Quinta passada.
Em um restaurante na Oscar Freire, almocei tendo por compania o Marcos Brias e a Regina Parra, ambos do atualmente desmantelado grupo 2000e8. Brias foi o que se poderia considerar o intelectual do grupo, seus trabalhos sempre baseados em muito recheio literário e suas concepções de uma densidade brutal. Regina foi, dentro do grupo, a pintora com cujo trabalho eu mais simpatizei, por ela também fazer ilustrações fortemente baseadas em fotografias (embora as dela tenham uma teoria muito mais interessante do que as minhas) e pelo nosso interesse comum por artistas como o Gerhard Richter.
O convite fora extendido a todos os participantes do grupo, embora eu tivesse mais proximidade com o Brias. De qualquer jeito, fiquei feliz que pelo menos alguém me respondeu, já que na minha carreira abandonada de publicidade, conseguir o privilégio de conversas relevantes com profissionais de peso era uma utopia.
O motivo do convite: uma conversa informal e não-mediada sobre o que de fato é ter uma carreira de artes plásticas. Não era minha primeira tentativa de abordar um artista plástico para saber dos segredos da profissão. Mas minhas tentativas com a geração mais velha resultaram naquela conversa de "pai pra filho", onde o pai dá respostas vagas do tipo "é complicado..." e diz que você "vai entender um dia". Ou aquelas respostas esotéricas e cheias de termos blasê ("essa coisa de dinheiro é uma falácia do mundo capitalista ocidental pós-industrializado modernista greenberguiano pré-1968"). Imaginei que ao menos, com a geração mais próxima da minha idade, eu poderia conseguir alguns conselhos práticos.
Foi uma espécie de validação saber que eles tiveram trajetórias parecidas com o meu caso atual, começando a trabalhar em outros assuntos e depois desistindo de tudo para seguir as artes. Brias de fato trabalhou com editoração, um assunto não tão distante da publicidade. Mas hoje, ambos dizem viver de suas pinturas. Não estão tão bem quanto o Rodolpho Parigi [1][2] mas pagam suas contas (caras) com sua arte. Estou prestes a jogar na mesa o assunto do Masculismo quando Brias antecipa a conclusão: no caso da Regina, casada, pagar as contas não é tão doloroso. Continuo com a opinião controversa de que essa carreira é mais complacente com mulheres por causa de seus maridos.
No meio do almoço, já estamos no cerne do assunto. Minha primeira pergunta e uma das minhas maiores curiosidades: quanto tempo passam no ateliê? A resposta me faz começar a entender por onde seguir. Obviamente cada um tem seu tempo de ateliê, mas a disciplina é fundamental. Estar no ateliê com a mesma tenacidade com que se comparece a uma empresa. Horário, pontualidade, eficiência no gasto de tempo. A primeira conclusão que eles me dão é que o coração dessa carreira é produzir. Produzir muito, todos os dias, o tempo todo. Eu, é claro, ainda estou bem longe disso. O último quadro que (quase) terminei foi o retrato de Lexy no ano passado. E preciso remediar isso. Antes que alguma empresa me ofereça um salário que eu não posso recusar.
Regina interrompe a conversa para pedir nossa opinião sobre quadros para uma exposição que ela está montando. E me conta que em vésperas de exposição, chega ao ateliê de manhã e só sai às 20:00. Em dias normais, seu horário começa às 14:00. Fico imaginando que eu poderia facilmente me acostumar a uma rotina assim. Ambos me contam que a Ana Elisa Egreja, outra do grupo, passa horas e até noites no ateliê, para produzir suas enormes pinturas cheias de padrões de tecido.
Essa primeira etapa de estabelecer a produção me parece a mais complicada. Como sobreviver e se sustentar enquanto isso acontece? Aulas de inglês, como falei, tomam um tempo absurdo e não pagam nem perto do suficiente. O jeito e manter um stiff upper lip e enfrentar de frente mesmo.
Estabelecida a produção, outras coisas acontecem simultaneamente. A primeira leva da produção já pode ser inscrita em salões de arte. O objetivo é mais rechear o currículo do que ganhar os prêmios, embora uma vitória dessas também garanta um bom fôlego financeiro. Enquanto isso, o comparecimento às vernissages e o networking são fundamentais. É daí que saem as primeiras visitas ao ateliê e contatos de galeria. E eventualmente, as primeiras vendas. Não é fácil... Mas é o caminho, sem segredos, sem respostas paternalistas ou esotéricas.
Regina ainda comenta que em suas primeiras vendas, gastou todo o dinheiro, achando ter faturado uma nota. Grande erro: na seca até sua próxima venda, passou apertos financeiros e aprendeu a poupar.
É claro que não dá pra prever quanto tempo leva tudo isso. Há uma boa dose de gente me dizendo que eu ainda sou jovem aos 27 anos, mas não me sinto assim. Sinto os cinco anos desde que saí da faculdade e deixei as chances de lá morrerem. Eles me tranquilizam reiterando que o mestrado é uma ótima idéia. Voltar à academia e às oportunidades que ela gera, desta vez com consciência para aproveitar.
Quando pego o ônibus de volta para casa, sinto que estou no caminho certo também na carreira. Claro, ainda há MUITO para caminhar. E o mês que vem vai ser duro, voltando ao ateliê e estabelecendo a rotina. Mas pelo menos já não estou mais à deriva. Estou em terra firme, com estrada seguindo adiante.
Toda jornada começa com um passo. Keep Edgewalking...
Bits and pieces of my life that everyone ignores when I speak, but someone reads when I write.
terça-feira, agosto 18, 2009
quarta-feira, agosto 12, 2009
Dois meses depois
Já fazem dois meses que pedi minha demissão da agência. E mais ou menos um mês que cumpri meu aviso prévio e larguei a carreira. Mas o fato é que continuo flertando com a publicidade, à espera de alguém ou alguma empresa que pague o que eu acredito ser o meu valor. O plano passou a ser este: encontrar uma empresa que me pague o suficiente e de preferência agregue um nome relevante ao meu currículo, e continuar tentando ser um artista plástico enquanto essa empresa não aparece. De um jeito ou de outro, saio da estagnação profisssional na qual tenho vivido pelos últimos quatro anos. Chega de agências pequenas, desconhecidas, pobres e sem nada a me oferecer além de "experiência".
Este primeiro mês de liberdade teve algo de semelhante à primeira semana que passei em Londres: um pavor, uma ansiedade frente a uma nova e desconhecida situação que me oferece muita informação e possibilidade de uma só vez e que eu não consigo organizar. Apesar da alegria de estar livre e das infinitas possibilidades, esse medo de perder oportunidades pela desorganização tingiu tudo de cores mais sóbrias.
Mas à medida que o mês foi passando, percebi que essa ansiedade tratava-se de outra coisa. Eu estava atolando em um mar de pequenices, detalhes e afazeres pontuais. Agora que eu estava livre e podia dispor de todo meu dia, cismei em resolver essas pendências, zerar a vida. Coisas como concertar a luz queimada do carro, enquadrar uma foto que eu ia dar de presente, dar um jeito na papelada na minha mesa. Pequenices a serem resolvidas rapidinho, mas que tiram o foco dos meus objetivos a médio prazo. Objetivos como voltar a ser produtivo, voltar a ter a disciplina para ser um artista plástico. Mas uma vez que isso ficou claro, passei a dar o tempo certo a essas pequenices e voltar a me concentrar no que de fato importava: reaprender a me concentrar, a vencer a preguiça, começar a trabalhar rápido e manter o ritmo durante o dia e a organizar meus ambientes de trabalho para que o dia seja eficiente. As pequenices serão resolvidas aos poucos. A verdade é que sempre haverá pequenices.
Com o fim desse segundo mês de desemprego, já começo a ver alguns resultados [1][2][3]. Ando participando de alguns concursos de ilustração para livros infantis (um deles um concurso mexicano que me obriga deliciosamente a reaprender a escrever em espanhol). Não são grandes obras de arte e ainda não acredito que vá ganhar alguma coisa, mas é um começo, um exercício de concentração e disciplina. E é muito bom voltar a me sentir produtivo naquilo que eu considero relevante. Mês que vem, pretendo estabelecer alguma rotina no ateliê e voltar a pintar. Desta vez com algum propósito e não apenas por hobby. Enquanto isso, ando conversando com artistas plásticos e tentando descobrir a teoria do que é de fato ter uma carreira em arte.
