segunda-feira, março 29, 2010

TV Macho

Por ocasião da Risaderia, um evento de comédia que aconteceu na cidade, fui lembrar da TV Pirata. Era o Casseta e Planeta da minha infância, que lançou humoristas como o Luis Fernando Guimarães, a Debora Bloch, o Guilherme Karan e o Diogo Vilela. Tinha um humor pastelão muito bom. Pena que acabou.
Um dos quadros de que eu mais lembro era o da "TV Macho", apresentado pelo Karan. Ele fazia o papel de Zeca Bordoada, um "macho de verdade", daqueles que usava Ray-Ban de pervertido sexual, mastigava palito de dente e falava alto. A truculência do personagem vem completa até com manchas enormes de suor debaixo dos braços. Ele sentava numa mesinha de boteco amontoada de garrafas de cerveja, como se não desse a mínima para o cenário de seu programa ("porque macho que é macho não presta atenção nessas boiolagens", ele diria).
Ainda dei boas risadas com o programa que achei no YouTube. A comédia parece intensificada hoje com as músicas bregas dos anos 80. Mas o que me pareceu interessante hoje sobre o programa foi perceber que já naquela época havia alguém tirando sarro do machismo exacerbado, das bravatas e duelos de masculinidade. O estereótipo encarnado pelo Karan hoje já virou kitsch: o homem que precisa reforçar pra si mesmo que é macho, por ter pavor de descobrir-se feminino nas pequenas atitudes.

sexta-feira, março 26, 2010

Sobre gestações e ovos

Vejo meus amigos começarem a ter filhos e muita gente comentar sobre os sentimentos envolvidos.
Ontem, no circo, um dos instrutores contava sua experiência quando seu filho (atualmente com dois anos e meio) nasceu. Dizia que, durante nove meses, o foco de sua atenção fora aquela barriga crescente. A mulher era quase um personagem a parte, como se ele se relacionasse com a mulher e com a barriga como dois entes separados. Acho que talvez seja uma coisa tipicamente masculina. Mulheres, em toda a arte e literatura que vi a respeito, sempre lidam com aquilo como se fosse parte delas e somente delas. Dentro delas. Como se o homem sequer estivesse envolvido no processo a não ser como um pagador de contas. Há nos relatos delas o conceito claro da gestação. Os homens lidam com aquilo de forma diferente porque não está no corpo deles. É quase como o relacionamento com um ovo, o chocar de um ovo. O homem vai ao trabalho, depois volta para casa para cuidar, aquecer e proteger aquele ovo. E o faz através da mulher, como se ela fosse a interface dele com o ovo. Eu sei que isso é degradante para a mulher, mas não me importa. Acho que faz mesmo parte das diferentes formas como homens e mulheres encaram a geração de um filho.
Daí então o filho do meu treinador nasceu. Nas palavras dele, "é um divisor de águas: você acha que sabe, mas na verdade não entende de verdade o que é o amor até aquele momento". A frase me tocou bastante. Tenho expectativas sobre a paternidade que não poderiam ser expressas de forma mais contundente do que isso. Imagino meus sentimentos, a necessidade que eu teria pelo toque físico do meu filho. Uma necessidade que tem a intensidade do desejo sexual, mas que não tem em si nada de sexual. A necessidade de beijar-lhe o rosto, sentir sua pele, avaliar seu peso, perceber os movimentos de algo que é parte de mim mas não sou eu. Eu sei que o cansaço e as frustrações de cuidar de uma criança roubam um pouco da mágica disso com o tempo, mas ainda tenho essa ilusão feliz de que cada dia com um filho seja repleto de novidades e maravilhamentos.

quarta-feira, março 24, 2010

Random Literature

E então, um dia, aconteceu o previsível.
Culminou às dez da noite de uma quinta-feira em Março. Eu estava no carro, enfrentando a morosidade do trânsito da avenida Brasil. Lembro que passava pela minha cabeça a comparação feita por alguém de que a cidade era um organismo vivo. Quando me disseram isso pela primeira vez, eu tinha imaginado as ruas como veias, os carros como sangue a fluir. Naquele dia, o movimento dos carros me lembrava outra coisa. Tinha o lento e fétido arrastar de fezes por um longo e intrincado intestino. Cada um de nós estava sendo digerido e transformado em escremento ao longo do caminho. Bom, pelo menos
eu realmente me sentia uma merda. Esta cidade precisava de uma lavagem intestinal...
Exatamente às dez e vinte e sete, um ônibus tentou atravessar uma das avenidas que cortava a Brasil, porém o trânsito o deixou parado no meio do caminho, fechanddo o cruzamento. A raiva dos motoristas foi expressa a buzinadas. Não que adiantasse muito ter o cuzamento livre: a Brasil continuava entupida do outro lado do cruzamento, assim como a avenida do ônibus.

O fato é que todas as avenidas da cidade, naquele minuto exato, travaram.

