quinta-feira, fevereiro 14, 2013

Ai Wei Wei

Ainda não consegui vencer a preguiça e estudar direito toda essa coisa de colocar senhas no blog. Acho que alguns de vocês que não têm contas de blog vão acabar ficando inevitavelmente de fora do meu, a menos que vocês criem contas (só para ler o meu blog...). Então por enquanto eu vou continuando.

Passei aqui apenas para deixar uma reflexão sobre a exposição do chinês Ai Wei Wei que está acontecendo no MIS.

Eu soube dele pela primeira vez em Londres, uma instalação na Tate Modern onde ele lotou o piso da galeria de sementes de girassol feitas de porcelana. Milhões delas, feitas uma a uma por voluntários chineses. De lá pra cá, Wei Wei foi preso pelo governo chinês, o que causou toda uma polêmica mundial de artistas pela sua libertação, e aparentemente foi viver nos EUA ou algo assim.

A reflexão curta que eu queria deixar aqui me ocorreu enquanto visitava a exposição com Lexy e minha mãe. Ele, assim como a Yaoni Sanchez que a minha mãe lê, fala corajosa e abertamente sobre as incoerências, a estupidez e a miséria causada pela ditadura vigente em seu país de origem. Uma ditadura que prometeu igualdade a todos e forneceu uma igualdade de míngua e burocracia.

A exposição no MIS era uma coletânea enorme de fotografias tiradas por Wei Wei e seus assistentes, documentando diversos processos de diversos dos trabalhos do artista. Todos trabalhos que falavam sem romantismos desnecessários sobre tudo o que estava acontecendo. Daquele tipo de documentação direta que qualquer blogueiro hoje faz. O que levou Lexy a fazer em certo ponto aquela derradeira e já bastante recorrente pergunta: "mas isso é arte?"

Eu tenho cada vez menos respeito pelo rótulo. Acredito mesmo que qualquer desenho que ela, sem formação acadêmica em artes, faça nos cadernos que eu lhe fiz possa ser uma obra de arte (e ela tem bastante talento, mas isso é outro termo a ser esmiuçado algum dia...).

A pergunta dela me fez pensar no seguinte (sem mais demoras...): de fato, algumas das fotos que Wei Wei faz não chegam a ser muito mais diferentes do que o que muitos conterrâneos meus postam no Facebook, indignados com o nosso país. Nem é possível dizer que elas sejam dotadas daquela mítica "sensibilidade artística" que as separa das fotos das ditas "pessoas comuns". Mas tudo muda para ele (e para a Yaoni Sanchez), porque existe uma força opositora relevante. Isso muda tudo.
Se você posta no Facebook a sua indignação pelo Renan Calheiros ter assumido a presidência do senado, se você brada nas ruas o quanto você é violentamente contra o PT, se você quase tem uma síncope porque o Paulo Maluf continua gozando de plena liberdade, nada disso importa. Você vive em um país livre e supostamente democrático, onde você pode exercer a sua liberdade de expressão sem medo. Isso torna-se uma faca de dois gumes, porque embora você a possa expressar, a sua opinião também pode ser sumariamente ignorada. Se o governo não fizer nada a respeito (nem acatando o seu desejo de justiça, e nem prendendo você por externar o que sente), é quase como se você não tivesse dito nada. "A Dilma subiu o preço da gasolina! Isso é um absurdo!" E tudo o que a Dilma irá dizer é "pois é, que chato, né?" Mas o preço da gasolina continuará inflacionado.
Com Wei Wei e Sanchez, a coisa é outra. Qualquer comentário dissidente e eles misteriosamente "são sumidos" por algum tempo, têm seus bens confiscados, sua vida incrivelmente dificultada. Eles precisam de muito mais coragem para dizer o que nós ouvimos tanto que chegamos a ignorar ("mais uma denúncia de corrupção..."). O choque entre a força opositora que nós não temos aqui em nosso país e a coragem deles é o que faz um gesto tão simples como tirar um autorretrato ou blogar sobre o dia-a-dia virar uma obra de arte política. Não tem absolutamente nada a ver com técnica artística.

[Disclaimer: sim, eu sei que o Wei Wei tem obras de arquitetura incríveis, foi responsável em parte pelo estádio conhecido como "Ninho de Pássaro" na China e tem outras obras bem mais tecnicamente interessantes, mas estou me atendo aqui à exposição do MIS]

Encerro a reflexão fazendo a pergunta que fiz à minha mãe e Lexy: sendo que não temos aqui tamanha força opositora que valide as nossas expressões de indignação dissidentes, o que é que nós precisaríamos fazer (como trabalho artístico/expressivo) para ter o mesmo impacto que Wei Wei e Sanchez?

segunda-feira, janeiro 21, 2013

Ch - Ch - Ch - Changes!


Galera, estou fazendo uma alteração drástica e colocando restrições para acesso ao meu blog pessoal. Queria pedir a todos que ainda estiverem interessados em acessar a página que me mandem seus endereços de e-mail por mensagem privada no Facebook ou no meu e-mail para que eu possa liberar o acesso. 

Grato pela compreensão

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Guys, I`m making a radical change and setting restrictions on the access to my personal blog. I`d like to ask anyone who is still interested in accessing the page to send me their e-mail addresses by private message on Facebook or on my e-mail so that I can grant you access to it. 

Thank you for your understanding

domingo, janeiro 20, 2013

"I curse the day you were born"

A cena ontem não foi muito bem essa. Mas essa não me saia da cabeça. Porque embora Lexy não fosse normalmente ligada à Carrie Bradshaw e nem eu ao Mr. Big, na minha cabeça a Luciana sempre havia sido de uma forma ou outra a pequena Charlotte. 
Não, a cena tinha sido bem diferente. E me surpreendeu, porque embora no começo ela de fato quisesse amaldiçoar o dia em que eu nasci, ela preferiu lidar com as coisas de uma forma mais adulta. Depois de um almoço com Lexy, encontrou-me em sua casa, conversando com seu namorado, e sentou-se calmamente para ouvir o outro lado da história. 
No final das contas, aconselhou que eu e Lexy não nos falássemos naquela noite. 

quinta-feira, janeiro 17, 2013

A Timeless Place: Oblivion


Previously: [•][•]

I came to visit this place with Lexy, knowing that perhaps this would be one of the last times that Utinga would be there. At least the Utinga of my childhood, which was inherently tied to the family's ownership of the sugar plant. But the current generation of the family lacked any interest whatsoever in managing the factory. We watched the family's great wealth dwindle over the years, even though Utinga itself remained fairly unchanged - except, as noted on a previous post, for those who died and those who were born within the family and its servants... the city had been founded to house the factory workers and the family of owners and managers. When the factory was sold to foreign buyers a little over a couple of years ago, we naturally assumed that was the end of that. At least for the family. As for the workers and the sugar plant, there was talk of it being dismantled, scrapped. It still stands there as I write, churning the machinery and spewing out pure, refined sugar. It even keeps the family name on its front. But should it ever truly end, I believe Utinga will go with it.

