segunda-feira, junho 29, 2009

GamePlay Itaú Cultural

O Papo de Artista noticiou a abertura da mostra GamePlay no Itaú Cultural. A mostra faz um panorama do que acontece no âmbito dos jogos atualmente, comdireito a concurso de programadores para desenvolver um jogo em 48 horas (GameJam), festival de músicas criadas com os sintetizadores de som dos games (GameMusic com musiquinhas pentelhas em midi) e mostra de curtas criados dentro dos jogos (os chamados Machinimas, como o famoso Red vs Blue), além de 44 consoles dos mais diversos tipos para os visitantes jogarem (ai, o vício tá começando a se manifestar...).

A exposição foi organizada pelo núcleo de pesquisa em meios digitais do Itaú, o Itaulab. Suspeito a participação de uma ex-professora minha de meios digitais que é uma pesquisadora de peso no país.

O que é muito interessante da exposição é que ela mostra que a equipe do Itaú passa a tratar os games com a mesma atenção que confere a outras mídias tradicionalmente consideradas como formas de arte respeitadas. É o game passando a ser considerado arte. Bom... pelo menos pelos expositores.

Agora cadê os alunos de faculdade de arte assumindo o papel de produtores dessa nova forma de arte? Por aqui, games ainda são produzidos pela galera de programação, com formatos bem tradicionais comos os jogos de plataforma, tiro e RPG. Nada do naipe de jogos abstratos como o russo Tetris ou ambientes como The Path e Endless Forest do estúdio belga Tale of Tales. Nada com mais profundidade do que a velha história de salvar a princesa e coletar 100 moedas. Nada com mais propósito do que um jogo comercial ou advergame. Alguém se habilita?

AHIGE

[dica da @perseph0ne]

Tá, vai parecer meio ridículo no começo...
Continuamos falando da Espanha. Li este artigo sobre a ONG espanhola AHIGE (Associação de Homens pela Igualdade de Gênero) que faz campanha pelo que eles chamam de "pariedade", a igualdade de gênero.
Com cursos sobre cuidados da casa, ela promove que os homens ajudem nos afazeres domésticos, dizendo que o machismo não é coisa de gente menos instruida, como muitos pensam. Tem muito homem culto que age com igualdade na rua, mas deixa todo o cuidado da casa e filhos nas mãos da mulher. A desculpa mais comum é a de não saber fazer essas coisas prosaicas como lavar e passar roupa, por exemplo. Os cursos oferecidos pela ONG ainda incluem costurar, cozinhar e arrumar a casa, além de cursos sobre cuidados dos filhos e auto-estima.
A primeira coisa que tenho a comentar sobre isso é que eu já estive lá. Mas seis meses na Europa, tendo que cuidar de mim mesmo logo concertaram boa parte dessas coisas. Claro, a volta para o lar dos pais colocou essas novas habilidades na geladeira...
Mas acho que a ONG dá um passo muito importante e que frequentemente vai ser mal compreendido. Porque é sinal de força e superação para uma mulher vestir calças e ir disputar no braço um emprego de gerente de multinacional com uma corja de homens acostumados ao patriarcado. Mas o homem que resolve que vai gerenciar uma casa de forma melhor e mais eficiente que uma mulher só ouve chacota, humilhação, masculinidade questionada. Não é de se surpreender que a AHIGE receba tantas ameaças de grupos machistas.
O outro ponto que tenho a colocar por aqui é sempre meio controverso. Se a ideologia pregada é a da igualdade entre os sexos e todos vamos nos tratar como seres humanos neutros em questões de gênero, que se diz daquelas velhas máximas protecionistas ("mulheres primeiro") e minúcias de etiqueta (abrir a porta do carro para a mulher, servi-la primeiro à mesa, pagar a conta do restaurante) que favorecem a mulher? Algumas já viraram clichê do discurso feminista, como a história da conta do restaurante que as mulheres hoje gostam de dividir. Mas nas demais, a contenda é sempre similar: os homens concordam que a ideologia de igualdade deve se estender a tudo, enquanto as mulheres querem manter os privilegios alegando serem questão de boa educação supostamente anterior a toda a discussão. Pessoalmente, e eu sei que essa opinião vai mexer com alguns ânimos, eu continuarei a manter minha (vergonhosamente parca) etiqueta em relação às mulheres, mas concordo com a opinião de que, se elas já podem gerenciar multinacionais e jogar futebol e nós podemos cuidar da casa e ter emoções, então elas podem também abrir suas próprias portas de carro...

Geração "Nem-Nem"

O @texz colocou no twitter um link para outra daquelas matérias [em português] cada vez mais frequentes sobre a Crise dos Adolescentes de 25 (Quarterlife Crisis). Desta vez, a análise foca na sociedade espanhola, onde filhos chegam a morar com os pais até além dos 35 anos de idade.
Muito do texto é a mesma discussão do outro texto da Eyeweekly que eu postei por aqui. Mas vale ressaltar alguns parágrafos muito bem escritos e elucidativos:

"O modelo de vocação profissional que implicava um projeto de vida futuro e um destino final conhecido, com seus esforços e compensações, desapareceu. Agora, a incerteza se impõe no trabalho e no casal e não está claro que a dedicação, o compromisso, o estudo, o título, terão sua correspondente compensação social e trabalhista", afirma [Eduardo Bericat].

[...]

"[Os jovens] aplicam a estratégia de flexibilizar os desejos e de reduzir compromissos; nada de esforços exorbitantes quando o benefício não é seguro. Como o risco de frustração é grande, preferem não descartar nada e definirem-se pouco", explica Eduardo Bericat.

