domingo, novembro 29, 2009

Do outro lado do Rio Verde

Acordei hoje de manhã.
A garganta doia muito. No chão do quarto, roupas molhadas. Na área de serviço, seis dos meus quadros e os painéis que usei na Casa das Caldeiras com os textos sobre o Masculismo. Tive receio de tirar os quadros das embalagens. Receio de descobrir que talvez eu tivesse danificado mais algum deles. Desde o fim da faculdade, já perdi os retratos de Bia e Rafaela por problemas de estocagem e transporte. Mas a checagem tinha que ser feita e qualquer perigo de estrago evitado.

Há apenas um jeito de resumir a exposição de ontem: a produção falhou. E falhou pesado. Na quarta anterior, tínhamos nos reunido para ver o local e decidir quem ia expor o que aonde. Consegui ficar com um dos pontos mais legais da balada, uma tenda logo na saída do local onde as bandas estariam tocando. O único problema: iluminação. Me pareceu algo simples de arranjar para uma produtora que estava montando toda uma balada, então não dei muita atenção. Mas então chegou o dia, e a fantástica iluminação que arranjaram pra mim se resumiu a um conjunto de luzes de árvore de natal... Dois, na verdade. Cada um durou cerca de meia hora até queimar e apagar de vez. No escuro, descolei um holofote que sobrara e, com uma folha de papel sulfite, improvisei um abatjour que iluminava por igual todo o ambiente com uma luz difusa. Era o suficiente, embora não o melhor. E eu já estava descontente com minha suposta produtora pro ter sido eu que me virei pra montar isso. A coisa ficou ainda pior quando, depois de mais duas horas de evento, até o holofote queimou. Depois disso, joguei a toalha. Afinal, minhas reclamações já estavam sendo retrucadas por aquele "é mesmo, né?" de quem nem está prestando atenção no que você diz. Se nem os produtores do evento estavam se importando, não tinha muito que eu pudesse fazer.
A iluminação não foi a única falha de produção. Falou-se em imprimir etiquetas ou algo do gênero para os trabalhos expostos, mas eu acabei tendo que fazer isso em casa também, na correria entre a volta da montagem, um banho e o retorno ao local. Fora que em duas semanas tentando, eles não conseguiram achar uma câmera para a Lexy, que fotografaria o evento. Resolvi o assunto com uma mensagem de Twitter e um telefonema. Aliás, valeu Iraê!
Depois que a banda do meu irmão tocou, inventei qualquer desculpa e desmontei a exposição. Apenas com a ajuda da Lexy e com a chuva molhando as coisas a caminho do carro. Quanto mais eu ficasse por lá, mais estragaria os quadros. E não valia a pena o risco para continuar expondo no escuro para um público que estava mais interessado em fumar e ouvir dub do que em artes visuais.

Devo admitir alguns pontos positivos. Como produtores de eventos musicais, eles sabem realmente fazer uma balada. Iluminação das bandas feita por VJs que projetavam imagens ao vivo no palco, deliciosas experiências gastronômicas acontecendo na cozinha, um número decente de pessoas comparecendo apesar do mau tempo, tudo isso em um local muito bem escolhido. Mas não tenho como aproveitar quase nada disso quando eles dão tanto zelo e importância para os músicos e tratam os artistas plásticos como meros decoradores de ambiente.

Ainda assim, houve momentos em que eu quase me esqueci desses "detalhes". As pessoas se reunindo em torno do quadro novo e comentando a respeito sem saber que eu era o autor me deram impressões muito favoráveis do impacto que ele tem ao vivo. Os retratos (Lilly, Tinkerbell, Thaís, Lee e Lexy) dividiam opiniões como sempre, e cada pessoa tinha seu favorito por esta ou aquela razão. Tive feedbacks gostosos dos outros artistas como a Beatriz Chachamovitz, que plantou seus singelos "pólipos" entre a vegetação do lugar; e do Geraldo Yang, que trouxe aquarelas muito bem humoradas.
Geraldo fez-me perceber um detalhe inconsciente no quadro novo. Tendo vivido por um ano no sul dos Estados Unidos, ele percebeu que a casa na pintura tem arquitetura daquela região, devido às referências que procurei. Eu queria mesmo uma dessas casas, porque era a imagem na minha cabeça. Mas ele me fez ver que eu tinha escolhido uma arquitetura de uma sociedade extremamente machista, e colocado ao lado dela uma mulher muito maior do que aquilo. Na minha cabeça, a casa tinha conotações femininas, mas o fato é que ela é um símbolo masculino naquele contexto.
Os gostos doces da noite terminaram com visitas do Tex, amigo da Lexy que chegou até a perguntar preços dos quadros; e o Gonzo, vocalista e líder da banda do meu irmão e que sempre tem um carinho inigualável com outros artistas.

Foi uma noite de sabores e dissabores. Mas muita coisa foi aprendida sobre que exposições aceitar no futuro.

quarta-feira, novembro 25, 2009

Anúncio rápido!

Você sabe que eu sou artista plástico e que meu irmão é músico, mas nunca viu nosso trabalho? No sábado, dia 28, você vai ter a sua chance. Ele vai estar tocando com seu projeto Mais Massa (com músicos de Fortaleza) e eu vou estar expondo um pouco do velho e as coisas mais recentes do Masculismo. Ando até pensando em fazer disso uma verdadeira vernissage e passar verniz no último quadro ao vivo, no meio do evento.

Passa lá!