O incidente previsível se anunciava há meses. Com o número crescente de carros entrando em circulação e o consequente aumento dos números nas medições do trânsito feitas pelos órgãos (in)competentes, o travamento total se anunciava mais próximo a cada dia. As campanhas pela gentileza no trânsito eram completamente ignoradas pelos motoristas que, depois de três, às vezes quatro horas no trânsito entre lugares relativamente próximos, já não tinham mais gentileza para dispensar.
Naquela noite, quando o último carro entrou em circulação, um nível de saturação foi atingido. No centro da cidade, um motorista que entrara na contra-mão se recusava a voltar e fazer o caminho mais longo (que levaria mais duas horas), por estar já na esquina de casa, enquanto travava o trânsito vindo na direção correta. Em outro bairro, quatro carros se travavam em volta de uma pequena rotatória, ninguém cedendo à passagem do adversário. Nos pontos de ônibus, a grande massa enfartava os veículos, que não conseguiam partir sem fechar a porta e ninguém que já tinha um pé dentro se dispunha a descer. Motos caíam vítimas de motoristas invejosos que lhes negavam a passagem.
Todo mundo só queria chegar em casa. E todo mundo estava travado por outras pessoas que só queriam chegar em casa. Há mais de quatro horas. O nível de frustração era tamanho, que ninguém estava disposto a ceder. Perto da meia-noite o prefeito resolveu decretar estado de calamidade pública, depois que a polícia mostrou-se incapaz de lidar com o enorme número de ocorrências de violência no trânsito.

Três dias depois, a situação continuava a mesma. Com muitos dos motoristas abandonando seus carros trancados no meio da rua, sem se importar com as multas, guinchamentos ou furtos (já que os ladrões também não teriam como levar os veículos), a situação piorou. Mesmo que o trânsito andasse em algum lugar, os carros abandonados não seriam movidos.
Negociações começaram. Pessoas negociavam até judicialmente a cessão de passagem a outros carros. Os acordos eram leoninos. Ninguém queria ceder. Quanto mais estratégica fosse a posição do automóvel, maior era o possível lucro do proprietário se o negócio fosse fechado. 'Cotações de passagem' eram analisadas por especialistas em trânsito, com gráficos detalhados de como cada movimento afetaria o trânsito da região. Informações da direção que este ou aquele veículo estava planejando tomar eram comunicadas com o sigilo de segredos industriais. Ainda assim, ninguém se movia, aguardando ter o melhor negócio em mãos, aguardando o movimento dos outros.
Após algum tempo, a prefeitura desenvolveu um programa de alerta que divulgaria pelos sistemas de rádio e televisão caso alguém se movesse, desatando 'O Nó', como ficou chamado o incidente.


[Não vi um fim decente para este texto. Na verdade, não vejo um fim decente para a situação do trânsito na cidade também. Assim que, talvez não ter fim seja de fato o melhor e mais realista fim para isto.]

segunda-feira, março 22, 2010

Descompasso

Houve um acontecimento ironicamente vingativo neste sábado: fui convidado a grafitar uma agência. Vingativo tanto no fato de eu estar fazendo "arte de verdade" em um lugar que representa tudo que me manteve escravo nos últimos cinco anos, quanto pelo fato da "arte de verdade" ser o grafite, que até alguns anos atrás eu desprezava como uma forma de arte menor. Espero poder colocar fotos dos resultados por aqui em breve, assim que meu companheiros de crime me passarem as que foram tiradas com uma máquina decente. Tudo que tenho por enquanto são fotos do meu celular, com uma qualidade sofrível.

Em determinado momento da nossa pintura, fui lembrado de questões que tenho tratado recentemente na minha prática de arte e especialmente nas sessões de pintura com o Dudi Maia Rosa, que eu passei a frequentar na quarta passada. Uma das meninas, ao ver que o seu tom de azul para o fundo da pintura estava acabando e ela ainda tinha meia parede para fazer, veio me pedir uma sugestão. A minha sugestão incluía fazer uma linha de outro tom de azul, que ela prontamente misturou e fez, à mão livre e bem torta, antes que eu tivesse tempo de avisá-la para usar uma fita crepe para deixar a linha perfeitamente reta. O truque da fita crepe foi uma trivialidade técnica que eu aprendi cedo vendo o pai da Tarsila pintar. Ele abusava do truque e eu achei bem engenhoso. Hoje o considero algo que qualquer pintor básico conhece. Mas esta minha colega de grafite, aparentemente, não conhecia.
Percebam uma coisa: a pintura dela cobria meia parede, de cima a baixo. Bem ao lado das minhas duas personagens detalhadíssimas que ocupavam um cantinho da sala. E não era só ela. Todo mundo se esparramava pelas paredes em formas coloridas e muito expressivas. As minhas eram gostosas de se ver, mas pouco diziam em sua contenção.

