E por falar na avaliação com as duas Dawns, hoje recebi a nota. O número era mais ou menos o que eu esperava: 63. Na média da turma, que ficou nos 60. Eu achava que receberia algo assim, depois de perceber como meu nervosismo de rever Dawn Mellor influenciara na minha apresentação. Recebi altas notas em experimentação e técnica (adorei!), porém uma nota um pouco mais humilde em conhecimento do tema.
Mais interessante do que a nota foram as anotações que ela escreveu a respeito do trabalho. Senti que conquistei ao menos um mínimo respeito dela, e isso muito me agradou. Abaixo, traduzo o que ela escreveu.
1) Ótima experimentação em termos de formato (media) do trabalho. Desenvolveu estratégias performáticas através de formatos em vídeo e ao vivo.
2) Precisa desenvolver distanciamento crítico e talvez uma estratégia para comunicar isso, dada a por vezes confusa combinação de metas políticas objetivas, material autobiográfico e regras performáticas fictícias. [Eu nem sabia que tinha tudo isso!]
3) Relationamento discursivo com outros alunos é bom e aberto.
4) Temas interessantes relacionados à identidade cultural latinoamericana abordados por uma perspectiva pessoal.
5) Precisa chegar a um posicionamento para fazer julgamentos auto-críticos sobre o trabalho.
Bits and pieces of my life that everyone ignores when I speak, but someone reads when I write.
terça-feira, junho 28, 2011
A seriedade que vira piada
Tentando dar umas dicas para Louise, uma colega irlandesa que queria começar um blog, mostrei o meu blog profisssional. Ela, uma artista que trabalha principalmente com vídeos, viu alguns dos vídeos que ela nunca tinha visto antes, como o Semiotics of the Workshop e o Male Varnish.
Uma coisa estranha e interessante acontece com esses vídeos. Incluo no grupo também a performance do botão. São trabalhos que eu desenvolvi com um intuito sério. Eu queria que fossem trabalhos relativamente sérios no começo. O primeiro estudo para a performance do botão foi feito no estúdio de Chelsea, em absoluto silêncio, como um ato quase religioso. Nesse caso, o trabalho mudou e passou a ser sátira antes da versão final. Mas nos outros dois, eu realmente produzi a coisa com um certo intuito sério, pra levantar questões políticas sérias. Mas o resultado saiu cômico. É aquele cômico meio sarcástico, de rolar os olhos, mas é uma graça interessante. Eu acho que não me ofendo como faria nos primeiros anos da faculdade quando um trabalho "desandava" desse jeito, em parte por já ter amadurecido e aprendido a respeitar essas mudanças que o trabalho faz sozinho, mas também em parte porque a crítica política (política aqui mencionada como gender politics, não política de governo) continua lá. Mesmo que vestida de bizarra comédia.
Louise acha que a força desses trabalhos, em especial do Male Varnish está na naturalidade do ato. Eu estou mesmo experimentando pintar as unhas e tentando fazer isso direito. E estou mesmo usando verniz de madeira. Eu não estou montando uma cena como nos outros ou tentando atuar como um comediante. Eu estou sendo eu mesmo.
Me faz pensar no que mais eu posso fazer com essa carga de realismo cômico. Mais ainda, me faz pensar no que Dawn Mellor diria. Percebi que, na ansiedade da minha avaliação, não mostrei esses vídeos a ela... ¬¬
Uma coisa estranha e interessante acontece com esses vídeos. Incluo no grupo também a performance do botão. São trabalhos que eu desenvolvi com um intuito sério. Eu queria que fossem trabalhos relativamente sérios no começo. O primeiro estudo para a performance do botão foi feito no estúdio de Chelsea, em absoluto silêncio, como um ato quase religioso. Nesse caso, o trabalho mudou e passou a ser sátira antes da versão final. Mas nos outros dois, eu realmente produzi a coisa com um certo intuito sério, pra levantar questões políticas sérias. Mas o resultado saiu cômico. É aquele cômico meio sarcástico, de rolar os olhos, mas é uma graça interessante. Eu acho que não me ofendo como faria nos primeiros anos da faculdade quando um trabalho "desandava" desse jeito, em parte por já ter amadurecido e aprendido a respeitar essas mudanças que o trabalho faz sozinho, mas também em parte porque a crítica política (política aqui mencionada como gender politics, não política de governo) continua lá. Mesmo que vestida de bizarra comédia.
Louise acha que a força desses trabalhos, em especial do Male Varnish está na naturalidade do ato. Eu estou mesmo experimentando pintar as unhas e tentando fazer isso direito. E estou mesmo usando verniz de madeira. Eu não estou montando uma cena como nos outros ou tentando atuar como um comediante. Eu estou sendo eu mesmo.
Me faz pensar no que mais eu posso fazer com essa carga de realismo cômico. Mais ainda, me faz pensar no que Dawn Mellor diria. Percebi que, na ansiedade da minha avaliação, não mostrei esses vídeos a ela... ¬¬
Tutorial 6
A long time had passed and a lot had happened since my last tutorial with Stephen Wilson. I had pondered about my clothes, traveled to Romania and rekindled my love for vampires, linked gender politics with vampirism through the character of Dr. Frank-N-Further, and had a few other experiences I didn't note down here. I was changed. Completely. And Stephen Wilson was pleased.
I was prepared this time as well. After wasting a good deal of time on our first tutorial due to a diverted bus, I made sure to be in College a full 45 minutes before our appointment. Stephen, surprisingly, showed up 15 minutes early. Nonetheless, I was prepared.
And just to vindicate my previous forgetfulness, I started by offering him a small box of brigadeiros, the Brazilian dessert I had been making on several occasion here in London. There was a point to be made with them. I wanted to get from him the same surprised expression I had gotten from many of my colleagues, when they realized those delicate treats had been carefuly made by a man (of course, by now, I was less of the traditional barbecueing male and more closely related to this sort of gastronomy).
The result was interesting: Stephen Wilson denied them. He mentioned having an issue with personal space and not accepting anything from other people.
A while ago, I can't remember when or where, an older man had given me something to eat. I can't even remember who it was (and it was probably someone from the course), but I do remember that feeling of being fed, of biting something off the fingers of another man. There was something provocative about the act, something latently homo erotic. It would have bothered me were I not dealing with these issues as part of my research.
I had thought of a performance with brigadeiros as my final piece. Of feeding men in an audience during a performance in that same way, causing that feeling of strangeness and sexual doubt on them. With Stephen, this had perhaps happened before the actual act of feeding (and I never intended to feed them to him...). We talked about that event, which I recalled as best as I could, mentioning it probably had happened in Soho, that neighborhood in London famous for its transgendered nightlife. He extrapolated the idea, filling in the gaps left by my faulty memory with much of his own personal fears of that sort of unwanted intimacy. And we envisioned another sort of performance. One where an audience would feed each other, men feeding men, women feeding women, to take it away from me as a character and closer to each participant's issues with sexuality, gender and intimacy.
I was somewhat thrilled at the idea that my art could revolve around food. It resonated, for me, with Graysson Perry's pottery: something girly, but where that female aspect would come as both a defining thing in the life of the artist and a critique to everyone else.
I got other interesting reactions from other pieces, as I took him through all the violent changes that had happened since we last spoke. He had told me "not to make things confortable", and I had delighted in taking that advice to heart. The video of Neba shaving my head seemed interesting in itself, and the photography that followed (some of it still unpublished on any of my other media) definitely fit that description, being quite outright provocative. But a lot of it eventually stubled on stereotypes that I wasn't doing enough to question. And that made the work dangerously shallow.
The feeding performance, on the other hand, had "a good energy", he said. I agreed. And I'm thinking of ways of running this through my classmates before taking it any further, to see their opinions.
We also talked about characters. Some of my photos had been an attempt to develop a character that would take the place of my absent Butcher's Daughter. And I suppose this character is still going to happen, when I go back to a more conservative lifestyle back in my own country. It'll be the dormant form my transgression will take. But that's a bit too convoluted to explain.
But while we talked about characters, I mentioned the first researched I had done on Oreet Ashery and the first interview with Benedetta de Alessi. What interested me about them was that they had practical reasons for separate alter egos. Oreet was dealing with Jewish rituals that excluded women and wouldn't be able to penetrate these societies without her male character. Benedetta created her character of the little boy Oscar because she was interested in that particular stereotype of the boy and in "being over-emotional and romantic, or in tears, as a male". That is to say, she couldn't have done it as a grown woman, because it would invalidade the whole experience.
Drag characters were something different. And Stephen Wilson mentioned a conference held a few years back that asked the question: "is drag dead"? The actual question is: is there anything left for drag to question to maintain its transgressive status? In a world of stay-at-home dads and men wearing make up, drag is simply becoming an exageration of questions that aren't really relevant anymore.
My upcoming interview with Brian "Dawn" Chalkley might give me some more info on the matter.
Meanwhile, Lady Lloyd is still giving me the silent treatment.
I was prepared this time as well. After wasting a good deal of time on our first tutorial due to a diverted bus, I made sure to be in College a full 45 minutes before our appointment. Stephen, surprisingly, showed up 15 minutes early. Nonetheless, I was prepared.
And just to vindicate my previous forgetfulness, I started by offering him a small box of brigadeiros, the Brazilian dessert I had been making on several occasion here in London. There was a point to be made with them. I wanted to get from him the same surprised expression I had gotten from many of my colleagues, when they realized those delicate treats had been carefuly made by a man (of course, by now, I was less of the traditional barbecueing male and more closely related to this sort of gastronomy).
The result was interesting: Stephen Wilson denied them. He mentioned having an issue with personal space and not accepting anything from other people.
A while ago, I can't remember when or where, an older man had given me something to eat. I can't even remember who it was (and it was probably someone from the course), but I do remember that feeling of being fed, of biting something off the fingers of another man. There was something provocative about the act, something latently homo erotic. It would have bothered me were I not dealing with these issues as part of my research.
