segunda-feira, novembro 28, 2011

Readaptação social

Uma das dificuldades que estou penando para superar e a readaptação social.
Eu passei um ano no qual muita gente se sentiria deprimida por estar sozinha. Mas eu me senti bem. Chega a ser até feio admitir, mas eu me senti bem. Tinha uma liberdade gostosa nessa vida que eu levava lá, de poder mudar de idéia, definir o programa do final de semana na sexta à noite e mudar no sábado de manhã. De experimentar aquelas baladas estranhas e o underground londrino sozinho, sem ter que inventar desculpa pra ninguém ou criar coragem pra vestir algo diferente. A verdade é que havia uma falta de intimidade. Eu não era de fato íntimo de ninguém lá, e aproveitava a liberdade do anonimato e da privacidade.
Mas claro, faltava alguma coisa. Sempre falta. Aquela conversa gostosa no restaurante; os programinhas a dois, três, dez amigos muito próximos; o fim de ano com pessoas que realmente significam algo; a piada interna; a sensação de muita água que já rolou debaixo da ponte.

Agora que eu voltei, estou aproveitando a compania das pessoas de novo. Matando saudades, revendo amigos. Vou admitir, você começa conversas com londrinos muito mais facilmente do que com paulistas. Em qualquer ponto de ônibus, boteco ou evento eles puxam conversa e ninguém olha desconfiado. Em compensação, eles dificilmente vão deixar você ter mais intimidade do que o papo circunstancial do que está rolando naquela situação. Pouquíssimos abrem sua vida pessoal. E estou voltando a saborear o gosto desse tipo de convivência, que eu nem tinha percebido me fazer tanta falta quanto de fato fazia. No entanto, tem certas regras de etiqueta ou simples bom senso para as quais eu devo confessar que perdi o jeito. Vou arriscar desfilar alguns dos meus deslizes.
Fui assistir a uma peça de teatro com a minha Lexy e depois, acostumado ao que eu fazia nas noites de cinema em Brixton, voltei pra casa. Assim, sem jantar a dois nem nada depois. Completa falta de bom senso e gentileza. Claro que não fui poupado de um bom puxão de orelha.
Convidei alguns bons amigos para irem à fazenda no fim de semana, e só não esqueci de levar em consideração a comida porque minha menina perguntou. Estivera acostumado novamente a me virar sozinho e a não me importar com as sessões culinárias na madrugada, aprimorando receitas com o que eu tivesse ainda na geladeira. E ainda por cima fui avançando na receita que escolhi cozinhar para meus convidados sem levar em conta as restrições alimentares deles. Olhando para o meu próprio umbigo de novo.
E claro, esqueci do quão complicadas são as agendas em São Paulo. Onde todo mundo sempre tem uma "festa de aniversário da samambaia da tia-avó do namorado em São Luiz do Passaquatro do Sul" pra ir no fim de semana. Assim que, quando dei notícia por Facebook para que todos viesse em casa uns poucos quatro ou cinco dias antes, apenas um punhado de amigos fiéis apareceram. Vários nem perceberam o evento no Facebook. Não importava que eu estava fazendo 30 anos e que voltava de Londres depois de ter passado um ano fora. As agendas já estavam preenchidas. Pensando bem, eu nunca soube organizar essas coisas direito. Mas sabia ao menos que festa que se preze por aqui tem que ter aviso com várias semanas de antecedência e manobras diplomáticas para garantir presenças. E não só eu estava voltando de Londres muito em cima da hora, como ainda estava acostumado ao modo displicente com o qual estas coisas eram organizadas por lá. Bastava um aviso no mural do Face dois dias antes para que vários dos meus colegas de curso aparecessem no pub para a minha despedida de Londres. Era uma turma mais focada e, mesmo depois do curso acabar, ainda prestávamos muita atenção uns nos outros pelas mídias sociais.

Eu ainda levo um tempo até recobrar um pouco do (parco) bom senso que eu tinha. Por favor tolerem o meu choque cultural às avessas...

quinta-feira, novembro 17, 2011

3.0

Uma vez me explicaram (e corrijam-me se eu estiver falando besteira) que quando um aparelho ou software é lançado em versão atualizada, esses números têm significados específicos. Grandes mudanças na estrutura básica da coisa aumentam o primeiro número, mudanças menores de software e correções de bugs aumentam os números subsequentes. Ou seja, a mudança de um programa 2.5 para 2.6 pode nem ser percebida pelo usuário, mas entre um 2.5 para um 3.0 a mudança já é mais radical.

Neste ano, passei o dia do meu aniversário sem muito alarde. Almoço com a família que ainda estava matando as saudades depois da minha volta de Londres. Não senti aquela ansiedade por "fazer o dia valer", fazer algo memorável. O mais surpreendente é que eu sempre fui muito dado a me importar com números importantes, como mudanças na casa decimal das dezenas. E no entanto, não estava me importando tanto com a minha chegada aos 30. Na verdade, parte de mim se consolava pelo fato de que eu tinha acabado de chegar de um ano no exterior e realmente não tivera tempo para me importar ou preparar qualquer coisa. Outra parte estava fazendo o balanço da minha vida até então e estava satisfeita com as conclusões, não se importanto com a ausência de festas faraônicas para comemorar. E ainda uma terceira parte me lembrava que raríssimas vezes eu vi alguém comemorar essas coisas de formas de fato memoráveis e os que tentavam acabavam sendo apenas memoravelmente deprimentes.

Obviamente, o mais importante nesse balanço de 30 anos era a decada que eu estava encerrando.
A infância, passara-a na fantasia de querer ser adulto, enquanto estava afogado na dor e na delícia de viver na Colômbia. Na confusão, no ser estrangeiro, na vizinhança que lembrava os suburbios dos filmes americanos, numa realidade que ouvia as notícias do narcotráfico como se fossem lendas urbanas, pois que eu nunca vi nesses anos todos um grama de droga ou uma cena de violência.
A adolescência fora um trauma, da volta para meu país até as descobertas sexuais e os relacionamentos que eu julgava complexos. E principalmente na difícil decisão entre teatro, literatura e artes plásticas.
Mas os vinte... Ah, os vinte anos! Passados na vã busca do sucesso de carreira como artista plástico. Dos primeiros anos nas duas faculdades, o tempo desperdiçado na publicidade... Eu confesso que até renunciar a publicidade aos 27, eu achava que estava perdido além das esperanças. Até desisti de comparecer à festa de 10 anos de formados do meu colégio, com vergonha de me apresentar como aquele tremendo fracasso frente à minha antiga turma e seus sucessos. Mas esses últimos anos foram uma tremenda volta por cima. A admissão do amor pelos idiomas, as viagens, o encontrar um outro modo de vida (o meu modo de vida), o lidar com os traumas da adolescência e sexualidade e finalmente as primeiras recompensas profissionais e pessoais.