Achei esse detalhe muito interessante, porque é como muitos de nós se sentem. Os empregos pagam cada vez menos e dão cada vez menos benefícios. O caso é ainda pior nos Empregos que Todos Querem. Vide agências de publicidade: as grandes e famosas não pagam porque estão "te fazendo um favor" ao incluírem o nome delas no seu currículo, enquanto as pequenas e desconhecidas não pagam porque não têm dinheiro.
Ouvi esses dias de uma colega minha no twitter que "tem que amar muito o que faz pra estar em agência. O estresse é alto, o reconhecimento é baixo, a autonomia inexistente". De fato, amar muito, ser muito burro ou muito conformado. Ou qualquer combinação dos três... Frente a essa realidade, minha geração se vê desmotivada a fazer grandes esforços de carreira porque a compensação é pouca e às vezes até inexistente. É chamada por sociólogos de geração "nem-nem" porque antigamente, quem não procurava um mestrado para continuar os estudos, procurava um trabalho. Esta geração não vê propósito em procurar nenhum dos dois, porque nenhum deles oferece retorno relevante a médio prazo. A situação é tal, que alguns empregos tidos como mais nobres pagam salários modestos semelhantes aos de empregos mais simples, para os quais não é necessária uma formação muito extensa.

"Muitos dos 200 mil novos universitários formados a cada ano enfrentam com pessimismo a busca de emprego. Sabem que há uma grande porcentagem de vagas para caixas, repositores, armazenistas, balconistas, etc ocupados por diplomados ou licenciados", afirma Yolanda Rivero

O texto comenta que, pelo menos na Espanha, as opções que oferecem estabilidade de vida são cada vez mais escassas e menos atraentes. Sinto que por aqui também é assim. O autor prevê um declínio vertiginoso na qualidade de vida dos espanhóis nos anos vindouros e termina comentando como a atual situação é um barril de pólvora prestes a explodir: o que acontecerá quando a atual geração de pais que sustentam a geração "nem-nem" se aposentar?
O complicado dessa vida digital de grande metrópole é que estamos constantemente na correria. Eu vou recebendo coisas interessantes que adoraria postar por aqui e vou guardando tudo no e-mail "pra postar mais tarde". Só que esse "mais tarde" nunca vem e as coisas vão acumulando. Resultado: enxurrada de posts! Segura que hoje tem bastante coisa...

quinta-feira, junho 25, 2009

Simpsons e o Masculismo

In the past quarter century, we exposed biases against other races and called it racism, and we exposed biases against women and called it sexism. Biases against men we call humor.

Warren Farrell

----------

Eu sou grande fã de Simpsons. Eles inauguraram um tipo de desenho animado bem crítico, com piadinhas que passavam reto pelas crianças e só eram compreendidas pelos adultos. Um tipo de desenho que criticava a América com um humor ácido, agressivo como as cores do desenho e totalmente contrário ao "grande sonho americano". Na sua trilha seguiram Beavis & Butthead, South Park, King of the Hill e Family Guy, só para citar alguns. Por tudo isso, pretendo ainda continuar assistindo sempre que possível, enquanto continuar quebrando o récorde de série animada com mais temporadas.

Mas já que estou enveredando por essas pesquisas relacionadas ao masculismo, não posso deixar de apontá-lo como um dos desenhos mais preconceituosos contra o homem que me vêm à cabeça. O preconceito pode ser avaliado em boa parte dos personagens da série, salvo alguns raros pontos fora da curva, mas vou analisar pela família protagonista da série.
Em uma visão bem generalista, dá pra ver o padrão. Todas as mulheres da família, da mãe de Marge, Jacqueline Bouvier, até a bebê Maggie são inteligentes e relativamente refinadas. Maggie até resolve certos dilemas usando lógicas mais complexas do que seu simplório pai é capaz. Enquanto isso, os homens da família, do avô Abe Simpson ao filho Bart, são o retrato perfeito do "homem frouxo" do Robert Bly: torpes, preguiçosos, delinquentes.
Homer é a figura perfeita para ilustrar a questão do pai ausente. Trabalha em um emprego que não é seu próprio negócio, fazendo algo que não lhe interessa e nem lhe oferece crescimento pessoal. É completamente alheio a tudo que se passa em sua casa, mas ainda se proclama chefe da família. Não serve de exemplo masculino para o filho, que embora seja mais inteligente, está fadado a uma maturidade similar.
Claro, há mulheres problemáticas na série, como as amargas irmãs de Marge, e homens que mostram lampejos de maturidade ainda não definida, como o Sr. Burns (que estaria mais próximo do homem dos anos 50, do que de um homem formado, completo). Às vezes os roteiristas até tentam instilar defeitos de caráter nas personagens femininas, só para não deixar a coisa tão desagradavelmente desequilibrada. Assim como dão a Homer o papel de resolver os problema familiares com soluções surreais e completamente impossíveis, mas que lhe devolvem um pouco da dignidade de patriarca. Ou seja, mascaram mal e porcamente o excesso de maniqueísmo sexista da série. E acho que o fazem de propóstio, para que todos percebam.

Em todo caso, não estou apontando esse traço da série como algo ruim. O propósito de seus criadores é justamente criticar a sociedade americana, que atualmente encontra-se mesmo nesta situação e acho que eles fazem um trabalho formidável, embora exagerado.

Alguém aí consegue citar um exemplo masculino descente e maduro nos Simpsons?

segunda-feira, junho 22, 2009

Alice, Alice, Alice


Quando se mexe com uma coisa tão carregada de simbolismos e sacralidade quanto a arte, a vontade de dotar toda e qualquer coincidência de significados maiores é grande.

Hoje recebi dois links interessantes relacionados à personagem de Lewis Carroll, a avatar favorita da internet, Alice.
O primeiro vinha do Papo de Artista e era uma matéria sobre o animador Jan Svankmajer. Embora falasse de outra coisa, tinha um video de stop-motion do animador sobre a personagem que achei muito gostoso. Svankmajer, fiquei sabendo, influenciou meus favoritos, os irmãos Quay [1][2].
Depois recebi a notícia de que saíram as primeiras imagens da versão do Tim Burton para a continuação da história de Alice. Temática já explorada no jogo da American McGee [1], o filme vai contar a história da personagem voltando ao País das Maravilhas quando adolescente.