I had thought of a performance with brigadeiros as my final piece. Of feeding men in an audience during a performance in that same way, causing that feeling of strangeness and sexual doubt on them. With Stephen, this had perhaps happened before the actual act of feeding (and I never intended to feed them to him...). We talked about that event, which I recalled as best as I could, mentioning it probably had happened in Soho, that neighborhood in London famous for its transgendered nightlife. He extrapolated the idea, filling in the gaps left by my faulty memory with much of his own personal fears of that sort of unwanted intimacy. And we envisioned another sort of performance. One where an audience would feed each other, men feeding men, women feeding women, to take it away from me as a character and closer to each participant's issues with sexuality, gender and intimacy.
I was somewhat thrilled at the idea that my art could revolve around food. It resonated, for me, with Graysson Perry's pottery: something girly, but where that female aspect would come as both a defining thing in the life of the artist and a critique to everyone else.
I got other interesting reactions from other pieces, as I took him through all the violent changes that had happened since we last spoke. He had told me "not to make things confortable", and I had delighted in taking that advice to heart. The video of Neba shaving my head seemed interesting in itself, and the photography that followed (some of it still unpublished on any of my other media) definitely fit that description, being quite outright provocative. But a lot of it eventually stubled on stereotypes that I wasn't doing enough to question. And that made the work dangerously shallow.
The feeding performance, on the other hand, had "a good energy", he said. I agreed. And I'm thinking of ways of running this through my classmates before taking it any further, to see their opinions.
We also talked about characters. Some of my photos had been an attempt to develop a character that would take the place of my absent Butcher's Daughter. And I suppose this character is still going to happen, when I go back to a more conservative lifestyle back in my own country. It'll be the dormant form my transgression will take. But that's a bit too convoluted to explain.
But while we talked about characters, I mentioned the first researched I had done on Oreet Ashery and the first interview with Benedetta de Alessi. What interested me about them was that they had practical reasons for separate alter egos. Oreet was dealing with Jewish rituals that excluded women and wouldn't be able to penetrate these societies without her male character. Benedetta created her character of the little boy Oscar because she was interested in that particular stereotype of the boy and in "being over-emotional and romantic, or in tears, as a male". That is to say, she couldn't have done it as a grown woman, because it would invalidade the whole experience.
Drag characters were something different. And Stephen Wilson mentioned a conference held a few years back that asked the question: "is drag dead"? The actual question is: is there anything left for drag to question to maintain its transgressive status? In a world of stay-at-home dads and men wearing make up, drag is simply becoming an exageration of questions that aren't really relevant anymore.
My upcoming interview with Brian "Dawn" Chalkley might give me some more info on the matter.
Meanwhile, Lady Lloyd is still giving me the silent treatment.
domingo, junho 19, 2011
Da ligação entre atitudes e orientação sexual
Tive uma conversa interessante na noite anterior, em uma festa na casa de uma de minhas colegas. Uma amiga dela, ao ser apresentada a mim, fez aquela pergunta: "então, que tipo de arte você faz?"
Senta, que lá vem a história....
Depois de ter que responder desengonçadamente essa pergunta uma porção de vezes, acabei desenvolvendo um começo decente. Eu estou interessado em política de gênero (gender politics, por aqui todo artista já ouviu falar disso por causa das feministas), mas pelo lado masculino, depois do feminismo. A resposta é suscinta, adequada, e ainda deixa a pessoa com aquele gosto de "legal, quero saber mais a respeito".
Apesar das diferenças culturais que eu tenhno ressaltado por aqui, conversas com não-artistas sempre são cheias de interesse, de concordar, de achar legal. Nossa conversa demorou mais de uma hora, entre trocar experiências e tirar dúvidas. E no final, eu tinha saído disso com mais um ponto interessante a considerar: essa ligação entre atitudes e orientação sexual.
Se bem me lembro, conversávamos sobre a entrada das mulheres no mercado de trabalho e outras "masculinizações" que aconteceram no século XX. E em algum momento, me veio essa idéia: hoje já é perfeitamente normal que as mulheres façam determinadas coisas que antes eram masculinas. E não se questiona sua orientação sexual por causa disso (ainda há algumas excessões, claro...).
Não seria ótimo para um homem poder escolher opções similares sem precisar pensar nessa ligação entre atitude e orientação sexual? Não seria ótimo poder pensar sobre o próprio corpo, como mencionei no post anterior, ou sobre cuidar dos filho e etc, sem que isso enviasse uma mensagem errada?
Me fez pensar em uma perfomance que não sei se ainda terei energia e tempo pra montar. Uma em que eu começaria perguntando para a platéia aquela pergunta que virou clichê: "does this shirt make me look gay?" ["essa camisa me faz parecer gay?"]. E daí ir progredindo para coisas mais e mais desafiadoras nessa questão. Pintar as unhas, passar maquiagem, etc. Onde está o limite?
Senta, que lá vem a história....
Depois de ter que responder desengonçadamente essa pergunta uma porção de vezes, acabei desenvolvendo um começo decente. Eu estou interessado em política de gênero (gender politics, por aqui todo artista já ouviu falar disso por causa das feministas), mas pelo lado masculino, depois do feminismo. A resposta é suscinta, adequada, e ainda deixa a pessoa com aquele gosto de "legal, quero saber mais a respeito".
Apesar das diferenças culturais que eu tenhno ressaltado por aqui, conversas com não-artistas sempre são cheias de interesse, de concordar, de achar legal. Nossa conversa demorou mais de uma hora, entre trocar experiências e tirar dúvidas. E no final, eu tinha saído disso com mais um ponto interessante a considerar: essa ligação entre atitudes e orientação sexual.
Se bem me lembro, conversávamos sobre a entrada das mulheres no mercado de trabalho e outras "masculinizações" que aconteceram no século XX. E em algum momento, me veio essa idéia: hoje já é perfeitamente normal que as mulheres façam determinadas coisas que antes eram masculinas. E não se questiona sua orientação sexual por causa disso (ainda há algumas excessões, claro...).
Não seria ótimo para um homem poder escolher opções similares sem precisar pensar nessa ligação entre atitude e orientação sexual? Não seria ótimo poder pensar sobre o próprio corpo, como mencionei no post anterior, ou sobre cuidar dos filho e etc, sem que isso enviasse uma mensagem errada?
Me fez pensar em uma perfomance que não sei se ainda terei energia e tempo pra montar. Uma em que eu começaria perguntando para a platéia aquela pergunta que virou clichê: "does this shirt make me look gay?" ["essa camisa me faz parecer gay?"]. E daí ir progredindo para coisas mais e mais desafiadoras nessa questão. Pintar as unhas, passar maquiagem, etc. Onde está o limite?
No-body
Acho que eu não cheguei a comentar sobre essa idéia por aqui ainda.
Andei lendo o Male Order da Rowena Chapman, uma coletânea de textos do final dos anos 80 que já discutia com certa seriedade as questões masculinas. Fiquei impressionado ao perceber como a discussão andou muito pouco de lá pra cá, apesar de já ter mostrado resultados interessantes.
Mas achei muito interessante que um dos textos (não anotei qual...) desenvolvia mais a fundo a idéia já conhecida de que o homem é o observador que objetifica a mulher. De acordo com o texto, a mulher como objeto de desejo é corpo, é visual. Era uma das coisas criticadas pelo feminismo antigo, da década de 70, e pelas vertentes posteriores em uma forma mais kitsch.
Mas o interessante do texto era considerar a situação do homem observador. Como observador, ele não tem corpo. Quando muito, ele tem um orgão simbólico, o falo, cujo poder como símbolo é transferido (fetishisado) para objetos alheios ao corpo do homem: o carro, a caneta dourada, a arma, a ferramenta, etc. Mas o corpo físico do homem... Bem, esse é escondido, ignorado, façamos de conta que não existe. Por que? Ah, porque é feio, ninguém quer ver um pinto... Sinceramente, certas partes mais íntimas da anatomia feminina são tão feias quanto.
A questão é que o corpo masculino ainda é em grande parte um tabu. Ele é escondido e o homem que o aprecia recebe o carimbo: [GAY!]
E não é apenas na apreciação do corpo do outro. Cuidados masculinos com o corpo são aceitos quando se fala da barba, esse símbolo de masculinidade que eu recentemente ataquei. Mas além disso, cuidados com a pele, com formas adequadas de depilação, ou até mesmo o considerar depilar-se por questão higiênica ou de conforto, cuidados com unhas, cabelo, alimentação... Tudo isso ainda pertence àquela área cinzenta que, mesmo aqui em Londres, os igleses defendem dizendo que "os tempos mudaram e homens podem discutir isso". Mas o fazem em tom baixo, olhando para os lados depois de ter medido a outra pessoa dos pés a cabeça pra saber se ela não vai achar estranho.
Eu tenho sim começado a pensar.
Depois dos desajeitados primeiros experimentos de Maio, comecei a considerar o comprimento adequado e confortável das unhas. Comecei a pensar na vasta quantidade de pelos que me cobrem o corpo e o quanto eu não gosto disso. Comecei a ver maneiras de lidar com isso sem passar outro mês me coçando inteiro (sério, cada vez que o vento batia e eu sentia calafrios, as raizes dos pelos raspados giravam dentro da pele - como centenas de agulhas afiadíssimas). Tenho ido a aberturas de exposição e outros eventos públicos importantes com uma ponderada quantidade de maquiagem apenas para esconder imperfeições, sem exageros.
Eu tenho um corpo. Você pensa no seu?
Andei lendo o Male Order da Rowena Chapman, uma coletânea de textos do final dos anos 80 que já discutia com certa seriedade as questões masculinas. Fiquei impressionado ao perceber como a discussão andou muito pouco de lá pra cá, apesar de já ter mostrado resultados interessantes.
Mas achei muito interessante que um dos textos (não anotei qual...) desenvolvia mais a fundo a idéia já conhecida de que o homem é o observador que objetifica a mulher. De acordo com o texto, a mulher como objeto de desejo é corpo, é visual. Era uma das coisas criticadas pelo feminismo antigo, da década de 70, e pelas vertentes posteriores em uma forma mais kitsch.
Mas o interessante do texto era considerar a situação do homem observador. Como observador, ele não tem corpo. Quando muito, ele tem um orgão simbólico, o falo, cujo poder como símbolo é transferido (fetishisado) para objetos alheios ao corpo do homem: o carro, a caneta dourada, a arma, a ferramenta, etc. Mas o corpo físico do homem... Bem, esse é escondido, ignorado, façamos de conta que não existe. Por que? Ah, porque é feio, ninguém quer ver um pinto... Sinceramente, certas partes mais íntimas da anatomia feminina são tão feias quanto.
