Bits and pieces of my life that everyone ignores when I speak, but someone reads when I write.
terça-feira, maio 25, 2010
Da briga das rainhas
No entanto, tirando esse grave deslize, o filme funciona muito bem pra mim. Achei os personagens relativamente bem construídos, o visual muito bem elaborado e o roteiro interessante.
Fui vê-lo na sala 3D com sistema IMAX e tenho que admitir que foi o primeiro filme que vi onde o 3D de fato funciona. Mas também é preciso ressaltar que o sistema IMAX perde um pouco a noção do que é o limite inferior da tela e as legendas acabam aparecendo sobre o rosto de quem está falando.
Quanto ao roteiro, muita gente não entende muita coisa e acha que Burton inventou algo completamente diferente da história original. Na verdade, ele se baseia em um poema mencionado casualmente na segunda aventura de Alice (Através do Espelho e o que Alice encontrou lá), sobre o tal monstro Jabberwocky, o Frabjuous Day, o violento Bandersnatch e até o Jubjub bird que rouba os gêmeos Tweedledee e Dweedledum (Ótimos na interpretação do ator Matt Lucas). Aliás, o próprio Chapeleiro interpretado por Johnny Depp recita o início do poema em um tom soturno, enquanto caminha pelos escombros do País das Maravilhas com uma diminuta Alice em seu chapéu. O mesmo poema que o Gato cantarola no desenho original de Walt Disney. Nos livros, não passa de uma menção inócua, uma ponta solta no roteiro de Carroll. Mas Burton faz do poema o mote para esta nova aventura, como se tentasse resolver algo que ficou no ar no original.
O que realmente me deixou interessado foi a batalha final. Li críticas que a desmereceram, dizendo que as poduções estão agora teimando em terminar com batalhas épicas depois do sucesso do Senhor dos Anéis. Mas essa batalha é mais do que isso. Claro, é preciso estar um pouco por dentro da história britânica para perceber, e eu mesmo não teria percebido se não tivesse pintado a Cleyde Yáconis fazendo a rainha Elizabeth em Mary Stuart há alguns meses atrás.
Elizabeth, rainha da Inglaterra, era prima de Mary Stuart, rainha da Escócia. Elizabeth descobriu os planos de Mary Stuart para roubar-lhe o trono, prendeu a prima por décadas e acabou por julgá-la e sentenciá-la a ser decaptada ("Cortem-lhe a cabeça!"). Todos sabem aliás que Elizabeth, uma ruiva, usava muito vermelho e tinha uma cabeça enorme.
A batalha final do filme é uma amálgama disso e muito mais. De um lado, a rainha cabeçuda é ao mesmo tempo Elizabeth, a rainha de copas do primeiro livro de Carroll, baseado em jogos de cartas (daí os soldados em forma de carta e o valete Stayne que sempre a acompanha), e a rainha vermelha do segundo livro, basado em jogos de xadrez. Do outro lado, sua irmã, a rainha branca do segundo livro, que é ao mesmo tempo Mary Stuart. Esta segunda é um pouco mais difícil de reconhecer, e eu mesmo só fui perceber o fato quando seu exército de peças de xadrez se aprontou, tendo à frente o Chapaleiro trajando kilt com uma claymore (enorme espada escocesa), ao lado da Lebre com seu inconfundível sotaque escocês.
Burton no entanto inverte o resultado da história, dando a vitória para Mary Stuart. Ainda não entendi completamente o motivo. Se ele está apenas seguindo o paradigma da Disney, diante do qual a rainha vermelha de copas é a vilã e deve perder; se ele tem alguma predileção pela Escócia ou ódio pela Inglaterra; ou mesmo se o próprio Carroll em algum momento fez essa crítica política em suas histórias (que adoravam criticar a realeza).
segunda-feira, maio 17, 2010
Dream
However, I did dream something lately that I thought was worth mentioning.
As usual, I cannot remember much of the dream except for the last few minutes of it. I was walking through a city landscape with a young child in hand. We were both looking for something. Although I'm not aware of what it was, I know it was something that fell into a river and was flowing downstream. As a consequence, we were visiting all the sites with rivers in the city, being exposed to much of the putrid water and misery that usually resides in the riverbanks. At some point, we came to a place were the river ran in a very thin stream along a concrete canal. There's a detail though: we walked past the second half of a nuclear submarine that seemed to have run ashore in that canal. In the dream, it seemed to me like something perfectly possible. Tragic, but possible nonetheless, like one of those big oil tankers we might find in beaches, corroded by time and rust. But now that I think about it with my waking mind, I see the incoherence of a nucleear submarine sailing up a shallow stream like that. A little after the tragic sub, we found a place where the stream broadened, and chunks of metal floated still on it. On one of these, we talked to denizens of the riverside, creatures who were half men and half dolls, like living toy art. Half of their faces were stricken with famine and disease. The other half gleamed like plastic with nonchallant geometric shapes. There was the oddness of the occasional plastic duck foot where a human foot should be, but other than that, they seemed to stand tall and somewhat healthy for miserable people. The child went ahead to ask them about whatever it was we were looking for. They said they hadn't seen it, but it should have floated further down the river by then.
