso que eu comecei a realmente desenvolver e estudar as questões do Masculismo. O trabalho precisava de algum estofo teórico. Do contrário seria como a maioria dos trabalhos que estão à venda nas galerias de hoje: possívelmente belos, mas completamente vazios. Nada que entre para a história da arte, nada que mude alguma coisa.
E tome seis meses de correr atrás de documentos, estudar o Masculismo, elaborar um projeto, montar portfólio. Até tirei férias da agência: precisava de dedicação total.
Como tudo na vida de paulista, às duas da manhã de hoje eu estava terminando a montagem de portfólio. Tudo sempre deixado para o último momento por causa de outras coisas mais urgentes. A idéia era varar a noite se fossse preciso. Mas pelo menos um pouco de disciplina eu tenho, e consegui terminar ainda com algumas horas de sono tranquilo.
13:45 de hoje. O entrevistador chega atrasado (e ele é que é britânico...). E ao final de meia hora estranhamente calma para mim, trocando citações de artistas interessantes e da situação masculina atual, ele me dá um "high-five" como elogio, dizendo que foi uma das entrevistas mais interessantes que ele fez até agora. E isso que ele já esteve em duas outras cidades.
É uma sensação maravilhosa: você sente que daqui em diante pode fazer tudo, que o sucesso é garantido e você é invencível. Sabe quando você realmente percebe que aquele é o seu meio, o assunto que você domina? Não é convencional ou uma saída fácil como ser empresário, mas é meu e eu fui feito para isso. Certamente mais do que para a publicidade.
Até o dia 15, deverei ter uma versão digital do meu portfolio para mandar para Londres com o entrevistador. Mas por hoje chega. Estou terminando esta corrida de mais de seis meses e hoje só quero gozar deste momento de triunfo...
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If I were to write here that this is where it all began, I'd be lying.
A little over a year ago, already unsatisfied with the way my life had turned out (and it hasn't actually changed since...), I got word of an exchange program fair happening close to the agency. My visit brought nothing of interest. These fairs are usually devoted to business students and such. I took a few flyers of art courses and headed for the exit, ready to forget it all. At the door, a stand gave out flyers for the British Council.
Fast-forward: six months later I was watching lectures on the Academy of the Arts London, which counted amidst it's graduates personal idols of mine like Anish Kapoor and Lucian Freud. The range of courses was huge: from language courses to exchange programs in graduation, extension courses and even master's degrees. I have two graduate degrees already, so a post-grad course would be the thing for me.
The logic was fairly simple: if advertising never gave me professional satisfaction nor money, I was going back to the arts. If I was going to be paid very little on both, I would rather be an artist than a half-assed art assistant. At least I'd get some personal satisfaction. But the only way to make a new career in arts would be if I went back to the chances and momentum I had in college. The master's degree seemed like the best oportunity to go back to the academy and make new and better contacts, only this time with the maturity to acknowledge and use them. The closing statement in that logic was obvious: why do all that in this god forsaken country when I had the English, the passport and now the chance to do it in my beloved London?
The question was: was my work dense enough for a master's? That was one of the reasons why I started to actually develop and study the matters of Masculism. My work needed some theory to back it up. Otherwise it would be like most of the works for sale in the galleries today: possibly beautiful, but completely empty. Nothing that would make it into the history books, nothing that would change anything.
Then came six months of chasing documents, estudying Masculism, drafting a project, building a portfolio. I even went on vacations at the agency: I needed my full attention on this.
Like everything in the life of the denizens of this city, this project was running late. And at 2a.m. this morning I was still giving my portfolio it's final touches. Everything here is always postponed due to other urgencies. I would stay up all night if I had to. Luckily, my discipline allowed me to finish on time and get a few hours of untroubled sleep.
13:45 today. The interviewer arrives late (and he's the British here...). And at the end of half-an-hour of strangely calm chatter, jousting quotations of interesting artists and the general male situation today, he high-fives me as a compliment, saying it was one of the most interesting interviews he had so far. And he had already been to two other cities.
It's a wonderful feeling: you feel you can do anything from then on, success is guaranteed and you are invincible. Have you ever felt that this was your medium, the subject you know like the palm of your hand? It isn't a conventional and easy answer to a life, like being a businessman on a big company, but it's mine and I was made for this. At least certainly more than I was made for advertising.
I need to have a digitl version of my portfolio done by April 15th to send to London with the interviewer. But enough excitement for today. This is the end of a long six months and today I just want to bask in the glow of this moment.
quarta-feira, março 18, 2009
Aulas!
Divulguem, divulguem!
E aproveitem, porque não sei quando que eu vou ter outra oportunidade de dar uma dessas!

