Aparentemente, com menos de dois meses de colégio, eu acabo de ser eleito a referência de uma das minhas turmas da sétima série (entre professores, funcionários, administradores e etc...) em um trabalho onde eles elegeram os adultos nos quais eles se espelham.
That is all....
Bits and pieces of my life that everyone ignores when I speak, but someone reads when I write.
quinta-feira, março 15, 2012
terça-feira, março 13, 2012
Educating on the Edge
O tempo passa rápido e ando com a cabeça tão ocupada por questões do meu trabalho no colégio, que não tenho calma para deitar algumas poucas linhas aqui sobre tudo o que tem acontecido por lá. Não me aborreço com isso. O fato é que, pela primeira vez desde que comecei a trabalhar (em qualquer das áreas que tentei...), estou realmente me importando com o que eu faço. Me importando em fazer o melhor trabalho possível, em encontrar soluções criativas. Vou para casa pensando no trabalho do colégio quase todos os dias. E curiosamente, me sentindo muito estimulado por isso. O estímulo não é só para ser um bom professor, mas também para fazer os próprios exercícios que eu proponho aos meus alunos. Estou desenhando meus sapatos, construíndo máquinas de fotografia rudimentares, gravando vídeos sobre a cidade, e até arriscando escrever uma marchinha de carnaval. E adorando tudo! Ainda que viva constantemente sem tempo para nada.
Devido a toda essa atividade febril, resolvi escrever sobre esse mês que se passou por aqui, em um post ao estilo dos antigos odds and ends que eu escrevia em Londres. Vamos lá:
• Há algumas semanas, mandei pela primeira vez os meus primeiros 4 alunos para a coordenação. Um misto de sentimentos: pavor deles passarem a me odiar como odiavam a professore anterior, deleite pela sensação de vingança e poder, sentimento de dever cumprido ao reestabelecer os limites e o respeito que eles estavam perdendo por mim. A coordenadora foi enfática ao me aconselhar: tem aluno que testa o professor mesmo, que inconscientemente pede para que lhe imponham limites. Na nossa conversa com os alunos, não abusei da raiva. Mostrei como o comportamento deles tinha complicado muito a avaliação para a classe inteira; salientei como eles eram brilhantes quando separados (e de fato finalizavam raciocínios bem complexos), mas que potencializavam os efeitos destrutivos um do outro quando sentavam juntos; e expliquei como eu também estivera na mesma situação, em que discutir quem estava afim de quem era muito mais interessante do que qualquer aula.
Eles já eram conhecidos da coordenação. Já sabiam os procedimentos. Eles mesmos se comprometeram a sentar separados durante as aulas, trato que eles têm cumprido. Tenho dúvidas do quanto disso são respostas prontas para evitar maiores aborrecimentos com a coordenação. Mas desde então, as aulas têm corrido bem.
Me chamou a atenção quando a coordenadora avisou para um deles que, conforme avisos anteriores, os pais dele seriam chamados desta vez. Ele se agitou na cadeira, se esforçou para conter o choro. O rapaz não fizera nada além de conversar demais e de forma inapropriada durante a aula, mas temia a reprimenda dos pais como se tivesse assaltado ou matado alguém. Passei o resto do dia pensando muito sobre essa autoridade axiomática dos pais. E sobre o meu próprio pai, que nunca me bateu ou gritou comigo, mas de quem eu sempre tive medo quando cometi meus pequenos delitos.
• Em um assunto relacionado, na licenciatura, conversamos sobre a importância do "não". Do impor limites. E de como a atual geração de pais morre de medo de ter que dizer "não" aos filhos. São pais que foram educados por pais que diziam "não porque não", sem dar razões. Acham isso absurdo e querem dialogar com os filhos. Querem ser melhores amigos dos filhos adolescentes, que estão na idade onde o que menos querem é ser os melhores amigos dos pais ("ai, pai, que mico!"). E esse querer tem consequências nefastas. Percebo isso nos quatro rapazes dos quais falei. Em outros que gritam obcenidades e impropérios no meio da explicação do professor, interrompendo da forma mais rude possível. Nos que sobem na mesa. Nos que negociam regalias absurdas com o professor. O professor não tem essa autoridade axiomática, porque os pais não a ensinaram aos filhos. Ensinaram a dialogar, a negociar. Claro, isso vai fazer muito bem a eles quando adultos, mas enquanto crianças, causa apenas situações onde eu gasto fatias cada vez maiores da aula em negociação, enquanto professores passados teriam dito "não", marcado um ponto negativo e dado o assunto por encerrado.
Claro, eu também preciso aprender a dizer não. Ainda tenho medo. Mas ando fazendo progressos. E percebendo os efeitos positivos.
De qualquer jeito, eu sei que esses pensamentos são meio conservadores e o assunto ainda dá muito pano pra manga...
• Como conciliar a necessidade de impor limites e avaliar os alunos dentro de um critério justo para todos? Há pensadores atuais sobre educação que provam que cada pessoa tem uma inteligência diferente. Portanto, avaliar a todos pelo mesmo critério, pela mesma prova, seria uma atitude errada. No entanto, customizar uma avaliação específica para cada estudante, levando em conta as inteligências específicas de mais de quase 500 alunos diferentes (e esses são apenas os que tem aula comigo, ainda tem os da outra professora...) seria impraticável. O colégio, conhecido como um colégio tradicional que procura ser mais progressivo, atualmente enfrenta o desafio de caminhar a tênue linha entre impor limites para formar caráter, e respeitar as diferentes inteligências de cada aluno. A questão é melhor expressa na pergunta:"onde se encaixam os alunos que não se encaixam?". E minha família e amigos estão cheios de exemplos de indivíduos que nunca tiraram as notas mais altas, mas seguiram adiante para terem carreiras brilhantes por outros meios.
A resposta, acredito eu, está em ver o colégio como o provedor de um serviço. Outros colégios proverão variações do mesmo serviço, como sabores diferentes do mesmo tipo de alimento. Cada um tem o seu sabor preferido e é irreal supor que todo mundo vai gostar do mesmo sabor. Acredito que o colégio não tem realmente a obrigação de se adaptar a todos os alunos. Mas os pais têm a obrigação de investigar qual filosofia de ensino (qual sabor - tradicional, Waldorf, Construtivista, Montessoriano, etc...) é o mais adequado para o seu filho. O raciocínio é inverso.