Today, after lunch, I went down to aunt Suzy's place. It was a large manor sitting on the side of the hill that overlooked Utinga's train station. Lexy seemed surprised at the sheer size of the house and it dawned on me that i had never considered it to be a mansion, having spent so many summers there and knowing every nook and cranny of the place. The house itself had remained stagnant like most of the city. The large trees beside it overgrown with parasitic vines drooping from them, white and ghostly like cobwebs, which had always been there. Our room - the one me and my brother had spent our childhood sleeping in - was still unchanged as well: the wooden ceiling with that aluminum ceiling fan threatening to fall on us while we slept and even our old, worn bodyboards with their incoherent neon hues resting atop the closet like they probably had been for years. The floor tiles in the bathroom, in candy-hued yellow and pink still contrasted with the black tiles on the walls. The two pianos in the dinning hall still managed to play my brother's Debussy. I didn't check, but I was sure the porches and balconies would still have that assortment of perfectly kept deck furniture from sometime around the 1930s and the yard would still be in regal order despite the aggressiveness of the surrounding flora. The train still went past the house at around 5pm. Time was kept by a set of wall clocks placed around the house, and you could hear their ticking if things were silent enough.

But as much as I would like to believe that this place would remain like this forever, it was already changing very noticeably. The changes felt like little flaws in the composition, little things that were out of place. It was the way the new locomotives on the trains were silent enough so that I could only hear them when they blew their whistle going past the station, instead of hearing that chugging of machinery a couple of minutes before, coming from afar. It was in the way three of the wall clocks had stopped, probably wanting in vain for time to actually stop there. It was in the increasing number of defective keys in the pianos my brother played.
But other things made de passage of time more terrifyingly obvious. For starters, there had been no Christmas celebration there that year. Aunt Suzy hadn`t even ordered for the Christmas tree to be set up. There wasn`t a trace of Christmas anywhere.
The servants were getting really old. Nita, someone I had always regarded as a plump girl who was an amazing cook and sometimes watched over me and my brother, was now showing clear signs of old age. Thin, a bit slower on the gestures, a bit more wrinkled.
But the final blow to my heart was finding aunt Suzy herself, sitting on the living room chairs watching TV. Nothing special about her watching TV, it was the way I had always remembered her (though the TV kept getting louder over the years...). What was startling was her figure. Withered and thin, so thin she found it difficult to move at all. Her hair had finally turned grey and there seemed to be more skin than the bones to support it. People mentioned she wasn`t eating properly, barely drank anything, just smoked her cigarettes and drank coffee. My visit had to do with her arrival back from the hospital, after she had to be nurtured back to some measure of health there. She appeared to us all like someone who was giving up. On everything: the house, the sugar plant, even her own body. It was understandable. She was one of the last survivors of her generation, apart from one of her sisters who still lived in Maceió. There had been four girls and two boys (one of them my grandfather). The years had taken most of them away, including aunt Margot, who had always appeared to me as the head of the family ("matriarch" would have been the wrong term: she never had any children), and who sat with aunt Suzy in that living room. It felt like her story had ended and all that was left was the existence in that house, defying time and oblivion.

As we left the house, going back to my cousin`s house further up on the hill, my mind wandered through all the melancholy poetry of what was happening there. I thought of that place, and how the remaining wall clocks would stop, halting time so that the next Christmas and New Year`s Eve would forever be kept at bay. The house would freeze in time in the year 2013. No 5pm train would ever be heard again, silent engines or not. The thriving aggressive nature surrounding the house would break through the defences, coming to sunbathe on the deck chairs, to silence my brother`s pianos for good, to make its own makeshift Christmas trees all over the house and to take back the seashell collection that the aunts had stolen from the beaches years ago. Possibly to finally be hit by the fall of that aluminium ceiling fan.
In the living room, the TV would be silent. Those small and comfortable rocking chairs would be motionless. Aunt Suzy would still be sitting on the big chair in front of the TV, her skin turned into the bark of a thriving tree that would preserve her placid and somewhat apathetic eyes.

Outside of the spell that locked the house in time, the rest of the family would go on with their lives. Possibly leaving Utinga once that house was sold and going to live in Maceió. The city was growing and becoming a place of opportunity and my cousins (some of them who I remembered as toddlers until just recently) were finding their ways to make their own wealth in due time. Nothing to do with sugar. Time kept going, faster and faster. Into the future.

Away from oblivion.



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Anteriormente: [•][•]

Eu vim visitar este lugar com a Lexy, sabendo que talvez esta fosse uma das últimas vezes que Utinga estaria lá. Pelo menos a Utinga da minha infância, que era inerentemente ligada ao controle que a família tinha da usina de açúcar. Mas a geração atual da família não tinha o menor interesse em gerenciar a usina. Assistimos enquanto a grande fortuna da família minguava com os anos, embora Utinga em si permanecesse relativamente inalterada - exceto, como comentado em um post anterior, por aqueles que morriam e aqueles que nasciam entre a família e seus empregados... A cidade fora fundada para abrigar os trabalhadores da usina e as famílias de donos e gerentes. Quando a usina foi vendida para compradores estrangeiros pouco mais de dois anos atrás, nós naturalmente assumimos que era o fim daquilo. Pelo menos para a família. Quanto aos trabalhadores e à usina, havia rumores de que ela seria desmontada. Ela ainda está de pé por lá, enquanto eu escrevo, girando o maquinário e cuspindo açúcar puro e refinado. Ela até mantém o nome da família na sua fachada. Mas se algum dia terminasse de vez, acredito que Utinga em si sucumbiria junto. 

Hoje, depois do almoço, desci para a casa de tia Suzy. Era uma grande mansão sentada em um dos lados da colina que se erguia atrás da estação de trem de Utinga. Lexy pareceu surpresa com o tamanho enorme da casa e me ocorreu que eu nunca havia considerado ela uma mansão, tendo passado tantos verões lá e conhecido cada dobra e rachadura do lugar. A casa em si permanecia estagnada como a maior parte da cidade. As árvores grandes ao seu lado infestadas de trepadeiras parasíticas, brancas e fantasmagóricas como teias de aranha, que sempre estiveram lá. Nosso quarto - no qual eu e meu irmão passamos nossa infância dormindo - ainda não havia sido mudado: o teto de madeira com aquele ventilador de alumínio ameaçando cair sobre nós enquanto dormíamos e até as nossas antigas e gastas pranchas de bodyboard, com seus tons de neón incoerentes descansavam sobre o armário como haviam permanecido há anos. Os azulejos no chão do banheiro ainda tinham seus tons de amarelo e rosa parecendo bala de goma e contrastando com os azulejos pretos nas paredes. Os dois pianos na sala de jantar ainda conseguiam tocar o Debussy do meu irmão. Eu não olhei, mas tinha certeza de que as varandas ainda tinham aquele ajuntamento de móveis de varanda mais ou menos da década de 1930, mantidos em perfeito estado, e que os jardins ainda estariam em perfeita ordem apesar da agressividade da flora local. O trem ainda passava pela casa por volta das 5 da tarde. O tempo era informado por uma coleção de relógios de parede colocados pela casa, e era possível ouvir seu tique-taque se tudo estivesse silencioso o suficiente. 