Prestem atenção: os R$200 são para DOIS MESES de aulas. Tá mais barato do que parece!
E aproveitem, porque não sei quando que eu vou ter outra oportunidade de dar uma dessas!
Prestem atenção: os R$200 são para DOIS MESES de aulas. Tá mais barato do que parece!
terça-feira, março 17, 2009
Privacidade
Nota curta.
Vi nessa semana uma conhecida revista que publicou uma matéria sobre o Twitter, mencionando todas as velhas questões sobre privacidade e exposição na web, e como esta geração atual é uma vítima ao ter sua vida pessoal escancarada na rede.
Caros editores, ninguém está apontando uma arma na cabeça de ninguém e mandando escrever intimidades nas redes sociais. Os fatos estão lá porque os donos desses perfis os colocaram lá. Ninguém é exatamente vítima. Se não quer a invasão de privacidade, faça um perfil bem enxuto, desses que não dizem nada e nem têm foto. Se não quer que o outro saiba do seu pretê, ou que o chefe saiba o quão depravado você é nas horas vagas, não escreva a respeito! Quem tá na chuva é pra se molhar!
Cansei desse papinho...
Vi nessa semana uma conhecida revista que publicou uma matéria sobre o Twitter, mencionando todas as velhas questões sobre privacidade e exposição na web, e como esta geração atual é uma vítima ao ter sua vida pessoal escancarada na rede.
Caros editores, ninguém está apontando uma arma na cabeça de ninguém e mandando escrever intimidades nas redes sociais. Os fatos estão lá porque os donos desses perfis os colocaram lá. Ninguém é exatamente vítima. Se não quer a invasão de privacidade, faça um perfil bem enxuto, desses que não dizem nada e nem têm foto. Se não quer que o outro saiba do seu pretê, ou que o chefe saiba o quão depravado você é nas horas vagas, não escreva a respeito! Quem tá na chuva é pra se molhar!
Cansei desse papinho...
Atualizando
Meu blog sempre anda algumas semanas atrás dos acontecimentos, porque suponho que seja mais importante viver do que nerdear por aqui. Então, hora de atualizar os fatos!
Alguns de vocês já conhecem a história toda: logo depois que voltei da Argentina, passei na casa da Lexy pra resolvermos a contabilidade da viagem. Na saída, roubaram meu carro. Assim, do nada. Ele simplesmente não estava mais lá quando voltei. Estava parado na frente do prédio, sob vigilância das câmeras, trancado e com trava de câmbio e rastreador. E sumiu. Suspeitei de trabalho de profissional, que sabia tirar trava e desativar rastreador. Dei o carro como perdido.
Pra encurtar a história, ele foi encontrado quatro dias depois, há alguns quarteirões de onde tinha sido levado. Fora a fechadura da porta arrombada e o suposto rastreador sumido, estava do jeito que eu o deixara. Até a trava de câmbio ainda estava no lugar. O meliante dirigiu o carro por alguns quarteirões em marcha reversa, e abandonou-o quando percebeu que ficaria muito ridículo e suspeito andar de ré por aí até o desmanche.
Ou seja, voltei a ter carro. Tenho certas limitações até conseguir consertar a fechadura, mas pelo menos ele está aqui. E no entanto, essa história toda serviu para fazer pensar. Passei a tomar ainda mais o ônibus. Descobri que o Google Maps sugere linhas de ônibus com assustadora precisão. Comecei a andar por São Paulo cobrindo longas distâncias como eu fazia na Europa e recentemente na Argentina. Eu gosto de andar. E passei a encorajar outros a fazerem o mesmo. A dependerem menos do próprio carro ou da carona, a andar mais.
E nessas andanças vi daqueles personagens que só se vê nas cidades grandes. A velha indigente da Augusta que passa o dia subindo e descendo a rua, gritando em um gromelô incompreensível que soa como briga de gato. A oriental sem pernas que continua sentada em frente ao mesmo local da Paulista balançando o potinho com moedas desde que eu fazia a faculdade de artes. A nigeriana com um pedaço de pano amarrado em volta da cabeça, entre o nariz e a boca, parecendo um bigode de tecido. E não são só os mendigos. Tem as modeletes esguias andando na Oscar Freire, ex-colegas de faculdade que eu encontro no ônibus e até um quarteto de cordas completo tocando em frente à estação de metrô da Consolação.
A cidade tem suas peculiaridades. E a gente perde muito de dentro do carro.
Alguns de vocês já conhecem a história toda: logo depois que voltei da Argentina, passei na casa da Lexy pra resolvermos a contabilidade da viagem. Na saída, roubaram meu carro. Assim, do nada. Ele simplesmente não estava mais lá quando voltei. Estava parado na frente do prédio, sob vigilância das câmeras, trancado e com trava de câmbio e rastreador. E sumiu. Suspeitei de trabalho de profissional, que sabia tirar trava e desativar rastreador. Dei o carro como perdido.