A questão é que o corpo masculino ainda é em grande parte um tabu. Ele é escondido e o homem que o aprecia recebe o carimbo: [GAY!]
E não é apenas na apreciação do corpo do outro. Cuidados masculinos com o corpo são aceitos quando se fala da barba, esse símbolo de masculinidade que eu recentemente ataquei. Mas além disso, cuidados com a pele, com formas adequadas de depilação, ou até mesmo o considerar depilar-se por questão higiênica ou de conforto, cuidados com unhas, cabelo, alimentação... Tudo isso ainda pertence àquela área cinzenta que, mesmo aqui em Londres, os igleses defendem dizendo que "os tempos mudaram e homens podem discutir isso". Mas o fazem em tom baixo, olhando para os lados depois de ter medido a outra pessoa dos pés a cabeça pra saber se ela não vai achar estranho.
Eu tenho sim começado a pensar.
Depois dos desajeitados primeiros experimentos de Maio, comecei a considerar o comprimento adequado e confortável das unhas. Comecei a pensar na vasta quantidade de pelos que me cobrem o corpo e o quanto eu não gosto disso. Comecei a ver maneiras de lidar com isso sem passar outro mês me coçando inteiro (sério, cada vez que o vento batia e eu sentia calafrios, as raizes dos pelos raspados giravam dentro da pele - como centenas de agulhas afiadíssimas). Tenho ido a aberturas de exposição e outros eventos públicos importantes com uma ponderada quantidade de maquiagem apenas para esconder imperfeições, sem exageros.
Eu tenho um corpo. Você pensa no seu?
quarta-feira, junho 15, 2011
The Chosen Ones
O verão teoricamente começou por aqui. Mas Londres ainda não percebeu. Média de 18º.
Ainda não consegui garantir a entrevista com Lady Lloyd. Mas andei pesquisando os outros que me interessaram.
Brian "Dawn" Chalkley dispensa apresentações. Coordenador do nosso curso de mestrado, ele se apresenta como seu alter ego, a perniciosa e exibida Dawn. Aliás, fará uma apresentação amanhã, na galeria Beers.Lambert, em uma exposição à qual me inscrevi e não fui selecionado, só com artistas lidando com questões de gênero. Nas suas apresentações, Dawn geralmente lê o "Tranny Manifesto", uma lista de frases que especificam tudo que ela é a favor. Coisas kitsch, uma mistura de cinismo bem realista e provocação debochada. Ela não está fazendo nada além de inserir detalhes pessoais de suas noitadas com executivos. Esses homens malvados que só querem o seu corpo. Daí você lembra que ela é ele... E todo mundo sabe disso, porque a maquiagem exagerada não está lá para esconder, mas para realçar o fato.
Bem diferente dele, a ex-aluna italiana Benedetta de Alessi, mestranda de Chelsea em 2009, é conhecida na internet como Oscar. Era. Oscar, uma versão atualizada e emo do jovem Werther de Goethe, cometeu suicídio no ano passado, depois de deixar uma última mensagem ao seu amante P. Benedetta fazia um esforço para que sua identidade feminina não fosse descoberta. Fotos em que ela atingia uma bem elaborada androginia ilustravam o blog de Oscar. Muitas das fotos dele ainda criança, que eram de fato fotos da própria Benedetta, naquela fase assexuada da infância. De sua parte, Benedetta estava interessada na representação do jovem atualmente, e nas várias semelhanças da cultura jovem de hoje com a cultura do romantismo, de onde surgiu Werther. Mas por que um alter ego masculino então? O que havia nessa questão que ela não podia explorar como uma mulher? Suspeito houvessem outros motivos pela escolha. Motivos anteriores ao trabalho de mestrado dela aqui em Chelsea.
Fora do âmbito da faculdade, Oreet Ashery me fora indicada por várias pessoas. A artista tinha um alter ego masculino, o judeu ortodoxo Marcus Fisher, com o qual ela investigava os rituais do judaísmo que só podíam ser presenciados por homens e os ambientes onde "homens eram homens" (Já estou ansioso pra saber o que ela achava dessa premissa, como definia-se "homens" nesses ambientes). Ela sim tinha um motivo muito específico para a escolha do alter ego do sexo oposto, mas me pergunto o quão estreita tornou-se a relação entre criador e criatura com o passar do tempo. Será que ela chegou ao ponto de adotar alguns dos hábitos de Fisher? Habitos de "homens"? Estou quase convencido de que Oreet jamais poderia efetuar aquela fusão entre masculino e feminino que tornaria o alter ego obsoleto. Para isso, ela teria que mudar todo o judaísmo. Mas acho que a nossa conversa ainda pode trazer detalhes muito interessantes.
Finalmente, fazendo a volta completa e voltando ao tema inicial, andei pesquisando Grayson Perry. Talvez a figura mais estranha do bando. Perry trabalha fazendo vasos de porcelana delicada, nos quais, à moda grega, ele pinta imagens provocantes que questionam limites de gênero. Com uma cabeleira natural loira ao estilo He-Man, ele por vezes encarna seu alter ego Claire, uma garotinha de vestido (que não é filha de açougueiros). Vale lembrar, Perry é casado com uma psicóloga e tem uma filha. O que o coloca no âmbito heterossexual (enquanto que eu ainda tenho dúvidas a respeito de Brian). Pessoalmente, acho que ele já incorpora tanto do lado feminino, que questiono a necessidade da separação entre ele e seu alter ego. Acho que ele já é ambos meio que ao mesmo tempo.
Um detalhe interessante pescado da página da Wikipedia sobre ele: ele menciona que seu trabalho reflete sobre sua criação como menino e a "ausência de aconselhamento adequado sobre conduta masculina". Adoraria conversar largamente com ele e trocar estranhices...
Este post me fez bem. Ajudou a organizar as idéias. Faz parte da minha tentativa de sair aos poucos do caos para a disciplina de novo. Mas desta vez trazendo um pouco das peculiaridades do outro lado junto comigo.
Às vezes sinto pena de não ter mantido a disciplina e escrito mais sobre o processo todo por aqui. Meu trabalho e minha cabeça já mudaram tanto, mas perdi o link entre o antes e o depois. Teria sido interessante documentar. Enfim, vamos adiante!
Ainda não consegui garantir a entrevista com Lady Lloyd. Mas andei pesquisando os outros que me interessaram.
Brian "Dawn" Chalkley dispensa apresentações. Coordenador do nosso curso de mestrado, ele se apresenta como seu alter ego, a perniciosa e exibida Dawn. Aliás, fará uma apresentação amanhã, na galeria Beers.Lambert, em uma exposição à qual me inscrevi e não fui selecionado, só com artistas lidando com questões de gênero. Nas suas apresentações, Dawn geralmente lê o "Tranny Manifesto", uma lista de frases que especificam tudo que ela é a favor. Coisas kitsch, uma mistura de cinismo bem realista e provocação debochada. Ela não está fazendo nada além de inserir detalhes pessoais de suas noitadas com executivos. Esses homens malvados que só querem o seu corpo. Daí você lembra que ela é ele... E todo mundo sabe disso, porque a maquiagem exagerada não está lá para esconder, mas para realçar o fato.
Bem diferente dele, a ex-aluna italiana Benedetta de Alessi, mestranda de Chelsea em 2009, é conhecida na internet como Oscar. Era. Oscar, uma versão atualizada e emo do jovem Werther de Goethe, cometeu suicídio no ano passado, depois de deixar uma última mensagem ao seu amante P. Benedetta fazia um esforço para que sua identidade feminina não fosse descoberta. Fotos em que ela atingia uma bem elaborada androginia ilustravam o blog de Oscar. Muitas das fotos dele ainda criança, que eram de fato fotos da própria Benedetta, naquela fase assexuada da infância. De sua parte, Benedetta estava interessada na representação do jovem atualmente, e nas várias semelhanças da cultura jovem de hoje com a cultura do romantismo, de onde surgiu Werther. Mas por que um alter ego masculino então? O que havia nessa questão que ela não podia explorar como uma mulher? Suspeito houvessem outros motivos pela escolha. Motivos anteriores ao trabalho de mestrado dela aqui em Chelsea.
Fora do âmbito da faculdade, Oreet Ashery me fora indicada por várias pessoas. A artista tinha um alter ego masculino, o judeu ortodoxo Marcus Fisher, com o qual ela investigava os rituais do judaísmo que só podíam ser presenciados por homens e os ambientes onde "homens eram homens" (Já estou ansioso pra saber o que ela achava dessa premissa, como definia-se "homens" nesses ambientes). Ela sim tinha um motivo muito específico para a escolha do alter ego do sexo oposto, mas me pergunto o quão estreita tornou-se a relação entre criador e criatura com o passar do tempo. Será que ela chegou ao ponto de adotar alguns dos hábitos de Fisher? Habitos de "homens"? Estou quase convencido de que Oreet jamais poderia efetuar aquela fusão entre masculino e feminino que tornaria o alter ego obsoleto. Para isso, ela teria que mudar todo o judaísmo. Mas acho que a nossa conversa ainda pode trazer detalhes muito interessantes.
Finalmente, fazendo a volta completa e voltando ao tema inicial, andei pesquisando Grayson Perry. Talvez a figura mais estranha do bando. Perry trabalha fazendo vasos de porcelana delicada, nos quais, à moda grega, ele pinta imagens provocantes que questionam limites de gênero. Com uma cabeleira natural loira ao estilo He-Man, ele por vezes encarna seu alter ego Claire, uma garotinha de vestido (que não é filha de açougueiros). Vale lembrar, Perry é casado com uma psicóloga e tem uma filha. O que o coloca no âmbito heterossexual (enquanto que eu ainda tenho dúvidas a respeito de Brian). Pessoalmente, acho que ele já incorpora tanto do lado feminino, que questiono a necessidade da separação entre ele e seu alter ego. Acho que ele já é ambos meio que ao mesmo tempo.
Um detalhe interessante pescado da página da Wikipedia sobre ele: ele menciona que seu trabalho reflete sobre sua criação como menino e a "ausência de aconselhamento adequado sobre conduta masculina". Adoraria conversar largamente com ele e trocar estranhices...