My dream ended with the child and I hopping off the piece of metal, as it hit the curb on the side of the river. I say "curb", because by then the river was turning into something similar to a paved street, with the fetid polluted water resembling asphalt in its blackness and thickness. The child told me we should head back.
"The only thing we'll find further down the river is your deeper instinct", he said. As if perhaps that was something we should avoid.
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After I woke up, I struggled not to forget that last scenario of the dream. I knew there was something to that submarine. Later on, while I took my morning bath, I found out what it was. Aside from the strangeness of it being where it was, there was another erotic metaphor to be understood. The phallic shape of the submarine, entering what could only be described as a canal, forcing itself up the canal, where it shouldn't be. I also felt perhaps there was another meaning to be understood in the dream, regarding the fact that I was a grown up, being lead by a child who had more maturity and understanding about what was going on than I did. It related to that idea in Masculist literature about the abscence of the mentor/father figure. But I'm still not sure how to put this in words.
The dream also expresses this veiled fear of mine, that the path of instincts ("your deeper instincts") only leads to (or perhaps leads past) much misery and decadence. And that is why I usually prefer the path of discipline and reason.
There are other hidden meanings in the dream. But those, I believe are best kept to myself. After years of blogging, I've come to learn that there is such a things as being too personal to tell...
quinta-feira, abril 22, 2010
O sistema antigo de emprego empresarial está aceitando cada vez menos homens. Vejo isso em diversos ramos que antes só tinham engravatados e hoje ressoam com o bater dos saltos femininos. Grande parte disso se deve, como afirmam muitos artigos de jornal, à maior capacidade de sociabilização das mulheres. As estratégias de venda masculinas, agressivas, que maximizam os lucros, estão dando lugar a estratégias femininas mais focadas em ser a melhor amiga da cliente. É uma grande diferença, e a maioria dos homens não consegue fazer igual. Para nós, os negócios são uma guerra. E homem que tenta ser amiguinho do inimigo é visto como pilantra.
Voltado ao artigo da TPM, o que me interessou a respeito foi que, apesar dele ser um retrato real dessa mudança de ares no mundo empresarial/doméstico, ele ainda conseguia pintar os homens com um pouco de dignidade. Porque ainda existe esse estigma forte de considerar os homens nessa situação como frouxos. Me faz lembrar o texto que escrevi por aqui há algum tempo sobre os Simpsons e o Masculismo. Como o Homer e todos os outros homens da série eram un inúteis frouxos e as mulheres eram formidáveis.
Hoje anunciaram na TV o filme da Erin Brockovich. Outro exemplo onde ela está lá conquistando o mundo e o homem do filme é um motoqueiro cheio de boas intenções mas completamente imaturo e frouxo.
Quanto mais penso a respeito, mais vejo exemplos disso por aí. Queria escrever sobre eles aqui, porque os exemplos chegam a ser caricatos, mas tenho medo de mencionar até os mais óbvios, por não querer parecer pejorativo com os homens das situações. Há até alguns nesse jogo que estão se saíndo admiravelmente bem longe das empresas. Outros permanecem um retrato fiel do homem frouxo que todos nós estamos querendo evitar ser.
A propósito, estou escrevendo um novo projeto para pedido de bolsa na faculdade de Londres. Nele, menciono um dos primeiros livros a serem escritos sobre os assuntos masculistas. Warren Farrell escreveu The Liberated Man enquanto ainda era mais um feminista do que um pensador masculista. No livro, ele fala da dinâmica familiar em famílias onde a mãe trabalha e o pai cuida dos filhos. Detalhe: ele publicou o livro em 1974.
quinta-feira, abril 15, 2010
Chá e Simpatia
Em um ponto da entrevista, ele perguntou a ela qual fora a peça mais especial que ela tinha feito. Ela pensou por alguns segundos e respondeu: "Chá e Simpatia". Lembro de ter ouvido falar da importância da peça na época, que questionava o preconceito contra a homossexualidade masculina em uma sociedade muito conservadora. E repentinamente me deu vontade de fazer mais um quadro para a série do TBC sobre essa peça. Seria uma homenagem direta à minha avó, que até então só apareceu no quadro do Entre Quatro Paredes e mesmo nele, apenas como uma de três atores homenageados no quadro (os outros sendo meu avô Sérgio e Cacilda Becker). O interesse pelo quadro aumentou quando ela comentou no programa que meu avô dirigiu a peça. Descobri com alguma pesquisa que a peça fora montada três vezes e ele de fato tinha dirigido duas delas, a terceira sendo dirigida por minha avó, baseada na direção dele.