• Pra pensar mais sobre essas e outras questões, sugir os vídeos do Ken Robinson no TED Talks e no RSAnimate, respectivamente abaixo:
Devido a toda essa atividade febril, resolvi escrever sobre esse mês que se passou por aqui, em um post ao estilo dos antigos odds and ends que eu escrevia em Londres. Vamos lá:
• Há algumas semanas, mandei pela primeira vez os meus primeiros 4 alunos para a coordenação. Um misto de sentimentos: pavor deles passarem a me odiar como odiavam a professore anterior, deleite pela sensação de vingança e poder, sentimento de dever cumprido ao reestabelecer os limites e o respeito que eles estavam perdendo por mim. A coordenadora foi enfática ao me aconselhar: tem aluno que testa o professor mesmo, que inconscientemente pede para que lhe imponham limites. Na nossa conversa com os alunos, não abusei da raiva. Mostrei como o comportamento deles tinha complicado muito a avaliação para a classe inteira; salientei como eles eram brilhantes quando separados (e de fato finalizavam raciocínios bem complexos), mas que potencializavam os efeitos destrutivos um do outro quando sentavam juntos; e expliquei como eu também estivera na mesma situação, em que discutir quem estava afim de quem era muito mais interessante do que qualquer aula.
Eles já eram conhecidos da coordenação. Já sabiam os procedimentos. Eles mesmos se comprometeram a sentar separados durante as aulas, trato que eles têm cumprido. Tenho dúvidas do quanto disso são respostas prontas para evitar maiores aborrecimentos com a coordenação. Mas desde então, as aulas têm corrido bem.
Me chamou a atenção quando a coordenadora avisou para um deles que, conforme avisos anteriores, os pais dele seriam chamados desta vez. Ele se agitou na cadeira, se esforçou para conter o choro. O rapaz não fizera nada além de conversar demais e de forma inapropriada durante a aula, mas temia a reprimenda dos pais como se tivesse assaltado ou matado alguém. Passei o resto do dia pensando muito sobre essa autoridade axiomática dos pais. E sobre o meu próprio pai, que nunca me bateu ou gritou comigo, mas de quem eu sempre tive medo quando cometi meus pequenos delitos.
• Em um assunto relacionado, na licenciatura, conversamos sobre a importância do "não". Do impor limites. E de como a atual geração de pais morre de medo de ter que dizer "não" aos filhos. São pais que foram educados por pais que diziam "não porque não", sem dar razões. Acham isso absurdo e querem dialogar com os filhos. Querem ser melhores amigos dos filhos adolescentes, que estão na idade onde o que menos querem é ser os melhores amigos dos pais ("ai, pai, que mico!"). E esse querer tem consequências nefastas. Percebo isso nos quatro rapazes dos quais falei. Em outros que gritam obcenidades e impropérios no meio da explicação do professor, interrompendo da forma mais rude possível. Nos que sobem na mesa. Nos que negociam regalias absurdas com o professor. O professor não tem essa autoridade axiomática, porque os pais não a ensinaram aos filhos. Ensinaram a dialogar, a negociar. Claro, isso vai fazer muito bem a eles quando adultos, mas enquanto crianças, causa apenas situações onde eu gasto fatias cada vez maiores da aula em negociação, enquanto professores passados teriam dito "não", marcado um ponto negativo e dado o assunto por encerrado.
Claro, eu também preciso aprender a dizer não. Ainda tenho medo. Mas ando fazendo progressos. E percebendo os efeitos positivos.
De qualquer jeito, eu sei que esses pensamentos são meio conservadores e o assunto ainda dá muito pano pra manga...
• Como conciliar a necessidade de impor limites e avaliar os alunos dentro de um critério justo para todos? Há pensadores atuais sobre educação que provam que cada pessoa tem uma inteligência diferente. Portanto, avaliar a todos pelo mesmo critério, pela mesma prova, seria uma atitude errada. No entanto, customizar uma avaliação específica para cada estudante, levando em conta as inteligências específicas de mais de quase 500 alunos diferentes (e esses são apenas os que tem aula comigo, ainda tem os da outra professora...) seria impraticável. O colégio, conhecido como um colégio tradicional que procura ser mais progressivo, atualmente enfrenta o desafio de caminhar a tênue linha entre impor limites para formar caráter, e respeitar as diferentes inteligências de cada aluno. A questão é melhor expressa na pergunta:"onde se encaixam os alunos que não se encaixam?". E minha família e amigos estão cheios de exemplos de indivíduos que nunca tiraram as notas mais altas, mas seguiram adiante para terem carreiras brilhantes por outros meios. A resposta, acredito eu, está em ver o colégio como o provedor de um serviço. Outros colégios proverão variações do mesmo serviço, como sabores diferentes do mesmo tipo de alimento. Cada um tem o seu sabor preferido e é irreal supor que todo mundo vai gostar do mesmo sabor. Acredito que o colégio não tem realmente a obrigação de se adaptar a todos os alunos. Mas os pais têm a obrigação de investigar qual filosofia de ensino (qual sabor - tradicional, Waldorf, Construtivista, Montessoriano, etc...) é o mais adequado para o seu filho. O raciocínio é inverso.
• Pra pensar mais sobre essas e outras questões, sugir os vídeos do Ken Robinson no TED Talks e no RSAnimate, respectivamente abaixo:
quarta-feira, fevereiro 15, 2012
Nova Nod
Desci do ônibus. Caminhando em direção ao semáforo, ouvi o ruído alto, seco, breve e grave. Segundos depois, um sedã preto furou o farol vermelho acelerando. Deixava para trás uma trilha de destruição da qual faziam parte outros dois veículos. Há meio quarteirão de lá, uma base comunitária da polícia. Debati por alguns segundos se deveria aconselhar os motoristas dos carros que restaram sobre os policiais. Estavam em uma posição onde não podiam ver a base. Idéia melhor: vou falar com os policiais.
Enquanto comentava o que havia visto, um rapaz chega na base comunitária com o celular no ouvido, quase perdendo o fôlego. "Fomos alvejados", diz ele. E em seguida cita para os guardas um modelo de carro e placa. Dois dos policiais montam nas motos e saem em perseguição ao sedã preto. Há um pouco de confusão entre os policiais e o rapaz, que nervoso, não faz muito sentido. Um dos policiais começa a perder a paciência. E eu começo a entender. O sedã era a vítima. Um terceiro homem aparece em cena, um dos motoristas que ficou no rastro de destruição do sedã. Diz que uma moto deu meia volta e subiu a rua. Os policiais de moto estão indo pelo lado errado e a moto do agressor, sobre a qual tem-se apenas descrições vagas e nenhuma placa, já está longe. Depois de perceber que as vítimas têm muito mais informação do que eu, vou me subtraíndo da cena até desaparecer. O pouco de ajuda que eu podia prestar, já foi prestado. Mas assim como no assalto que sofri em Dezembro, volto a pensar nos "e se".
Todos nós somos muito pouco equipados para reagir eficientemente nessas situações. Eu estava na melhor posição possível para ver a placa do sedã. E nem me passou pela cabeça. Nossa reação natural é olhar para o estouro, para o epicentro do ocorrido, e não para o único indivíduo fugindo do local.