Vai ser no Centro Cultural Rio Verde:
Rua Belmiro Braga, 119 - Vila Madalena
Tel.: 11 3459-5321


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sexta-feira, novembro 20, 2009

Mudanças

Sejamos francos: este blog estava um porre.

Dia desses, um dolorosamente sincero amigo meu comentou sobre este fato. Começamos a conversar sobre porque isso tinha acontecido. Afinal, esta página já foi muito apreciada pela qualidade da literatura. O que aconteceu?
Quando comecei a escrever, minha proposta era de escrever como se o fizesse para mim mesmo. O que é diferente de fazê-lo de fato, pois se estivesse verdadeiramente escrevendo para mim mesmo, não publicaria meus textos na internet (uma lição que muita gente desconhece e por isso reclama da suposta "falta de privacidade online"). Mas eu queria escrever com a poesia e a autenticidade de quem escreve para si mesmo. O gosto da literatura de diário adolescente.
Acredito que, por pelo menos um ou dois anos, eu fiz exatamente isso. Mas então entrei no processo que todo escritor de blog entra, de descobrir as consequências de ter uma opinião tornada pública. Esse tipo de literatura leva muito de opinião pessoal e pieguices passionais. E essas coisas às vezes machucam quem ficou de fora dos elogios. Ouvi muita reclamação, troquei muitas farpas virtuais... Tive até ex-namorada que veio escarafunchar críticas minhas anos depois que eu as havia escrito. Eu poderia lidar com tudo isso de duas formas: bater de frente e esperar calejar, descartando da vida (e do blog) as pessoas que não conseguissem aguentar opiniões pessoais; ou pisar em ovos, ser diplomático e criterioso com o que eu escrevia por aqui. Não tive força pra escolher a primeira estratégia, então optei pela segunda.
Nos anos que se seguiram, o blog passou a ser uma tediosa procissão de resenhas culturais. Filmes, exposições, ensaios sobre teoria artística e outras chatices acadêmicas... Pessoalmente, eu estava satisfeito. Ainda escrevia "para mim", sobre coisas que muito me interessavam. Mas condenei os leitores a desbravarem uma terra estéril e asséptica, cheia de termos e assuntos que não lhes interessavam. O blog passou a ter um caráter informativo e didático, apoético. A pouca poesia que aqui havia se resumia nas imagens de trabalhos e pequenas coisas que eu colocava. E no entanto, nem mesmo essa função de informar sobre o mundo da arte ele estava cumprindo direito. Fui a muitas exposições e eventos que não tive paciência para relatar aqui. E mesmo que o fizesse, ninguém estava interessado em ler. Minha turma de artes plásticas, que seria a mais interessada, é meio alheia ao mundo dos blogs. E quem conhece e participa desse mundo não é tão interessado assim por arte profissional.

Quando percebi, estava sozinho.

Tinha perdido os poucos leitores que vinham até aqui pela poesia e não soube ganhar novos que aproveitassem a informação. Recentemente, além da solidão, comecei a perceber o lento definhar do pouco que restara neste blog. A preguiça e falta de tempo para relatar as coisas, o desinteresse. Meses inteiros quase sem conteúdo. Praticamente a única coisa que ainda mantem esse blog vivo é sua idade, porque morro de pena de dar um fim a algo que já vem acontecendo há tantos anos e secretamente tenho esse orgulho de ser o último blog vivo da época em que todos nós escrevíamos. Algo como minha avó e o TBC.

Mas estou em uma época fértil de mudanças em que estou reorganizando muitas coisas, prioridades e detalhes da vida. E por que não incluir o blog nesse processo? De fato, eu tinha pensado (como sempre penso e raramente faço) em inaugurar um novo layout no meu aniversário. Aproveitaria assim para inaugurar uma nova fase nos textos. Voltar a ter poesia nas coisas. E que ela atraisse os leitores, antigos e novos.

Pois bem, ei-lo, o novo layout. Passa a fazer parte da identidade visual que estou usando profissionalmente, com meu leão e tudo. Por enquanto, ainda está em fases iniciais. Ainda não descobri como colocar vários dos efeitos e serviços que eu queria, mas isso vai sendo feito aos poucos. Opiniões de todos (tenho dúvidas sobre as cores...) serão muito bem vindas. O que importa por enquanto é sinalizar a mudança. E coroar assim o despertar de consciência que começou há exatamente um ano.

[Ah, sim... e eu tirei a musiquinha pentelha]

terça-feira, novembro 17, 2009

Maria Della Costa

Terminei na semana passada a parte de pintura do primeiro quadro que estou fazendo sobre as atrizes do TBC. Acho que finalmente consigo fazer um quadro em um mês. Foi uma coisaa complicada, porque fui experimentar uma técnica de transferência de imagens impressas para a tela que o Rauschemberg usava. Muito frustrante quando essas coisas não dão certo. Mas eu sou teimoso e acabei gastando uma semana nisso até que desse certo.

Apesar de ter motivos pessoais para começar a série com uma cena do Entre Quatro Paredes (encenado por minha avó, meu avô e Cacilda Becker), por ter ensaiado a peça com a Lee há muitos anos, cedi ao apelo visual da belíssima Maria Della Costa. Na peça Ralé, de Maxim Gorki, dirigida por Flamínio Bollini Cerri, ela encarna a bela e perigosa esposa de um dono de cortiço, que trama a morte do marido e agride a própria irmã ao perceber que seu amante passa a interessar-se por esta. Trajando um longo vestido, ela aparece em uma das fotos em uma pose que lembra as musas do cine noir.

