quarta-feira, novembro 11, 2009

Red Bull House of Art

Como diria meu professor de física do colégio: "tive três orgasmos com essa notícia..."

A Trip publicou em seu site uma notícia sobre este projeto da Red Bull, a cargo dos curadores Lucas Bambozzi e Maria Monteiro, que colocará a partir de hoje dez artistas de diferentes nacionalidades para habitar um hotel do centro de São Paulo por 30 dias. Durante este tempo, os artistas devem produzir trabalhos relacionados ao espaço, ao centro urbano, à cidade. O rol de "vítimas" desta primeira edição conta com gente do Brasil, África do Sul, Japão, Alemanha, Argentina, Portugal e dos Estados Unido. São pessoas dos mais variados tipo, idades e mídias, sem nada um comum, o que estimula a riqueza do diálogo e a diversidade, bem ao estilo Red Bull. Entre os brasileiros, está em destaque a queridíssima Regina Parra, do desmantelado grupo 2000e8 [1] [2].
Interessante, o site da Trip aponta, é que os artistas vão para o espaço sem um projeto definido, tendo que criar do zero a partir do espaço. Como incentivo, os organizadores ainda levarão seus acólitos a diversas exposições relevantes em São Paulo, como a da Pippilotti Rist no MIS e da própria Regina na Galeria Leme, além de galerias fora do circuito tradicional, como a Choque Cultural e a Casa da Xiclet (!).

Fiquei imaginando o que eu colocaria por lá. Provavelmente etntaria fazer uma idéia antiga, do tempo da faculdade, quando eu ainda estava pintando a Virgem e o Menino e obcecado com temas recorrentes da pintura antiga. Era uma idéia de fazer a Venus, como uma pintura gigantesca na lateral de um prédio do centro. As pinturas da Venus antiga expressavam o ideal de belza feminina da época, e a minha seria uma modelo de revista, daquelas que anunciam "15 maneiras simples de perder uns quilinhos para o verão" ou qualquer outra futilidade estética. Só que apesar da linguagem publicitária, ela não estaria vendendo nada. Apenas estaria lá, do tamanho de uma deusa inatingível e maior do que qualquer homem.
Claro que a atual lei contra outdoors seria um empecilho... Mas será que há excessões para obras de arte? Algo a pesquisar...

quinta-feira, novembro 05, 2009

Homens que dizem não

A propóstio, ao ler meu último post, Nana me passou um link para uma matéria que fala justamente do assunto de sexo como mecanismo de controle masculino. Achei relevante.

quarta-feira, novembro 04, 2009

Atualizando

Quase um mês sem atualizar isso aqui... E eu que queria transformá-lo em um blog sério, estou indo por um péssimo caminho.

Sem títuloNo começo de Outubro, terminei o primeiro quadro da nova série. Apelidado de "A Casa na Colina", mas oficialmente sem título, foi a tentativa de transformar uma tela que eu não conseguia continuar mas não queria jogar fora em algo útil. O resultado me satisfez, embora eu já tenha me dado conta de como poderia ter feito uma pintura ainda melhor. No fim das contas, ficou um quadro gostoso. E eu ainda fiz um vídeo da evolução dele.
O resto do mês de Outubro foi algo de um desperdício benéfico. Pois embora eu não tenha cumprido a promessa de uma obra por mês, tive muitos trabalhos como freelancer e ganhei uma considerável quantidade de dinheiro. Ah, se todos os meses fossem tão produtivos nesse aspecto...
De fato, eu tinha planos para a próxima obra em Outubro, um objeto em vez de uma pintura. Mas não tive coragem. Sabe, esta primeira pintura que fiz lidava com um dos três aspectos que hoje eu identifico da questão masculista: o sentimento de inferioridade do homem atual em relação à mulher atual. Os outros dois aspectos são a ausência da figura do pai/mestre e o uso do sexo como mecanismo de controle do homem. Meu objeto de Outubro tinha a ver com este último. Mas então lembrei de outros trabalhos que fiz que lidavam com sexualidade tão abertamente, e de como no fim acabavam sendo obras vazias, desnecessariamente chocantes e muito frustrantes. Trastes que hoje perambulam o ateliê embalados e cobertos para sempre porque meu pudor não me permite mostrar. Não acho que seja o caso desta obra, mas estou sendo prudente. Ainda estou me acostumando com a idéia. Se eu achar que passou tempo suficiente e ainda não me envergonhei dela, voltarei a entreter a idéia de produzir a peça.
Agora em Novembro, a brincadeira vai tomar outros rumos. A idéia seria produzir algo baseado no terceiro aspecto, a ausência do mestre/pai. Mas em conversas produtivas com o Marco Guerra, um professor de história da arte amigo de minha avó, surgiu outra idéia interessante que talvez renda as minhas primeiras exposições realmente relevantes. Ele interessou-se pelos meus retratos da época da faculdade e sugeriu que eu fizesse retratos dos meus avos, importantes figuras do teatro nacional e principalmente do surgimento do TBC (Teatro Brasileiro de Comédia). A sugestão não poderia vir em melhor hora. Lexy está pesquisando o TBC para seu trabalho de graduação e estamos descobrindo farto material a respeito daquela época.
Assim que resolvi tomar a idéia do professor Guerra e jogar do meu jeito. Peguei os últimos dias de Outubro que me restavam para fazer pesquisa com minha avó, procurando peças relevantes, atrizes fortes e diretores que fizeram história naquela época. E ontem comecei a produção das primeiras duas pinturas dessa série. Todas explorando atrizes do TBC em peças que lhes proporcionaram personagens femininas fortes como as mulheres pós-Feminismo. As imagens de referência são do fotógrafo Fredi Kleeman, que acompanhou o surgimento do TBC, fotografando os primeiros ensaios e as apresentações históricas.
O professor diz que, se eu conseguir produzir essas obras até o começo do ano que vem, poderia me arranjar uma exposição em uma galeria na Augusta. A idéia muito me interessa. Mas ainda que isso não aconteça, seria a forma perfeita de abordar o pessoal do teatro do meu avô e organizar uma exposição por lá. Tenho certeza que isso chamaria alguma atenção. Pelo assunto, pela relação dos avós e do neto, e quem sabe até pela qualidade das obras.