Mas ainda que eu tivesse reagido dessa forma mais "correta", eu teria incorrido em outro erro de estratégia: o de não raciocinar sobre quem é o agressor. No nosso país, na nossa cidade tumultuada, caótica e congestionada, um agressor teria pouquíssimos motivos para escolher um sedã para um crime depois do qual ele tem que fugir durante o horário de pico. Arriscando incorrer no perigo e na injustiça do estereótipo, acho que um agressor teria mais motivos para escolher uma moto. Ágil, rápida e igual a tantas outras. E a vítima, um carro grande, resistente, apto a furar a força o trânsito na sua tentativa de fuga. As madames entopem a Oscar Freire de SUVs que elas não conseguem estacionar.
Fico curioso para saber de gente que tenha presenciado situações em que o agressor fugiu em uma Mercedes, um Hummer, uma BMW. Na nossa cidade.
Não posso deixar de pensar em uma associação pejorativa. Horas antes, eu estivera conversando com uma das professoras de educação artística. Ficamos muito entusiasmados quando começamos os dois a falar de uma exposição de Anselm Kiefer acontecida no final dos anos 90 no MAM. Eu, um adolescente que nem tinha sido equipado para reagir eficientemente neste outro tipo de situação e pelo menos ver o nome do artista. Ela, uma jovem guia de exposições que estava trabalhando em uma exposição que marcou sua vida.
Fui atormentado pelas pinturas que vi durante anos. Porque as imagens ficaram na minha cabeça, e eu nunca lembrei do nome do artista até essa conversa de hoje. As pinturas tiveram tanto impacto porque Kiefer usava referências ao mito sumério (e posteriormente hebraico) de Lilith, e eu estava no amadurecer da minha fase gótica. Veria, poucos anos mais tarde, o nome ressurgir nos jogos de RPG de vampiros, nos episódios de Evangelion, em pesquisas na internet. Os quadros também eram bem sujos, viscerais, bem "estética de decomposição". Algo que eu associaria depois aos anos 90 em si, ao grunge, uma das minhas paixões estéticas visuais e musicais (a MTV nunca mais teve vinhetas legais depois daquela época...).
Na série de quadros chamada de Lilith, que Kiefer fez inspirado em sua visita a São Paulo no fim dos anos 80, ele usa vestidos sujos e engessados na pintura para personificar a entidade mitológica. Os críticos dizem que Lilith aparece nas pinturas como se trouxesse o caos violento à cidade e "às obras de Niemeyer", que aparentemente devem simbolizar uma espécie de harmonia para ele e para os críticos europeus.
Na mitologia hebraica, depois que o relacionamento entre Adão e Lilith se desfaz, ela é banida para as "terras selvagens" (em alguns textos, a mesma Nod para o qual Caim foi banido), onde os filhos que ela tem com os demônios locais são chamados de "Lilim" e nascem e morrem às centenas todos os dias, completamente ignorados.
Perdoem-me se não me ufano com o atual momento econômico do país, as perspectivas dele ser uma potência do novo milênio e tudo que tem aparecido na mídia. A verdade é que uma parte de mim que eu gostaria que não existisse continua se sentindo de acordo com as pinturas de Kiefer.
Talvez estejamos mesmo em uma espécie de Nova Nod.
Talvez sejamos todos Lilim.
Enquanto comentava o que havia visto, um rapaz chega na base comunitária com o celular no ouvido, quase perdendo o fôlego. "Fomos alvejados", diz ele. E em seguida cita para os guardas um modelo de carro e placa. Dois dos policiais montam nas motos e saem em perseguição ao sedã preto. Há um pouco de confusão entre os policiais e o rapaz, que nervoso, não faz muito sentido. Um dos policiais começa a perder a paciência. E eu começo a entender. O sedã era a vítima. Um terceiro homem aparece em cena, um dos motoristas que ficou no rastro de destruição do sedã. Diz que uma moto deu meia volta e subiu a rua. Os policiais de moto estão indo pelo lado errado e a moto do agressor, sobre a qual tem-se apenas descrições vagas e nenhuma placa, já está longe. Depois de perceber que as vítimas têm muito mais informação do que eu, vou me subtraíndo da cena até desaparecer. O pouco de ajuda que eu podia prestar, já foi prestado. Mas assim como no assalto que sofri em Dezembro, volto a pensar nos "e se".
Todos nós somos muito pouco equipados para reagir eficientemente nessas situações. Eu estava na melhor posição possível para ver a placa do sedã. E nem me passou pela cabeça. Nossa reação natural é olhar para o estouro, para o epicentro do ocorrido, e não para o único indivíduo fugindo do local.
Mas ainda que eu tivesse reagido dessa forma mais "correta", eu teria incorrido em outro erro de estratégia: o de não raciocinar sobre quem é o agressor. No nosso país, na nossa cidade tumultuada, caótica e congestionada, um agressor teria pouquíssimos motivos para escolher um sedã para um crime depois do qual ele tem que fugir durante o horário de pico. Arriscando incorrer no perigo e na injustiça do estereótipo, acho que um agressor teria mais motivos para escolher uma moto. Ágil, rápida e igual a tantas outras. E a vítima, um carro grande, resistente, apto a furar a força o trânsito na sua tentativa de fuga. As madames entopem a Oscar Freire de SUVs que elas não conseguem estacionar.
Fico curioso para saber de gente que tenha presenciado situações em que o agressor fugiu em uma Mercedes, um Hummer, uma BMW. Na nossa cidade.
Fui atormentado pelas pinturas que vi durante anos. Porque as imagens ficaram na minha cabeça, e eu nunca lembrei do nome do artista até essa conversa de hoje. As pinturas tiveram tanto impacto porque Kiefer usava referências ao mito sumério (e posteriormente hebraico) de Lilith, e eu estava no amadurecer da minha fase gótica. Veria, poucos anos mais tarde, o nome ressurgir nos jogos de RPG de vampiros, nos episódios de Evangelion, em pesquisas na internet. Os quadros também eram bem sujos, viscerais, bem "estética de decomposição". Algo que eu associaria depois aos anos 90 em si, ao grunge, uma das minhas paixões estéticas visuais e musicais (a MTV nunca mais teve vinhetas legais depois daquela época...).
Na série de quadros chamada de Lilith, que Kiefer fez inspirado em sua visita a São Paulo no fim dos anos 80, ele usa vestidos sujos e engessados na pintura para personificar a entidade mitológica. Os críticos dizem que Lilith aparece nas pinturas como se trouxesse o caos violento à cidade e "às obras de Niemeyer", que aparentemente devem simbolizar uma espécie de harmonia para ele e para os críticos europeus.
Na mitologia hebraica, depois que o relacionamento entre Adão e Lilith se desfaz, ela é banida para as "terras selvagens" (em alguns textos, a mesma Nod para o qual Caim foi banido), onde os filhos que ela tem com os demônios locais são chamados de "Lilim" e nascem e morrem às centenas todos os dias, completamente ignorados.