As noites atualmente são divididas entre aulas de inglês e o circo. As aulas são a minha única fonte de renda por enquanto, mas são uma clara armadilha: gasto quatro horas do dia entre preparar a aula, ir até a escola, lecionar e voltar para casa. No entanto, o pagamento por essas quatro horas é o que eu esperaria ganhar por uma hora de trabalho. E são tão poucas as aulas que provavelmente só vão pagar minha mensalidade do circo. Mas enfim, o inglês é assunto para outro post, outro dia.
Pensando bem a respeito dessa época, sou tomado de uma sensação muito prazerosa de estar fazendo as coisas das quais gosto e vivendo o tipo de vida que eu gostaria de viver. Uma vida na qual os dias são passados em meio a desenhos e outras atividades artísticas, o tempo é meu para dispor dele como eu quiser, aproveito o circo enquanto minha juventude ainda permite, e ainda convivo com meus vários idiomas de uma forma que me remete à Europa (a propósito, Tullio Seppilli [1][2] esteve aqui e conversamos bastante em italiano, completando minha lista de idiomas usados recentemente...). Ou seja, ando vivendo uma espécie de sonho, uma imersão em felicidade pessoal. Mas a questão do dinheiro para o meu sustento continua a me assombrar like the elephant in the room (algo obvio que todo mundo está vendo, mas ninguém quer falar a respeito). É um demônio que eu ainda não sei como enfrentar.
Como vou transformar esta rotina deliciosa em algo rentável?
Este primeiro mês de liberdade teve algo de semelhante à primeira semana que passei em Londres: um pavor, uma ansiedade frente a uma nova e desconhecida situação que me oferece muita informação e possibilidade de uma só vez e que eu não consigo organizar. Apesar da alegria de estar livre e das infinitas possibilidades, esse medo de perder oportunidades pela desorganização tingiu tudo de cores mais sóbrias.
Mas à medida que o mês foi passando, percebi que essa ansiedade tratava-se de outra coisa. Eu estava atolando em um mar de pequenices, detalhes e afazeres pontuais. Agora que eu estava livre e podia dispor de todo meu dia, cismei em resolver essas pendências, zerar a vida. Coisas como concertar a luz queimada do carro, enquadrar uma foto que eu ia dar de presente, dar um jeito na papelada na minha mesa. Pequenices a serem resolvidas rapidinho, mas que tiram o foco dos meus objetivos a médio prazo. Objetivos como voltar a ser produtivo, voltar a ter a disciplina para ser um artista plástico. Mas uma vez que isso ficou claro, passei a dar o tempo certo a essas pequenices e voltar a me concentrar no que de fato importava: reaprender a me concentrar, a vencer a preguiça, começar a trabalhar rápido e manter o ritmo durante o dia e a organizar meus ambientes de trabalho para que o dia seja eficiente. As pequenices serão resolvidas aos poucos. A verdade é que sempre haverá pequenices.
Com o fim desse segundo mês de desemprego, já começo a ver alguns resultados [1][2][3]. Ando participando de alguns concursos de ilustração para livros infantis (um deles um concurso mexicano que me obriga deliciosamente a reaprender a escrever em espanhol). Não são grandes obras de arte e ainda não acredito que vá ganhar alguma coisa, mas é um começo, um exercício de concentração e disciplina. E é muito bom voltar a me sentir produtivo naquilo que eu considero relevante. Mês que vem, pretendo estabelecer alguma rotina no ateliê e voltar a pintar. Desta vez com algum propósito e não apenas por hobby. Enquanto isso, ando conversando com artistas plásticos e tentando descobrir a teoria do que é de fato ter uma carreira em arte.
As noites atualmente são divididas entre aulas de inglês e o circo. As aulas são a minha única fonte de renda por enquanto, mas são uma clara armadilha: gasto quatro horas do dia entre preparar a aula, ir até a escola, lecionar e voltar para casa. No entanto, o pagamento por essas quatro horas é o que eu esperaria ganhar por uma hora de trabalho. E são tão poucas as aulas que provavelmente só vão pagar minha mensalidade do circo. Mas enfim, o inglês é assunto para outro post, outro dia.
Pensando bem a respeito dessa época, sou tomado de uma sensação muito prazerosa de estar fazendo as coisas das quais gosto e vivendo o tipo de vida que eu gostaria de viver. Uma vida na qual os dias são passados em meio a desenhos e outras atividades artísticas, o tempo é meu para dispor dele como eu quiser, aproveito o circo enquanto minha juventude ainda permite, e ainda convivo com meus vários idiomas de uma forma que me remete à Europa (a propósito, Tullio Seppilli [1][2] esteve aqui e conversamos bastante em italiano, completando minha lista de idiomas usados recentemente...). Ou seja, ando vivendo uma espécie de sonho, uma imersão em felicidade pessoal. Mas a questão do dinheiro para o meu sustento continua a me assombrar like the elephant in the room (algo obvio que todo mundo está vendo, mas ninguém quer falar a respeito). É um demônio que eu ainda não sei como enfrentar.
Como vou transformar esta rotina deliciosa em algo rentável?
quinta-feira, agosto 06, 2009
The Slow Movement
Outra coisa interessante da B-Coolt desta semana foi o Slow Movement. A B-Coolt cita que o movimento nasceu em Roma, mas o sobrenome dos criadores do site, todos da família Claridge, aponta para os Estados Unidos.
O Slow Movement promove o que se conhece como downshifting, algo como "reduzir a marcha" da sua vida. Na sua argumentação, dizem que a pressa com a qual se vive nas grandes cidades tem efeitos negativos que vão além do impacto na saúde. A vida de metrópole nos faz pessoas sempre apressadas, impacientes, intolerantes e atrasadas para o próximo compromisso. A tendência se reflete na incapacidade que algumas pessoas têm por exemplo ao ler grandes quantidades de texto: desistem no começo se o texto não for logo ao assunto, porque sentem que ler tudo aquilo é perder um tempo que eles não têm. Refeições são outro ótimo exemplo: a uma hora que teríamos para o almoço durante a semana é encurtada, dividida com a ida ao banco ou à academia, e acabamos comendo sem prazer, sem aproveitar a conversa com o amigo, sem livro. Ou seja, não nos permitimos tempo para saborear um bom livro, um bom vinho, uma compania e aquela sensação de vida sem graça, sem tempero, sem cor, acaba virando reclamação recorrente. Mas o principal efeito negativo desse estilo de vida apontado pelo site é a perda da conexão com as coisas, com a comunidade. Faz-me pensar nas quesões do Iron John do Robert Bly de novo. A falta de mentores, de figuras paternas, porque todos eles estão correndo demais, atrasados demais.
Detalhe interessante mencionado no site é o papel da tecnologia nesse ritmo frenético. Aparelhos que foram vendidos como soluções para reduzir o tempo e o esforço das obrigações domésticas para que tivéssemos "mais tempo para curtir a vida" acabaram gerando mais tempo para ser preenchido por obrigações e pela correria por dinheiro, já que a mecanização das atividades também lhes reduziu o valor. Vide o artefinalista das antigas agências, que precisava de destreza manual e experiência e foi substituído por qualquer pivete assistente de arte que ganha um terço do salário e faz tudo no computador. O tempo para curtir a vida é hoje gasto no segundo ou terceiro emprego simultaneo porque só um não paga o suficiente.
Curiosamente, a seção da página denominada Slow Money, que trataria de como ganhar o sustento nessa filosofia de vida mais lenta, ainda está em construção. Mas é minha principal dúvida a respeito. É possível diminuir a correria e ainda ganhar o equivalente à pessoa que corre o dia inteiro entre três empregos?
Já fazem 20 dias que saí do meu emprego na agência. Ainda apareço por lá de manhã, para trabalhar como freelancer e ganhar alguns trocados, mas não tenho obrigação e saio pontualmente no horário do almoço. Mas nesses primeiros 20 dias, senti como eu mesmo estava impregnado dessa inércia veloz e terrível apontada pelo Slow Movement. Tardes inteiras que eu podia usar para meus próprios assuntos, mas que passavam desperdiçadas naquela angústia amnésica de achar que eu precisava estar em outro lugar, fazendo outra coisa muito mais relevante, mas sem saber onde ou o quê. O mal deste ritmo é a completa falta de foco. Sei que tenho trezentas coisas e oportunidades, mas não me permito tempo suficiente para focar em uma antes que outra me pareça mais urgente. E no fim do dia, acabo não concluíndo nada. Achei que resolveria todas as pequenices da vida nesse tempo livre das tardes, mas ainda não me acostumei a como priorizar e dar foco às coisas por causa dessa sensação de urgência.