domingo, outubro 11, 2009

Educação Artística

Soube recentemente que o Ministério da Educação andou promovendo reformas no ensino de arte nas escolas. Dentre outras coisas, tornou obrigatório a partir do ano que vem o ensino de música nas escolas de Ensino Fundamental. Achei até que a medida foi tardia. Em outros países onde estive, a música é parte obrigatória do programa de qualquer escola. Aprendi a tocar aquela odiosa flauta doce quando criança por causa disso. Embora tenha esquecido quase tudo do instrumento assim que saí daquele colégio em outro país, as noções de canto me acompanham pela vida toda e facilitaram o episódio da banda de rock que tive em 2007. Mas não é apenas isso, me deram uma noção de música, de composição e de compositores.
De volta à terra natal, tive aulas de educação artística no restante do Ensino Fundamental. Eram aulas de qualidade questionável. Embora ensinassem o desenho de perspectiva, coisa que eu veria novamente no curso de desenho que fiz na adolescência e uma terceira vez quando entrei para a faculdade de arte, o resto de seu conteúdo era praticamente irrelevante. Por exemplo, passamos um semestre vendo o Futurismo, um movimento das vanguardas do século XX que não chega a ser mais do que uma nota de rodapé nos livros de história da arte sobre a época e pouco nos ensinou das importantes mudanças de pensamento que ocorreram nas primeiras décadas do século. Não é de se espantar que o colégio onde estudei fosse notório pela quantidade de alunos que saíam de lá para entrar em faculdades de engenharia e que as estatísticas apontasse pouquíssimos alunos interessados pelos cursos superiores de artes plásticas.
Mas o ensino deficitário de arte na adolescência tem outras consequências visíveis na população do país. Estive conversando com Marília "Bombom" Jardim, uma performance artist conhecida da Lexy que acabou virando boa amiga e colaboradora em projetos de arte. Discutímos recentemente sobre a situação dos colecionadores de arte na cidade e do que de fato chega ao mercado. Obras que na maioria das vezes têm um apelo pop ou decorativo, produzidas por artistas que não estão realmente interessados em fazer qualquer ligação com a história da arte, compradas por gente endinheirada que nada entende do que está comprando e escolhe de acordo com a reputação do artista ou o quanto a obra vai combinar com a sala de estar. Poucos são os colecionadores que de fato entendem de arte: uma elite cultural. Poucos também são os artistas, depois desse tempo todo em que o MEC menosprezou o ensino de arte nas escolas. Bombom parece ser uma pessoa com boa formação artística em colégio construtivista, que sabe o que está fazendo e como aquilo se enquadra na história. De minha parte, tenho que me admitir fruto do colégio onde estudei, e confessar que talvez ainda esteja pensando na minha produção como algo isolado da história, como o fazem todos os outros pintores da minha geração. Afinal, nossas técnicas são centenárias e voltam aos resultados vistos antes dessas décadas de abstração e negação da pintura de cavalete. Na verdade, sequer consideramos muito do que se passou na arte das últimas décadas quando escolhemos o bom e velho óleo sobre tela. Sei que no futuro chamarão este momento de uma espécie de "retorno à ordem e à técnica". Concordo, mas não deixa de ser justamente um retorno, uma espécie de retrocesso.

Voltado à questão dos Ensino Fundamental, passei no meu antigo colégio esta semana. Conversei com professores e com o diretor para ter uma noção do que é preciso para tornar-me um professor de artes do colégio. E fiquei sinceramente maravilhado com o modo como as determinações do MEC mudaram o ensino de arte por lá. O curso agora é bem prático, ensinando desenho, depois pintura, e então fotografia e vídeo nos últimos anos. Os alunos fazem. Não apenas isso, encontrei nos trabalhos que vi, referências a artistas desde Da Vinci até Andy Warhol, e técnicas tão alternativas para crianças quanto a xilogravura, que só fui conhecer no segundo ano da faculdade.
Régis, o coordenador do curso, me conta que alguns vetibulares já estão perguntando até sobre os metaesquemas do Hélio Oiticica, como aconteceu na última prova do recém-criado curso de direito da FGV. Claro: crie essa necessidade no vestibular e todos os colégios passarão a ensinar a matéria.
O assunto todo me deixou interessado: com essa nova determinação do MEC, a demanda por professores de arte vai crescer. É aí que eu entro: já estou pesquisando como e onde fazer a licenciatura...

terça-feira, setembro 29, 2009

Finalmente terminei o pequeno livro sobre pós-modernismo da Eleanor Hartney. Demorei porque passei muito tempo em um capítulo sobre o feminismo no pós-modernismo, querendo esmiuçar todos os detalhes.