Perdoem-me se não me ufano com o atual momento econômico do país, as perspectivas dele ser uma potência do novo milênio e tudo que tem aparecido na mídia. A verdade é que uma parte de mim que eu gostaria que não existisse continua se sentindo de acordo com as pinturas de Kiefer.
Talvez estejamos mesmo em uma espécie de Nova Nod.
Talvez sejamos todos Lilim.
quinta-feira, fevereiro 09, 2012
Impressões novas do antigo colégio
E eis que começaram as aulas do Band.
Tem tanta coisa pra escrever sobre isso, que acho que vou adotar aquele esquema de parágrafos não necessariamente relacionados.
Primeiramente, eu passei uns dois anos lecionando inglês para empresários muito mais velhos (com idades para serem pais dos alunos de agora). Era um estilo de vida gostoso, onde eu trabalhava às sete da manhã, antes do expediente; ao meio dia, durante o horário de almoço deles; ou às sete da tarde, no fim do seu dia de trabalho. E entre isso tudo, eu tinha o dia livre para ir ao ateliê pintar, botar em andamento os meus planos para fazer o mestrado, complementar os ganhos com as traduções, que eu podia fazer confortavelmente em casa. Apesar de agora eu ter horários de trabalho mais sisudos, eu sinto um pouco daquela velha tranquilidade em dedicar pelo menos alguns poucos dias da semana a um emprego fixo, de carteira assinada, em uma empresa consistente. Quem me conhece, sabe que eu sempre gostei das antigas hierarquias, ainda que eu tenha me dado muito bem vivendo como um freelancer nesses anos recentes.
Foi muito gostoso também rever os professores. Um gostoso estranho, mas muito gostoso. É comovente ver os inspetores que cuidam da criançada nos corredores me chamando de "professor Leão". Há um anacronismo nisso, porque na minha cabeça eu ainda sou aluno de muitos dos meus atuais "colegas de trabalho", que lecionam no Band há vinte, às vezes trinta anos (na reunião de professores, cheguei a perguntar se havia algum outro perdido como eu por ali que lecionasse há... três anos?). Mais do que isso, eu ainda não me sinto assim tão adulto. Sinto-me mais próximo da turma do colegial do que do status de professor, e esse é um daqueles momentos com o qual sonhamos na infância de de repente se perceber adulto. Não sei se faz sentido para vocês leitores: mentalmente, eu me sinto bem na minha atual posição, embora me sinta fisicamente ainda como um dos alunos.
Mas é ensinando essa turma que eu vou descobrindo sozinho o que esses doze anos desde que saí do meio daquelas paredes de tijolos vermelhos significaram em termos de crescimento pessoal e intelectual. Do adolescente inseguro de si, achando que arte era muito simbolismo e um pouco de técnica; para um adulto que entende sua própria imagem e sabe que arte é mais a respeito de um jeito de pensar. Imaginem, naquelas épocas no fim dos anos 90, eu sequer sabia das tecnologias atuais de imagem, de pixels, RGB, CMYK e resolução; e agora tenho que mencionar isso aos alunos que conhecem Photoshop. Eu não sabia que fotografia era a respeito de luz e não a respeito de câmeras; e agora tenho que mostrar a eles que eles acham que sabem isso, mas na verdade não sabem. Eu tinha um ódio mortal por lápis de cor, e agora tenho que convencê-los de que experimentar até com giz de cera pode ser uma coisa bacana. E que o tal do simbolismo que eles acham que o Band os está ensinando nas aulas de literatura, levará na verdade uma jornada de muitos anos para aprender a perceber e dominar. Trocando em miúdos, eu percebi, comparando com essas mentes jovens e impetuosas, que eu fui angariando um considerável poder e maturidade como artista que eu nem tinha percebido. E é muito gostoso de perceber! Só que mais gostoso ainda, é finalmente ter a chance de explicar do jeito que não me explicaram. E que eu acho que teria feito com que eu entendesse tudo muito mais rápido. Será?
As caras não mudaram. A grande maioria dos antigos professores estão lá. E os alunos têm aquela cara de alunos do Band. Não, não é porque uma boa porcentagem seja de origem oriental... É cara de aluno do Band, não tem outro jeito de dizer. Sejamos claros, o Band não é o Brasil. Os alunos estão sendo preparados para lidar com o mundo. Para lidar com uma sofisticação de inspiração européia na tecnologia, no modo de pensar, na moral. Uma sofisticação que não é a realidade cotidiana do resto do país. E isso tem pontos positivos e negativos. É no entanto temeroso nivelar por baixo, e preparar esses alunos para serem ativistas em prol dessa sofisticação tem sim dado bons resultados em projetos de sustentabilidade, ação social e interação com escolas no exterior. Eu ainda estou pensando muito nisso, mas me parece como uma tentativa louvável de exercer um papel de bridgehead positivo (lembra? [1][2]). Claro, isso deve ser feito com todo o cuidado possível para evitar os efeitos negativos, mas não vou entrar nessa discussão.
Mencionei que as caras eram as mesmas. Notei no entanto algumas ausências. Da minha septagenária professora de português que se aposentou, por exemplo, e a quem devo o fato de saber o uso correto de crases, pronomes oblíquos e outros detalhes que escapam o secretariês. De alguns inspetores que eu gostava muito também. Mas principalmente de Cinília, por quem eu largara a publicidade definitivamente. Quanto de mim estava empenhado em ser um bom professor só pra me desculpar por não ter conseguido chegar lá naquele dia? Quanto de mim queria ser um professor junto com ela?
Para terminar este longo post sobre o meu novo emprego, precisei falar sobre o caso da antiga estagiária de educação artística. Almoçando com uma das coordenadoras do curso, ela me contou porque a garota havia saído, sendo que ela trabalhava bem. Eu a conhecia, tendo-a visto em uma das primeiras edições do Dr. Sketchy's Anti-art School na cidade. Como eu, ela apreciava o iniciante burlesco paulista antes mesmo de eu ir para Londres e passar a admitir abertamente que também era a minha praia. No entanto, depois de algum tempo, a história começou a se espalhar entre os alunos. A decisão de sair foi dela. Fique pensando nisso por algum tempo. Por um lado, eu respeitava o quão abertamente ela vivia esse lado e o quanto ela desafiava a moral retrógrada de um país que tem o carnaval, mas prende qualquer um que ouse exibir demais do corpo fora do sambódromo. Por outro, eu reconhecia que há certas maturidades sexuais que não cabem em um ambiente com jovens que estão começando a descobrir sua própria sexualidade incipiente. Não é uma questão de revelar ou não, mas sim de como abordar esses assuntos. Mas principalmente, acho que é uma questão de vida pública e privada, e saber não misturar esses âmbitos. Será que eu consigo?
Outra coisa que ficou na minha cabeça: ela pediu para sair, não foram os professores ou nem mesmo os pais de alunos que exigiram sua demissão. Mas imagino que a interpretação dos alunos que tiveram contato com ela tenha sido a de que um colégio ultra-conservador não soube lidar com uma pessoa alternativa. Se foi assim, foi uma repercussão negativa de conservadorismo para um colégio que na verdade está se esforçando para ser progressivo, e que aparentemente a teria orientado e auxiliado a lidar com os alunos se ela tivesse persistido.