No começo desse mês, resolvi mudar o ritmo. Tenho dedicado minhas tardes a concursos de ilustração. Às vezes, a sensação de estar em casa a tarde toda escrevendo ou desenhando para algum deles me bate como uma irresponsabilidade, vagabundagem. Mas resisto pensando que não tenho outra responsabilidade no momento além desta, e que desenvolver essa capacidade de foco faz parte de desenvolver uma carreira independente.
Ainda me preocupo (e muito) com o dinheiro, com ganhar o suficiente para pagar minhas poucas contas e ainda economizar para Londres no ano que vem. E fazer isso sem me sujeitar de novo a empregos que me desrespeitam. Mas isso, apenas o passar dos meses dirá.
O Slow Movement promove o que se conhece como downshifting, algo como "reduzir a marcha" da sua vida. Na sua argumentação, dizem que a pressa com a qual se vive nas grandes cidades tem efeitos negativos que vão além do impacto na saúde. A vida de metrópole nos faz pessoas sempre apressadas, impacientes, intolerantes e atrasadas para o próximo compromisso. A tendência se reflete na incapacidade que algumas pessoas têm por exemplo ao ler grandes quantidades de texto: desistem no começo se o texto não for logo ao assunto, porque sentem que ler tudo aquilo é perder um tempo que eles não têm. Refeições são outro ótimo exemplo: a uma hora que teríamos para o almoço durante a semana é encurtada, dividida com a ida ao banco ou à academia, e acabamos comendo sem prazer, sem aproveitar a conversa com o amigo, sem livro. Ou seja, não nos permitimos tempo para saborear um bom livro, um bom vinho, uma compania e aquela sensação de vida sem graça, sem tempero, sem cor, acaba virando reclamação recorrente. Mas o principal efeito negativo desse estilo de vida apontado pelo site é a perda da conexão com as coisas, com a comunidade. Faz-me pensar nas quesões do Iron John do Robert Bly de novo. A falta de mentores, de figuras paternas, porque todos eles estão correndo demais, atrasados demais.
Detalhe interessante mencionado no site é o papel da tecnologia nesse ritmo frenético. Aparelhos que foram vendidos como soluções para reduzir o tempo e o esforço das obrigações domésticas para que tivéssemos "mais tempo para curtir a vida" acabaram gerando mais tempo para ser preenchido por obrigações e pela correria por dinheiro, já que a mecanização das atividades também lhes reduziu o valor. Vide o artefinalista das antigas agências, que precisava de destreza manual e experiência e foi substituído por qualquer pivete assistente de arte que ganha um terço do salário e faz tudo no computador. O tempo para curtir a vida é hoje gasto no segundo ou terceiro emprego simultaneo porque só um não paga o suficiente.
Curiosamente, a seção da página denominada Slow Money, que trataria de como ganhar o sustento nessa filosofia de vida mais lenta, ainda está em construção. Mas é minha principal dúvida a respeito. É possível diminuir a correria e ainda ganhar o equivalente à pessoa que corre o dia inteiro entre três empregos?
Já fazem 20 dias que saí do meu emprego na agência. Ainda apareço por lá de manhã, para trabalhar como freelancer e ganhar alguns trocados, mas não tenho obrigação e saio pontualmente no horário do almoço. Mas nesses primeiros 20 dias, senti como eu mesmo estava impregnado dessa inércia veloz e terrível apontada pelo Slow Movement. Tardes inteiras que eu podia usar para meus próprios assuntos, mas que passavam desperdiçadas naquela angústia amnésica de achar que eu precisava estar em outro lugar, fazendo outra coisa muito mais relevante, mas sem saber onde ou o quê. O mal deste ritmo é a completa falta de foco. Sei que tenho trezentas coisas e oportunidades, mas não me permito tempo suficiente para focar em uma antes que outra me pareça mais urgente. E no fim do dia, acabo não concluíndo nada. Achei que resolveria todas as pequenices da vida nesse tempo livre das tardes, mas ainda não me acostumei a como priorizar e dar foco às coisas por causa dessa sensação de urgência.
No começo desse mês, resolvi mudar o ritmo. Tenho dedicado minhas tardes a concursos de ilustração. Às vezes, a sensação de estar em casa a tarde toda escrevendo ou desenhando para algum deles me bate como uma irresponsabilidade, vagabundagem. Mas resisto pensando que não tenho outra responsabilidade no momento além desta, e que desenvolver essa capacidade de foco faz parte de desenvolver uma carreira independente.
Ainda me preocupo (e muito) com o dinheiro, com ganhar o suficiente para pagar minhas poucas contas e ainda economizar para Londres no ano que vem. E fazer isso sem me sujeitar de novo a empregos que me desrespeitam. Mas isso, apenas o passar dos meses dirá.
Tara McPherson
Segundo a B-Coolt desta semana, a artista californiana Tara McPherson vem à Galeria Choque Cultural como parte da turnê de divulgação de seu novo trabalho, o livro Lost Constellations.
Conheci o trabalho de Tara McPherson na SP Arte deste ano. Ela é a mais recente novidade da tendência artística que inclui gente do naipe do Mark Ryden, Trevor Brown e Dan May. São imagens com um forte apelo pop, cores fortes e limpas, formas sedutoras e muitas vezes referenciando ícones da cultura de massa. Mas ao mesmo tempo, os temas frequentemente fazem alusão a um certo mal estar do tempo, à melancolia e ao abuso. A influência do movimento Lowbrow (ou Surrealismo Pop) da Califórnia de 1970 me parece bem claro, embora eu ache que alguns desses artistas queiram negar as origens, porque o Lowbrow era um movimento com um teor cômico predominante e esses artistas atuais são mais depressivos. De qualquer forma, é uma tendência que eu estou seguindo com muito interesse e a sessão de autógrafos que acontece na noite deste sábado na Choque Cultural pode ser uma ótima oportunidade pra chegar mais perto.
segunda-feira, agosto 03, 2009
Interpretação de minha mãe
Minha mãe escreveu a sua interpretação de pesquisadora científica sobre a carta de Bouillier a Calle.
Rendeu boas discussões lá em casa.
Rendeu boas discussões lá em casa.
Sentimento não se explica
Finalmente consegui visitar a exposição da Sophie Calle neste fim de semana. Estava viajando na abertura e passei o fim de semana anterior no Anima Mundi.
Admito que quando li a missiva enviada a Sophie pelo ex-namorado, julguei-o um canalha. A verdade é que toda a obra baseada nessa carta foi orquestrada para virar a mesa e transformá-lo em um canalha. O escrutínio do texto por todos os ângulos imagináveis é uma estratégia formidável para enfraquecer e inferiorizar um homem que tomou uma decisão muito sincera, mas que prejudica a artista.
Lexy foi a primeira a me surpreender quando saí da exposição. "Achei que ela [Calle] foi egoísta e covarde", ela me disse. Egoísta porque tirou proveito da situação sem pensar no prejuízo à imagem pública de Bouillier, o ex. Covarde porque, em vez de peitar a situação sozinha, ela conjurou um exército de mais de cem mulheres para ridicularizá-lo. A idéia da covardia de Calle já era apontada por uma de suas escolhidas, a escritora Christine Angot, que tentara escrever algo nos moldes das outras mulheres, inferiorizando Bouillier, mas depois de várias tentativas, percebeu que não concordava totalmente com esse ponto de vista. Em seu texto final, mencionava que as mulheres se juntaram como tantas outras mulheres se juntavam em torno de fins de relacionamento, para ridicularizar os homens e "transformá-los em mulheres". Havia uma verdade nessa constatação que eu ainda tinha dificuldade em verbalizar.
Saíndo de SESC, Lexy me dizia que a convivência comigo e com esses conceitos do Masculismo já estavam mudando seu jeito de ver essas coisas. Fiquei muito contente com isso! Ela dizia que começava a perceber como os homens eram vítimas de determinadas situações amorosas. Em um comentário que deixei no blog da Maíra, mencionei o estereótipo que existe nos fins de relacionamento, que dita que o homem está sempre errado e a mulher é sempre a vítima (excetuando casos de traição, naturalmente).