Como já expliquei por aqui, as primeiras feministas na arte criavam obras que apresentavam os aspectos da mulher como natureza, corpo e emoção, tentando transformar esses assuntos de críticas e formas de dominação em qualidades boas a serem louvadas. As feministas subsequentes argumentaram que ao fazer isso, elas estavam afirmando as noções de feminino determinadas pela sociedade patriarcal. Então essa nova geração de feministas, do pós-moderno, centraram sua pesquisa mais na iconoclastia, em destruir a forma como a noção do feminino é socialmente construída. Destruir a representação (um dos objetivos-chave do pós-modernismo).
O mesmo tipo de raciocínio é aplicado ao multiculturalismo, onde culturas estrangeiras diferentes da cultural do homem branco ocidental eram relacionadas ao espiritual e ao instintivo, sendo tão ilógicas para a sociedade ocidental quanto o universo feminino. O multiculturalismo pós-moderno procurava também desconstruir essas noções, e em vez de procurar uma volta e validação das tradições raciais, procurava questionar o porquê da superioridade do homem branco ocidental e da inferioridade das outras raças e crenças.

Ao ler tudo isso, imaginei que o mesmo tipo de erro pode e deve ser cometido pelo Masculismo. Acho importante, porque faz parte do processo. Que a primeira fase da pesquisa seja mesmo de reafirmar os valores anteriores do masculino, para depois partir disso e buscar algo mais pós-moderno, novo e autêntico. Por isso talvez seja preciso revisitar o homem de 1950 ou mesmo o anterior, medieval, bárbaro. Para entender o que era valioso nele e que foi perdido, e o que de fato não serve mais. Voltar inicialmente so estereótipo do homem caçador, conquistador, paterno e monárquico.
Depois disso, vamos lidar com a iconoclastia, com a questão das armadilhas sociais e noções socialmente construídas do que deve ser um homem.

Minha produção de ateliê, imagino, está indo por outros caminhos. Já planejo para este próximo mês algo que seria mais próximo dessa segunda fase. Mas de qualquer jeito, é bom ter isso em mente para organizar a produção quando eu finalmente tiver coisas suficientes para expor.

segunda-feira, setembro 28, 2009

And so comes the Dawn

Comemoremos! Aurora nasceu!

Certa vez, quando nasceu um dos filhos do pessoal na fazenda de minha avó, meu pai passou para visitar o recém-nascido. A caminho do lugar, encontrou um dos senhores que trabalhava por lá que disse-lhe, com aquele tipo de sabedoria surpreendente da roça, que ele ia conhecer alguém pela primeira vez. Meu pai ficou surpreso com a veracidade da frase. De fato, ele ia conhecer uma pessoa nova, uma nova consciência, que ele desconhecia antes não só pelo fato de que nunca havia visto a pessoa, mas porque ela de fato não existia. Era uma nova pessoa com mentalidade e decisões próprias.

Sinto uma espécie similar de epifania escrevendo o nome dela pela primeira vez em negrito por aqui, como o faço com outros nomes próprios. Aurora já existe no meu blog, como pessoa e não mais apenas como promessa.

Parabéns, mocinha!

sexta-feira, setembro 11, 2009

O quadro da casa na colina prossegue.

Ocorre-me que ainda não lhe dei um título. Me ensinaram na faculdade que dar aqueles titulos redundantes é feio (uma natureza morta com uma maçã e um vaso entitulada "natureza morta com maçã e vaso"...). Afinal, os títulos deveriam agregar um dado extra à pintura, não simplesmente ser mais do mesmo.
Desenterrei alguns livros antigos de pintura que "herd(roub)ei" das minhas tias do nordeste onde lembrava ter visto dicas sobre pintura de árvores. Achei algumas coisas bem relevantes e desbravei as florestas traumatizantes do quadro. Os resultados me agradam muito. Hoje terminei o gramado. Só falta fazer uma reforma na casa (quem dera reformas fossem tão rápidas quanto uma pintura...) e pronto, o quadro estará pronto para a parte mais legal: pessoas!
Vou retomar minha pesquisa de onde eu parei, na idéia da mulher enorme sendo desejada pelo garotinho [1]. Por enquanto, é a representação mais adequada que tenho da situação masculina hoje.

Lendo sobre o Feminismo naquele livro sobre pós-moderno da Eleanor Hartney, li uma parte que comentava sobre a Primeira Onda do Feminismo na arte, onde as artistas focavam nos aspectos femininos da gravidez e menstruação, na mulher como deusa. Não poupavam imagens de nudez feminina para representar isso. As feministas da geração seguinte criticaram essa postura, porque ainda apresentava a mulher de acordo com parâmetros da sociedade patriarcal: mulher como corpo, mulher como objeto de desejo. As artistas dessa segunda geração procuravam uma arte que não sensualizasse a mulher.
Daí comecei a pensar que, se eu colocasse a gigantesca mulher dessa pintura nua, estaria sendo meio retrógrado. Porém a idéia de vesti-la encontrava duas resistências: primeiro o meu gosto pela nudez em pintura (mesmo que isto seja de fato uma atitude machista retrógrada...), e depois a questão de com que roupa vestir a mulher.