Mas foi quando comecei a ler o roteiro da peça (olha que chique: o original, que minha avó usara para decorar as falas de sua personagem), que percebi as outras semelhanças deliciosas entre realidade e ficção.
Na realidade, eu ocupo um quarto nos fundos da casa de minha avó, subindo um lance de escadas, onde faço meu ateliê. Eu: um jovem aspirante a pintor envolto em questionamentos sobre masculinidade, frutos dos anos de abuso na escola por parte de valentões que viam na minha escolha pelas artes um claro indício de homossexualidade. Ela: uma histórica atriz de teatro que transita entre as reminiscências de sua época vanguardista e os modos e pose europeus que ela exerce no dia a dia, frutos de sua infância na Itália.
Na ficção, Tom ocupa um quarto no segundo andar da casa de Laura, subindo um lance de escadas. Ele: um jovem aspirante a músico envolto em questionamentos sobre sexualidade, frutos dos recentes abusos no colégio por parte de valentões que vêem em sua escolha por atividades mais amenas e sensíveis um claro indício de homossexualidade. Ela: uma ex-atriz de teatro que transita entre as reminiscências de sua época nos palcos e os modos e pose de dona de casa americana que ela exerce no dia a dia, frutos de seu casamento com o professor do colégio interno.
terça-feira, abril 13, 2010
Como o masculismo pode se relacionar com a homosexualidade masculina?
Tinha escrito uma resposta ótima para essa pergunta muito inspirada, mas o sistema do formspring aparentemente comeu... Vamos lá de novo.
Pessoalmente acho que há dois âmbitos dessa questão.
Em primeiro lugar, acho complicada a militância masculista do homem homossexual. Isso porque a meu ver, o Masculismo lida tanto com a relação de negação, como a de desejo do homem pelo sexo feminino. Ou seja, são considerações a respeito do relacionamento do homem consigo mesmo ("O que é ser um homem?"), como também do homem com a mulher pós-Feminismo ("Como A relação homem/mulher muda após o Feminismo?"). E pelo que eu entendo, a militância homossexual masculista lidaria apenas com um desses aspectos, por não ter interesse pelo outro. Enfim, posso estar enganado a esse respeito...
Em segundo lugar, acho ao mesmo tempo que o homem masculista teria ainda muito a aprender justamente com os homossexuais, sobre não ter medo de perceber-se diminuído ("menos macho") por admitir e usufruir de sua feminilidade e os benefícios que ela poderia trazer. O homem homossexual se cuida, sabe ser belo, correto e ter bom gosto, sem medo dessas coisas serem "viadagem". Muitos homens poderiam aprender com isso em vez de ficar batendo a cabeça na parede com inutilidades truculentas para provar a macheza.
Bom, acho que é por aí.
segunda-feira, abril 12, 2010
Marcelo Rubens Paiva no Estado de sábado
Tirando o bom Feliz Ano Velho, o escritor Marcelo Rubens Paiva nunca me chamou muito a atenção. Mas dia desses minha mãe apareceu com o Estado de sábado, dizendo que tinha um texto do Paiva nele que tinha a ver com os meus assuntos. Gostei tanto dos primeiros parágrafos do texto, que os publico aqui, porque de fato acho que tem a ver. Ele faz uma passada geral na história do surgimento do Feminismo e das questões masculinas que se seguiram.
Em busca do homem perdido
Na 2ª Guerra, os mocinhos foram para o front de batalha. No esforço de guerra, as mocinhas que queriam casar, ter filhos e esperar os maridos com a mesa pronta, de banho tomado e laquê nos cabelos, fora para as fábricas.
Acabou a guerra, o ideal do mundo livre venceu, os moços voltaram. Mas elas gostaram das carteiras assinadas, planos de saúde e aposentadoria, mundo livre e cabelos soltos.
A revolução sexual ganhou parceiros: máquina de lavar e secar, enceradeira, micro-ondas, comida gelada, creches e o universo do descarável.
Com a pílula, o controle da natalidade possibilitou, enfim, que as mulheres passassem a gerenciar carreiras e herdeiros. E assim ela se emancipou, queimou sutiãs e anáguas, conquistou espaço e exigiu um outro tipo de homem. Qual?
Em busca dele, muitos mocinhos perdem noites de sono, leem livros de autoajuda, fazem cursos de culinária e pedem conselhor aos amigos gays, de quem elas gostam tanto e afirmam "ah, se não fosse gay..."
O casal Sartre e Simone de Beauvoir radicalizou. Foi o primeiro a propor publicamente um relacionamento aberto. Ele papava quem queria, inclusive as alunas dela. E ela tinha amantes espalhados.
[...]
O casamento aberto seria a saída para os novos tempos? "Entre a fidelidade e a liberdade, haverá uma conciliação possível? A que preço?", filosofou Simone.
Recentemente, imaginaram que o homem moderno seria aquele ser que faz a unha, cabelo e sobrancelha, veste-se caprichosamente, usa roupas, malas e carteiras de grife, cuida da pele, tem uma barriga em que se pode lavar a roupa de baixo e é sensível, o tal metrossexual.