Na sessão de pintura do Dudi, uma cena similar aconteceu: pintoras que estavam esbanjando tinta em telas enormes grampeadas na parede ficavam maravilhadas com alguma técnica bacana que eu tinha usado em uma tela menor. E deixavam bem claro que eu tinha um descompasso não só em relação a elas, mas em relação a boa parte da minha geração de pintores. Esse descompasso era entre a técnica e o sentimento. Esse assunto já é velho por aqui e qualquer um que lê este blog há tempo suficiente para lembrar do que eu escrevia durante a faculdade de arte vai lembrar dessa discussão. E da minha angústia ao perceber que eu de fato não sentia nada. Vasto conhecimento e habilidade técnica e nada a dizer. As outras pessoas, em compensação, tinham muito a dizer e não encontravam os meios.
Eu não havia percebido, mas com o passar dos anos, eu tinha me convencido de que eu era assim: vazio. De que tudo o que eu tinha a dar ao mundo eram belos exercícios técnicos. Dudi, com poucas horas de conversa, já achava que não, e que eu tinha muito mais na cabeça do que eu estava colocando nas telas. E durante muito tempo, foi muito difícil entender o que era essa qualidade inefável que alguns diziam que eu tinha mas não sabia expressar. O que era esse brilhatismo que adormecia em mim e de vez em nunca acordava? Mais do que isso, o que era fazer "boa arte" (se é que esse tipo de qualificação pode ser feito sem ser uma heresia...).
As pistas para isso começaram a surgir no dia em que tia Haydee foi visitar meu ateliê. Estava lá quase toda minha produção de pintura, e cada coisa tinha sua relevância. Mas o que realmente lhe chamou a atenção foram as aquarelas antigas da Alice que eu fizera para o Reserva Cultural antes de ir viajar. Ela chegou até a oferecer-se para pagar molduras decentes para elas, já que haviam sido emolduradas às pressas por mim mesmo para a exposição. Mais tarde, minha mãe apontaria as Alices como um dos meu trabalhos que ela mais gostava e dos poucos que eu tinha feito com essa qualidade misteriosa, trabalhos que tinham "um pouco mais de mim e menos de técnica", embora eu não entendesse exatamente onde estava a tênue linha entre as duas coisas. De fato, as Alices eram provavelmente as favoritas de todo mundo que conhecia meu trabalho.
Passei dias pensando em voltar a fazer Alices, retomar a personagem. Depois outros dias pensando em fazer uma nova personagem que tivesse tanto sentimento quanto ela, mas que fosse minha, não a reinterpretação do trabalho de outra pessoa. Até que cheguei à conclusão de que isso seria outra racionalização. Eu ainda estava entendendo muito pouco. Por que aquela personagem em simples aquarela sobre papel era tão mais interessante do que, digamos, telas de um metro de altura com requintes de técnica de pintura? O que lhe dava esse poder? O que eu estava pensando quando fiz esses desenhos?
Certamente não era a técnica. Ela vinha como complemento do que eu estava pensando.
Olhei para as aquarelas sobre a minha mesa do ateliê por muito tempo. E comecei a lembrar da época em que eu fazia os desenhos. Do modo como eu pegava coisas terrivelmente cotidianas e as transformava em meu proprio universo. Não de uma forma racional, era mais... divertido. Eu detesto usar estas pieguices, mas não há outra forma de dizer: vinha do coração. E talvez eu precisasse aprender a me divertir de novo fazendo arte. Minhas Alices mais belas e poderosas tinham sido feitas durante a viagem. Mas por que? É paradoxal pensar nisso, mas talvez fosse porque na viagem eu sentia mais do que pensava. Claro, era necessária uma boa dose de lógica para entender os lugares e culturas novas, mas essa mesma novidade me despertava uma sensação de maravilhamento que acredito ser fundamental para toda "boa arte". Eu estava mais aberto ao mundo e tudo era encarado como uma novidade. Seria possível reproduzir esse sentimento tão particular daquela viagem aqui, em meio à rotina de uma cidade que eu detesto?

sexta-feira, março 19, 2010

Depois da última referência ao Clube da Luta que coloquei por aqui, fiquei com vontade de rever o filme. Tenho o DVD em casa, ganho em algum amigo secreto. Então ontem, quando todos já tinham ido dormir, apaguei as luzes e assisti.

O filme é daquelas coisas que vale a pena ver pelo menos duas vezes. Porque na segunda, você já sabe do desfecho bizarro e toda a sua percepção do que está acontecendo muda. Juro que não tinha percebido que em algumas cenas dos primeiros quinze minutos do filme, imagens de Tyler Durden piscam em lampejos muito rápidos toda vez que o protagonista vê algo que o inspira a criar seu alter ego. Como se o líder do Clube da Luta estivesse tomando forma aos poucos.

Mas pessoalmente, o filme valeu uma terceira assistida. Porque conta vagamente a típica busca masculista por ser um homem mais... homem. E não é só aprender a brigar. É aprender a tomar uma atitude, a largar o emprego que abusa de você gratuitamente (poorque a alternativa no filme é igualmente abusiva, porém tem um propósito) , procurar o que dá sentido e gosto para uma vida que é uma cópia da cópia, ter colhões para falar com uma mulher como se deve. Quem vê o filme e só se atenta à violência está perdendo uma lição realmente inspiradora.

terça-feira, março 16, 2010

Mentalidade Masculina 1: Vergonha

Tenho lido mais um daqueles livros reveladores que a Nana me emprestou há algum tempo. Desta vez, é o Se os Homens Falassem do psicólogo Alon Gratch.

Apesar do título que parece livro de auto-ajuda em sitcom americano, o livro é bom e parece discutir sete aspectos da mentalidade masculina para explicar a dificuldade dos homens para lidar com sentimentos. O primeiro e mais básico deles é a vergonha. Homens têm uma verdadeira fobia da vergonha, passando às vezes a projetar a que sentem de suas próprias falhas de desempenho e vulnerabilidades nos outros. A típica situação onde ele tenta diminuir ou desmoralizar o oponente para parecer (para si mesmo) superior. É um processo mental que acaba sendo responsável por aqueles comentários do tipo "queria que você fosse mais...".

Esta primeira parte do livro me fez pensar a respeito das qualidade que eu estava criticando nos outros por ter vergonha em mim mesmo. Coisas como o excesso de racionalidade por ter vergonha de acabar sendo compreendido como um daqueles artistas viajandões e irresponsáveis que ninguém leva a sério. Ou a vergonha do meu passado nerd e anti-social que a duras penas superei.