Claro que este último ano em Londres, para o qual eu estava me preparando desde os 27, tem muito a ver com essa mudança. Eu comentara antes de viajar, que ele seria decisivo. Como a expressão inglesa diz, ele iria make me or break me [me fazer ou me destruir].
Pessoalmente, o ano fez mais do que destruiu. Me deu uma nova compreensão de mim que curou diversos dos meus traumas, me mostrou como viver comigo mesmo, meus gostos, peculiaridades e ideologias.
Profissionalmente, ele destruiu mais do que fez. Destruiu meus contraproducentes delírios de grandeza, parte do meu enorme ego, a crença em um gênio artístico que amigos aplaudíam e profissionais ignoravam. Ele me fez mais humilde. Eu não consegui a carreira artística em Londres, apesar de ter tantos outros sucessos na instituição onde estudei (o catálogo, a indicação para o GAM, o reconhecimento e respeito de colegas e professores, a gratidão dos alunos novos aos quais ajudei). E hoje entendo, jamais conseguirei a tal carreira em São Paulo. Mas essa nova convicção não é triste como soa. É libertadora. Agora eu me permito ir em frente e construir a minha vida, ganhar dinheiro, sair da casa dos pais, eventualmente casar e ter filhos. Em vez de ficar penando para bajular quem jamais se interessou pelo que eu faço. Soa como se eu deixasse de ser artista, mas isso eu sei ser impossível. Eu continuo fazendo minhas coisas, desenhando minhas persoangens (tem um novo surgindo no novo caderno...), botando o atelier para funcionar. Quando Joseph Beuys plantou aquela última árvore e se disse "fora da arte", ele não queria dizer que não ia mais "ser artista". Imagino que, como eu, queria dizer que estava desistindo de bajular galeristas e curadores, da ansiedade de estar "por dentro das tendências", do esforço não-natural de se interessar pelo que não o interessava, das aparências. Mas aposto que continuou fazendo suas pequenas tolicezinhas em casa.
E essa é a principal mudança na minha nova versão 3.0. Uma mudança radical de foco. Estou ainda engajado em últimos esforços, últimos salões de arte, mas pretendo também me colocar "fora da arte". E perseguir o caminho dos idiomas, talvez da literatura, de rumos que atualmente me dão e sempre me deram muito mais retornos positivos (financeiros e pessoais) do que as artes visuais. Não é uma mudança fácil. Nem rápida. Mas vai acontecer ao longo dessa próxima década.

Pra terminar este post em um tom mais agradável, preciso contar que todo o conhecimento sobre artes visuais e os estudos que fiz aos vinte anos não serão jogados fora assim, de uma hora pra outra. Se eles não me renderam a tão sonhada carreira como artista plástico, eles ao menos acabaram de me render uma outra.

Adivinha quem vai ser o novo professor de educação artística do meu antigo Colégio Bandeirantes...

sexta-feira, novembro 04, 2011

Touchdown

Meu coração já encolheu um pouquinho quando percebi ainda no aeroporto as pessoas falando em português. Não era tanto o português em si que me incomodava, mas o jeito das pessoas falarem e o que elas falavam. Como todas queriam chegar lá antes dos outros pra embarcarem primeiro, arranjarem mais espaço, mais privilégios, mais, mais mais. E depois de desrespeitarem a organização do embarque, reclamavam quando nada mais fazia sentido. Não sei dar mais detalhes, mas já percebi o quanto eu me acostumara à mentalidade da Europa e o quanto algumas coisas da América iam me incomodar por tempo indefinido. Mais ainda, percebi o quanto isso soava pretensioso e o quanto eu teria que ficar de boca calada em relação ao meu desconforto para não parecer pedante. Era basicamente o mesmo raciocínio que me chamava de exibido por eu ter um bom nível de inglês e entender as piadas nos filmes legendados. Eu não tenho como escrever sobre isso sem fazer parecer uma falha de caráter horrível, mas de fato são coisas que só entende quem viveu fora por um tempo.

De volta ao meu país na América, me surpreendi com a falta de algumas percepções da primeira viagem. Talvez por ter andado em bairros mais sujos de Londres, talvez por ter passado uns dias em Milão, mas não percebi aquela sujeira que tinha percebido na primeira vez. O trânsito, esse sim, continuava tão ou mais insuportável do que antes.

No caminho para casa ("casa?") no carro de minha mãe, conversamos sobre essa cidade nova na qual eu estava entrando. Era uma cidade que estava percebendo que colocar mil carros na rua por dia estava asfixiando-a. Principalmente quando cada carro carregava uma única pessoa. Ciclovias estavam começando a aparecer, ainda que fossem mais um meio de lazer do que transporte cotidiano. Se as empresas se conscientizassem de que se trata de um país tropical e uma cidade de altos e baixos, onde pegar bicicleta mesmo que por três quarteirões é motivo para suor torrencial; se elas disponibilizassem vestiários para duchas rápidas ou outra solução plausível, talvez o trânsito na cidade diminuísse e a saúde das pessoas melhorasse. Não era só isso. Mamãe dizia que a cidade finalmente percebera o óbvio: que uma cidade grande como Londres com quatro linhas de metrô era uma coisa vergonhosa, e obras para novas linhas já tinham começado. Se o problema de transporte na cidade melhorasse, eu talvez não enlouqueceria tanto assim com este lugar.
As outras considerações dariam posts inteiros que eu ainda preciso escrever (assim que conseguir lidar com os atrasos homéricos de coisas que eu queria postar aqui...). Minhas percepções sobre a política de Londres, por exemplo, que poucos meses depois dos tumultos, tinha começado a discutir o que fazer sobre a qualidade de vida e as perspectivas de futuro dos arruaceiros responsáveis que os levaram a propagar os tumultos, em vez de apenas aumentar a repressão policial como em recentes acontecimentos por aqui.

E isso que eu ainda nem toquei em toda a questão de sexualidade que eu andei estudando por lá.

Respire.