Porém por mais que eu quisesse acreditar que este lugar permaneceria assim para sempre, ele já estava mudando perceptivelmente. As mudanças eram sentidas como falhas na composição, pequenas coisas que estavam fora de lugar. Era o modo como as novas locomotivas nos trens eram silenciosas o suficiente para que eu só conseguisse ouví-las quando elas apitavam perto da estação, em vez de ouvir aquele ruído grave de máquinas vindo de longe alguns minutos antes. Era o jeito como três dos relógios de parede tinham parado, provavelmente querendo em vão que o tempo de fato parasse lá. Era o número cada vez maior de teclas defeituosas no piano que meu irmão tocava. 
Mas outras coisas deixavam a passagem do tempo ainda mais terrivelmente óbvia. Para começar, não houve comemoração de natal este ano. Tia Suzy nem sequer havia ordenado que montassem a árvore de natal. Não havia traço algum de natal em lugar nenhum.
Os empregados estavam ficando velhos. Nita, alguém que eu sempre reconhecera como uma garota curvilínea que cozinhava muito bem e às vezes cuidava de mim e do meu irmão, estava agora demonstrando sinais claros da idade. Fina, um pouco mais lenta nos gestos, um pouco mais enrugada. 
Porém o golpe final no meu coração foi encontrar a própria tia Suzy, sentada nas poltronas da sala de estar, assistindo TV. Nada especial sobre ela assistir TV, era como eu sempre me lembrava dela (embora o volume da TV ficasse mais alto com o passar dos anos...). O que era surpreendente era sua figura. Esmaecida e magra, tão magra que tinha dificuldade de fazer o mínimo movimento. Seu cabelo finalmente tornara-se acinzentado e parecia haver mais pele do que os ossos para suportá-la. Pessoas diziam que ela não estava comendo direito, mal bebia nada, apenas fumava cigarros e bebia café. Minha visita tinha a ver com sua chegada do hospital, onde ela tinha sido alimentada para que voltasse a alguma medida de saúde. Ela parecia para todos nós como alguém que estava desistindo. De tudo: da casa, da usina de açúcar, até de seu próprio corpo. Era compreensível. Ela era uma das últimas sobreviventes da sua geração da família, fora uma de suas irmãs que ainda morava em Maceió. Tinham sido quatro garotas e dois garotos (um deles o meu avô). Os anos haviam levado a maioria deles, incluíndo a tia Margô, que sempre me parecera como a líder da família ("matriarca"seria o termo errado: ela nunca tivera filhos), e que se sentava com tia Suzy naquela sala de estar. Parecia que sua história tinha acabado e tudo que sobrara era a existência naquela casa, desafiando o tempo e o esquecimento.     

Enquanto partíamos da casa, voltando para a casa das minhas primas mais para cima da colina, minha mente passeava pela poesia melancólica do que estava acontecendo lá. Eu imaginava aquele lugar, e como os relógios restantes parariam de funcionar, parando o tempo de forma que o próximo natal e reveillon seriam para sempre mantidos à distância. A casa pararia no tempo no ano de 2013. Nenhum trem das 5 seria ouvido novamente, com ou sem motores silenciosos. A natureza agressiva e verdejante ao redor da casa atravessaria as defesas, vindo tomar sol nas cadeiras da varanda, ou silenciar os pianos do meu irmão para sempre, ou fazer suas próprias árvores de natal mambembes pela casa e levar de volta a coleção de conchas que as tias tinham roubado das praias há muitos anos. Possivelmente finalmente seria acertada pela queda daquele ventilador de alumínio.
Na sala de estar, a TV estaria quieta. Aquelas pequenas e confortáveis cadeiras de balanço estariam paradas. Tia Suzy ainda estaria sentada na poltrona em frente à TV, sua pele transformada na casca de uma árvore frondosa que preservaria seus olhos plácidos e consideravelmente apáticos.


Fora do feitiço que trancaria a casa no tempo, o resto da família continuaria com suas vidas. Possivelmente deixando Utinga uma vez que a casa fosse vendida e indo morar em Maceió. A cidade estava crescendo e virando um lugar de oportunidade e meus primos (alguns que eu ainda considerava crianças até pouco tempo), estava encontrando seus jeitos de fazer suas próprias fortunas no tempo certo. Nada relacionado ao açúcar. O tempo continuava avançando, mais e mais rápido.  Em direção ao futuro.

Para longe do esquecimento.

Closing a cycle (sayonara, imouto-chan)

Despite the advice of psychoanalyst readers of this blog, I really need to begin this post by apologizing in advance. It will render me a lot of discussion with a lot of people involved. But I can't avoid being minimally committed to what little art I still do and I do consider this blog as a form of art, in a loose sense. That said, I need to close a cycle here that is being closed in my life, to explain a few things to myself, put all the anger away and move on. Otherwise this blog and the things in my head will remain incomplete. This might have dire consequences to the blog, given the long pauses that have happened.

Please notice that it took me something around nine months to write this post. The feelings included in it are no longer current, but I felt it would be important to write them down here anyway.

While I was getting another bunch of things to move from my parents' apartment to my own, I came across my collection of Video Girl Ai manga. It was such a pleasant time in my life. I'm constantly searching for other manga that touch my soul like that one. But I decided not to bring these magazines home yet. There was a metaphor contained in that whole story and taking them home would worsen my current withdrawal symptoms and the sadness. At that time, I had a childish tendency to compare the characters in that romance to people in my own. The main character, Ai Amano, a VideoGirl, was initially compared to Lee, but after a short time (and for a long time after that) that character was transferred to Nana. 

The VideoGirl came into the life (literally - from a video tape, she crossed the TV screen into the real world) of a pure-hearted boy who was having sentimental problems. She would serve him as a guide, as a companion while the boy healed, as an advisor in matters of the heart. And theoretically, she would never fall in love. In the case of Ai Amano, whose tape had been executed in a faulty VCR, she appeared with a few glitches. Among those, the ability to fall in love.

In my life, the character meant someone with whom I could have a relationship of complete trust and intimacy, being able to speak of all the subjects I would normally consider taboo when talking to girlfriends (the promiscuity, perversions, gender ambiguity, loyalty, etc...). Because after all, we weren't in any commitment, so there was no implied contract of any sort of loyalty between us, and each had their own affairs. This person was a best friend, and that friendship came before any love relationship, and that allowed for this unconditional freedom. There was however that delicious tension of something between the two.

