O Clube de Desenho dos Excluídos
"Professor, me dá um assunto para eu desenhar?"
A ideia partiu de Luisa, uma das minhas alunas do 7º ano. Eu tinha percebido a Luísa atrás da classe. Ela era do tipo que se destacava. Grande, cabelo crespo, camiseta preta de banda de heavy metal. E no entanto, uma doçura e timidez incomparáveis. Ela já me mostrara personagens em um caderno e eu acho que tinha mostrado os postais da Butcher.
"Tá. Deixa eu pensar. Mas você me dá um assunto também?"
No fim da aula, havíamos começado algo curioso e muito interessante. Pensando em um outro exercício baseado em um poema das aulas de espanhol, lembrei que os alunos do 8º andavam me perguntando como representar em fotografia uma mentira. Então esse foi o tema que Luisa teria que desenhar para a semana seguinte. O tema que eu desenharia: uma ideia de morte. Luisa estava ficando cada vez mais interessante.
Quantas vezes eu não pensara no assunto? Não como o suicida (tá, desse jeito também, todo adolescente cogita...), mas de um jeito bem pragmático, sem juízo de valor. E eu conhecia o drama desse tipo de adolescente: qualquer menção que se fizesse ao assunto já disparava alarmes nas cabeças de pais e professores, e às vezes você só queria se indagar sobre o assunto. Ou às vezes essa preocupação dos mais velhos só exacerbava um sentimento de isolamento e incompreensão que o adolescente sentia e o mergulhava mais fundo nos pensamentos de morte. Eu vi nisso uma chance dourada. A chance de, como alguém que já havia estado lá, poder dar o espaço para que ela falasse disso até esgotar o assunto, sem julgamento, sem alarme, como apenas um fato da vida. E calejar alguma dor que a estava corroendo.
Luísa me trouxe uma resposta inusitada. Um bom desenho de um palhaço com os dizeres "Palhaços mentem". Eu não soube ao certo o que tirar disso, mas acho que em um primeiro momento, importava mais a resposta que eu lhe daria. E entreguei um desenho em grafite sobre papel preto (o grafite fica claro no fundo escuro) de uma cabeça de um robô separada do corpo, flutuando desligada por esse nada. Os dizeres eram algo do tipo "Onde não há tempo nem espaço, pois não há corpo para os sentir." Tivemos uma breve conversa sobre essa ideia. Uma espécie de paz perene, a libertação do "não ser", depois que a máquina que era o nosso corpo fosse desligada. Sem céu, inferno e deidades julgadoras. Apenas um nada. Pleno e correto.
Na segunda rodada da brincadeira, a Mari apareceu. Uma amiga de outra sala que nos viu entregando os desenhos um para o outro e quis participar. Apesar de tão alta quanto a Luisa, ela não tinha chamado tanto a atenção pessoalmente. Eu a percebera no Facebook por ela ser uma otaku (and proud of it...). E depois, em aula, chamou a atenção pela qualidade da produção acadêmica, o intelecto desenvolvido o suficiente para apreciar abstração e experimentação com materiais. Mas a rigor, era outra garota grande com um temperamento tímido e voz baixa.
Nessa segunda rodada, apareceram temas como "mulher" (meu para a Luisa desenhar), "drogas" (da Luísa para a Mari) e "aparência" (da Mari para mim). E novamente, a Luísa me interessou. Eu lhe pedira para pensar em "mulher" para ver como ela se relacionava com a questão dos padrões de beleza e toda aquela besteira que traumatiza profundamente as adolescentes.
Ela me trouxe o desenho de um travesti e dizeres sobre estar em um corpo errado.
A terceira rodada está em andamento. E com duas participantes novas. Laura é uma terceira menina alta. Com um temperamento mais pesado (porém nunca violento). Revelou-me que é escritora além de desenhar (ah, as memórias da minha época de colégio...). Aparenta um profundo ceticismo em relação à vida, como alguém que já passou por mais do que deveria nessa idade. A outra é a oriental Kellen, a primeira garota pequena do grupo. Me parecia o ponto fora da curva, até lançar despudoradamente o tema de "câncer" para uma das meninas.
Nas reuniões de professores, os outros têm recebido bem a minha iniciativa, apesar de me acautelarem. Dizem que eu preciso ter uma boa noção do meu papel como professor. Eu não sou um terapeuta, eu não sou um potencial pretendente amoroso, eu não sou sequer um melhor amigo. Eu sou um professor. E elas precisam ter isso claro na cabeça. Dizem que há um limite para o quão íntimo eu posso ser delas sem receber nos ombros a responsabilidade pelas questões psicológicas delas.
Eu continuo defendendo que, em um ambiente desses, cheio de pressões (sociais, acadêmicas e biológicas), muita gente precisa ver na arte um espaço para descarregar o peso. Um espaço sem nenhum adulto entrando em pânico ao ouvir adolescente falar das questões brutais da vida (já existe a turma bem treinada do departamento de Orientação Educacional para isso).
Eu vejo principalmente na atitude da Laura que elas precisam de um espaço e uma experiência emocional que faça sentido para elas. Elas querem sentir alguma coisa. E taboadas, regras gramaticais e fatos históricos decorados para ganhar nota só as estão anestesiando mais.
Eu acho que é isso que deveria ser a aula de arte. Expressão irrestrita. Sem medo, sem censura e transgredindo os limites dos temas PG-13.
Bits and pieces of my life that everyone ignores when I speak, but someone reads when I write.
quinta-feira, junho 28, 2012
sexta-feira, junho 15, 2012
Binge gaming
Tem gente que bebe, tem gente que renderiza.
Do blog da Lu
Pois é... Eu jogo.
Eu falava meio brincando que jogar vídeo game era que nem vício pra mim. Que nem alcoolismo, essas coisas. É um clichê que o bêbado bebe para esquecer da vida. É uma "diversão" que tira sua cabeça de um momento doloroso qualquer. E ele não consegue se livrar daquilo em parte por um imperativo biológico, mas em parte também porque no momento em que ele fica sóbrio, ele tem que lidar com os problemas (às vezes insolúveis) que continuam lá. Em suma, ele bebe para "não ser" por algum tempo.
Nos meses recentes, eu tenho tentado "não ser" um pouquinho também. Eu sempre me policiei bastante no sentido de não ter consoles de games em casa e nem instalar jogos complexos no computador, nada que pudesse me viciar demais ou me tirar da realidade por mais do que alguns minutos (afinal, apesar do vício, todo mundo precisa de algum descanso). Fiquei apenas (e inevitavelmente) com os jogos online em browser, daqueles que não precisa instalar nada no computador. Desde Londres que o meu game para "jogar socialmente" é o Mahjongg Dark Dimensions (dá pra perceber o quanto eu jogo porque eu devo ainda estar na lista de pontuações mais altas do dia...). Dá pra terminar em uns 15 minutos. E como toda droga, tem seus efeitos. No meu caso, é um estimulante. E eu usava em Londres para dar uma acordada durante as traduções que eu fazia de madrugada.
Só que nos meses recentes eu tenho me dado esses intervalos com mais frequência. Mais do que "socialmente". Talvez porque queira "não ser" mais frequentemente, como o bêbado que bebe para esquecer o problema que continua lá. E esses excessos têm seus efeitos nocivos (ou você acha que excesso de vídeo game é só a mãe enlouquecendo porque você não sai do quarto?). Eu percebo a "bebedeira" quando fecho os olhos e ainda consigo ver as pecinhas. O jogo continua na minha cabeça. E ele não vai parar. Há uma infinidade de pecinhas na escuridão, surgindo da névoa para serem clicadas e pareadas. Cubinhos a perder de vista.
No feriado, me apresentaram o Drop-7. Agora eu posso "não ser" nas viagens de metrô também. Patético, não? Pior de tudo é que junta uma droga na outra e eu começo a atribuir valores numéricos para as forminhas bizarras do Mahjongg. Triângulos vermelhos, por algum motivo inexplicável, valem 4 (4 do que?). Pirando legal...
Apesar do nível da coisa estar perigando neuroses, o vício ainda não me incapacitou. Eu não jogo enquanto estou com pessoas, enquanto estou no colégio, enquanto consigo ocupar a cabeça com outras coisas. A vida segue (talvez em um ritmo mais lento do que eu gostaria), apesar da bebedeira. E no entanto, tem os dias de folga, onde não trabalho e não traduzo, em que já passei uma boa porcentagem do dia nos jogos. Me preocupo.
Em inglês, há um termo que se usa quando as pessoas se entregam totalmente ao excesso, perdendo toda a dignidade e o controle. Going on a binge, ou no caso da bebida, binge drinking.
Tenho passado algum tempo binge gaming.
segunda-feira, junho 11, 2012
Pessoas livres
"Psor, você passa base na unha?" me perguntou uma luna da 6ª série. Sem titubear, respondi que sim, que gostava do brilho e que deixava minhas unhas mais fortes. O cuidado com as unhas é um detalhe de uma série de pequenos cuidados aos quais eu me acostumei em Londres, e que eu fazia porque faziam com que eu me sentisse bem. Se tivesse mais tempo, cuidaria de mais coisas, mais detalhes. Depilação e hidratação. Mimos pessoais que com certeza me enquadrariam no rótulo do metrossexual. Eu já não dou a mínima para esses rótulos. Preferia rotular-me "complicado" e viver à margem do que os outros pensam a respeito disso.
Experimento com isso uma sensação única de liberdade. Até de poder. O não me ferir mais com o comentário maldoso, com o desprezo alheio, com o nojo causado pela incompreensão, tem um efeito "aikido" onde eu posso devolver o insulto como provocação. Mais do que isso, é muito libertador não me sentir mais na obrigação de me enquadrar no modelo de masculinidade antigo. Deixar eles que vivam com seu próprio medo de "não ser macho o suficiente". Não há nada mais poderoso do que simplesmente não jogar o jogo. É meio como "trollar" o Patriarcado...
Mas apesar de atualmente ter uma facilidade pra fazer isso em relação à minha sexualidade, andei muito ensimesmado, pensando que eu não tinha essa mesma liberdade com outras áreas da minha vida.