A armadilha é muito simples e, no caso de Bouillier, ele caiu nela sozinho e sem qualquer influência ou esforço de Calle, como muitos o fazem. Consiste em achar que ele tem que explicar os porquês de um sentimento ter acabado. O sentimento acabou. Ponto. Não tem que explicar. Qualquer tentativa de explicar sentimentos com lógica é imbecil e imatura. É vulnerável ao tipo de ridicularização que acaba acontecendo na obra de Calle. Se ele tivesse dito apenas isso, "o sentimento acabou", ela não teria como humilhá-lo. Seria honesto, maduro e direto ao assunto. Em vez disso, ele tenta dar razões, se enrola, fica confuso. É um escritor, mas escreve um texto cheio de erros gramaticais e redundâncias, porque não consegue ter a coragem de ser direto.
Homem hoje não tem mais coragem de ser direto, porque tem medo de que isso seja interpretado como insensibilidade e machismo. Ele pisa em ovos o tempo todo sob a premissa de "respeitar as mulheres", mas acaba caíndo nessas armadilhas e se desrespeitando.
Explicar um sentimento é sempre um ato suicida para o qual os homens caminham cegamente. Já caí milhares de vezes na pergunta "por que você me ama?". As explicações que dei faziam perfeito sentido para mim. Me satisfaziam de verdade. Elas sempre as acharam insuficientes, como um sentimento que eu poderia ter por uma boa amiga, ou como prova de que eu pensava nelas como objetos, esse tipo de coisa. Um bom "porque sim" não teria explicado nada e seria bem menos poético, mas teria acabado a discussão. Os homens, via de regra, não perguntam. Ou se contentam com explicações vagas e ilógicas, com os "porque sim".
Admito que quando li a missiva enviada a Sophie pelo ex-namorado, julguei-o um canalha. A verdade é que toda a obra baseada nessa carta foi orquestrada para virar a mesa e transformá-lo em um canalha. O escrutínio do texto por todos os ângulos imagináveis é uma estratégia formidável para enfraquecer e inferiorizar um homem que tomou uma decisão muito sincera, mas que prejudica a artista.
Lexy foi a primeira a me surpreender quando saí da exposição. "Achei que ela [Calle] foi egoísta e covarde", ela me disse. Egoísta porque tirou proveito da situação sem pensar no prejuízo à imagem pública de Bouillier, o ex. Covarde porque, em vez de peitar a situação sozinha, ela conjurou um exército de mais de cem mulheres para ridicularizá-lo. A idéia da covardia de Calle já era apontada por uma de suas escolhidas, a escritora Christine Angot, que tentara escrever algo nos moldes das outras mulheres, inferiorizando Bouillier, mas depois de várias tentativas, percebeu que não concordava totalmente com esse ponto de vista. Em seu texto final, mencionava que as mulheres se juntaram como tantas outras mulheres se juntavam em torno de fins de relacionamento, para ridicularizar os homens e "transformá-los em mulheres". Havia uma verdade nessa constatação que eu ainda tinha dificuldade em verbalizar.
Saíndo de SESC, Lexy me dizia que a convivência comigo e com esses conceitos do Masculismo já estavam mudando seu jeito de ver essas coisas. Fiquei muito contente com isso! Ela dizia que começava a perceber como os homens eram vítimas de determinadas situações amorosas. Em um comentário que deixei no blog da Maíra, mencionei o estereótipo que existe nos fins de relacionamento, que dita que o homem está sempre errado e a mulher é sempre a vítima (excetuando casos de traição, naturalmente).
A armadilha é muito simples e, no caso de Bouillier, ele caiu nela sozinho e sem qualquer influência ou esforço de Calle, como muitos o fazem. Consiste em achar que ele tem que explicar os porquês de um sentimento ter acabado. O sentimento acabou. Ponto. Não tem que explicar. Qualquer tentativa de explicar sentimentos com lógica é imbecil e imatura. É vulnerável ao tipo de ridicularização que acaba acontecendo na obra de Calle. Se ele tivesse dito apenas isso, "o sentimento acabou", ela não teria como humilhá-lo. Seria honesto, maduro e direto ao assunto. Em vez disso, ele tenta dar razões, se enrola, fica confuso. É um escritor, mas escreve um texto cheio de erros gramaticais e redundâncias, porque não consegue ter a coragem de ser direto.
Homem hoje não tem mais coragem de ser direto, porque tem medo de que isso seja interpretado como insensibilidade e machismo. Ele pisa em ovos o tempo todo sob a premissa de "respeitar as mulheres", mas acaba caíndo nessas armadilhas e se desrespeitando.
Explicar um sentimento é sempre um ato suicida para o qual os homens caminham cegamente. Já caí milhares de vezes na pergunta "por que você me ama?". As explicações que dei faziam perfeito sentido para mim. Me satisfaziam de verdade. Elas sempre as acharam insuficientes, como um sentimento que eu poderia ter por uma boa amiga, ou como prova de que eu pensava nelas como objetos, esse tipo de coisa. Um bom "porque sim" não teria explicado nada e seria bem menos poético, mas teria acabado a discussão. Os homens, via de regra, não perguntam. Ou se contentam com explicações vagas e ilógicas, com os "porque sim".
sexta-feira, julho 31, 2009
Recusado
A quem interessar, recebi a resposta da bolsa para o meu mestrado em Londres:
[...]we regret to inform you that your application was not successful on this occasion.
Feliz ou infelizmente, parece que ficarei aqui mais um ano tentando conseguir dinheiro para essa aventura. Estou tentando colocar as coisas em perspectiva, apesar da tristeza. Tentando me convencer de que ficar por aqui terá seus prazeres. Fico para ver o nascimento de Aurora em Outubro. Fico para aprender a ser um artista de verdade, aprender a me organizar e produzir agora que saí da publicidade. Fico para aprender a sobreviver. Fico para ver a formatura da Lexy no ano que vem.
[...]we regret to inform you that your application was not successful on this occasion.
Feliz ou infelizmente, parece que ficarei aqui mais um ano tentando conseguir dinheiro para essa aventura. Estou tentando colocar as coisas em perspectiva, apesar da tristeza. Tentando me convencer de que ficar por aqui terá seus prazeres. Fico para ver o nascimento de Aurora em Outubro. Fico para aprender a ser um artista de verdade, aprender a me organizar e produzir agora que saí da publicidade. Fico para aprender a sobreviver. Fico para ver a formatura da Lexy no ano que vem.
sexta-feira, julho 24, 2009
Patrícia Piccinini
Há um truque simples porém muito eficaz na arte moderna que consiste em trabalhar com conceitos específicos isolados de seus contextos. A artista australiana Patrícia Piccinini entende bem do assunto. Interessada por assuntos de bioética e manipulação genética, ela participou da Bienal de Veneza em 2003 com algumas das suas criaturas mais orgânicas. São esculturas que lembram muito o trabalho de outro escultor hiperrealista contemporâneo, Ron Mueck. Mas as de Patrícia têm uma característica diferente: não são pessoas reais como as de Mueck. É como se ela tivesse escolhido apenas trabalhar com o conceito da pele, que figura no seu trabalho de uma forma perturbadoramente realista, com pintas, pelos, verrugas e todas as imperfeições randômicas de pessoas reais. Só que em vez de vesti-la em pessoas, ela deu-lhes as formas de seres estranhos, com suas próprias lógicas genéticas. Às vezes, como no Still Life with Stem Cells, as criaturas nem fazem sentido. São apenas orgânicas, com uma pele que respira. Todos os outros conceitos que poderiam ser atrelados a isso são evitados.
Piccinini levanta duas questões que muito me interessam e já tentei começar a escrever um daqueles meu contos que nunca termino a respeito (com a colaboração do Piero, um ótimo biólogo). Primeiramente, aquele assunto místico e indefinível: o que é vida? No conto que eu tentei escrever, chamado Fleshcraft, uma empresa de engenharia genética criava ferramentas e máquinas com partes orgânicas que precisavam de circulação e respiração ou morriam e o produto deixava de funcionar. Ao longo da história, as perguntas eram repetidas: esses objetos estão vivos? O que define a vida? A imagem que eu tinha em mente dos aparelhos era bem parecida com as formas em Still Life with Stem Cells ou as coisas do eXistenZ do David Cronenberg [1][2][3]
que são todos elementos que levantam essas questões sobre o orgânico.