Nana had been my VideoGirl for a while. We had total access to each other, through blogs, late night chatter on Skype or MSN, the short period we were in the same college class. At any moment, we knew quite well what was going on in each other's lives. We gave each other advice regarding relationships, regarding life. But contrary to a VideoGirl, a normal boy like me had the ability to fall in love. And so, in 2007, when she broke up her 7-year relationship with her boyfriend, I mustered enough courage to tell her. I caught her by surprise, and sweetly and tenderly, she dismissed me. She told me I was like a brother to her (something that would later provide me with the nickname of "Nii-san" - "older brother" in Japanese). Placed in the farthest reaches of the "familyzone" (further away even than the "friendzone"), I accepted the situation and buried any feeling I had. If I was more propper, I would have done what most people do and would have disappeared from her life. Cut off any contact. Sometime later, that would be the final lesson she would teach me.

The fact is I didn't want to be like most people. I wanted to be different, I wanted to be me. More than anything, I wanted to keep this person with whom I could open up, completely unafraid of being judged. After an initial moment's discomfort, life continued normally for both of us. She went back to her boyfriend. And I watched from the rafters while she took that downward spiral through depression, while she got pregnant from the unwanted daughter that would heal her from it, while she broke apart the relationship with the child's father that had lasted for as long as we knew each other.

Five years later. I was spending the year in London for my Masters' degree and our talks had gone back to what they were before I was exiled into the "familyzone". And they were good talks. Talks that were worth burying my feelings like I had done. VideoGirl talks. While I shaved my hair, while I faced my teenage traumas, while I reviewed sexuality, my native culture and my place in the world, she was someone who listened without judging. More than that, she was someone who even applauded and encouraged my attitudes, instead of just tolerating my strangeness. I never heard a single word of censorship from her. And I was someone who, when she found herself a single unemployed post-depressive mother, had been there to tell her she was still worth it. She had always been worth it and would always be. We were each giving the other what the other needed at that time. Falling in love was an obvious thing to happen. And when we talked openly about it, everything I had buried for five years burst up from the ground again and flourished. Neither of us had any control over it. And I must admit: it was beautiful. Writing anything about it would only cheapen what happened, but I can say it was beautiful.

Of course, my being in London was convenient. It gave us the possibility of sleeping on that and thinking it over. Because it wouldn't be that simple. She had ditched me in 2007 and, ever since then, I had started another good relationship that was full of understanding with Lexy. Five years. My longest relationship to date. With someone who went out on a limb to please me, to win my family over and chase her own dreams. Someone whom I'd come to respect as I had never respected any of the previous girlfriends. Someone who also listened to me throughout all the process of change that I had gone through in London and was also going through her own changes in life. 

Nana was never a big challenge for Lexy. Because Lexy was someone who would fight for things, for life, someone who liked achieving things. Lexy was an overachiever. Nana, on the other hand, just wanted some peace. She was concerned with her own happiness, and in a certain way, she wanted to be left alone. She didn't care about challenges. Challenges had lost any meaning to her after she recovered from depression (and these illnesses do have a way of putting things in perspective...). She didn't want to fight for anything, the only thing that mattered to her was happiness: pure, simple, limitless and with no concessions. And therefore, when I became a challenge, when I became something to fight for, she had no second thoughts about disconnecting from me and giving up the fight.

I suffered. I suffered a lot with the break-up of a friendship that had lasted for over 10 years. And however, she did teach me a lot. First of all, she opened my eyes regarding several of my little personal illusions. As I had mentioned in Laerte's post, she made me see how I had a tendency to "blame or demand certain things of others (and fate) that were in fact senseless demands". I had a rather vague idea that the world was fair. And in a fair world, those 10+ years I spent getting through her hard times, even if from afar, would be worth something. In a fair world, the fact that I had placed friendship over feelings would have been worth something, perhaps the continuation of that friendship. It would be worth reciprocity from her behalf in this recent situation. But of course, all of that was an illusion: we do not live in a fair world and those who really believe that have a lot of growing up to do. I had a lot of growing up to do.
No. We live in a cynical world, as a friend in London once said. A world that will laugh at you if you believe this sort of thing. I'm not saying Nana was laughing at me. She was simply trying to prove a fact of life: that she had no obligation whatsoever to deal with the likes of me.

She also opened my eyes as to a sort of pride that I had regarding my role in this story. Come to think of it, she had spent the greater part of those 10 years of our friendship dating someone else with whom she had shared a house and with whom she had eventually conceived a child. And then I watched her isolate that same person from her life and only failed to do it completely because their daughter still bonded them together for practical reasons (though, if she could, she would indeed completely ignore the existence of that person after that).
What right did I have to think I could be any more valuable than that person if I hadn't even shared my life with her that way? What right did I have to think that I was deserving of any more special treatment than the one dispensed on him, and that she would think twice or have any remorse in excluding me from her life in the same way? What's more: I didn't have "practical bonds" with her, so she could savor our complete and utter disconnection.

I decided to write this when I noticed a few months back that I had been excluded from her list of friends on Facebook. An apparently trivial, almost childish fact. A fact that might mean the world to people of my students' ages, and that an adult was supposed to ignore. But to me, it meant something. Because without Facebook or access to her blog and Tumblr, she was shutting down any form of contact I could have with her. Any whatsoever. Blocking any possibility that I may know what was going on with my alleged friend. The only way of contacting her again would be to call or write an e-mail (direct contact), which is something I promised her I wouldn't do on our last squabble ("don't worry, I will not bother you again"). And anyhow, I presume that even this sort of contact will soon be cut off as well.
On what little contact we had after that, she became colder and more aggressive. Until the final e-mail came in November, telling me not to contact her again. Ever. As she signed off, she called me by my real name and signed it with hers. It was a very symbolic and violent gesture. We had NEVER used our real names.

Before finishing this post, I need to make it clear that, despite it all, it isn't my intention to turn Nana into a sort of villain. It would be unfair to do it merely because I am the losing side of this story. It is actually quite the opposite, I believe she deserves some sort of recognition for reaching a sort of consciousness about herself that very few people have. I would have said "very few women", but the fact is I believe even very few men have it nowadays. A consciousness of placing her own happiness above everything. Rigorously everything: above matters of equivalence (that which is "fair"), above matters or morality, above friendships of over a decade. Quite the contrary, her happiness is worth A LOT. And she won't allow ANYTHING to threaten it. The careless would label her dangerously selfish. Feminists would call her a free woman.

I'll start simply calling her Mariana. Or even Anonymous. If I have reasons to call her anything at all.

Finally, I mentioned of the dire consequences for this blog. It was created vaguely around the same time I met her (a little more than a year later) and completed its 10th year in April, exactly on the day before she started her new relationship and began cutting all ties with me [1st post]. And since I just love coincidences like that with an almost religious fervor, I gave serious thought to closing down the blog. It would be a perfect cycle.

