quarta-feira, outubro 17, 2012

Crônicas de Professor

Um dos meus alunos me entregou hoje uma sacolinha. Disse que era um presente de dia do professor. Confesso que recebi o mimo um pouco desconfiado: eu nunca tinha recebido nada assim e nem esperava criar esse impacto na cabeça de alguém tão cedo. Por que logo eu de todos os professores? Ele não precisava de nota, era um bom aluno. Também duvido que tivesse feito isso para muitos outros professores, pois os pais teriam desembolsado uma quantia salgada para mimar professores. Me pareceu algo sincero e exclusivo. Me senti especial.

Dentro da sacola, uns poucos produtos da Phebo. O presente gerou sensações engraçadas. Meu pai usava Phebo e eu identificava os perfumes ao estilo de masculinidade dele. Por isso, senti minha "adultice" confirmada com esse presente. O estilo de masculino paterno que eu lembrava na minha infância era um para o qual sabonetes com "1/4 de creme hidratante" ainda eram algo inexistente ou irrelevante. Um estilo que sentia um tipo de validação naquela sensação de pele esticada depois do banho. Eu lembro que eu gostava da sensação (talvez por gostar da ligação aspiracional que ela tinha com meu pai). Era um prazer meio bronco, meio rústico. Uma das minhas colegas professoras chamou de um prazer meio S&M. Eu não o estranharia depois das baladas do meu ano passado...
Havia também o deleite do perfume, que na infância fora marcadamente diferente dos perfumes dos meus produtos infantis. Era alheio, era mais complexo. Era daquele universo simbólico do moleque imberbe que se maravilha com os produtos de barbearia do pai.
Esse significado todo me pegou tão de surpresa que nem agradeci o aluno o suficiente. Preciso fazer isso!

Já fiquei sabendo que amanhã ganharei um outro presentinho. Enquanto isso, fico aqui pensando que deveria ter feito mais pela minha inspiradora professora de história do que apenas uma homenagem sincera no Facebook. Ela tinha que saber o quanto tinha sido importante.

E de preferência, enquanto ela estava viva.

quinta-feira, setembro 20, 2012

Elephant on the Bridge


I watched The Bridges of Madison County a few months back. And I thought the movie created this awkward elephant in the room. I wondered if it brought up the same issues on other people's minds as it did in mine. Here we have the story of this housewife who isn't particularly unhappy with her married life, but who isn't completely fulfilled either (is anybody ever completely fulfilled with marriage?). One day, while the husband and teenage kids are away on a trip, she meets this handsome, adventurous photographer who happens to be passing by and will only be there for a short while. They have a torrid love affair that lasts but a few days and when he is set to leave, she must make the choice of simply packing up her things and misteriously disappearing with him, or letting go of what could probably be the love of her life in favor of the safe and reliable family she has built over the years. In the end, she takes what could be considered the "moral" path (written in quotation marks, because once she has effectively cheated on her husband, morality becomes something to be questioned), and stays with the family. That is to say, she does "the right thing" (also written in quotation marks, as something to be heavily questioned...).

I remember hearing about The Bridges of Madison County from so many acquaintances who were married women. They would all say such wonderful things about the movie, about the actors portraying the couple (Merril Streep and Clint Eastwood), about the love they shared and how heartbreaking it was to see those final scenes when she makes the choice. And i hadn't realized until I saw the movie what a big elephant in the room it was. Because it was presented in such a beautiful way, that there was no way any emotionally sane person wouldn't be seduced by the story, wouldn't savour the love affair, wouldn't want them to be together. Still, it was the story of a wife cheating on her fully functional family. Plainly put, the movie sets a situation where it is difficult to concile reason and emotion. The question that lingers in my head and that I'd like to ask my married acquaintances is: "are you then seduced by the idea of having an affair like that (fast, intense, adventurous; but with a very high price to pay)?"

[Author's note: "fully functional family" sounds awful, like comparing a family to an appliance. I lack a better antonym for "disfunctional"...]

I guess the actual question is, does the movie make them think about leaving fully functional relationships for a good adventure? I know a fair share of people that would mindlessly answer "of course!". But when it really comes down to it, it's a really tough step to take! And that brings me to another movie ending, in Little Children. But I'm not going to bother you with spoilers on that.

quarta-feira, setembro 19, 2012

Bliss

Andei sumido do blog. Quase dois meses. Um dos hiatos mais longos por aqui ever.

Fato é que antes de continuar, há assuntos complicados em um post insalubre que vai repercutir muito mal, mas que eu sinto a necessidade de colocar por aqui só para documentar a vida e fechar ciclos. Talvez o faça em algum momento.  Mas não agora.

Agora eu queria postar para a família que lê o blog e a quem infelizmente as duas carreiras concomitantes não me permitem visitar com a frequência que eu gostaria. Queria escrever para dizer que, apesar dos assuntos supracitados, a vida vai muito bem. Mesmo.
Há uma sensação de contentamento nos dias. É um contentamento bem diferente da alegria meio melancólica e solitária de Londres, daquela aventura louca e maravilhosa de experimentar o impublicável e enfrentar os traumas passados. Mas é um contentamento. A palavra adequada vem do inglês: bliss (ainda existe o iogurte?). Um bliss que chega até a dar um pouco de medo, porque como a vida é sempre feita de altos e baixos, vai fazer uma baita falta quando eu deixar de ter. Mas não vamos sofrer de véspera, vamos curtir.