Andei vendo um pouco disso com o novo analista ao contar que eu já fizera terapia para me tratar de problemas com ansiedade. Estes eram derivados da sensação que eu tinha de que "os outros" esperavam coisas de mim. "Os outros" eram pais, família, namoradas, amigos, empregadores, sociedade em geral. Coisas eram comportamentos, moral, conduta. E como eu era incapaz de agir de acordo, eu sentia uma dose de culpa e inadequação que me levavam à ansiedade. Minha primeira terapeuta me ajudou a superar o assunto levando-me a ver que ninguém esperava nada de mim, e que eu era livre para ser eu. Esse ponto de vista funcionou melhor em alguns assuntos do que em outros.
Passei o feriado em Campos do Jordão. Uma cidade que sempre trouxe à tona esses sentimentos de inadequação [1]. Era, em uma cidade, tudo o que me incomodara na minha adolescência no colégio. Os adolescentes ricos (o perfil "balada Vila Olímpia", como eu dizia ao meu analista), as baladas superfaturadas, o jogo de aparências onde todo mundo era igual e eu era diferente, os excessos de toda natureza, a diversão fingida. Eu conseguia gradualmente me sentir menos mal em relação a esse ambiente. Sentia menos necessidade de ir para o centro garimpar entradas para a balada da moda. Menos necessidade de que me notassem. Menos necessidade de "fazer parte".
Na sexta, chegou meu irmão. Alguém teve que ir pegá-lo na rodoviária porque já faz meses que ele vendeu o carro. Anda com as roupas que consegue (muitas vezes, as que meus pais dão...). Continua morando em uma garagem transformada em estúdio de música. Vive com dívidas e problemas relacionados. Não tem perspectivas de melhoras financeiras. E no entanto, como Lexy bem observou, vive feliz. Com o que faz, com a vida que leva, com sua garagem e suas roupas maltrapilhas. Mais do que isso, quando a família tira sarro, ele ri junto e todos ficam com uma sensação de que tirar sarro não o forçará a "fazer parte". Ele vive à margem do que os outros pensam sobre seu estado financeiro como eu vivo à margem do que pensam da minha sexualidade.
Durante uma das saídas para o centro da cidade, conversei com uma das minhas primas, Adriana. Durante a minha adolescência frustrada em Campos, ela liderava a matilha de primas que descolavam VIPs e entradas gratuitas para as baladas superfaturadas. Podiam escolher a dedo com quem queriam ficar, e parecia que nada nem ninguém tinha mais poder do que elas naquele meio, e nenhuma delas tinha mais poder do que Adriana. Essa, claro, era a visão totalmente romanceada que eu tinha delas na época. Conversar com Adriana (realmente conversar com ela...) me trouxe uma outra história. A de alguém que nunca se sentiu como parte da "turminha popular" (será que ALGUÉM algum dia se sentiu?), que camelou para alcançar o status que tinha e nunca se sentiu feliz com o poder que conseguiu. Aos 25, ela aposentou a vida de glamour. Mais adiante, largou o emprego em imobiliárias para abrir uma empresa de doces. Casou-se com um rapaz que não tinha nada do perfil que elas procuravam nas baladas de Campos. Planeja ter um filho em breve. E mais do que tudo, parece feliz vivendo também à margem do que a "turminha popular" pensa sobre ela.
No fim, não pude deixar de pensar em Nana. Porque eu percebera uma coisa similar quando cortamos contato. Ela havia se isolado do mundo, de quem a obrigara a estudar, a ter ambição, emprego, essas coisas prosaicas que a empurraram para a depressão. Quando eu a empurrei em direção a essas coisas, ela me cortou também. Nem eu, um amigo íntimo de mais de uma década, valia ela trair-se desse jeito. O que ela queria me ensinar (se é que se importava comigo para se dar ao trabalho de "me ensinar" alguma coisa), era que ela arranjaria essas coisas quando e se quisesse, não para ter a minha aprovação. Já não tenho contato algum com ela para saber se está feliz, mas não parece minimamente incomodada de viver à margem mesmo do que eu penso dela.
E quanto a mim?
Voltando ao cerne deste post e da questão atual, eu estava cada vez juntando mais bagagem para discutir com o meu analista. O que é que eu fazia de fato para mim? E o que é que eu fazia pela aprovação d'Os Outros? Quanto dessa aprovação era real ou imaginada por mim? Quanto que Os Outros de fato se importavam com o que eu fazia da vida, o que eu vestia, onde eu me divertia?
Do jeito que a questão está na minha cabeça, há alguns pontos-chave. Dentre eles, o meu atual emprego no meu antigo colégio (que vale um posto mais adiante...). Para quem que eu estou fazendo isso? Para ter honra perante a família? Para parecer importante na reunião de 15 anos de formandos do colégio? Para encher a boca e dizer (pra quem?) que eu sou professor com mestrado em artes, por uma questão de orgulho? Será que eu sequer gosto mesmo de arte?
Deu pra ver a extensão do problema, né?
Eu tenho algumas respostas, embora respostas neste terreno pantanoso de dúvida sejam suscetíveis à maré. Eu sei que gosto de idiomas e não me importaria de viver de tradução se isso pagasse o que eu ganho no colégio. Eu sei que gosto de me vestir bem (do meu jeito...) e de morar onde estou morando (mas não mais dos vizinhos...). E que essas coisas não têm tanto a ver com o que os outros acham e sim com um prazer estético meu. Eu sei que gosto de Londres. E por enquanto é só.
O resto ainda está aberto ao debate.
Experimento com isso uma sensação única de liberdade. Até de poder. O não me ferir mais com o comentário maldoso, com o desprezo alheio, com o nojo causado pela incompreensão, tem um efeito "aikido" onde eu posso devolver o insulto como provocação. Mais do que isso, é muito libertador não me sentir mais na obrigação de me enquadrar no modelo de masculinidade antigo. Deixar eles que vivam com seu próprio medo de "não ser macho o suficiente". Não há nada mais poderoso do que simplesmente não jogar o jogo. É meio como "trollar" o Patriarcado...
Mas apesar de atualmente ter uma facilidade pra fazer isso em relação à minha sexualidade, andei muito ensimesmado, pensando que eu não tinha essa mesma liberdade com outras áreas da minha vida.
Andei vendo um pouco disso com o novo analista ao contar que eu já fizera terapia para me tratar de problemas com ansiedade. Estes eram derivados da sensação que eu tinha de que "os outros" esperavam coisas de mim. "Os outros" eram pais, família, namoradas, amigos, empregadores, sociedade em geral. Coisas eram comportamentos, moral, conduta. E como eu era incapaz de agir de acordo, eu sentia uma dose de culpa e inadequação que me levavam à ansiedade. Minha primeira terapeuta me ajudou a superar o assunto levando-me a ver que ninguém esperava nada de mim, e que eu era livre para ser eu. Esse ponto de vista funcionou melhor em alguns assuntos do que em outros.
Passei o feriado em Campos do Jordão. Uma cidade que sempre trouxe à tona esses sentimentos de inadequação [1]. Era, em uma cidade, tudo o que me incomodara na minha adolescência no colégio. Os adolescentes ricos (o perfil "balada Vila Olímpia", como eu dizia ao meu analista), as baladas superfaturadas, o jogo de aparências onde todo mundo era igual e eu era diferente, os excessos de toda natureza, a diversão fingida. Eu conseguia gradualmente me sentir menos mal em relação a esse ambiente. Sentia menos necessidade de ir para o centro garimpar entradas para a balada da moda. Menos necessidade de que me notassem. Menos necessidade de "fazer parte".
Na sexta, chegou meu irmão. Alguém teve que ir pegá-lo na rodoviária porque já faz meses que ele vendeu o carro. Anda com as roupas que consegue (muitas vezes, as que meus pais dão...). Continua morando em uma garagem transformada em estúdio de música. Vive com dívidas e problemas relacionados. Não tem perspectivas de melhoras financeiras. E no entanto, como Lexy bem observou, vive feliz. Com o que faz, com a vida que leva, com sua garagem e suas roupas maltrapilhas. Mais do que isso, quando a família tira sarro, ele ri junto e todos ficam com uma sensação de que tirar sarro não o forçará a "fazer parte". Ele vive à margem do que os outros pensam sobre seu estado financeiro como eu vivo à margem do que pensam da minha sexualidade.
Durante uma das saídas para o centro da cidade, conversei com uma das minhas primas, Adriana. Durante a minha adolescência frustrada em Campos, ela liderava a matilha de primas que descolavam VIPs e entradas gratuitas para as baladas superfaturadas. Podiam escolher a dedo com quem queriam ficar, e parecia que nada nem ninguém tinha mais poder do que elas naquele meio, e nenhuma delas tinha mais poder do que Adriana. Essa, claro, era a visão totalmente romanceada que eu tinha delas na época. Conversar com Adriana (realmente conversar com ela...) me trouxe uma outra história. A de alguém que nunca se sentiu como parte da "turminha popular" (será que ALGUÉM algum dia se sentiu?), que camelou para alcançar o status que tinha e nunca se sentiu feliz com o poder que conseguiu. Aos 25, ela aposentou a vida de glamour. Mais adiante, largou o emprego em imobiliárias para abrir uma empresa de doces. Casou-se com um rapaz que não tinha nada do perfil que elas procuravam nas baladas de Campos. Planeja ter um filho em breve. E mais do que tudo, parece feliz vivendo também à margem do que a "turminha popular" pensa sobre ela.
No fim, não pude deixar de pensar em Nana. Porque eu percebera uma coisa similar quando cortamos contato. Ela havia se isolado do mundo, de quem a obrigara a estudar, a ter ambição, emprego, essas coisas prosaicas que a empurraram para a depressão. Quando eu a empurrei em direção a essas coisas, ela me cortou também. Nem eu, um amigo íntimo de mais de uma década, valia ela trair-se desse jeito. O que ela queria me ensinar (se é que se importava comigo para se dar ao trabalho de "me ensinar" alguma coisa), era que ela arranjaria essas coisas quando e se quisesse, não para ter a minha aprovação. Já não tenho contato algum com ela para saber se está feliz, mas não parece minimamente incomodada de viver à margem mesmo do que eu penso dela.
E quanto a mim?
Voltando ao cerne deste post e da questão atual, eu estava cada vez juntando mais bagagem para discutir com o meu analista. O que é que eu fazia de fato para mim? E o que é que eu fazia pela aprovação d'Os Outros? Quanto dessa aprovação era real ou imaginada por mim? Quanto que Os Outros de fato se importavam com o que eu fazia da vida, o que eu vestia, onde eu me divertia?