A segunda questão levantada abertamente pelos trabalho da Patrícia Piccinini tem a ver com bioética. Como a nossa sociedade vai lidar com criaturas genéticamente projetadas do zero? Onde vai estar o limiar entre considerar aquilo uma forma de vida digna de respeito, uma máquina orgânica ou mesmo uma coisa com alma (outro assunto místico...)? E como estas respostas mudam a forma como nós pensamos sobre nós mesmos (afinal, não somos também até certo ponto máquinas orgânicas?)?
Piccinini levanta duas questões que muito me interessam e já tentei começar a escrever um daqueles meu contos que nunca termino a respeito (com a colaboração do Piero, um ótimo biólogo). Primeiramente, aquele assunto místico e indefinível: o que é vida? No conto que eu tentei escrever, chamado Fleshcraft, uma empresa de engenharia genética criava ferramentas e máquinas com partes orgânicas que precisavam de circulação e respiração ou morriam e o produto deixava de funcionar. Ao longo da história, as perguntas eram repetidas: esses objetos estão vivos? O que define a vida? A imagem que eu tinha em mente dos aparelhos era bem parecida com as formas em Still Life with Stem Cells ou as coisas do eXistenZ do David Cronenberg [1][2][3]
que são todos elementos que levantam essas questões sobre o orgânico.
A segunda questão levantada abertamente pelos trabalho da Patrícia Piccinini tem a ver com bioética. Como a nossa sociedade vai lidar com criaturas genéticamente projetadas do zero? Onde vai estar o limiar entre considerar aquilo uma forma de vida digna de respeito, uma máquina orgânica ou mesmo uma coisa com alma (outro assunto místico...)? E como estas respostas mudam a forma como nós pensamos sobre nós mesmos (afinal, não somos também até certo ponto máquinas orgânicas?)?
quarta-feira, julho 15, 2009
Dia Internacional do Homem
Nem eu sabia, mas hoje é o Dia Internacional do Homem por aqui. Digo "por aqui", porque segundo a ONU, UNESCO e outras fontes, o dia oficial é 19 de Novembro. A data foi inicialmente proposta pelo doutor Jerome Teelucksingh, de Trinidad e Tobago, com o objetivo de "melhorar a saúde dos homens (especialmente dos mais jovens), melhorar a relação entre gêneros, promover a igualdade entre gêneros e destacar papéis positivos de homens. É uma ocasião em que homens se reúnem para combater o sexismo e, ao mesmo tempo, celebrar suas conquistas e contribuições na comunidade, na famílias e no casamento, e na criação dos filhos."
Hoje a data de Novembro é oficialmente comemorada na Jamaica, Austrália, Índia, Estados Unidos, Cingapura, Reino Unido e Malta. Ainda não descobri porque comemoramos a ocasião em uma data diferente por aqui. Provavelmente pelo mesmo tipo de razão local que nos leva a comemorar o Dia dos Namorados em uma data diferente do resto do mundo.
A data, claro, levanta alguma polêmica. Alguns consideram que um Dia do Homem é desnecessário, sendo que supostamente todo dia é Dia do Homem e o Dia da Mulher é a única excessão. A discussão me faz lembrar da cômica "Parada do Orgulho Hetero" que acontece no dia seguinte à Parada Gay. Como se celebrar a escolha pela heterossexualidade fosse uma espécie de preconceito contra os homossexuais e celebrar o bom e o ruim de ter nascido homem fosse preconceito contra quem nasceu mulher.
O Dia Internacional do Homem é masculista antes de ser machista. Ainda que para muitos, incluindo alguns homens, a diferença não seja muito clara.
Termino o posto linkando para algumas coisas interessantes que achei recentemente sobre o assunto todo. Tenho que dizer que não concordo com todos os pontos de vista expostos neles, mas começar a discutir essas coisas já é um avanço. Qualquer opinião é bem vinda.
• www.papodehomem.com.br
• A nova geração de homens mimados (www.papodehomem.com.br) [1]
• Why Men Earn More - The Startling Truth Behind the Pay Gap (Palestra de Warren Farrell no YouTube em 8 partes) [1][2][3][4][5][6][7][8]
• A Gathering of Men (Robert Bly, autor do João de Ferro, sendo entrevistado pelo Bill Moyers) [1]
Hoje a data de Novembro é oficialmente comemorada na Jamaica, Austrália, Índia, Estados Unidos, Cingapura, Reino Unido e Malta. Ainda não descobri porque comemoramos a ocasião em uma data diferente por aqui. Provavelmente pelo mesmo tipo de razão local que nos leva a comemorar o Dia dos Namorados em uma data diferente do resto do mundo.
A data, claro, levanta alguma polêmica. Alguns consideram que um Dia do Homem é desnecessário, sendo que supostamente todo dia é Dia do Homem e o Dia da Mulher é a única excessão. A discussão me faz lembrar da cômica "Parada do Orgulho Hetero" que acontece no dia seguinte à Parada Gay. Como se celebrar a escolha pela heterossexualidade fosse uma espécie de preconceito contra os homossexuais e celebrar o bom e o ruim de ter nascido homem fosse preconceito contra quem nasceu mulher.
O Dia Internacional do Homem é masculista antes de ser machista. Ainda que para muitos, incluindo alguns homens, a diferença não seja muito clara.
Termino o posto linkando para algumas coisas interessantes que achei recentemente sobre o assunto todo. Tenho que dizer que não concordo com todos os pontos de vista expostos neles, mas começar a discutir essas coisas já é um avanço. Qualquer opinião é bem vinda.
• www.papodehomem.com.br
• A nova geração de homens mimados (www.papodehomem.com.br) [1]
• Why Men Earn More - The Startling Truth Behind the Pay Gap (Palestra de Warren Farrell no YouTube em 8 partes) [1][2][3][4][5][6][7][8]
• A Gathering of Men (Robert Bly, autor do João de Ferro, sendo entrevistado pelo Bill Moyers) [1]
quinta-feira, julho 09, 2009
Sophie Calle no SESC
Começa nesse sábado a exposição da Sophie Calle no SESC Pompéia.
[Vergonha: apesar de ser grande fã do seu trabalho, ainda não sei como se pronuncia o sobrenome. "CallÉ"? "CallÊ"? "CAlli"? "Cal", com "e" muda?]
Estou xingando a organização da FLIP deste ano por continuar fazer um evento tão elitista que só vende ingressos para parentes e conhecidos dos organizadores e patrocinadores. Calle esteve no evento, onde reencontrou seu ex-amor,o escritor Grégoire Bouillier. Eles haviam terminado o relacionamento por uma carta dele anos atrás, que terminava com a expressão "cuide de você". A artista, incapaz de lidar com o enorme peso do rompimento, transformou-o em obra de arte, convidando 107 mulheres para ler e interpretar a carta, criando suas próprias expressões sobre o assunto. Bouillier, por sua vez, escreveu o livro O Convidado Surpresa, que acaba de ser publicado no Brasil, e faz referência ao ritual de Calle de convidar um número de pessoas igual à sua idade em cada festa de aniversário e pedir que alguém traga um convidade supresa para ela conhecer, representando o ano seguinte.
Os trabalho de Sophie Calle inspiram em mim tudo que eu não posso ser por causa das amarras sociais. Por causa das pessoas que se entristecem, enraivecem, brigam e reclamam toda vez que escrevo por aqui ou pinto alguma coisa que mostre o que realmente penso. Imagino que não teria tantos fantasmas de relacionamentos passados se me fosse permitido fazer de cada um deles uma pintura decente, mais que um mero retrato. E mais do que isso: se pudesse não ter medo de escrever, pintar e fotografar todos os detalhes perversos e doentios que eu, como todo mundo, tenho sobre meu relacionamento com os outros e sou educado a esconder. As obssessões, os desvios de personalidade, as imoralidades, as amoralidades. Depois de tanto tempo de blog e de arte, eu sei que essas coisas são superadas e ninguém briga pra sempre. Mas ainda me acovardo diante do desgaste emocional e do desperdício de tempo que elas causam. E principalmente diante da culpa que a tristeza e raiva dos outros me fazem sentir. Vale a pena passar por tudo isso pra viver uma vida mais verdadeira e poética? Quisera ter a coragem de levar tudo às últimas consequências como ela.