Alice World 1-1Mas o que mais me impressionou aconteceu na sexta.
Dia desses encontrei o Acidtwist, site de um artista denominado apenas por Tavish, com um visual de Flash bem interessante. As pinturas do artista figuravam garotas com aquela sensualidade pré-adolescente clichê e membros alongados típicos dos animes atuais. As cores eram bem cítricas e me faziam lembrar de chiclete. Por algum motivo, guardei o link e revi esses dias. E só então percebi a assustadora semelhança que a pintura mais recente na galeria tinha com minha Alice. O corte de cabelo, o vestido curto, as meias listradas. Trocara o tom de rosa por verde pastel e faltavam o bracelete de couro e o laço. Mas fora isso, era ela. em versão pré-adolescente de anime. O título do quadro, Alice World 1-1, e as referências a jogos de plataforma no cenário eram ainda mais desconcertantes para mim, porque a última Alice que desenhei e não postei aqui acompanhava personagens do Bioshock [1][2] e inaugurava minhas intenções de mergulhar Alice em um mundo relacionado aos games, assim como as histórias originais de Carroll tinham referenciado outros jogos (cartas de baralho e xadrez).
Não acredito que se trate de plágio. As referências que usei são muito comuns na internet hoje: Alice, o corte de cabelo à la anime, as meias listradas, o videogame... No mais, trata-se de uma pessoa sem qualquer conexão comigo. Ficaria até lisonjeado se minha Alice tivesse viajado tão longe. Escrevi para o artista, que não atualiza o site há um ano, mas ainda não tive respostas. É quase como se ele tivesse sumido e a personagem tivesse sua própria vida na net.

Para voltar ao mote do post, se eu fosse um pouco mais supersticioso, acreditaria que Alice está me chamando para desenhá-la de novo. E às vésperas de outra viagem, seria até muito conveniente...

terça-feira, junho 16, 2009

When do mice abandon the ship?

And so it begins.
In a casual, heart-felt conversation with my captain, I found he wasn't surprised at all. This boat has been sinking for quite a while now, the boards on the deck falling apart as we lose sailor after sailor. The remaining few try to look at each other in the eye and convince themselves that the storm will pass and they'll survive, but the truth is this boat has been sinking for quite a while and everyone knows it. Captain doesn't show it, but he's already lost his will to struggle.

So I chose. After believing for so long and hoping for better days that never came, I chose to see this desperate situation for what it was. And thus, I jumped overboard, abandoning the ship. I had waited for a sturdier vessel to leap aboard for months, but none presented itself. Even if I had seen such a vessel, could I hope to be more than just a low-class sailor, a deck-scrubber aboard it? Nay. To hell with the sailor's life! I jumped overboard. Never to set foot on a ship again.

I now find myself wondering how will I survive in the water. Can I swim for myself? For how long? What lies before me is an endless depth of darkness that both scares me and beckons me. I am free and I am vulnerable.

Brace yourselves, lads.

segunda-feira, junho 08, 2009

Redenção

Hoje passei o olho no blog e fiquei feliz em ver que a grande maioria do que tenho escrito tem algum conteúdo relevante e não é apenas blogterapia. Quero ainda fazer deste um blog que as pessoas procurem e queiram ler pra saber de coisas do universo das artes plásticas na cidade. E blogterapia não entra nos blogs de respeito que eu conheço.
Talvez por isso mesmo eu tenha relutado um pouco em escrever este post e quebrar o ritmo. Mas queria ainda assim fazer um panorama geral do que tem acontecido nos últimos meses, minha mudança de rumo, porque acho que tem muita coisa valiosa a ser comentada e aprendida.
Já não tenho receios de escrever por aqui que estou desgostoso com o trabalho na agência (tenho até vontade de explicar por aqui meus desgostos, mas seria pouco profissional e tedioso). Se alguém relacionado à agência ler isto e não gostar, certamente estará me poupando de dar o primeiro passo em uma discussão que já deveria ter acontecido.

[blogterapia mode]
Desde o começo do ano, venho procurando alternativas. Em plena crise econômica. Procuro nas artes plásticas, porque se a publicidade não me levou a lugar nenhum em cinco anos, acho que fica claro que não é o meu ramo. Toda agência que procuro só me oferece um cargo de assistente de arte por um salário irrisório. Há cinco anos...

No mês passado, com pouco esforço consegui uma entrevista interessante na Nara Roesler, uma galeria de nome no cenário das artes. Pensei que, pra ganhar pouco, eu pelo menos faria algo dentro da minha área de interesse. Só não imaginei que o "pouco" fosse tão pouco. Claro: afinal, trabalhar em galeria é outro daqueles Empregos que Todos Querem.
Voltei pra casa arrasado com o dilema. Eu já estava ganhando metade do que eu acho que é o meu valor na agência, e este novo salário me daria menos de um quarto do que eu queria ganhar... Mas ainda assim, era um emprego de nome, que eu teria orgulho de por no currículo! #comofas?

Meus pais sempre têm pontos de vista relevantes quando estou nessas enrascadas.
Mamãe foi infalível. Disse-me que eles ajudariam com os meus gastos, desde que o trabalho na galeria fosse relevante para o meu objetivo de vida. E em seguida lançou a derradeira pergunta: qual é o objetivo? Certamente não era ter uma galeria. Portanto trabalhar em uma soava como tomar outro caminho errado. E se era ser um artista plástico, eu não conseguiria isso me escravizando lá das 9 às 18 por um salário insultante e continuando sem tempo para desenvolver minha arte. Mas também não era ter uma agência de publicidade. Portanto me escravizar das 9 às 18 na agência por metade do meu valor também já não fazia mais sentido. Nenhum trabalho em publicidade fazia mais sentido.
Que poder tinha essa pergunta. Percebi que já fazia muito (MUITO) tempo que eu a perdera de vista. Não sabia mais o que eu queria para minha vida, só sabia o quanto eu queria ganhar. E isso era mesquinho e claro em todas as minhas intenções. Por isso nunca consegui que me levassem a sério. Já faz algum tempo que percebi que o que mais falta na minha vida é foco.
As respostas que dei pareciam fracas, inseguras. Queria ser artista plástico, queria dar aula em faculdade de artes. Será? Nenhuma certeza, apenas a sensação de que era sim bem mais próximo da verdade do que a publicidade. "Então vai ser capacho de artista plástico em vez de assistente de publicitário" dizia mamãe. "Ou vai na faculdade saber o que é preciso pra virar professor". E as contas? "Que contas? Você está nos seus vinte anos, não tem filho e nem casa pra sustentar!" So true... O que eu tinha era um vício por dinheiro. Um prazer em gastar sem pensar no quanto me sobrava no fim do mês. E pra não perder isso, estava perdendo a juventude. Não confundir com a Síndrome de Peter Pan daquele outro post. Estava perdendo as possibilidades da juventude, as portas abertar a carreiras mais interessantes.
Sim, eu darei aulas de inglês, farei trabalhos freelance de publicidade, tentarei vencer concursos de arte. Qualquer coisa pra me sustentar, desde que me permita seguir meu caminho nas artes. Desde que não me acorrente a uma mesa das 9 às 18, tirando-me o discernimento entre os dias todos iguais. Desde que não tire de mim o artista plástico.