Do jeito que a questão está na minha cabeça, há alguns pontos-chave. Dentre eles, o meu atual emprego no meu antigo colégio (que vale um posto mais adiante...). Para quem que eu estou fazendo isso? Para ter honra perante a família? Para parecer importante na reunião de 15 anos de formandos do colégio? Para encher a boca e dizer (pra quem?) que eu sou professor com mestrado em artes, por uma questão de orgulho? Será que eu sequer gosto mesmo de arte?
Deu pra ver a extensão do problema, né?
Eu tenho algumas respostas, embora respostas neste terreno pantanoso de dúvida sejam suscetíveis à maré. Eu sei que gosto de idiomas e não me importaria de viver de tradução se isso pagasse o que eu ganho no colégio. Eu sei que gosto de me vestir bem (do meu jeito...) e de morar onde estou morando (mas não mais dos vizinhos...). E que essas coisas não têm tanto a ver com o que os outros acham e sim com um prazer estético meu. Eu sei que gosto de Londres. E por enquanto é só.
O resto ainda está aberto ao debate.
terça-feira, junho 05, 2012
De volta ao divã
Voltei oficialmente a fazer terapia. Desta vez, análise.Ainda é meio apertado no meu orçamento, que ainda conta com parcelas dos móveis do apê novo. Mas é necessário, com tudo que tem se passado nos meses recentes. Não para resolver questões práticas como crises de ansiedade, mas pra rever como minha cabeça está estruturada, por que eu saboto as coisas que eu saboto, por que tudo vai tão bem e ainda assim há essa sensação de fracasso.
O começo é mesmo uma rotina tediosa de recontar todas as histórias pessoais que eu já contei a terapeutas passados, a infância fora do país, os traumas de colégio, os tropeços dos primeiros relacionamentos, a influência de família, colégio, amigos, classe social. Mas curiosamente, recontando dessa vez, comecei a prestar atenção a outras coisas. Sabe, é como um daqueles filmes que você revê depois de um tempo e começa a perceber uns detalhes da trama que não tinha percebido. Coisas que não mudam o final que você já conhece, mas dão um gosto a mais e uma compreensão a mais para os eventos que acontecem no clímax do filme. Recentemente assisti Hannibal de novo, desse jeito. Revendo detalhes. Como eu gosto desse personagem!
Mais do que tudo, na terapia a gente vai percebendo como fez as coisas errado. Como nos deixamos cair em abismos que cavamos com nossos próprios pés. E como fizemos coisas certas também, mas pra essas não precisa de terapia, né? Não, eu ainda não sou um caso tão perdido e complicado assim. Dessa vez é apenas uma questão de fine tunning.
Acho que a questão agora é: será que o blog já perdeu leitores o suficiente para que eu possa voltar a ser pessoal e íntimo por aqui e escrever o que eu for descobrindo nessa jornada?
Será que eu de fato me importo com isso? Já não sei mais.
O começo é mesmo uma rotina tediosa de recontar todas as histórias pessoais que eu já contei a terapeutas passados, a infância fora do país, os traumas de colégio, os tropeços dos primeiros relacionamentos, a influência de família, colégio, amigos, classe social. Mas curiosamente, recontando dessa vez, comecei a prestar atenção a outras coisas. Sabe, é como um daqueles filmes que você revê depois de um tempo e começa a perceber uns detalhes da trama que não tinha percebido. Coisas que não mudam o final que você já conhece, mas dão um gosto a mais e uma compreensão a mais para os eventos que acontecem no clímax do filme. Recentemente assisti Hannibal de novo, desse jeito. Revendo detalhes. Como eu gosto desse personagem!
Mais do que tudo, na terapia a gente vai percebendo como fez as coisas errado. Como nos deixamos cair em abismos que cavamos com nossos próprios pés. E como fizemos coisas certas também, mas pra essas não precisa de terapia, né? Não, eu ainda não sou um caso tão perdido e complicado assim. Dessa vez é apenas uma questão de fine tunning.
Acho que a questão agora é: será que o blog já perdeu leitores o suficiente para que eu possa voltar a ser pessoal e íntimo por aqui e escrever o que eu for descobrindo nessa jornada?
Será que eu de fato me importo com isso? Já não sei mais.
segunda-feira, maio 21, 2012
Random literature
The sadness came, as I was told it would. I could scarcely believe it would, since it was meant to be one of the most accomplished periods of my life. The sadness came like winter rain comes in my country. A brief warning, perhaps a chill on an otherwise sunny and warm day. And those who had been seasoned well would know how to watch out for these signs. Weeks went by like days and on the next one my heart faced the most fiersome storm it had ever witnessed, the gales lashing at me throughout the night and thunder keeping sleep at bay. But time passed. And now this mourning is but the grayness of lingering clouds, damping the mood of the days. Every now and then the weather forecast predicts a foggy night or a rainny Tuesday afternoon. But the clouds are always there. It's been days. Perhaps a month already. Few things have any noticeable color anymore. And it seems these clouds will stay here for a long time.
terça-feira, maio 15, 2012
Na adolescência, quando eu costumava teorizar sobre o universo, confortei o Piero em tempos ruins dizendo-lhe que a vida tinha um tipo de equilíbrio. E que, se ele passava por uma época particularmente ruim, era porque uma época muito boa seria paga depois. Claro que não havia nenhuma base lógica para isso. Essa filosofia era inteiramente baseada na fé. Não na fé cristã, mas na fé de que a existência deveria ser boa, justa.
Depois de passar provavelmente o melhor ano da minha vida até este ponto no ano passado, eu acho que estou pagando por ele este ano.
E tá foda.
Depois de passar provavelmente o melhor ano da minha vida até este ponto no ano passado, eu acho que estou pagando por ele este ano.
E tá foda.
Pina, Wenders e honestidade
Fui assistir Pina do Wim Wenders. Pra dizer a verdade, não gostei tanto quanto imaginava que gostaria.
Eu queria sim que minha vida fosse como os filmes do Wenders. Fotografia impecável, pelo menos três idiomas e muita poesia. Aos poucos, vou me rodeando de gente que me permite fazer isso. Começar uma conversa em português, ter passagens em inglês e um pequeno parêntesis cômico em italiano.
Não, a razão de eu não ter gostado do filme não tem nada a ver com Wenders. Tem a ver com a dança. Arrisco dizer que tenha a ver com a arte. E principalmente comigo mesmo e com acontecimentos recentes. Alguém recentemente me fez pensar bastante sobre honestidade. Mais do que isso, sobre ser honesto consigo mesmo para poder ser honesto com os outros. Essa noção aparentemente óbvia, ligada a outros questionamentos que eu estava tendo sobre a índole masculina brasileira, tem feito um considerável estrago na minha vida. Mas é um daqueles estragos que você sabe que merece, e pelos quais precisa passar. Pra se tornar um homem melhor. E isso é assunto para um outro longo post que talvez eu nunca chegue a escrever.
No meio da trilha de destruição que essa honestidade está deixando, encontra-se a minha capacidade de apreciar arte. Uma capacidade que antes era baseada em uma espécie de tolerância, como se, frente a uma obra daquelas áridas, meio abstratas e herméticas, eu dissesse "muito bem, eu não estou me relacionando com essa coisa, mas se está aqui, deve ter alguma importância e beleza que eu ainda não captei". Eu ignorava o sentimento negativo de isolamento que eu sentia, o enfado, o tédio, para quem sabe poder chegar a um nível de compreensão e maravilhamento mais adiante. Resumindo, eu fazia cara de conteúdo.
Mas dessa vez, vendo o filme com honestidade, eu resolvi não ignorar. Houve partes em que eu dormi MESMO. Houveram coreografias que não me diziam NADA. Movimentos espasmódicos que claramente eram o fim de algum longo e tortuoso processo do dançarino, mas que não queriam dizer nada para o expectador final que eu sou. Arte hoje às vezes é um processo. E faz sentido quando se vê desde o começo, como fez sentido para quem acompanhou o meu processo todo em Londres e entendeu porque que eu emergi de cabeça raspada, lixando minhas unhas em uma lixadeira mecânica. Porque que eu me embrenhei pelas baladas de Brixton. Porque que a Filha do Açougueiro teve que fugir. Mas pra quem pega o bonde andando, isso não passa de loucura estéril.
Quiçá eu devesse ter lido mais, pesquisado mais sobre a Pina Bausch antes de ir ver o filme. Ela era apenas um nome e uma noção de uma mulher daquelas.
E no entanto, há momentos de grande beleza no filme. Alguns são obra do Wenders: as tomadas do metrô alemão; as cenas nas paisagens desertas; a fila de dançarinos morbidamente sorridentes repetindo os movimentos de primavera, verão, outono e inverno; as construções meio Bauhauss onde algumas das cenas acontecem. Outras são Pina e seus bailarinos: a garota que se enrola nos braços do amado que foge dela; a outra que cai para os lados a cada passo, segura de que seu parceiro a segurará poucos centímetros antes de atingir o chão; os dançarinos jogando baldes d'água na rocha enorme no palco, me lembrando ondas na arrebentação.
Percebo que o meu estado recente me deixou um pouco avesso ao drama. Talvez um pouco mais frio, endurecendo a carapaça externa pela qual todas as artes futuras terão que penetrar pra me fazer sentir algo de fato.
E como será o efeito disso quando (e se) eu voltar a de fato fazer arte?
Eu queria sim que minha vida fosse como os filmes do Wenders. Fotografia impecável, pelo menos três idiomas e muita poesia. Aos poucos, vou me rodeando de gente que me permite fazer isso. Começar uma conversa em português, ter passagens em inglês e um pequeno parêntesis cômico em italiano.
Não, a razão de eu não ter gostado do filme não tem nada a ver com Wenders. Tem a ver com a dança. Arrisco dizer que tenha a ver com a arte. E principalmente comigo mesmo e com acontecimentos recentes. Alguém recentemente me fez pensar bastante sobre honestidade. Mais do que isso, sobre ser honesto consigo mesmo para poder ser honesto com os outros. Essa noção aparentemente óbvia, ligada a outros questionamentos que eu estava tendo sobre a índole masculina brasileira, tem feito um considerável estrago na minha vida. Mas é um daqueles estragos que você sabe que merece, e pelos quais precisa passar. Pra se tornar um homem melhor. E isso é assunto para um outro longo post que talvez eu nunca chegue a escrever.