Bliss no trabalho do colégio. Onde eu chego e os inspetores que me conheciam de garoto e aluno me dizem "bom dia, professor". Onde a equipe de artes pergunta a minha opinião, quer saber, quer que eu dê ideias. E as idéias que eu dou são aprovadas e levadas a cabo. Eles também dão idéias fabulosas e me dão vontade de voltar a produzir arte (assim que eu conseguir algum tempo para reativar o ateliê...). Onde coisas estão sob minha responsabilidade e eu, pela primeira vez em muito tempo, me sinto amplamente capacitado para gerenciá-las (embora a quantidade delas seja um tanto atordoante...). Hoje estava pensando que é, além da empresa de tradução, uma das primeiras empresas que me contratam onde eu sinto a transparência e o respeito. Onde eu sinto que não tem jogo escondido, não tem discursos prontos para me convencer de como esse emprego é incrível e eu seria louco em abandoná-lo, não tem maracutaia contratual, evasão fiscal, parcela do salário "por fora", sacanagem com o meu FGTS e etc. Respeito. Assim dá gosto de trabalhar.
O colégio é onde eu lido com alunos da metade da minha idade que me fascinam com o modo como (alguns d')eles absorvem o que eu estou ensinando. Eles são um espelho que me faz sentir ainda muito jovem e paradoxalmente já bem experiente. Eles me lembram de mim, nessa idade. E de como eu queria ser nessa idade também. É moralmente questionável, eu sei, mas hoje com a experiência e atrevimento que eu tenho, eu me faço facilmente amigo da turminha popular que eu criticava mas da qual queria fazer parte na minha época de aluno. É uma sensação de que eu finalmente entendi o que é ser cool. Pelo menos para a idade deles... E eles reagem a isso. É gostoso de ver. Às favas com as críticas.

Bliss também na outra carreira, de uma rotina gostosa também. Receber de vez em quando uma mensagem da simpática Erika com mais um arquivo a ser traduzido, chegar em casa e relaxar antes de começar o "segundo turno" do dia. Neste mês me deram a primeira tradução de áudio, tradução simultânea onde eu tinha que gravar minha voz traduzindo em tempo real uma outra gravação. Achei o desafio interessante e me deu uma sensação de estar progredindo, sendo "promovido". E embora eu às vezes relaxe um pouco e perca a qualidade, a Simone, uma chefe que é uma melhor amiga, sabe me dar o puxão de orelha no tom adequado pra separar o profissional do pessoal. Trabalho de casa, na hora que eu quero, mas às vezes dá vontade de ir lá fazer uma visita no escritório, que fica há poucos quarteirões de casa. Só pra falar da vida.

Entre uma dezena de laudas e outra, eu faço uma pausa para aproveitar o bliss do meu apê. Desço para fazer ginástica quando a academia ainda está aberta. Nesta semana, aproveitando o calor infernal e seco que parece não ter fim tão cedo, terminei uma sessão caindo na piscina. Fiquei boiando lá e sentindo o corpo esfriar, e foi aí que essa palavra me veio à cabeça: bliss. Periga isso tornar-se um hábito. Depois de esfriar um pouco, volto pra cima para fazer comida e um café antes de voltar à tradução. O meu espacinho pequeno porém suficiente já está ficando com uma cara muito gostosa, com plantas, meus quadros e boas idéias de design vindas do Pinterest da minha mãe.

Bliss também em ver a Lexy aos poucos estruturando seu negócio, livre das amarras de empresas, seguindo o que meu pai disse ser o caminho da minha geração: o empreendedorismo. Os brownies ainda trazem pouco retorno financeiro (o que ainda gera bastante ansiedade...), mas há um ar muito promissor nas conversas, nas pessoas que curtem a página do Facebook dela, nas parcerias que até eu estou tentando ajudar a forjar. Gostosos também são os nossos domingos indo ao parque, e ela tentando acompanhar o pique que eu tenho tido desde que comecei a andar de skate.

Claro que há os amargores. Quando eles não estão presentes, a vida fica monótona e eu me ponho a fazer daquelas loucuras meio destrutivas (embora cheias de poesia). Tem sempre para onde desenvolver a vida, os projetos que nunca conseguimos arranjar tempo para fazer, os percalços da carreira de professor que eu ainda preciso aprender a resolver, as feridas das quedas de skate, a decoração do apê que sempre anda lenta demais pela falta de grana. Sem falar nos assuntos insalubres.

No entanto, há que se prestar atenção no positivo da vida. O resto a gente resolve aos poucos. Sem pressa. Se não resolver também, paciência. 

quinta-feira, agosto 02, 2012

O Laerte  recentemente publicou um par de textos [1] [2] muito relevantes sobre o tratamento psicanalítico.

Me chamou muito a atenção ele mencionar o tratamento da psicanálise como um esforço de "retificação e responsabilização" do indivíduo. No meu caso, posso sentir exatamente esse tipo de coisa, ao ser levado nas sessões a responder por uma série de idiossincrasias. Coisas que eu julgava serem a forma "correta" de se viver, e que no entanto, para novamente citar o texto, não passavam de "culpar ou demandar certas coisas dos outros (e do destino), que [eram] na verdade demandas insensatas".