Keep calm and carry on.

segunda-feira, outubro 31, 2011

Dream

Era uma cidade indefinida onde havia um conflito entre duas facções. De um lado, a turma grunge, representada por cores escuras, sóbrias, palavras sérias e uma atitude bem combativa e consideravelmente homofóbica. Do outro, a turma do glam rock, representada por cores fosforescentes, irreverência, uma atitude gender bender e bem mais pacífica.
Na parte que eu me lembro do sonho, eu começava andando por um bairro da cidade onde os glam rockers tínham fechado várias lojas e negócios do grunge colando cartazes coloridos nas fachadas. Eu estava olhando para aquilo, andando de um jeito engraçado e achando uma maravilha como o "nosso movimento" estava progredindo. Sim, claro, eu era da turma do glam.
De repente, os cartazes foram rareando, o bairro voltou a ser grunge, e eu comecei a ter a impressão de que estava na parte errada da cidade. Repentinamente, passei por três rapazes da facção oposta. Trocamos aqueles olhares e em segundos, estávamos em franca perseguição. Eles em bicicletas, eu atravessando as ruas em estilo parkour. Até que cheguei em um lugar de paredes grossas e portas fechadas com placas de madeira. Fitas coloridas e cartazes mostravam que era um reduto glam. Bati e consegui entrar.Lá dentro, outros glam rockers ajudaram a me defender, encaixando placas de metal para formar uma enorme barreira naquela primeira sala. Apesar da barreira segurar a primeira leva dos grunges, uns poucos remanescentes continuaram lutando pelos corredores daquele lugar. Mas no fim, conseguimos sobreviver. Os grunges não foram derrotados, eles desistiram. Assim, por ver que éramos em número maior e as barreiras que montávamos eram intransponíveis. Desistiram por tédio, não por serem derrotados. Nós éramos muito pacíficos para tomar atitudes mais ativas de combate.
Quando o ataque terminou, eu resolvi conhecer mais daquele reduto glam que eu tinha achado. Eu sabia que, se saísse pela porta, teria que lidar com os grunges de novo. Precisava achar um jeito de ficar por aqui. Logo descobri que o lugar era uma espécie de faculdade de arte. Colegas do passado se misturavam com colegas do presente. Uma garota da minha faculdade de graduação estava testando uma instalação onde elementos arquitetônicos barrocos estavam fixados na parede por tiras magnéticas que podiam ser desligadas, fazendo todas as peças caírem ao mesmo tempo. Um dos meus colegas do mestrado testavava uma geringonça que disparava dardos de sucção, daqueles de armas de criança. Outro do mestrado terminava uma escultura de uma cabeça com um moicano pink.
E ficou claro para mim que, se eu queria ficar lá, eu tinha que desenvolver um trabalho de arte qualquer. Forte referência ao meu mestrado em Londres. Mas eu sentia que não tinha capacidade como artista para desenvolver um trabalho coerente e relevante o suficiente para chegar no nível deles. Eu não me sentia um artista de verdade.

Acordei percebendo que, depois da mudança psicológica causada pelo mestrado, eu não me sentia mais mesmo...

terça-feira, outubro 18, 2011

Rotina

O frio voltou definitivamente, e Londres prepara-se para entrar no inverno novamente. As ruas estão cobertas de folhas secas e as noites estão chegando cada vez mais cedo.

Nesses dias sem faculdade ou outras preocupações, tenho curtido a rotina que eu já curtia moderadamente durante a época do mestrado. É uma rotina simples, porém divertida e barata. Fornece-me uma sensação de que tudo está em seu lugar e eu estou onde deveria estar. Ainda que rotinas só sirvam para serem quebradas de vez em quando.

Segundas são o dia em que o cinema de Brixton cobra preços mais modestos pelos ingressos, então são os meus dias de cinema. Saio de casa e em 15 minutos estou lá. O bairro parece um pouco ameaçador à noite, pois apesar dos espaços abertos, tem um sem-número de pessoas suspeitas na praça, perguntando casualmente se um rapaz jovem como eu não gostaria de comprar pílulas ou erva. Mas o cinema é confortável, bem frequentado e tem uma boa variedade de filmes.
As noites de quarta são para o karaokê do Escape. Para jovens ainda sóbrios mas a meio caminho da embriaguez e para surpresas agradáveis quando aquela pessoa tímida sobe nos caixotes em meio à pequena pista de dança e solta uma voz que ninguém sabia que ela tinha. A noite continua madrugada adentro no Madame Jojo's ao lado, para apresentações de drag. Mas além de eu raramente ter vontade de estender a balada até tão tarde, não quero pagar o preço da entrada, que tornaria a noite cara demais para a rotina. De qualquer forma, as "garotas" na entrada e suas conversas debochadas e maquiagens propositalmente exageradas e tortas são uma diversão por si só.
Há quase sempre alguém convidando para beber em algum lugar nas sextas à noite. Eu ainda saio bastante com a turma da faculdade, embora muitos desses encontros sejam despedidas de quem está voltando para seu país de origem. Quando não há convites para o pub, dou um pulo no Royal Vauxhall Tavern. Apesar de aturar as pouco-inspiradas tentativas de aproximação de um ou outro rapaz, a quem eu logo aviso educadamente que o meu negócio é outro, me divirto com a variedade da fauna local, e as apresentações absurdas e exageradas, porém nada pretensiosas.
Sábados geralmente são reservados para a cultura, e faço uma visita aos museus e galerias onde ouvi dizer que algo bom está sendo exposto. Tate, Whitechapel, Serpentine, Victoria & Albert, British Museum...
Já o domingo é um dia de upkeeping. Dormir direito, cuidar de mim e da casa. Compras de supermercado, limpeza, lavanderia e tentativas (frustradas) de atualizações na internet.

Há uma felicidade complacente nessa rotina. Solitária, mas talvez confortável justamente por isso. Eu só preciso lidar comigo mesmo e com mais ninguém. Mas eu sei que eu preciso ser mais sociável do que isso. Na minha volta para casa, tentarei, como da outra vez, importar o máximo desse modo de vida para a realidade de lá. Adaptando dias e horários para levar em conta amigos, familiares e minha menina.

Como dizia Hemmingway, citando John Donne: "no man is an island".

segunda-feira, outubro 10, 2011

Melancholia

[Post cheio de spoilers - se você não assistiu o filme, não leia]

Lars von Trier tem aos poucos se tornado um dos meus diretores favoritos. Pelo lado técnico, ele tem a proeza do Gerhard Richter na pintura, de transitar por diversos níveis técnicos com igual competência, de produções minimalistas como Dogvile e a sequência Manderlay, para exuberâncias visuais e técnicas como Antichrist e o recente Melancholia. Eu absorvo suas cenas em câmera lenta com o deleite de quem está diante de uma boa pintura, daquelas antigas e grandiosas. Pelo lado do conteúdo, Ele me dá aquela impressão venerável de alguém que já andou por muito mais do lado negro e visceral da vida do que eu, e está tentando me acautelar a respeito.

Melancholia by Lars Von TrierMelancholia é essencialmente, um filme sobre a depressão clínica. E talvez um dos melhores relatos do assunto que eu tenho visto ultimamente. Porque ele não se preocupa apenas em ilustrar a depressão, mas consegue com certo sucesso fazer a ponte para explicar às pessoas "normais" o que é a depressão usando termos que elas entendem. Não sei se posso dizer que é o melhor filme de Von Trier. Com toda a produção minimalista, ainda acho que Dogvile e Manderlay conseguiam ter mais recall. Ainda assim, é um grande filme por tudo que eu consegui entender dele e pelo que ele conquista em termos visuais.