Há algumas semanas, soube por minha avó que Maria Della Costa estaria dando autógrafos no lançamento de sua biografia. Aproveitei a chance para conhecê-la de perto. Simpaticíssima, não se negou a tirar uma foto comigo depois de saber de quem eu era neto.

Eu e Maria Della Costa na Livraria Cultura, durante o lançamento de sua biografia.

quarta-feira, novembro 11, 2009

Red Bull House of Art

Como diria meu professor de física do colégio: "tive três orgasmos com essa notícia..."

A Trip publicou em seu site uma notícia sobre este projeto da Red Bull, a cargo dos curadores Lucas Bambozzi e Maria Monteiro, que colocará a partir de hoje dez artistas de diferentes nacionalidades para habitar um hotel do centro de São Paulo por 30 dias. Durante este tempo, os artistas devem produzir trabalhos relacionados ao espaço, ao centro urbano, à cidade. O rol de "vítimas" desta primeira edição conta com gente do Brasil, África do Sul, Japão, Alemanha, Argentina, Portugal e dos Estados Unido. São pessoas dos mais variados tipo, idades e mídias, sem nada um comum, o que estimula a riqueza do diálogo e a diversidade, bem ao estilo Red Bull. Entre os brasileiros, está em destaque a queridíssima Regina Parra, do desmantelado grupo 2000e8 [1] [2].
Interessante, o site da Trip aponta, é que os artistas vão para o espaço sem um projeto definido, tendo que criar do zero a partir do espaço. Como incentivo, os organizadores ainda levarão seus acólitos a diversas exposições relevantes em São Paulo, como a da Pippilotti Rist no MIS e da própria Regina na Galeria Leme, além de galerias fora do circuito tradicional, como a Choque Cultural e a Casa da Xiclet (!).

Fiquei imaginando o que eu colocaria por lá. Provavelmente etntaria fazer uma idéia antiga, do tempo da faculdade, quando eu ainda estava pintando a Virgem e o Menino e obcecado com temas recorrentes da pintura antiga. Era uma idéia de fazer a Venus, como uma pintura gigantesca na lateral de um prédio do centro. As pinturas da Venus antiga expressavam o ideal de belza feminina da época, e a minha seria uma modelo de revista, daquelas que anunciam "15 maneiras simples de perder uns quilinhos para o verão" ou qualquer outra futilidade estética. Só que apesar da linguagem publicitária, ela não estaria vendendo nada. Apenas estaria lá, do tamanho de uma deusa inatingível e maior do que qualquer homem.
Claro que a atual lei contra outdoors seria um empecilho... Mas será que há excessões para obras de arte? Algo a pesquisar...

quinta-feira, novembro 05, 2009

Homens que dizem não

A propóstio, ao ler meu último post, Nana me passou um link para uma matéria que fala justamente do assunto de sexo como mecanismo de controle masculino. Achei relevante.

quarta-feira, novembro 04, 2009

Atualizando

Quase um mês sem atualizar isso aqui... E eu que queria transformá-lo em um blog sério, estou indo por um péssimo caminho.

Sem títuloNo começo de Outubro, terminei o primeiro quadro da nova série. Apelidado de "A Casa na Colina", mas oficialmente sem título, foi a tentativa de transformar uma tela que eu não conseguia continuar mas não queria jogar fora em algo útil. O resultado me satisfez, embora eu já tenha me dado conta de como poderia ter feito uma pintura ainda melhor. No fim das contas, ficou um quadro gostoso. E eu ainda fiz um vídeo da evolução dele.
O resto do mês de Outubro foi algo de um desperdício benéfico. Pois embora eu não tenha cumprido a promessa de uma obra por mês, tive muitos trabalhos como freelancer e ganhei uma considerável quantidade de dinheiro. Ah, se todos os meses fossem tão produtivos nesse aspecto...
De fato, eu tinha planos para a próxima obra em Outubro, um objeto em vez de uma pintura. Mas não tive coragem. Sabe, esta primeira pintura que fiz lidava com um dos três aspectos que hoje eu identifico da questão masculista: o sentimento de inferioridade do homem atual em relação à mulher atual. Os outros dois aspectos são a ausência da figura do pai/mestre e o uso do sexo como mecanismo de controle do homem. Meu objeto de Outubro tinha a ver com este último. Mas então lembrei de outros trabalhos que fiz que lidavam com sexualidade tão abertamente, e de como no fim acabavam sendo obras vazias, desnecessariamente chocantes e muito frustrantes. Trastes que hoje perambulam o ateliê embalados e cobertos para sempre porque meu pudor não me permite mostrar. Não acho que seja o caso desta obra, mas estou sendo prudente. Ainda estou me acostumando com a idéia. Se eu achar que passou tempo suficiente e ainda não me envergonhei dela, voltarei a entreter a idéia de produzir a peça.
Agora em Novembro, a brincadeira vai tomar outros rumos. A idéia seria produzir algo baseado no terceiro aspecto, a ausência do mestre/pai. Mas em conversas produtivas com o Marco Guerra, um professor de história da arte amigo de minha avó, surgiu outra idéia interessante que talvez renda as minhas primeiras exposições realmente relevantes. Ele interessou-se pelos meus retratos da época da faculdade e sugeriu que eu fizesse retratos dos meus avos, importantes figuras do teatro nacional e principalmente do surgimento do TBC (Teatro Brasileiro de Comédia). A sugestão não poderia vir em melhor hora. Lexy está pesquisando o TBC para seu trabalho de graduação e estamos descobrindo farto material a respeito daquela época.
Assim que resolvi tomar a idéia do professor Guerra e jogar do meu jeito. Peguei os últimos dias de Outubro que me restavam para fazer pesquisa com minha avó, procurando peças relevantes, atrizes fortes e diretores que fizeram história naquela época. E ontem comecei a produção das primeiras duas pinturas dessa série. Todas explorando atrizes do TBC em peças que lhes proporcionaram personagens femininas fortes como as mulheres pós-Feminismo. As imagens de referência são do fotógrafo Fredi Kleeman, que acompanhou o surgimento do TBC, fotografando os primeiros ensaios e as apresentações históricas.
O professor diz que, se eu conseguir produzir essas obras até o começo do ano que vem, poderia me arranjar uma exposição em uma galeria na Augusta. A idéia muito me interessa. Mas ainda que isso não aconteça, seria a forma perfeita de abordar o pessoal do teatro do meu avô e organizar uma exposição por lá. Tenho certeza que isso chamaria alguma atenção. Pelo assunto, pela relação dos avós e do neto, e quem sabe até pela qualidade das obras.