Ainda não resolvi o assunto. Espero estar decidido até terminar de reformar a casa. Voltando do ateliê, ocorreu-me que também estaria ilustrando o rapaz nu. De certa forma, isso nega a configuração machista da mulher aparecer sempre nua e o homem sempre vestido. Mas talvez isso seja apenas eu tentando achar uma justificativa pra ter gente pelada na pintura e me livrar do incômodo de ilustrar roupas...

segunda-feira, setembro 07, 2009

Rearranjo conceitual

Há algum tempo, fui assistir a peça "Os Sete". Eu a recomendaria, se não tivesse sido a última apresentação por falta de patrocínio...
Escondida sob a trama da peça estava a história da Branca de Neve. A peça tinha sete homens assassinados para que uma personagem conseguisse sete ingredientes de uma poção, tinha a lendária maçã, qualquer coisa relacionada a espelhos, velhice e beleza.
Na verdade, o que o autor fez foi um processo muito legal e em voga na arte contemporânea (seja literária, musical, plástica ou teatral), que eu acabo chamando de rearranjo conceitual. Seria mais fácil explicá-lo com imagens, mas tentarei fazer isso por escrito...
Neste caso específico, ele pega um assunto como a história da Branca de Neve e elenca a maior quantidade possível de conceitos relacionados a ele (espelho, beleza, maçã, o número 7, etc...). Depois rearranja as combinações, e principalmente a hierarquia de importância entre os conceitos. No caso da peça, o número 7 que era um detalhe da história original, passou a ser até o título da obra.
A estratégia tem forte ar de contemporaneidade. Estamos em uma época onde linearidade é quase um pecado. Depois da internet, não procuramos mais informação de forma linear. Depois dos ARGs, o nosso entretenimento não é mais linear. Depois de filmes como Magnolia, Mulholland Drive e 21 Grams, nosso modo de contar histórias não é mais linear. Em todos os casos, os conceitos isolados são apresentados a esmo e o público só tem a noção do todo quando conseguir fazer a conexão (não-linear) entre as partes.
Outros exemplos de rearranjo conceitual já passaram por aqui. The Path, o jogo da Chapeuzinho Vermelho, até fazia questão de continuar no âmbito das histórias infantis.

Experimente! É um processo relativamente simples de brainstorming criativo e dá resultados ótimos. Pra quem continua achando que sensibilidade artística não é outro tipo de lógica.

Sensibilidade e disciplina

Levei uma semana para fazer as últimas organizações e limpeza do ateliê e voltar a produzir. Na sexta, quando cheguei à casa de minha avó, ela estava revendo fotos à procura de alguma coisa mais atual de mim e do meu irmão, já que as últimas fotos que tinha eram de épocas em que nenhum de nós ainda tinha decidido cultivar barba. A última foto que tinha de mim devia ser de 2002 ou 2003. Eu estou dentro do ateliê e ele ainda é muito precário. Meio ateliê, meio quarto de depósito, minhas pinturas dividem espaço com tapetes velhos, luminárias e outras coisas espalhadas no chão de madeira. Há muito pó e muita sujeira em tudo. No cavalete, o retrato da Nana está sendo copiado para ser dado a ela como presente de aniversário. Hoje, o quarto já é quase totalmente um ateliê, abrigando apenas um ou outro ítem de memorabília de minha avó. O chão de madeira foi trocado por um de azulejo mais fácil de limpar e branco para melhorar as condições de iluminação. As telas foram cuidadosamente colocadas em um teleiro depois que perdi uma ou outra por descuidos de estocagem e tudo é muito limpo (na medida do possível). Teria orgulho hoje de receber outros artistas no meu ateliê. Acima de tudo, virou um lugar de disciplina. Tudo tem seu lugar e nada deixa seu posto a menos que seja usado. Depois é guardado prontamente. A disciplina só não é completa, porque ainda não consegui estabelecer uma rotina de horário, dar a importância devida ao ato de bater ponto lá em determinada hora e produzir até o fim do dia. Gastei um pouco do tempo desta semana indo atrás de material e últimas coisas que faltavam no ateliê. Mas convenhamos, só tive uma semana disso... Ainda leva algum tempo.
Na fila de produção, resolvi começar desatravancando trabalhos antigos nos quais eu empaquei. O quadro que fazia parte do tríptico para a sala de casa, que parou depois que Bia criticou o modo como eu estava pintando a floresta, vai virar a primeira obra desta nova fase, dentro das premissas da pesquisa masculista. O retrato de Lexy vai receber a chapa de acrílico final com uma brincadeira a mais. E já estou quase terminando a caixa de chá pintada com a Alice que devo de presente à Lexy. Metas de Setembro.

Uma obra por mês. No mínimo. Sempre masculista.