Por último, a questão levantou a pergunta: o que está sendo abordado em termos de educação sexual e práticas alternativas no colégio? A pesquisar...
Tem tanta coisa pra escrever sobre isso, que acho que vou adotar aquele esquema de parágrafos não necessariamente relacionados.
Primeiramente, eu passei uns dois anos lecionando inglês para empresários muito mais velhos (com idades para serem pais dos alunos de agora). Era um estilo de vida gostoso, onde eu trabalhava às sete da manhã, antes do expediente; ao meio dia, durante o horário de almoço deles; ou às sete da tarde, no fim do seu dia de trabalho. E entre isso tudo, eu tinha o dia livre para ir ao ateliê pintar, botar em andamento os meus planos para fazer o mestrado, complementar os ganhos com as traduções, que eu podia fazer confortavelmente em casa. Apesar de agora eu ter horários de trabalho mais sisudos, eu sinto um pouco daquela velha tranquilidade em dedicar pelo menos alguns poucos dias da semana a um emprego fixo, de carteira assinada, em uma empresa consistente. Quem me conhece, sabe que eu sempre gostei das antigas hierarquias, ainda que eu tenha me dado muito bem vivendo como um freelancer nesses anos recentes.
Foi muito gostoso também rever os professores. Um gostoso estranho, mas muito gostoso. É comovente ver os inspetores que cuidam da criançada nos corredores me chamando de "professor Leão". Há um anacronismo nisso, porque na minha cabeça eu ainda sou aluno de muitos dos meus atuais "colegas de trabalho", que lecionam no Band há vinte, às vezes trinta anos (na reunião de professores, cheguei a perguntar se havia algum outro perdido como eu por ali que lecionasse há... três anos?). Mais do que isso, eu ainda não me sinto assim tão adulto. Sinto-me mais próximo da turma do colegial do que do status de professor, e esse é um daqueles momentos com o qual sonhamos na infância de de repente se perceber adulto. Não sei se faz sentido para vocês leitores: mentalmente, eu me sinto bem na minha atual posição, embora me sinta fisicamente ainda como um dos alunos.
Mas é ensinando essa turma que eu vou descobrindo sozinho o que esses doze anos desde que saí do meio daquelas paredes de tijolos vermelhos significaram em termos de crescimento pessoal e intelectual. Do adolescente inseguro de si, achando que arte era muito simbolismo e um pouco de técnica; para um adulto que entende sua própria imagem e sabe que arte é mais a respeito de um jeito de pensar. Imaginem, naquelas épocas no fim dos anos 90, eu sequer sabia das tecnologias atuais de imagem, de pixels, RGB, CMYK e resolução; e agora tenho que mencionar isso aos alunos que conhecem Photoshop. Eu não sabia que fotografia era a respeito de luz e não a respeito de câmeras; e agora tenho que mostrar a eles que eles acham que sabem isso, mas na verdade não sabem. Eu tinha um ódio mortal por lápis de cor, e agora tenho que convencê-los de que experimentar até com giz de cera pode ser uma coisa bacana. E que o tal do simbolismo que eles acham que o Band os está ensinando nas aulas de literatura, levará na verdade uma jornada de muitos anos para aprender a perceber e dominar. Trocando em miúdos, eu percebi, comparando com essas mentes jovens e impetuosas, que eu fui angariando um considerável poder e maturidade como artista que eu nem tinha percebido. E é muito gostoso de perceber! Só que mais gostoso ainda, é finalmente ter a chance de explicar do jeito que não me explicaram. E que eu acho que teria feito com que eu entendesse tudo muito mais rápido. Será?
As caras não mudaram. A grande maioria dos antigos professores estão lá. E os alunos têm aquela cara de alunos do Band. Não, não é porque uma boa porcentagem seja de origem oriental... É cara de aluno do Band, não tem outro jeito de dizer. Sejamos claros, o Band não é o Brasil. Os alunos estão sendo preparados para lidar com o mundo. Para lidar com uma sofisticação de inspiração européia na tecnologia, no modo de pensar, na moral. Uma sofisticação que não é a realidade cotidiana do resto do país. E isso tem pontos positivos e negativos. É no entanto temeroso nivelar por baixo, e preparar esses alunos para serem ativistas em prol dessa sofisticação tem sim dado bons resultados em projetos de sustentabilidade, ação social e interação com escolas no exterior. Eu ainda estou pensando muito nisso, mas me parece como uma tentativa louvável de exercer um papel de bridgehead positivo (lembra? [1][2]). Claro, isso deve ser feito com todo o cuidado possível para evitar os efeitos negativos, mas não vou entrar nessa discussão.
Mencionei que as caras eram as mesmas. Notei no entanto algumas ausências. Da minha septagenária professora de português que se aposentou, por exemplo, e a quem devo o fato de saber o uso correto de crases, pronomes oblíquos e outros detalhes que escapam o secretariês. De alguns inspetores que eu gostava muito também. Mas principalmente de Cinília, por quem eu largara a publicidade definitivamente. Quanto de mim estava empenhado em ser um bom professor só pra me desculpar por não ter conseguido chegar lá naquele dia? Quanto de mim queria ser um professor junto com ela?
Para terminar este longo post sobre o meu novo emprego, precisei falar sobre o caso da antiga estagiária de educação artística. Almoçando com uma das coordenadoras do curso, ela me contou porque a garota havia saído, sendo que ela trabalhava bem. Eu a conhecia, tendo-a visto em uma das primeiras edições do Dr. Sketchy's Anti-art School na cidade. Como eu, ela apreciava o iniciante burlesco paulista antes mesmo de eu ir para Londres e passar a admitir abertamente que também era a minha praia. No entanto, depois de algum tempo, a história começou a se espalhar entre os alunos. A decisão de sair foi dela. Fique pensando nisso por algum tempo. Por um lado, eu respeitava o quão abertamente ela vivia esse lado e o quanto ela desafiava a moral retrógrada de um país que tem o carnaval, mas prende qualquer um que ouse exibir demais do corpo fora do sambódromo. Por outro, eu reconhecia que há certas maturidades sexuais que não cabem em um ambiente com jovens que estão começando a descobrir sua própria sexualidade incipiente. Não é uma questão de revelar ou não, mas sim de como abordar esses assuntos. Mas principalmente, acho que é uma questão de vida pública e privada, e saber não misturar esses âmbitos. Será que eu consigo?