No meio da trilha de destruição que essa honestidade está deixando, encontra-se a minha capacidade de apreciar arte. Uma capacidade que antes era baseada em uma espécie de tolerância, como se, frente a uma obra daquelas áridas, meio abstratas e herméticas, eu dissesse "muito bem, eu não estou me relacionando com essa coisa, mas se está aqui, deve ter alguma importância e beleza que eu ainda não captei". Eu ignorava o sentimento negativo de isolamento que eu sentia, o enfado, o tédio, para quem sabe poder chegar a um nível de compreensão e maravilhamento mais adiante. Resumindo, eu fazia cara de conteúdo.
Mas dessa vez, vendo o filme com honestidade, eu resolvi não ignorar. Houve partes em que eu dormi MESMO. Houveram coreografias que não me diziam NADA. Movimentos espasmódicos que claramente eram o fim de algum longo e tortuoso processo do dançarino, mas que não queriam dizer nada para o expectador final que eu sou. Arte hoje às vezes é um processo. E faz sentido quando se vê desde o começo, como fez sentido para quem acompanhou o meu processo todo em Londres e entendeu porque que eu emergi de cabeça raspada, lixando minhas unhas em uma lixadeira mecânica. Porque que eu me embrenhei pelas baladas de Brixton. Porque que a Filha do Açougueiro teve que fugir. Mas pra quem pega o bonde andando, isso não passa de loucura estéril.
Quiçá eu devesse ter lido mais, pesquisado mais sobre a Pina Bausch antes de ir ver o filme. Ela era apenas um nome e uma noção de uma mulher daquelas.
E no entanto, há momentos de grande beleza no filme. Alguns são obra do Wenders: as tomadas do metrô alemão; as cenas nas paisagens desertas; a fila de dançarinos morbidamente sorridentes repetindo os movimentos de primavera, verão, outono e inverno; as construções meio Bauhauss onde algumas das cenas acontecem. Outras são Pina e seus bailarinos: a garota que se enrola nos braços do amado que foge dela; a outra que cai para os lados a cada passo, segura de que seu parceiro a segurará poucos centímetros antes de atingir o chão; os dançarinos jogando baldes d'água na rocha enorme no palco, me lembrando ondas na arrebentação.
Percebo que o meu estado recente me deixou um pouco avesso ao drama. Talvez um pouco mais frio, endurecendo a carapaça externa pela qual todas as artes futuras terão que penetrar pra me fazer sentir algo de fato.
E como será o efeito disso quando (e se) eu voltar a de fato fazer arte?
terça-feira, maio 08, 2012
Um post frívolo
Depois dos acontecimentos recentes da minha vida pessoal não postados por aqui (já que o blog deixou de ser sobre a minha vida pessoal há muitos anos...), resolvi seguir aquele conselho feminino e ir cortar o cabelo pra tirar o peso da cabeça - literal e figurativamente. Eu adoro aquele termo do inglês: getting pampered. É uma expressão de "ser bem tratado", "ser mimado".
Acho que se eu fosse trilhardário, instalaria uma daquelas pias de lavar cabelo em casa e teria alguém para fazer isso pra mim no final de cada dia. Poucas coisas são tão relaxantes quanto alguém mexendo nos cabelos assim.
Na cadeira do barbeiro, café em uma mão e jornal na outra. Li uma notícia dizendo que a venda de automóveis na cidade havia caído e que os estoques atualmente somam cerca de 43 dias de vendas. Achei curioso e muito interessante. Quiçá a cidade esteja tomando jeito.
Na saída, aquela olhadela básica com os dois espelhos. Mais fácil deixar a cabeça em ordem por fora do que por dentro. Esse último ainda leva um tempo.
Acho que se eu fosse trilhardário, instalaria uma daquelas pias de lavar cabelo em casa e teria alguém para fazer isso pra mim no final de cada dia. Poucas coisas são tão relaxantes quanto alguém mexendo nos cabelos assim.
Na cadeira do barbeiro, café em uma mão e jornal na outra. Li uma notícia dizendo que a venda de automóveis na cidade havia caído e que os estoques atualmente somam cerca de 43 dias de vendas. Achei curioso e muito interessante. Quiçá a cidade esteja tomando jeito.
Na saída, aquela olhadela básica com os dois espelhos. Mais fácil deixar a cabeça em ordem por fora do que por dentro. Esse último ainda leva um tempo.
segunda-feira, maio 07, 2012
Foi um daqueles momentos cinematográficos.
"Cara, eu ouvi sobre o assunto do seu mestrado e tive uma ideia de um roteiro!" me disse uma das minhas colegas de licenciatura. Ela fumava enquanto eu tomava um café no intervalo entre as aulas. Passou a me contar sobre essa história de um rapaz heterossexual que, por curiosidade, acaba indo parar em uma área da cidade frequentada por transsexuais e afins. Vai sozinho, claro, para evitar o questionamento dos amigos. E durante o curta-metragem, passa uma noite incrivelmente poética, hedonista e livre, deixando o preconceito de lado por algum tempo. Participa das baladas, deixa-se seduzir pelas criaturas desse lugar estranho e oferece ao expectador uma visão muito sincera de um feminino encarnado por homens. No fim da aventura, ele retorna a uma espécie de "normalidade", podendo deixar pra trás pra sempre o seu preconceito. Ela disse que seria uma história legal.
"Então..." eu respondi. "Deixa eu te contar umas coisas..."
quarta-feira, maio 02, 2012
Aluguel
Eu atualmente estou pagando o aluguel de um apartamento.
Eu pago por aproximadamente 35 metros quadrados com varanda (e ganchos de rede...) em uma kitchenette.
Eu pago pra que seja o espaço necessário e nada mais, fácil de cuidar sozinho.
Eu pago por piscina, sala de ginástica e sauna para fazer uma pausa das traduções de vez em quando.
Eu pago por vizinhos jovens, que não enchem o saco e ouvem raridades do Bowie com o volume nas alturas e eu não tenho nem como reclamar porque adoro.
Eu pago por uma entrada com boa segurança e porteiros simpáticos.
Eu pago por internet wi-fi gratúita no saguão e na silenciosa sala de estudos (que tem um suspeito cheiro de urina...)
Eu pago por uma vaga na garagem onde ninguém tem lugar fixo e a gente para onde quer desde que não tranque ninguém.
Eu pago para estar a apenas três quarteirões de distância da Paulista e poder na verdade prescindir do carro durante toda a semana.
Eu pago para precisar de apenas vinte minutos de transporte público para ir a qualquer lugar: a casa dos meus pais, a faculdade, o colégio e minha Lexy.
Eu pago pelas manhãs vendo as pontas dos ciprestes (os "dedos dos mortos") no cemitério da Consolação ao acordar e a paz sepulcral em meio à cidade antes de dormir.
Eu pago por uma janela grande sem vizinhos que me espiem, para suprir minha necessidade exibicionista sem perigo real.
Eu pago por um prédio que tem um misterioso primeiro andar, sem janelas, que faz com que eu me confunda sempre que tento localizar a minha lá da sala de ginástica.
Eu pago para ver as menores formigas que eu já vi na vida, invadindo meu açucareiro e andando por cima da água no prato onde ele foi colocado - um minúsculo exército de Jesuses que não se sente intimidado pela fossa em volta do castelo.
Eu pago pela sensação de ser adulto, de conquista, de ter o que é meu, bought and paid for.
Eu pago um preço alto. Mas vale cada centavo.
Aguardem o open house em breve.
domingo, abril 15, 2012
Vermelho
Fui assistir Vermelho com o Antônio e o Bruno Fagundes. Os atores são pai e filho. Os personagens, Mark Rothko e Ken, são mestre e aprendiz de pintor. Essa coerência metalinguística ficou bem legal, e me deu muita vontade de voltar àquela questão da falta de um mestre. Na peça, Ken se apresenta a Rothko e começa a trabalhar para ele como assistente de ateliê. Ele é ansioso pela aprovação do mestre, que o trata como ninguém. Mas aos poucos, Rothko vai ensinando-o a ver a pintura, a encará-la com seriedade, a ter discernimento (e não apenas achar tudo "legal"). Até que eventualmente, há aquele momento sublime em que o aprendiz consegue apontar toda a megalomania e o egocentrismo do mestre e provar que ele também não é ninguém. Ou melhor, que ainda que tenha feito história, ele também é humano, preso ao seu tempo, e passível de um dia se tornar obsoleto. É a superação do mestre pelo aprendiz.
Há na peça uma energia forte, masculina, obviamente advinda dos personagens, que encarnam aquele estereótipo do pintor machão, rude, briguento. Não é à toa que a comparação entre Rothko e Pollock é feita durante boa parte da peça. Os dois, pintores machões (Pollock, até bem machista). Eu ainda não sei o que sinto a respeito desse estereótipo. Mas não gostaria de ser incluído nele algum dia.
Na época da minha graduação, eu tive a chance de ter Dora Longo Bahia como mestre. Mas eu era imaturo, arrogante, e vindo de uma geração que se dá ao luxo de desistir e ir procurar chances mais brandas ao ego diante do primeiro sinal de confronto. Tá certo que ela não facilitava muito as coisas. Mas bons mestres não afagam o seu ego desde o começo. Como resultado, eu pouco aproveitei esse relacionamento, e não tirei nenhuma chance disso além da boa nota no meu trabalho final da faculdade. Hoje, aos 30 anos, eu acho que eu teria maturidade e humildade para encarar um mestre como se deve. Para sofrer o necessário e aprender com isso.
Será que um dia eu ainda serei um mestre (que, diga-se de passagem, é mais do que apenas ser um professor de artes...)?
A peça também me deixou com vontade de voltar a fazer arte que nem essa do Rothko. Daquelas que precisam de muito tempo, muita paciência, muito gosto e discernimento pra apreciar. De demorar-se horas escolhendo o tom certo da cor (e não apenas pegar qualquer cor que vem no tubinho de tinta...), decidindo se é a relação certa com a outra cor. Dessas pequenices que não querem dizer nada para quem não está disposto a dedicar-se a essa fruição. Desse tipo de arte que eu até me divirto fazendo, mas não tenho a coragem de mostrar.
Quem sabe um dia...
Quem sabe com o mestre certo...