Já cheguei a comentar por aqui que uma das coisas que mais me interessam do trabalho de Calle é a visão que ela tem do carater catárdico da arte. Da capacidade que o status de arte tem de sublimar o aspecto negativo das perversões e da loucura, transformando-as em coisas respeitáveis, apreciáveis. Em vez da artista esconder seu hábito de stalkear pessoas e seu gosto por escarafunchar a intimidade dos outros, que normalmente seriam considerados desvios de carater, ela os transforma em performances, pesquisa de arte. E assim todo mundo acha lindo e se identifica. Porque no fundo, todo mundo tem um pouco disso mas não admite. É considerado menos doentio espiar a vida dos outros pelo Orkut do que segui-los pela rua no escuro da noite. Mas a rigor, os dois são a mesma coisa e todo mundo gostaria de fazer isso com esta ou aquela pessoa.
Comente. Me diga: quem você stalkearia para fazer um trabalho de arte?
A exposição Cuide de você acontece de 10 de Julho a 7 de Setembro de 2009, no SESC Pompéia (R. Clélia, 93. Pompéia, zona oeste. Tel. (11) 3871-7700). Entrada franca!
[Vergonha: apesar de ser grande fã do seu trabalho, ainda não sei como se pronuncia o sobrenome. "CallÉ"? "CallÊ"? "CAlli"? "Cal", com "e" muda?]
Estou xingando a organização da FLIP deste ano por continuar fazer um evento tão elitista que só vende ingressos para parentes e conhecidos dos organizadores e patrocinadores. Calle esteve no evento, onde reencontrou seu ex-amor,o escritor Grégoire Bouillier. Eles haviam terminado o relacionamento por uma carta dele anos atrás, que terminava com a expressão "cuide de você". A artista, incapaz de lidar com o enorme peso do rompimento, transformou-o em obra de arte, convidando 107 mulheres para ler e interpretar a carta, criando suas próprias expressões sobre o assunto. Bouillier, por sua vez, escreveu o livro O Convidado Surpresa, que acaba de ser publicado no Brasil, e faz referência ao ritual de Calle de convidar um número de pessoas igual à sua idade em cada festa de aniversário e pedir que alguém traga um convidade supresa para ela conhecer, representando o ano seguinte.
Os trabalho de Sophie Calle inspiram em mim tudo que eu não posso ser por causa das amarras sociais. Por causa das pessoas que se entristecem, enraivecem, brigam e reclamam toda vez que escrevo por aqui ou pinto alguma coisa que mostre o que realmente penso. Imagino que não teria tantos fantasmas de relacionamentos passados se me fosse permitido fazer de cada um deles uma pintura decente, mais que um mero retrato. E mais do que isso: se pudesse não ter medo de escrever, pintar e fotografar todos os detalhes perversos e doentios que eu, como todo mundo, tenho sobre meu relacionamento com os outros e sou educado a esconder. As obssessões, os desvios de personalidade, as imoralidades, as amoralidades. Depois de tanto tempo de blog e de arte, eu sei que essas coisas são superadas e ninguém briga pra sempre. Mas ainda me acovardo diante do desgaste emocional e do desperdício de tempo que elas causam. E principalmente diante da culpa que a tristeza e raiva dos outros me fazem sentir. Vale a pena passar por tudo isso pra viver uma vida mais verdadeira e poética? Quisera ter a coragem de levar tudo às últimas consequências como ela.
Já cheguei a comentar por aqui que uma das coisas que mais me interessam do trabalho de Calle é a visão que ela tem do carater catárdico da arte. Da capacidade que o status de arte tem de sublimar o aspecto negativo das perversões e da loucura, transformando-as em coisas respeitáveis, apreciáveis. Em vez da artista esconder seu hábito de stalkear pessoas e seu gosto por escarafunchar a intimidade dos outros, que normalmente seriam considerados desvios de carater, ela os transforma em performances, pesquisa de arte. E assim todo mundo acha lindo e se identifica. Porque no fundo, todo mundo tem um pouco disso mas não admite. É considerado menos doentio espiar a vida dos outros pelo Orkut do que segui-los pela rua no escuro da noite. Mas a rigor, os dois são a mesma coisa e todo mundo gostaria de fazer isso com esta ou aquela pessoa.
Comente. Me diga: quem você stalkearia para fazer um trabalho de arte?
A exposição Cuide de você acontece de 10 de Julho a 7 de Setembro de 2009, no SESC Pompéia (R. Clélia, 93. Pompéia, zona oeste. Tel. (11) 3871-7700). Entrada franca!
terça-feira, julho 07, 2009
Decapitator
A @perseph0ne lançou este no Twitter há alguns dias.
O Flickr do Decapitator mostra intervenções urbanas um pouco inusitadas com um forte teor de crítica contra a indústria da publicidade.
A técnica é simples: ele provavelmente fotografa mídia externa (outdoors, cartazes em pontos de ônibus, publicidade em shoppings), trata as imagens no Photoshop para decapitar alguma das pessoas retratadas da forma mais sangrenta possível, incluíndo o sangue espalhado nas outras pessoas da foto, e imprime a edição em folhas que são coladas por cima da imagem original.
Certamente é uma ação com mais raciocínio e sabor estético do que a pichação, o grafite tradicional ou até a arte de sticker, normalmente preocupados mais em marcar território do que ativamente questionar alguma coisa. E facilmente ganha a simpatia de pessoas que consideram a publicidade desnecessariamente apelativa, inpiradora dessa atitude de nariz empinado que diz "eu posso te tratar como lixo porque visto roupas mais caras ou tenho um celular com mais funções". Tem um gosto delicioso de vingança: a arte de rua atacando o design de grife com uma tirada de humor negro.
Tem ainda algumas sacadas pósmodernas: a apropriação sem dó ou consideração por direitos autorais de imagens da mídia de massa e a elevação de algo mundano para o status de arte por um gesto simples do artista.
Acho que não demora muito até ele ser abordado por uma Choque Cultural da vida e começar a de fato divulgar isso como arte.
[P.S.: a Lexy vai achar este daqui particularmente terrível...]
O Flickr do Decapitator mostra intervenções urbanas um pouco inusitadas com um forte teor de crítica contra a indústria da publicidade.
A técnica é simples: ele provavelmente fotografa mídia externa (outdoors, cartazes em pontos de ônibus, publicidade em shoppings), trata as imagens no Photoshop para decapitar alguma das pessoas retratadas da forma mais sangrenta possível, incluíndo o sangue espalhado nas outras pessoas da foto, e imprime a edição em folhas que são coladas por cima da imagem original.
Certamente é uma ação com mais raciocínio e sabor estético do que a pichação, o grafite tradicional ou até a arte de sticker, normalmente preocupados mais em marcar território do que ativamente questionar alguma coisa. E facilmente ganha a simpatia de pessoas que consideram a publicidade desnecessariamente apelativa, inpiradora dessa atitude de nariz empinado que diz "eu posso te tratar como lixo porque visto roupas mais caras ou tenho um celular com mais funções". Tem um gosto delicioso de vingança: a arte de rua atacando o design de grife com uma tirada de humor negro.
Tem ainda algumas sacadas pósmodernas: a apropriação sem dó ou consideração por direitos autorais de imagens da mídia de massa e a elevação de algo mundano para o status de arte por um gesto simples do artista.
Acho que não demora muito até ele ser abordado por uma Choque Cultural da vida e começar a de fato divulgar isso como arte.
[P.S.: a Lexy vai achar este daqui particularmente terrível...]
sexta-feira, julho 03, 2009
Ruffles sexista
Não pude deixar de colocar um comentário por aqui sobre a nova campanha da Ruffles.
Parece que eles desenvolveram um sabor para meninos e um sabor para meninas. O mais legal da página do Comunicadores sobre essa campanha são os comentários dos leitores. Um deles escreve (com toda a razão) que essa coisa de segmentar de acordo com o sexo é típica dos anos 80, como se a campanha fosse um gigantesco retrocesso.
Mas o mais revoltante da coisa toda é a forma como cada um dos comerciais de 30 segundos "analisa" cada um dos sexos. As meninas aparecem com aquela imagem de fúteis que pensam em sapatos, fofocas e gatos (ambos os animais: humanos e felinos...). Já os meninos são ainda mais estereotipadamente ridículos e pensam em uma única coisa: meninas. Preferencialmente de calcinha ou bikini. Se tivessem ao menos colocado futebol e videogames seria um pouco menos estereotipado, embora ainda terrivelmente simplista.