Pra início de conversa, há a paciente deprimida. Justine, (Kirsten Dunst, ainda meu sonho de consumo, mesmo depois da vida real roubar-lhe algo do brilho de antes) está se casando em grande estilo com Michael (Alexander Skarsgard de True Blood) em uma fabulosa mansão. Concordo que, com uma mãe daquelas (Charlotte Rampling) vociferando contra as noções românticas de casamento, qualquer um ficaria triste. Mas o incômodo de Justine é mais do que apenas essa questão pontual.

Para Justine, a vida comum, a sociedade e seus rituais e noções do que é "correto" (perfeitamente expressado pelo adjetivo britânico "proper") parecem não ter a menor relevância. Mais do que isso, causam até um desconforto, são coisas que ela se esforça para aguentar. Todo esse ter que sorrir e esbanjar felicidade e vitalidade, quando tudo que ela quer é ficar em um canto, quieta, ensimesmada. Para ela é sofrer para agradar aos outros e nada disso faz sentido. Lidar com as pessoas é enfadonho, ter que subentender o que elas querem e adaptar-se às situações é maçante. Até esses adjetivos que estou usando não fazem jus ao sentimento (ou a falta dele) de Justine. Parecem adjetivos pertinentes a uma garotinha mimada, e Justine não é isso. Garotinhas mimadas querem driblar o tédio com aventuras, ela só quer ser deixada em paz.

As pessoas em volta dela comportam-se como qualquer família ao redor de um deprimido: fazem tudo errado. Exortam-na a manter as aparências, evitar cenas, sorrir para os convidados. Tudo está bem, pessoas! Somos felizes! Ficam furiosos quando ela não consegue suportar isso tudo e se ausenta, quando desiste de se ater às convenções. Jogam na cara dela o quanto estão gastando no casamento, quanto tempo, dinheiro e paciência. Como se a culpa e o dever de mostrar-se grata pudessem suplantar a depressão. A doença acaba custando-lhe o casamento antes mesmo da noite de núpcias (outra coisa que ela não consegue suportar).

O problema de Justine é um problema de perspectiva: a dela em relação à vida, contra a do resto da humanidade. E aqui está uma das lições do filme sobre a depressão. Justine não tem um desejo ativo e suicida por morrer, como a maioria pensa que os deprimidos têm. Em momento algum do filme ela demonstra isso. Ela preferiria definhar lentamente e em paz a executar qualquer violência dolorosa contra si mesma, e essa é a maior diferença. Mas ela não se importaria se o fim chegasse logo. Mais do que isso, ela gostaria que os outros tivessem mais noção da perspectiva dela. Nem todo deprimido é suicida. Nem todo suicida é deprimido.

Atendendo aos seus anseios, o planeta Melancholia é avistado por astrônomos, vindo em direção à Terra. Com um tamanho várias vezes maior do que o nosso planeta, ele é inicialmente previsto como passando perto da Terra, mas depois revela-se em rota de colisão, inevitavelmente aniquilando-a.

A revelação altera o equilibrio das coisas entre Justine e seus familiares. Antes deprimida e dificilmente aguentando o fardo da sociedade sobre ela, Justine torna-se livre, até por vezes feliz. Capaz de curtir a poesia e transgressão representada pela presença desse enorme planeta crescendo a cada dia, chega a permitir-se o luxo lascivo de banhar-se na luz refletida do planeta para a Terra. Com a vida na Terra extinta (que ela "sabe" ser a única existente no universo), tudo voltará à ordem complacente e banal que deveria ser, sem rituais, "propriety", dinheiro, certo ou errado. Nada mais importa e essa sensação a liberta.

O resto da família tem o colapso considerado "normal". Os mais racionais se suicidam por não aguentarem a inevitabilidade do desastre (um suicídio mais realista do que o clichê do deprimido) e a irmã de Justine, a pragmática Claire (Charlotte Gainsborough, de Antichrist), tenta racionalizar o melhor jeito de passar esses últimos momentos.

Há uma cena que eu achei de uma lucidez deliciosa nessa inversão emocional. Claire pede a Justine que passem o último momento juntas com Leo, filho de Claire. Para que a coisa seja mais suportável para Claire, ela pede que estejam juntos no belíssimo jardim da mansão, tomando vinho, ouvindo música. Um fim digno.

Justine se recusa.

Em todos os anos que ela teve que suportar os rituais e aparências da "normalidade" dos outros, ninguém nunca atenuou as coisas para ela. Agora que eles estão diante da "normalidade" dela, ela também não fará gentilezas irrelevantes. A vantagem está do lado dela e ela deleita-se na vingança.

Em vez disso, ela passa seus últimos momentos construíndo uma "caverna mágica" para seu sobrinho. Há algo de ritual nisso também, dela preparar seu último momento. Mas há uma diferença nesse ritual, similar à diferença nos anseios de morte do deprimido e do suicida. O ritual que ela faz com o sobrinho é uma banalidade de faz-de-conta. Ela faz por prazer, sabendo que não fará a mínima diferença. Aceitar o ritual de Claire seria diferente: seria um inútil "manter as aparências", imposto como se Claire ainda acreditasse que elas importariam para os outros durante o fim do mundo.

quinta-feira, outubro 06, 2011

Gisele and Hopeless Men

Nana comentou recentemente que a Gisele Bundchen tinha aparecido em um comercial da marca de lingerie Hope [1][2][3] que a fez pensar em mim. E eu fiquei muito feliz com essa lembrança suscitada pelo comercial, onde a modelo "ensina" que dar notícias ruins aos homens vestindo lingerie diminui o impacto do problema e a consequente bronca. Fiquei feliz, porque enquanto muita gente comentava sobre o mau gosto do comercial ao supostamente objetificar as mulheres (há controvérsias, já que uma vertente atual do feminismo até enxerga nisso uma espécie de poder feminino), Nana não pode deixar de perceber o quanto o comercial denigria os homens. De fato, eu sempre detestei essa idéia de homens cegados pela mera promessa de sexo, do sexo usado como mecanismo de controle.

Pensando em escrever este post, lembrei de outro comercial que rolou no começo do ano, a tentativa da Bombril de continuar na cabeça do consumidor depois da saída do Carlos Moreno, o garoto Bombril. Nessa nova campanha, a Marisa Orth, Dani Calabresa e Monica Iozzi fazem uma apelo para que "mulheres evoluídas" forcem seus homens retrógrados a ajudarem nos afazeres domésticos.