domingo, outubro 11, 2009

Educação Artística

Soube recentemente que o Ministério da Educação andou promovendo reformas no ensino de arte nas escolas. Dentre outras coisas, tornou obrigatório a partir do ano que vem o ensino de música nas escolas de Ensino Fundamental. Achei até que a medida foi tardia. Em outros países onde estive, a música é parte obrigatória do programa de qualquer escola. Aprendi a tocar aquela odiosa flauta doce quando criança por causa disso. Embora tenha esquecido quase tudo do instrumento assim que saí daquele colégio em outro país, as noções de canto me acompanham pela vida toda e facilitaram o episódio da banda de rock que tive em 2007. Mas não é apenas isso, me deram uma noção de música, de composição e de compositores.
De volta à terra natal, tive aulas de educação artística no restante do Ensino Fundamental. Eram aulas de qualidade questionável. Embora ensinassem o desenho de perspectiva, coisa que eu veria novamente no curso de desenho que fiz na adolescência e uma terceira vez quando entrei para a faculdade de arte, o resto de seu conteúdo era praticamente irrelevante. Por exemplo, passamos um semestre vendo o Futurismo, um movimento das vanguardas do século XX que não chega a ser mais do que uma nota de rodapé nos livros de história da arte sobre a época e pouco nos ensinou das importantes mudanças de pensamento que ocorreram nas primeiras décadas do século. Não é de se espantar que o colégio onde estudei fosse notório pela quantidade de alunos que saíam de lá para entrar em faculdades de engenharia e que as estatísticas apontasse pouquíssimos alunos interessados pelos cursos superiores de artes plásticas.
Mas o ensino deficitário de arte na adolescência tem outras consequências visíveis na população do país. Estive conversando com Marília "Bombom" Jardim, uma performance artist conhecida da Lexy que acabou virando boa amiga e colaboradora em projetos de arte. Discutímos recentemente sobre a situação dos colecionadores de arte na cidade e do que de fato chega ao mercado. Obras que na maioria das vezes têm um apelo pop ou decorativo, produzidas por artistas que não estão realmente interessados em fazer qualquer ligação com a história da arte, compradas por gente endinheirada que nada entende do que está comprando e escolhe de acordo com a reputação do artista ou o quanto a obra vai combinar com a sala de estar. Poucos são os colecionadores que de fato entendem de arte: uma elite cultural. Poucos também são os artistas, depois desse tempo todo em que o MEC menosprezou o ensino de arte nas escolas. Bombom parece ser uma pessoa com boa formação artística em colégio construtivista, que sabe o que está fazendo e como aquilo se enquadra na história. De minha parte, tenho que me admitir fruto do colégio onde estudei, e confessar que talvez ainda esteja pensando na minha produção como algo isolado da história, como o fazem todos os outros pintores da minha geração. Afinal, nossas técnicas são centenárias e voltam aos resultados vistos antes dessas décadas de abstração e negação da pintura de cavalete. Na verdade, sequer consideramos muito do que se passou na arte das últimas décadas quando escolhemos o bom e velho óleo sobre tela. Sei que no futuro chamarão este momento de uma espécie de "retorno à ordem e à técnica". Concordo, mas não deixa de ser justamente um retorno, uma espécie de retrocesso.

Voltado à questão dos Ensino Fundamental, passei no meu antigo colégio esta semana. Conversei com professores e com o diretor para ter uma noção do que é preciso para tornar-me um professor de artes do colégio. E fiquei sinceramente maravilhado com o modo como as determinações do MEC mudaram o ensino de arte por lá. O curso agora é bem prático, ensinando desenho, depois pintura, e então fotografia e vídeo nos últimos anos. Os alunos fazem. Não apenas isso, encontrei nos trabalhos que vi, referências a artistas desde Da Vinci até Andy Warhol, e técnicas tão alternativas para crianças quanto a xilogravura, que só fui conhecer no segundo ano da faculdade.
Régis, o coordenador do curso, me conta que alguns vetibulares já estão perguntando até sobre os metaesquemas do Hélio Oiticica, como aconteceu na última prova do recém-criado curso de direito da FGV. Claro: crie essa necessidade no vestibular e todos os colégios passarão a ensinar a matéria.
O assunto todo me deixou interessado: com essa nova determinação do MEC, a demanda por professores de arte vai crescer. É aí que eu entro: já estou pesquisando como e onde fazer a licenciatura...

terça-feira, setembro 29, 2009

Finalmente terminei o pequeno livro sobre pós-modernismo da Eleanor Hartney. Demorei porque passei muito tempo em um capítulo sobre o feminismo no pós-modernismo, querendo esmiuçar todos os detalhes.