Hoje voltei para casa e, conversando com meus pais sobre o dia, mamãe perguntou quanto tempo mais eu daria de chance a essa agência e por que eu já não tinha saído. Não soube responder. Porque a verdade é que nem eu sei mais o que estou fazendo lá. Só não tive coragem de sair ainda, pelo medo do desemprego.
Chega a ser engraçada a inversão. Eles deveriam estar me empurrando para ficar empregado, ganhar dinheiro, me sustentar. Não é isso que todo pai faz? Mas minha infelicidade já é tão gritante que eles me empurram para a demissão em vez disso. Porque minha felicidade vale mais pra eles.

Roam-se de inveja, eu adoro meus pais...
[/blogterapia]

quarta-feira, junho 03, 2009

This Hollow World [•]

Ou Everything is a version of something else.

Um dos meus livros de cabeceira ultimamente tem sido o Postmodernism de Eleanor Heartney que eu citei no post sobre a exposição do Vik Muniz. Ele explica muito sobre muita coisa do que acontece hoje, dentro e fora das artes.
Dentre outras coisas, explica que a atual tecnologia de comunicação cria uma realidade onde temos mais interação com a representação das coisas do que com as próprias coisas. Principalmente nas grandes metrópoles, onde todos estão fazendo o malabarismo entre trabalho, correr atrás do sonho (que geralmente não tem a ver com o trabalho) e consumir a dose de cultura receitada pela mídia para ser cult, sobra pouco tempo para interações diretas no mundo real.
Depois de ler sobre isso, minha primeira reação foi ficar chocado com a quantidade de simulacros com os quais eu interagia diariamente no lugar de interagir com as coisas que eles estavam substituindo. Agendas e blocos de notas no tela de computador imitando papel de verdade, rostos de pessoas nos perfis do Twitter que não me mostram como seus autores estão fisicamente, programas que fazem em minutos e pixels o que eu faço em horas e tinta. No âmbito das artes, eu tomava conhecimento das coisas por fotos publicadas em sites e revistas e não pelas obras em si.
As notícias são um assunto para um post inteiro. Você já viajou em um A330 da Air France? Conhecia algum dos mortos? Você vai ter que lidar com o trauma da Maísa? Com a vida sexual da Britney Spears? Nada disso está aí, fisicamente, na sua vida. É apenas um conceito sem uso prático que você recebeu de uma tela de TV ou página impressa. Dá a impressão de ser o mundo real e de estarmos conectados a coisas que acontecem lá longe, mas a verdade é que são bem distantes do real. Distantes geograficamente e distantes por causa das camadas de manipulação de mídia que elas atravessam até chegar a você.

Mas depois vim a perceber que é temerário criticar essa condição. Seria uma atitude velha, obsoleta, saudosista. Exigir que se escute vinil na era do MP3 só por causa do chiadinho. Mais do que exigir um retorno ao antigo, o que vale é reconhecer essa condição e saber jogar com ela. Saber não obcecar com as notícias dos tablóides, usar as mídias sociais pra combinar aquela cervejinha no fim da semana, transferir os arquivos daquele bloco de notas via internet para acessar em qualquer lugar. E principalmente para o artista, negar que isto seja uma condição presente seria ingênuo. É muito mais interessante parodiar, satirizar essa condição pós-moderna. Como o fazem as pinturas de Regina Parra baseadas em imagens de câmeras de vigilância, por exemplo.

domingo, maio 31, 2009

Residências

Nota para mim mesmo: lembrar de dar uma boa olhada no blog da Adriana Guivo. Tem todo o relato de seu processo para conseguir uma residência artística em Paris e seu processo de trabalho enquanto esteve lá.

As residências artísticas são ótima opção para artistas recém-formados, mas não têm restrição de idade, formação ou experiência. Os artistas enviam projetos e as instituições em questão avaliam. Os projetos escolhidos são financiados. Por "financiados" entende-se que a instituição provê moradia, ajuda de custo e muitas vezes até a passagem para que o artista more na cidade e desenvolva seu trabalho durante determinado tempo (seis meses a um ano). Ou seja, não é um negócio que vai te trazer o retorno financeiro direto, mas é um tremendo impulso no seu currículo, pois você passa um ano isolado do seu mundinho na sua cidade nata, só concentrado no desenvolvimento da sua linguagem e produção, e sem precisar se preocupar com essas coisas mundanas como salário e aluguel. Acho a alternativa perfeita para aquele momento de pânico pós-faculdade ("O que que eu faço agora? Já sei! Vou trabalhar em agência de publicidade e tentar pintar nas parcas horas vagas!").

Até uns dois anos atrás, a residência ainda tinha a vantagem de ser uma coisa fácil de conseguir para alunos das faculdades prestigiadas de arte como FAAP e ECA-USP. Isso porque as informações a respeito eram tão escassas que poucos se inscreviam, mesmo nessas faculdades. Mas então a FAAP dedicou parte de sua última Anual de Artes Plásticas a fazer uma exposição retrospectiva (muito bem produzida, por sinal) de todos os seus alunos e professores que participaram de seu programa de residência na França (incluíndo minha colega Marcela Tiboni e minha orientadora Dora Longo Bahia). As inscrições vieram em manada depois disso.

Mas quem sabe meu projeto relacionado ao Masculismo interesse a eles... Afinal, Niki de Saint Phalle, artista feminista que tem sido minha inspiração para o Masculismo recentemente, era francesa. E eles adoram esse tipo de discussão.