Há na peça uma energia forte, masculina, obviamente advinda dos personagens, que encarnam aquele estereótipo do pintor machão, rude, briguento. Não é à toa que a comparação entre Rothko e Pollock é feita durante boa parte da peça. Os dois, pintores machões (Pollock, até bem machista). Eu ainda não sei o que sinto a respeito desse estereótipo. Mas não gostaria de ser incluído nele algum dia.
Na época da minha graduação, eu tive a chance de ter Dora Longo Bahia como mestre. Mas eu era imaturo, arrogante, e vindo de uma geração que se dá ao luxo de desistir e ir procurar chances mais brandas ao ego diante do primeiro sinal de confronto. Tá certo que ela não facilitava muito as coisas. Mas bons mestres não afagam o seu ego desde o começo. Como resultado, eu pouco aproveitei esse relacionamento, e não tirei nenhuma chance disso além da boa nota no meu trabalho final da faculdade. Hoje, aos 30 anos, eu acho que eu teria maturidade e humildade para encarar um mestre como se deve. Para sofrer o necessário e aprender com isso.
Será que um dia eu ainda serei um mestre (que, diga-se de passagem, é mais do que apenas ser um professor de artes...)?
A peça também me deixou com vontade de voltar a fazer arte que nem essa do Rothko. Daquelas que precisam de muito tempo, muita paciência, muito gosto e discernimento pra apreciar. De demorar-se horas escolhendo o tom certo da cor (e não apenas pegar qualquer cor que vem no tubinho de tinta...), decidindo se é a relação certa com a outra cor. Dessas pequenices que não querem dizer nada para quem não está disposto a dedicar-se a essa fruição. Desse tipo de arte que eu até me divirto fazendo, mas não tenho a coragem de mostrar.
Quem sabe um dia...
Quem sabe com o mestre certo...
segunda-feira, abril 09, 2012
Jogos Vorazes
Meu alunos no colégio só falam da trilogia Jogos Vorazes, e eu queria muito comentar a respeito, depois de ter visto o primeiro filme. Devo no entanto aproveitar a oportunidade para falar de várias outras coisas e fazer um amarrado do que tem se passado.
Cenas recentes.
Tive uma aula particularmente complicada com uma turma da 7ª série que não parecia minimamente interessada em saber das festas folclóricas nacionais que estávamos estudando. O assunto já fora trazido à equipe de professores: eu achava que os alunos, nascidos e criados em sua maioria nesta mesma cidade, não tinham motivos para se interessarem por festas folclóricas de longínquos estados do nordeste. E nem mesmo pelas festas dos estados mais próximos. Só mostravam alguma empatia ao falarmos de Festa Junina, e quando muito, do Bumba-meu-boi. Claro, a equipe me disse que, como educador, eu devia encontrar meios de fazer essas festas folclóricas parecerem interessantes. Ainda estou esperando sugestões de como fazer isso...
Às tantas, perdi a paciência e chamei a atenção da classe inteira. Um dos alunos, mais desinibido, interrompeu a bronca: "Mas professor, sem querer ofender, pra que é que nós temos que estudar arte?". Eu temia a pergunta mais do que a fatídica "de onde vem os bebês?" que eu teria que responder a qualquer filho meu. A verdade é que eu mesmo não sabia (das artes, não dos bebês...). Eu me graduara e fizera um mestrado em artes. Fizera-o por vontade, por gosto (diletantismo?). Mas no fundo, nunca havia visto o sentido nisso tudo. Eu fazia de coração, mas a cabeça não entendia. Essa mentalidade, sem dúvida advinda da minha educação neste mesmo colégio, voltada para questões práticas, úteis, eficientes, com certeza tivera seu impacto no quão pouco eu conseguira me dedicar seriamente (de corpo e alma) a uma carreira como artista plástico. Eu continuava preso fundamentalmente a uma pergunta parecida, embora elaborada de forma mais madura: "pra que gastar tempo, dinheiro e cérebro em uma prática que essencialmente não executa nenhum serviço prático?" Eu ainda via arte como uma brincadeira, um parlor trick. Dá pra ver porque é que eu nunca dei muito certo, né?
O colégio, claro, estava querendo mudar esse jeito de pensar. Percebera que uma educação voltada apenas às questões práticas gerava formandos excelentes no tocante a ganhar dinheiro, porém profundamente incomodados com um vazio interior que fortuna nenhuma preenchia. Posso dizer por causos de amigos próximos que as consequências desse vazio chegaram a ser fatais para pelo menos um colega meu... Eu era parte desse processo, cria dessa mentalidade: parecia adequado que eu, percebendo as falhas daquela formação anterior, ajudasse a apontar o caminho para a nova formação.
Eu pensei em muitas formas de responder essa questão do meu aluno. Pensei em falar de estatísticas, do quanto o mercado de arte faturava, para dar uma dimensão palpável, quantíficável, compreensível para esse jeito de pensar que o colégio já instilava nos alunos (e já na 7ª série...). Mas se ele podia fazer tanto ou mais dinheiro como um engenheiro ou advogado, isso de nada o convenceria. E de qualquer forma, estudar arte não o faria automaticamente um artista de sucesso (assim como estudar matemática não o faria automaticamente um engenheiro de sucesso, e etc.). Pensei em falar de identidade, mas isso por si só já era um caminho espinhento na minha própria história. Parte da minha família era do nordeste e nem por isso eu gostava da cultura do sertão. Fora atrás da minha origem italiana e acabara me identificando muito mais com a cultura britânica, da qual não tenho descendência alguma. Eu sentia que havia sim algo a dizer aí. Algo sobre como temos que conhecer nossas origens para poder questioná-las e encontrar nossa verdadeira identidade. Algo sobre como eu começara com origens nordestinas e já fora aos confins da Walachia procurar minha identidade entre os vampiros históricos da Romênia.
E por falar em vampiros, mencionei o clássico da Anne Rice a um dos outros professores depois das aulas. Ele me falou de workshops que aconteciam entre os professores, onde era explorado o sentimento que alguns dos mais velhos tinham de que os mais novos estavam chegando para tirar os seus lugares. Lembrei logo da cena em que Armand diz a Louis que ele receia que chegue a época em que ele, contando já 400 anos, não consiga mais acompanhar as mudanças do mundo. E em seguida, pede que Louis, um vampiro recém-criado, seja seu elo de ligação com a época atual. No entanto, Armand continua tendo sua relevância, ao contar a Louis sobre a moral dos vampiros mais velhos, e porque eles tentarão matar sua pequena Cláudia, transformada em vampira ainda na infância.
Saíndo do colégio naquele dia, mencionei que Entrevista com o Vampiro talvez tivesse sido o Jogos Vorazes da minha época (dizer "na minha época" com 30 anos de idade ainda parece um anacronismo?). Foi pelo menos um dos contos que fizeram a cabeça de muita gente mais adepta à subcultura gótica. Eu poderia escrever largamente sobre como a história tem muito mais densidade do que qualquer das sagas mais recentes, mas minha opinião seria claramente enviesada. Os livros de Rice foram adequados a uma espécie de "revival" do gótico da minha geração de adolescentes. Porém tenho que admitir que Jogos Vorazes faz sim muito mais sentido para uma geração adolescente que já acompanha mais de uma dezena de edições do Big Brother e a grotesca cadeia de eventos televisionados que começou com o 11 de Setembro e hoje nos traz imagens de um país invadido e subjugado que não teve nada a ver com o assunto.
Então vamos ao que interessa: como que Jogos Vorazes me ajudará a responder a questão do meu aluno e trazer o estudo de artes para algo mais concreto para eles?
A resposta está na crítica.
A mais nova saga adolescente mostra um grupo de 24 jovens, dois de cada distrito do país fictício Panem, sendo colocados em uma arena para lutar entre si até só restar um. A carnificina é televisionada em uma espécie de reality show para uma população futurista de um distrito hierarquicamente superior que é totalmente apática ao fato de que são adolescentes de 13 a 18 anos abatendo uns aos outros como animais. Tudo isso sob um pretexto fraco e inverossímil de que a doação desses jovens como "Tributos" para o distrito superior inexplicavelmente fará com que os distritos subjugados desistam da idéia de organizar outro levante armado contra o superior. É, eu também não entendi a lógica nisso...
O que deu pra entender, e que eu acho que talvez seja a pouca parte louvável da saga, foi a crítica dupla sendo feita na história. A escritora Suzanne Collins disse em uma entrevista que teve a idéia para o livro enquanto mudava de canais na TV, entre um reality show e notícias da guerra do Iraque. A primeira crítica está no reality show no livro dela, que assim como as versões mais recentes do Big Brother, é mais "show" do que "reality". Eles nos trazem participantes que estão cientes demais de como manipular o público do outro lado da tela pode ser uma estratégia mais eficaz do que insistir na realidade do que está acontecendo do lado deles, na arena/casa dos Brothers. Há cada vez mais relacionamentos de fachada e polêmicas desnecessárias em prol de alavancar simpatia do público. Onde foi parar o "reality" de um grupo de pessoas sendo elas mesmas? Jogos Vorazes retrata isso, na medida em que a personagem principal encena um relacionamento de fachada para ganhar apoio do público, que pode lhe "patrocinar" ítens de sobrevivência dentro da arena; e na medida em que os organizadores do jogo moldam a imagem pública dela para tirar proveito disso.
Os organizadores do reality show talvez sejam o maior alvo desta crítica. No filme, eles mudam regras de forma cínica, manipulam o ambiente e os jogadores, tudo para cativar ainda mais o público. Mais uma vez, não há "reality", só o "show". Eles não deixam as coisas acontecerem naturalmente. No Big Brother e derivados, a coisa não é muito diferente (tá legal, não tem armas, bolas de fogo ou cães do inferno...). Já imaginou o que aconteceria se todos os "brothers" fossem colocados na casa e todo mundo se desse muito bem e não houvesse conflito? O programa seria um porre, com muito mais choradeira na hora em que um dos novos BFFs fosse eliminado por regras do jogo. Os organizadores precisam fomentar a discórdia, as rivalidades, o conflito. Eles precisam criar mocinhos e bandidos, mesmo que isso seja claramente artificial.
Quem assiste Jogos Vorazes deveria estar ciente de que os organizadores querem vender um determinado perfil que leva ao sucesso. O Big Brother não é diferente. E é por isso que a grande maioria dos participantes são rapazes bombados e garotas curvilíneas. Vez por outra, há um negro, um homossexual, uma gordinha ou um participante mais velho para dizer que o programa está contemplando todo tipo de gente, e até acontece de algum deles vencer de vez em quando, mas não dá pra negar que o perfil de sucesso sendo vendido pelos programas é o da beleza física.