Como já expliquei por aqui, as primeiras feministas na arte criavam obras que apresentavam os aspectos da mulher como natureza, corpo e emoção, tentando transformar esses assuntos de críticas e formas de dominação em qualidades boas a serem louvadas. As feministas subsequentes argumentaram que ao fazer isso, elas estavam afirmando as noções de feminino determinadas pela sociedade patriarcal. Então essa nova geração de feministas, do pós-moderno, centraram sua pesquisa mais na iconoclastia, em destruir a forma como a noção do feminino é socialmente construída. Destruir a representação (um dos objetivos-chave do pós-modernismo).
O mesmo tipo de raciocínio é aplicado ao multiculturalismo, onde culturas estrangeiras diferentes da cultural do homem branco ocidental eram relacionadas ao espiritual e ao instintivo, sendo tão ilógicas para a sociedade ocidental quanto o universo feminino. O multiculturalismo pós-moderno procurava também desconstruir essas noções, e em vez de procurar uma volta e validação das tradições raciais, procurava questionar o porquê da superioridade do homem branco ocidental e da inferioridade das outras raças e crenças.

Ao ler tudo isso, imaginei que o mesmo tipo de erro pode e deve ser cometido pelo Masculismo. Acho importante, porque faz parte do processo. Que a primeira fase da pesquisa seja mesmo de reafirmar os valores anteriores do masculino, para depois partir disso e buscar algo mais pós-moderno, novo e autêntico. Por isso talvez seja preciso revisitar o homem de 1950 ou mesmo o anterior, medieval, bárbaro. Para entender o que era valioso nele e que foi perdido, e o que de fato não serve mais. Voltar inicialmente so estereótipo do homem caçador, conquistador, paterno e monárquico.
Depois disso, vamos lidar com a iconoclastia, com a questão das armadilhas sociais e noções socialmente construídas do que deve ser um homem.

Minha produção de ateliê, imagino, está indo por outros caminhos. Já planejo para este próximo mês algo que seria mais próximo dessa segunda fase. Mas de qualquer jeito, é bom ter isso em mente para organizar a produção quando eu finalmente tiver coisas suficientes para expor.

segunda-feira, setembro 28, 2009

And so comes the Dawn

Comemoremos! Aurora nasceu!

Certa vez, quando nasceu um dos filhos do pessoal na fazenda de minha avó, meu pai passou para visitar o recém-nascido. A caminho do lugar, encontrou um dos senhores que trabalhava por lá que disse-lhe, com aquele tipo de sabedoria surpreendente da roça, que ele ia conhecer alguém pela primeira vez. Meu pai ficou surpreso com a veracidade da frase. De fato, ele ia conhecer uma pessoa nova, uma nova consciência, que ele desconhecia antes não só pelo fato de que nunca havia visto a pessoa, mas porque ela de fato não existia. Era uma nova pessoa com mentalidade e decisões próprias.

Sinto uma espécie similar de epifania escrevendo o nome dela pela primeira vez em negrito por aqui, como o faço com outros nomes próprios. Aurora já existe no meu blog, como pessoa e não mais apenas como promessa.

Parabéns, mocinha!

sexta-feira, setembro 11, 2009

O quadro da casa na colina prossegue.

Ocorre-me que ainda não lhe dei um título. Me ensinaram na faculdade que dar aqueles titulos redundantes é feio (uma natureza morta com uma maçã e um vaso entitulada "natureza morta com maçã e vaso"...). Afinal, os títulos deveriam agregar um dado extra à pintura, não simplesmente ser mais do mesmo.
Desenterrei alguns livros antigos de pintura que "herd(roub)ei" das minhas tias do nordeste onde lembrava ter visto dicas sobre pintura de árvores. Achei algumas coisas bem relevantes e desbravei as florestas traumatizantes do quadro. Os resultados me agradam muito. Hoje terminei o gramado. Só falta fazer uma reforma na casa (quem dera reformas fossem tão rápidas quanto uma pintura...) e pronto, o quadro estará pronto para a parte mais legal: pessoas!
Vou retomar minha pesquisa de onde eu parei, na idéia da mulher enorme sendo desejada pelo garotinho [1]. Por enquanto, é a representação mais adequada que tenho da situação masculina hoje.

Lendo sobre o Feminismo naquele livro sobre pós-moderno da Eleanor Hartney, li uma parte que comentava sobre a Primeira Onda do Feminismo na arte, onde as artistas focavam nos aspectos femininos da gravidez e menstruação, na mulher como deusa. Não poupavam imagens de nudez feminina para representar isso. As feministas da geração seguinte criticaram essa postura, porque ainda apresentava a mulher de acordo com parâmetros da sociedade patriarcal: mulher como corpo, mulher como objeto de desejo. As artistas dessa segunda geração procuravam uma arte que não sensualizasse a mulher.
Daí comecei a pensar que, se eu colocasse a gigantesca mulher dessa pintura nua, estaria sendo meio retrógrado. Porém a idéia de vesti-la encontrava duas resistências: primeiro o meu gosto pela nudez em pintura (mesmo que isto seja de fato uma atitude machista retrógrada...), e depois a questão de com que roupa vestir a mulher.