Outra coisa que ficou na minha cabeça: ela pediu para sair, não foram os professores ou nem mesmo os pais de alunos que exigiram sua demissão. Mas imagino que a interpretação dos alunos que tiveram contato com ela tenha sido a de que um colégio ultra-conservador não soube lidar com uma pessoa alternativa. Se foi assim, foi uma repercussão negativa de conservadorismo para um colégio que na verdade está se esforçando para ser progressivo, e que aparentemente a teria orientado e auxiliado a lidar com os alunos se ela tivesse persistido.
Por último, a questão levantou a pergunta: o que está sendo abordado em termos de educação sexual e práticas alternativas no colégio? A pesquisar...
quinta-feira, janeiro 12, 2012
Hoje à noite a Lexy chegou em casa e me ligou para dizer que tinha passado por duas situações complicadas na rua, dessas de quase-assalto. Duas, na mesma noite. Talvez por causa do meu assalto em Dezembro, eu ainda esteja sensível ao assunto. Ando pelas ruas com isso na cabeça, analisando cada pessoa, refazendo mil estratégias a cada momento para simplesmente atravessar a rua. E eu vou continuar assim por algum tempo. Mas a gente sabe que não adianta, né? Que algum dia, daqui a uns cinco, talvez dez anos, eu vou ter me acalmado em relação a isso, e vou estar novamente andando em uma rua deserta pensando em algum desses dilemas da vida, olhando para o chão. E aí outro desses vai chegar, e vai me "pedir ajuda".
Por enquanto, tudo na minha cabeça são previsões de um pessimismo vil e negro como pixe. De ser orgulhoso e não me curvar à violência, ao mau funcionamento dessa cidade e o seu estilo de vida imposto, insalubre e injusto. De continuar insistindo em caminhar, em viver direito, do meu jeito. E de algum dia, daqui a quase uma década, finalmente dar de cara com o rapaz que terá de fato aquele caco de vidro, aquela navalha, aquele pedaço de pau. Previsões pessimistas de que algum dia essa cidade vai conseguir me matar se eu não fugir dela a tempo. Eu, que posso fugir dela.
Mas em primeiro lugar, 99% de todas as minhas previsões e palpites falham...
E depois, quem há de me garantir que esse mesmo incidente não aconteça lá, mesmo eu tendo sentido a completa segurança e liberdade que eu tinha de andar pelas ruas à noite com a atenção totalmente dispersa em questões masculistas? Quem há de me garantir que eu não vou topar com uma gangue de chavs, ou ciganos, ou qualquer outra etnia menos favorecida?
Por enquanto, eu continuo apenas com essa sensação horrível e tola de alarme na cabeça. Como morar em uma zona de guerra, onde a qualquer momento os oficiais da Gestapo podem me parar na rua devido à minha descendência judaica.
O único que posso fazer é andar pela rua nesse misto de preconceito e precaução. Atravessando sempre que vejo algum rapaz de aparência humilde, que sugira a necessidade de roubar. Um rapaz sem mochila nas costas ou nada nas mãos, pra poder fugir da polícia mais facilmente. Um rapaz de havaianas (encanei com isso, apesar do primeiro cara que me assaltou na vida usar tênis da Reebok), que ele pode tirar pra ser mais silencioso quando fugir no escuro. Um rapaz de blusão largo para esconder a arma e o lucro do assalto, com gorro ou boné para esconder o rosto das câmeras de vigilância.
Um rapaz. Sempre um rapaz. Cruel ironia eu ser forçado a ter esses sexismos...
Por enquanto, tudo na minha cabeça são previsões de um pessimismo vil e negro como pixe. De ser orgulhoso e não me curvar à violência, ao mau funcionamento dessa cidade e o seu estilo de vida imposto, insalubre e injusto. De continuar insistindo em caminhar, em viver direito, do meu jeito. E de algum dia, daqui a quase uma década, finalmente dar de cara com o rapaz que terá de fato aquele caco de vidro, aquela navalha, aquele pedaço de pau. Previsões pessimistas de que algum dia essa cidade vai conseguir me matar se eu não fugir dela a tempo. Eu, que posso fugir dela.
Mas em primeiro lugar, 99% de todas as minhas previsões e palpites falham...
E depois, quem há de me garantir que esse mesmo incidente não aconteça lá, mesmo eu tendo sentido a completa segurança e liberdade que eu tinha de andar pelas ruas à noite com a atenção totalmente dispersa em questões masculistas? Quem há de me garantir que eu não vou topar com uma gangue de chavs, ou ciganos, ou qualquer outra etnia menos favorecida?
Por enquanto, eu continuo apenas com essa sensação horrível e tola de alarme na cabeça. Como morar em uma zona de guerra, onde a qualquer momento os oficiais da Gestapo podem me parar na rua devido à minha descendência judaica.
O único que posso fazer é andar pela rua nesse misto de preconceito e precaução. Atravessando sempre que vejo algum rapaz de aparência humilde, que sugira a necessidade de roubar. Um rapaz sem mochila nas costas ou nada nas mãos, pra poder fugir da polícia mais facilmente. Um rapaz de havaianas (encanei com isso, apesar do primeiro cara que me assaltou na vida usar tênis da Reebok), que ele pode tirar pra ser mais silencioso quando fugir no escuro. Um rapaz de blusão largo para esconder a arma e o lucro do assalto, com gorro ou boné para esconder o rosto das câmeras de vigilância.
Um rapaz. Sempre um rapaz. Cruel ironia eu ser forçado a ter esses sexismos...
terça-feira, janeiro 10, 2012
Balanço de 2011
À medida em que a vida vai adquirindo contornos mais sérios, eu vou tendo menos tempo pra escrever por aqui. Questão de escolher de maneira sóbria quais são as suas bolas de golfe e o que é a areia [1]. O blog ainda está longe de terminar. Ele é parte intrínseca da minha presença virtual, de quem eu sou no mundo real também. Mas com certeza, eu já percebi que nesse ano, como dizia a Chebel, "I need to be living, not internerding...".
Mas vamos ao que interessa. Janeiro está quase na metade e eu ainda não fiz o balanço do ano passado. Um ano que dificilmente será superado (eu já não disse isso?), onde eu...