Sensatez, aliás, passa a ser outra palavra interessante. Making sense, fazer sentido. Quando eu penso nisso, penso em agir de forma lógica e coerente, de acordo com o lado racional. E vou dizer uma coisa: eu cansei da coerência. Eu fico aqui escrevendo sobre a era pós-moderna e como não há qualquer obrigação por coerência estilística na arte hoje, mas acho que a coisa vai bem além. Não há qualquer obrigação por coerência hoje. Ponto.
Eu acho que a gente acaba negando muito do nosso lado subjetivo para poder ser coerente. Quando se fala em homens então, a coisa é pior ainda. E eu neguei mesmo. Muita coisa.
A terapia tem mostrado muita coisa conflitante, muito paradoxo, muita contradição. Mas também tem me deixado mais à vontade com as incoerências. Com poder dizer "sim, eu penso coisas conflitantes", "sim, eu quero um pouco de tudo". E na verdade, talvez essa seja a forma "correta" de se viver.

(""""""""""""""correta"""""""""""""" assim, com MUITAS áspas).

Combate

"...e na minha situação de hoje eu acho que eu teria como enfrentar um desses encontros de X anos de formandos do colégio".

"Enfrentar..." sublinhou o analista.

Nas nossas sessões, esse assunto tem aparecido bastante. Tenho algum receio de escrever a respeito, porque eu sei que todo mundo vai ficar reparando nisso quando lidar comigo. Mas resolvi que isso vai fazer parte do processo terapêutico todo.
O fato é que ele começou a insistir no fato de que eu encaro a grande maioria dos relacionamentos interpessoais que eu tenho como uma espécie de combate ou negociação (para evitar os comentários que surgirão sobre a minha escolha belicosa de termos...). Exceto por raríssimas exceções. Raríssimas mesmo. E mesmo essas, eu tenho a tendência a estragar. Vide exemplos recentes.

Eu não posso dizer com certeza que os anos de educação no meu antigo colégio tenham sido os únicos responsáveis por isso. Quiçá a tendência venha de antes disso e tenha sido apenas potencializada pela formação competitiva do colégio. E no entanto, eu ainda não enxergo como encarar as coisas de outro jeito. Eu só vejo o caráter cáustico dos relacionamentos amorosos, a competição profissional entre os colegas de trabalho e faculdade, o wrestling pela aprovação da família. Há sempre a consideração pelo Outro. E isso é sempre um combate, com estratégias, ganhos e perdas. É possível ser de outro jeito? Não totalmente, eu acho. Mas é possível ser menos assim, como percebo pelos meus exemplos próximos. Ou gente que simplesmente adota a estratégia de "não jogar o jogo". Mas mesmo isso é uma estratégia, né?

Falamos do colégio. E é engraçado, porque isso me trouxe a um exemplo paradoxal de mim mesmo. Eu sou assim, de encarar as coisas como esse combate, mas sempre adotando as vias mais passive-aggressive, evitando o confronto direto e violento, fazendo de tudo para evitar brigas. Como se enxergasse o confronto, mas tivesse medo dele. Minha atuação como professor é o exemplo perfeito: faço de tudo para dominar a classe, mas ainda sou cheio de pudores para dar broncas e excluir da sala, por receio dos alunos . Os alunos percebem. E testam limites.

Talvez tenha sido cedo para escrever aqui. Eu ainda preciso pensar mais sobre o assunto. Voltei para casa me perguntando se o melhor seria aprender a confrontar diretamente, perder esse medo e evoluir; ou seguir os exemplos de quem se excluiu do jogo, largar esse papel e me exilar do convívio social.

O importante é: eu de certa forma cansei disso. Concordo com o analista (e com boa parte dos comentários que virão) que há de existir outro modo de conviver.

quarta-feira, agosto 01, 2012


Tinha muita coisa que eu precisava escrever.
PRECISAVA mesmo. Pra poder continuar com o blog.

Mas eu estou me sentindo extremamente vulnerável à crítica. Sim, porque estou cada vez mais ciente das falhas de caráter mesmo... E consciente do quanto quem lê estas páginas conhece justamente estas falhas.

Me falta estômago para seguir adiante.

É... Quem diria que até eu um dia chegaria naquela coisa torpe de expôr todo meu âmago e depois reclamar de me sentir exposto... Pela primeira vez em muito tempo, essa exposição me incomoda. Eu não duvido da minha capacidade de argumentar contra comentários de anonimas ou mesmo de amigos que se identificam. Eu posso argumentar até exaurir a outra pessoa, mas vai ser só uma defesa, eu ainda estarei errado e sabendo que estou errado.O que incomoda é me perceber errado mesmo. E querer falar sobre isso  para todo mundo sem sofrer consequências, sabe? Só falar. Que todo mundo saiba que eu SEI que tenho meus problemas. E que eu preciso de suporte. Não de pointing fingers.