Apesar das duas campanhas terem esse apelo para a guerra dos sexos, acho que é muito válido ressaltar algumas diferenças cruciais. A campanha da Bombril tem aquele ar de brincadeira com um fundo de verdade. O jeito absurdo e caricato das humoristas não está insinuando que a mulher evoluída trate o homem de fato feito cachorro. Tudo tem um ar de sátira que é muito difícil de levar a sério. No entanto, ela consegue comunicar nas entrelinhas um retrato da utopia atual, onde as mulheres têm liberdade para ter pulso mais firme, e os homens têm a possibilidade de "evoluírem" também e passarem a ser mais presentes na vida doméstica. A idéia é que, na vida real, longe da sátira, ambos os sexos passem a respeitar um ao outro de forma mais igualitária. Quem ataca esse comercial de cara por ser sexista (tá, confesso, eu pensei em fazer isso quando vi...) está perdendo boa parte da mensagem e fazendo uma leitura simplista da coisa.

O comercial da Hope é outra coisa e esse eu não tenho receio em criticar. Ele procura ser mais uma espécie de verdade em tom de brincadeira. A Gisele é uma das chamadas figuras aspiracionais, aquela que algumas mulheres querem ser. Sendo assim, ela é muito mais passível de seduzir (não no sentido sexual) a espectadora a agir de fato desse jeito, a usar o que o comercial chama de "charme da mulher brasileira" pra subjugar o homem. Como eu mencionei antes, há quem ache que o uso consciente desse dito poder feminino é uma forma de feminismo atual, enquanto que outras pessoas criticam o comercial por voltar a objetificar a mulher. No caso do homem insinuado nesse comercial, não há dúvidas: ele é torpe, controlado por sexo e sem esperança de evoluir além disso.

quinta-feira, setembro 29, 2011

A quem se interessar, estou escrevendo sobre os meses passados para documentar esse fim de processo. Vejam lá embaixo entre o fim de Julho e começo de Agosto porque eu vou ir colocando relatos sobre o turbulento mês de Julho por lá.

E em breve, vídeos da montagem da exposição final!

quinta-feira, setembro 22, 2011

Amargas lições finais

As notas saíram hoje.
A maioria das pessoas dizia não se importar, mas no momento em que recebia o envelope, hesitava ao abrir, sentindo o coração disparar. Era afinal o resultado de um ano inteiro.
As minhas reações foram diferentes. Eu também dizia não me importar. E continuei não me importando, enquanto recebia e abria o envelope. Lá estava o veredito: "PASS".

Eu passei. Que bom.

Mas essa frieza toda foi mudando quando continuei lendo os documentos. Havia três qualificações possíveis: "PASS", "MERIT" e "DISTINCTION", sendo a última a mais alta. Eu havia passado simplesmente. Meu coração ficou pequeno.
A verdade é que todo mundo passa. Até aquela aluna que deu as caras na faculdade um punhado de vezes e fez um trabalho pífio na exposição final passou. Mas eu achava que tinha feito tudo certo dessa vez, que tinha gerado influência com minha participação no catálogo da turma, tinha demonstrado crescimento pessoal no tanto que a minha mentalidade e até aparência mudaram ao longo do ano, tinha mostrado serviço fazendo peças que chamaram atenção na exposição final e tinha desenvolvido uma pesquisa acadêmica sólida com referências atuais.
Mais do que isso, eu achei que tivesse feito toda a política necessária. Nem tive tempo de comentar aqui, mas na semana antes da exposição final abrir, estive entre os quatro finalistas do prêmio GAM, um conceituado prêmio dado os alunos que demonstraram maior desenvolvimento durante o ano. Tenho consciência de que essa indicação veio devido ao bom relacionamento que cultivei com Brian Chalkley, nosso líder do curso, que escoltou os juízes do prêmio pela faculdade e com certeza teve grande influência na escolha do ganhador (que no final das contas, não fui eu...).
Eu achava que depois de tudo isso, eu merecia ao menos o "MERIT"...

Na carreira de artes, passar com um "PASS" ou mesmo o "DISTINCTION" não quer dizer muita coisa para efeitos de carreira. Não é algo que faça muita diferença no currículo e há até uma lei em Londres que proíbe empregadores de investigar notas, podendo apenas saber se o potencial empregado passou ou não no curso que ele diz ter feito. Mas já faz tempo que a minha questão aqui deixou de ser uma questão de carreira. Esse "PASS" é uma coisa pessoal pra mim. Fez com que eu me sentisse rebaixado pessoalmente. Insuficiente.

Como sempre, eu não pude evitar as comparações. Soube de três alunos que ganharam "DISTINCTION". Todos britânicos. Todos fazendo um tipo de arte sem ideologia prática, um fazer pelo fazer. Eu até gostei de um deles, pelo humor. Mas a questão é que deu pra entender o padrão. E deu pra entender como eu estava fora dele.
Soube ainda da colega da República Tcheca que ganhou o GAM. E de rumores de que esses prêmios eram frequentemente dados a alunos do leste europeu por algum motivo. Rumor corroborado pela colega polonesa que tinha ganhado o prêmio de escultura da CASS Arts no ano passado.

No fim das contas, quais foram as lições finais aqui? Eu aprendi o tipo de arte que é levada a sério, e que é bem diferente do tipo de coisa que eu faço. No entanto, se eu adaptasse minha arte pra ser adequada a isso, eu seria considerado falso, vendido, prostituído. Eu aprendi que toda a política de que eu sou capaz me leva longe, mas não até o fim. Para ir até o fim e ganhar prêmios, oportunidades de carreira e etc, eu precisaria ter o tipo de arte levada a sério, aquela que eu não tenho. Aprendi ainda que muita coisa depende de variáveis sobre as quais eu não tenho o menor controle ou escolha (como ser do leste europeu, por exemplo).

Eu termino o ano em Chelsea sem ganhar nenhum prêmio, sem ser aceito em nenhuma exposição com curadoria, sem ter vendido nada e com um "PASS". Sinto que paguei por um diploma e nada mais.
Não foi um ano inútil. Eu descobri muito sobre mim e a masculinidade que eu herdei da cultura brasileira, fiz trabalhos dos quais eu gostei muito e que muita gente veio elogiar. Mas eu sempre sobro com essa sensação de que eu sou ótimo para entreter meus amigos e familiares (não me entendam mal, eles são tudo pra mim), mas insuficiente para qualquer instituição de arte. E só isso não faz carreira.

Tenho pensado no futuro, na volta para o meu país, com igual pessimismo. Eu também não sou ninguém lá, não estou fazendo a arte que tá na moda por lá e sei menos ainda de como fazer a política necessária para a carreira naquele contexto. Há uma parte de mim que quer simplesmente não ter que se importar mais com isso, aposentar a arte como carreira e resolver o resto da vida com a carreira de idiomas que tem me respeitado e recompensado mais. Outra parte quer dar um tempo nas artes e tentar a literatura por um ano. E uma terceira parte quer experimentar fazer esse outro tipo de arte que é levada a sério, embora EU não consiga levá-la a sério...

quarta-feira, setembro 21, 2011

London Odds and Ends

Eu sei, eu prometi novidades por aqui, mas até agora nada... Uma mistura de necessidade física de horas de sono, oportunidades de tirar o atraso da minha conta bancária com traduções e textos sobre assuntos delicados que eu ainda preciso redigir direito me fizeram atrasar o que já está insuportavelmente atrasado. Mas eu tô chegando... Calma!