Em conversas recentes com parentes e amigos, surgiu de novo o assunto da sensibilidade. Como sempre pareceu muito estranho para muita gente que eu tivesse essa obssessão espartana por ordem e disciplina e ao mesmo tempo a sensibilidade de um artista plástico. Meu pai, especificamente, não entendia como podía fazer parte da minha estratégia me isolar em outro país por um ano para "sentar a bunda na cadeira e produzir". Não entendia como arte podía ser essa atividade com hora marcada, quase mecânica.
Outro das séries de estereótipos ligados à carreira de artes plásticas é isso de que você vai viver uma vida totalmente dionisíaca e não-cartesiana, onde sua produção vai depender de uma inspiração de momento, imprevisível e soberana, sem a qual você não pode começar a produzir. Minha observação do pessoal do 2000e8 sugere exatamente o contrário. Eles produzem disciplinada e constantemente. A inspiração não define a obra específica ou o começo da produção, mas sim a série inteira de obras. Eles produzem sobre a mesma idéia, dia após dia, até esse lendário momento de inspiração fugaz trazer a próxima grande idéia. E daí começam uma série nova. Pode ser amanhã, pode ser no ano que vem. Mas enquanto essa idéia não vem, eles continuam produzindo sobre a mesma idéia. Só assim garantem um volume de trabalho suficiente para serem artistas comercializáveis.

A sensibilidade não é nada além de outro tipo de lógica.
Uma lógica de escolhas baseada na intuição, que por sua vez é baseada na experiência. Já fiz determinadas coisas tantas vezes, já juntei determinadas cores tantas vezes, que passo a ter uma memória inconsciente do que dá certo ou não. Alguns acham que isso é sensibilidade inata com as cores, com sabores, com palavras; mas é experiência.

Há menos magia na sensibilidade artística do que se pensa ou se admite.

terça-feira, agosto 18, 2009

Quinta passada.
Em um restaurante na Oscar Freire, almocei tendo por compania o Marcos Brias e a Regina Parra, ambos do atualmente desmantelado grupo 2000e8. Brias foi o que se poderia considerar o intelectual do grupo, seus trabalhos sempre baseados em muito recheio literário e suas concepções de uma densidade brutal. Regina foi, dentro do grupo, a pintora com cujo trabalho eu mais simpatizei, por ela também fazer ilustrações fortemente baseadas em fotografias (embora as dela tenham uma teoria muito mais interessante do que as minhas) e pelo nosso interesse comum por artistas como o Gerhard Richter.
O convite fora extendido a todos os participantes do grupo, embora eu tivesse mais proximidade com o Brias. De qualquer jeito, fiquei feliz que pelo menos alguém me respondeu, já que na minha carreira abandonada de publicidade, conseguir o privilégio de conversas relevantes com profissionais de peso era uma utopia.
O motivo do convite: uma conversa informal e não-mediada sobre o que de fato é ter uma carreira de artes plásticas. Não era minha primeira tentativa de abordar um artista plástico para saber dos segredos da profissão. Mas minhas tentativas com a geração mais velha resultaram naquela conversa de "pai pra filho", onde o pai dá respostas vagas do tipo "é complicado..." e diz que você "vai entender um dia". Ou aquelas respostas esotéricas e cheias de termos blasê ("essa coisa de dinheiro é uma falácia do mundo capitalista ocidental pós-industrializado modernista greenberguiano pré-1968"). Imaginei que ao menos, com a geração mais próxima da minha idade, eu poderia conseguir alguns conselhos práticos.
Foi uma espécie de validação saber que eles tiveram trajetórias parecidas com o meu caso atual, começando a trabalhar em outros assuntos e depois desistindo de tudo para seguir as artes. Brias de fato trabalhou com editoração, um assunto não tão distante da publicidade. Mas hoje, ambos dizem viver de suas pinturas. Não estão tão bem quanto o Rodolpho Parigi [1][2] mas pagam suas contas (caras) com sua arte. Estou prestes a jogar na mesa o assunto do Masculismo quando Brias antecipa a conclusão: no caso da Regina, casada, pagar as contas não é tão doloroso. Continuo com a opinião controversa de que essa carreira é mais complacente com mulheres por causa de seus maridos.