Este post me fez bem. Ajudou a organizar as idéias. Faz parte da minha tentativa de sair aos poucos do caos para a disciplina de novo. Mas desta vez trazendo um pouco das peculiaridades do outro lado junto comigo.
Às vezes sinto pena de não ter mantido a disciplina e escrito mais sobre o processo todo por aqui. Meu trabalho e minha cabeça já mudaram tanto, mas perdi o link entre o antes e o depois. Teria sido interessante documentar. Enfim, vamos adiante!
quarta-feira, junho 08, 2011
Finalmente, a questão
Agora que a minha calvície já virou de conhecimento público depois das fotos que apareceram no Facebook [1] [2], resolvi postar os textos que estavam esperando o vídeo de Neba me raspando a cabeça. A faculdade continua dificultando a edição desse vídeo, privilegiando os alunos da graduação que estão há uma semana da sua exposição final e precisam editar trabalhos. Então voudar continuidade à história, e vocês verão o vídeo quando ele acontecer...
Ah, sim... Se você não sabe quem é Neba, os textos que eu publiquei foram este, este e este. Leia, que você vai entender.
Bom, depois destes remendos cronológicos, preciso contar de hoje à noite.
O professor Cussans tinha indicado na nossa avaliação que eu ainda não tinha desenvolvido uma boa questão acadêmica para pesquisar. Tentei pensar nisso conscientemente, mas eu sabia que, no meu momento atual, ela viria do inconsciente, quando eu menos esperasse, e que tentar forçar a barra só ia piorar.
Achei uma possível questão quando achei a Filha do Açogueiro na antiga Foundry. Voltei a pensar na idéia de que ela viera ao mundo real simbolizando uma fusão entre minhas personas masculina e feminina, ambas agora no mundo real.
Dentre as leituras que o professor me recomendou, fui ler sobre Grayson Perry, Oreet Ashery e uma mestranda de Chelsea em 2009 chamada Benedetta de Alessi. Todos eles tinham criado alter egos do sexo oposto. As duas últimas pessoas eram mulheres com alter egos masculinos. E antes deles havia Duchamp com sua Rrose Selavy e tandos outros.
Mas o que trouxe a minha questão à tona foi perceber que todos eles haviam mantido uma separação clara entre suas identidades e seus alter egos.
Era o mesmo problema que apontei aqui em relação à personagem drag do professor Brian Chalkley. Quando a arte acabava, aquela personagem entrava em um estado de suspensão, latência, momentaneamente deixava de existir. E o artista voltava ao seu gênero original.
Então a pergunta (que ainda estou elaborando melhor...) seria: "por que é preciso um personagem separado?" Ou então: "seria possível incorporar o personagem, fundi-lo à identidade principal para que as características do gênero oposto exploradas através dele passassem a ser características da identidade principal?"
Fiquei muito feliz com o ímpeto investigativo que isso desperto em mim. Queria entrevistar esses artistas. Perguntar sobre os personagens e como eles tinham mudado seus hábitos. Perguntar se a divisão entre personagem e artista tinha sido borrada com os anos e entender os casos em que ela persistia.
Corte repentino para um bar no distrito do baixo meretrício perto de Leicester Square. O Escape ficava em Brewer Street, uma rua conhecida pelos sex shops e comunidade GLBT. Eu estivera no Escape um par de vezes, atraído por curiosidade ao único karaokê disponível e barato que eu encontrara, sugestivamente chamado Trannyoke. O evento acontecia às quartas no Escape, liderado por uma drag que atendia pelo nome de Lady Lloyd. O lugar, como a maioria dos karaokês, mostrava pouca clientela, apesar de Lloyd e uma trupe de outras figuras manterem o clima bem animado.
Eu estava de novo no Escape, novamente aproveitando a noite de pouco movimento para cantar, causar uma impressão favorável em Lady Lloyd e com sorte conseguir que ele(a - putz, que gênero eu uso?) concordasse em ceder-me uma entrevista. A noite correu muito bem, rápida e sem complicações. Lloyd me deu seu e-mail e disse-me para procurá-lo(a - isso é meio desconfortável...) no Facebook. E que adoraria fazer parte dessa entrevista.
Adorei o modo como terminamos a conversa, com Lady Lloyd avisando que teríamos que combinar algo durante a noite, porque de dia ele(a - tá, vou parar com isso...) não existia. Vampírico, dividido, perfeito para a entrevista...
Ah, sim... Se você não sabe quem é Neba, os textos que eu publiquei foram este, este e este. Leia, que você vai entender.
Bom, depois destes remendos cronológicos, preciso contar de hoje à noite.
O professor Cussans tinha indicado na nossa avaliação que eu ainda não tinha desenvolvido uma boa questão acadêmica para pesquisar. Tentei pensar nisso conscientemente, mas eu sabia que, no meu momento atual, ela viria do inconsciente, quando eu menos esperasse, e que tentar forçar a barra só ia piorar.
Achei uma possível questão quando achei a Filha do Açogueiro na antiga Foundry. Voltei a pensar na idéia de que ela viera ao mundo real simbolizando uma fusão entre minhas personas masculina e feminina, ambas agora no mundo real.
Dentre as leituras que o professor me recomendou, fui ler sobre Grayson Perry, Oreet Ashery e uma mestranda de Chelsea em 2009 chamada Benedetta de Alessi. Todos eles tinham criado alter egos do sexo oposto. As duas últimas pessoas eram mulheres com alter egos masculinos. E antes deles havia Duchamp com sua Rrose Selavy e tandos outros.
Mas o que trouxe a minha questão à tona foi perceber que todos eles haviam mantido uma separação clara entre suas identidades e seus alter egos.
Era o mesmo problema que apontei aqui em relação à personagem drag do professor Brian Chalkley. Quando a arte acabava, aquela personagem entrava em um estado de suspensão, latência, momentaneamente deixava de existir. E o artista voltava ao seu gênero original.
Então a pergunta (que ainda estou elaborando melhor...) seria: "por que é preciso um personagem separado?" Ou então: "seria possível incorporar o personagem, fundi-lo à identidade principal para que as características do gênero oposto exploradas através dele passassem a ser características da identidade principal?"
Fiquei muito feliz com o ímpeto investigativo que isso desperto em mim. Queria entrevistar esses artistas. Perguntar sobre os personagens e como eles tinham mudado seus hábitos. Perguntar se a divisão entre personagem e artista tinha sido borrada com os anos e entender os casos em que ela persistia.
Corte repentino para um bar no distrito do baixo meretrício perto de Leicester Square. O Escape ficava em Brewer Street, uma rua conhecida pelos sex shops e comunidade GLBT. Eu estivera no Escape um par de vezes, atraído por curiosidade ao único karaokê disponível e barato que eu encontrara, sugestivamente chamado Trannyoke. O evento acontecia às quartas no Escape, liderado por uma drag que atendia pelo nome de Lady Lloyd. O lugar, como a maioria dos karaokês, mostrava pouca clientela, apesar de Lloyd e uma trupe de outras figuras manterem o clima bem animado.
Eu estava de novo no Escape, novamente aproveitando a noite de pouco movimento para cantar, causar uma impressão favorável em Lady Lloyd e com sorte conseguir que ele(a - putz, que gênero eu uso?) concordasse em ceder-me uma entrevista. A noite correu muito bem, rápida e sem complicações. Lloyd me deu seu e-mail e disse-me para procurá-lo(a - isso é meio desconfortável...) no Facebook. E que adoraria fazer parte dessa entrevista.
Adorei o modo como terminamos a conversa, com Lady Lloyd avisando que teríamos que combinar algo durante a noite, porque de dia ele(a - tá, vou parar com isso...) não existia. Vampírico, dividido, perfeito para a entrevista...
sábado, junho 04, 2011
Brick Lane e a volta da garota desaparecida
Naquele fim de semana, também passei pela Brick Lane. A rua emblemática de Londres tornou-se um dos points mais recentes, tomando um pouco do monopólio de Camden Town.
Na verdade, era uma questão tribal.
Camden tornara-se o reduto de uma cultura punk, gótica e clubber. Eram culturas que tinham um visual mais violento, mas uma índole muito boa se você conseguisse passar a barreira do visual. Eu mesmo adorava o visual, e junto com minha Lexy, tínhamos visitado Camden várias vezes para comprar nossos pinduricalhos de couro e caveiras.
Brick Lane era outro território. Quando o punk e gótico virou mainstream demais, surgiram alternativas, etre elas os hipsters. E é em Brick Lane que eles comprar suas roupas estilo "minha avó tinha" e almoçam culinária vegetariana do oriente médio ou algo do gênero.
[Tá, deu pra notar que eu sou mais da outra tribo mesmo...]
E por que é que eu tinha ido a um lugar desses? Além de ter ouvido falar muito a respeito, eu estava procurando uma pela de roupa. Sim, roupa. Não, eu não ia aderir à moda hipster. Eu estava interessado em achar algo ridiculamente barato que parecesse vagamente com os trajes da Butcher's Daughter, já que preparava o terreno para ela ser "encontrada" depois de seus dois meses de ausência. Não achei nada que não tivesse estampas floridas. Voltei de mãos vazias.
No caminho de volta, além de ver o vídeo de Dinh Q. Le, resolvi dar uma passada por Old Street. Eu estivera por lá pela primeira vez antes da viagem para a Romênia, em um tour guiado pelo bairro para ver o grafite dos artistas locais. Lá, tinha encontrado duas obras de grafiteiros conterrâneos: um grafite enorme do Zezão e outro do Milo Tchais. E tinha ficado com essa idéia fixa na cabeça de que, se minha açogueira ruiva tinha fugido dos cartões, ela deveria aparecer lá, nas ruas de Londres, perdida e misteriosamente atraída por esses grafites. Mas como executar a idéia?
O local em questão era um terreno vazio, servindo de estacionamento até o último dia de Maio, quando seria fechado para medições e a construção de um hotel. Eu estivera rondando aquele local por semanas, esperando uma chance. As leis em Londres contra o grafite são severas, e as câmeras de vigilância, presentes em todos os lugares, me intimidaram bastante. Ficava imaginando que ter problemas com a lei sendo um estrangeiro não seria boa idéia...
Mas naquele sábado, encontrei o local aberto.
