segunda-feira, dezembro 28, 2009

Truques fáceis

Acho que em todo tipo de arte há truques fáceis.
São aquelas manobras conceitualmente banais, mas que surtem efeito rápido, chamam a atenção do público e causam maravilhamento em quem observa. Elas são experiências agradáveis, ainda que desimportantes. A harmonia de duas vozes com uma oitava de diferença é um exemplo na música: não é nenhuma novidade técnica, mas é muito prazeirosa para quem ouve.
Comecei a prestar atenção em truques fáceis quando estudamos na faculdade o escultor pop suéco Claes Oldenburg. Ele fez uma carreira do maior dos truques fáceis: escala. Qualquer coisa, não importa o quão banal, torna-se digna de contemplação e maravilhamento se feita em uma escala grande o suficiente. Oldenburg fazia tudo gigantesco. Grampos de roupa, comida, utensílios domésticos... tudo de mais mundano. Conceitualmente, é uma banalidade. Mas causa um impacto... er... enorme. Não é à toa que muitos pintores recorrem a tamanhos pouco práticos de tela: você pode até deixar ela em branco que já é um deleite de se ver.
Na pintura, outro truque fácil é volume. Luz de um lado, sombra de outro e seu desenho já ganha um ar de profissionalismo. Lembro de uma época na infância onde descobri volume no desenho. Desenhei o mesmo vaso incontáveis vezes, com a luz de um lado e a sombra do outro. Demorou um pouco pra experimentar o truque em outras formas.
Houve uma época em que eu teria associado truques fáceis à baixa qualidade ou falta de talento do artista. Como se apenas o difícil e complexo fosse relevante. Hoje acho que depende do contexto. Truques fáceis estão aí para serem usados. O que se faz com eles é o que define o bom artista, na minha opinião.


Estou quase terminando de pintar minha avó no quadro do Entre Quatro Paredes. Achei que fosse demorar mais. A pintura foi produzida em um crescendo de dificuldade, começando com a imagem mais fácil de Cacilda com seu rosto sem volume, passando pelo meu avô com as sombras duras no rosto e o casaco cheio de penumbras sinuosas, até deixar minha avó por último por causa do cabelo. Este lhe cai em longas madeixas detalhadas da cabeça que pende para trás, agarrada pelas mãos de violência leve do meu avô. Achei que fosse demorar uns três dias pra fazer todos os volumes daquele cabelo. Levei apenas um. Com o dobro de horas de trabalho normais, mas apenas um. Resta arrumar o rosto.
Cabelos são outro truque fácil. Um macete de pincelada fácil de aprender e que todo mundo acha lindo. O caso da minha avó foi bem mais elaborado, mas é em tese a mesma coisa. E talvez seja o efeito de ter passado cinco horas pintando aquilo, mas acho que está roubando a cena do resto.

Falta fazer o fundo, com várias das surpresas escondidas que estavam no quadro da Maria Della Costa e o detalhe dos sofás, sobre o qual acredito ter encontrado uma solução gostosa. Aguardem fotos em alguns dias.

sexta-feira, dezembro 25, 2009

Vovô

Terminei esta semana de pintar meu avô no quadro do Entre Quatro Paredes. Acho que, pelas festas de Dezembro, não terminarei este dentro do mês como queria. Mas tudo bem.
Em um dos jantares natalinos, uma das tias da Lexy se enganou e me chamou de Sérgio. Sei que o engano não tinha nada a ver, mas imaginei por um momento que ela talvez estivesse vendo semelhanças entre eu e meu avô e falando o nome dele como ato falho.
Já fui mais parecido com meu avô. Hoje, a barba e os óculos, os traços da família de meu pai e outras pequenas peculiaridades me distinguem da figura dele. Mas na infância, a semelhanca era tamanha que muita gente apontava. Tanto para os aspectos físicos como de personalidade. Cheguei a acreditar, na inocência da infância onde tudo é possível, que talvez eu pudesse ser uma reencarnação dele.
No quadro, os detalhes semelhantes estavão lá. O formato do rosto, o cabelo liso que eu tinha quando criança e uma animosidade nos olhos e sobrancelhas. Até mesmo a violência sem força. E algo na boca, que apesar de não ser exatamente igual à minha, me lembrava qualquer coisa. Trabalhar com essa imagem teve o gosto de trabalhar com a minha própria imagem. Ou a estranheza de estar na presença de um outro idêntico a mim.
Não é nada que me incomode. Pelo contrário. Me incomodaria talvez em pintar homens por causa do erotismo de traçar e obcecar com o rosto de uma pessoa, mas quando se trata de uma imagem assim, é como acariciar a si mesmo. Um deleite nascísico.