But alas, we're still here, I just felt I couldn`t give in to this. This cycle needed this closure and I needed to keep going on. Taking her advice on that final e-mail, I had to learn to put the past behind.
I believe I won`t be writing as often on this blog. I came to realise I wrote a great deal of things because I knew she was reading. I must learn again to write for myself. And as this post gets closer to the bottom of the page and can no longer be easily retrieved by readers (since the blog`s archive settings are busted...), so too will I put this whole story and pain aside.

sexta-feira, janeiro 11, 2013

Resumo do ano

Ando tão bodiado deste blog e das reviravoltas emocionais do ano passado que este vai ser o meu tradicional resumo do ano para o ano de 2012:

[Resumo]

That is all.

quarta-feira, outubro 17, 2012

Crônicas de Professor

Um dos meus alunos me entregou hoje uma sacolinha. Disse que era um presente de dia do professor. Confesso que recebi o mimo um pouco desconfiado: eu nunca tinha recebido nada assim e nem esperava criar esse impacto na cabeça de alguém tão cedo. Por que logo eu de todos os professores? Ele não precisava de nota, era um bom aluno. Também duvido que tivesse feito isso para muitos outros professores, pois os pais teriam desembolsado uma quantia salgada para mimar professores. Me pareceu algo sincero e exclusivo. Me senti especial.

Dentro da sacola, uns poucos produtos da Phebo. O presente gerou sensações engraçadas. Meu pai usava Phebo e eu identificava os perfumes ao estilo de masculinidade dele. Por isso, senti minha "adultice" confirmada com esse presente. O estilo de masculino paterno que eu lembrava na minha infância era um para o qual sabonetes com "1/4 de creme hidratante" ainda eram algo inexistente ou irrelevante. Um estilo que sentia um tipo de validação naquela sensação de pele esticada depois do banho. Eu lembro que eu gostava da sensação (talvez por gostar da ligação aspiracional que ela tinha com meu pai). Era um prazer meio bronco, meio rústico. Uma das minhas colegas professoras chamou de um prazer meio S&M. Eu não o estranharia depois das baladas do meu ano passado...
Havia também o deleite do perfume, que na infância fora marcadamente diferente dos perfumes dos meus produtos infantis. Era alheio, era mais complexo. Era daquele universo simbólico do moleque imberbe que se maravilha com os produtos de barbearia do pai.
Esse significado todo me pegou tão de surpresa que nem agradeci o aluno o suficiente. Preciso fazer isso!

Já fiquei sabendo que amanhã ganharei um outro presentinho. Enquanto isso, fico aqui pensando que deveria ter feito mais pela minha inspiradora professora de história do que apenas uma homenagem sincera no Facebook. Ela tinha que saber o quanto tinha sido importante.

E de preferência, enquanto ela estava viva.

quinta-feira, setembro 20, 2012

Elephant on the Bridge


I watched The Bridges of Madison County a few months back. And I thought the movie created this awkward elephant in the room. I wondered if it brought up the same issues on other people's minds as it did in mine. Here we have the story of this housewife who isn't particularly unhappy with her married life, but who isn't completely fulfilled either (is anybody ever completely fulfilled with marriage?). One day, while the husband and teenage kids are away on a trip, she meets this handsome, adventurous photographer who happens to be passing by and will only be there for a short while. They have a torrid love affair that lasts but a few days and when he is set to leave, she must make the choice of simply packing up her things and misteriously disappearing with him, or letting go of what could probably be the love of her life in favor of the safe and reliable family she has built over the years. In the end, she takes what could be considered the "moral" path (written in quotation marks, because once she has effectively cheated on her husband, morality becomes something to be questioned), and stays with the family. That is to say, she does "the right thing" (also written in quotation marks, as something to be heavily questioned...).

I remember hearing about The Bridges of Madison County from so many acquaintances who were married women. They would all say such wonderful things about the movie, about the actors portraying the couple (Merril Streep and Clint Eastwood), about the love they shared and how heartbreaking it was to see those final scenes when she makes the choice. And i hadn't realized until I saw the movie what a big elephant in the room it was. Because it was presented in such a beautiful way, that there was no way any emotionally sane person wouldn't be seduced by the story, wouldn't savour the love affair, wouldn't want them to be together. Still, it was the story of a wife cheating on her fully functional family. Plainly put, the movie sets a situation where it is difficult to concile reason and emotion. The question that lingers in my head and that I'd like to ask my married acquaintances is: "are you then seduced by the idea of having an affair like that (fast, intense, adventurous; but with a very high price to pay)?"

[Author's note: "fully functional family" sounds awful, like comparing a family to an appliance. I lack a better antonym for "disfunctional"...]

I guess the actual question is, does the movie make them think about leaving fully functional relationships for a good adventure? I know a fair share of people that would mindlessly answer "of course!". But when it really comes down to it, it's a really tough step to take! And that brings me to another movie ending, in Little Children. But I'm not going to bother you with spoilers on that.

quarta-feira, setembro 19, 2012

Bliss

Andei sumido do blog. Quase dois meses. Um dos hiatos mais longos por aqui ever.

Fato é que antes de continuar, há assuntos complicados em um post insalubre que vai repercutir muito mal, mas que eu sinto a necessidade de colocar por aqui só para documentar a vida e fechar ciclos. Talvez o faça em algum momento.  Mas não agora.

Agora eu queria postar para a família que lê o blog e a quem infelizmente as duas carreiras concomitantes não me permitem visitar com a frequência que eu gostaria. Queria escrever para dizer que, apesar dos assuntos supracitados, a vida vai muito bem. Mesmo.
Há uma sensação de contentamento nos dias. É um contentamento bem diferente da alegria meio melancólica e solitária de Londres, daquela aventura louca e maravilhosa de experimentar o impublicável e enfrentar os traumas passados. Mas é um contentamento. A palavra adequada vem do inglês: bliss (ainda existe o iogurte?). Um bliss que chega até a dar um pouco de medo, porque como a vida é sempre feita de altos e baixos, vai fazer uma baita falta quando eu deixar de ter. Mas não vamos sofrer de véspera, vamos curtir.