A segunda crítica da história é relativa à guerra do Iraque. Na história, o distrito hierarquicamente superior venceu a guerra civil contra os outros distritos por ter tecnologia superior. Depois instituiu esse regime de "pão e circo" aos outros distritos e a seus próprios habitantes, mantendo-os distraídos com um programa de televisão. Os distritos vencidos são retratados lugares de baixa tecnologia, de pessoas com roupas pobres passando necessidade. Enquanto que o distrito superior tem cores, luzes, pessoas com cabelos impraticáveis e apelo pop. Lembra um pouco o Oriente Médio e os EUA, não? Interessante ver que a história está sendo escrita por uma americana, mas coloca os EUA simbólicos como os vilões da história. Na verdade, não é o primeiro filme a fazer críticas severas contra o imperialismo americano. Mas é legal ver cada vez mais filmes deixando claro que nem os americanos estão mais acreditando nessa de "luta contra o terrorismo".
Mais do que tudo, o livro serve como um aviso à geração adolescente que ficou fascinada por ele: prestem atenção, vocês estão sendo sedados pela mídia. Acordem!
O formidável aqui é que esse aviso está sendo veiculado através de um livro que virou best-seller e gerou um blockbuster adolescente nos cinemas. Ou seja, o aviso contra a mídia está sendo veiculado na própria mídia. E o sistema o veicula tranquilamente, crente de que o público já está tão sedado que nem vai perceber a crítica.
Termino este texto prolixo lembrando de uma passagem do filme onde um dos personagens diz que, se ninguém assistisse aos Jogos Vorazes, o programa e a doação de "Tributos" perderiam seu sentido e seriam cancelados. Seria maravilhoso poder fazer isso com um programa na vida real que já teve mais de uma dezena de edições e perdeu totalmente o seu sentido...
Cenas recentes.
Tive uma aula particularmente complicada com uma turma da 7ª série que não parecia minimamente interessada em saber das festas folclóricas nacionais que estávamos estudando. O assunto já fora trazido à equipe de professores: eu achava que os alunos, nascidos e criados em sua maioria nesta mesma cidade, não tinham motivos para se interessarem por festas folclóricas de longínquos estados do nordeste. E nem mesmo pelas festas dos estados mais próximos. Só mostravam alguma empatia ao falarmos de Festa Junina, e quando muito, do Bumba-meu-boi. Claro, a equipe me disse que, como educador, eu devia encontrar meios de fazer essas festas folclóricas parecerem interessantes. Ainda estou esperando sugestões de como fazer isso...
Às tantas, perdi a paciência e chamei a atenção da classe inteira. Um dos alunos, mais desinibido, interrompeu a bronca: "Mas professor, sem querer ofender, pra que é que nós temos que estudar arte?". Eu temia a pergunta mais do que a fatídica "de onde vem os bebês?" que eu teria que responder a qualquer filho meu. A verdade é que eu mesmo não sabia (das artes, não dos bebês...). Eu me graduara e fizera um mestrado em artes. Fizera-o por vontade, por gosto (diletantismo?). Mas no fundo, nunca havia visto o sentido nisso tudo. Eu fazia de coração, mas a cabeça não entendia. Essa mentalidade, sem dúvida advinda da minha educação neste mesmo colégio, voltada para questões práticas, úteis, eficientes, com certeza tivera seu impacto no quão pouco eu conseguira me dedicar seriamente (de corpo e alma) a uma carreira como artista plástico. Eu continuava preso fundamentalmente a uma pergunta parecida, embora elaborada de forma mais madura: "pra que gastar tempo, dinheiro e cérebro em uma prática que essencialmente não executa nenhum serviço prático?" Eu ainda via arte como uma brincadeira, um parlor trick. Dá pra ver porque é que eu nunca dei muito certo, né?
O colégio, claro, estava querendo mudar esse jeito de pensar. Percebera que uma educação voltada apenas às questões práticas gerava formandos excelentes no tocante a ganhar dinheiro, porém profundamente incomodados com um vazio interior que fortuna nenhuma preenchia. Posso dizer por causos de amigos próximos que as consequências desse vazio chegaram a ser fatais para pelo menos um colega meu... Eu era parte desse processo, cria dessa mentalidade: parecia adequado que eu, percebendo as falhas daquela formação anterior, ajudasse a apontar o caminho para a nova formação.
Eu pensei em muitas formas de responder essa questão do meu aluno. Pensei em falar de estatísticas, do quanto o mercado de arte faturava, para dar uma dimensão palpável, quantíficável, compreensível para esse jeito de pensar que o colégio já instilava nos alunos (e já na 7ª série...). Mas se ele podia fazer tanto ou mais dinheiro como um engenheiro ou advogado, isso de nada o convenceria. E de qualquer forma, estudar arte não o faria automaticamente um artista de sucesso (assim como estudar matemática não o faria automaticamente um engenheiro de sucesso, e etc.). Pensei em falar de identidade, mas isso por si só já era um caminho espinhento na minha própria história. Parte da minha família era do nordeste e nem por isso eu gostava da cultura do sertão. Fora atrás da minha origem italiana e acabara me identificando muito mais com a cultura britânica, da qual não tenho descendência alguma. Eu sentia que havia sim algo a dizer aí. Algo sobre como temos que conhecer nossas origens para poder questioná-las e encontrar nossa verdadeira identidade. Algo sobre como eu começara com origens nordestinas e já fora aos confins da Walachia procurar minha identidade entre os vampiros históricos da Romênia.
E por falar em vampiros, mencionei o clássico da Anne Rice a um dos outros professores depois das aulas. Ele me falou de workshops que aconteciam entre os professores, onde era explorado o sentimento que alguns dos mais velhos tinham de que os mais novos estavam chegando para tirar os seus lugares. Lembrei logo da cena em que Armand diz a Louis que ele receia que chegue a época em que ele, contando já 400 anos, não consiga mais acompanhar as mudanças do mundo. E em seguida, pede que Louis, um vampiro recém-criado, seja seu elo de ligação com a época atual. No entanto, Armand continua tendo sua relevância, ao contar a Louis sobre a moral dos vampiros mais velhos, e porque eles tentarão matar sua pequena Cláudia, transformada em vampira ainda na infância.
Saíndo do colégio naquele dia, mencionei que Entrevista com o Vampiro talvez tivesse sido o Jogos Vorazes da minha época (dizer "na minha época" com 30 anos de idade ainda parece um anacronismo?). Foi pelo menos um dos contos que fizeram a cabeça de muita gente mais adepta à subcultura gótica. Eu poderia escrever largamente sobre como a história tem muito mais densidade do que qualquer das sagas mais recentes, mas minha opinião seria claramente enviesada. Os livros de Rice foram adequados a uma espécie de "revival" do gótico da minha geração de adolescentes. Porém tenho que admitir que Jogos Vorazes faz sim muito mais sentido para uma geração adolescente que já acompanha mais de uma dezena de edições do Big Brother e a grotesca cadeia de eventos televisionados que começou com o 11 de Setembro e hoje nos traz imagens de um país invadido e subjugado que não teve nada a ver com o assunto.
Então vamos ao que interessa: como que Jogos Vorazes me ajudará a responder a questão do meu aluno e trazer o estudo de artes para algo mais concreto para eles?
A resposta está na crítica.
A mais nova saga adolescente mostra um grupo de 24 jovens, dois de cada distrito do país fictício Panem, sendo colocados em uma arena para lutar entre si até só restar um. A carnificina é televisionada em uma espécie de reality show para uma população futurista de um distrito hierarquicamente superior que é totalmente apática ao fato de que são adolescentes de 13 a 18 anos abatendo uns aos outros como animais. Tudo isso sob um pretexto fraco e inverossímil de que a doação desses jovens como "Tributos" para o distrito superior inexplicavelmente fará com que os distritos subjugados desistam da idéia de organizar outro levante armado contra o superior. É, eu também não entendi a lógica nisso...
O que deu pra entender, e que eu acho que talvez seja a pouca parte louvável da saga, foi a crítica dupla sendo feita na história. A escritora Suzanne Collins disse em uma entrevista que teve a idéia para o livro enquanto mudava de canais na TV, entre um reality show e notícias da guerra do Iraque. A primeira crítica está no reality show no livro dela, que assim como as versões mais recentes do Big Brother, é mais "show" do que "reality". Eles nos trazem participantes que estão cientes demais de como manipular o público do outro lado da tela pode ser uma estratégia mais eficaz do que insistir na realidade do que está acontecendo do lado deles, na arena/casa dos Brothers. Há cada vez mais relacionamentos de fachada e polêmicas desnecessárias em prol de alavancar simpatia do público. Onde foi parar o "reality" de um grupo de pessoas sendo elas mesmas? Jogos Vorazes retrata isso, na medida em que a personagem principal encena um relacionamento de fachada para ganhar apoio do público, que pode lhe "patrocinar" ítens de sobrevivência dentro da arena; e na medida em que os organizadores do jogo moldam a imagem pública dela para tirar proveito disso.
Os organizadores do reality show talvez sejam o maior alvo desta crítica. No filme, eles mudam regras de forma cínica, manipulam o ambiente e os jogadores, tudo para cativar ainda mais o público. Mais uma vez, não há "reality", só o "show". Eles não deixam as coisas acontecerem naturalmente. No Big Brother e derivados, a coisa não é muito diferente (tá legal, não tem armas, bolas de fogo ou cães do inferno...). Já imaginou o que aconteceria se todos os "brothers" fossem colocados na casa e todo mundo se desse muito bem e não houvesse conflito? O programa seria um porre, com muito mais choradeira na hora em que um dos novos BFFs fosse eliminado por regras do jogo. Os organizadores precisam fomentar a discórdia, as rivalidades, o conflito. Eles precisam criar mocinhos e bandidos, mesmo que isso seja claramente artificial.
Quem assiste Jogos Vorazes deveria estar ciente de que os organizadores querem vender um determinado perfil que leva ao sucesso. O Big Brother não é diferente. E é por isso que a grande maioria dos participantes são rapazes bombados e garotas curvilíneas. Vez por outra, há um negro, um homossexual, uma gordinha ou um participante mais velho para dizer que o programa está contemplando todo tipo de gente, e até acontece de algum deles vencer de vez em quando, mas não dá pra negar que o perfil de sucesso sendo vendido pelos programas é o da beleza física.