sábado, dezembro 19, 2009

Ansiedades

Nem tudo tem sido maravilhoso nesta recente vida de artista plástico.
Os dias têm sido inegavelmente mais prazeirosos e a qualidade de vida aumentou consideravelmente. A segunda metade de 2009 me trouxe experiências e memórias boas o suficiente para dar aquela impressão de que o ano esticou, durou mais do que estes 12 meses.
No entanto, carrego comigo um pacotão de culpa que tenho tentado ignorar mas fica a cada dia mais pesado. Pesam sobre mim os anos desperdiçados fazendo duas faculdade simultâneas enquanto eu poderia ter começado a estagiar. Pesam os cinco anos seguintes, dedicando-me à publicidade sem chegar a lugar nenhum. Pesa a ignorância de não ter me informado sobre processos seletivos de empresas de verdade enquanto eu ainda tinha a possibilidade de entrar em alguma delas e ter a tão respeitada carreira empresarial. Pesam as escolhas erradas que fiz depois que voltei de viagem em 2006. Acima de tudo, pesam as comparações. Perceber que todo mundo já tem seu rumo e um salário decente ou ao menos um mestrado (comentário de patricinha: "todas as minhas amigas estão casando e tendo filhos"), enquanto eu estou aqui, começando do zero de novo. Fazendo agora, aos 28, o que eu devia ter feito aos 23.
-"Não se desespere, você ainda é jovem e tá na idade de fazer essas coisas."
Claro, todo mundo diz isso para encorajar. Mas não me furto à noção de que, pelas minhas costas, a conversa é outra. Estão todos preocupados com meu desemprego, com esse meu estado de estar esperando por Londres, pelo mestrado, pela possibilidade de ter uma carreira de verdade. Se tudo correr de acordo com os planos, terei o mestrado e licenciatura, habilitando-me a dar aulas, quando eu fizer 30 anos de idade. É um longo tempo para poder finalmente ter uma carreira. Enquanto isso, eu espero.

["This is an Edgewalker Line train to Waiting Place"]

Quiçá tudo isso seja na verdade o que os psicólogos chamam de projeção: eu estou projetando nos outros a minha própria preocupação. Quiçá ninguém esteja dando a mínima para a minha situação. Não vem ao caso. De qualquer forma, esse meu atraso de vida é uma bagagem cada vez mais saliente no meu pacotão de culpa. É uma lufada de ansiedade que tenho conseguido manter longe de mim até agora, mas é cada vez mais difícil de ignorar. Me ataca nas noites de solidão, dentro do carro na volta pra casa, na inveja frente às notícias de que meu irmão está saíndo de casa antes de mim (e que meus pais o estão ajudando em vez de dificultar como fizeram comigo...). Tranquilizo-me na variedade de histórias de vida de artistas plásticos que só decolaram aos 30.


Soube recentemente que recebi minha primeira crítica. Daquelas que eu esperava receber quando decidi largar a estabilidade da agência: alguém a quem eu não devia dar importância insinuou que eu larguei a publicidade porque tive medo. Um medo infantil de quem não quer crescer. Na verdade foi um outro medo, de quem sabe muito bem onde se meteu: medo de passar mais cinco anos na mesma merda, ganhando o mesmo salário. Mal sabe ele que, exceto por estes meses de Dezembro e Janeiro quando vários dos meus alunos de inglês saem de férias, minhas contas mostram que tenho ganhado nos outros meses o mesmo ou às vezes até o dobro do que ganhava na agência. Mas entendo o ponto de vista dele: funcionários que se aposentam depois de trinta ou quarenta anos trabalhando para os outros pensam apenas na estabilidade cinzenta e insossa que lhes permitiu comprar seus apartamentos vendendo seus sonhos da juventude.
Se eu já esperava receber esta crítica e ela veio de alguém a quem eu devia ignorar, porque é que ela me atinge? Andei pensando nisso durante algum tempo. Hoje vejo que talvez seja porque ainda estou na dúvida. Incerto sobre se isso é de fato o melhor caminho a tomar. Pensando se talvez há alguma outra saída óbvia e rentável que eu não estou enxergando. Parte de mim sabe que não há outro rumo. Este é o meu rumo. Resta enfrentar. Mas outra parte tem medo de estar se metendo em outra besteira que me roubara mais anos da minha vida para nada.
A crítica me atinge porque tenho precisado cada vez mais que me digam que o que eu estou fazendo é correto. Que me façam acreditar. Até mesmo que me forcem a isto. Morro de medo de alguém algum dia dizer o contrário, que isso é errado, que é uma burrice. Morro de medo que alguém desaprove.
Ao mesmo tempo anseio por que alguém o diga. Uma pessoa séria na qual eu acredite, e que diga essa verdade para mim porque quer meu bem. Ao menos assim eu seria forçado a lidar com esse fato antes do passar dos anos, do estilhaçar dos sonhos e de mais frustrações.