Outra questão também apontada pelos leitores do Comunicadores é o tiro no pé que a Ruffles dá segmentando um produto dirigido a uma faixa etária que já tem problemas suficientes com a definição de sua sexualidade para ficar paranóica com a escolha de um salgadinho. Já imaginou o coitado do moleque que tem um gosto mais vegetariano e adora o sabor cream cheese da Ruffles para meninas? Até que seria inspirador ver um rapaz não se importar com os amigos fazendo chacota de sua masculinidade por essa simples escolha, mas poucos adolescentes têm essa maturidade.
Concordando com o comentário do leitor do Comunicadores, eu já acho que o cerne dessa campanha é um tremendo pisar em ovos. Mas apenas como um relativamente polêmico exercício mental, lanço a pergunta: o que poderia ser considerada como uma análise mais realista e menos estereotipada de meninos e meninas?
Parece que eles desenvolveram um sabor para meninos e um sabor para meninas. O mais legal da página do Comunicadores sobre essa campanha são os comentários dos leitores. Um deles escreve (com toda a razão) que essa coisa de segmentar de acordo com o sexo é típica dos anos 80, como se a campanha fosse um gigantesco retrocesso.
Mas o mais revoltante da coisa toda é a forma como cada um dos comerciais de 30 segundos "analisa" cada um dos sexos. As meninas aparecem com aquela imagem de fúteis que pensam em sapatos, fofocas e gatos (ambos os animais: humanos e felinos...). Já os meninos são ainda mais estereotipadamente ridículos e pensam em uma única coisa: meninas. Preferencialmente de calcinha ou bikini. Se tivessem ao menos colocado futebol e videogames seria um pouco menos estereotipado, embora ainda terrivelmente simplista.
Outra questão também apontada pelos leitores do Comunicadores é o tiro no pé que a Ruffles dá segmentando um produto dirigido a uma faixa etária que já tem problemas suficientes com a definição de sua sexualidade para ficar paranóica com a escolha de um salgadinho. Já imaginou o coitado do moleque que tem um gosto mais vegetariano e adora o sabor cream cheese da Ruffles para meninas? Até que seria inspirador ver um rapaz não se importar com os amigos fazendo chacota de sua masculinidade por essa simples escolha, mas poucos adolescentes têm essa maturidade.
Concordando com o comentário do leitor do Comunicadores, eu já acho que o cerne dessa campanha é um tremendo pisar em ovos. Mas apenas como um relativamente polêmico exercício mental, lanço a pergunta: o que poderia ser considerada como uma análise mais realista e menos estereotipada de meninos e meninas?
segunda-feira, junho 29, 2009
GamePlay Itaú Cultural
O Papo de Artista noticiou a abertura da mostra GamePlay no Itaú Cultural. A mostra faz um panorama do que acontece no âmbito dos jogos atualmente, comdireito a concurso de programadores para desenvolver um jogo em 48 horas (GameJam), festival de músicas criadas com os sintetizadores de som dos games (GameMusic com musiquinhas pentelhas em midi) e mostra de curtas criados dentro dos jogos (os chamados Machinimas, como o famoso Red vs Blue), além de 44 consoles dos mais diversos tipos para os visitantes jogarem (ai, o vício tá começando a se manifestar...).
A exposição foi organizada pelo núcleo de pesquisa em meios digitais do Itaú, o Itaulab. Suspeito a participação de uma ex-professora minha de meios digitais que é uma pesquisadora de peso no país.
O que é muito interessante da exposição é que ela mostra que a equipe do Itaú passa a tratar os games com a mesma atenção que confere a outras mídias tradicionalmente consideradas como formas de arte respeitadas. É o game passando a ser considerado arte. Bom... pelo menos pelos expositores.
Agora cadê os alunos de faculdade de arte assumindo o papel de produtores dessa nova forma de arte? Por aqui, games ainda são produzidos pela galera de programação, com formatos bem tradicionais comos os jogos de plataforma, tiro e RPG. Nada do naipe de jogos abstratos como o russo Tetris ou ambientes como The Path e Endless Forest do estúdio belga Tale of Tales. Nada com mais profundidade do que a velha história de salvar a princesa e coletar 100 moedas. Nada com mais propósito do que um jogo comercial ou advergame. Alguém se habilita?
A exposição foi organizada pelo núcleo de pesquisa em meios digitais do Itaú, o Itaulab. Suspeito a participação de uma ex-professora minha de meios digitais que é uma pesquisadora de peso no país.
O que é muito interessante da exposição é que ela mostra que a equipe do Itaú passa a tratar os games com a mesma atenção que confere a outras mídias tradicionalmente consideradas como formas de arte respeitadas. É o game passando a ser considerado arte. Bom... pelo menos pelos expositores.
Agora cadê os alunos de faculdade de arte assumindo o papel de produtores dessa nova forma de arte? Por aqui, games ainda são produzidos pela galera de programação, com formatos bem tradicionais comos os jogos de plataforma, tiro e RPG. Nada do naipe de jogos abstratos como o russo Tetris ou ambientes como The Path e Endless Forest do estúdio belga Tale of Tales. Nada com mais profundidade do que a velha história de salvar a princesa e coletar 100 moedas. Nada com mais propósito do que um jogo comercial ou advergame. Alguém se habilita?
AHIGE
[dica da @perseph0ne]
Tá, vai parecer meio ridículo no começo...
Continuamos falando da Espanha. Li este artigo sobre a ONG espanhola AHIGE (Associação de Homens pela Igualdade de Gênero) que faz campanha pelo que eles chamam de "pariedade", a igualdade de gênero.
Com cursos sobre cuidados da casa, ela promove que os homens ajudem nos afazeres domésticos, dizendo que o machismo não é coisa de gente menos instruida, como muitos pensam. Tem muito homem culto que age com igualdade na rua, mas deixa todo o cuidado da casa e filhos nas mãos da mulher. A desculpa mais comum é a de não saber fazer essas coisas prosaicas como lavar e passar roupa, por exemplo. Os cursos oferecidos pela ONG ainda incluem costurar, cozinhar e arrumar a casa, além de cursos sobre cuidados dos filhos e auto-estima.
A primeira coisa que tenho a comentar sobre isso é que eu já estive lá. Mas seis meses na Europa, tendo que cuidar de mim mesmo logo concertaram boa parte dessas coisas. Claro, a volta para o lar dos pais colocou essas novas habilidades na geladeira...
Mas acho que a ONG dá um passo muito importante e que frequentemente vai ser mal compreendido. Porque é sinal de força e superação para uma mulher vestir calças e ir disputar no braço um emprego de gerente de multinacional com uma corja de homens acostumados ao patriarcado. Mas o homem que resolve que vai gerenciar uma casa de forma melhor e mais eficiente que uma mulher só ouve chacota, humilhação, masculinidade questionada. Não é de se surpreender que a AHIGE receba tantas ameaças de grupos machistas.
O outro ponto que tenho a colocar por aqui é sempre meio controverso. Se a ideologia pregada é a da igualdade entre os sexos e todos vamos nos tratar como seres humanos neutros em questões de gênero, que se diz daquelas velhas máximas protecionistas ("mulheres primeiro") e minúcias de etiqueta (abrir a porta do carro para a mulher, servi-la primeiro à mesa, pagar a conta do restaurante) que favorecem a mulher? Algumas já viraram clichê do discurso feminista, como a história da conta do restaurante que as mulheres hoje gostam de dividir. Mas nas demais, a contenda é sempre similar: os homens concordam que a ideologia de igualdade deve se estender a tudo, enquanto as mulheres querem manter os privilegios alegando serem questão de boa educação supostamente anterior a toda a discussão. Pessoalmente, e eu sei que essa opinião vai mexer com alguns ânimos, eu continuarei a manter minha (vergonhosamente parca) etiqueta em relação às mulheres, mas concordo com a opinião de que, se elas já podem gerenciar multinacionais e jogar futebol e nós podemos cuidar da casa e ter emoções, então elas podem também abrir suas próprias portas de carro...
Tá, vai parecer meio ridículo no começo...
Continuamos falando da Espanha. Li este artigo sobre a ONG espanhola AHIGE (Associação de Homens pela Igualdade de Gênero) que faz campanha pelo que eles chamam de "pariedade", a igualdade de gênero.