Ainda não resolvi o assunto. Espero estar decidido até terminar de reformar a casa. Voltando do ateliê, ocorreu-me que também estaria ilustrando o rapaz nu. De certa forma, isso nega a configuração machista da mulher aparecer sempre nua e o homem sempre vestido. Mas talvez isso seja apenas eu tentando achar uma justificativa pra ter gente pelada na pintura e me livrar do incômodo de ilustrar roupas...

segunda-feira, setembro 07, 2009

Rearranjo conceitual

Há algum tempo, fui assistir a peça "Os Sete". Eu a recomendaria, se não tivesse sido a última apresentação por falta de patrocínio...
Escondida sob a trama da peça estava a história da Branca de Neve. A peça tinha sete homens assassinados para que uma personagem conseguisse sete ingredientes de uma poção, tinha a lendária maçã, qualquer coisa relacionada a espelhos, velhice e beleza.
Na verdade, o que o autor fez foi um processo muito legal e em voga na arte contemporânea (seja literária, musical, plástica ou teatral), que eu acabo chamando de rearranjo conceitual. Seria mais fácil explicá-lo com imagens, mas tentarei fazer isso por escrito...
Neste caso específico, ele pega um assunto como a história da Branca de Neve e elenca a maior quantidade possível de conceitos relacionados a ele (espelho, beleza, maçã, o número 7, etc...). Depois rearranja as combinações, e principalmente a hierarquia de importância entre os conceitos. No caso da peça, o número 7 que era um detalhe da história original, passou a ser até o título da obra.
A estratégia tem forte ar de contemporaneidade. Estamos em uma época onde linearidade é quase um pecado. Depois da internet, não procuramos mais informação de forma linear. Depois dos ARGs, o nosso entretenimento não é mais linear. Depois de filmes como Magnolia, Mulholland Drive e 21 Grams, nosso modo de contar histórias não é mais linear. Em todos os casos, os conceitos isolados são apresentados a esmo e o público só tem a noção do todo quando conseguir fazer a conexão (não-linear) entre as partes.
Outros exemplos de rearranjo conceitual já passaram por aqui. The Path, o jogo da Chapeuzinho Vermelho, até fazia questão de continuar no âmbito das histórias infantis.

Experimente! É um processo relativamente simples de brainstorming criativo e dá resultados ótimos. Pra quem continua achando que sensibilidade artística não é outro tipo de lógica.

Sensibilidade e disciplina

Levei uma semana para fazer as últimas organizações e limpeza do ateliê e voltar a produzir. Na sexta, quando cheguei à casa de minha avó, ela estava revendo fotos à procura de alguma coisa mais atual de mim e do meu irmão, já que as últimas fotos que tinha eram de épocas em que nenhum de nós ainda tinha decidido cultivar barba. A última foto que tinha de mim devia ser de 2002 ou 2003. Eu estou dentro do ateliê e ele ainda é muito precário. Meio ateliê, meio quarto de depósito, minhas pinturas dividem espaço com tapetes velhos, luminárias e outras coisas espalhadas no chão de madeira. Há muito pó e muita sujeira em tudo. No cavalete, o retrato da Nana está sendo copiado para ser dado a ela como presente de aniversário. Hoje, o quarto já é quase totalmente um ateliê, abrigando apenas um ou outro ítem de memorabília de minha avó. O chão de madeira foi trocado por um de azulejo mais fácil de limpar e branco para melhorar as condições de iluminação. As telas foram cuidadosamente colocadas em um teleiro depois que perdi uma ou outra por descuidos de estocagem e tudo é muito limpo (na medida do possível). Teria orgulho hoje de receber outros artistas no meu ateliê. Acima de tudo, virou um lugar de disciplina. Tudo tem seu lugar e nada deixa seu posto a menos que seja usado. Depois é guardado prontamente. A disciplina só não é completa, porque ainda não consegui estabelecer uma rotina de horário, dar a importância devida ao ato de bater ponto lá em determinada hora e produzir até o fim do dia. Gastei um pouco do tempo desta semana indo atrás de material e últimas coisas que faltavam no ateliê. Mas convenhamos, só tive uma semana disso... Ainda leva algum tempo.
Na fila de produção, resolvi começar desatravancando trabalhos antigos nos quais eu empaquei. O quadro que fazia parte do tríptico para a sala de casa, que parou depois que Bia criticou o modo como eu estava pintando a floresta, vai virar a primeira obra desta nova fase, dentro das premissas da pesquisa masculista. O retrato de Lexy vai receber a chapa de acrílico final com uma brincadeira a mais. E já estou quase terminando a caixa de chá pintada com a Alice que devo de presente à Lexy. Metas de Setembro.

Uma obra por mês. No mínimo. Sempre masculista.

Em conversas recentes com parentes e amigos, surgiu de novo o assunto da sensibilidade. Como sempre pareceu muito estranho para muita gente que eu tivesse essa obssessão espartana por ordem e disciplina e ao mesmo tempo a sensibilidade de um artista plástico. Meu pai, especificamente, não entendia como podía fazer parte da minha estratégia me isolar em outro país por um ano para "sentar a bunda na cadeira e produzir". Não entendia como arte podía ser essa atividade com hora marcada, quase mecânica.
Outro das séries de estereótipos ligados à carreira de artes plásticas é isso de que você vai viver uma vida totalmente dionisíaca e não-cartesiana, onde sua produção vai depender de uma inspiração de momento, imprevisível e soberana, sem a qual você não pode começar a produzir. Minha observação do pessoal do 2000e8 sugere exatamente o contrário. Eles produzem disciplinada e constantemente. A inspiração não define a obra específica ou o começo da produção, mas sim a série inteira de obras. Eles produzem sobre a mesma idéia, dia após dia, até esse lendário momento de inspiração fugaz trazer a próxima grande idéia. E daí começam uma série nova. Pode ser amanhã, pode ser no ano que vem. Mas enquanto essa idéia não vem, eles continuam produzindo sobre a mesma idéia. Só assim garantem um volume de trabalho suficiente para serem artistas comercializáveis.