E você? O que acha? Faço hoje a coisa certa?

quinta-feira, dezembro 17, 2009

Sobre sofás

Há duas semanas comecei a levar a sério a pintura do Entre Quatro Paredes com meus avos e Cacilda. De início não tinha muita idéia do que fazer com este. Então desenterrei da minha biblioteca o texto da peça, que consegui de minha avó na época em que a estava ensaiando com Lee na faculdade. Os insights vieram naturalmente, quase uma idéia nova por dia. Agora tenho a impressão de que talvez fique melhor e mais completo do que o quadro de Maria Della Costa.
O começo do quadro foi meio confuso. Enquanto desenhava a foto escolhida na tela, pensei muito nos trios da peça: três atores, três sofás de cores distintas, três paredes no cenário (a quarta sendo a platéia). Quase por instinto, comecei a pintar cada ator de uma cor diferente. Lembrava de uma técnica que uma professora tinha me ensinado, de pintar a imagem toda de uma cor e depois pintar por cima. O óleo é meio transparente, e daria uma tênue impressão da cor de baixo. Vovó apareceu e me contou que cada personagem tivera uma cor específica em sua montagem de 1950. Cores diferentes das que eu estava usando. Lá fui eu começar de novo...
Na semana passada, comecei a pintar Cacilda. E enquanto o fazia, as idéias finais do que fazer no quadro apareceram. O fundo da tela, a questão dos sofás na peça, as cores.
Em algum momento, li o texto de novo e achei a parte onde os personagens falam dos sofás. Estelle, a personagem de minha avó, faz manha porque está colocada em um sofá com uma cor que não combina com a sua. É um diálogo gostoso, porque de imediato deixa claras as atitudes de todos eles, o detalhe dos sofás e o nome de cada um, quando eles se apresentam.
Fiquei com uma vontade de colocar isso no site do quadro.

Ah, verdade... Acho que não contei por aqui. Estou pensando em fazer um pequeno hotsite para cada quadro. Uma experiência hipertextual como se faz hoje com bons filmes: você tem a experiência do filme e, se quiser obcecar um pouco mais com o assunto, explora o site, encontra mais informação e aumenta sua experiência sobre o que estava no filme. Já estou terminando o da Maria Della Costa.

Voltando ao assunto, fiquei com vontade não de colocar o texto, visto que ninguém teria paciência para ler, mas de fazer uma gravação. Três pessoas declamando o texto em determinada parte do site. Eu, obvia e narcisicamente, seria Garcin. E nada me tira até agora da cabeça que eu deveria pedir a Lee que fizesse Inês. Mas isso seria factível? Há tantas questões a considerar... Não nos falamos há talvez um ano ou mais. E será que ela aceitaria? Ou julgaria isso tudo como uma tolice e ignoraria o convite? De qualquer forma, seria a voz perfeita. Com as mesmas qualidades que a de Cacilda.

terça-feira, dezembro 15, 2009

Random literature

The flickering neon glow of the fluorescent lights gave no warmth to her skin. Neither actual warmth on her flesh, nor the pinkish hue on her face in the mirror. The lights in her bathroom bathed everything in a sickly artificial green. She supposed everything in her life had somehow acquired that ill quality, that lack of flavour. When did this happen? How long ago? What was the exact day - the hour, the minute - when everything just suddenly faded into this stale aspect?
For quite some time she had basked in the relative comfort of imagining herself going back to a time when life was simpler. Regressing into the former years when life didn't seem so demanding. And then further back, into the pleasant discoveries of her teenage years. When that wasn't enough, she began obssessing with childhood naiveté and the innocent games she played with cousins and neighbors. But just recently even those memories were paling away into their reality: they were substitutes of the real thing. It felt like she was dragging the smudge of greenish, greasy blight across her past, tainting and corrupting everything until it all seemed pointles, tasteless and ever so cold. She wanted to regress further, but found herself unable to consciously remember a time before that.

Still, she needed to go back further for more comfort.

That night, in her pale green bathroom, she peeled away all her clothes. Having regressed so far into childhood, she no longer felt aroused by her own nudity like she had been as a teenager. The discomfort of the cold tiles on the floor was eased when she slipped into the hot water of the bathtub. She held a razor blade between her fingers with all the gentleness of a mother. But what she did after she settled in the warmth of the tub was all but motherly.
Cecilia LisbonJust two mercifully brief moments of sharp pain when she opened her veins. With enough patience, she managed to bare the pain and witness as it progressed, like most cuts usually did, turning from hurt into warmth. She could imagine the flesh around those wounds turning a deeper shade of pink. Painting the water a deeper and more real shade of red. The color and warmth flowing all around her. She closed her eyes, and that evil light of the fluorescent bulbs filtered through her eyelids as a dim red flicker. In the constricted space of that tub, she managed as best she could to curl up and embrace her knees. There was little she could actualy do with her hands, given her open wrists, but she found a way to lean her knees against the hard sides of the tub.
She could then feel the warmth of her cuts slowly mutate into a gentle throbbing she could recognize as her own heart, like most cuts would do when left alone.