Com cursos sobre cuidados da casa, ela promove que os homens ajudem nos afazeres domésticos, dizendo que o machismo não é coisa de gente menos instruida, como muitos pensam. Tem muito homem culto que age com igualdade na rua, mas deixa todo o cuidado da casa e filhos nas mãos da mulher. A desculpa mais comum é a de não saber fazer essas coisas prosaicas como lavar e passar roupa, por exemplo. Os cursos oferecidos pela ONG ainda incluem costurar, cozinhar e arrumar a casa, além de cursos sobre cuidados dos filhos e auto-estima.
A primeira coisa que tenho a comentar sobre isso é que eu já estive lá. Mas seis meses na Europa, tendo que cuidar de mim mesmo logo concertaram boa parte dessas coisas. Claro, a volta para o lar dos pais colocou essas novas habilidades na geladeira...
Mas acho que a ONG dá um passo muito importante e que frequentemente vai ser mal compreendido. Porque é sinal de força e superação para uma mulher vestir calças e ir disputar no braço um emprego de gerente de multinacional com uma corja de homens acostumados ao patriarcado. Mas o homem que resolve que vai gerenciar uma casa de forma melhor e mais eficiente que uma mulher só ouve chacota, humilhação, masculinidade questionada. Não é de se surpreender que a AHIGE receba tantas ameaças de grupos machistas.
O outro ponto que tenho a colocar por aqui é sempre meio controverso. Se a ideologia pregada é a da igualdade entre os sexos e todos vamos nos tratar como seres humanos neutros em questões de gênero, que se diz daquelas velhas máximas protecionistas ("mulheres primeiro") e minúcias de etiqueta (abrir a porta do carro para a mulher, servi-la primeiro à mesa, pagar a conta do restaurante) que favorecem a mulher? Algumas já viraram clichê do discurso feminista, como a história da conta do restaurante que as mulheres hoje gostam de dividir. Mas nas demais, a contenda é sempre similar: os homens concordam que a ideologia de igualdade deve se estender a tudo, enquanto as mulheres querem manter os privilegios alegando serem questão de boa educação supostamente anterior a toda a discussão. Pessoalmente, e eu sei que essa opinião vai mexer com alguns ânimos, eu continuarei a manter minha (vergonhosamente parca) etiqueta em relação às mulheres, mas concordo com a opinião de que, se elas já podem gerenciar multinacionais e jogar futebol e nós podemos cuidar da casa e ter emoções, então elas podem também abrir suas próprias portas de carro...
Geração "Nem-Nem"
O @texz colocou no twitter um link para outra daquelas matérias [em português] cada vez mais frequentes sobre a Crise dos Adolescentes de 25 (Quarterlife Crisis). Desta vez, a análise foca na sociedade espanhola, onde filhos chegam a morar com os pais até além dos 35 anos de idade.
Muito do texto é a mesma discussão do outro texto da Eyeweekly que eu postei por aqui. Mas vale ressaltar alguns parágrafos muito bem escritos e elucidativos:
"O modelo de vocação profissional que implicava um projeto de vida futuro e um destino final conhecido, com seus esforços e compensações, desapareceu. Agora, a incerteza se impõe no trabalho e no casal e não está claro que a dedicação, o compromisso, o estudo, o título, terão sua correspondente compensação social e trabalhista", afirma [Eduardo Bericat].
[...]
"[Os jovens] aplicam a estratégia de flexibilizar os desejos e de reduzir compromissos; nada de esforços exorbitantes quando o benefício não é seguro. Como o risco de frustração é grande, preferem não descartar nada e definirem-se pouco", explica Eduardo Bericat.
Achei esse detalhe muito interessante, porque é como muitos de nós se sentem. Os empregos pagam cada vez menos e dão cada vez menos benefícios. O caso é ainda pior nos Empregos que Todos Querem. Vide agências de publicidade: as grandes e famosas não pagam porque estão "te fazendo um favor" ao incluírem o nome delas no seu currículo, enquanto as pequenas e desconhecidas não pagam porque não têm dinheiro.
Ouvi esses dias de uma colega minha no twitter que "tem que amar muito o que faz pra estar em agência. O estresse é alto, o reconhecimento é baixo, a autonomia inexistente". De fato, amar muito, ser muito burro ou muito conformado. Ou qualquer combinação dos três... Frente a essa realidade, minha geração se vê desmotivada a fazer grandes esforços de carreira porque a compensação é pouca e às vezes até inexistente. É chamada por sociólogos de geração "nem-nem" porque antigamente, quem não procurava um mestrado para continuar os estudos, procurava um trabalho. Esta geração não vê propósito em procurar nenhum dos dois, porque nenhum deles oferece retorno relevante a médio prazo. A situação é tal, que alguns empregos tidos como mais nobres pagam salários modestos semelhantes aos de empregos mais simples, para os quais não é necessária uma formação muito extensa.
"Muitos dos 200 mil novos universitários formados a cada ano enfrentam com pessimismo a busca de emprego. Sabem que há uma grande porcentagem de vagas para caixas, repositores, armazenistas, balconistas, etc ocupados por diplomados ou licenciados", afirma Yolanda Rivero
O texto comenta que, pelo menos na Espanha, as opções que oferecem estabilidade de vida são cada vez mais escassas e menos atraentes. Sinto que por aqui também é assim. O autor prevê um declínio vertiginoso na qualidade de vida dos espanhóis nos anos vindouros e termina comentando como a atual situação é um barril de pólvora prestes a explodir: o que acontecerá quando a atual geração de pais que sustentam a geração "nem-nem" se aposentar?
Muito do texto é a mesma discussão do outro texto da Eyeweekly que eu postei por aqui. Mas vale ressaltar alguns parágrafos muito bem escritos e elucidativos:
"O modelo de vocação profissional que implicava um projeto de vida futuro e um destino final conhecido, com seus esforços e compensações, desapareceu. Agora, a incerteza se impõe no trabalho e no casal e não está claro que a dedicação, o compromisso, o estudo, o título, terão sua correspondente compensação social e trabalhista", afirma [Eduardo Bericat].
[...]
"[Os jovens] aplicam a estratégia de flexibilizar os desejos e de reduzir compromissos; nada de esforços exorbitantes quando o benefício não é seguro. Como o risco de frustração é grande, preferem não descartar nada e definirem-se pouco", explica Eduardo Bericat.
Achei esse detalhe muito interessante, porque é como muitos de nós se sentem. Os empregos pagam cada vez menos e dão cada vez menos benefícios. O caso é ainda pior nos Empregos que Todos Querem. Vide agências de publicidade: as grandes e famosas não pagam porque estão "te fazendo um favor" ao incluírem o nome delas no seu currículo, enquanto as pequenas e desconhecidas não pagam porque não têm dinheiro.
Ouvi esses dias de uma colega minha no twitter que "tem que amar muito o que faz pra estar em agência. O estresse é alto, o reconhecimento é baixo, a autonomia inexistente". De fato, amar muito, ser muito burro ou muito conformado. Ou qualquer combinação dos três... Frente a essa realidade, minha geração se vê desmotivada a fazer grandes esforços de carreira porque a compensação é pouca e às vezes até inexistente. É chamada por sociólogos de geração "nem-nem" porque antigamente, quem não procurava um mestrado para continuar os estudos, procurava um trabalho. Esta geração não vê propósito em procurar nenhum dos dois, porque nenhum deles oferece retorno relevante a médio prazo. A situação é tal, que alguns empregos tidos como mais nobres pagam salários modestos semelhantes aos de empregos mais simples, para os quais não é necessária uma formação muito extensa.
"Muitos dos 200 mil novos universitários formados a cada ano enfrentam com pessimismo a busca de emprego. Sabem que há uma grande porcentagem de vagas para caixas, repositores, armazenistas, balconistas, etc ocupados por diplomados ou licenciados", afirma Yolanda Rivero
O texto comenta que, pelo menos na Espanha, as opções que oferecem estabilidade de vida são cada vez mais escassas e menos atraentes. Sinto que por aqui também é assim. O autor prevê um declínio vertiginoso na qualidade de vida dos espanhóis nos anos vindouros e termina comentando como a atual situação é um barril de pólvora prestes a explodir: o que acontecerá quando a atual geração de pais que sustentam a geração "nem-nem" se aposentar?
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