Duro vai ser aguentar o idioma.
Merde!

sexta-feira, maio 22, 2009

The Path 2

Senti vontade de escrever novamente sobre The Path, o jogo da Chapuzinho vermelho. Segura que o post é longo.
Andei encontrando no YouTube os vídeos dos diferentes finais possíveis com cada uma das personagens (SUCCESS: [1][2][3][4][5][6] FAILURE: [1][2][3][4][5][6]) e achei que o jogo já começa a tomar proporções de verdadeira obra de arte e não tanto de jogo. Não só pelo surrealismo das sequências finais na casa da vovó, mas pela neutralização dos elementos normalmente pertencentes ao universo do videogame.
Primeiramente, o objetivo comum a todos os games é a sobrevivência. Em The Path, é preciso morrer para vencer. Depois, cada final faz a contagem de pontos de acordo com os objetos que você encontrou e caminho percorrido, mas nada disso tem veradadeira importância para as sequências finais a não ser a necessidade de encontrar o lobo. The Path parece mais uma espécie de ambiente virtual ou filme interativo. Finalmente, o universo simbólico do jogo é tão denso, que é preciso certa bagagem cultural para penetrar nesta floresta e gostar da experiência. É um nível além do nível meramente lúdico do jogo.

Mas queria escrever de novo para comentar of finais. É possível, com todas as personagens, simplesmente seguir reto pelo caminho em direção à casa da vovó (como mamãe mandou...). Todas as personagens chegam na casa, de interior cinza e monótono, sobem para o quarto da avó, que tem até um lobo empalhado, e deitam-se ao lado da senhora catatônica na cama. Há uma metáfora a ser compreendida aqui: pode-se seguir pela vida através do "beaten path" (o caminho pisoteado, bastante usado, seguro). É uma linearidade monótona, e você perde muito do que estaria lá fora, no mundo, na vida, se ousasse se aventurar pela floresta.

Porém há outra alternativa e preciso fazer aqui um parágrafo sobre a situação onde me encontro ao estudar este jogo. Porque até aqui, foram cinco anos de beaten path. Do emprego monótono e seguro que paga e que é uma procissão de passos e dias idênticos, uma resposta fácil. Mas chega disso, preciso sair do caminho, entrar na floresta, confrontar o lobo. Tudo, no jogo e neste parágrafo, é finalmente uma metáfora sobre crescimento.
Para cada personagem do jogo, o encontro com o lobo aparece como um evento aberto a pelo menos duas interpretações: ou uma morte trágica relacionada ao encontro na floresta, ou a perda (morte) dolorosa da inocência.
Depois do encontro, a personagem volta a aparecer em frente à casa da vovó, na chuva. O esquema de cores se inverte e o mundo lá fora fica cinza enquanto o interior da casa é colorido. Todos os móveis do interior mudam para assumir um aspecto de pesadelo e o quarto da vovó é substituído por uma alegoria que dá pistas do que de fato aconteceu à Chapeuzinho em questão.

Minhas interpretções:

ROBIN: a garotinha de nove anos é a personificação da imagem de Chapeuzinho no imaginário coletivo. Uma criança vestida com a capa vermelha que anda saltitando pela floresta, exprimindo comentários de uma beleza ingênua e desconcertante.
Seu lobo é também a personificação do lobo da história. Um verdadeiro lobo que ela encontra em um cemitério (ela diz: "As pessoas morrem e nós as colocamos na terra, como flores").
A quarto da vovó dá pistas da morte física de Robin. No centro do quarto, um grande túmulo aberto tem como lápide uma cama ensanguentada. A personagem cai no túmulo e flashes de cabeças de lobo alternam-se com imagens de Robin riscada com linhas paralelas, como garras.
A interpretação da perda de inocência, suponho, é de compreender este fato da vida que é a morte, coisa difícil para uma criança de nove anos. Compreender que a avó irá morrer, suponho.

ROSE: seu final é talvez o mais complicado de compreender. Rose tem 11 anos, a idade em que as transformações do corpo acontecem para muitas garotas. Ela tem um jeito de ver a beleza nas coisas naturais, como se tudo natural fosse belo e prazeiroso. Tem uma fascinação pela névoa perto do lago.
Passeando por lá, ela encontra um bote e resolve dar um passeio. Mas é pega de surpresa por uma tempestade no meio do lago (apenas os trovões são ouvidos ao longe).
O quarto da vovó para Rose é um cômodo onde partes de uma cama dilacerada rodopiam em um violento redemoinho de fácil interpretação.
Difícil é entender a morte de sua inocência. Alguém comentou em algum lugar que a figura que Rose encontra no lago e que parece causar a névoa tem sangue escorrendo por uma das pernas e fazendo a água do lago ficar rosa. Alusões à primeira menstruação, que toma a vida de garotas tal qual violento redemoinho e muda tudo. Dali em diante, nem tudo que é natural continuará compreendido como belo e prazeiroso.

GINGER: sempre adorei esta gíria para ruivas. Ginger é o estereótipo da ruiva moleca de temperamento curto. Apesar dos 13 anos, ainda não entende essa coisa de beijos e amor carnal, preferindo brincar e ser livre. Passeando pela floresta, ela encontra um campo de flores com um espantalho velho que já não afugenta os corvos empoleirados nos fios de eletricidade. Lá, ela brinca com uma amiga por quem ela sente uma atração especial. E corre descalça pelo mato alto.
O quarto final para Ginger tem uma eterna chuva de penas negras caindo sobre fios de arame farpado estendidos no chão. Correr descalça no mato alto de uma plantação abandonada pode não ter sido boa idéia. Mas algo fica um pouco mal resolvido na morte de Ginger: no vídeo, parece que ela é puxada para o chão pela amiga em vez de pisar no arame.
Há um ar de homossexualidade latente na relação de Ginger com a amiga. Daquele tipo de coisa frequente na idade dela, de ter a melhor amiga com a qual se tem uma relação de ciúme, cumplicidade e intimidade física. Alguns dos flashes no quarto da vovó sugerem o arame como amarra. Uma amarra social que a impede de ser assim, de gostar de garotas em vez de homens.