And there she stayed, surrounded by that warm red glow. Feeling rather than listening through the water, as the pulse of her life diminished. Regressing further back into a time with no conscious memories to taint. Recognizing a time of sheer experience and bliss. Flowing quieter and quieter, closer and closer, into oblivion.

sábado, dezembro 12, 2009

Bazar Art in Chepa

O ano está terminando muito bem. Acho que consegui uma das minhas promessas de ano novo que era dobrar o número de exposições. Na abertura da Escola São Paulo (o mais importante é sempre a abertura), encontrei Georgia Vilela. Colega do curso de arte, um ano depois do meu, sempre muito alegre. Estava vendendo bem na Escola São Paulo. Antes que eu fosse embora, ela me puxou de lado e me falou do bazar que estava organizando. Não era a primeira vez que ela me convidava, mas na anterior, eu ainda era um publicitário sem tempo.
Alguma troca de e-mails e eu já estava fazendo parte do bazar, junto ocm nomes relativamente conhecidos do mundinhos das artes, como Vivian Kass, Aline van Langendonck, meu professor Matangra e Flávia Junqueira. Mas o que expor? Mais Alices? Que tédio... E obviamente não podia colocar o quadro mais recente, porque não seria compatível com o preço de um bazar.
Foi aí que resolvi tirar da gaveta uma idéia antiga, porém divertida e fácil de fazer: a antiga Battle for Importance. Na verdade já estava cogitando retomar essa série como projeto paralelo do ateliê, dazendo um pouquinho por dia, sempre que batesse aquele marasmo de fim de expediente, onde estou esperando a pintura principal secar pra continuar.
Resolvi quatro pinturas pequenas em dois dias. E com um pouco de organização e amigos prestativos, já fotografei e coloquei no outro blog.

Então aproveitem! Telas recém-saídas do cavalete a preços de bazar. Vai ser a partir de hoje, às 19h00, até terça (com possibilidade de prorrogar se aparecer bastante gente).

Mais detalhes no flyer abaixo.

Art in Chepa


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sexta-feira, dezembro 04, 2009

100 a mil (Escola São Paulo)




Continuando a loucura de Dezembro, depois da exposição no Rio Verde, é a vez agora da 100 a mil na Escola São Paulo. A exposição acontece todo ano e reúne os trabalhos dos alunos e ex-alunos de destaque na Escola em uma feira de arte que tem o objetivo de vender a maior quantidade de obras por preços que variam entre R$100 e R$1.000.
Quem já foi na do ano passado vai notar que fizeram uma pequena modificação na exposição deste ano, começando pelo nome. O valor mínimo da exposição do ano passado era de R$10. Provavelmente nenhum artista teve coragem de fazer algo tão barato.

Estarei por lá vendendo quatro edições da Alice, feitas em chapa de acrílico dupla, figura em uma chapa, fundo na outra. São quatro imagens que contam a entrada de Alice na Blankness, seu encontro com o Tartaruga e a chegada ao Burgo. Há fotos delas no blog profissional.

A exposição começa hoje! A partir das 19h00 na Escola São Paulo (Avenida Augusta, 2239) e vai até 16 de Janeiro. Mas recomendo ir rápido, porque como toda a feira, quem chega primeiro leva as melhores coisas!


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domingo, novembro 29, 2009

Do outro lado do Rio Verde

Acordei hoje de manhã.
A garganta doia muito. No chão do quarto, roupas molhadas. Na área de serviço, seis dos meus quadros e os painéis que usei na Casa das Caldeiras com os textos sobre o Masculismo. Tive receio de tirar os quadros das embalagens. Receio de descobrir que talvez eu tivesse danificado mais algum deles. Desde o fim da faculdade, já perdi os retratos de Bia e Rafaela por problemas de estocagem e transporte. Mas a checagem tinha que ser feita e qualquer perigo de estrago evitado.

Há apenas um jeito de resumir a exposição de ontem: a produção falhou. E falhou pesado. Na quarta anterior, tínhamos nos reunido para ver o local e decidir quem ia expor o que aonde. Consegui ficar com um dos pontos mais legais da balada, uma tenda logo na saída do local onde as bandas estariam tocando. O único problema: iluminação. Me pareceu algo simples de arranjar para uma produtora que estava montando toda uma balada, então não dei muita atenção. Mas então chegou o dia, e a fantástica iluminação que arranjaram pra mim se resumiu a um conjunto de luzes de árvore de natal... Dois, na verdade. Cada um durou cerca de meia hora até queimar e apagar de vez. No escuro, descolei um holofote que sobrara e, com uma folha de papel sulfite, improvisei um abatjour que iluminava por igual todo o ambiente com uma luz difusa. Era o suficiente, embora não o melhor. E eu já estava descontente com minha suposta produtora pro ter sido eu que me virei pra montar isso. A coisa ficou ainda pior quando, depois de mais duas horas de evento, até o holofote queimou. Depois disso, joguei a toalha. Afinal, minhas reclamações já estavam sendo retrucadas por aquele "é mesmo, né?" de quem nem está prestando atenção no que você diz. Se nem os produtores do evento estavam se importando, não tinha muito que eu pudesse fazer.
A iluminação não foi a única falha de produção. Falou-se em imprimir etiquetas ou algo do gênero para os trabalhos expostos, mas eu acabei tendo que fazer isso em casa também, na correria entre a volta da montagem, um banho e o retorno ao local. Fora que em duas semanas tentando, eles não conseguiram achar uma câmera para a Lexy, que fotografaria o evento. Resolvi o assunto com uma mensagem de Twitter e um telefonema. Aliás, valeu Iraê!
Depois que a banda do meu irmão tocou, inventei qualquer desculpa e desmontei a exposição. Apenas com a ajuda da Lexy e com a chuva molhando as coisas a caminho do carro. Quanto mais eu ficasse por lá, mais estragaria os quadros. E não valia a pena o risco para continuar expondo no escuro para um público que estava mais interessado em fumar e ouvir dub do que em artes visuais.