Bliss no trabalho do colégio. Onde eu chego e os inspetores que me conheciam de garoto e aluno me dizem "bom dia, professor". Onde a equipe de artes pergunta a minha opinião, quer saber, quer que eu dê ideias. E as idéias que eu dou são aprovadas e levadas a cabo. Eles também dão idéias fabulosas e me dão vontade de voltar a produzir arte (assim que eu conseguir algum tempo para reativar o ateliê...). Onde coisas estão sob minha responsabilidade e eu, pela primeira vez em muito tempo, me sinto amplamente capacitado para gerenciá-las (embora a quantidade delas seja um tanto atordoante...). Hoje estava pensando que é, além da empresa de tradução, uma das primeiras empresas que me contratam onde eu sinto a transparência e o respeito. Onde eu sinto que não tem jogo escondido, não tem discursos prontos para me convencer de como esse emprego é incrível e eu seria louco em abandoná-lo, não tem maracutaia contratual, evasão fiscal, parcela do salário "por fora", sacanagem com o meu FGTS e etc. Respeito. Assim dá gosto de trabalhar.
O colégio é onde eu lido com alunos da metade da minha idade que me fascinam com o modo como (alguns d')eles absorvem o que eu estou ensinando. Eles são um espelho que me faz sentir ainda muito jovem e paradoxalmente já bem experiente. Eles me lembram de mim, nessa idade. E de como eu queria ser nessa idade também. É moralmente questionável, eu sei, mas hoje com a experiência e atrevimento que eu tenho, eu me faço facilmente amigo da turminha popular que eu criticava mas da qual queria fazer parte na minha época de aluno. É uma sensação de que eu finalmente entendi o que é ser cool. Pelo menos para a idade deles... E eles reagem a isso. É gostoso de ver. Às favas com as críticas.

Bliss também na outra carreira, de uma rotina gostosa também. Receber de vez em quando uma mensagem da simpática Erika com mais um arquivo a ser traduzido, chegar em casa e relaxar antes de começar o "segundo turno" do dia. Neste mês me deram a primeira tradução de áudio, tradução simultânea onde eu tinha que gravar minha voz traduzindo em tempo real uma outra gravação. Achei o desafio interessante e me deu uma sensação de estar progredindo, sendo "promovido". E embora eu às vezes relaxe um pouco e perca a qualidade, a Simone, uma chefe que é uma melhor amiga, sabe me dar o puxão de orelha no tom adequado pra separar o profissional do pessoal. Trabalho de casa, na hora que eu quero, mas às vezes dá vontade de ir lá fazer uma visita no escritório, que fica há poucos quarteirões de casa. Só pra falar da vida.

Entre uma dezena de laudas e outra, eu faço uma pausa para aproveitar o bliss do meu apê. Desço para fazer ginástica quando a academia ainda está aberta. Nesta semana, aproveitando o calor infernal e seco que parece não ter fim tão cedo, terminei uma sessão caindo na piscina. Fiquei boiando lá e sentindo o corpo esfriar, e foi aí que essa palavra me veio à cabeça: bliss. Periga isso tornar-se um hábito. Depois de esfriar um pouco, volto pra cima para fazer comida e um café antes de voltar à tradução. O meu espacinho pequeno porém suficiente já está ficando com uma cara muito gostosa, com plantas, meus quadros e boas idéias de design vindas do Pinterest da minha mãe.

Bliss também em ver a Lexy aos poucos estruturando seu negócio, livre das amarras de empresas, seguindo o que meu pai disse ser o caminho da minha geração: o empreendedorismo. Os brownies ainda trazem pouco retorno financeiro (o que ainda gera bastante ansiedade...), mas há um ar muito promissor nas conversas, nas pessoas que curtem a página do Facebook dela, nas parcerias que até eu estou tentando ajudar a forjar. Gostosos também são os nossos domingos indo ao parque, e ela tentando acompanhar o pique que eu tenho tido desde que comecei a andar de skate.

Claro que há os amargores. Quando eles não estão presentes, a vida fica monótona e eu me ponho a fazer daquelas loucuras meio destrutivas (embora cheias de poesia). Tem sempre para onde desenvolver a vida, os projetos que nunca conseguimos arranjar tempo para fazer, os percalços da carreira de professor que eu ainda preciso aprender a resolver, as feridas das quedas de skate, a decoração do apê que sempre anda lenta demais pela falta de grana. Sem falar nos assuntos insalubres.

No entanto, há que se prestar atenção no positivo da vida. O resto a gente resolve aos poucos. Sem pressa. Se não resolver também, paciência. 

quinta-feira, agosto 02, 2012

O Laerte  recentemente publicou um par de textos [1] [2] muito relevantes sobre o tratamento psicanalítico.

Me chamou muito a atenção ele mencionar o tratamento da psicanálise como um esforço de "retificação e responsabilização" do indivíduo. No meu caso, posso sentir exatamente esse tipo de coisa, ao ser levado nas sessões a responder por uma série de idiossincrasias. Coisas que eu julgava serem a forma "correta" de se viver, e que no entanto, para novamente citar o texto, não passavam de "culpar ou demandar certas coisas dos outros (e do destino), que [eram] na verdade demandas insensatas".

Sensatez, aliás, passa a ser outra palavra interessante. Making sense, fazer sentido. Quando eu penso nisso, penso em agir de forma lógica e coerente, de acordo com o lado racional. E vou dizer uma coisa: eu cansei da coerência. Eu fico aqui escrevendo sobre a era pós-moderna e como não há qualquer obrigação por coerência estilística na arte hoje, mas acho que a coisa vai bem além. Não há qualquer obrigação por coerência hoje. Ponto.
Eu acho que a gente acaba negando muito do nosso lado subjetivo para poder ser coerente. Quando se fala em homens então, a coisa é pior ainda. E eu neguei mesmo. Muita coisa.
A terapia tem mostrado muita coisa conflitante, muito paradoxo, muita contradição. Mas também tem me deixado mais à vontade com as incoerências. Com poder dizer "sim, eu penso coisas conflitantes", "sim, eu quero um pouco de tudo". E na verdade, talvez essa seja a forma "correta" de se viver.

(""""""""""""""correta"""""""""""""" assim, com MUITAS áspas).

Combate

"...e na minha situação de hoje eu acho que eu teria como enfrentar um desses encontros de X anos de formandos do colégio".

"Enfrentar..." sublinhou o analista.

Nas nossas sessões, esse assunto tem aparecido bastante. Tenho algum receio de escrever a respeito, porque eu sei que todo mundo vai ficar reparando nisso quando lidar comigo. Mas resolvi que isso vai fazer parte do processo terapêutico todo.
O fato é que ele começou a insistir no fato de que eu encaro a grande maioria dos relacionamentos interpessoais que eu tenho como uma espécie de combate ou negociação (para evitar os comentários que surgirão sobre a minha escolha belicosa de termos...). Exceto por raríssimas exceções. Raríssimas mesmo. E mesmo essas, eu tenho a tendência a estragar. Vide exemplos recentes.

Eu não posso dizer com certeza que os anos de educação no meu antigo colégio tenham sido os únicos responsáveis por isso. Quiçá a tendência venha de antes disso e tenha sido apenas potencializada pela formação competitiva do colégio. E no entanto, eu ainda não enxergo como encarar as coisas de outro jeito. Eu só vejo o caráter cáustico dos relacionamentos amorosos, a competição profissional entre os colegas de trabalho e faculdade, o wrestling pela aprovação da família. Há sempre a consideração pelo Outro. E isso é sempre um combate, com estratégias, ganhos e perdas. É possível ser de outro jeito? Não totalmente, eu acho. Mas é possível ser menos assim, como percebo pelos meus exemplos próximos. Ou gente que simplesmente adota a estratégia de "não jogar o jogo". Mas mesmo isso é uma estratégia, né?