Enquanto isso, mais alguns odds and ends sobre Londres e os ingleses.

• Um colega do País de Gales, que já esteve na minha terra, comentou outro dia que eu me vestia como um verdadeiro brasileiro. Como assim? "Tênis preto com meia branca", ele respondeu. Super normal, certo? Mas foi aí que percebi que os ingleses usavam meias de uma miríade de cores, mas o branco era realmente meio raro. Se ele não tivesse comentado, não teria percebido...

• Esse mesmo colega comentou sobre a comida brasileira, iguarías como a coxinha e o brigadeiro (er... peraí, tem algo errado...). Mas acima de tudo, ele comentou maravilhado sobre as churrascarias. Eu tinha falado por aqui da coisa meio estranha para os Europeus de comer algo tão pesado como arroz e feijão todos os dias. Mas não tinha me dado conta da coisa esquisita que deve ser pra eles a churrascaria. Um monte de garçom desfilando com uns nacos de carne enormes por aí e oferecendo pra todas as mesas! Eles estão acostumados a se concentrarem em um tipo de carne por refeição, a prestar atenção no preparo, no tempero, na apresentação. Esse lance de comer um pouco de cada tipo confunde eles demais...

• E o outro assunto que fez muita gente levantar as sobrancelhas por aqui: eles até agora não entendem como é que o governo pode OBRIGAR todo mundo a votar. "Isso acaba com o propósito da democracia", eu ouvi de um deles. De fato, vira uma obrigação quase ditatorial. Eu nunca cheguei a perguntar como a coisa rola na Ásia, mas entre América do Norte e Europa, todo mundo continua achando isso um absurdo.

sexta-feira, setembro 09, 2011

Endgame - the Final Show

Our final show closed to the public yesterday. It was a success for the critics, but a marketing failure. I didn`t mind. I have become clearly aware that my work here turned into more of a personal journey than the career strategy it started out as.

Setting up the final show, I believe, was the final and most revealing experience. I chose two pieces for it: the Male Varnish video and an instalation for the college’s parade ground that would be a gigantic version of one of my phallics done back in November.

I chose Male Varnish mostly because of eveyone’s opinions. Most people considered it the best video I had, the best performance. I agreed. It was brave, but also sent a somewhat clear message. It had been executed apropriately, with good equipment and editing. I wanted to project the video onto my wall space, but couldn’t find a projector and settled for a screen. This posed a problem, because I was quite afraid of having that screen stolen throughout the show. So I decided to build an extension of the wall with the screen built in. I also wanted to write some of the things about my teenage traumas that I had been exploring in text on the wall.
It was a wonderful, organic experience. It changed as I progressed. I became very interested in the manliness of the carpentry required for the task, in the haphazard results of someone who had never done that before (and wasn’t sure how to be a carpenter or a man). I was also interested in the fact that the timbers I was using for structure had belonged to a student who exhibited last year in the same space I was exhibiting now. As a result, the boring text-ladden wall I first had in mind was cut in places to reveal the structure behind it and the text was scrapped, giving way to a shinny, high gloss surface that mimicked the gloss of nail varnish, establishing another connection to the video displayed on the built-in screen. I even added tiny buttons on the wall that went right through to push the buttons on the screen.

The other piece, which I adequately named Big Phallic, was a ten meter high fabric banner that would hang from one of the towers in one of the buildings. Straight away, it put me through very feminine issues of selecting fabric, learning how to use a sewing machine to prepare it, sewing parts by hand and just keeping all that fabric neat and clean. But other parts were very masculine. The two days spent elbow-deep in acetone to transfer the image of a gigantic fountain pen onto the fabric, the phallic nature of the challenge of doing something so big and the complex rope system that would keep the piece in place were all things that I contemplated as very nice conflations with the feminine side.
It wasn’t all easy. once tied to the building, the fabric piece acted as a sail, billowing up with the wind and harnessing tremendous pulling power. It was so strong, that on a particular day, it lifted two metal railings tied to its base to keep it down. They flew some two meters into the air and almost smashed nearby windows before being contained by college staff. I reviewed my roping system and things wend smoothly after that. It was actually quite fun to see a system like that working.

There was a third piece that was only visible in the opening night. I was wearing it. It was a skirt designed in collaboration with costume designer Anastasios Kleisias. It mimicked the same fabrics as my shirt, vest and velvet jacket I was wearing on top. Despite it being a skirt, we had managed a certain might to it. I felt powerful parading around the college in it. Closer to that stereotype of the vampire.

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Nossa exposição final fechou para o público ontem. Foi um sucesso de crítica, mas um fracasso de mercado. Não me importei. Tornei-me muito ciente de que meu trabalho por aqui virou mais uma jornada pessoal do que a estratégia de carreira que era no começo.

Montar a exposição final, acredito, foi a última e mais reveladora experiência. Eu escolhi duas obras para isso: o vídeo Male Varnish e uma instalação para o pátio da faculdade que seria uma versão gigantesca de um dos meus phallics feitos em Novembro.

Eu escolhi o Male Varnish principalmente por causa das opiniões da turma. A maioria considerou-o o melhor vídeo que eu tenho, a melhor performance. Concordo. Ela é corajosa, mas também tem uma mensagem clara. Ela foi executada direito, com bom equipamento e edição de vídeo. Eu quis projetar o vídeo na parede do meu espaço, mas não consegui encontrar um projetor e me contentei com uma tela. Isto gerou um problema, porque eu tinha receio de que ela fosse roubada no meio da exposição. Então eu decidi montar uma extensão da parede com a tela embutida. Eu também queria escrever algumas das coisas sobre traumas adolescentes que eu tinha explorado em texto na parede.
Foi uma experiência maravilhosa e bem orgânica. Ela mudou à medida que avançou. Fiquei muito interessado no caráter masculino da carpintaria necessária para a obra, nos resultados toscos de alguém que nunca havia feito isso antes (e não tinha muita certeza de como ser um carpinteiro ou um homem adulto). Também me interessei pelo fato dis sarrafos que eu estava usando para a estrutura terem pertencido a um estudante que expôs no ano passado no mesmo espaço em que eu estava expondo neste ano. Como resultado, a parede maçante e cheia de texto que eu tinha em mente no começo teve alguns pedaços cortados para revelar a estrutura atrás dela e desisti do texto, que deu lugar a uma superfície brilhante que imitava o brilho do esmalte de unha, estabelecendo outra conexão com o vídeo mostrado na tela embutida. Eu até consegui fazer uns pequenos botões na parede que atravessavam até o outro lado para controlar os botões da tela.