Devo admitir alguns pontos positivos. Como produtores de eventos musicais, eles sabem realmente fazer uma balada. Iluminação das bandas feita por VJs que projetavam imagens ao vivo no palco, deliciosas experiências gastronômicas acontecendo na cozinha, um número decente de pessoas comparecendo apesar do mau tempo, tudo isso em um local muito bem escolhido. Mas não tenho como aproveitar quase nada disso quando eles dão tanto zelo e importância para os músicos e tratam os artistas plásticos como meros decoradores de ambiente.

Ainda assim, houve momentos em que eu quase me esqueci desses "detalhes". As pessoas se reunindo em torno do quadro novo e comentando a respeito sem saber que eu era o autor me deram impressões muito favoráveis do impacto que ele tem ao vivo. Os retratos (Lilly, Tinkerbell, Thaís, Lee e Lexy) dividiam opiniões como sempre, e cada pessoa tinha seu favorito por esta ou aquela razão. Tive feedbacks gostosos dos outros artistas como a Beatriz Chachamovitz, que plantou seus singelos "pólipos" entre a vegetação do lugar; e do Geraldo Yang, que trouxe aquarelas muito bem humoradas.
Geraldo fez-me perceber um detalhe inconsciente no quadro novo. Tendo vivido por um ano no sul dos Estados Unidos, ele percebeu que a casa na pintura tem arquitetura daquela região, devido às referências que procurei. Eu queria mesmo uma dessas casas, porque era a imagem na minha cabeça. Mas ele me fez ver que eu tinha escolhido uma arquitetura de uma sociedade extremamente machista, e colocado ao lado dela uma mulher muito maior do que aquilo. Na minha cabeça, a casa tinha conotações femininas, mas o fato é que ela é um símbolo masculino naquele contexto.
Os gostos doces da noite terminaram com visitas do Tex, amigo da Lexy que chegou até a perguntar preços dos quadros; e o Gonzo, vocalista e líder da banda do meu irmão e que sempre tem um carinho inigualável com outros artistas.

Foi uma noite de sabores e dissabores. Mas muita coisa foi aprendida sobre que exposições aceitar no futuro.

quarta-feira, novembro 25, 2009

Anúncio rápido!

Você sabe que eu sou artista plástico e que meu irmão é músico, mas nunca viu nosso trabalho? No sábado, dia 28, você vai ter a sua chance. Ele vai estar tocando com seu projeto Mais Massa (com músicos de Fortaleza) e eu vou estar expondo um pouco do velho e as coisas mais recentes do Masculismo. Ando até pensando em fazer disso uma verdadeira vernissage e passar verniz no último quadro ao vivo, no meio do evento.

Passa lá!

Vai ser no Centro Cultural Rio Verde:
Rua Belmiro Braga, 119 - Vila Madalena
Tel.: 11 3459-5321


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sexta-feira, novembro 20, 2009

Mudanças

Sejamos francos: este blog estava um porre.

Dia desses, um dolorosamente sincero amigo meu comentou sobre este fato. Começamos a conversar sobre porque isso tinha acontecido. Afinal, esta página já foi muito apreciada pela qualidade da literatura. O que aconteceu?
Quando comecei a escrever, minha proposta era de escrever como se o fizesse para mim mesmo. O que é diferente de fazê-lo de fato, pois se estivesse verdadeiramente escrevendo para mim mesmo, não publicaria meus textos na internet (uma lição que muita gente desconhece e por isso reclama da suposta "falta de privacidade online"). Mas eu queria escrever com a poesia e a autenticidade de quem escreve para si mesmo. O gosto da literatura de diário adolescente.
Acredito que, por pelo menos um ou dois anos, eu fiz exatamente isso. Mas então entrei no processo que todo escritor de blog entra, de descobrir as consequências de ter uma opinião tornada pública. Esse tipo de literatura leva muito de opinião pessoal e pieguices passionais. E essas coisas às vezes machucam quem ficou de fora dos elogios. Ouvi muita reclamação, troquei muitas farpas virtuais... Tive até ex-namorada que veio escarafunchar críticas minhas anos depois que eu as havia escrito. Eu poderia lidar com tudo isso de duas formas: bater de frente e esperar calejar, descartando da vida (e do blog) as pessoas que não conseguissem aguentar opiniões pessoais; ou pisar em ovos, ser diplomático e criterioso com o que eu escrevia por aqui. Não tive força pra escolher a primeira estratégia, então optei pela segunda.
Nos anos que se seguiram, o blog passou a ser uma tediosa procissão de resenhas culturais. Filmes, exposições, ensaios sobre teoria artística e outras chatices acadêmicas... Pessoalmente, eu estava satisfeito. Ainda escrevia "para mim", sobre coisas que muito me interessavam. Mas condenei os leitores a desbravarem uma terra estéril e asséptica, cheia de termos e assuntos que não lhes interessavam. O blog passou a ter um caráter informativo e didático, apoético. A pouca poesia que aqui havia se resumia nas imagens de trabalhos e pequenas coisas que eu colocava. E no entanto, nem mesmo essa função de informar sobre o mundo da arte ele estava cumprindo direito. Fui a muitas exposições e eventos que não tive paciência para relatar aqui. E mesmo que o fizesse, ninguém estava interessado em ler. Minha turma de artes plásticas, que seria a mais interessada, é meio alheia ao mundo dos blogs. E quem conhece e participa desse mundo não é tão interessado assim por arte profissional.