Fez sucesso no espelho, mas não entre a mulherada, que continua preferindo homem com pegada, nem tanto personagem de comerical de cerveja, nem tanto sujeitos que gastam mais tempo para se arrumar do que elas.
Curioso é quem, antes do texto, eu realmente não tinha pensado na emancipação feminina como produto da Segunda Guerra. Imaginei-a sim fruto de uma vontade das mulheres em se engajarem na política, mas nunca tinha percebido a ligação.
O resto do texto demora-se debatendo a reação que outro texto do mesmo autor teve no programa Saia Justa e a defesa do romantismo. Mas achei que esse começo merecia figurar por aqui.
segunda-feira, março 29, 2010
TV Macho
Um dos quadros de que eu mais lembro era o da "TV Macho", apresentado pelo Karan. Ele fazia o papel de Zeca Bordoada, um "macho de verdade", daqueles que usava Ray-Ban de pervertido sexual, mastigava palito de dente e falava alto. A truculência do personagem vem completa até com manchas enormes de suor debaixo dos braços. Ele sentava numa mesinha de boteco amontoada de garrafas de cerveja, como se não desse a mínima para o cenário de seu programa ("porque macho que é macho não presta atenção nessas boiolagens", ele diria).
Ainda dei boas risadas com o programa que achei no YouTube. A comédia parece intensificada hoje com as músicas bregas dos anos 80. Mas o que me pareceu interessante hoje sobre o programa foi perceber que já naquela época havia alguém tirando sarro do machismo exacerbado, das bravatas e duelos de masculinidade. O estereótipo encarnado pelo Karan hoje já virou kitsch: o homem que precisa reforçar pra si mesmo que é macho, por ter pavor de descobrir-se feminino nas pequenas atitudes.
sexta-feira, março 26, 2010
Sobre gestações e ovos
Ontem, no circo, um dos instrutores contava sua experiência quando seu filho (atualmente com dois anos e meio) nasceu. Dizia que, durante nove meses, o foco de sua atenção fora aquela barriga crescente. A mulher era quase um personagem a parte, como se ele se relacionasse com a mulher e com a barriga como dois entes separados. Acho que talvez seja uma coisa tipicamente masculina. Mulheres, em toda a arte e literatura que vi a respeito, sempre lidam com aquilo como se fosse parte delas e somente delas. Dentro delas. Como se o homem sequer estivesse envolvido no processo a não ser como um pagador de contas. Há nos relatos delas o conceito claro da gestação. Os homens lidam com aquilo de forma diferente porque não está no corpo deles. É quase como o relacionamento com um ovo, o chocar de um ovo. O homem vai ao trabalho, depois volta para casa para cuidar, aquecer e proteger aquele ovo. E o faz através da mulher, como se ela fosse a interface dele com o ovo. Eu sei que isso é degradante para a mulher, mas não me importa. Acho que faz mesmo parte das diferentes formas como homens e mulheres encaram a geração de um filho.
Daí então o filho do meu treinador nasceu. Nas palavras dele, "é um divisor de águas: você acha que sabe, mas na verdade não entende de verdade o que é o amor até aquele momento". A frase me tocou bastante. Tenho expectativas sobre a paternidade que não poderiam ser expressas de forma mais contundente do que isso. Imagino meus sentimentos, a necessidade que eu teria pelo toque físico do meu filho. Uma necessidade que tem a intensidade do desejo sexual, mas que não tem em si nada de sexual. A necessidade de beijar-lhe o rosto, sentir sua pele, avaliar seu peso, perceber os movimentos de algo que é parte de mim mas não sou eu. Eu sei que o cansaço e as frustrações de cuidar de uma criança roubam um pouco da mágica disso com o tempo, mas ainda tenho essa ilusão feliz de que cada dia com um filho seja repleto de novidades e maravilhamentos.
quarta-feira, março 24, 2010
Random Literature
Culminou às dez da noite de uma quinta-feira em Março. Eu estava no carro, enfrentando a morosidade do trânsito da avenida Brasil. Lembro que passava pela minha cabeça a comparação feita por alguém de que a cidade era um organismo vivo. Quando me disseram isso pela primeira vez, eu tinha imaginado as ruas como veias, os carros como sangue a fluir. Naquele dia, o movimento dos carros me lembrava outra coisa. Tinha o lento e fétido arrastar de fezes por um longo e intrincado intestino. Cada um de nós estava sendo digerido e transformado em escremento ao longo do caminho. Bom, pelo menos eu realmente me sentia uma merda. Esta cidade precisava de uma lavagem intestinal...
Exatamente às dez e vinte e sete, um ônibus tentou atravessar uma das avenidas que cortava a Brasil, porém o trânsito o deixou parado no meio do caminho, fechanddo o cruzamento. A raiva dos motoristas foi expressa a buzinadas. Não que adiantasse muito ter o cuzamento livre: a Brasil continuava entupida do outro lado do cruzamento, assim como a avenida do ônibus.