• ...estruturei muito melhor tudo o que eu pensava do Masculismo [1][2][3][4][5][6][7][8][9]
• ...comecei a encontrar pontos onde, apesar de diferentes, as compreensões do masculino dos ingleses e a minha se encontravam. [1]
• ...observei ativistas, protestantes e gente alternativa de verdade com visões de mundo e ideologias muito interessantes. [1][2][
• ...recebi gente lá em Londres para afastar a minha saudade. [1]
• ...conheci uma turma que não estava nem totalmente do lado masculino e nem do feminino. E estava vivendo perfeitamente bem com isso! [1][2][3][4][5]
• ...fiz vários vídeos! [1][2][3][4]
• ...percebi as crises, incoerências e o caos da faculdade em Londres. Quando a academia vira empresa, o caos se instala. Seja em que país for! [1][2]
• ...convivi com gente nova, estranha, estressante e interessante. [1][2]
• ...observei os "odds and ends" de Londres. [1][2][3]
• ...coloquei meu trabalho para inglês ver! [1][2][3][4]
• ...aproveitei que ninguém me conhecia tanto assim em Londres para ousar, dando início a uma mudança sorrateira de personalidade em direção a algo mais sexualmente ambíguo [1][2][3][4][5]
• ...visitei a Romênia, à procura do lendário e do verdadeiro conde Drácula! Aproveitei para aprender um nada de romeno. [1]
• ...comecei a cair na real em relação a ser artista, ao mercado e à academia, ao meu futuro. [1][2]
• ...me envolvi com o catálogo da turma, uma responsabilidade cheia de dor e de delícia. [1][2]
• ...assisti bem de perto à Europa entrando em crise. [1]
• ...tive que deixar a rotina gostosa de um lugar onde eu fui realmente muito feliz por um ano, para voltar ao meu país de origem e me readaptadar a estar entre conhecidos novamente. [1][2][3]
• ...tive meus choques culturais, desgostos nativos e pequenas frustrações de volta no meu país. A vida aqui jamais será a vida de lá. [1][2][3][4]
E o que será de 2012?
O ano promete muito. E embora esse muito seja muito trabalho e muitas obrigações, são também muitas possibilidades, muito gosto de vida adulta. Se tudo correr bem, será um ano em que eu...
• ...colocarei um pouco de lado as megalomanias da adolescência, o sonho não realizado e atualmente muito questionado de virar artista plástico de carreira.
• ...começarei a dar aulas de educação artística no meu saudoso Colégio Bandeirantes.
• ...investirei mais e melhor na carreira de idiomas.
• ...finalmente sairei da casa dos pais para ter o meu lugarzinho!
• ...continuarei interessado nas questões masculinas e nas ambiguidades de gênero, tentando levar uma vida que seja fiel à ideologia.
• ...voltarei brevemente à minha Londres para a cerimônia de graduação do mestrado.
• ...viajarei mais com a minha Lexy!
Mas vamos ao que interessa. Janeiro está quase na metade e eu ainda não fiz o balanço do ano passado. Um ano que dificilmente será superado (eu já não disse isso?), onde eu...
• ...estruturei muito melhor tudo o que eu pensava do Masculismo [1][2][3][4][5][6][7][8][9]
• ...comecei a encontrar pontos onde, apesar de diferentes, as compreensões do masculino dos ingleses e a minha se encontravam. [1]
• ...observei ativistas, protestantes e gente alternativa de verdade com visões de mundo e ideologias muito interessantes. [1][2][
• ...recebi gente lá em Londres para afastar a minha saudade. [1]
• ...conheci uma turma que não estava nem totalmente do lado masculino e nem do feminino. E estava vivendo perfeitamente bem com isso! [1][2][3][4][5]
• ...fiz vários vídeos! [1][2][3][4]
• ...percebi as crises, incoerências e o caos da faculdade em Londres. Quando a academia vira empresa, o caos se instala. Seja em que país for! [1][2]
• ...convivi com gente nova, estranha, estressante e interessante. [1][2]
• ...observei os "odds and ends" de Londres. [1][2][3]
• ...coloquei meu trabalho para inglês ver! [1][2][3][4]
• ...aproveitei que ninguém me conhecia tanto assim em Londres para ousar, dando início a uma mudança sorrateira de personalidade em direção a algo mais sexualmente ambíguo [1][2][3][4][5]
• ...visitei a Romênia, à procura do lendário e do verdadeiro conde Drácula! Aproveitei para aprender um nada de romeno. [1]
• ...comecei a cair na real em relação a ser artista, ao mercado e à academia, ao meu futuro. [1][2]
• ...me envolvi com o catálogo da turma, uma responsabilidade cheia de dor e de delícia. [1][2]
• ...assisti bem de perto à Europa entrando em crise. [1]
• ...tive que deixar a rotina gostosa de um lugar onde eu fui realmente muito feliz por um ano, para voltar ao meu país de origem e me readaptadar a estar entre conhecidos novamente. [1][2][3]
• ...tive meus choques culturais, desgostos nativos e pequenas frustrações de volta no meu país. A vida aqui jamais será a vida de lá. [1][2][3][4]
E o que será de 2012?
O ano promete muito. E embora esse muito seja muito trabalho e muitas obrigações, são também muitas possibilidades, muito gosto de vida adulta. Se tudo correr bem, será um ano em que eu...
• ...colocarei um pouco de lado as megalomanias da adolescência, o sonho não realizado e atualmente muito questionado de virar artista plástico de carreira.
• ...começarei a dar aulas de educação artística no meu saudoso Colégio Bandeirantes.
• ...investirei mais e melhor na carreira de idiomas.
• ...finalmente sairei da casa dos pais para ter o meu lugarzinho!
• ...continuarei interessado nas questões masculinas e nas ambiguidades de gênero, tentando levar uma vida que seja fiel à ideologia.
• ...voltarei brevemente à minha Londres para a cerimônia de graduação do mestrado.
• ...viajarei mais com a minha Lexy!
quarta-feira, dezembro 21, 2011
Três da tarde, Avenida Roque Petroni, zona sul de São Paulo. O sol era inclemente, compensando um verão que tardara demais em chegar e agora queria tirar o atraso. O ar seco piorava a poluição dos carros dos quais eu me negara a fazer parte desde que voltei de Londres. Ia a pé, depois de uma curta viagem de trem, encontrar a Nana para dar-lhe o presente que eu comprara para sua filhinha Aurora, um bichinho de pelúcia que eu levava em um saco acinzentado balançando ao lado da cintura, junto a uma garrafa d'água.
No meio do caminho, Nana me ligou para dizer que se atrasara. Tudo bem. Eu mesmo, ainda não acostumado à ineficiência do transporte público paulista e às distâncias dessa cidade que pareciam maiores no calor senegalês, já levava meia hora de atraso. O problema é que eu atendi em um celular caro, encostado no canto da parede de uma loja, aproveitando que aquele trecho da Roque Petroni só era povoado pelos carros e mais ninguém a pé. "Você vem de carro?" Nana perguntara. Não, estou andando.
Mesmo assim, eu não tenho certeza se foi nessa hora que ele me viu.
Coisa de uns dez minutos depois, eu acabara de passar pela frente dos portões amplos de uma multinacional perto da ponte Vereador José Diniz. Lembro que dois homens em uniformes de empregados estavam sentados na porta. Logo depois disso, o rapaz me abordou. No começo, eu percebi a camiseta estilo polo, listrada de azul marinho e branco. Cabelos curtos, cacheados como o meu, e barba feita. Um pouco mais baixo e franzino do que eu. Me estendeu a mão, e pediu licença.
Foi o calor. O calor, a fumaça e a caminhada de quase um quilômetro. Minha cabeça ficou letárgica e eu parei de olhar para os lados. Se não, teria visto o rapaz vindo atrás de mim, como normalmente faço, e teria esperado ele passar ao lado dos empregados da multinacional.