A outra obra, que eu adequadamente chamei de Big Phallic, era um banner em tecido de dez metros de altura que ficaria pendurado de uma das torres em um dos prédios. Logo no começo, ele me fez passar por práticas bem femininas de selecionar tecido, aprender a usar a máquina de costura para prepará-lo, costurar partes à mão e manter tudo aquilo organizado e limpo. Mas outras partes eram bem masculinas. Os dois dias passados em acetona até os cotovelos para transferir a imagem da gigantesca caneta tinteiro para o tecido, a natureza fálica do desafio de fazer algo tão grande e o complexo sistema de cordas que prenderia a obra no lugar eram todas coisas que eu contemplei como belos encontros com o lado feminino.
Nem tudo foi fácil. Uma vez amarrado ao prédio, o tecido agia como uma vela, inflando com o vento e acumulando um tremendo poder de tração. Era tão forte, que um dia levantou as duas barreiras de metal amarradas à sua baase para mante-lo esticado no lugar. Elas subiram dois metros no ar e quase quebraram as portas de vidro ao lado, antes de serem contidas pelos funcionários da faculdade. Eu revi o meu sistema de cordas e as coisas correram bem depois disso. Foi até divertido ver todo aquele sistema funcionando.

Havia uma terceira obra que só foi vista na noite da abertura. Eu a estava usando. Era uma saia criada em colaboração com o designer de figurino Anastasios Kleisias. Ela imitava os mesmos tecidos da minha camisa, colete e palitó de veludo que eu estava usando. Apesar de ser uma saia, conseguimos dar-lhe um certo poder. Eu me sentia imponente trajando aquilo pela faculdade. Mais próximo do estereótipo do vampiro.

quarta-feira, agosto 17, 2011

Carpinteiro de unhas feitas.

Achei importante separar um tempo para documentar isso por aqui, ainda que rapidamente.

Resolvi que a parte principal do meu trabalho na exposição final vai ser a versão finalizada do Male Varnish (essa do link foi apenas um estudo e não coloco a versão final online porque possívies compradores na exposição final iriam querer algo com tiragem limitada e exclusividade...). Na versão final, antes de pintar as unhas, eu as lixo em uma lixadeira da oficina de madeira da faculdade e ainda uso um polidor para polir e remover resíduos antes de pintar.
Resolvii ainda construir uma parede extra no meu espaço da exposição, para colocar a tela do vídeo embutida na parede e poder ainda escrever e desenhar na parede também. Tenho passado os dias em uma febril atividade de carpintaria, construíndo a parede.

Flashback para o fim de semana anterior.
Visitei Allyson, um maquiador brasileiro que se apresenta como drag queen por aqui. Ally, como ele se apelida, foi a principal entrevista da minha dissertação (substituíndo o não-cooperativo Lady Lloyd), confirmando como segunda opinião várias das minhas visões da sociedade brasileira referentes à masculinidade. Conversamos muito e resolvi fazer um dos vídeos de entrevista com ele, como aquele em que Neba corta o meu cabelo e barba. A primeira visita era para combinarmos direito o que íamos fazer e arranjar uma data.
Conversa vai, conversa vem. Ele me falava das interpretações errôneas e diferenças entre cross-dressers, drag queens e afins. Eu explicava a exposição final, os meus vídeos e a liberdade que eu sentia em uma cultura diferente da brasileira.

Mas quando expliquei sobre a parede que eu ia ter que construir esta semana, ele olhou de canto de olho para minhas unhas que já haviam voltado a crescer depois do vídeo (e que eu planejava ter confortavelmente longas para a abertura da exposição, fazendo a ligação com o vídeo em si). Sem conseguir se conter, Allyson pediu permissão e começou a fazer minhas unhas. Lixando, cortando... Com gestos de quem já faz isso há anos, arranjou um pequeno vidrinho de base para unhas e começou a passar. Disse que aquilo iria proteger as minhas unhas durante a atividade dessa semana, evitando que quebrassem.
Passei o domingo admirando o estranho brilho que elas tinham, e o quase imperceptível aumento de peso. Extremidades cuidadas e singelas em mãos peludas de homem. Era algo estranho, mas curioso, interessante. Me lembrava trechos dos livros de Anne Rice onde Lestat (ou Louis) descrevia suas unhas como tendo um brilho estranho depois que ele foi transformado em vampiro.

Enquanto escrevo aqui (as unhas já voltando a clicar nas teclas, indicando que já ficaram grandes demais), percebo que a proteção da base já descascou em vários lugares, revelando a superfície fosca da unha verdadeira. Era de se esperar: passei dois dias levantando madeiras, arrancando pregos, escalando andaimes, usando uma miríade de ferramentas. Não me importei. A base estava aí para isso mesmo, para receber o castigo destinado às unhas. Para dar lugar a esse aspecto de algo que era cuidado e perfeito, mas foi devidamente usado. Me interessei muito pelo contraste masculino/feminino desses eventos. Pela coisa meio cômica, meio bonita, de ser esse carpinteiro (machão...) de unhas feitas. Aprendi que é desse tipo de estranheza que eu devo me inspirar para falar do Masculismo no meu trabalho.

segunda-feira, agosto 08, 2011

Panic on the Streets of London

Postando para acalmar os nervos da turma de casa.

Vocês já devem ter ouvido das ondas de violência aqui em Londres. Elas vêm acontecendo desde sábado, quando aparentemente um rapaz negro de 29 anos foi (acidentalmente?) morto pela polícia no bairo pobre de Tottenham. A turma do bairro exigiu satisfações da polícia, que abriu um inquérito. Mas a coisa demorou demais e os moradores do bairro, impacientes, irromperam em violência contra o preconeito da polícia.

Lembra daquela turma que transformou o primeiro protesto contra os cortes do governo em uma invasão à sede do partido conservador? Não os estudantes, mas sim os "protestantes profissionais" misturados no meio deles? Então, assim que a violência em Tottenham começou, esses daí começaram a organizar a baderna em outros bairros, através de mídias sociais e Blackberrys. Suponho que eles até disseram que queriam protestar contra o preconceito também. Acredito que na verdade só queriam uma baderna mesmo. Chances para saquear lojas e incendiar algumas coisas, porque é legal. Como resultado, rompantes de destruição atingiram Brixton no domingo, Hackney, Islington e Peckham na segunda. Bairros aparentemente desconexos, em diversar regiões de Londres, que só tinham em comum o fato de serem bairros pobres. Emily, minha ex-colega de apê, comentou no Facebook: "o que tem pra roubar em Peckham, extensão capilar?" referindo-se à profusão de cabeleireiros africanos do bairro vizinho ao que nós moramos por dez meses.