Mas uma das partes que mais me chamou a atenção até agora foi a descrição fidelíssima de uma briga genérica de casal:

Quando ele chega em casa depois de um mau dia no trabalho[...], pode se livrar de seu sentimento de vergonha "dando a entender" que o penteado dela está diferente ou "perguntando" por que ela não está usando "aqueles brincos bem mais bonitos que eu comprei pra você".
Infelizmente, a mulher nesse tipo de situação está quase sempre pronta a aceitar e a internalizar a projeção do homem. [...] Mas esse é apenas o começo da briga. Muito embora a mulher diga para si mesma, cheia de vergonha: "Sim, não estou tão bonita", ela também sente raiva do homem que a fez sentir-se assim. Então só resta a ela contra-atacar ou recolher-se ao silêncio.
Isso deixa claro para o homem que ele não agiu bem. Mas, inconsciente de que estava motivado por seu próprio sentimento de vergonha a respeito de outra coisa, ele só pode reagir insistindo que não teve a intenção de criticá-la. A mulher não acredita nisso e, sentindo-se ainda mais ofendida pela negativa dele, o chama de insensível ou estúpido. Sentindo-se atacado, o homem agora revida e diz que ela é sensível demais e vive na defensiva. E é nessa hora que a briga se transforma numa espiral de ataques e contra-ataques, quando frases como "Você sempre..." e "Eu nunca deveria ter..." levam a briga ao terreno destrutivo dos conflitos passados, que nada têm a ver com o atual. [...]
Mas, para que não vejamos as mulheres como as vítimas indefesas aqui, é justo notar que muitos desentendimentos nos relacionamentos baseiam-se na dinâmica da imagem no espelho, na qual a mulher projeta seus próprios sentimentos de inferioridade no homem ao dar-lhe o recado de que ele não é um protetor tão bom assim
[e causando nele o sentimento de vergonha que irá disparar todo o resto].

Achei bem relevante para a compreensão da coisa toda. Porque as brigas mais ferrenhas de todos os relacionamentos que tive sempre começaram por uma crítica de desempenho (de um ou outro lado) e terminaram nessa área dos ressentimentos passados que nada têm a ver com o presente.

Por um "trânsito mais gentil"

Tive que postar isto por aqui porque o Twitter não me dava caracteres suficientes para expressar meu horror.
Há meses que venho observando essa campanha da Porto Seguro por um "trânsito mais gentil". Acho a iniciativa louvável, mas preciso comentar o que tenho vivido.
Na sexta passada, o trânsito da cidade sofreu a infernal trindade do excesso de carros vindos de fora para ver a corrida de Fórmula Indy, o outro excesso de carros vindos pelo show do Guns n' Roses e a besteira descomunal que foi a greve de professores primários (minha mãe é professora universitária e eu - tecnicamente - também sou professor, mas não posso deixar de xingar em alto e bom som à classe...).
No sábado, enquanto trabalhava no ateliê ouvindo o rádio, o locutor apresentou um conhecido seu que trabalhava nas vendas da GM. O rapaz anunciava que o feirão do mês passado estava sendo repetido este mês devido ao sucesso do anterior: tinham vendido mais de 3 mil carros.

Pausa.
Dá pra imaginar isso? Só em Fevereiro, mais três mil carros entraram em circulação. Só da GM. O nível do trânsito já é tamanho, que fazer uma iniciativa por um "trânsito mais gentil" é uma enorme piada pronta.
A imagem que me vem à cabeça é aquela da queimadura química no Clube da Luta: jogue ácido no sujeito e peça pra ele se acalmar.

Dia desses, conversando com minha prima do nordeste que está passando um tempo por aqui conosco, ela comentou como o sistema de metrô na cidade era insuficiente. Apresentei-lhe um pouco da história do país. Nos anos 50, com a possibilidade de ter investido no potencial de transporte dos rios do país e na construção de ferrovias e metrôs nas cidades ou investir nas grandes montadoras americanas para que elas pudesse se estabelecer no país, o governo escolheu as montadoras americanas. Temos vastas rodovias onde muitos caminhões trafegam carregando frações do que um único trêm ou barco carregaria por um décimo da poluição. Temos carros como o Gol, um Volkswagen desenvolvido e produzido exclusivamente no Brasil. Um dos melhores e mais baratos da categoria. Mas o metrô na cidade continua insuficiente quando poderíamos estar comparáveis a Londres, Paris e Nova Iorque. Felizes com o transporte público, estaríamos vivendo melhor e gastando menos. Carros seriam um luxo, não uma necessidade.

Eu sei, vocês que me conhecem estão pensando que eu estou aqui criticando, mas dirijo justamente um Gol. E que só teria propriedade para fazer esta crítica se vendesse meu carro e passasse a me locomover apenas de bicicleta. Bom, imaginem o que vai acontecer quando eu voltar do mestrado em Londres (pago em parte com a venda do meu carro)...

quinta-feira, março 11, 2010

Da ausência do pai/mestre

No fim da aula de hoje, meu aluno, um empresário com um filho pré-adolescente, me chamou de lado para mostrar o que estava fazendo para o aniversário do filho na semana que vem. Em um caderno estilo moleskine, ele estava fazendo colagens que contavam da viagem que ele havia programado de surpresa para levar a família toda para Londres por uma semana. Passariam por Oxford e Liverpool, já que o filho é fã dos Beatles. O caderno abria com a famosa frase "All you need is love".