RUBY: a garota gótica (ou seria emo?) de 15 anos me lembra um conto do As sete faces da primeira vez do Carlos Queiroz Telles que eu li no colégio. Quando menciono que nem todos os lobos neste jogo são lobos, acho que é na história de Ruby que todos pensam. Ruby sente a pressão de ser diferente no colégio. Tem seu estilo estranho de se vestir (acho que o aparato ortopédico que usa em uma das pernas é só por estilo, não por necessidade) e sua visão de mundo mórbida e bela ao mesmo tempo, coisa difícil para a turminha popular do colégio entender. Detalhe interessante: sua versão da casa da vovó normal tem uma quadra de basquete (parece que o time da escola dela chama-se "Wolves" - lobos) que me faz lembrar de turminhas populares e traz à cabeça minhas próprias memórias traumáticas de bullying. Ela desce para a quadra em uma gaiola enorme.
Um dia, apreciando a decomposição e a ferrugem de um parquinho abandonado (ela tem um gosto por decomposição), Ruby conhece um rapaz alto e loiro, um garanhão mais velho que lhe oferece um cigarro e a faz fumar pela primeira vez (alguém aí lembra de quem o convenceu a fumar?). Daí pra frente, sua vida já não muito comum saiu completamente do eixo. Legal notar que durante essa cena, o som de fundo mistura o ronco de um motor com o grunhido de um lobo. O rapaz, sabe-se depois, tem um Ford Mustang (palavra que curiosamente significa "garanhão" em inglês).
Durante a visita post-mortem à casa da vovó de Ruby, vemos paredes da casa cobertas de maquinário, peças de motor. Na quadra de basquete de antes, Ruby entra na gaiola que, em vez de transportá-la, joga-a para longe. E aí vemos o Mustang batido no canto da quadra e notamos as marcas de derrapagem. Ruby morreu em um acidente de carro à la James Dean. Antes de envelhecer e decompor. A gaiola me faz pensar no carro que deveria transportá-la mas a joga da mesma forma através da janela.
Sua perda de inocência é uma das mais claras, expressa no seu ato de fumar pela primeira vez (sei que é a primeira pelo modo como ela tosse). Pode-se dizer que Ruby, quando encontra seu lobo, já não é tão inocente quanto as irmãs mais novas. Resta-lhe pouco para perder. Li em algum lugar uma citação sua dizendo: "Eu sei de coisas. Coisas que minhas irmãs mais novas ainda não sabem e as mais velhas esqueceram". Essa sensação de ver a injustiça do mundo e se perguntar porque os mais velhos não percebem.

CARMEN: pelo gingado da irmã de 17 anos dá pra perceber que ela conhece os homens. Ela tem consciência do próprio corpo e do efeito que ele tem no sexo oposto. Acima de tudo, ela acredita que pode controlar os homens assim, com um misto de promessa e recusa de sexo.
Em algumas versões da história original da Chapeuzinho, o caçador que a salva é de fato um lenhador. É ele que Carmen encontra na floresta. Ela acha que o homem mais velho irá mudar sua vida monótona, levando-a para um estilo de vida de sentar perto da fogueira e beber cerveja.
Ela logo descobre que o homem da floresta é um homem selvagem, que tolera apenas até certo ponto o jogo de promessa e recusa antes de recorrer à violência. As lâminas espalhadas pela casa da vovó (machados, serras circulares, entre outras) contam uma história de um fim sangrento para Carmen. No quarto final, uma árvore enorme cresce em meio à cama. Faz-me pensar que a árvore é ela, e que o lenhador não faz outra coisa além de derrubá-la à força de machadadas.
Imagino que sua perda de inocência tenha a ver com a descoberta de que esse poder que ela tem sobre os homens tem limite. E que alguns são mais suscetíveis que os outros.

SCARLET: a história da irmã mais velha (19 anos) é cheia de sentimentos familiares a qualquer um que resolve ter uma carreira relacionada às artes. Scarlet é uma talentosa pianista. Sente na música um prazer quase narcótico. Porém é a mais velha de seis irmãs em uma família sem pai, com uma mãe ausente e uma avó doente. Então ela coloca sua arte de lado, encobrindo-a e abafando-a sob o manto da responsabilidade e disciplina. Nega tudo que é dionisíaco, visceral e instintivo não por desgostar, mas por necessidade. Há uma cena bem significativa na casa da avó normal onde uma infinidade de livros estão lotados em estantes em uma parede que dá para uma sala onde instrumentos musicais estão pendurados em perfeita ordem. Mais adiante essa cena muda...
Um dia, caminhando pela floresta, Scarlet encontra um palco abandonado ao ar livre. Lá estão um piano e um professor, que senta ao seu lado e toca com ela, e promete-lhe o mundo se ela nutrir seu talento musical.
Não consigo entender como Scarlet morre. Ou se ela morre fisicamente. Sua versão da casa da vovó post-mortem mostra móveis cobertos por lençois brancos que me lembram o que se fazia antigamente ao viajar, para evitar o pó nos móveis. Faz-me pensar de certa forma naquilo que escrevi sobre ela abafar sua arte sob o manto da disciplina. Ou neste caso, parece-me mais adequado dizer que ela cobriu e abandonou sua situação em casa (suas irmãs) quando embarcou nessa aventura como artista. Na sala dos livros, eles estão agora todos no chão e as estantes vazias. Os instrumentos na sala adjacente flutuam no ar e tudo parece indicar um relacionamento mais apaixonado com a arte que ela tinha deixado de lado. O quarto final mostra um palco, as cortinas brancas subindo e luzes de show em movimento.
Nada é muito explicativo de sua morte física, mas tudo fala de uma morte emocional ou psicológica, talvez até moral: abandonar as necessidades familiares em prol de si mesma. Os flashes no fim mostram o professor com garras afiadas, mais um lobo coletivo para o resto da família do que para Scarlet. Ou talvez um lobo para ela no sentido de libertá-la da disciplina auto-imposta e prendê-la novamente na disciplina da carreira de piano.