No meio do almoço, já estamos no cerne do assunto. Minha primeira pergunta e uma das minhas maiores curiosidades: quanto tempo passam no ateliê? A resposta me faz começar a entender por onde seguir. Obviamente cada um tem seu tempo de ateliê, mas a disciplina é fundamental. Estar no ateliê com a mesma tenacidade com que se comparece a uma empresa. Horário, pontualidade, eficiência no gasto de tempo. A primeira conclusão que eles me dão é que o coração dessa carreira é produzir. Produzir muito, todos os dias, o tempo todo. Eu, é claro, ainda estou bem longe disso. O último quadro que (quase) terminei foi o retrato de Lexy no ano passado. E preciso remediar isso. Antes que alguma empresa me ofereça um salário que eu não posso recusar.
Regina interrompe a conversa para pedir nossa opinião sobre quadros para uma exposição que ela está montando. E me conta que em vésperas de exposição, chega ao ateliê de manhã e só sai às 20:00. Em dias normais, seu horário começa às 14:00. Fico imaginando que eu poderia facilmente me acostumar a uma rotina assim. Ambos me contam que a Ana Elisa Egreja, outra do grupo, passa horas e até noites no ateliê, para produzir suas enormes pinturas cheias de padrões de tecido.
Essa primeira etapa de estabelecer a produção me parece a mais complicada. Como sobreviver e se sustentar enquanto isso acontece? Aulas de inglês, como falei, tomam um tempo absurdo e não pagam nem perto do suficiente. O jeito e manter um stiff upper lip e enfrentar de frente mesmo.
Estabelecida a produção, outras coisas acontecem simultaneamente. A primeira leva da produção já pode ser inscrita em salões de arte. O objetivo é mais rechear o currículo do que ganhar os prêmios, embora uma vitória dessas também garanta um bom fôlego financeiro. Enquanto isso, o comparecimento às vernissages e o networking são fundamentais. É daí que saem as primeiras visitas ao ateliê e contatos de galeria. E eventualmente, as primeiras vendas. Não é fácil... Mas é o caminho, sem segredos, sem respostas paternalistas ou esotéricas.
Regina ainda comenta que em suas primeiras vendas, gastou todo o dinheiro, achando ter faturado uma nota. Grande erro: na seca até sua próxima venda, passou apertos financeiros e aprendeu a poupar.
É claro que não dá pra prever quanto tempo leva tudo isso. Há uma boa dose de gente me dizendo que eu ainda sou jovem aos 27 anos, mas não me sinto assim. Sinto os cinco anos desde que saí da faculdade e deixei as chances de lá morrerem. Eles me tranquilizam reiterando que o mestrado é uma ótima idéia. Voltar à academia e às oportunidades que ela gera, desta vez com consciência para aproveitar.

Quando pego o ônibus de volta para casa, sinto que estou no caminho certo também na carreira. Claro, ainda há MUITO para caminhar. E o mês que vem vai ser duro, voltando ao ateliê e estabelecendo a rotina. Mas pelo menos já não estou mais à deriva. Estou em terra firme, com estrada seguindo adiante.

Toda jornada começa com um passo. Keep Edgewalking...

quarta-feira, agosto 12, 2009

Dois meses depois

Já fazem dois meses que pedi minha demissão da agência. E mais ou menos um mês que cumpri meu aviso prévio e larguei a carreira. Mas o fato é que continuo flertando com a publicidade, à espera de alguém ou alguma empresa que pague o que eu acredito ser o meu valor. O plano passou a ser este: encontrar uma empresa que me pague o suficiente e de preferência agregue um nome relevante ao meu currículo, e continuar tentando ser um artista plástico enquanto essa empresa não aparece. De um jeito ou de outro, saio da estagnação profisssional na qual tenho vivido pelos últimos quatro anos. Chega de agências pequenas, desconhecidas, pobres e sem nada a me oferecer além de "experiência".
Este primeiro mês de liberdade teve algo de semelhante à primeira semana que passei em Londres: um pavor, uma ansiedade frente a uma nova e desconhecida situação que me oferece muita informação e possibilidade de uma só vez e que eu não consigo organizar. Apesar da alegria de estar livre e das infinitas possibilidades, esse medo de perder oportunidades pela desorganização tingiu tudo de cores mais sóbrias.
Mas à medida que o mês foi passando, percebi que essa ansiedade tratava-se de outra coisa. Eu estava atolando em um mar de pequenices, detalhes e afazeres pontuais. Agora que eu estava livre e podia dispor de todo meu dia, cismei em resolver essas pendências, zerar a vida. Coisas como concertar a luz queimada do carro, enquadrar uma foto que eu ia dar de presente, dar um jeito na papelada na minha mesa. Pequenices a serem resolvidas rapidinho, mas que tiram o foco dos meus objetivos a médio prazo. Objetivos como voltar a ser produtivo, voltar a ter a disciplina para ser um artista plástico. Mas uma vez que isso ficou claro, passei a dar o tempo certo a essas pequenices e voltar a me concentrar no que de fato importava: reaprender a me concentrar, a vencer a preguiça, começar a trabalhar rápido e manter o ritmo durante o dia e a organizar meus ambientes de trabalho para que o dia seja eficiente. As pequenices serão resolvidas aos poucos. A verdade é que sempre haverá pequenices.
Com o fim desse segundo mês de desemprego, já começo a ver alguns resultados [1][2][3]. Ando participando de alguns concursos de ilustração para livros infantis (um deles um concurso mexicano que me obriga deliciosamente a reaprender a escrever em espanhol). Não são grandes obras de arte e ainda não acredito que vá ganhar alguma coisa, mas é um começo, um exercício de concentração e disciplina. E é muito bom voltar a me sentir produtivo naquilo que eu considero relevante. Mês que vem, pretendo estabelecer alguma rotina no ateliê e voltar a pintar. Desta vez com algum propósito e não apenas por hobby. Enquanto isso, ando conversando com artistas plásticos e tentando descobrir a teoria do que é de fato ter uma carreira em arte.

As noites atualmente são divididas entre aulas de inglês e o circo. As aulas são a minha única fonte de renda por enquanto, mas são uma clara armadilha: gasto quatro horas do dia entre preparar a aula, ir até a escola, lecionar e voltar para casa. No entanto, o pagamento por essas quatro horas é o que eu esperaria ganhar por uma hora de trabalho. E são tão poucas as aulas que provavelmente só vão pagar minha mensalidade do circo. Mas enfim, o inglês é assunto para outro post, outro dia.