Mas tá, Vamos acordar e enfrentar a realidade. Eu vou tentar escrever e aguentar as pedradas. Faz parte do tratamento mesmo.

terça-feira, julho 24, 2012

Anima Mundi 2012


Começa amanhã a 20ª edição do Anima Mundi (site oficial). Pensar que o festival já tem 20 edições e é um dos três maiores festivais do gênero no mundo diz muito sobre como o Brasil passou a respeitar esse tipo de arte nas últimas duas décadas. Eu mesmo acompanhei várias edições, desde os anos 2000. O festival acontecia em duas salinhas no prédio da FIESP na época em que eu comecei a frequentar. Lembro até hoje de ter visto um filme dos irmãos Quay que me impressionou muito, mas que não foi muito bem compreendido pelo público. De lá pra cá, o festival ganhou lugares mais privilegiados, como o CCBB no centro da cidade e o Memorial da América Latina, onde três sala exibem mais de 500 filmes estrangeiros e nacionais e outras barraquinhas fornecem ao visitante a chance de testar sua habilidade em várias técnicas de animação. Já experimentei animação com areia, massinha, zootrópio e a animação convencional. Ainda não fiz o pixilation, que é sempre concorrido por não depender da habilidade de desenho das pessoas. Mas o auge foi há umas três edições, quando a turma do estúdio japonês Pika Pika veio fazer animação com lightpainting (desenho com lanterna captado por uma câmera tirando fotos em velocidade bem lenta). Cada ano traz novas surpresas.

Alguns nomes se destacam nesta edição do festival. Don Hertzfeld (sim, aquele do Genre que a minha turma de 9º ano viu nesse segundo bimestre!) está aí com uma animação pra lá de grotesca, mesmo com traços bem simples. Tem bons filmes de stop motion como o Ponto de Equilíbrio de Analúcia Godoi e Cafeka de Natalia Cristine. Kim Jin Ma traz o Noodle Fish, uma animação legal com desenhos feitos na areia. Amir Admoni traz o Linear, que eu aposto que foi baseado nas esculturas diminutas do artista de rua britânico Slinkachu. E Morten Helgeland traz uma visão hilária da guerra entre uma senhora de idade e as lesmas no seu jardim em Slug Invasion. E em um clima mais triste vem o Mentiras são Contadas em Julho de Rogério Vilela. Tem muitas outras coisas boas por aí, então vale a pena simplesmente comprar sessões a esmo e ver o que a sorte traz.

O festival acontece no CCBB e no Memorial da América Latina, de 25 a 29 de Julho.
As sessões começam às 10:00 da manhã e a última sessão do dia acontece às 23:00.

Aproveite!

quinta-feira, junho 28, 2012

Crônicas de Professor

O Clube de Desenho dos Excluídos

"Professor, me dá um assunto para eu desenhar?"
A ideia partiu de Luisa, uma das minhas alunas do 7º ano. Eu tinha percebido a Luísa atrás da classe. Ela era do tipo que se destacava. Grande, cabelo crespo, camiseta preta de banda de heavy metal. E no entanto, uma doçura e timidez incomparáveis. Ela já me mostrara personagens em um caderno e eu acho que tinha mostrado os postais da Butcher.

"Tá. Deixa eu pensar. Mas você me dá um assunto também?"

No fim da aula, havíamos começado algo curioso e muito interessante. Pensando em um outro exercício baseado em um poema das aulas de espanhol, lembrei que os alunos do 8º andavam me perguntando como representar em fotografia uma mentira. Então esse foi o tema que Luisa teria que desenhar para a semana seguinte. O tema que eu desenharia: uma ideia de morte. Luisa estava ficando cada vez mais interessante.
Quantas vezes eu não pensara no assunto? Não como o suicida (tá, desse jeito também, todo adolescente cogita...), mas de um jeito bem pragmático, sem juízo de valor. E eu conhecia o drama desse tipo de adolescente: qualquer menção que se fizesse ao assunto já disparava alarmes nas cabeças de pais e professores, e às vezes você só queria se indagar sobre o assunto. Ou às vezes essa preocupação dos mais velhos só exacerbava um sentimento de isolamento e incompreensão que o adolescente sentia e o mergulhava mais fundo nos pensamentos de morte. Eu vi nisso uma chance dourada. A chance de, como alguém que já havia estado lá, poder dar o espaço para que ela falasse disso até esgotar o assunto, sem julgamento, sem alarme, como apenas um fato da vida. E calejar alguma dor que a estava corroendo.

Luísa me trouxe uma resposta inusitada. Um bom desenho de um palhaço com os dizeres "Palhaços mentem". Eu não soube ao certo o que tirar disso, mas acho que em um primeiro momento, importava mais a resposta que eu lhe daria. E entreguei um desenho em grafite sobre papel preto (o grafite fica claro no fundo escuro) de uma cabeça de um robô separada do corpo, flutuando desligada por esse nada. Os dizeres eram algo do tipo "Onde não há tempo nem espaço, pois não há corpo para os sentir." Tivemos uma breve conversa sobre essa ideia. Uma espécie de paz perene, a libertação do "não ser", depois que a máquina que era o nosso corpo fosse desligada. Sem céu, inferno e deidades julgadoras. Apenas um nada. Pleno e correto.