A segunda crítica da história é relativa à guerra do Iraque. Na história, o distrito hierarquicamente superior venceu a guerra civil contra os outros distritos por ter tecnologia superior. Depois instituiu esse regime de "pão e circo" aos outros distritos e a seus próprios habitantes, mantendo-os distraídos com um programa de televisão. Os distritos vencidos são retratados lugares de baixa tecnologia, de pessoas com roupas pobres passando necessidade. Enquanto que o distrito superior tem cores, luzes, pessoas com cabelos impraticáveis e apelo pop. Lembra um pouco o Oriente Médio e os EUA, não? Interessante ver que a história está sendo escrita por uma americana, mas coloca os EUA simbólicos como os vilões da história. Na verdade, não é o primeiro filme a fazer críticas severas contra o imperialismo americano. Mas é legal ver cada vez mais filmes deixando claro que nem os americanos estão mais acreditando nessa de "luta contra o terrorismo".
Mais do que tudo, o livro serve como um aviso à geração adolescente que ficou fascinada por ele: prestem atenção, vocês estão sendo sedados pela mídia. Acordem!
O formidável aqui é que esse aviso está sendo veiculado através de um livro que virou best-seller e gerou um blockbuster adolescente nos cinemas. Ou seja, o aviso contra a mídia está sendo veiculado na própria mídia. E o sistema o veicula tranquilamente, crente de que o público já está tão sedado que nem vai perceber a crítica.
Termino este texto prolixo lembrando de uma passagem do filme onde um dos personagens diz que, se ninguém assistisse aos Jogos Vorazes, o programa e a doação de "Tributos" perderiam seu sentido e seriam cancelados. Seria maravilhoso poder fazer isso com um programa na vida real que já teve mais de uma dezena de edições e perdeu totalmente o seu sentido...
terça-feira, março 27, 2012
Caught in the undertow
Em inglês, usa-se a expressão stream of consciousness geralmente para falar do fluir das idéias, do modo como uma leva à outra, às vezes se fundindo em um raciocínio rápido e que não necessariamente segue uma lógica coerente. "Stream", aliás, é palavra usada para designar um riacho.
Pois bem, eis um exemplo típico do meu stream of consciousness atual:
Acho que eu consigo me planejar para ir comprar talheres e copos lá na 25 de Março na terça de manhã. Bom, primeiro tenho que passar no apartamento para pegar o carro: acho que deixá-lo no eletricista e pegar no fim do dia. Vejamos: um ônibus até o metro, e do metrô para a 25. Será que eu tenho crédito no Bilhete Único? Preciso estar de volta antes das 15:00 para avaliar as últimas apresentações dos meus alunos da 9a série. Ai, para tudo! Vou precisar chegar no colégio uma hora mais cedo porque esqueci de publicar na internet o gabarito do exercício que passei! Tem Wi-fi por aqui? A outra professora deve ter me mandado as respostas que ela montou. Eu sei que não vou conseguir publicar isso de casa porque hoje tenho que terminar a tradução. Peraí... Hoje tem tradução? Eu vejo isso depois. Melhor deixar uma nota no celular, ou eu vou esquecer. Aliás, já esqueci de ligar para o pessoal daquele cheque que voltou! Hoje era o último dia. Será que meu nome foi para o Serasa? A última vez que eu falei com eles foi ontem, nos intervalos das aulas de licenciatura. E por falar nisso, eu ainda não comecei aquela pesquisa sobre os diferentes tipos de escola para a aula de didática. E quando que eu vou marcar a reunião com o diretor do colégio pra falar da filosofia de ensino para essa pesquisa? A secretária dele falou pra ver um horário depois do almoço. Almoço! Eu ainda não marquei o almoço com a Bia que me escreveu. Ou o happy hour com o Laerte, que me ligou. Nem a visita à Nana pra pegar as caixas para a minha mudança. Sem falar da passada na casa do meu irmão, pra pegar o meu microfone para as aulas. Bom, no fim de semana não dá, porque tem encontro com a equipe de educação artística e com aquele filósofo/artista. Aliás, que pinturas legais as dele! E o meu ateliê continua cheio de caixas que não são minhas e com a poeira e o abandono de um ano inteiro... Aproveito quando for lá pra passar um tempo com a vovó. Poxa, estou devendo uma visita à outra vovó também! Tô morrendo de vontade de passar um tempo com elas, limpar o ateliê e voltar a pintar aquele papel giantesco que eu trouxe de Londres. Falando em afazeres artísticos, preciso terminar o desenho que eu ia mostrar para as 6as séries... E Londres! Ainda não comprei a passagem para Julho, para a cerimônia de graduação do mestrado! Pelo menos a inscrição já tá feita. Que horas são agora? Acho que ainda dá tempo de... o que é que eu ia fazer agora?
Há alguns dias, ocorreu-me o pensamento perturbador de que eu tinha deixado a publicidade porque ela estava comendo a minha vida e me deixando em um estado morto no qual eu não tinha tempo ou energia para as coisas que realmente me importavam; e que a nova rotina entre colégio, traduções, sair da casa dos pais, licenciatura e empreitadas artísticas estaria me matando do mesmo jeito. Resolvi essa angústia pensando que a publicidade me matava em prol de algo completamente irrelevante para a minha vida (e a dos outros...). A minha atual rotina pelo menos tem um sabor utilitário, relevante, pertinente. Um sabor mais acentuado de satisfação pessoal. E afinal, a única outra alternativa para esse "morrer" é eximir-me de toda e qualquer responsabilidade e não cultivar ambição alguma na vida.
Mas isso seria pior do que esse lento morrer (verbo - um pocesso). Isso seria estar morto (adjetivo - algo acabado).
Pois bem, eis um exemplo típico do meu stream of consciousness atual:
Acho que eu consigo me planejar para ir comprar talheres e copos lá na 25 de Março na terça de manhã. Bom, primeiro tenho que passar no apartamento para pegar o carro: acho que deixá-lo no eletricista e pegar no fim do dia. Vejamos: um ônibus até o metro, e do metrô para a 25. Será que eu tenho crédito no Bilhete Único? Preciso estar de volta antes das 15:00 para avaliar as últimas apresentações dos meus alunos da 9a série. Ai, para tudo! Vou precisar chegar no colégio uma hora mais cedo porque esqueci de publicar na internet o gabarito do exercício que passei! Tem Wi-fi por aqui? A outra professora deve ter me mandado as respostas que ela montou. Eu sei que não vou conseguir publicar isso de casa porque hoje tenho que terminar a tradução. Peraí... Hoje tem tradução? Eu vejo isso depois. Melhor deixar uma nota no celular, ou eu vou esquecer. Aliás, já esqueci de ligar para o pessoal daquele cheque que voltou! Hoje era o último dia. Será que meu nome foi para o Serasa? A última vez que eu falei com eles foi ontem, nos intervalos das aulas de licenciatura. E por falar nisso, eu ainda não comecei aquela pesquisa sobre os diferentes tipos de escola para a aula de didática. E quando que eu vou marcar a reunião com o diretor do colégio pra falar da filosofia de ensino para essa pesquisa? A secretária dele falou pra ver um horário depois do almoço. Almoço! Eu ainda não marquei o almoço com a Bia que me escreveu. Ou o happy hour com o Laerte, que me ligou. Nem a visita à Nana pra pegar as caixas para a minha mudança. Sem falar da passada na casa do meu irmão, pra pegar o meu microfone para as aulas. Bom, no fim de semana não dá, porque tem encontro com a equipe de educação artística e com aquele filósofo/artista. Aliás, que pinturas legais as dele! E o meu ateliê continua cheio de caixas que não são minhas e com a poeira e o abandono de um ano inteiro... Aproveito quando for lá pra passar um tempo com a vovó. Poxa, estou devendo uma visita à outra vovó também! Tô morrendo de vontade de passar um tempo com elas, limpar o ateliê e voltar a pintar aquele papel giantesco que eu trouxe de Londres. Falando em afazeres artísticos, preciso terminar o desenho que eu ia mostrar para as 6as séries... E Londres! Ainda não comprei a passagem para Julho, para a cerimônia de graduação do mestrado! Pelo menos a inscrição já tá feita. Que horas são agora? Acho que ainda dá tempo de... o que é que eu ia fazer agora?
Há alguns dias, ocorreu-me o pensamento perturbador de que eu tinha deixado a publicidade porque ela estava comendo a minha vida e me deixando em um estado morto no qual eu não tinha tempo ou energia para as coisas que realmente me importavam; e que a nova rotina entre colégio, traduções, sair da casa dos pais, licenciatura e empreitadas artísticas estaria me matando do mesmo jeito. Resolvi essa angústia pensando que a publicidade me matava em prol de algo completamente irrelevante para a minha vida (e a dos outros...). A minha atual rotina pelo menos tem um sabor utilitário, relevante, pertinente. Um sabor mais acentuado de satisfação pessoal. E afinal, a única outra alternativa para esse "morrer" é eximir-me de toda e qualquer responsabilidade e não cultivar ambição alguma na vida.
Mas isso seria pior do que esse lento morrer (verbo - um pocesso). Isso seria estar morto (adjetivo - algo acabado).
quinta-feira, março 15, 2012
Referência
Aparentemente, com menos de dois meses de colégio, eu acabo de ser eleito a referência de uma das minhas turmas da sétima série (entre professores, funcionários, administradores e etc...) em um trabalho onde eles elegeram os adultos nos quais eles se espelham.
That is all....
That is all....
terça-feira, março 13, 2012
Educating on the Edge
O tempo passa rápido e ando com a cabeça tão ocupada por questões do meu trabalho no colégio, que não tenho calma para deitar algumas poucas linhas aqui sobre tudo o que tem acontecido por lá. Não me aborreço com isso. O fato é que, pela primeira vez desde que comecei a trabalhar (em qualquer das áreas que tentei...), estou realmente me importando com o que eu faço. Me importando em fazer o melhor trabalho possível, em encontrar soluções criativas. Vou para casa pensando no trabalho do colégio quase todos os dias. E curiosamente, me sentindo muito estimulado por isso. O estímulo não é só para ser um bom professor, mas também para fazer os próprios exercícios que eu proponho aos meus alunos. Estou desenhando meus sapatos, construíndo máquinas de fotografia rudimentares, gravando vídeos sobre a cidade, e até arriscando escrever uma marchinha de carnaval. E adorando tudo! Ainda que viva constantemente sem tempo para nada.