Um par de trabalhadores russos construia um pequeno chalé em um dos cantos do terreno. Não souberam me dizer quem era responsável pelo local. Sem esmorecer, corri para a faculdade para pegar meu material. Eu tinha feito uma pintura da minha personagem em jornal: o plano era fazer um "paste up", colando o jornal na parede como lambe-lambe e passando uma camada de cola por cima para proteger das intempéries.
Mas quando voltei, os portões estavam fechados novamente...
Quase desisti de todo o negócio. Aquele era o último fim de semana para aquilo. Mas então, vi a porta da galeria ao lado aberta. Qual não foi minha surpresa ao perceber que se tratava de uma galeria onde uma colega tcheca estava expondo um de seus trabalhos em uma exposição em grupo! O assunto me ajudou a ganhar crédito com os donos da galeria, que eram de fato os responsáveis atuais pelo local ao lado.
O dono da galeria, o também tcheco Yarda, deu uma olhada no meu jornal e nas imagens da Butcher's Daughter na internet, e não hesitou em me dar permissão não só para colar o jornal, como para pintar a personagem diretamente na parede, se eu quisesse. Se eu quisesse? Claro que queria!http://www.blogger.com/img/blank.gif
Assim que, na terça seguinte, voltei para o local com os materiais apropriados e passei o dia trabalhando. E na noite de quarta, anunciei ao Facebook que eu tinha encontrado minha pequena e truculenta ruiva, perdida e desorientada, em um terreno vazio em Londres!
"Delirante, ela insistia que não era real nesta realidade.
A cena deveria acontecer como seu eu, seu pai, a tivesse encontrado e a estivesse levando para casa. Mas eu era de fato seu pai? Eu jamais trabalhara em açougues e o pai para quem ela escrevia sempre fora outro além de mim na minha compreensão dos cartões postais. No mais, ela também era meu alter ego feminino. Eu era o criador, pai, e ao mesmo tempo a existência paralela dela." [do blog profissional]
Na verdade, era uma questão tribal.
Camden tornara-se o reduto de uma cultura punk, gótica e clubber. Eram culturas que tinham um visual mais violento, mas uma índole muito boa se você conseguisse passar a barreira do visual. Eu mesmo adorava o visual, e junto com minha Lexy, tínhamos visitado Camden várias vezes para comprar nossos pinduricalhos de couro e caveiras.
Brick Lane era outro território. Quando o punk e gótico virou mainstream demais, surgiram alternativas, etre elas os hipsters. E é em Brick Lane que eles comprar suas roupas estilo "minha avó tinha" e almoçam culinária vegetariana do oriente médio ou algo do gênero.
[Tá, deu pra notar que eu sou mais da outra tribo mesmo...]
E por que é que eu tinha ido a um lugar desses? Além de ter ouvido falar muito a respeito, eu estava procurando uma pela de roupa. Sim, roupa. Não, eu não ia aderir à moda hipster. Eu estava interessado em achar algo ridiculamente barato que parecesse vagamente com os trajes da Butcher's Daughter, já que preparava o terreno para ela ser "encontrada" depois de seus dois meses de ausência. Não achei nada que não tivesse estampas floridas. Voltei de mãos vazias.
No caminho de volta, além de ver o vídeo de Dinh Q. Le, resolvi dar uma passada por Old Street. Eu estivera por lá pela primeira vez antes da viagem para a Romênia, em um tour guiado pelo bairro para ver o grafite dos artistas locais. Lá, tinha encontrado duas obras de grafiteiros conterrâneos: um grafite enorme do Zezão e outro do Milo Tchais. E tinha ficado com essa idéia fixa na cabeça de que, se minha açogueira ruiva tinha fugido dos cartões, ela deveria aparecer lá, nas ruas de Londres, perdida e misteriosamente atraída por esses grafites. Mas como executar a idéia?
O local em questão era um terreno vazio, servindo de estacionamento até o último dia de Maio, quando seria fechado para medições e a construção de um hotel. Eu estivera rondando aquele local por semanas, esperando uma chance. As leis em Londres contra o grafite são severas, e as câmeras de vigilância, presentes em todos os lugares, me intimidaram bastante. Ficava imaginando que ter problemas com a lei sendo um estrangeiro não seria boa idéia...
Mas naquele sábado, encontrei o local aberto.
Um par de trabalhadores russos construia um pequeno chalé em um dos cantos do terreno. Não souberam me dizer quem era responsável pelo local. Sem esmorecer, corri para a faculdade para pegar meu material. Eu tinha feito uma pintura da minha personagem em jornal: o plano era fazer um "paste up", colando o jornal na parede como lambe-lambe e passando uma camada de cola por cima para proteger das intempéries.
Mas quando voltei, os portões estavam fechados novamente...
Quase desisti de todo o negócio. Aquele era o último fim de semana para aquilo. Mas então, vi a porta da galeria ao lado aberta. Qual não foi minha surpresa ao perceber que se tratava de uma galeria onde uma colega tcheca estava expondo um de seus trabalhos em uma exposição em grupo! O assunto me ajudou a ganhar crédito com os donos da galeria, que eram de fato os responsáveis atuais pelo local ao lado.
O dono da galeria, o também tcheco Yarda, deu uma olhada no meu jornal e nas imagens da Butcher's Daughter na internet, e não hesitou em me dar permissão não só para colar o jornal, como para pintar a personagem diretamente na parede, se eu quisesse. Se eu quisesse? Claro que queria!http://www.blogger.com/img/blank.gif
Assim que, na terça seguinte, voltei para o local com os materiais apropriados e passei o dia trabalhando. E na noite de quarta, anunciei ao Facebook que eu tinha encontrado minha pequena e truculenta ruiva, perdida e desorientada, em um terreno vazio em Londres!
"Delirante, ela insistia que não era real nesta realidade.
A cena deveria acontecer como seu eu, seu pai, a tivesse encontrado e a estivesse levando para casa. Mas eu era de fato seu pai? Eu jamais trabalhara em açougues e o pai para quem ela escrevia sempre fora outro além de mim na minha compreensão dos cartões postais. No mais, ela também era meu alter ego feminino. Eu era o criador, pai, e ao mesmo tempo a existência paralela dela." [do blog profissional]
Dinh Q. Lê e as mazelas de pai pra filho
No sábado passado, fui até a Whitechapel Gallery assistir ao vídeo de do artista vietnamita Dinh Q. Le. O vídeo, separando a tela ao meio, uma delas passando cenas do ator Charlie Sheen no filme Platoon, e a outra com cenas de seu pai, Martin Sheen em Apocalypse Now. A montagem de Le era muito interessante. O começo tinha um filho olhando com um misto de preocupação e confusão para a tela ao lado (originalmente olhando para o horizonte no filme), onde o pai, isolado em um quarto de hotel, enlouquecia lentamente, lidando com os efeitos psicológicos do pós-guerra. O filho então vai seguir os passos do pai, anacronicamente participando até da mesma guerra. Há até um brevedueto de cenas em que o pai pergunta ao filho por que ele entrou para o exército, e o filho responde que seu pai e avô tinham lutado pelo país e ele queria fazer o mesmo, ao que o pai responde que com certeza ele não ia aprender nada sobre si mesmo trabalhan do em alguma fábrica no interior dos EUA. Pai e filho estão presos, escravizados por uma lógica circular que se reproduz de geração para geração, e que os faz vítimas seduzidas de uma violência que sequer lhes diz respeito e um horror que eles enfrentam com medo e deleite. As cenas emblemáticas se repetem em ambos os filmes, com pai e filho atravessando um tipo de rito de passagem para a masculinidade adulta que exige que eles matem seus superiores. A montagem termina com uma inversão, onde o pai olha com um misto de preocupação e culpa para um filho que lida à sua maneira com o lento enlouquecer dos traumas de guerra, seu espírito paradoxalmente quebrado e fortificado pelo horror que ele procurou voluntariamente (?) seguindo os passos do pai.
O resto são contingências que parecem se encaixar perfeitamente. O fato do artista ser vietnamita faz da obra algo um pouco menos americanófilo. E os recentes escândalos envolvendo Sheen Filho parecem incrementar ainda mais a imagem do moleque que aprendeu da influência patológica de um pai que provavelmente também aprendeu da influência patológica de um avô (e assim sucessivamente...).
O resto são contingências que parecem se encaixar perfeitamente. O fato do artista ser vietnamita faz da obra algo um pouco menos americanófilo. E os recentes escândalos envolvendo Sheen Filho parecem incrementar ainda mais a imagem do moleque que aprendeu da influência patológica de um pai que provavelmente também aprendeu da influência patológica de um avô (e assim sucessivamente...).
terça-feira, maio 31, 2011
Visiting Vlad - Vídeo 2
Legendas disponíveis! Procure o "CC".
Referente aos textos: [Lost in Brasov] [Brasov by day] [Bran castle]
segunda-feira, maio 30, 2011
Retorno à Ordem
Já faz algum tempo que meus posts por aqui têm rareado. Desde depois que voltei da Romênia. Aliás, editando os vídeos da viagem, a memória já começa a ganhar aquele tom de incerteza, como seu eu tivesse sonhado que estive por lá. Não acredito. Foi uma imersão na minha fantasia de infância, e o gosto foi muito bom. Mas estou digredindo....
Não tenho escrito muito, porque as semanas desde logo antes da viagem começaram a me dar aqueles sinais de que eu estava mergulhando em outra daquelas épocas de caos visceral que me acontecem de tempos em tempos. Eu cedo aos impulsos mais viscerais e vou cometer loucuras, ou pensar sobre os assuntos que eu censuro nas épocas de ordem. E andei pensando muito mesmo. Sobre os traumas de adolescência e o porquê de eu estar tão obcecado com questões de gênero. Andei cometendo as pequenas loucuras relativas a isso tudo, raspando não só o cabelo e a barba para conversar com um eu mais antigo e mais feminino. Andei me disciplinando a não roer as unhas como sempre faço para vê-las crescer e ponderar a utilidade e a beleza/estranheza de unhas longas em homens. E como sempre, nesse meu reinventar-me que geralmente me faz meio peculiar, fui ficando um pouco mais isolado, um pouco mais anti-social. Ensimesmado. Como um psicopata que sabe que deve esconder o crime que cometeu, mas ainda deleita-se nele. Andei me deleitando com uma androginia malformada, vampírica como o conde do Murnau, confortável e sedutora. Mas que ao mesmo tempo tinha meus colegas perguntando detalhes ou passando reto sem me reconhecer.