Na segunda rodada da brincadeira, a Mari apareceu. Uma amiga de outra sala que nos viu entregando os desenhos um para o outro e quis participar. Apesar de tão alta quanto a Luisa, ela não tinha chamado tanto a atenção pessoalmente. Eu a percebera no Facebook por ela ser uma otaku (and proud of it...). E depois, em aula, chamou a atenção pela qualidade da produção acadêmica, o intelecto desenvolvido o suficiente para apreciar abstração e experimentação com materiais. Mas a rigor, era outra garota grande com um temperamento tímido e voz baixa.
Nessa segunda rodada, apareceram temas como "mulher" (meu para a Luisa desenhar), "drogas" (da Luísa para a Mari) e "aparência" (da Mari para mim). E novamente, a Luísa me interessou. Eu lhe pedira para pensar em "mulher" para ver como ela se relacionava com a questão dos padrões de beleza e toda aquela besteira que traumatiza profundamente as adolescentes.

Ela me trouxe o desenho de um travesti e dizeres sobre estar em um corpo errado.

A terceira rodada está em andamento. E com duas participantes novas. Laura é uma terceira menina alta. Com um temperamento mais pesado (porém nunca violento). Revelou-me que é escritora além de desenhar (ah, as memórias da minha época de colégio...). Aparenta um profundo ceticismo em relação à vida, como alguém que já passou por mais do que deveria nessa idade. A outra é a oriental  Kellen, a primeira garota pequena do grupo. Me parecia o ponto fora da curva, até lançar despudoradamente o tema de "câncer" para  uma das meninas.

Nas reuniões de professores, os outros têm recebido bem a minha iniciativa, apesar de me acautelarem. Dizem que eu preciso ter uma boa noção do meu papel como professor. Eu não sou um terapeuta, eu não sou um potencial pretendente amoroso, eu não sou sequer um melhor amigo. Eu sou um professor. E elas precisam ter isso claro na cabeça. Dizem que há um limite para o quão íntimo eu posso ser delas sem receber nos ombros a responsabilidade pelas questões psicológicas delas.
Eu continuo defendendo que, em um ambiente desses, cheio de pressões (sociais, acadêmicas e biológicas), muita gente precisa ver na arte um espaço para descarregar o peso. Um espaço sem nenhum adulto entrando em pânico ao ouvir adolescente falar das questões brutais da vida (já existe a turma bem treinada do departamento de Orientação Educacional para isso).
Eu vejo principalmente na atitude da Laura que elas precisam de um espaço e uma experiência emocional que faça sentido para elas. Elas querem sentir alguma coisa. E taboadas, regras gramaticais e fatos históricos decorados para ganhar nota só as estão anestesiando mais.

Eu acho que é isso que deveria ser a aula de arte. Expressão irrestrita. Sem medo, sem censura e transgredindo os limites dos temas PG-13.

sexta-feira, junho 15, 2012

Binge gaming

Tem gente que bebe, tem gente que renderiza.

Pois é... Eu jogo.
Eu falava meio brincando que jogar vídeo game era que nem vício pra mim. Que nem alcoolismo, essas coisas. É um clichê que o bêbado bebe para esquecer da vida. É uma "diversão" que tira sua cabeça de um momento doloroso qualquer. E ele não consegue se livrar daquilo em parte por um imperativo biológico, mas em parte também porque no momento em que ele fica sóbrio, ele tem que lidar com os problemas (às vezes insolúveis) que continuam lá. Em suma, ele bebe para "não ser"  por algum tempo.

Nos meses recentes, eu tenho tentado "não ser" um pouquinho também. Eu sempre me policiei bastante no sentido de não ter consoles de games em casa e nem instalar jogos complexos no computador, nada que pudesse me viciar demais ou me tirar da realidade por mais do que alguns minutos (afinal, apesar do vício, todo mundo precisa de algum descanso). Fiquei apenas (e inevitavelmente) com os jogos online em browser, daqueles que não precisa instalar nada no computador. Desde Londres que o meu game para "jogar socialmente" é o Mahjongg Dark Dimensions (dá pra perceber o quanto eu jogo porque eu devo ainda estar na lista de pontuações mais altas do dia...). Dá pra terminar em uns 15 minutos. E como toda droga, tem seus efeitos. No meu caso, é um estimulante. E eu usava em Londres para dar uma acordada durante as traduções que eu fazia de madrugada.
Só que nos meses recentes eu tenho me dado esses intervalos com mais frequência. Mais do que "socialmente". Talvez porque queira "não ser" mais frequentemente, como o bêbado que bebe para esquecer o problema que continua lá. E esses excessos têm seus efeitos nocivos (ou você acha que excesso de vídeo game é só a mãe enlouquecendo porque você não sai do quarto?). Eu percebo a "bebedeira" quando fecho os olhos e ainda consigo ver as pecinhas. O jogo continua na minha cabeça. E ele não vai parar. Há uma infinidade de pecinhas na escuridão, surgindo da névoa para serem clicadas e pareadas.  Cubinhos a perder de vista.
No feriado, me apresentaram o Drop-7. Agora eu posso "não ser" nas viagens de metrô também. Patético, não? Pior de tudo é que junta uma droga na outra e eu começo a atribuir valores numéricos para as forminhas bizarras do Mahjongg. Triângulos vermelhos, por algum motivo inexplicável, valem 4 (4 do que?). Pirando legal...