Falamos do colégio. E é engraçado, porque isso me trouxe a um exemplo paradoxal de mim mesmo. Eu sou assim, de encarar as coisas como esse combate, mas sempre adotando as vias mais passive-aggressive, evitando o confronto direto e violento, fazendo de tudo para evitar brigas. Como se enxergasse o confronto, mas tivesse medo dele. Minha atuação como professor é o exemplo perfeito: faço de tudo para dominar a classe, mas ainda sou cheio de pudores para dar broncas e excluir da sala, por receio dos alunos . Os alunos percebem. E testam limites.

Talvez tenha sido cedo para escrever aqui. Eu ainda preciso pensar mais sobre o assunto. Voltei para casa me perguntando se o melhor seria aprender a confrontar diretamente, perder esse medo e evoluir; ou seguir os exemplos de quem se excluiu do jogo, largar esse papel e me exilar do convívio social.

O importante é: eu de certa forma cansei disso. Concordo com o analista (e com boa parte dos comentários que virão) que há de existir outro modo de conviver.

quarta-feira, agosto 01, 2012


Tinha muita coisa que eu precisava escrever.
PRECISAVA mesmo. Pra poder continuar com o blog.

Mas eu estou me sentindo extremamente vulnerável à crítica. Sim, porque estou cada vez mais ciente das falhas de caráter mesmo... E consciente do quanto quem lê estas páginas conhece justamente estas falhas.

Me falta estômago para seguir adiante.

É... Quem diria que até eu um dia chegaria naquela coisa torpe de expôr todo meu âmago e depois reclamar de me sentir exposto... Pela primeira vez em muito tempo, essa exposição me incomoda. Eu não duvido da minha capacidade de argumentar contra comentários de anonimas ou mesmo de amigos que se identificam. Eu posso argumentar até exaurir a outra pessoa, mas vai ser só uma defesa, eu ainda estarei errado e sabendo que estou errado.O que incomoda é me perceber errado mesmo. E querer falar sobre isso  para todo mundo sem sofrer consequências, sabe? Só falar. Que todo mundo saiba que eu SEI que tenho meus problemas. E que eu preciso de suporte. Não de pointing fingers.

Mas tá, Vamos acordar e enfrentar a realidade. Eu vou tentar escrever e aguentar as pedradas. Faz parte do tratamento mesmo.

terça-feira, julho 24, 2012

Anima Mundi 2012


Começa amanhã a 20ª edição do Anima Mundi (site oficial). Pensar que o festival já tem 20 edições e é um dos três maiores festivais do gênero no mundo diz muito sobre como o Brasil passou a respeitar esse tipo de arte nas últimas duas décadas. Eu mesmo acompanhei várias edições, desde os anos 2000. O festival acontecia em duas salinhas no prédio da FIESP na época em que eu comecei a frequentar. Lembro até hoje de ter visto um filme dos irmãos Quay que me impressionou muito, mas que não foi muito bem compreendido pelo público. De lá pra cá, o festival ganhou lugares mais privilegiados, como o CCBB no centro da cidade e o Memorial da América Latina, onde três sala exibem mais de 500 filmes estrangeiros e nacionais e outras barraquinhas fornecem ao visitante a chance de testar sua habilidade em várias técnicas de animação. Já experimentei animação com areia, massinha, zootrópio e a animação convencional. Ainda não fiz o pixilation, que é sempre concorrido por não depender da habilidade de desenho das pessoas. Mas o auge foi há umas três edições, quando a turma do estúdio japonês Pika Pika veio fazer animação com lightpainting (desenho com lanterna captado por uma câmera tirando fotos em velocidade bem lenta). Cada ano traz novas surpresas.

Alguns nomes se destacam nesta edição do festival. Don Hertzfeld (sim, aquele do Genre que a minha turma de 9º ano viu nesse segundo bimestre!) está aí com uma animação pra lá de grotesca, mesmo com traços bem simples. Tem bons filmes de stop motion como o Ponto de Equilíbrio de Analúcia Godoi e Cafeka de Natalia Cristine. Kim Jin Ma traz o Noodle Fish, uma animação legal com desenhos feitos na areia. Amir Admoni traz o Linear, que eu aposto que foi baseado nas esculturas diminutas do artista de rua britânico Slinkachu. E Morten Helgeland traz uma visão hilária da guerra entre uma senhora de idade e as lesmas no seu jardim em Slug Invasion. E em um clima mais triste vem o Mentiras são Contadas em Julho de Rogério Vilela. Tem muitas outras coisas boas por aí, então vale a pena simplesmente comprar sessões a esmo e ver o que a sorte traz.

O festival acontece no CCBB e no Memorial da América Latina, de 25 a 29 de Julho.
As sessões começam às 10:00 da manhã e a última sessão do dia acontece às 23:00.

Aproveite!

quinta-feira, junho 28, 2012

Crônicas de Professor

O Clube de Desenho dos Excluídos

"Professor, me dá um assunto para eu desenhar?"
A ideia partiu de Luisa, uma das minhas alunas do 7º ano. Eu tinha percebido a Luísa atrás da classe. Ela era do tipo que se destacava. Grande, cabelo crespo, camiseta preta de banda de heavy metal. E no entanto, uma doçura e timidez incomparáveis. Ela já me mostrara personagens em um caderno e eu acho que tinha mostrado os postais da Butcher.

"Tá. Deixa eu pensar. Mas você me dá um assunto também?"

No fim da aula, havíamos começado algo curioso e muito interessante. Pensando em um outro exercício baseado em um poema das aulas de espanhol, lembrei que os alunos do 8º andavam me perguntando como representar em fotografia uma mentira. Então esse foi o tema que Luisa teria que desenhar para a semana seguinte. O tema que eu desenharia: uma ideia de morte. Luisa estava ficando cada vez mais interessante.
Quantas vezes eu não pensara no assunto? Não como o suicida (tá, desse jeito também, todo adolescente cogita...), mas de um jeito bem pragmático, sem juízo de valor. E eu conhecia o drama desse tipo de adolescente: qualquer menção que se fizesse ao assunto já disparava alarmes nas cabeças de pais e professores, e às vezes você só queria se indagar sobre o assunto. Ou às vezes essa preocupação dos mais velhos só exacerbava um sentimento de isolamento e incompreensão que o adolescente sentia e o mergulhava mais fundo nos pensamentos de morte. Eu vi nisso uma chance dourada. A chance de, como alguém que já havia estado lá, poder dar o espaço para que ela falasse disso até esgotar o assunto, sem julgamento, sem alarme, como apenas um fato da vida. E calejar alguma dor que a estava corroendo.