Fiquei emocionado com o gesto do pai. Não que o meu pai não fizesse coisas muito especiais. O próprio fato de eu falar inglês suficiente para lecionar e ter um interesse por arte vem do tanto que viajamos quando eu era criança. Acho mesmo que viagens, conhecimento do mundo, são o melhor presente que um pai pode dar a um filho, porque seus efeitos perduram depois que muitos dos brinquedos já tiverem sido esquecidos ou quebrados. Não poupei elogios ao aluno e ao quanto ele estava sendo um ótimo pai, mesmo trabalhando bastante.

Estou vendo que o próximo caminho a seguir nas pinturas vai ser este. Agora que a série do TBC está chegando ao fim, preciso me distanciar disso e voltar ao tema do masculismo. E a próxima parada, depois do quadro sobre os sentimentos de inferioridade masculina, vai ser tratar do assunto da ausência do pai/mestre. É um assunto que, por algum motivo, tem estado pairando no ar ultimamente. Talvez porque estive procurando artistas que pudessem ser meus mentores. Conversei com o Dudi Maia Rosa, um artista amigo da família e provavelmente passarei a frequentar o ateliê dele. Mas isso é assunto para outro post.

Na tentativa de entender como abordar esse tema por um lado mais sensível e menos racionalizado, acabei obcecando pela história de Alfie Patten. Achava que tinha algo aí na imagem de uma criança gerando outra criança. Como se o homem adulto não existisse. Imagino que a figura dele ainda vá aparecer na pintura, mas não queria focar tão diretamente nele.
Outra imagem tem se formado na minha cabeça. Ainda falta detalhe, mas o começo está aí. Lembrei de uma propaganda que vi há muito tempo contra o abuso sexual de menores. Não lembro se foi na faculdade ou se foi uma campanha mesmo. A imagem era uma pá de verdade, daquelas ferramentas de jardinagem, estraçalhando um baldinho de criança, daqueles que elas levam à praia pra brincar na areia. O título dizia algo sobre como certas coisas não combinam. Gostei muito da simbologia e achei uma coisa forte, porém de um bom gosto muito interessante. Aí fiquei com essa imagem na cabeça. Um garoto usando alguma ferramenta em versão de brinquedo, ao lado da mesma ferramenta em versão "de adulto" não sendo usada por ninguém. Acho que o lance de ferramentas é uma coisa bem masculina (novamente, o boys with toys). Mas ainda não decidi o que será essa ferramenta. Porque não acho que a pá seja a coisa mais adequada.

Sugestões?

domingo, fevereiro 28, 2010

O vestido de Cacilda

São 3 da manhã e, pela primeira vez em muito tempo, estou tendo dificuldades para dormir. Por isso estou fazendo o que a minha geração faz: desabafando no blog. A razão da minha insônia de hoje, claro, foi um comentário a respeito de uma pintura. Hesito em escrever isso porque eu sei o quanto minha mãe enche-se de remorso quando eu me incomodo com os comentários dela, mas sim, foi um comentário dela sobre uma foto da pintura de Cacilda. Não tenha remorso, mã... A verdade é que, de tempos em tempos, eu preciso de gente disposta a me dizer as dolorosas verdades, porque tem coisas e sentimentos a respeito do meu trabalho que eu escondo de mim mesmo e preciso de uns chacoalhões para desenterrar e ser obrigado a lidar com eles.
Eu tinha falado em fugir da foto e cheguei a dar um passo tímido em direção a algo mais gestual na hora de fazer o vestido de Cacilda na pintura. Mas continua sendo um vestido, e continua sendo uma interpretação da foto. Passos tímidos não bastam. Eu mesmo estava insatisfeito e frustrado com aquilo, querendo mais. Porém estava me convencendo (me sabotando) a deixar passar e seguir em frente, a me contentar com um trabalho de menor qualidade. Até que minha mãe questionou angustiada antes de sair para o teatro: "algum dia você vai ter que colocar mais do que você está sentindo na pintura e menos da foto." Aí que eu não pude negar que, de fato, eu estava pendurado na ilustração da foto de novo. De outra maneira, mas estava. O quadro tinha pouco ou quase nada de gestual e muita pintura ruim...
Agora estou aqui, revirando na cama e remoendo a ansiedade de chegar no ateliê e violentar aquela pintura com o máximo de tinta branca que eu tiver no estoque. E não é só isso: questiono a relevância da Entre Quatro Paredes que também não me satisfez. Aliás, por um detalhe que também veio de um comentário de minha mãe e que eu acho que ela tem total e completa razão (como de costume).

Vamos, ansiedade, deixa-me dormir! Afinal, não vou poder fazer nada a respeito disso agora. Morro de vontade de ter o ateliê em casa. Ou em algum lugar onde eu possa ir quando me baterem estas angústias construtivas e às três da manhã perpetrar atos selvagens de violência pigmentária...

sexta-feira, fevereiro 26, 2010

A Devassa Paris Hilton

Soube pelo Destak que estão movendo ações para tirar do ar a campanha da cerveja Devassa protagonizada pela socialite Paris Hilton [1][2]. É maldade, mas francamente, acho uma pena. Nenhuma outra pessoa combinaria tanto com o nome da cerveja. Sem dúvida foi gasto muito dinheiro para convencer a loira milionária a participar da campanha, sem falar na lábia da pessoa que a abordou. Afinal, imagino que ela tenha recebido a tradução errada da palavra, ou imagino que não aceitaria o bico.