Mas quando o caos vem, ele toma conta de tudo. Há alguns dias, acordei e me dei conta da situação. Meu banheiro tinha mais pelos no chão do que eu. O quadro de cortiça onde eu andava organizando idéias do mestrado era uma coleção de começos sem desenvolvimento. O blog tinha vários posts atrasados enquanto eu tentava editar o vídeo de Neba raspando-me a cabeça, para manter a surpresa. Eu já não estava conseguindo coordenar as tarefas domésticas como antes. As unhas causavam mais erros no digitar das traduções (embora fossem fantásticas para descascar laranjas...).
Mas acho que nada disso me incomodava assim tremendamente. O que andava me roendo era o modo como minha produção de arte para o mestrado tinha se tornado tão experimental, mas tão experimental, que dissolvera-se em nada. Tornara-se um viver, uma mudança nos modos de vida. Mas além de mim mesmo, eu não tinha mais nada para mostrar. Nada para inscrever nas exposições, para mostrar aos tutores. O caos, como sempre, trouxera gosto à vida, mas um gosto que era saboreado no presente, sem memórias para virarem passado, e sem planos para o futuro.
Comecei a perceber uma vontade de organizar as minhas coisas, de traçar planos factíveis, metas. Vontade de voltar a pintar para ter um produto apresentável. Vontade de aproveitar o aprendizado dessa época de me reinventar para consolidar algumas coisas e abandonar outros experimentos que não tinham levado a nada. Engraçado, eu nunca tinha documentado meus retornos à ordem. Sempre escrevi por aqui das épocas em que eu cansava da vida regrada e descia essa espiral do caos. Mas nunca tinha marcado os momentos em que eu caía em mim e percebia que o caos não estava mais rendendo. Esses momentos de nada.
Não tenho escrito muito, porque as semanas desde logo antes da viagem começaram a me dar aqueles sinais de que eu estava mergulhando em outra daquelas épocas de caos visceral que me acontecem de tempos em tempos. Eu cedo aos impulsos mais viscerais e vou cometer loucuras, ou pensar sobre os assuntos que eu censuro nas épocas de ordem. E andei pensando muito mesmo. Sobre os traumas de adolescência e o porquê de eu estar tão obcecado com questões de gênero. Andei cometendo as pequenas loucuras relativas a isso tudo, raspando não só o cabelo e a barba para conversar com um eu mais antigo e mais feminino. Andei me disciplinando a não roer as unhas como sempre faço para vê-las crescer e ponderar a utilidade e a beleza/estranheza de unhas longas em homens. E como sempre, nesse meu reinventar-me que geralmente me faz meio peculiar, fui ficando um pouco mais isolado, um pouco mais anti-social. Ensimesmado. Como um psicopata que sabe que deve esconder o crime que cometeu, mas ainda deleita-se nele. Andei me deleitando com uma androginia malformada, vampírica como o conde do Murnau, confortável e sedutora. Mas que ao mesmo tempo tinha meus colegas perguntando detalhes ou passando reto sem me reconhecer.
Mas quando o caos vem, ele toma conta de tudo. Há alguns dias, acordei e me dei conta da situação. Meu banheiro tinha mais pelos no chão do que eu. O quadro de cortiça onde eu andava organizando idéias do mestrado era uma coleção de começos sem desenvolvimento. O blog tinha vários posts atrasados enquanto eu tentava editar o vídeo de Neba raspando-me a cabeça, para manter a surpresa. Eu já não estava conseguindo coordenar as tarefas domésticas como antes. As unhas causavam mais erros no digitar das traduções (embora fossem fantásticas para descascar laranjas...).
Mas acho que nada disso me incomodava assim tremendamente. O que andava me roendo era o modo como minha produção de arte para o mestrado tinha se tornado tão experimental, mas tão experimental, que dissolvera-se em nada. Tornara-se um viver, uma mudança nos modos de vida. Mas além de mim mesmo, eu não tinha mais nada para mostrar. Nada para inscrever nas exposições, para mostrar aos tutores. O caos, como sempre, trouxera gosto à vida, mas um gosto que era saboreado no presente, sem memórias para virarem passado, e sem planos para o futuro.
Comecei a perceber uma vontade de organizar as minhas coisas, de traçar planos factíveis, metas. Vontade de voltar a pintar para ter um produto apresentável. Vontade de aproveitar o aprendizado dessa época de me reinventar para consolidar algumas coisas e abandonar outros experimentos que não tinham levado a nada. Engraçado, eu nunca tinha documentado meus retornos à ordem. Sempre escrevi por aqui das épocas em que eu cansava da vida regrada e descia essa espiral do caos. Mas nunca tinha marcado os momentos em que eu caía em mim e percebia que o caos não estava mais rendendo. Esses momentos de nada.
domingo, maio 29, 2011
Agradecimento
Nota rápida enquanto tento lidar com as trezentas urgências que estão acontecendo ultimamente.
Entre elas, o catálogo da exposição final da turma. Quando não fui eleito para ser o representante de classe da turma de mestrado, resolvi ainda me envolver com os assuntos gerenciais da turma. Meio como forma de compensar a minha apatia nos anos da graduação. Acabei coordenando a produção do catálogo, já que eu tinha experiência (não muita...) no mercado editorial e de design.
Ultimamente dei o aviso para começar a coletar informações da turma, para que todos me mandassem seus dados iniciais. Tenho recebido muitos e-mails com os dados que vêm com mensagens da turma, agradecendo-me imensamente por estar fazendo isso. Fico feliz, muito feliz, e me sinto importante. Me sinto um pouco menos "estrangeiro ignorante". Mais do que isso, é um aprendizado: preciso aprender a ser mais agradecido com as pessoas que ajudam como eu estou fazendo agora. Um simples "obrigado, o que você está fazendo significa muito para mim" já faz toda a diferença.
Entre elas, o catálogo da exposição final da turma. Quando não fui eleito para ser o representante de classe da turma de mestrado, resolvi ainda me envolver com os assuntos gerenciais da turma. Meio como forma de compensar a minha apatia nos anos da graduação. Acabei coordenando a produção do catálogo, já que eu tinha experiência (não muita...) no mercado editorial e de design.
Ultimamente dei o aviso para começar a coletar informações da turma, para que todos me mandassem seus dados iniciais. Tenho recebido muitos e-mails com os dados que vêm com mensagens da turma, agradecendo-me imensamente por estar fazendo isso. Fico feliz, muito feliz, e me sinto importante. Me sinto um pouco menos "estrangeiro ignorante". Mais do que isso, é um aprendizado: preciso aprender a ser mais agradecido com as pessoas que ajudam como eu estou fazendo agora. Um simples "obrigado, o que você está fazendo significa muito para mim" já faz toda a diferença.
terça-feira, maio 24, 2011
Mercado vs Academia
Ontem assisti a uma palestra interessante por aqui.
Uma pesquisadora PhD falou um pouco sobre a carreira de artes, de um modo bem direito e sem rodeios ou romantismos. Deu dicas de como se aproximas dos galeristas e colecionadores, do que inspira segurança nesses possíveis investidores e como começar a carreira depois da formatura (a palestra, aliás, era dirigida aos alunos de graduação, mas alguns de nós mestrandos soubemos e achamos interessante).
Achei muito boa a iniciativa. Eu sinto falta desse tipo de palestra na carreira de artes. E aliás, quando saí da publicidade para tentar levar a sério as artes, pensei em dar esses conselhos por aqui, se eu os descobrisse. Até cheguei a falar de algumas coisas. A palestra de ontem teve vários desses insights, mas eu queria falar de um dos mais relevantes.
Essa pesquisadora mencionou que colecionadores e galeristas gostam de uma certa estabilidade na produção. Até aí, a idéia de que quantidade faz mais carreira do que qualidade não é nada novo. Já comentei sobre ela, e acho relevante principalmente em uma época onde as artes admitem o pastiche, a coisa feita nas coxas e a "apropriação" como estratégias criativas. Mas ela comentou sobre outra estabilidade, a da escolha de mídia. Disse que investidores gostam quando o artista tem uma série coesa de pinturas, por exemplo. Ou que tenha feito fotos desde que saiu da faculdade. Dá uma certa insegurança neles quando o artista faz algumas pinturas, um punhado de performances, uns quantos vídeos e se interessa por instalações [Oi? Falando comigo?]. Faz sentido: investir num artista desses é comprar gato por lebre. Se você, galerista, sabe que seus colecionadores de estimação adoram pintura mas não sabem o que fazer com uma performance, você tem que investir especificamente em pintores. Não nos ditos "artistas multi-mídia".
Daí tem o outro lado, o da academia. Uma instituição de ensino das artes não vai te dar esse fato assim, de mão beijada, porque ela corre o risco de você abandonar qualquer reflexão pessoal e experimentação, que gerariam bom conteúdo acadêmico, para correr atrás dos "ítens da lista" das galerias. Correm o risco de seus alunos acabarem montando uma linha de produção de obras todas iguais (que na verdade, depois de alguma pesquisa e desenvolvimento, é exatamente o que as galerias querem). Não, a academia vai te dizer outra coisa: "experimente, tente o que você nunca fez antes". Foi exatamente o que eu ouvi em Chelsea. E é um bom conselho. Foi um bom conselho. Mas cá entre nós, não desenvolve carreira (exceto, claro, a acadêmica). Lembra-me um pouco o jeito que o Dudi Maia Rosa tinha de evitar o assunto do mercado sempre que eu lhe perguntava sobre a carreira: dizia que isso não é importante, eu que não devia pensar nisso, devia pensar na pintura. Concordo até certo ponto, mas além desse ponto, acho tudo meio romantismos artísticos totalmente não-pragmáticos.