Devido a toda essa atividade febril, resolvi escrever sobre esse mês que se passou por aqui, em um post ao estilo dos antigos odds and ends que eu escrevia em Londres. Vamos lá:
• Há algumas semanas, mandei pela primeira vez os meus primeiros 4 alunos para a coordenação. Um misto de sentimentos: pavor deles passarem a me odiar como odiavam a professore anterior, deleite pela sensação de vingança e poder, sentimento de dever cumprido ao reestabelecer os limites e o respeito que eles estavam perdendo por mim. A coordenadora foi enfática ao me aconselhar: tem aluno que testa o professor mesmo, que inconscientemente pede para que lhe imponham limites. Na nossa conversa com os alunos, não abusei da raiva. Mostrei como o comportamento deles tinha complicado muito a avaliação para a classe inteira; salientei como eles eram brilhantes quando separados (e de fato finalizavam raciocínios bem complexos), mas que potencializavam os efeitos destrutivos um do outro quando sentavam juntos; e expliquei como eu também estivera na mesma situação, em que discutir quem estava afim de quem era muito mais interessante do que qualquer aula.
Eles já eram conhecidos da coordenação. Já sabiam os procedimentos. Eles mesmos se comprometeram a sentar separados durante as aulas, trato que eles têm cumprido. Tenho dúvidas do quanto disso são respostas prontas para evitar maiores aborrecimentos com a coordenação. Mas desde então, as aulas têm corrido bem.
Me chamou a atenção quando a coordenadora avisou para um deles que, conforme avisos anteriores, os pais dele seriam chamados desta vez. Ele se agitou na cadeira, se esforçou para conter o choro. O rapaz não fizera nada além de conversar demais e de forma inapropriada durante a aula, mas temia a reprimenda dos pais como se tivesse assaltado ou matado alguém. Passei o resto do dia pensando muito sobre essa autoridade axiomática dos pais. E sobre o meu próprio pai, que nunca me bateu ou gritou comigo, mas de quem eu sempre tive medo quando cometi meus pequenos delitos.
• Em um assunto relacionado, na licenciatura, conversamos sobre a importância do "não". Do impor limites. E de como a atual geração de pais morre de medo de ter que dizer "não" aos filhos. São pais que foram educados por pais que diziam "não porque não", sem dar razões. Acham isso absurdo e querem dialogar com os filhos. Querem ser melhores amigos dos filhos adolescentes, que estão na idade onde o que menos querem é ser os melhores amigos dos pais ("ai, pai, que mico!"). E esse querer tem consequências nefastas. Percebo isso nos quatro rapazes dos quais falei. Em outros que gritam obcenidades e impropérios no meio da explicação do professor, interrompendo da forma mais rude possível. Nos que sobem na mesa. Nos que negociam regalias absurdas com o professor. O professor não tem essa autoridade axiomática, porque os pais não a ensinaram aos filhos. Ensinaram a dialogar, a negociar. Claro, isso vai fazer muito bem a eles quando adultos, mas enquanto crianças, causa apenas situações onde eu gasto fatias cada vez maiores da aula em negociação, enquanto professores passados teriam dito "não", marcado um ponto negativo e dado o assunto por encerrado.
Claro, eu também preciso aprender a dizer não. Ainda tenho medo. Mas ando fazendo progressos. E percebendo os efeitos positivos.
De qualquer jeito, eu sei que esses pensamentos são meio conservadores e o assunto ainda dá muito pano pra manga...
• Como conciliar a necessidade de impor limites e avaliar os alunos dentro de um critério justo para todos? Há pensadores atuais sobre educação que provam que cada pessoa tem uma inteligência diferente. Portanto, avaliar a todos pelo mesmo critério, pela mesma prova, seria uma atitude errada. No entanto, customizar uma avaliação específica para cada estudante, levando em conta as inteligências específicas de mais de quase 500 alunos diferentes (e esses são apenas os que tem aula comigo, ainda tem os da outra professora...) seria impraticável. O colégio, conhecido como um colégio tradicional que procura ser mais progressivo, atualmente enfrenta o desafio de caminhar a tênue linha entre impor limites para formar caráter, e respeitar as diferentes inteligências de cada aluno. A questão é melhor expressa na pergunta:"onde se encaixam os alunos que não se encaixam?". E minha família e amigos estão cheios de exemplos de indivíduos que nunca tiraram as notas mais altas, mas seguiram adiante para terem carreiras brilhantes por outros meios.
A resposta, acredito eu, está em ver o colégio como o provedor de um serviço. Outros colégios proverão variações do mesmo serviço, como sabores diferentes do mesmo tipo de alimento. Cada um tem o seu sabor preferido e é irreal supor que todo mundo vai gostar do mesmo sabor. Acredito que o colégio não tem realmente a obrigação de se adaptar a todos os alunos. Mas os pais têm a obrigação de investigar qual filosofia de ensino (qual sabor - tradicional, Waldorf, Construtivista, Montessoriano, etc...) é o mais adequado para o seu filho. O raciocínio é inverso.
• Pra pensar mais sobre essas e outras questões, sugir os vídeos do Ken Robinson no TED Talks e no RSAnimate, respectivamente abaixo:
Devido a toda essa atividade febril, resolvi escrever sobre esse mês que se passou por aqui, em um post ao estilo dos antigos odds and ends que eu escrevia em Londres. Vamos lá:
• Há algumas semanas, mandei pela primeira vez os meus primeiros 4 alunos para a coordenação. Um misto de sentimentos: pavor deles passarem a me odiar como odiavam a professore anterior, deleite pela sensação de vingança e poder, sentimento de dever cumprido ao reestabelecer os limites e o respeito que eles estavam perdendo por mim. A coordenadora foi enfática ao me aconselhar: tem aluno que testa o professor mesmo, que inconscientemente pede para que lhe imponham limites. Na nossa conversa com os alunos, não abusei da raiva. Mostrei como o comportamento deles tinha complicado muito a avaliação para a classe inteira; salientei como eles eram brilhantes quando separados (e de fato finalizavam raciocínios bem complexos), mas que potencializavam os efeitos destrutivos um do outro quando sentavam juntos; e expliquei como eu também estivera na mesma situação, em que discutir quem estava afim de quem era muito mais interessante do que qualquer aula.
Eles já eram conhecidos da coordenação. Já sabiam os procedimentos. Eles mesmos se comprometeram a sentar separados durante as aulas, trato que eles têm cumprido. Tenho dúvidas do quanto disso são respostas prontas para evitar maiores aborrecimentos com a coordenação. Mas desde então, as aulas têm corrido bem.
Me chamou a atenção quando a coordenadora avisou para um deles que, conforme avisos anteriores, os pais dele seriam chamados desta vez. Ele se agitou na cadeira, se esforçou para conter o choro. O rapaz não fizera nada além de conversar demais e de forma inapropriada durante a aula, mas temia a reprimenda dos pais como se tivesse assaltado ou matado alguém. Passei o resto do dia pensando muito sobre essa autoridade axiomática dos pais. E sobre o meu próprio pai, que nunca me bateu ou gritou comigo, mas de quem eu sempre tive medo quando cometi meus pequenos delitos.
• Em um assunto relacionado, na licenciatura, conversamos sobre a importância do "não". Do impor limites. E de como a atual geração de pais morre de medo de ter que dizer "não" aos filhos. São pais que foram educados por pais que diziam "não porque não", sem dar razões. Acham isso absurdo e querem dialogar com os filhos. Querem ser melhores amigos dos filhos adolescentes, que estão na idade onde o que menos querem é ser os melhores amigos dos pais ("ai, pai, que mico!"). E esse querer tem consequências nefastas. Percebo isso nos quatro rapazes dos quais falei. Em outros que gritam obcenidades e impropérios no meio da explicação do professor, interrompendo da forma mais rude possível. Nos que sobem na mesa. Nos que negociam regalias absurdas com o professor. O professor não tem essa autoridade axiomática, porque os pais não a ensinaram aos filhos. Ensinaram a dialogar, a negociar. Claro, isso vai fazer muito bem a eles quando adultos, mas enquanto crianças, causa apenas situações onde eu gasto fatias cada vez maiores da aula em negociação, enquanto professores passados teriam dito "não", marcado um ponto negativo e dado o assunto por encerrado.
Claro, eu também preciso aprender a dizer não. Ainda tenho medo. Mas ando fazendo progressos. E percebendo os efeitos positivos.
De qualquer jeito, eu sei que esses pensamentos são meio conservadores e o assunto ainda dá muito pano pra manga...
• Como conciliar a necessidade de impor limites e avaliar os alunos dentro de um critério justo para todos? Há pensadores atuais sobre educação que provam que cada pessoa tem uma inteligência diferente. Portanto, avaliar a todos pelo mesmo critério, pela mesma prova, seria uma atitude errada. No entanto, customizar uma avaliação específica para cada estudante, levando em conta as inteligências específicas de mais de quase 500 alunos diferentes (e esses são apenas os que tem aula comigo, ainda tem os da outra professora...) seria impraticável. O colégio, conhecido como um colégio tradicional que procura ser mais progressivo, atualmente enfrenta o desafio de caminhar a tênue linha entre impor limites para formar caráter, e respeitar as diferentes inteligências de cada aluno. A questão é melhor expressa na pergunta:"onde se encaixam os alunos que não se encaixam?". E minha família e amigos estão cheios de exemplos de indivíduos que nunca tiraram as notas mais altas, mas seguiram adiante para terem carreiras brilhantes por outros meios. A resposta, acredito eu, está em ver o colégio como o provedor de um serviço. Outros colégios proverão variações do mesmo serviço, como sabores diferentes do mesmo tipo de alimento. Cada um tem o seu sabor preferido e é irreal supor que todo mundo vai gostar do mesmo sabor. Acredito que o colégio não tem realmente a obrigação de se adaptar a todos os alunos. Mas os pais têm a obrigação de investigar qual filosofia de ensino (qual sabor - tradicional, Waldorf, Construtivista, Montessoriano, etc...) é o mais adequado para o seu filho. O raciocínio é inverso.
• Pra pensar mais sobre essas e outras questões, sugir os vídeos do Ken Robinson no TED Talks e no RSAnimate, respectivamente abaixo:
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