Quando percebi, estava sozinho.

Tinha perdido os poucos leitores que vinham até aqui pela poesia e não soube ganhar novos que aproveitassem a informação. Recentemente, além da solidão, comecei a perceber o lento definhar do pouco que restara neste blog. A preguiça e falta de tempo para relatar as coisas, o desinteresse. Meses inteiros quase sem conteúdo. Praticamente a única coisa que ainda mantem esse blog vivo é sua idade, porque morro de pena de dar um fim a algo que já vem acontecendo há tantos anos e secretamente tenho esse orgulho de ser o último blog vivo da época em que todos nós escrevíamos. Algo como minha avó e o TBC.

Mas estou em uma época fértil de mudanças em que estou reorganizando muitas coisas, prioridades e detalhes da vida. E por que não incluir o blog nesse processo? De fato, eu tinha pensado (como sempre penso e raramente faço) em inaugurar um novo layout no meu aniversário. Aproveitaria assim para inaugurar uma nova fase nos textos. Voltar a ter poesia nas coisas. E que ela atraisse os leitores, antigos e novos.

Pois bem, ei-lo, o novo layout. Passa a fazer parte da identidade visual que estou usando profissionalmente, com meu leão e tudo. Por enquanto, ainda está em fases iniciais. Ainda não descobri como colocar vários dos efeitos e serviços que eu queria, mas isso vai sendo feito aos poucos. Opiniões de todos (tenho dúvidas sobre as cores...) serão muito bem vindas. O que importa por enquanto é sinalizar a mudança. E coroar assim o despertar de consciência que começou há exatamente um ano.

[Ah, sim... e eu tirei a musiquinha pentelha]

terça-feira, novembro 17, 2009

Maria Della Costa

Terminei na semana passada a parte de pintura do primeiro quadro que estou fazendo sobre as atrizes do TBC. Acho que finalmente consigo fazer um quadro em um mês. Foi uma coisaa complicada, porque fui experimentar uma técnica de transferência de imagens impressas para a tela que o Rauschemberg usava. Muito frustrante quando essas coisas não dão certo. Mas eu sou teimoso e acabei gastando uma semana nisso até que desse certo.

Apesar de ter motivos pessoais para começar a série com uma cena do Entre Quatro Paredes (encenado por minha avó, meu avô e Cacilda Becker), por ter ensaiado a peça com a Lee há muitos anos, cedi ao apelo visual da belíssima Maria Della Costa. Na peça Ralé, de Maxim Gorki, dirigida por Flamínio Bollini Cerri, ela encarna a bela e perigosa esposa de um dono de cortiço, que trama a morte do marido e agride a própria irmã ao perceber que seu amante passa a interessar-se por esta. Trajando um longo vestido, ela aparece em uma das fotos em uma pose que lembra as musas do cine noir.

Há algumas semanas, soube por minha avó que Maria Della Costa estaria dando autógrafos no lançamento de sua biografia. Aproveitei a chance para conhecê-la de perto. Simpaticíssima, não se negou a tirar uma foto comigo depois de saber de quem eu era neto.

Eu e Maria Della Costa na Livraria Cultura, durante o lançamento de sua biografia.

quarta-feira, novembro 11, 2009

Red Bull House of Art

Como diria meu professor de física do colégio: "tive três orgasmos com essa notícia..."