Diante dos fatos, estou em uma encruzilhada. Um caminho é desenvolver uma produção constante do que eu sei fazer (pinturas, muitas, com uma identidade comum entre elas, como a série do TBC), para tentar seduzir galerias e colecionadores. O outro é continuar a experimentação e o desenvolvimento de dissertações sobre um tema, independente da produção artística. Ambos tem seus poréns. Eu até posso desenvovler uma série extensa de pinturas, mas não sei fazer a política necessária para as galerias. Eu também posso continuar pesquisando as questões masculistas e escrevendo a respeito (aliás, a área onde eu tenho me saído melhor por aqui), mas para isso ainda preciso descobrir qual é a minha pergunta, o que eu estou querendo saber com a pesquisa. E eu sinto que eu na verdade não estou "querendo saber" nada, apenas procurando um jeito de me sentir bem sendo homem e lidar com os traumas do passado.
O ideal, suponho, seria descobrir um meio termo saudável. Me ego pensando, daquele jeito frio que eu faço às vezes, em planejar o ano que vem para passar seis meses dando ênfase napesquisa e seis meses dando ênfase na produção. Claro que com instâncias de um no outro. Tudo para mim é equilíbrio. E não é à toa que o símbolo de Yin-Yang tem um ponto de cada cor dentro da outra.
Mas sei que, como consequência, andei pensando em voltar à pintura para ter material pra trazer de volta quando o curso acabar. Ontem, no fim do dia, limpei minha parede do estúdio e preguei alguns tantos papéis.
Desenhei furiosamente até fecharem a faculdade.
Uma pesquisadora PhD falou um pouco sobre a carreira de artes, de um modo bem direito e sem rodeios ou romantismos. Deu dicas de como se aproximas dos galeristas e colecionadores, do que inspira segurança nesses possíveis investidores e como começar a carreira depois da formatura (a palestra, aliás, era dirigida aos alunos de graduação, mas alguns de nós mestrandos soubemos e achamos interessante).
Achei muito boa a iniciativa. Eu sinto falta desse tipo de palestra na carreira de artes. E aliás, quando saí da publicidade para tentar levar a sério as artes, pensei em dar esses conselhos por aqui, se eu os descobrisse. Até cheguei a falar de algumas coisas. A palestra de ontem teve vários desses insights, mas eu queria falar de um dos mais relevantes.
Essa pesquisadora mencionou que colecionadores e galeristas gostam de uma certa estabilidade na produção. Até aí, a idéia de que quantidade faz mais carreira do que qualidade não é nada novo. Já comentei sobre ela, e acho relevante principalmente em uma época onde as artes admitem o pastiche, a coisa feita nas coxas e a "apropriação" como estratégias criativas. Mas ela comentou sobre outra estabilidade, a da escolha de mídia. Disse que investidores gostam quando o artista tem uma série coesa de pinturas, por exemplo. Ou que tenha feito fotos desde que saiu da faculdade. Dá uma certa insegurança neles quando o artista faz algumas pinturas, um punhado de performances, uns quantos vídeos e se interessa por instalações [Oi? Falando comigo?]. Faz sentido: investir num artista desses é comprar gato por lebre. Se você, galerista, sabe que seus colecionadores de estimação adoram pintura mas não sabem o que fazer com uma performance, você tem que investir especificamente em pintores. Não nos ditos "artistas multi-mídia".
Daí tem o outro lado, o da academia. Uma instituição de ensino das artes não vai te dar esse fato assim, de mão beijada, porque ela corre o risco de você abandonar qualquer reflexão pessoal e experimentação, que gerariam bom conteúdo acadêmico, para correr atrás dos "ítens da lista" das galerias. Correm o risco de seus alunos acabarem montando uma linha de produção de obras todas iguais (que na verdade, depois de alguma pesquisa e desenvolvimento, é exatamente o que as galerias querem). Não, a academia vai te dizer outra coisa: "experimente, tente o que você nunca fez antes". Foi exatamente o que eu ouvi em Chelsea. E é um bom conselho. Foi um bom conselho. Mas cá entre nós, não desenvolve carreira (exceto, claro, a acadêmica). Lembra-me um pouco o jeito que o Dudi Maia Rosa tinha de evitar o assunto do mercado sempre que eu lhe perguntava sobre a carreira: dizia que isso não é importante, eu que não devia pensar nisso, devia pensar na pintura. Concordo até certo ponto, mas além desse ponto, acho tudo meio romantismos artísticos totalmente não-pragmáticos.
Diante dos fatos, estou em uma encruzilhada. Um caminho é desenvolver uma produção constante do que eu sei fazer (pinturas, muitas, com uma identidade comum entre elas, como a série do TBC), para tentar seduzir galerias e colecionadores. O outro é continuar a experimentação e o desenvolvimento de dissertações sobre um tema, independente da produção artística. Ambos tem seus poréns. Eu até posso desenvovler uma série extensa de pinturas, mas não sei fazer a política necessária para as galerias. Eu também posso continuar pesquisando as questões masculistas e escrevendo a respeito (aliás, a área onde eu tenho me saído melhor por aqui), mas para isso ainda preciso descobrir qual é a minha pergunta, o que eu estou querendo saber com a pesquisa. E eu sinto que eu na verdade não estou "querendo saber" nada, apenas procurando um jeito de me sentir bem sendo homem e lidar com os traumas do passado.
O ideal, suponho, seria descobrir um meio termo saudável. Me ego pensando, daquele jeito frio que eu faço às vezes, em planejar o ano que vem para passar seis meses dando ênfase napesquisa e seis meses dando ênfase na produção. Claro que com instâncias de um no outro. Tudo para mim é equilíbrio. E não é à toa que o símbolo de Yin-Yang tem um ponto de cada cor dentro da outra.
Mas sei que, como consequência, andei pensando em voltar à pintura para ter material pra trazer de volta quando o curso acabar. Ontem, no fim do dia, limpei minha parede do estúdio e preguei alguns tantos papéis.
Desenhei furiosamente até fecharem a faculdade.
segunda-feira, maio 23, 2011
Loosing it
Parece engraçado que eu tenha começado a me deprimir por aqui justo agora que a primavera chegou. Tinham me acautelado sobre os males do inverno londrino no humor de indivíduos solitários, mas confesso que passei o inverno muito bem, rodeado de livros, arte e as minhas pequenas manias. Mas agora que tudo está explodindo em flores e os belos ingleses estão todos cochilando nos amplos gramados dos parques, eu estou começando a sentir o puxar da tristeza e do vazio. As razões são várias, embora eu já tenha aprendido a não tentar explicar sentimentos com razão.
Vamos por âmbitos.
No âmbito profissional, enquanto vejo alguns colegas entrarem em algumas exposições, eu continuo sendo negado. Não consegui até agora nada além de exposições sem curadoria. Eu começo a me convencer da minha mediocridade na carreira das artes, pois embora eu consiga maravilhar ou ao menos entreter amigos e parentes, eu ainda estou fora da esfera profissional. Não importa quantos diplomas de quais universidades eu tenha. Falta-me o tato social, a política, e falta-me até mesmo um quê a mais na minha arte. Devo admitir no entanto que esse golpe de realidade tem seus benefícios: liberado desses delírios de grandeza, eu fico mais à vontade para procurar o retorno financeiro puro e simples. Penso em voltar ao Brasil, porque ao menos lá eu já aprendi, nos dois anos que se passaram desde que abandonei a publicidade, a ganhar dinheiro de verdade, o suficiente para ir além do sustento e me permitir alguns luxos. E a perspectiva de usar o mestrado para tornar-me professor na escola onde estudei me parece, embora não tão excitante, ao menos segura e satisfatória. Estou cansando da minha própria soberba, de acreditar em mim mesmo mas não ver ninguém mais no mercado acreditando.
No âmbito pessoal, além da óbvia falta da minha Lexy, sinto a falta de amigos. Caminho pelos gramados dos parques forrados de ingleses fazendo pic nic no sol e tento absorver um pouco desse sentimento gregário, dessa felicidade primaveril. Mas tudo parece auto-enganação quando eu mesmo estou só. Eu poderia chamar meus colegas de mestrado. Ou um ou outro conhecido de fora da faculdade. Eu sempre aconselhei meus amigos no Brasil a procurarem companhia em vez de esperarem ser procurados. Falta-me fazer isso. Mas mesmo quando estou com essas pessoas aqui, como nas idas ao parque que fizemos nas últimas semanas do mestrado antes desse recesso, sinto-me inadequado, desconfortável. Um estrangeiro sem modos, ignorante e inculto. Sinto que não sei o que se passa ao meu redor durante boa parte do tempo. Será que eu sentia isso também no meu país, com os meus amigos? Acho que um pouco. E se é o caso, vejo-me fadado a uma existência complicada, entre o precisar de companhia para aproveitar melhor a vida, e precisar da solidão quando passo a me sentir inadequado assim. Neste exato momento, eu queria que me convidassem para sair.
Adicionando a esta nota, meus companheiros de apê já aprenderam que existe um abismo entre nós, formado pela diferença de idade, maturidade e cultura. Eu sou o tio estrangeiro com mania de organização e limpeza, que não se droga e pouco bebe. Uma daquelas figuras nerds e anti-sociais, nada interessantes. Eles não têm por que me chamar pra sair. Mais importante, eu não tenho porque aceitar...
No âmbito doméstico, eu vejo a prisão que montei ao meu redor, de rotina e assepsia. Era muito divertido e gratificante no começo da minha estadia aqui ter um quarto totalmente sob meu controle, uma rotina semanal muito eficiente, e uma situação de afazeres simplificada pelo fato de eu estar meio que "começando do zero" aqui em Londres. Mas o tempo passou, aquelas pequenas trivialidades inúteis (papéis, cupons de lojas de arte, notas de jornal sobre lugares a visitar, anotações de livros a procurar) foram empilhando no canto de afazeres da mesa e a faculdade me apresentou uma miríade de coisas que eu gostaria de fazer. Organizar tudo isso de forma coerente tem me estressado e sinto estar perdendo o controle das coisas. Por outro lado, sinto que às vezes estou levando esse controle mais a sério do que a necessidade de viver a vida. Me contendo para manter o controle. Sinto ainda que uma parte de mim está resistindo ao impulso de simplesmente deixar tudo explodir e perder o controle, que seria o conselho natural que eu receberia de metade de vocês leitores, porque eu estou rodeado de pessoas no apê que não têm controle algum. E eu desprezo imensamente as consequências dessa atitude com as quais eu tenho que lidar todos os dias: a comida estragada, a cozinha entulhada de panelas e pratos, os utensilhos faltando, as reclamações do proprietário do apê.