A sensibilidade não é nada além de outro tipo de lógica.
Uma lógica de escolhas baseada na intuição, que por sua vez é baseada na experiência. Já fiz determinadas coisas tantas vezes, já juntei determinadas cores tantas vezes, que passo a ter uma memória inconsciente do que dá certo ou não. Alguns acham que isso é sensibilidade inata com as cores, com sabores, com palavras; mas é experiência.

Há menos magia na sensibilidade artística do que se pensa ou se admite.

terça-feira, agosto 18, 2009

Quinta passada.
Em um restaurante na Oscar Freire, almocei tendo por compania o Marcos Brias e a Regina Parra, ambos do atualmente desmantelado grupo 2000e8. Brias foi o que se poderia considerar o intelectual do grupo, seus trabalhos sempre baseados em muito recheio literário e suas concepções de uma densidade brutal. Regina foi, dentro do grupo, a pintora com cujo trabalho eu mais simpatizei, por ela também fazer ilustrações fortemente baseadas em fotografias (embora as dela tenham uma teoria muito mais interessante do que as minhas) e pelo nosso interesse comum por artistas como o Gerhard Richter.
O convite fora extendido a todos os participantes do grupo, embora eu tivesse mais proximidade com o Brias. De qualquer jeito, fiquei feliz que pelo menos alguém me respondeu, já que na minha carreira abandonada de publicidade, conseguir o privilégio de conversas relevantes com profissionais de peso era uma utopia.
O motivo do convite: uma conversa informal e não-mediada sobre o que de fato é ter uma carreira de artes plásticas. Não era minha primeira tentativa de abordar um artista plástico para saber dos segredos da profissão. Mas minhas tentativas com a geração mais velha resultaram naquela conversa de "pai pra filho", onde o pai dá respostas vagas do tipo "é complicado..." e diz que você "vai entender um dia". Ou aquelas respostas esotéricas e cheias de termos blasê ("essa coisa de dinheiro é uma falácia do mundo capitalista ocidental pós-industrializado modernista greenberguiano pré-1968"). Imaginei que ao menos, com a geração mais próxima da minha idade, eu poderia conseguir alguns conselhos práticos.
Foi uma espécie de validação saber que eles tiveram trajetórias parecidas com o meu caso atual, começando a trabalhar em outros assuntos e depois desistindo de tudo para seguir as artes. Brias de fato trabalhou com editoração, um assunto não tão distante da publicidade. Mas hoje, ambos dizem viver de suas pinturas. Não estão tão bem quanto o Rodolpho Parigi [1][2] mas pagam suas contas (caras) com sua arte. Estou prestes a jogar na mesa o assunto do Masculismo quando Brias antecipa a conclusão: no caso da Regina, casada, pagar as contas não é tão doloroso. Continuo com a opinião controversa de que essa carreira é mais complacente com mulheres por causa de seus maridos.

No meio do almoço, já estamos no cerne do assunto. Minha primeira pergunta e uma das minhas maiores curiosidades: quanto tempo passam no ateliê? A resposta me faz começar a entender por onde seguir. Obviamente cada um tem seu tempo de ateliê, mas a disciplina é fundamental. Estar no ateliê com a mesma tenacidade com que se comparece a uma empresa. Horário, pontualidade, eficiência no gasto de tempo. A primeira conclusão que eles me dão é que o coração dessa carreira é produzir. Produzir muito, todos os dias, o tempo todo. Eu, é claro, ainda estou bem longe disso. O último quadro que (quase) terminei foi o retrato de Lexy no ano passado. E preciso remediar isso. Antes que alguma empresa me ofereça um salário que eu não posso recusar.
Regina interrompe a conversa para pedir nossa opinião sobre quadros para uma exposição que ela está montando. E me conta que em vésperas de exposição, chega ao ateliê de manhã e só sai às 20:00. Em dias normais, seu horário começa às 14:00. Fico imaginando que eu poderia facilmente me acostumar a uma rotina assim. Ambos me contam que a Ana Elisa Egreja, outra do grupo, passa horas e até noites no ateliê, para produzir suas enormes pinturas cheias de padrões de tecido.
Essa primeira etapa de estabelecer a produção me parece a mais complicada. Como sobreviver e se sustentar enquanto isso acontece? Aulas de inglês, como falei, tomam um tempo absurdo e não pagam nem perto do suficiente. O jeito e manter um stiff upper lip e enfrentar de frente mesmo.
Estabelecida a produção, outras coisas acontecem simultaneamente. A primeira leva da produção já pode ser inscrita em salões de arte. O objetivo é mais rechear o currículo do que ganhar os prêmios, embora uma vitória dessas também garanta um bom fôlego financeiro. Enquanto isso, o comparecimento às vernissages e o networking são fundamentais. É daí que saem as primeiras visitas ao ateliê e contatos de galeria. E eventualmente, as primeiras vendas. Não é fácil... Mas é o caminho, sem segredos, sem respostas paternalistas ou esotéricas.
Regina ainda comenta que em suas primeiras vendas, gastou todo o dinheiro, achando ter faturado uma nota. Grande erro: na seca até sua próxima venda, passou apertos financeiros e aprendeu a poupar.
É claro que não dá pra prever quanto tempo leva tudo isso. Há uma boa dose de gente me dizendo que eu ainda sou jovem aos 27 anos, mas não me sinto assim. Sinto os cinco anos desde que saí da faculdade e deixei as chances de lá morrerem. Eles me tranquilizam reiterando que o mestrado é uma ótima idéia. Voltar à academia e às oportunidades que ela gera, desta vez com consciência para aproveitar.