A Trip publicou em seu site uma notícia sobre este projeto da Red Bull, a cargo dos curadores Lucas Bambozzi e Maria Monteiro, que colocará a partir de hoje dez artistas de diferentes nacionalidades para habitar um hotel do centro de São Paulo por 30 dias. Durante este tempo, os artistas devem produzir trabalhos relacionados ao espaço, ao centro urbano, à cidade. O rol de "vítimas" desta primeira edição conta com gente do Brasil, África do Sul, Japão, Alemanha, Argentina, Portugal e dos Estados Unido. São pessoas dos mais variados tipo, idades e mídias, sem nada um comum, o que estimula a riqueza do diálogo e a diversidade, bem ao estilo Red Bull. Entre os brasileiros, está em destaque a queridíssima Regina Parra, do desmantelado grupo 2000e8 [1] [2].
Interessante, o site da Trip aponta, é que os artistas vão para o espaço sem um projeto definido, tendo que criar do zero a partir do espaço. Como incentivo, os organizadores ainda levarão seus acólitos a diversas exposições relevantes em São Paulo, como a da Pippilotti Rist no MIS e da própria Regina na Galeria Leme, além de galerias fora do circuito tradicional, como a Choque Cultural e a Casa da Xiclet (!).

Fiquei imaginando o que eu colocaria por lá. Provavelmente etntaria fazer uma idéia antiga, do tempo da faculdade, quando eu ainda estava pintando a Virgem e o Menino e obcecado com temas recorrentes da pintura antiga. Era uma idéia de fazer a Venus, como uma pintura gigantesca na lateral de um prédio do centro. As pinturas da Venus antiga expressavam o ideal de belza feminina da época, e a minha seria uma modelo de revista, daquelas que anunciam "15 maneiras simples de perder uns quilinhos para o verão" ou qualquer outra futilidade estética. Só que apesar da linguagem publicitária, ela não estaria vendendo nada. Apenas estaria lá, do tamanho de uma deusa inatingível e maior do que qualquer homem.
Claro que a atual lei contra outdoors seria um empecilho... Mas será que há excessões para obras de arte? Algo a pesquisar...

quinta-feira, novembro 05, 2009

Homens que dizem não

A propóstio, ao ler meu último post, Nana me passou um link para uma matéria que fala justamente do assunto de sexo como mecanismo de controle masculino. Achei relevante.

quarta-feira, novembro 04, 2009

Atualizando

Quase um mês sem atualizar isso aqui... E eu que queria transformá-lo em um blog sério, estou indo por um péssimo caminho.

Sem títuloNo começo de Outubro, terminei o primeiro quadro da nova série. Apelidado de "A Casa na Colina", mas oficialmente sem título, foi a tentativa de transformar uma tela que eu não conseguia continuar mas não queria jogar fora em algo útil. O resultado me satisfez, embora eu já tenha me dado conta de como poderia ter feito uma pintura ainda melhor. No fim das contas, ficou um quadro gostoso. E eu ainda fiz um vídeo da evolução dele.
O resto do mês de Outubro foi algo de um desperdício benéfico. Pois embora eu não tenha cumprido a promessa de uma obra por mês, tive muitos trabalhos como freelancer e ganhei uma considerável quantidade de dinheiro. Ah, se todos os meses fossem tão produtivos nesse aspecto...
De fato, eu tinha planos para a próxima obra em Outubro, um objeto em vez de uma pintura. Mas não tive coragem. Sabe, esta primeira pintura que fiz lidava com um dos três aspectos que hoje eu identifico da questão masculista: o sentimento de inferioridade do homem atual em relação à mulher atual. Os outros dois aspectos são a ausência da figura do pai/mestre e o uso do sexo como mecanismo de controle do homem. Meu objeto de Outubro tinha a ver com este último. Mas então lembrei de outros trabalhos que fiz que lidavam com sexualidade tão abertamente, e de como no fim acabavam sendo obras vazias, desnecessariamente chocantes e muito frustrantes. Trastes que hoje perambulam o ateliê embalados e cobertos para sempre porque meu pudor não me permite mostrar. Não acho que seja o caso desta obra, mas estou sendo prudente. Ainda estou me acostumando com a idéia. Se eu achar que passou tempo suficiente e ainda não me envergonhei dela, voltarei a entreter a idéia de produzir a peça.
Agora em Novembro, a brincadeira vai tomar outros rumos. A idéia seria produzir algo baseado no terceiro aspecto, a ausência do mestre/pai. Mas em conversas produtivas com o Marco Guerra, um professor de história da arte amigo de minha avó, surgiu outra idéia interessante que talvez renda as minhas primeiras exposições realmente relevantes. Ele interessou-se pelos meus retratos da época da faculdade e sugeriu que eu fizesse retratos dos meus avos, importantes figuras do teatro nacional e principalmente do surgimento do TBC (Teatro Brasileiro de Comédia). A sugestão não poderia vir em melhor hora. Lexy está pesquisando o TBC para seu trabalho de graduação e estamos descobrindo farto material a respeito daquela época.
Assim que resolvi tomar a idéia do professor Guerra e jogar do meu jeito. Peguei os últimos dias de Outubro que me restavam para fazer pesquisa com minha avó, procurando peças relevantes, atrizes fortes e diretores que fizeram história naquela época. E ontem comecei a produção das primeiras duas pinturas dessa série. Todas explorando atrizes do TBC em peças que lhes proporcionaram personagens femininas fortes como as mulheres pós-Feminismo. As imagens de referência são do fotógrafo Fredi Kleeman, que acompanhou o surgimento do TBC, fotografando os primeiros ensaios e as apresentações históricas.
O professor diz que, se eu conseguir produzir essas obras até o começo do ano que vem, poderia me arranjar uma exposição em uma galeria na Augusta. A idéia muito me interessa. Mas ainda que isso não aconteça, seria a forma perfeita de abordar o pessoal do teatro do meu avô e organizar uma exposição por lá. Tenho certeza que isso chamaria alguma atenção. Pelo assunto, pela relação dos avós e do neto, e quem sabe até pela qualidade das obras.