Pensando bem a respeito dessa época, sou tomado de uma sensação muito prazerosa de estar fazendo as coisas das quais gosto e vivendo o tipo de vida que eu gostaria de viver. Uma vida na qual os dias são passados em meio a desenhos e outras atividades artísticas, o tempo é meu para dispor dele como eu quiser, aproveito o circo enquanto minha juventude ainda permite, e ainda convivo com meus vários idiomas de uma forma que me remete à Europa (a propósito, Tullio Seppilli [1][2] esteve aqui e conversamos bastante em italiano, completando minha lista de idiomas usados recentemente...). Ou seja, ando vivendo uma espécie de sonho, uma imersão em felicidade pessoal. Mas a questão do dinheiro para o meu sustento continua a me assombrar like the elephant in the room (algo obvio que todo mundo está vendo, mas ninguém quer falar a respeito). É um demônio que eu ainda não sei como enfrentar.

Como vou transformar esta rotina deliciosa em algo rentável?

quinta-feira, agosto 06, 2009

The Slow Movement

Outra coisa interessante da B-Coolt desta semana foi o Slow Movement. A B-Coolt cita que o movimento nasceu em Roma, mas o sobrenome dos criadores do site, todos da família Claridge, aponta para os Estados Unidos.
O Slow Movement promove o que se conhece como downshifting, algo como "reduzir a marcha" da sua vida. Na sua argumentação, dizem que a pressa com a qual se vive nas grandes cidades tem efeitos negativos que vão além do impacto na saúde. A vida de metrópole nos faz pessoas sempre apressadas, impacientes, intolerantes e atrasadas para o próximo compromisso. A tendência se reflete na incapacidade que algumas pessoas têm por exemplo ao ler grandes quantidades de texto: desistem no começo se o texto não for logo ao assunto, porque sentem que ler tudo aquilo é perder um tempo que eles não têm. Refeições são outro ótimo exemplo: a uma hora que teríamos para o almoço durante a semana é encurtada, dividida com a ida ao banco ou à academia, e acabamos comendo sem prazer, sem aproveitar a conversa com o amigo, sem livro. Ou seja, não nos permitimos tempo para saborear um bom livro, um bom vinho, uma compania e aquela sensação de vida sem graça, sem tempero, sem cor, acaba virando reclamação recorrente. Mas o principal efeito negativo desse estilo de vida apontado pelo site é a perda da conexão com as coisas, com a comunidade. Faz-me pensar nas quesões do Iron John do Robert Bly de novo. A falta de mentores, de figuras paternas, porque todos eles estão correndo demais, atrasados demais.
Detalhe interessante mencionado no site é o papel da tecnologia nesse ritmo frenético. Aparelhos que foram vendidos como soluções para reduzir o tempo e o esforço das obrigações domésticas para que tivéssemos "mais tempo para curtir a vida" acabaram gerando mais tempo para ser preenchido por obrigações e pela correria por dinheiro, já que a mecanização das atividades também lhes reduziu o valor. Vide o artefinalista das antigas agências, que precisava de destreza manual e experiência e foi substituído por qualquer pivete assistente de arte que ganha um terço do salário e faz tudo no computador. O tempo para curtir a vida é hoje gasto no segundo ou terceiro emprego simultaneo porque só um não paga o suficiente.
Curiosamente, a seção da página denominada Slow Money, que trataria de como ganhar o sustento nessa filosofia de vida mais lenta, ainda está em construção. Mas é minha principal dúvida a respeito. É possível diminuir a correria e ainda ganhar o equivalente à pessoa que corre o dia inteiro entre três empregos?

Já fazem 20 dias que saí do meu emprego na agência. Ainda apareço por lá de manhã, para trabalhar como freelancer e ganhar alguns trocados, mas não tenho obrigação e saio pontualmente no horário do almoço. Mas nesses primeiros 20 dias, senti como eu mesmo estava impregnado dessa inércia veloz e terrível apontada pelo Slow Movement. Tardes inteiras que eu podia usar para meus próprios assuntos, mas que passavam desperdiçadas naquela angústia amnésica de achar que eu precisava estar em outro lugar, fazendo outra coisa muito mais relevante, mas sem saber onde ou o quê. O mal deste ritmo é a completa falta de foco. Sei que tenho trezentas coisas e oportunidades, mas não me permito tempo suficiente para focar em uma antes que outra me pareça mais urgente. E no fim do dia, acabo não concluíndo nada. Achei que resolveria todas as pequenices da vida nesse tempo livre das tardes, mas ainda não me acostumei a como priorizar e dar foco às coisas por causa dessa sensação de urgência.
No começo desse mês, resolvi mudar o ritmo. Tenho dedicado minhas tardes a concursos de ilustração. Às vezes, a sensação de estar em casa a tarde toda escrevendo ou desenhando para algum deles me bate como uma irresponsabilidade, vagabundagem. Mas resisto pensando que não tenho outra responsabilidade no momento além desta, e que desenvolver essa capacidade de foco faz parte de desenvolver uma carreira independente.
Ainda me preocupo (e muito) com o dinheiro, com ganhar o suficiente para pagar minhas poucas contas e ainda economizar para Londres no ano que vem. E fazer isso sem me sujeitar de novo a empregos que me desrespeitam. Mas isso, apenas o passar dos meses dirá.