Passei uns três dias escrevendo isto, vendo os vídeos aos poucos, antes de ir dormir à noite. Fez-me pensar muito sobre minha própria vida, minhas escolhas. As coisas vão mudar muito nos meses seguintes, e sinto medo e curiosidade, assim como sentiria pela possibilidade de sair do caminho e entrar na floresta. Agora sinto que a fascinação por esse jogo acabou. Mas assim como o próprio mote do jogo, o mais gostoso de tudo não é o destino, mas sim O Caminho.

segunda-feira, maio 18, 2009

A Deusa do Medo

Às vezes conto a história de como a minha tela Lettin' the Cables Sleep surgiu a partir de um flash de imagens que repentinamente brotou na minha cabeça. Daquelas coisas de artista estereotipado que repentinamente tem uma inspiração, como se baixasse o santo. Era um flash com várias imagens sobrepostas, pedaços do quebra-cabeça que eu fui organizando na tela final.

Ontem, voltando para casa, tive outra dessas.
Desta vez, só uma pedaço. De novo, voltei para a imagem daquela mulher gigantesca flutuando no céu como uma deusa medonha. Na imagem em minha cabeça, vi apenas o rosto. Mas era um rosto enorme virado em direção à cidade lá embaixo. A proporção era tamanha que as distorções da imagem me lembravam a forma gigantesca de Ayanami nas cenas do fim de Evangelion. Apenas um olho visível no perfil do rosto, com uma pupila diminuta, daquele jeito meio doente que os desenhistas de mangá fazem. O sorriso no rosto recebia os reflexos coloridos da cidade lá embaixo. E tanto cabelo, mas tanto cabelo, que caía sobre a cidade ao fundo e tampava parte da visão do suposto observador. Era uma imagem de medo. Do medo do feminino.
Em algum lugar deveria haver um garotinho nú de pele acinzentada. Talvez o foco do olhar daquela mulher terrível. Mas não estava na imagem que me veio à cabeça. Imagino que isso venha racionalmente, da coerência que pretendo manter entre essas telas.

Hora de voltar a pintar.

quinta-feira, maio 14, 2009

SP Arte

Começou hoje no Pavilhão da Bienal a 5ª edição da SP Arte.
A feira, organizada pela colecionadora Fernanda Feitosa, acontece anualmente e reúne 80 das principais galerias do mundo para comercializar seus acervos.

Pessoalmente, acho que a Feira causa-me mais interesse do que a falida Bienal, por vários motivos. Primeiramente, porque acho que há algo de muito verdadeiro, embora também meio satírico, em uma feira de arte. Sou de uma turma na faculdade que discutia largamente sobre a comercialização da arte em tons pejorativos, como se trabalhar para vender sua obra de arte fosse um sacrilégio. Sim, era bem isso: atribuíamos às obras (mesmo àquelas banais) uma qualidade sacra que era profanada com algo tão mundano como a venda. E de repente vemos aqui uma feira inteira dedicada a esse comportamento herege. Havia toda aquela discussão que ainda acho pertinente sobre como um patrono ou mecenas pode vir a influenciar de forma negativa no processo criativo do artista. Mas daí para essa fobia comercial, acho que demos o passo errado. Talvez por isso mesmo que da minha turma tenham saído tão poucos que hoje de fato vivem da arte enquanto alunos de outras turmas, como o Rodolpho Parigi, assumiram a arte como produto e vendem quadros a preços tão exorbitantes. Acho que o tom satírico-sério da SP Arte é acentuado ainda mais pelo caráter vil que a palavra feira tem no nosso país: aquele ambiente sujo, mambembe, cheio de gente competindo no grito e tentando vender seu produto mais barato do que a barraquinha do lado.

Mas, quando descemos do pedestal de sacralidade e superamos o nojo que temos do termo, a Feira torna-se de fato um ambiente cheio de potencial. Imagine você, pessoa ativa no mundo das artes, tendo ao seu alcance e em um só lugar todas aquelas galerias. As possibilidades são vastas: contatos, compras, vendas, serviços, empregos... Há dias que venho tentando arranjar tempo para montar um pequeno material, algumas folhas apenas, para deixar nos estandes. A pergunta é se me apresento como potencial empregado ou como artista. Quiçá como ambos.

Pesquisando sobre o evento por aí, soube da presença de Tanya Barson, curadora do Tate Modern [1][2][3]. Vontade que tenho de entregar-lhe algum material em mãos e pedir que ela me arranje um emprego (QUALQUER emprego) no TATE quando eu for para Londres novamente...

A SP Arte acontece no Pavilhão da Bienal. Hoje e amanhã, vai das 14h às 22h. No sábado e domingo, das 12h às 20h. A entrada custa a módica (¬.¬') quantia de R$ 25.

FONTES: [1] [2] [3]

segunda-feira, maio 11, 2009

Projeto Tripé (SESC)

Vou começar a postar por aqui as oportunidades de artes plásticas das quais eu ficar sabendo.

PROJETO TRIPÉ DO SESC POMPÉIA

O projeto tripé estimula a produção contemporânea na área de artes visuais e apresenta obras de três artistas em cada uma de suas quatro edições previstas para cada ano, havendo uma temática para cada exposição.

O projeto, uma iniciativa do Núcleo de Artes Visuais e Multimeios do SESC Pompéia, reúne diferentes expressões artísticas, com as mostras trazendo discussões sobre os temas apresentados e promovendo encontros entre os artistas e estudiosos da área, acontecendo um bate-papo a cada exposição. O processo de seleção dos artistas participantes será de responsabilidade da equipe por meio de uma comissão de avaliação.

Para participar deverá mandar imagens da produção artística com currículo (CD ou impresso), aos cuidados de Julieta Machado e Natalia Nolli Sasso – Núcleo de Artes Visuais e Multimeios, na Rua Clélia, 93, cep 05042-000 Pompéia, São Paulo. Qualquer duvida pode ligar 3871.7738 / 3871.7793


Já fui ver duas das exposições desse projeto, uma delas com colegas minhas da faculdade de artes expondo: Thaís Albuquerque e Amanda Mei. O projeto é como todos esses projetos deveríam ser e não são: bem organizado, relevante, de fato promove artistas jovens em início de carreira. Detalhe raro hoje em dia é que esse projeto garante um pro-labore, um pagamento ao artista pela exposição, em vez de fazer como a grande maioria dos espaços que chegam com aquela conversa fiada de que você está ganhando visibilidade e não dão um centavo (alguém aí lembra do W.A.G.E.?). Fora isso há outras regalias: coquetel de abertura, equipe de montagem, dvulgação e catálogo no fim do ano com todos os artistas que participaram naquele ano.