Luísa me trouxe uma resposta inusitada. Um bom desenho de um palhaço com os dizeres "Palhaços mentem". Eu não soube ao certo o que tirar disso, mas acho que em um primeiro momento, importava mais a resposta que eu lhe daria. E entreguei um desenho em grafite sobre papel preto (o grafite fica claro no fundo escuro) de uma cabeça de um robô separada do corpo, flutuando desligada por esse nada. Os dizeres eram algo do tipo "Onde não há tempo nem espaço, pois não há corpo para os sentir." Tivemos uma breve conversa sobre essa ideia. Uma espécie de paz perene, a libertação do "não ser", depois que a máquina que era o nosso corpo fosse desligada. Sem céu, inferno e deidades julgadoras. Apenas um nada. Pleno e correto.

Na segunda rodada da brincadeira, a Mari apareceu. Uma amiga de outra sala que nos viu entregando os desenhos um para o outro e quis participar. Apesar de tão alta quanto a Luisa, ela não tinha chamado tanto a atenção pessoalmente. Eu a percebera no Facebook por ela ser uma otaku (and proud of it...). E depois, em aula, chamou a atenção pela qualidade da produção acadêmica, o intelecto desenvolvido o suficiente para apreciar abstração e experimentação com materiais. Mas a rigor, era outra garota grande com um temperamento tímido e voz baixa.
Nessa segunda rodada, apareceram temas como "mulher" (meu para a Luisa desenhar), "drogas" (da Luísa para a Mari) e "aparência" (da Mari para mim). E novamente, a Luísa me interessou. Eu lhe pedira para pensar em "mulher" para ver como ela se relacionava com a questão dos padrões de beleza e toda aquela besteira que traumatiza profundamente as adolescentes.

Ela me trouxe o desenho de um travesti e dizeres sobre estar em um corpo errado.

A terceira rodada está em andamento. E com duas participantes novas. Laura é uma terceira menina alta. Com um temperamento mais pesado (porém nunca violento). Revelou-me que é escritora além de desenhar (ah, as memórias da minha época de colégio...). Aparenta um profundo ceticismo em relação à vida, como alguém que já passou por mais do que deveria nessa idade. A outra é a oriental  Kellen, a primeira garota pequena do grupo. Me parecia o ponto fora da curva, até lançar despudoradamente o tema de "câncer" para  uma das meninas.

Nas reuniões de professores, os outros têm recebido bem a minha iniciativa, apesar de me acautelarem. Dizem que eu preciso ter uma boa noção do meu papel como professor. Eu não sou um terapeuta, eu não sou um potencial pretendente amoroso, eu não sou sequer um melhor amigo. Eu sou um professor. E elas precisam ter isso claro na cabeça. Dizem que há um limite para o quão íntimo eu posso ser delas sem receber nos ombros a responsabilidade pelas questões psicológicas delas.
Eu continuo defendendo que, em um ambiente desses, cheio de pressões (sociais, acadêmicas e biológicas), muita gente precisa ver na arte um espaço para descarregar o peso. Um espaço sem nenhum adulto entrando em pânico ao ouvir adolescente falar das questões brutais da vida (já existe a turma bem treinada do departamento de Orientação Educacional para isso).
Eu vejo principalmente na atitude da Laura que elas precisam de um espaço e uma experiência emocional que faça sentido para elas. Elas querem sentir alguma coisa. E taboadas, regras gramaticais e fatos históricos decorados para ganhar nota só as estão anestesiando mais.

Eu acho que é isso que deveria ser a aula de arte. Expressão irrestrita. Sem medo, sem censura e transgredindo os limites dos temas PG-13.

sexta-feira, junho 15, 2012

Binge gaming

Tem gente que bebe, tem gente que renderiza.

Pois é... Eu jogo.
Eu falava meio brincando que jogar vídeo game era que nem vício pra mim. Que nem alcoolismo, essas coisas. É um clichê que o bêbado bebe para esquecer da vida. É uma "diversão" que tira sua cabeça de um momento doloroso qualquer. E ele não consegue se livrar daquilo em parte por um imperativo biológico, mas em parte também porque no momento em que ele fica sóbrio, ele tem que lidar com os problemas (às vezes insolúveis) que continuam lá. Em suma, ele bebe para "não ser"  por algum tempo.

Nos meses recentes, eu tenho tentado "não ser" um pouquinho também. Eu sempre me policiei bastante no sentido de não ter consoles de games em casa e nem instalar jogos complexos no computador, nada que pudesse me viciar demais ou me tirar da realidade por mais do que alguns minutos (afinal, apesar do vício, todo mundo precisa de algum descanso). Fiquei apenas (e inevitavelmente) com os jogos online em browser, daqueles que não precisa instalar nada no computador. Desde Londres que o meu game para "jogar socialmente" é o Mahjongg Dark Dimensions (dá pra perceber o quanto eu jogo porque eu devo ainda estar na lista de pontuações mais altas do dia...). Dá pra terminar em uns 15 minutos. E como toda droga, tem seus efeitos. No meu caso, é um estimulante. E eu usava em Londres para dar uma acordada durante as traduções que eu fazia de madrugada.
Só que nos meses recentes eu tenho me dado esses intervalos com mais frequência. Mais do que "socialmente". Talvez porque queira "não ser" mais frequentemente, como o bêbado que bebe para esquecer o problema que continua lá. E esses excessos têm seus efeitos nocivos (ou você acha que excesso de vídeo game é só a mãe enlouquecendo porque você não sai do quarto?). Eu percebo a "bebedeira" quando fecho os olhos e ainda consigo ver as pecinhas. O jogo continua na minha cabeça. E ele não vai parar. Há uma infinidade de pecinhas na escuridão, surgindo da névoa para serem clicadas e pareadas.  Cubinhos a perder de vista.
No feriado, me apresentaram o Drop-7. Agora eu posso "não ser" nas viagens de metrô também. Patético, não? Pior de tudo é que junta uma droga na outra e eu começo a atribuir valores numéricos para as forminhas bizarras do Mahjongg. Triângulos vermelhos, por algum motivo inexplicável, valem 4 (4 do que?). Pirando legal...

Apesar do nível da coisa estar perigando neuroses, o vício ainda não me incapacitou. Eu não jogo enquanto estou com pessoas, enquanto estou no colégio, enquanto consigo ocupar a cabeça com outras coisas. A vida segue (talvez em um ritmo mais lento do que eu gostaria), apesar da bebedeira. E no entanto, tem os dias de folga, onde não trabalho e não traduzo, em que já passei uma boa porcentagem do dia nos jogos. Me preocupo.
Em inglês, há um termo que se usa quando as pessoas se entregam totalmente ao excesso, perdendo toda a dignidade e o controle. Going on a binge, ou no caso da bebida, binge drinking. 

Tenho passado algum tempo binge gaming.