Mas entre outras coisas que fiquei pensando está o fato de um dos processos ter sido aberto pela Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, acusando o anúncio de sexista. Porque em primeiro lugar, a devassidão de Hilton pouco tem a ver com sexo. Tem mais a ver com os excessos e total falta de noção da realidade que os herdeiros de magnatas costumam ter. Independente do gênero. Esse, aliás, seria o real significado da palavra: pessoa libertina, licenciosa, adepta da luxúria e dos excessos de qualquer espécie. Há homens igualmente devassos.

Enquanto isso, ninguém está movendo ações por sexismo contra a Axe pela degradação do sexo masculino que eles promovem.

Arte masculina ou feminina

Recentemente fiz um workshop de pintura na Escola São Paulo com a Regina Parra. Parte da minha resolução de aproveitar o dinheiro quem vem como presente de fim de ano e aniversário para investir em cursos. Ela me mostrou outra técnica de transferência que não usa solvente e dá outros resultados, além de apresentar artistas como o Neo Rausch e o Luc Tuymans (que eu entendi como o próximo passo depois do meu favorito Gerhard Richter).

Mas no meio da aula, conversando com uma colega de curso, voltei à discussão da época da faculdade. Pode-se dizer que determinado tipo de arte ou técnica seja masculina ou feminina? Lembro que a questão gerava muita polêmica entre professores e alunos.
Claro, há um tipo de arte que, apesar de ser um clichê fácil e óbvio, ainda é a melhor saída para fazer um tipo de arte considerada feminina: é lidar com assuntos como a maternidade, a menstruação, ciclos e etc. Há sempre uma artista assim na faculdade. Nos meus anos, lembro de uma menina de outra classe que fez uma "pintura" em que ela simplesmente deitou nua sobre a tela e se deixou escorrer.
O que seria um clichê semelhante para uma arte masculina? Lidar com assuntos de guerra, conquista e agressividade em geral? Ando pensando nisso, porque imagino que seria um passo importante lidar com esse clichê para depois chegar a algo mais maduro na minha pesquisa masculista.

Na verdade, ando pensando também em outra possibilidade: a de que a arte masculista deveria ter mais apego a processos, principalmente os mecânicos, com ferramentas e procedimentos complexos, enquanto a feminista (ou feminina) deveria lidar com rompantes mais sentimentais. Tenho considerado processos como as transferências que tenho feito, mas também as gravuras, certos tipos de fotografia, impressões em máquinas e outros processos similares. Coisas que me trazem à mente a expressão boys with toys.

Não tenho encontrado muita gente que se disponha a considerar esta questão. Alguns não concordam, outros têm medo de lidar com algo tão delicado e há ainda os que nem entendem e passam a citar homens que fazem arte feminina ou mulheres com arte masculina para tentar contradizer a questão.

Vale lembrar que não é só uma mulher que pode fazer uma arte feminina e nem um homem uma arte masculina. Artistas homens que glorificam a maternidade existem em profusão, assim como artistas mulheres que são exímias guerreiras. Mas pra mim, o autor não muda o caráter da arte em questão.

Enfim, são apenas conjecturas por enquanto. Algo pra pensar mais ao longo dos meses antes de ir para Londres e ter que de fato lidar com essas questões.

quarta-feira, fevereiro 24, 2010

Cacilda e Cleyde

Os últimos quadros da série do TBC (por enquanto) já estão em produção.
O da Cacilda fazendo a Dama das Camélias entrou em sua looooonga fase final. O vestido branco dela foi feito com grossas camadas de tinta que têm um certo movimento mais tosco de pinceladas. Não dá pra fazer uma coisa fotográficamente perfeita e nem era essa a minha intenção. A idéia era experimentar um pouco mais a pintura gestual, coisa que eu raramente faço porque nunca estou satisfeito com os resultados. Faz parte daquela coisa de abandonar um pouco a foto e "colocar um pouco mais de mim na pintura". Acho uma coisa curiosa e nova, agora que cansei de copiar fotos. Ficou interessante, mas eu imaginava ainda mais tinta, ainda mais peso. Se eu fizer isso, vai demorar meses pra secar. E eu não tenho todo esse tempo.
Esse vestido da Cacilda está virando uma coisa com vida própria. Escolhe sua própria forma e já anda se espalhando pelo ateliê. Borrões de tinta branca são encontrados nos lugares mais improváveis, e às vezes descubro minhas mãos manchadas sem nem mesmo ter chegado perto do quadro. Pelo menos o vestido continua intacto, sem dedadas acidentais (então de onde vem tanta tinta?)...

Longe (mas nem tanto...) do cavalete, na mesa do ateliê, o novo quadro da Cleyde Yaconis fazendo a rainha Elizabeth em Mary Stuart foi começado hoje. Vai ficar uma coisa bem estilo arte "hi hi", pois a imagem será uma enorme cabeça de Elizabeth pensando em uma guilhotina. Tá, eu sei, ela não morreu guilhotinada e nem guilhotinou a Mary Stuart, que morreu decapitada à moda antiga, com um machado. Mas tem um humor com um quê de memento mori no fato de uma cabeça real estar pensando em guilhotinas. Há outro detalhes sobre a tal guilhotina, mas se eu postar por aqui, ele perde a graça...