A dica é de outra colega de profissão, Marcela Tiboni, que recomendou o projeto por experiência própria.

Artistas, participem!

domingo, maio 10, 2009

Welcome to your Quarterlife Crisis

Esta semana, uma amiga minha colocou no Twitter um link para uma matéria no site Eyeweekly sobre o que eles chamaram de Quarterlife Crisis. Traduzindo em miúdos, a "Crise de um Quarto de Vida". Geralmente referida por aqui como a dos Adolescentes de 25.
O começo do texto traça dois perfis, masculino e feminino, bem conhecidos por muita gente com a qual eu convivo. Pessoalmente, o que mais me chamou a atenção foi o segundo parágrafo:
Ele vai de bicicleta para seu trabalho em uma agência de publicidade, onde ele usa seu mestrado em Letras para revisar redação publicitária, e passa várias horas lendo blogs de música e assistindo traillers de filmes, Twitando atualizações periodicamente sobre seu dia de trabalho para seus 74 followers. Ele não odeia de fato seu trabalho, mas sente que sua pele está cheia de vermes rastejando nela durante a maior parte do tempo em que está lá, então ele planeja se mudar para a Tailândia, ou talvez escrever um livro. Ou fazer faculdade de direito.

Não é totalmente idêntico a mim, mas é quase uma versão minha em um universo alternativo. Não vou de bicicleta para o trabalho ainda, mas o plano estava na minha cabeça há muito tempo, só esperando eu resolver a questão de chegar no trabalho suado e fedido. Estou em vias de conseguir um mestrado em artes plásticas que não vai mudar em nada o meu cargo de assistente de arte que pega serviços secundários e menores nas agências enquanto gente menos capaz pega o interessante. Passo boa parte do dia lendo webcomics e Twitando atualizações para meus 53 followers (Putz, tenho até menos do que o cara do exemplo...). Não odeio meu trabalho (de fato, é uma das agências mais gostosas e tranquilas nas quais trabalhei...), mas sinto que tudo aquilo tem um quê de perda de tempo às vezes e que eu poderia estar ganhando mais e fazendo algo que me desse mais satisfação pessoal. Planejo passar um tempo em Londres, ou talvez fazer exposições. Só não penso em fazer MAIS UMA faculdade...

O texto continua tentando explicar o fenômeno. Diz que acontece entre gente no fim dos vinte, começo dos trinta; de classe média-alta; bem educada e informada. Algo como a Charlotte, personagem de Scarlet Johansson em Lost in Translation.

Eles não conseguem tomar nenhuma decisão porque não sabem o que querem, e não sabem o que querem porque não sabem quem são, e não sabem quem são porque têm a permissão e possibilidade de serem o que eles quiserem.

Ao contrário da crise de meia-idade, onde o indivíduo se pega percebendo como tinha muitos sonhos e nenhum deles foi realizado, a crise de quarto-de-vida que a antecede encontra o indivíduo se perguntando qual é o plano, quais são os sonhos. Conheço muita gente, muita mesmo, acometida de casos severos de depressão porque não encontra gosto em nada do que faz. Lembro vagamente de diversas coisas que escrevi por aqui, sobre como o problema não era não ter aptidão alguma, mas ter várias aptidões. Sentir que cada decisão era a negação de várias outras possibilidades que talvez fossem a escolha certa.

De forma geral, o coração da crise de quarto-de-vida está nas promessas que nos foram feitas e nunca chegaram a ser realizadas. Eu acreditava, como uma boa maioria de colegas do colégio, que se eu estudasse bastante e entrasse em uma boa faculdade, eu teria um emprego rentável garantido em uma carreira criativa e interessante. A minha parte do acordo foi cumprida, mas o retorno nunca veio. Já é óbvio que não há vagas suficientes para suprir a quantidade crescente de pessoas saíndo das faculdades procurando trabalhos "criativos e interessantes" (que eu chamo de Empregos que Todos Querem). Então só estudo e boas faculdades não garantem a vida como garantiam nas gerações anteriores. De fato, esses caminhos de vida significam cada vez menos para a minha geração. Hoje vejo que as pessoas que estão de fato nos Empregos que Todos Querem são pessoas que parecem ter nascido apenas para aquilo e nada mais. Não há outra opção e eles se dedicam inteira e unicamente àquilo. Os outros, com mais do que uma única aptidão, acabam frustrados pelo que escolheram em detrimento das outras possibilidades. E esse sentimento é pesadíssimo.

Pra sair um pouco de cima do texto da Eyeweekly, fala-se muito que a educação mudaria para melhor a situação do país. Mas eu acho que a crise de quarto-de-vida mostra o contrário: com mais acesso à educação, mais pessoas estudariam para conseguir Empregos que Todos Querem, e teríamos mais pessoas concorrendo para vagas mais escassas. Claro que não posso advogar aqui que melhorar a educação no país seja uma coisa ruim (heresia!), mas tem suas consequências.

Voltando ao texto, um dos últimos parágrafos me surpreendeu fazendo uma interpretação pejorativa das mídias sociais como o Orkut e o Facebook:
Todo tipo de conhecidos meio esquecidos e amizades abandonadas reaparecem nesta planilha de razões potenciais para se sentir péssimo sobre você mesmo. Se você é tão mesquinho quanto eu, você passa boa parte do seu tempo no Facebook medindo seus próprios sentimentos de inadequação em relação direta com o sucesso dos outros. Todas essas pessoas para as quais você não dava a mínima alguns anos atrás são agora exemplos onipresentes e referências para medir todas a oportunidades que você tem ou não na vida.

Cogito saír do Orkut... Na verdade, o mais correto seria ouvir a Lexy e parar de me comparar aos outros. Se você souber como fazer isso, por favor me conte.