O fato é que todas as avenidas da cidade, naquele minuto exato, travaram.
O incidente previsível se anunciava há meses. Com o número crescente de carros entrando em circulação e o consequente aumento dos números nas medições do trânsito feitas pelos órgãos (in)competentes, o travamento total se anunciava mais próximo a cada dia. As campanhas pela gentileza no trânsito eram completamente ignoradas pelos motoristas que, depois de três, às vezes quatro horas no trânsito entre lugares relativamente próximos, já não tinham mais gentileza para dispensar.
Naquela noite, quando o último carro entrou em circulação, um nível de saturação foi atingido. No centro da cidade, um motorista que entrara na contra-mão se recusava a voltar e fazer o caminho mais longo (que levaria mais duas horas), por estar já na esquina de casa, enquanto travava o trânsito vindo na direção correta. Em outro bairro, quatro carros se travavam em volta de uma pequena rotatória, ninguém cedendo à passagem do adversário. Nos pontos de ônibus, a grande massa enfartava os veículos, que não conseguiam partir sem fechar a porta e ninguém que já tinha um pé dentro se dispunha a descer. Motos caíam vítimas de motoristas invejosos que lhes negavam a passagem.
Todo mundo só queria chegar em casa. E todo mundo estava travado por outras pessoas que só queriam chegar em casa. Há mais de quatro horas. O nível de frustração era tamanho, que ninguém estava disposto a ceder. Perto da meia-noite o prefeito resolveu decretar estado de calamidade pública, depois que a polícia mostrou-se incapaz de lidar com o enorme número de ocorrências de violência no trânsito.
Três dias depois, a situação continuava a mesma. Com muitos dos motoristas abandonando seus carros trancados no meio da rua, sem se importar com as multas, guinchamentos ou furtos (já que os ladrões também não teriam como levar os veículos), a situação piorou. Mesmo que o trânsito andasse em algum lugar, os carros abandonados não seriam movidos.
Negociações começaram. Pessoas negociavam até judicialmente a cessão de passagem a outros carros. Os acordos eram leoninos. Ninguém queria ceder. Quanto mais estratégica fosse a posição do automóvel, maior era o possível lucro do proprietário se o negócio fosse fechado. 'Cotações de passagem' eram analisadas por especialistas em trânsito, com gráficos detalhados de como cada movimento afetaria o trânsito da região. Informações da direção que este ou aquele veículo estava planejando tomar eram comunicadas com o sigilo de segredos industriais. Ainda assim, ninguém se movia, aguardando ter o melhor negócio em mãos, aguardando o movimento dos outros.
Após algum tempo, a prefeitura desenvolveu um programa de alerta que divulgaria pelos sistemas de rádio e televisão caso alguém se movesse, desatando 'O Nó', como ficou chamado o incidente.
[Não vi um fim decente para este texto. Na verdade, não vejo um fim decente para a situação do trânsito na cidade também. Assim que, talvez não ter fim seja de fato o melhor e mais realista fim para isto.]
segunda-feira, março 22, 2010
Descompasso
Em determinado momento da nossa pintura, fui lembrado de questões que tenho tratado recentemente na minha prática de arte e especialmente nas sessões de pintura com o Dudi Maia Rosa, que eu passei a frequentar na quarta passada. Uma das meninas, ao ver que o seu tom de azul para o fundo da pintura estava acabando e ela ainda tinha meia parede para fazer, veio me pedir uma sugestão. A minha sugestão incluía fazer uma linha de outro tom de azul, que ela prontamente misturou e fez, à mão livre e bem torta, antes que eu tivesse tempo de avisá-la para usar uma fita crepe para deixar a linha perfeitamente reta. O truque da fita crepe foi uma trivialidade técnica que eu aprendi cedo vendo o pai da Tarsila pintar. Ele abusava do truque e eu achei bem engenhoso. Hoje o considero algo que qualquer pintor básico conhece. Mas esta minha colega de grafite, aparentemente, não conhecia.
Percebam uma coisa: a pintura dela cobria meia parede, de cima a baixo. Bem ao lado das minhas duas personagens detalhadíssimas que ocupavam um cantinho da sala. E não era só ela. Todo mundo se esparramava pelas paredes em formas coloridas e muito expressivas. As minhas eram gostosas de se ver, mas pouco diziam em sua contenção.
Na sessão de pintura do Dudi, uma cena similar aconteceu: pintoras que estavam esbanjando tinta em telas enormes grampeadas na parede ficavam maravilhadas com alguma técnica bacana que eu tinha usado em uma tela menor. E deixavam bem claro que eu tinha um descompasso não só em relação a elas, mas em relação a boa parte da minha geração de pintores. Esse descompasso era entre a técnica e o sentimento. Esse assunto já é velho por aqui e qualquer um que lê este blog há tempo suficiente para lembrar do que eu escrevia durante a faculdade de arte vai lembrar dessa discussão. E da minha angústia ao perceber que eu de fato não sentia nada. Vasto conhecimento e habilidade técnica e nada a dizer. As outras pessoas, em compensação, tinham muito a dizer e não encontravam os meios.