De resto, resolvi encarar o ateliê com certo ar empresarial e diversificar a produção. Estou com outras coisas menores em andamento e recentemente tenho desenhado um pouco e feito experiências em papel. Não suponho que vá dar em nada digno de exposição, mas ajuda muito a pensar. Além disso, serve de meio para executar aquelas idéias menores, que dariam obras legais mas que eu não tenho saco ou tempo pra executar em telas grandes, caras e logisticamente complicadas, porque eu perderia o interesse em questão de dias. Sem falar que são coisas fora da minha técnica habitual e esse tipo de coisa confunde quem está tentando me levar a sério e sacar o "meu estilo". Comentários, experimentos técnicos, piadinhas sem graça, questões políticas.
Outro projeto menor são quadrinhos pequenos que eu estou desenvolvendo pra dar de presente. Foi uma idéia que me ocorreu outro dia, mas tenho tanto pra falar sobre ela, que é melhor deixar para outro post, outro dia, assim que o primeiro deles sair.

terça-feira, fevereiro 23, 2010

Batendo a cabeça na parede

Parece-me um pouco mais difícil, nesta nova vida, lidar com as frustrações. Antes, enquanto eu estava vivendo naquela espécie de letargia da minha carreira na publicidade, eu conseguia de fato ignorar os insucessos. Nunca receber a ligação daquela agência famosa para a qual eu mandei o currículo, não ganhar aquela concorrência que me fez trabalhar no sábado sem ganhar nada por isso, levar dois anos pra ser promovido... Nada disso tinha muita influência no meu ânimo já apático.
Mas aí veio o acordar e eu fiz tudo isso e mudei de vida. E agora, acordado, já não consigo mais ignorar as falhas.
Chegaram os resultados dos dois salões para os quais eu me inscrevi. São salões importantes, relevantes no cenário das artes. Um deles, do Centro Cultural São Paulo, tinha tudo pra dar certo: eles têm os direitos autorais das fotos do Fredi Kleeman que eu estou usando para fazer a série do TBC. Imaginei que eles adorariam fazer uma exposição com o meu material. Seria bom para mostrar o acervo deles, para aproveitar o momento atual de memória do teatro brasileiro, e de quebra seria ótimo para mim. Todo mundo sai ganhando. Mas eles recusaram o pré-projeto. O golpe mais doloroso é que a comissão julgadora tinha entre seus membros a Dora Longo Bahia, minha ex-orientadora. E mesmo com tudo isso, não deu certo.
Eu sei, eu sei. Ainda é muito cedo. Não dá pra esperar que eu seja vitorioso na primeira tentativa. A carreira de arte é uma coisa masoquista, e você precisa insistir muito e vencer pela insistência até algo dar certo. Lembro de minha mãe fazendo um paralelo entre isso e a carreira de cientista. Algo sobre como era necessário mandar o projeto científico para trezentas revistas e ser recusado em todas elas. E fazer isso várias vezes até alguém aceitar. Eu sei que é parte do meu caminho também fazer isso. Mais do que nunca, eu queria ter a possibilidade daquela apatia que eu tinha antes em relação à carreira. "Tudo bem, esquece e toca em frente". Mas agora que eu estou prestando mais atenção na vida e tudo é mais real e importante, isso fica cada vez mais difícil.

Tudo bem... esquece... e toca em frente.

quarta-feira, fevereiro 10, 2010

O Linguista

Assistindo Fringe ontem, minha mãe perguntou:
-"De onde é o Walter? Você que é o linguista sabe de onde é o sotaque dele?"-
O linguista, conhecedor de línguas. Dependendo da situação, mamãe também me chama de "o esteta", conhecedor de estética (geralmente para decidir a cor do estofado do sofá ou de uma parede...). Ela sempre teve esse jeito de proferir elogios com palavras sofisticadas. Gosto muito.
Walter não me pareceu ter um sotaque específico, apenas um inglês americano, muito velho e polido. Mas o elogio me fez pensar em como a vida profissional mudou em seis meses. Não, ainda não estou ganhando a vida como artista plástico, apesar do esforço. Esse caminho é longo e difícil, mas estou empreendendo a jornada com prazer. Não, hoje em dia, ganho a vida com meu conhecimento de idiomas e um interesse profundo por línguas. Parece propaganda, mas é verdade. Muita gente não dá muita bola para o aprendizado do inglês ou do espanhol. Mas ele pode mudar sua vida e ajudar sensivelmente. Hoje tenho minhas manhãs (e alguns horários das tardes) totalmente tomadas por aulas de inglês. O pagamento é bom, chegando próximo ao que eu recebia na agência, e ainda tenho a vantagem de estar em movimento pela cidade, vendo o dia-a-dia acontecer, e de ter o resto do dia para gastar com a minha arte e cursos. Não dá pra ficar assim pra sempre, mas é muito gostoso enquanto dura.

Mas o idioma não traz apenas aulas. Há duas semanas consegui um bico muito rentável através do Lala's, que me passou um trabalho de transcrição para pesquisa de mercado. Soa esquisito, mas é simples pra quem entende bem inglês e escreve rápido. Além disso, não tem horário fixo e eu posso fazer um pouco por dia, na hora que eu quiser.