Pra encurtar a história, ele foi encontrado quatro dias depois, há alguns quarteirões de onde tinha sido levado. Fora a fechadura da porta arrombada e o suposto rastreador sumido, estava do jeito que eu o deixara. Até a trava de câmbio ainda estava no lugar. O meliante dirigiu o carro por alguns quarteirões em marcha reversa, e abandonou-o quando percebeu que ficaria muito ridículo e suspeito andar de ré por aí até o desmanche.
Ou seja, voltei a ter carro. Tenho certas limitações até conseguir consertar a fechadura, mas pelo menos ele está aqui. E no entanto, essa história toda serviu para fazer pensar. Passei a tomar ainda mais o ônibus. Descobri que o Google Maps sugere linhas de ônibus com assustadora precisão. Comecei a andar por São Paulo cobrindo longas distâncias como eu fazia na Europa e recentemente na Argentina. Eu gosto de andar. E passei a encorajar outros a fazerem o mesmo. A dependerem menos do próprio carro ou da carona, a andar mais.
E nessas andanças vi daqueles personagens que só se vê nas cidades grandes. A velha indigente da Augusta que passa o dia subindo e descendo a rua, gritando em um gromelô incompreensível que soa como briga de gato. A oriental sem pernas que continua sentada em frente ao mesmo local da Paulista balançando o potinho com moedas desde que eu fazia a faculdade de artes. A nigeriana com um pedaço de pano amarrado em volta da cabeça, entre o nariz e a boca, parecendo um bigode de tecido. E não são só os mendigos. Tem as modeletes esguias andando na Oscar Freire, ex-colegas de faculdade que eu encontro no ônibus e até um quarteto de cordas completo tocando em frente à estação de metrô da Consolação.
A cidade tem suas peculiaridades. E a gente perde muito de dentro do carro.
quinta-feira, março 05, 2009
Matthew Barney na Escola São Paulo
O americano Matthew Barney divide com o inglês Damien Hirst o título de artista mais influente de sua geração. Mas é difícil compreender seu trabalho tomando apenas uma das obras. Dora me apresentou os trabalhos de Barney em 2002, por meio de seu ciclo de vídeos Cremaster. O termo que dá nome ao ciclo refere-se a um músculo que provoca a descida das gônadas para fora do corpo do embrião masculino em vez de subir no feminino, sendo o acontecimento que define o sexo do feto em formação. O ciclo é composto de cinco vídeos que são uma colagem de imagens muitas vezes bizarras e perturbadoras e que fazem contínua alusão à diferenciação entre os sexos.
O Cremaster ficou conhecido como o trabalho mais famoso de Barney. Pessoalmente, aprendi muito com ele. Sobre mitologia pessoal, criação de sentido através da insistência, simbologia e outras coisas. Mas não vou esmiuçar tudo por aqui, porque a exposição da Escola São Paulo evitou o ciclo. Há livros a respeito e uma ou outra referência, mas no geral, os trabalhos colocados lá falam de outra série de Barney que eu acho filosoficamente mais importante: o Drawing Restraint.
Barney era um atleta na faculdade. Jogava futebol americano e fazia luta greco-romana. Quando resolveu ingressar no curso de arte da faculdade de Yale, trouxe um pouco do conceito de superação de limites físicos do esporte para seu trabalho. Passou a fazer performances onde ele criava impedimentos, tensões e obstáculos para o simples ato de desenhar. Desenhava pendurado no teto, ou tensionado por um elástico que o puxava para longe do desenho, ou saltando de uma cama elástica. Daí os vários sentidos do título da série: "drawing" pode ser compreendido como substantivo (desenho) ou verbo (desenhando) ou ainda outro verbo (atraindo, delimitando, produzindo); enquanto "restraint" também pode ser substrantivo (restrição, obstáculo, limite) e verbo (restrito, amarrado, impedido). "Desenho restringido", "desenhando limite", "delimitando restrições".
É difícil escrever sobre ele sem entediá-los com detalhes muito abstratos ou deixar de fora detalhes importantes. Mas quem sabe uma visita à exposição esclareça bastante coisa. Se alguém topar, eu me ofereço de guia!
MOSTRA MATTHEW BARNEY
De 3 a 13 de março, seg a sex das 10h às 22h, sab de 10 às 19h com sessões às 12h, 16h, 18h e 20h
Escola São Paulo: Rua Augusta, 2239 - Metrô Consolação - São Paulo - SP - Brasil - CEP 01413-000
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