Eu não havia percebido, mas com o passar dos anos, eu tinha me convencido de que eu era assim: vazio. De que tudo o que eu tinha a dar ao mundo eram belos exercícios técnicos. Dudi, com poucas horas de conversa, já achava que não, e que eu tinha muito mais na cabeça do que eu estava colocando nas telas. E durante muito tempo, foi muito difícil entender o que era essa qualidade inefável que alguns diziam que eu tinha mas não sabia expressar. O que era esse brilhatismo que adormecia em mim e de vez em nunca acordava? Mais do que isso, o que era fazer "boa arte" (se é que esse tipo de qualificação pode ser feito sem ser uma heresia...).
As pistas para isso começaram a surgir no dia em que tia Haydee foi visitar meu ateliê. Estava lá quase toda minha produção de pintura, e cada coisa tinha sua relevância. Mas o que realmente lhe chamou a atenção foram as aquarelas antigas da Alice que eu fizera para o Reserva Cultural antes de ir viajar. Ela chegou até a oferecer-se para pagar molduras decentes para elas, já que haviam sido emolduradas às pressas por mim mesmo para a exposição. Mais tarde, minha mãe apontaria as Alices como um dos meu trabalhos que ela mais gostava e dos poucos que eu tinha feito com essa qualidade misteriosa, trabalhos que tinham "um pouco mais de mim e menos de técnica", embora eu não entendesse exatamente onde estava a tênue linha entre as duas coisas. De fato, as Alices eram provavelmente as favoritas de todo mundo que conhecia meu trabalho.
Passei dias pensando em voltar a fazer Alices, retomar a personagem. Depois outros dias pensando em fazer uma nova personagem que tivesse tanto sentimento quanto ela, mas que fosse minha, não a reinterpretação do trabalho de outra pessoa. Até que cheguei à conclusão de que isso seria outra racionalização. Eu ainda estava entendendo muito pouco. Por que aquela personagem em simples aquarela sobre papel era tão mais interessante do que, digamos, telas de um metro de altura com requintes de técnica de pintura? O que lhe dava esse poder? O que eu estava pensando quando fiz esses desenhos?
Certamente não era a técnica. Ela vinha como complemento do que eu estava pensando.
Olhei para as aquarelas sobre a minha mesa do ateliê por muito tempo. E comecei a lembrar da época em que eu fazia os desenhos. Do modo como eu pegava coisas terrivelmente cotidianas e as transformava em meu proprio universo. Não de uma forma racional, era mais... divertido. Eu detesto usar estas pieguices, mas não há outra forma de dizer: vinha do coração. E talvez eu precisasse aprender a me divertir de novo fazendo arte. Minhas Alices mais belas e poderosas tinham sido feitas durante a viagem. Mas por que? É paradoxal pensar nisso, mas talvez fosse porque na viagem eu sentia mais do que pensava. Claro, era necessária uma boa dose de lógica para entender os lugares e culturas novas, mas essa mesma novidade me despertava uma sensação de maravilhamento que acredito ser fundamental para toda "boa arte". Eu estava mais aberto ao mundo e tudo era encarado como uma novidade. Seria possível reproduzir esse sentimento tão particular daquela viagem aqui, em meio à rotina de uma cidade que eu detesto?
sexta-feira, março 19, 2010
O filme é daquelas coisas que vale a pena ver pelo menos duas vezes. Porque na segunda, você já sabe do desfecho bizarro e toda a sua percepção do que está acontecendo muda. Juro que não tinha percebido que em algumas cenas dos primeiros quinze minutos do filme, imagens de Tyler Durden piscam em lampejos muito rápidos toda vez que o protagonista vê algo que o inspira a criar seu alter ego. Como se o líder do Clube da Luta estivesse tomando forma aos poucos.
Mas pessoalmente, o filme valeu uma terceira assistida. Porque conta vagamente a típica busca masculista por ser um homem mais... homem. E não é só aprender a brigar. É aprender a tomar uma atitude, a largar o emprego que abusa de você gratuitamente (poorque a alternativa no filme é igualmente abusiva, porém tem um propósito) , procurar o que dá sentido e gosto para uma vida que é uma cópia da cópia, ter colhões para falar com uma mulher como se deve. Quem vê o filme e só se atenta à violência está perdendo uma lição realmente inspiradora.
terça-feira, março 16, 2010
Mentalidade Masculina 1: Vergonha
Apesar do título que parece livro de auto-ajuda em sitcom americano, o livro é bom e parece discutir sete aspectos da mentalidade masculina para explicar a dificuldade dos homens para lidar com sentimentos. O primeiro e mais básico deles é a vergonha. Homens têm uma verdadeira fobia da vergonha, passando às vezes a projetar a que sentem de suas próprias falhas de desempenho e vulnerabilidades nos outros. A típica situação onde ele tenta diminuir ou desmoralizar o oponente para parecer (para si mesmo) superior. É um processo mental que acaba sendo responsável por aqueles comentários do tipo "queria que você fosse mais...".
