Acordei hoje de manhã.
A garganta doia muito. No chão do quarto, roupas molhadas. Na área de serviço, seis dos meus quadros e os painéis que usei na
Casa das Caldeiras com os textos sobre o Masculismo. Tive receio de tirar os quadros das embalagens. Receio de descobrir que talvez eu tivesse danificado mais algum deles. Desde o fim da faculdade, já perdi os retratos de
Bia e
Rafaela por problemas de estocagem e transporte. Mas a checagem tinha que ser feita e qualquer perigo de estrago evitado.
Há apenas um jeito de resumir a exposição de ontem: a produção falhou. E falhou pesado. Na quarta anterior, tínhamos nos reunido para ver o local e decidir quem ia expor o que aonde. Consegui ficar com um dos pontos mais legais da balada, uma tenda logo na saída do local onde as bandas estariam tocando. O único problema: iluminação. Me pareceu algo simples de arranjar para uma produtora que estava montando toda uma balada, então não dei muita atenção. Mas então chegou o dia, e a fantástica iluminação que arranjaram pra mim se resumiu a um conjunto de luzes de árvore de natal... Dois, na verdade. Cada um durou cerca de meia hora até queimar e apagar de vez. No escuro, descolei um holofote que sobrara e, com uma folha de papel sulfite, improvisei um
abatjour que iluminava por igual todo o ambiente com uma luz difusa. Era o suficiente, embora não o melhor. E eu já estava descontente com minha suposta produtora pro ter sido eu que me virei pra montar isso. A coisa ficou ainda pior quando, depois de mais duas horas de evento, até o holofote queimou. Depois disso, joguei a toalha. Afinal, minhas reclamações já estavam sendo retrucadas por aquele "é mesmo, né?" de quem nem está prestando atenção no que você diz. Se nem os produtores do evento estavam se importando, não tinha muito que eu pudesse fazer.
A iluminação não foi a única falha de produção. Falou-se em imprimir etiquetas ou algo do gênero para os trabalhos expostos, mas eu acabei tendo que fazer isso em casa também, na correria entre a volta da montagem, um banho e o retorno ao local. Fora que em duas semanas tentando, eles não conseguiram achar uma câmera para a
Lexy, que fotografaria o evento. Resolvi o assunto com uma mensagem de Twitter e um telefonema. Aliás, valeu
Iraê!
Depois que a banda do meu irmão tocou, inventei qualquer desculpa e desmontei a exposição. Apenas com a ajuda da
Lexy e com a chuva molhando as coisas a caminho do carro. Quanto mais eu ficasse por lá, mais estragaria os quadros. E não valia a pena o risco para continuar expondo no escuro para um público que estava mais interessado em fumar e ouvir dub do que em artes visuais.
Devo admitir alguns pontos positivos. Como produtores de eventos musicais, eles sabem realmente fazer uma balada. Iluminação das bandas feita por VJs que projetavam imagens ao vivo no palco, deliciosas experiências gastronômicas acontecendo na cozinha, um número decente de pessoas comparecendo apesar do mau tempo, tudo isso em um local muito bem escolhido. Mas não tenho como aproveitar quase nada disso quando eles dão tanto zelo e importância para os músicos e tratam os artistas plásticos como meros decoradores de ambiente.
Ainda assim, houve momentos em que eu quase me esqueci desses "detalhes". As pessoas se reunindo em torno do quadro novo e comentando a respeito sem saber que eu era o autor me deram impressões muito favoráveis do impacto que ele tem ao vivo. Os retratos (
Lilly, Tinkerbell, Thaís, Lee e
Lexy) dividiam opiniões como sempre, e cada pessoa tinha seu favorito por esta ou aquela razão. Tive
feedbacks gostosos dos outros artistas como a
Beatriz Chachamovitz, que plantou seus singelos "pólipos" entre a vegetação do lugar; e do
Geraldo Yang, que trouxe aquarelas muito bem humoradas.
Geraldo fez-me perceber um detalhe inconsciente no quadro novo. Tendo vivido por um ano no sul dos Estados Unidos, ele percebeu que a casa na pintura tem arquitetura daquela região, devido às referências que procurei. Eu queria mesmo uma dessas casas, porque era a imagem na minha cabeça. Mas ele me fez ver que eu tinha escolhido uma arquitetura de uma sociedade extremamente machista, e colocado ao lado dela uma mulher muito maior do que aquilo. Na minha cabeça, a casa tinha conotações femininas, mas o fato é que ela é um símbolo masculino naquele contexto.
Os gostos doces da noite terminaram com visitas do
Tex, amigo da
Lexy que chegou até a perguntar preços dos quadros; e o
Gonzo, vocalista e líder da banda do meu irmão e que sempre tem um carinho inigualável com outros artistas.
Foi uma noite de sabores e dissabores. Mas muita coisa foi aprendida sobre que exposições aceitar no futuro.