Apesar do nível da coisa estar perigando neuroses, o vício ainda não me incapacitou. Eu não jogo enquanto estou com pessoas, enquanto estou no colégio, enquanto consigo ocupar a cabeça com outras coisas. A vida segue (talvez em um ritmo mais lento do que eu gostaria), apesar da bebedeira. E no entanto, tem os dias de folga, onde não trabalho e não traduzo, em que já passei uma boa porcentagem do dia nos jogos. Me preocupo.
Em inglês, há um termo que se usa quando as pessoas se entregam totalmente ao excesso, perdendo toda a dignidade e o controle. Going on a binge, ou no caso da bebida, binge drinking. 

Tenho passado algum tempo binge gaming. 

segunda-feira, junho 11, 2012

Pessoas livres

"Psor, você passa base na unha?" me perguntou uma luna da 6ª série. Sem titubear, respondi que sim, que gostava do brilho e que deixava minhas unhas mais fortes. O cuidado com as unhas é um detalhe de uma série de pequenos cuidados aos quais eu me acostumei em Londres, e que eu fazia porque faziam com que eu me sentisse bem. Se tivesse mais tempo, cuidaria de mais coisas, mais detalhes. Depilação e hidratação. Mimos pessoais que com certeza me enquadrariam no rótulo do metrossexual. Eu já não dou a mínima para esses rótulos. Preferia rotular-me "complicado" e viver à margem do que os outros pensam a respeito disso.
Experimento com isso uma sensação única de liberdade. Até de poder. O não me ferir mais com o comentário maldoso, com o desprezo alheio, com o nojo causado pela incompreensão, tem um efeito "aikido" onde eu posso devolver o insulto como provocação. Mais do que isso, é muito libertador não me sentir mais na obrigação de me enquadrar no modelo de masculinidade antigo. Deixar eles que vivam com seu próprio medo de "não ser macho o suficiente". Não há nada mais poderoso do que simplesmente não jogar o jogo. É meio como "trollar" o Patriarcado...

Mas apesar de atualmente ter uma facilidade pra fazer isso em relação à minha sexualidade, andei muito ensimesmado, pensando que eu não tinha essa mesma liberdade com outras áreas da minha vida.

Andei vendo um pouco disso com o novo analista ao contar que eu já fizera terapia para me tratar de problemas com ansiedade. Estes eram derivados da sensação que eu tinha de que "os outros" esperavam coisas de mim. "Os outros" eram pais, família, namoradas, amigos, empregadores, sociedade em geral. Coisas eram comportamentos, moral, conduta. E como eu era incapaz de agir de acordo, eu sentia uma dose de culpa e inadequação que me levavam à ansiedade. Minha primeira terapeuta me ajudou a superar o assunto levando-me a ver que ninguém esperava nada de mim, e que eu era livre para ser eu. Esse ponto de vista funcionou melhor em alguns assuntos do que em outros.

Passei o feriado em Campos do Jordão. Uma cidade que sempre trouxe à tona esses sentimentos de inadequação [1]. Era, em uma cidade, tudo o que me incomodara na minha adolescência no colégio. Os adolescentes ricos (o perfil "balada Vila Olímpia", como eu dizia ao meu analista), as baladas superfaturadas, o jogo de aparências onde todo mundo era igual e eu era diferente, os excessos de toda natureza, a diversão fingida. Eu conseguia gradualmente me sentir menos mal em relação a esse ambiente. Sentia menos necessidade de ir para o centro garimpar entradas para a balada da moda. Menos necessidade de que me notassem. Menos necessidade de "fazer parte".
Na sexta, chegou meu irmão. Alguém teve que ir pegá-lo na rodoviária porque já faz meses que ele vendeu o carro. Anda com as roupas que consegue (muitas vezes, as que meus pais dão...). Continua morando em uma garagem transformada em estúdio de música. Vive com dívidas e problemas relacionados. Não tem perspectivas de melhoras financeiras. E no entanto, como Lexy bem observou, vive feliz. Com o que faz, com a vida que leva, com sua garagem e suas roupas maltrapilhas. Mais do que isso, quando a família tira sarro, ele ri junto e todos ficam com uma sensação de que tirar sarro não o forçará a "fazer parte". Ele vive à margem do que os outros pensam sobre seu estado financeiro como eu vivo à margem do que pensam da minha sexualidade.
Durante uma das saídas para o centro da cidade, conversei com uma das minhas primas, Adriana. Durante a minha adolescência frustrada em Campos, ela liderava a matilha de primas que descolavam VIPs e entradas gratuitas para as baladas superfaturadas. Podiam escolher a dedo com quem queriam ficar, e parecia que nada nem ninguém tinha mais poder do que elas naquele meio, e nenhuma delas tinha mais poder do que Adriana. Essa, claro, era a visão totalmente romanceada que eu tinha delas na época. Conversar com Adriana (realmente conversar com ela...) me trouxe uma outra história. A de alguém que nunca se sentiu como parte da "turminha popular" (será que ALGUÉM algum dia se sentiu?), que camelou para alcançar o status que tinha e nunca se sentiu feliz com o poder que conseguiu. Aos 25, ela aposentou a vida de glamour. Mais adiante, largou o emprego em imobiliárias para abrir uma empresa de doces. Casou-se com um rapaz que não tinha nada do perfil que elas procuravam nas baladas de Campos. Planeja ter um filho em breve. E mais do que tudo, parece feliz vivendo também à margem do que a "turminha popular" pensa sobre ela.
No fim, não pude deixar de pensar em Nana. Porque eu percebera uma coisa similar quando cortamos contato. Ela havia se isolado do mundo, de quem a obrigara a estudar, a ter ambição, emprego, essas coisas prosaicas que a empurraram para a depressão. Quando eu a empurrei em direção a essas coisas, ela me cortou também. Nem eu, um amigo íntimo de mais de uma década, valia ela trair-se desse jeito. O que ela queria me ensinar (se é que se importava comigo para se dar ao trabalho de "me ensinar" alguma coisa), era que ela arranjaria essas coisas quando e se quisesse, não para ter a minha aprovação. Já não tenho contato algum com ela para saber se está feliz, mas não parece minimamente incomodada de viver à margem mesmo do que eu penso dela.