Tara McPherson


Segundo a B-Coolt desta semana, a artista californiana Tara McPherson vem à Galeria Choque Cultural como parte da turnê de divulgação de seu novo trabalho, o livro Lost Constellations.
Conheci o trabalho de Tara McPherson na SP Arte deste ano. Ela é a mais recente novidade da tendência artística que inclui gente do naipe do Mark Ryden, Trevor Brown e Dan May. São imagens com um forte apelo pop, cores fortes e limpas, formas sedutoras e muitas vezes referenciando ícones da cultura de massa. Mas ao mesmo tempo, os temas frequentemente fazem alusão a um certo mal estar do tempo, à melancolia e ao abuso. A influência do movimento Lowbrow (ou Surrealismo Pop) da Califórnia de 1970 me parece bem claro, embora eu ache que alguns desses artistas queiram negar as origens, porque o Lowbrow era um movimento com um teor cômico predominante e esses artistas atuais são mais depressivos. De qualquer forma, é uma tendência que eu estou seguindo com muito interesse e a sessão de autógrafos que acontece na noite deste sábado na Choque Cultural pode ser uma ótima oportunidade pra chegar mais perto.

segunda-feira, agosto 03, 2009

Interpretação de minha mãe

Minha mãe escreveu a sua interpretação de pesquisadora científica sobre a carta de Bouillier a Calle.

Rendeu boas discussões lá em casa.

Sentimento não se explica

Finalmente consegui visitar a exposição da Sophie Calle neste fim de semana. Estava viajando na abertura e passei o fim de semana anterior no Anima Mundi.

Admito que quando li a missiva enviada a Sophie pelo ex-namorado, julguei-o um canalha. A verdade é que toda a obra baseada nessa carta foi orquestrada para virar a mesa e transformá-lo em um canalha. O escrutínio do texto por todos os ângulos imagináveis é uma estratégia formidável para enfraquecer e inferiorizar um homem que tomou uma decisão muito sincera, mas que prejudica a artista.

Lexy foi a primeira a me surpreender quando saí da exposição. "Achei que ela [Calle] foi egoísta e covarde", ela me disse. Egoísta porque tirou proveito da situação sem pensar no prejuízo à imagem pública de Bouillier, o ex. Covarde porque, em vez de peitar a situação sozinha, ela conjurou um exército de mais de cem mulheres para ridicularizá-lo. A idéia da covardia de Calle já era apontada por uma de suas escolhidas, a escritora Christine Angot, que tentara escrever algo nos moldes das outras mulheres, inferiorizando Bouillier, mas depois de várias tentativas, percebeu que não concordava totalmente com esse ponto de vista. Em seu texto final, mencionava que as mulheres se juntaram como tantas outras mulheres se juntavam em torno de fins de relacionamento, para ridicularizar os homens e "transformá-los em mulheres". Havia uma verdade nessa constatação que eu ainda tinha dificuldade em verbalizar.
Saíndo de SESC, Lexy me dizia que a convivência comigo e com esses conceitos do Masculismo já estavam mudando seu jeito de ver essas coisas. Fiquei muito contente com isso! Ela dizia que começava a perceber como os homens eram vítimas de determinadas situações amorosas. Em um comentário que deixei no blog da Maíra, mencionei o estereótipo que existe nos fins de relacionamento, que dita que o homem está sempre errado e a mulher é sempre a vítima (excetuando casos de traição, naturalmente).
A armadilha é muito simples e, no caso de Bouillier, ele caiu nela sozinho e sem qualquer influência ou esforço de Calle, como muitos o fazem. Consiste em achar que ele tem que explicar os porquês de um sentimento ter acabado. O sentimento acabou. Ponto. Não tem que explicar. Qualquer tentativa de explicar sentimentos com lógica é imbecil e imatura. É vulnerável ao tipo de ridicularização que acaba acontecendo na obra de Calle. Se ele tivesse dito apenas isso, "o sentimento acabou", ela não teria como humilhá-lo. Seria honesto, maduro e direto ao assunto. Em vez disso, ele tenta dar razões, se enrola, fica confuso. É um escritor, mas escreve um texto cheio de erros gramaticais e redundâncias, porque não consegue ter a coragem de ser direto.
Homem hoje não tem mais coragem de ser direto, porque tem medo de que isso seja interpretado como insensibilidade e machismo. Ele pisa em ovos o tempo todo sob a premissa de "respeitar as mulheres", mas acaba caíndo nessas armadilhas e se desrespeitando.

Explicar um sentimento é sempre um ato suicida para o qual os homens caminham cegamente. Já caí milhares de vezes na pergunta "por que você me ama?". As explicações que dei faziam perfeito sentido para mim. Me satisfaziam de verdade. Elas sempre as acharam insuficientes, como um sentimento que eu poderia ter por uma boa amiga, ou como prova de que eu pensava nelas como objetos, esse tipo de coisa. Um bom "porque sim" não teria explicado nada e seria bem menos poético, mas teria acabado a discussão. Os homens, via de regra, não perguntam. Ou se contentam com explicações vagas e ilógicas, com os "porque sim".