Quanto a mim, não se preocupem. Eu estou muito bem até agora. Inocente, fui comprar material em Brixton hoje de manhã. Encontrei o bairro todo isolado por fitas policiais, que tomavam um quarteirão a mais a cada vinte minutos. A sensação era de ter chegado no dia seguinte a uma senhora balada...
Em Vauxhall, onde estou morando agora, tudo continua tranquilo. Ouço as sirenes passando sem parar na rua. Mas duvido que eles venham aqui incendiar baladas gays e espancar drag queens.

Depois que ouvi casos de violência em Birmingham também, me peguei cantarolando o começo da música dos Smiths hoje à noite:

Panic on the streets of London
Panic on the streets of Birmingham
I wonder to myself
Could life ever be sane again ?

quinta-feira, agosto 04, 2011

Texto do catálogo

Achei relevante fazer uma curta nota disso por aqui.

Saíndo da faculdade hoje, minha colega irlandesa Fiona comentou: "Sabe o seu texto do catálogo (cada um de nós enviou um pequeno texto sobre nosso projeto em Chelsea este ano)? Eu achei esse texto brilhante! Você mudou muito o seu jeito de falar sobre o seu trabalho, está perfeito."
Claro, ela refere-se a esse texto em comparação a como eu me apresentei no começo do curso. Esse comentário fez o meu dia!

Abaixo, o texto do catálogo traduzido:

"Eu sou um homem branco ocidental heterossexual. Mas eu não sou o Patriarcado. Meu trabalho em video-performance, literatura e pintura tenta fazer a crônica de uma procura por um modo alternativo de existência que não me aliene do meu corpo e minhas emoções como condição para a masculinidade. É um caminho que deve ser percorrido cuidadosamente, ou corro o risco de ser compreendido como um crítico contra o Feminismo e suas importantes conquistas ou um partidário de masculinidades essencialistas e ultrapassadas. Meu trabalho nunca foi sobre isso. Em vez disso, ele lida com minha experiência pessoal de masculinidade brasileira, na esperança de que outros se identifiquem com minhas questões e compartilhem suas próprias 'mazelas de meninice [boyhood]'.

Eu ainda acho que os homens não nomearam e lidaram com suas 'mazelas de meninice' da mesma forma que o feminismo deu às mulheres jeitos de nomear algumas das tragédias da nossa 'adultice' na sociedade sexista. - Bell Hooks"

quarta-feira, agosto 03, 2011

Existere

O cartaz era daquelas coisas que você só vê em faculdade de artes: "Procura-se 90 participantes nus para performance". Logo pensei no Spencer Tunick, uma experiência da qual eu sempre quis participar e nunca consegui. Ele até foi à minha cidade, mas essa foi outra daquelas tantas coisas que eu perdi quando estava jogando minha vida fora nas agências de publicidade.

O premiado trio de artistas JocJonJosh, composto pelo inglês Joc Marchington, o suiço Jonathan Brantschen e Joschi Herczeg da Eslováquia, era conhecido por instalações e performances que usavam o corpo humano (nem sempre nu) em composições que variam do simples até aquelas em que não se entende onde um corpo acaba e o outro começa.
Para este projeto, chamado Existere, a idéia era criar um empilhado de cerca de 60 a 70 corpos no espaço Testbed 1 em Battersea. Seria uma estrutura que lembrava uma casa cilíndrica, e que os artistas tinham pensado em produzir como resposta aos desastres no Japão, Austrália e Nova Zelândia, lembrando que não foram só casas que foram destruídas, mas vidas também.

A idéia era simples. A execução, nem tanto...
Eramos diversos voluntários de vários lugares da Inglaterra, e a coordenação para que todos viessem aos ensaios ficou a cargo de Jevgenija Ravcova, conhecida como Eugenie, que manteve todo mundo comunicado por e-mails. Os ensaios duraram um mês e foram coordenados pelo trio de artistas e a coreografa Hedva Eltanani. E havia muita coreografia nisso tudo. Desde o aquecimento rigoroso, a entrada dos voluntários, por entre a pequena platéia (diversas sessões foram organizadas para que a platéia sempre fosse em número menor do que os participantes), a montagem e a desmontagem da estrutura, em perfeito mutismo. Havia toda uma lógica desenvolvida durante meses de como cada corpo sustentaria o peso dos outros. E um profissionalismo excelente no trato com pessoas que estariam expondo sua nudez.

Havia gente de todos os jeitos. Senhores cinquentões enormes da classe trabalhadora inglesa, estudantes de arte de países diversos como eu, nudistas, modelos de arte (uma que eu já desenhara na faculdade), profissionais de dança, adeptos de ioga, negros, brancos, asiáticos, homens, mulheres, jovens, velhos, casais, pais e filhos (filhos adultos...). Em comum, todos eles tinham ótima aceitação de seus corpos (embora quase ninguém tivesse aquele corpo perfeito) e um desprezo pelas noções comuns de pudor. Aceitavam que se pudesse estar nu fora de um contexto sexual, embora alguns nunca o tivessem experimentado.
Uma coisa que percebi no entanto era que quase nenhum deles era muito peludo. Como se o biotipo europeu suprimisse isso (ou talvez eles lidassem com isso de alguma forma). Eu estava no auge da minha experimentação disso (um mês depois que Neba raspara minha cabeça e barba e ainda mantendo a calvície diariamente...) e por sorte havia removido boa parte dos meus pelos, podendo me passar por um deles sem problemas.

A cômica dignidade com a qual todo mundo se despiu no primeiro dia foi talvez o único momento de desconforto. Quando nos juntamos no primeiro ensaio para formar pela primeira vez a estrutura, já sabíamos o suficiente da coreografia para que a nudez não incomodasse, tendo ensaiado partes dela com roupas. Havia uma sensação de que as coisas estavam indo ao contrário: de que nos víamos pelados para depois nos conhecermos melhor. Mas isso funcionava muito bem, evitando aquele efeito da acquainted nudity, o pudor de ver uma pessoa conhecida nua.

Depois da última apresentação no dia 23 de Julho, fomos todos ao pub local. Tendo completado o projeto, a coisa toda perdia sua seriedade e nos permitíamos rir dos pequenos detalhes. Rimos imaginando os mortos e feridos do que teria acontecido se, naquele momento solene em que a estrutura está montada e ficamos inertes e calados por dois minutos, alguém peidasse... E fizemos chacota do único rapaz encabulado que não conseguiu evitar uma ereção no desmontar da estrutura.

Foi uma experiência maravilhosa. De aceitação do corpo, de compreensão do pudor, de arquitetura (!?).