E quanto a mim?
Voltando ao cerne deste post e da questão atual, eu estava cada vez juntando mais bagagem para discutir com o meu analista. O que é que eu fazia de fato para mim? E o que é que eu fazia pela aprovação d'Os Outros? Quanto dessa aprovação era real ou imaginada por mim? Quanto que Os Outros de fato se importavam com o que eu fazia da vida, o que eu vestia, onde eu me divertia?
Do jeito que a questão está na minha cabeça, há alguns pontos-chave. Dentre eles, o meu atual emprego no meu antigo colégio (que vale um posto mais adiante...). Para quem que eu estou fazendo isso? Para ter honra perante a família? Para parecer importante na reunião de 15 anos de formandos do colégio? Para encher a boca e dizer (pra quem?) que eu sou professor com mestrado em artes, por uma questão de orgulho? Será que eu sequer gosto mesmo de arte?
Deu pra ver a extensão do problema, né?

Eu tenho algumas respostas, embora respostas neste terreno pantanoso de dúvida sejam suscetíveis à maré. Eu sei que gosto de idiomas e não me importaria de viver de tradução se isso pagasse o que eu ganho no colégio. Eu sei que gosto de me vestir bem (do meu jeito...) e de morar onde estou morando (mas não mais dos vizinhos...). E que essas coisas não têm tanto a ver com o que os outros acham e sim com um prazer estético meu. Eu sei que gosto de Londres. E por enquanto é só.

O resto ainda está aberto ao debate.

terça-feira, junho 05, 2012

De volta ao divã

Voltei oficialmente a fazer terapia. Desta vez, análise.Ainda é meio apertado no meu orçamento, que ainda conta com parcelas dos móveis do apê novo. Mas é necessário, com tudo que tem se passado nos meses recentes.  Não para resolver questões práticas como crises de ansiedade, mas pra rever como minha cabeça está estruturada, por que eu saboto as coisas que eu saboto, por que tudo vai tão bem e ainda assim há essa sensação de fracasso.
O começo é mesmo uma rotina tediosa de recontar todas as histórias pessoais que eu já contei a terapeutas passados, a infância fora do país, os traumas de colégio, os tropeços dos primeiros relacionamentos, a influência de família, colégio, amigos, classe social. Mas curiosamente, recontando dessa vez, comecei a prestar atenção a outras coisas. Sabe, é como um daqueles filmes que você revê depois de um tempo e começa a perceber uns detalhes da trama que não tinha percebido. Coisas que não mudam o final que você já conhece, mas dão um gosto a mais e uma compreensão a mais para os eventos que acontecem no clímax do filme. Recentemente assisti Hannibal de novo, desse jeito. Revendo detalhes. Como eu gosto desse personagem!
Mais do que tudo, na terapia a gente vai percebendo como fez as coisas errado. Como nos deixamos cair em abismos que cavamos com nossos próprios pés. E como fizemos coisas certas também, mas pra essas não precisa de terapia, né? Não, eu ainda não sou um caso tão perdido e complicado assim. Dessa vez é apenas uma questão de fine tunning.

Acho que a questão agora é: será que o blog já perdeu leitores o suficiente para que eu possa voltar a ser pessoal e íntimo por aqui e escrever o que eu for descobrindo nessa jornada?

Será que eu de fato me importo com isso? Já não sei mais.

segunda-feira, maio 21, 2012

Random literature

The sadness came, as I was told it would. I could scarcely believe it would, since it was meant to be one of the most accomplished periods of my life. The sadness came like winter rain comes in my country. A brief warning, perhaps a chill on an otherwise sunny and warm day. And those who had been seasoned well would know how to watch out for these signs. Weeks went by like days and on the next one my heart faced the most fiersome storm it had ever witnessed, the gales lashing at me throughout the night and thunder keeping sleep at bay. But time passed. And now this mourning is but the grayness of lingering clouds, damping the mood of the days. Every now and then the weather forecast predicts a foggy night or a rainny Tuesday afternoon. But the clouds are always there. It's been days. Perhaps a month already. Few things have any noticeable color anymore. And it seems these clouds will stay here for a long time.

terça-feira, maio 15, 2012

Na adolescência, quando eu costumava teorizar sobre o universo, confortei o Piero em tempos ruins dizendo-lhe que a vida tinha um tipo de equilíbrio. E que, se ele passava por uma época particularmente ruim, era porque uma época muito boa seria paga depois. Claro que não havia nenhuma base lógica para isso. Essa filosofia era inteiramente baseada na fé. Não na fé cristã, mas na fé de que a existência deveria ser boa, justa.