Esta primeira parte do livro me fez pensar a respeito das qualidade que eu estava criticando nos outros por ter vergonha em mim mesmo. Coisas como o excesso de racionalidade por ter vergonha de acabar sendo compreendido como um daqueles artistas viajandões e irresponsáveis que ninguém leva a sério. Ou a vergonha do meu passado nerd e anti-social que a duras penas superei.
Mas uma das partes que mais me chamou a atenção até agora foi a descrição fidelíssima de uma briga genérica de casal:
Quando ele chega em casa depois de um mau dia no trabalho[...], pode se livrar de seu sentimento de vergonha "dando a entender" que o penteado dela está diferente ou "perguntando" por que ela não está usando "aqueles brincos bem mais bonitos que eu comprei pra você".
Infelizmente, a mulher nesse tipo de situação está quase sempre pronta a aceitar e a internalizar a projeção do homem. [...] Mas esse é apenas o começo da briga. Muito embora a mulher diga para si mesma, cheia de vergonha: "Sim, não estou tão bonita", ela também sente raiva do homem que a fez sentir-se assim. Então só resta a ela contra-atacar ou recolher-se ao silêncio.
Isso deixa claro para o homem que ele não agiu bem. Mas, inconsciente de que estava motivado por seu próprio sentimento de vergonha a respeito de outra coisa, ele só pode reagir insistindo que não teve a intenção de criticá-la. A mulher não acredita nisso e, sentindo-se ainda mais ofendida pela negativa dele, o chama de insensível ou estúpido. Sentindo-se atacado, o homem agora revida e diz que ela é sensível demais e vive na defensiva. E é nessa hora que a briga se transforma numa espiral de ataques e contra-ataques, quando frases como "Você sempre..." e "Eu nunca deveria ter..." levam a briga ao terreno destrutivo dos conflitos passados, que nada têm a ver com o atual. [...]
Mas, para que não vejamos as mulheres como as vítimas indefesas aqui, é justo notar que muitos desentendimentos nos relacionamentos baseiam-se na dinâmica da imagem no espelho, na qual a mulher projeta seus próprios sentimentos de inferioridade no homem ao dar-lhe o recado de que ele não é um protetor tão bom assim [e causando nele o sentimento de vergonha que irá disparar todo o resto].
Achei bem relevante para a compreensão da coisa toda. Porque as brigas mais ferrenhas de todos os relacionamentos que tive sempre começaram por uma crítica de desempenho (de um ou outro lado) e terminaram nessa área dos ressentimentos passados que nada têm a ver com o presente.
Por um "trânsito mais gentil"
Há meses que venho observando essa campanha da Porto Seguro por um "trânsito mais gentil". Acho a iniciativa louvável, mas preciso comentar o que tenho vivido.
Na sexta passada, o trânsito da cidade sofreu a infernal trindade do excesso de carros vindos de fora para ver a corrida de Fórmula Indy, o outro excesso de carros vindos pelo show do Guns n' Roses e a besteira descomunal que foi a greve de professores primários (minha mãe é professora universitária e eu - tecnicamente - também sou professor, mas não posso deixar de xingar em alto e bom som à classe...).
No sábado, enquanto trabalhava no ateliê ouvindo o rádio, o locutor apresentou um conhecido seu que trabalhava nas vendas da GM. O rapaz anunciava que o feirão do mês passado estava sendo repetido este mês devido ao sucesso do anterior: tinham vendido mais de 3 mil carros.
Pausa.
Dá pra imaginar isso? Só em Fevereiro, mais três mil carros entraram em circulação. Só da GM. O nível do trânsito já é tamanho, que fazer uma iniciativa por um "trânsito mais gentil" é uma enorme piada pronta.
A imagem que me vem à cabeça é aquela da queimadura química no Clube da Luta: jogue ácido no sujeito e peça pra ele se acalmar.
Dia desses, conversando com minha prima do nordeste que está passando um tempo por aqui conosco, ela comentou como o sistema de metrô na cidade era insuficiente. Apresentei-lhe um pouco da história do país. Nos anos 50, com a possibilidade de ter investido no potencial de transporte dos rios do país e na construção de ferrovias e metrôs nas cidades ou investir nas grandes montadoras americanas para que elas pudesse se estabelecer no país, o governo escolheu as montadoras americanas. Temos vastas rodovias onde muitos caminhões trafegam carregando frações do que um único trêm ou barco carregaria por um décimo da poluição. Temos carros como o Gol, um Volkswagen desenvolvido e produzido exclusivamente no Brasil. Um dos melhores e mais baratos da categoria. Mas o metrô na cidade continua insuficiente quando poderíamos estar comparáveis a Londres, Paris e Nova Iorque. Felizes com o transporte público, estaríamos vivendo melhor e gastando menos. Carros seriam um luxo, não uma necessidade.