Quando pego o ônibus de volta para casa, sinto que estou no caminho certo também na carreira. Claro, ainda há MUITO para caminhar. E o mês que vem vai ser duro, voltando ao ateliê e estabelecendo a rotina. Mas pelo menos já não estou mais à deriva. Estou em terra firme, com estrada seguindo adiante.

Toda jornada começa com um passo. Keep Edgewalking...

quarta-feira, agosto 12, 2009

Dois meses depois

Já fazem dois meses que pedi minha demissão da agência. E mais ou menos um mês que cumpri meu aviso prévio e larguei a carreira. Mas o fato é que continuo flertando com a publicidade, à espera de alguém ou alguma empresa que pague o que eu acredito ser o meu valor. O plano passou a ser este: encontrar uma empresa que me pague o suficiente e de preferência agregue um nome relevante ao meu currículo, e continuar tentando ser um artista plástico enquanto essa empresa não aparece. De um jeito ou de outro, saio da estagnação profisssional na qual tenho vivido pelos últimos quatro anos. Chega de agências pequenas, desconhecidas, pobres e sem nada a me oferecer além de "experiência".
Este primeiro mês de liberdade teve algo de semelhante à primeira semana que passei em Londres: um pavor, uma ansiedade frente a uma nova e desconhecida situação que me oferece muita informação e possibilidade de uma só vez e que eu não consigo organizar. Apesar da alegria de estar livre e das infinitas possibilidades, esse medo de perder oportunidades pela desorganização tingiu tudo de cores mais sóbrias.
Mas à medida que o mês foi passando, percebi que essa ansiedade tratava-se de outra coisa. Eu estava atolando em um mar de pequenices, detalhes e afazeres pontuais. Agora que eu estava livre e podia dispor de todo meu dia, cismei em resolver essas pendências, zerar a vida. Coisas como concertar a luz queimada do carro, enquadrar uma foto que eu ia dar de presente, dar um jeito na papelada na minha mesa. Pequenices a serem resolvidas rapidinho, mas que tiram o foco dos meus objetivos a médio prazo. Objetivos como voltar a ser produtivo, voltar a ter a disciplina para ser um artista plástico. Mas uma vez que isso ficou claro, passei a dar o tempo certo a essas pequenices e voltar a me concentrar no que de fato importava: reaprender a me concentrar, a vencer a preguiça, começar a trabalhar rápido e manter o ritmo durante o dia e a organizar meus ambientes de trabalho para que o dia seja eficiente. As pequenices serão resolvidas aos poucos. A verdade é que sempre haverá pequenices.
Com o fim desse segundo mês de desemprego, já começo a ver alguns resultados [1][2][3]. Ando participando de alguns concursos de ilustração para livros infantis (um deles um concurso mexicano que me obriga deliciosamente a reaprender a escrever em espanhol). Não são grandes obras de arte e ainda não acredito que vá ganhar alguma coisa, mas é um começo, um exercício de concentração e disciplina. E é muito bom voltar a me sentir produtivo naquilo que eu considero relevante. Mês que vem, pretendo estabelecer alguma rotina no ateliê e voltar a pintar. Desta vez com algum propósito e não apenas por hobby. Enquanto isso, ando conversando com artistas plásticos e tentando descobrir a teoria do que é de fato ter uma carreira em arte.

As noites atualmente são divididas entre aulas de inglês e o circo. As aulas são a minha única fonte de renda por enquanto, mas são uma clara armadilha: gasto quatro horas do dia entre preparar a aula, ir até a escola, lecionar e voltar para casa. No entanto, o pagamento por essas quatro horas é o que eu esperaria ganhar por uma hora de trabalho. E são tão poucas as aulas que provavelmente só vão pagar minha mensalidade do circo. Mas enfim, o inglês é assunto para outro post, outro dia.

Pensando bem a respeito dessa época, sou tomado de uma sensação muito prazerosa de estar fazendo as coisas das quais gosto e vivendo o tipo de vida que eu gostaria de viver. Uma vida na qual os dias são passados em meio a desenhos e outras atividades artísticas, o tempo é meu para dispor dele como eu quiser, aproveito o circo enquanto minha juventude ainda permite, e ainda convivo com meus vários idiomas de uma forma que me remete à Europa (a propósito, Tullio Seppilli [1][2] esteve aqui e conversamos bastante em italiano, completando minha lista de idiomas usados recentemente...). Ou seja, ando vivendo uma espécie de sonho, uma imersão em felicidade pessoal. Mas a questão do dinheiro para o meu sustento continua a me assombrar like the elephant in the room (algo obvio que todo mundo está vendo, mas ninguém quer falar a respeito). É um demônio que eu ainda não sei como enfrentar.

Como vou transformar esta rotina deliciosa em algo rentável?