Estejam atentos: a qualquer momento, isso tudo vai explodir em alguma atitude extrema. Mas não se preocupem, eu sei me manter seguro e saudável. Vai ser apenas um pouco mais... estranho.
Vamos por âmbitos.
No âmbito profissional, enquanto vejo alguns colegas entrarem em algumas exposições, eu continuo sendo negado. Não consegui até agora nada além de exposições sem curadoria. Eu começo a me convencer da minha mediocridade na carreira das artes, pois embora eu consiga maravilhar ou ao menos entreter amigos e parentes, eu ainda estou fora da esfera profissional. Não importa quantos diplomas de quais universidades eu tenha. Falta-me o tato social, a política, e falta-me até mesmo um quê a mais na minha arte. Devo admitir no entanto que esse golpe de realidade tem seus benefícios: liberado desses delírios de grandeza, eu fico mais à vontade para procurar o retorno financeiro puro e simples. Penso em voltar ao Brasil, porque ao menos lá eu já aprendi, nos dois anos que se passaram desde que abandonei a publicidade, a ganhar dinheiro de verdade, o suficiente para ir além do sustento e me permitir alguns luxos. E a perspectiva de usar o mestrado para tornar-me professor na escola onde estudei me parece, embora não tão excitante, ao menos segura e satisfatória. Estou cansando da minha própria soberba, de acreditar em mim mesmo mas não ver ninguém mais no mercado acreditando.
No âmbito pessoal, além da óbvia falta da minha Lexy, sinto a falta de amigos. Caminho pelos gramados dos parques forrados de ingleses fazendo pic nic no sol e tento absorver um pouco desse sentimento gregário, dessa felicidade primaveril. Mas tudo parece auto-enganação quando eu mesmo estou só. Eu poderia chamar meus colegas de mestrado. Ou um ou outro conhecido de fora da faculdade. Eu sempre aconselhei meus amigos no Brasil a procurarem companhia em vez de esperarem ser procurados. Falta-me fazer isso. Mas mesmo quando estou com essas pessoas aqui, como nas idas ao parque que fizemos nas últimas semanas do mestrado antes desse recesso, sinto-me inadequado, desconfortável. Um estrangeiro sem modos, ignorante e inculto. Sinto que não sei o que se passa ao meu redor durante boa parte do tempo. Será que eu sentia isso também no meu país, com os meus amigos? Acho que um pouco. E se é o caso, vejo-me fadado a uma existência complicada, entre o precisar de companhia para aproveitar melhor a vida, e precisar da solidão quando passo a me sentir inadequado assim. Neste exato momento, eu queria que me convidassem para sair.
Adicionando a esta nota, meus companheiros de apê já aprenderam que existe um abismo entre nós, formado pela diferença de idade, maturidade e cultura. Eu sou o tio estrangeiro com mania de organização e limpeza, que não se droga e pouco bebe. Uma daquelas figuras nerds e anti-sociais, nada interessantes. Eles não têm por que me chamar pra sair. Mais importante, eu não tenho porque aceitar...
No âmbito doméstico, eu vejo a prisão que montei ao meu redor, de rotina e assepsia. Era muito divertido e gratificante no começo da minha estadia aqui ter um quarto totalmente sob meu controle, uma rotina semanal muito eficiente, e uma situação de afazeres simplificada pelo fato de eu estar meio que "começando do zero" aqui em Londres. Mas o tempo passou, aquelas pequenas trivialidades inúteis (papéis, cupons de lojas de arte, notas de jornal sobre lugares a visitar, anotações de livros a procurar) foram empilhando no canto de afazeres da mesa e a faculdade me apresentou uma miríade de coisas que eu gostaria de fazer. Organizar tudo isso de forma coerente tem me estressado e sinto estar perdendo o controle das coisas. Por outro lado, sinto que às vezes estou levando esse controle mais a sério do que a necessidade de viver a vida. Me contendo para manter o controle. Sinto ainda que uma parte de mim está resistindo ao impulso de simplesmente deixar tudo explodir e perder o controle, que seria o conselho natural que eu receberia de metade de vocês leitores, porque eu estou rodeado de pessoas no apê que não têm controle algum. E eu desprezo imensamente as consequências dessa atitude com as quais eu tenho que lidar todos os dias: a comida estragada, a cozinha entulhada de panelas e pratos, os utensilhos faltando, as reclamações do proprietário do apê.
Estejam atentos: a qualquer momento, isso tudo vai explodir em alguma atitude extrema. Mas não se preocupem, eu sei me manter seguro e saudável. Vai ser apenas um pouco mais... estranho.
quarta-feira, maio 18, 2011
Let's do the Time Warp again!
O que primeiro me chamou a atenção para o Rocky Horror Picture Show foi Tim Curry vestido como o Doutor Frank-N-Furter (uma brincadeira entre Frankenstein e o nome das salsichas alemãs). Calçando plataformas brilhantes, meia arrastão e cinta-liga, um corpete não muito justo e luvas. Usando sombra e delineador carregadíssimos e uma boca infernalmente vermelha e brilhante. Cabelos cacheados em profusão. Chamou-me a atenção, porque eu estava mais acostumado com este Tim Curry, mais recheado, barbudo e... bem... velho. Esse fascínio inicial não passou daí, e fiquei mais interessado em saber que ele tabém interpretara o vilão do filme Legend e o palhaço Pennywise em It.
Mas depois de algum tempo, voltei a encontrar o filme pela internet e fiquei fascinado com outras coisas. Inicialmente pelas personagens femininas, como a pequena e graciosa (embora muito provocante) Columbia e a empregada Magenta, surtada, cheia de caras, bocas e muita malícia. Uma procura na vasta coleção das bibliotecas da faculdade me trouxe uma fita VHS, que passei boas horas assistindo (para fins de pesquisa, claro... XD)junto com documentários do filme que virou um fenômeno cult.
Até agora, mais de uma semana depois, não consegui tirar algumas das músicas da cabeça, que ficam passando em loop contíno do momento em que acordo até a hora de deitar. Sinal do impacto que causou em mim.
E acho que boa parte do impacto se deve novamente ao personagem de Tim Curry. Frank-N-Furter é um travesti, coisa que ele anuncia abertamente em um dos melhores números musicais do filme (meu outro favorito, por apresentar as duas moças, é o ótimo Time Warp). Durante a história toda, o personagem parece incitar os protagonistas a cederem aos seus impulsos, coisa que eles evitam em nome das morais e bons costumes (sério que ninguém mais pensou na trama do Drácula!?). Ele seduz tanto o mocinho quanto a mocinha, sem pudores ou distinção. Muito me interessou o caráter libertário e libertador do personagem. Afinal, ele já está aparecendo de cinta-liga e corpete. Sexualidade realmente não é um assunto que o incomoda e ele claramente não vê seus aspectos femininos como coisas a serem escondidas ou abafadas. E no entanto, ele continua sendo repleto de caractereisticas masculinas, sexualmente ativo, dominador, relativamente violento e um dos mais poderosos personagens da trama. Não sei se mencionei por aqui, mas eu tinha lido livros sobre psicologia que postulavam que a identidade masculina era criada em um processo de negação do feminino (ou seja, o masculino é o não-feminino, então o feminino se mantém como a referência absoluta, inteira, concreta, e o masculino deriva dela - ainda preciso postar minha dissertação em algum lugar). Daí a maioria dos homens negarem e suprimirem seus lados femininos. Com o Doutor F, a coisa era diferente.
Infelizmente, a única coisa que encontro na internet relacionada ao filme são montagens de foto e reinterpretações em teatro (e até em um episódio de Glee). Mas nada se compara ao filme original. Aluguem, mesmo que vocês detestem. Vale a pena só pela referência cult.
[Depois vejam o documentário dos Dzi Croquettes, que eu ainda não vi...]
Mas depois de algum tempo, voltei a encontrar o filme pela internet e fiquei fascinado com outras coisas. Inicialmente pelas personagens femininas, como a pequena e graciosa (embora muito provocante) Columbia e a empregada Magenta, surtada, cheia de caras, bocas e muita malícia. Uma procura na vasta coleção das bibliotecas da faculdade me trouxe uma fita VHS, que passei boas horas assistindo (para fins de pesquisa, claro... XD)junto com documentários do filme que virou um fenômeno cult.
Até agora, mais de uma semana depois, não consegui tirar algumas das músicas da cabeça, que ficam passando em loop contíno do momento em que acordo até a hora de deitar. Sinal do impacto que causou em mim.
E acho que boa parte do impacto se deve novamente ao personagem de Tim Curry. Frank-N-Furter é um travesti, coisa que ele anuncia abertamente em um dos melhores números musicais do filme (meu outro favorito, por apresentar as duas moças, é o ótimo Time Warp). Durante a história toda, o personagem parece incitar os protagonistas a cederem aos seus impulsos, coisa que eles evitam em nome das morais e bons costumes (sério que ninguém mais pensou na trama do Drácula!?). Ele seduz tanto o mocinho quanto a mocinha, sem pudores ou distinção. Muito me interessou o caráter libertário e libertador do personagem. Afinal, ele já está aparecendo de cinta-liga e corpete. Sexualidade realmente não é um assunto que o incomoda e ele claramente não vê seus aspectos femininos como coisas a serem escondidas ou abafadas. E no entanto, ele continua sendo repleto de caractereisticas masculinas, sexualmente ativo, dominador, relativamente violento e um dos mais poderosos personagens da trama. Não sei se mencionei por aqui, mas eu tinha lido livros sobre psicologia que postulavam que a identidade masculina era criada em um processo de negação do feminino (ou seja, o masculino é o não-feminino, então o feminino se mantém como a referência absoluta, inteira, concreta, e o masculino deriva dela - ainda preciso postar minha dissertação em algum lugar). Daí a maioria dos homens negarem e suprimirem seus lados femininos. Com o Doutor F, a coisa era diferente.
Infelizmente, a única coisa que encontro na internet relacionada ao filme são montagens de foto e reinterpretações em teatro (e até em um episódio de Glee). Mas nada se compara ao filme original. Aluguem, mesmo que vocês detestem. Vale a pena só pela referência cult.
[Depois vejam o documentário dos Dzi Croquettes, que eu ainda não vi...]
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