Eu sei, vocês que me conhecem estão pensando que eu estou aqui criticando, mas dirijo justamente um Gol. E que só teria propriedade para fazer esta crítica se vendesse meu carro e passasse a me locomover apenas de bicicleta. Bom, imaginem o que vai acontecer quando eu voltar do mestrado em Londres (pago em parte com a venda do meu carro)...
quinta-feira, março 11, 2010
Da ausência do pai/mestre
Fiquei emocionado com o gesto do pai. Não que o meu pai não fizesse coisas muito especiais. O próprio fato de eu falar inglês suficiente para lecionar e ter um interesse por arte vem do tanto que viajamos quando eu era criança. Acho mesmo que viagens, conhecimento do mundo, são o melhor presente que um pai pode dar a um filho, porque seus efeitos perduram depois que muitos dos brinquedos já tiverem sido esquecidos ou quebrados. Não poupei elogios ao aluno e ao quanto ele estava sendo um ótimo pai, mesmo trabalhando bastante.
Estou vendo que o próximo caminho a seguir nas pinturas vai ser este. Agora que a série do TBC está chegando ao fim, preciso me distanciar disso e voltar ao tema do masculismo. E a próxima parada, depois do quadro sobre os sentimentos de inferioridade masculina, vai ser tratar do assunto da ausência do pai/mestre. É um assunto que, por algum motivo, tem estado pairando no ar ultimamente. Talvez porque estive procurando artistas que pudessem ser meus mentores. Conversei com o Dudi Maia Rosa, um artista amigo da família e provavelmente passarei a frequentar o ateliê dele. Mas isso é assunto para outro post.
Na tentativa de entender como abordar esse tema por um lado mais sensível e menos racionalizado, acabei obcecando pela história de Alfie Patten. Achava que tinha algo aí na imagem de uma criança gerando outra criança. Como se o homem adulto não existisse. Imagino que a figura dele ainda vá aparecer na pintura, mas não queria focar tão diretamente nele.
Outra imagem tem se formado na minha cabeça. Ainda falta detalhe, mas o começo está aí. Lembrei de uma propaganda que vi há muito tempo contra o abuso sexual de menores. Não lembro se foi na faculdade ou se foi uma campanha mesmo. A imagem era uma pá de verdade, daquelas ferramentas de jardinagem, estraçalhando um baldinho de criança, daqueles que elas levam à praia pra brincar na areia. O título dizia algo sobre como certas coisas não combinam. Gostei muito da simbologia e achei uma coisa forte, porém de um bom gosto muito interessante. Aí fiquei com essa imagem na cabeça. Um garoto usando alguma ferramenta em versão de brinquedo, ao lado da mesma ferramenta em versão "de adulto" não sendo usada por ninguém. Acho que o lance de ferramentas é uma coisa bem masculina (novamente, o boys with toys). Mas ainda não decidi o que será essa ferramenta. Porque não acho que a pá seja a coisa mais adequada.
Sugestões?
domingo, fevereiro 28, 2010
O vestido de Cacilda
Eu tinha falado em fugir da foto e cheguei a dar um passo tímido em direção a algo mais gestual na hora de fazer o vestido de Cacilda na pintura. Mas continua sendo um vestido, e continua sendo uma interpretação da foto. Passos tímidos não bastam. Eu mesmo estava insatisfeito e frustrado com aquilo, querendo mais. Porém estava me convencendo (me sabotando) a deixar passar e seguir em frente, a me contentar com um trabalho de menor qualidade. Até que minha mãe questionou angustiada antes de sair para o teatro: "algum dia você vai ter que colocar mais do que você está sentindo na pintura e menos da foto." Aí que eu não pude negar que, de fato, eu estava pendurado na ilustração da foto de novo. De outra maneira, mas estava. O quadro tinha pouco ou quase nada de gestual e muita pintura ruim...
Agora estou aqui, revirando na cama e remoendo a ansiedade de chegar no ateliê e violentar aquela pintura com o máximo de tinta branca que eu tiver no estoque. E não é só isso: questiono a relevância da Entre Quatro Paredes que também não me satisfez. Aliás, por um detalhe que também veio de um comentário de minha mãe e que eu acho que ela tem total e completa razão (como de costume).
Vamos, ansiedade, deixa-me dormir! Afinal, não vou poder fazer nada a respeito disso agora. Morro de vontade de ter o ateliê em casa. Ou em algum lugar onde eu possa ir quando me baterem estas angústias construtivas e às três da manhã perpetrar atos selvagens de violência pigmentária...