domingo, outubro 11, 2009

Educação Artística

Soube recentemente que o Ministério da Educação andou promovendo reformas no ensino de arte nas escolas. Dentre outras coisas, tornou obrigatório a partir do ano que vem o ensino de música nas escolas de Ensino Fundamental. Achei até que a medida foi tardia. Em outros países onde estive, a música é parte obrigatória do programa de qualquer escola. Aprendi a tocar aquela odiosa flauta doce quando criança por causa disso. Embora tenha esquecido quase tudo do instrumento assim que saí daquele colégio em outro país, as noções de canto me acompanham pela vida toda e facilitaram o episódio da banda de rock que tive em 2007. Mas não é apenas isso, me deram uma noção de música, de composição e de compositores.
De volta à terra natal, tive aulas de educação artística no restante do Ensino Fundamental. Eram aulas de qualidade questionável. Embora ensinassem o desenho de perspectiva, coisa que eu veria novamente no curso de desenho que fiz na adolescência e uma terceira vez quando entrei para a faculdade de arte, o resto de seu conteúdo era praticamente irrelevante. Por exemplo, passamos um semestre vendo o Futurismo, um movimento das vanguardas do século XX que não chega a ser mais do que uma nota de rodapé nos livros de história da arte sobre a época e pouco nos ensinou das importantes mudanças de pensamento que ocorreram nas primeiras décadas do século. Não é de se espantar que o colégio onde estudei fosse notório pela quantidade de alunos que saíam de lá para entrar em faculdades de engenharia e que as estatísticas apontasse pouquíssimos alunos interessados pelos cursos superiores de artes plásticas.
Mas o ensino deficitário de arte na adolescência tem outras consequências visíveis na população do país. Estive conversando com Marília "Bombom" Jardim, uma performance artist conhecida da Lexy que acabou virando boa amiga e colaboradora em projetos de arte. Discutímos recentemente sobre a situação dos colecionadores de arte na cidade e do que de fato chega ao mercado. Obras que na maioria das vezes têm um apelo pop ou decorativo, produzidas por artistas que não estão realmente interessados em fazer qualquer ligação com a história da arte, compradas por gente endinheirada que nada entende do que está comprando e escolhe de acordo com a reputação do artista ou o quanto a obra vai combinar com a sala de estar. Poucos são os colecionadores que de fato entendem de arte: uma elite cultural. Poucos também são os artistas, depois desse tempo todo em que o MEC menosprezou o ensino de arte nas escolas. Bombom parece ser uma pessoa com boa formação artística em colégio construtivista, que sabe o que está fazendo e como aquilo se enquadra na história. De minha parte, tenho que me admitir fruto do colégio onde estudei, e confessar que talvez ainda esteja pensando na minha produção como algo isolado da história, como o fazem todos os outros pintores da minha geração. Afinal, nossas técnicas são centenárias e voltam aos resultados vistos antes dessas décadas de abstração e negação da pintura de cavalete. Na verdade, sequer consideramos muito do que se passou na arte das últimas décadas quando escolhemos o bom e velho óleo sobre tela. Sei que no futuro chamarão este momento de uma espécie de "retorno à ordem e à técnica". Concordo, mas não deixa de ser justamente um retorno, uma espécie de retrocesso.

Voltado à questão dos Ensino Fundamental, passei no meu antigo colégio esta semana. Conversei com professores e com o diretor para ter uma noção do que é preciso para tornar-me um professor de artes do colégio. E fiquei sinceramente maravilhado com o modo como as determinações do MEC mudaram o ensino de arte por lá. O curso agora é bem prático, ensinando desenho, depois pintura, e então fotografia e vídeo nos últimos anos. Os alunos fazem. Não apenas isso, encontrei nos trabalhos que vi, referências a artistas desde Da Vinci até Andy Warhol, e técnicas tão alternativas para crianças quanto a xilogravura, que só fui conhecer no segundo ano da faculdade.
Régis, o coordenador do curso, me conta que alguns vetibulares já estão perguntando até sobre os metaesquemas do Hélio Oiticica, como aconteceu na última prova do recém-criado curso de direito da FGV. Claro: crie essa necessidade no vestibular e todos os colégios passarão a ensinar a matéria.
O assunto todo me deixou interessado: com essa nova determinação do MEC, a demanda por professores de arte vai crescer. É aí que eu entro: já estou pesquisando como e onde fazer a licenciatura...