Meus dias já têm uma outra mentalidade. O inglês já não é mais uma habilidade exibicionista largada no canto, mas uma realidade diária. E as divagações sobre origens de palavras e regras de gramática tomam o tempo da volta pra casa.

[Hoje mesmo estava divagando sobre "acquaintance", um conhecido que não é ainda um amigo; e a semelhança com "quaint", algo peculiar e diferente, porém agradável. "To get acquainted" seria então tornar a nova pessoa peculiar e agradável? Ou o "a" no começo tem aquele valor de negação, tornando a pessoa conhecida?]

terça-feira, fevereiro 02, 2010

Primeiro Grafite

Curioso: há algumas semanas, respondi uma pergunta do meu formspring dizendo que qualquer tentativa que eu fizesse de trabalhar com grafite resultaria em algo muito tosco, já que nunca havia sequer pegado em uma lata de spray. Dias depois, tive o almoço no MASP com minha mãe, onde conversamos sobre minha técnica de pintura e a necessidade de soltar mais o traço e depender menos das fotos. A exposição da ocasião era sobre grafite em São Paulo e percebi que eu já conhecia muitos dos nomes e respeitava o trabalho. Só isso já era uma grande mudança da minha atitude em relação ao grafite na faculdade.
No fim de semana passado, fiz a última aula do workshop de grafite ministrado por Loro Verz na Escola São Paulo. Depois de dois encontros onde vimos um monte de técnicas que eu já tinha visto por aí, mas nunca considerei usar, finalmente foi a hora de sair pra grafitar de verdade. Tivemos uma primeira tentativa frustrada na Consolação, onde fomos abordados por um segurança, mas depois encontramos nosso lugar na esquina da Brasil com a Gabriel Monteiro da Silva, em uma construção abandonada cercada por tapumes de madeira.

E foi lá que nasci como garfiteiro:


Manshacle

Nota rápida sobre a imagem.
A Manshackle era um objeto que eu queria fazer, mas acabei achando que daria um bom grafite. Não vou entrar em detalhes, mas aborda aquela questão masculista do uso de sexo como mecanismo para controlar homens. Ainda acho que é uma idéia muito direta, talvez simplória demais, mas de fato rendeu um bom grafite e muita risada no dia. Há mais fotos no Flickr pessoal.

A experiência com o grafite foi muito gratificante. Como eu falei, ela consolidou minha mudança de atitude em relação à prática. O mais importante foi que me fez considerar outras opções mais contemporâneas para a pintura além do tradicional e obsoleto óleo sobre tela. Percebi que o grafite é mais rápido. Tem que ser, por ser feito na rua, em um único dia. Não se pode fazer grafite em um mês como no caso da pintura de cavalete. Amanhã, talvez todo seu trabalho já tenha desaparecido. E isso leva a duas outras considerações: primeiro que é preciso exercitar o desapego em relação à obra, já que podem pintar por cima dela ("atropelar", no jargão do meio) a qualquer hora; mas também que a pintura de grafite tende a ser muito mais gestual. Não há tempo para rascunhos a lápis, esboços, medidas. Deve-se incorporar os erros: fazem parte do processo. Não gostou? Faça outro. Via de regra, as pessoas identificam mais a personalidade do pintor pelo que é gestual. Por isso que um crítico de arte, ao ver meus retratos na época da faculdade, comentou que "há muito pouco de você nelas". Talvez o grafite me ajude a descobrir um pouco mais do gestual e da minha própria identidade como pintor.
Mas para quem ainda resiste ao gestual, o workshop do Loro trouxe outros métodos mais adequados a pessoas meticulosas e pacientes. Gostei bastante do stencil e aproveitei a aula pra fazer um exercício com o meu logo do leão, que suponho passará a "assinar" o verso das minhas telas. Outras técnicas legais incluem o sticker, o canetão e o rolo com tinta acrílica para áreas grandes. Tudo isso pra fazer uma variedade de coisas: grafite tradicional, pixo, grapixo, bomb, tag, etc.

Mas claro, nem tudo é essa maravilha. Então vamos a algumas considerações ruins a respeito da experiência toda.
A tinta spray é um adesivo misturado com pigmento e borrifado de uma lata pressurizada. Isso garante que, a cada borrifada, um jato de partículas vai direto onde você quer, e muita coisa fica em suspensão no ar. E pode cair em qualquer lugar. Quem tem o braço peludo sente isso on ar... Aquela coisa pegajosa. Nojinhos aparte, fiz um experimento no ateliê e percebi algum tempo depois que essas partículas estavam por todo o chão, visíveis apenas quando eu pisava nelas. Meu ateliê ficou repleto de pegadas pretas. E olha que o teste foi curto.
Mas o mais perigoso é considerar o que pode acontecer com você, grafiteiro. Afinal, se essas particulas estão no ar, grudam com o adesivo em qualquer coisa e você não pode ficar muito tempo sem respirar, imagine o estrago que isso deve fazer aos pulmões. Compre uma máscara. É mais que necessário: é obrigatório.
Além da saúde, o grafite ainda tem questões sociais. Andar na rua com mochilas que fazem aquele característico som do balançar da lata de spray atrai olhares depreciativos. Me senti medido de cima a baixo pelos mais velhos. A questão dos grafiteiros nesta cidade é um pouco como a questão dos homossexuais: todo mundo diz que começa a respeitar, que não faria mas acha legal, mas no fim das contas ainda rola muito preconceito e bastante nojo.