Depois de passar provavelmente o melhor ano da minha vida até este ponto no ano passado, eu acho que estou pagando por ele este ano.

E tá foda.

Pina, Wenders e honestidade

Fui assistir Pina do Wim Wenders. Pra dizer a verdade, não gostei tanto quanto imaginava que gostaria.

Eu queria sim que minha vida fosse como os filmes do Wenders. Fotografia impecável, pelo menos três idiomas e muita poesia. Aos poucos, vou me rodeando de gente que me permite fazer isso. Começar uma conversa em português, ter passagens em inglês e um pequeno parêntesis cômico em italiano.

Não, a razão de eu não ter gostado do filme não tem nada a ver com Wenders. Tem a ver com a dança. Arrisco dizer que tenha a ver com a arte. E principalmente comigo mesmo e com acontecimentos recentes. Alguém recentemente me fez pensar bastante sobre honestidade. Mais do que isso, sobre ser honesto consigo mesmo para poder ser honesto com os outros. Essa noção aparentemente óbvia, ligada a outros questionamentos que eu estava tendo sobre a índole masculina brasileira, tem feito um considerável estrago na minha vida. Mas é um daqueles estragos que você sabe que merece, e pelos quais precisa passar. Pra se tornar um homem melhor. E isso é assunto para um outro longo post que talvez eu nunca chegue a escrever.

No meio da trilha de destruição que essa honestidade está deixando, encontra-se a minha capacidade de apreciar arte. Uma capacidade que antes era baseada em uma espécie de tolerância, como se, frente a uma obra daquelas áridas, meio abstratas e herméticas, eu dissesse "muito bem, eu não estou me relacionando com essa coisa, mas se está aqui, deve ter alguma importância e beleza que eu ainda não captei". Eu ignorava o sentimento negativo de isolamento que eu sentia, o enfado, o tédio, para quem sabe poder chegar a um nível de compreensão e maravilhamento mais adiante. Resumindo, eu fazia cara de conteúdo.
Mas dessa vez, vendo o filme com honestidade, eu resolvi não ignorar. Houve partes em que eu dormi MESMO. Houveram coreografias que não me diziam NADA. Movimentos espasmódicos que claramente eram o fim de algum longo e tortuoso processo do dançarino, mas que não queriam dizer nada para o expectador final que eu sou. Arte hoje às vezes é um processo. E faz sentido quando se vê desde o começo, como fez sentido para quem acompanhou o meu processo todo em Londres e entendeu porque que eu emergi de cabeça raspada, lixando minhas unhas em uma lixadeira mecânica. Porque que eu me embrenhei pelas baladas de Brixton. Porque que a Filha do Açougueiro teve que fugir. Mas pra quem pega o bonde andando, isso não passa de loucura estéril.
Quiçá eu devesse ter lido mais, pesquisado mais sobre a Pina Bausch antes de ir ver o filme. Ela era apenas um nome e uma noção de uma mulher daquelas.

E no entanto, há momentos de grande beleza no filme. Alguns são obra do Wenders: as tomadas do metrô alemão; as cenas nas paisagens desertas; a fila de dançarinos morbidamente sorridentes repetindo os movimentos de primavera, verão, outono e inverno; as construções meio Bauhauss onde algumas das cenas acontecem. Outras são Pina e seus bailarinos: a garota que se enrola nos braços do amado que foge dela; a outra que cai para os lados a cada passo, segura de que seu parceiro a segurará poucos centímetros antes de atingir o chão; os dançarinos jogando baldes d'água na rocha enorme no palco, me lembrando ondas na arrebentação.

Percebo que o meu estado recente me deixou um pouco avesso ao drama. Talvez um pouco mais frio, endurecendo a carapaça externa pela qual todas as artes futuras terão que penetrar pra me fazer sentir algo de fato.

E como será o efeito disso quando (e se) eu voltar a de fato fazer arte?

terça-feira, maio 08, 2012

Um post frívolo

Depois dos acontecimentos recentes da minha vida pessoal  não postados por aqui (já que o blog deixou de ser sobre a minha vida pessoal há muitos anos...), resolvi seguir aquele conselho feminino e ir cortar o cabelo pra tirar o peso da cabeça - literal e figurativamente. Eu adoro aquele termo do inglês: getting pampered. É uma expressão de "ser bem tratado", "ser mimado".

Acho que se eu fosse trilhardário, instalaria uma daquelas pias de lavar cabelo em casa e teria alguém para fazer isso pra mim no final de cada dia. Poucas coisas são tão relaxantes quanto alguém mexendo nos cabelos assim.

Na cadeira do barbeiro, café em uma mão e jornal na outra. Li uma notícia dizendo que a venda de automóveis na cidade havia caído e que os estoques atualmente somam cerca de 43 dias de vendas. Achei curioso e muito interessante. Quiçá a cidade esteja tomando jeito.

Na saída, aquela olhadela básica com os dois espelhos. Mais fácil deixar a cabeça em ordem por fora do que por dentro. Esse último ainda leva um tempo.