Pego de surpresa, e com a tendência a ser gentil, eu lhe dei a mão. Ele segurou firme, perguntando se podia pedir minha ajuda. Segurou firme. E continuou segurando. Tempo demais. Para que eu não escapasse. Não perdeu tempo: "É o seguinte, isso aqui é um assalto. Eu tô armado, mas fica tranquilo que eu não vou te fazer nada. Me passa tudo que você tem e não tenta correr nem fazer nada. Eu já sinalizei ali pro meu parceiro que você tá de boa". Eu respirei fundo. Senti meu corpo tremer enquanto a adrenalina começava a correr. Acho que soltei um "ai, meu Deus". Nessas horas todo mundo é católico.
Me assegurou que nada ia acontecer, mas falou para ir andando. Eu sabia que, lá adiante, ainda ia passar por baixo da ponte, onde o perigo dobrava. Tudo menos a ponte. Precisava ficar lá.
De repente, meu canto de olho registrou um senhor vindo pela calçada, atrás do rapaz. De maleta de negócios, careca e de óculos. Levantei as mãos, disse que estava tudo bem, que eu ia cooperar, e comecei a andar a passos lentos. O senhor nos alcançou. A esperança era que eu pudesse andar junto com ele até um ponto mais povoado, onde o rapaz não teria coragem de me agredir. Mas o senhor percebeu algo estranho, tomou a primeira virada antes da ponte e eu tive receio de envolve-lo no problema. "Não tenta nenhuma outra gracinha, viu?" se exaltou o rapaz. "Não tô tentando, nada! Eu tô cooperando!".
Perguntou pela minha carteira. Avisei que estava na mochila, e que eu ia abrir a mochila bem devagar, na frente dele. Sem problemas. Coloquei a mochila no chão. "Não precisa agachar, levanta!" ele sussurrou, olhando para os lados porque aquilo pareceria suspeito. Avisei que, no meu estado, eu não ia conseguir tirar a carteira da bolsa sem colocá-la no chão. Precisava ganhar tempo. Percebi as calças de moletom, o chinelo Havaianas e o dedinho ralado um pouco infeccionado. Um bandido ralé. Será que ele conseguiria correr rápido de Havaianas?
Peguei a carteira para dar a ele, ele apenas pediu que a abrisse. Pegou meu dinheiro, uma nota de libras britânica que ficara por lá, um cheque de presente da minha avó. Avisei que ele não ia conseguir descontar o cheque e ele prestou atenção no que tinha em mãos. Me devolveu o cheque e as libras. Um bandido criterioso. Será que eu conseguiria enrolar ele? Me pediu o celular e o relógio. Tirei o relógio dado de presente por meus pais, mas mencionei que eu trabalhava com aquele celular e que não o podia dar. Uma coisa com a qual bandido simpatiza é gente tentando ganhar a vida honestamente. Talvez fosse vontade de ser assim algum dia. Tudo bem.
Ele insistiu que eu andasse com ele, enquanto me fazia perguntas. No que que eu trabalho? Pra que preciso do telefone? Onde eu estava indo? Estava sozinho? Apesar de constatar que eu realmente precisava do telefone para receber meus trabalhos de tradução, ele queria ver o telefone. Se ele visse, ia querer levar. Se levasse, não ia conseguir fazer nada com ele. Quebraria ou venderia por dez reais o aparelho que eu bloquearia remotamente, dando o comando para apagar a memória.
Já estávamos debaixo da ponte, que para minha sorte, tinha um ponto de reciclagem de lixo funcionando a todo vapor, caminhões e trabalhadores ocupados por lá. Para meu azar, a área logo em seguida era um parque de mata alta, onde ninguém veria nada. Logo que passei da ponte, tive a idéia.
"Meu celular está na mochila também." Fiz uma volta, mantendo o bolso com o celular sempre escondido dele, ou escondendo-o com o saco acinzentado do bicho de pelúcia. Coloquei a mochila no chão. Passei a revirar a mochila, tirando caderno, livro, estojo. Ele se impacientava mais ainda. Com a mochila inteira revirada, passei a dizer alto "Tô sem meu celular!", como se a revelação fosse uma surpresa. "Não mente pra mim! Você tá sendo assaltado, rapaz!"
Controlando os nervos, olhei para ele: "olha, quanto mais tempo você passar aqui comigo, mais a coisa complica pra você e pra mim também". Foi então que ele percebeu. A turma do ponto de reciclagem olhando, o cruzamento aberto com carros parando no semáforo, a minha mochila escancarada no chão e eu agachado aos seus pés. Ele ainda teve um último instante para olhar para meus pertences e ver o tocador de MP3 barato. "Isso é o celular?" Avisei que não, que aquilo era "outra coisa" que não valia nada. Mesmo assim, ele levou.
Cruzou a avenida correndo e subiu a ponte do outro lado. Corria lento por causa das Havaianas. Corria sozinho, sem parceiro. E eu nunca havia visto indício de arma alguma.
A gente se sente idiota. Covarde. Pensa tanto em como agir nessas horas e não tem coragem de fazer. Vai que existe uma arma, que seja um caco de vidro. Vai que existe um parceiro. Vai que aquele aperto de mão forte de um esfomeado demonstra de fato mais força física do que a sua. Pior do que essas sensações e essa dúvida, são as incontáveis instâncias altamente criativas de "E se..." que passam a desfilar pela mente durante o resto do dia.
"...não perdeu tempo: 'É o seguinte, isso aqui é um assalto. Eu tô armado, mas fica tranquilo que eu não vou te fazer nada. Me passa tudo que você tem e não tenta correr nem fazer nada. Eu já sinalizei ali pro meu parceiro que você tá de boa'. Eu respirei fundo. Senti meu corpo tremer enquanto a adrenalina começava a correr.
Respondi: 'meu amigo, fica calmo, eu vou cooperar. É o seguinte, eu sei que um cara esperto como você entende que bacana que nem eu só respeita outro bacana ou cara que anda armado, né? Tu tá me dizendo que tá armado, e se tu só levantar a camisa de leve pra eu ver a arma, uma faca ou um caco de vidro, eu vou te dar absolutamente TUDO que eu tenho e tu pode sair daqui AGORA, sem problema. Assim de fácil. Eu nem resisto, deixo a mochila e as coisas no chão e vou andando. Quando a polícia chegar, você já vai tá longe. Eu não quero problema. Sério. Mas tu entende que se eu não tiver certeza disso, eu posso tentar correr. Se você me mostrar, eu já não tenho o que fazer. Agora, se tu não tem arma, vira e vai pro outro lado, na boa. Eu não vou chamar polícia nem nada. Vai cada um pro seu canto e você tenta pegar outro bacana que não pense nisso.'
De repente, meu canto de olho registrou um senhor vindo pela calçada, atrás dele. De maleta de negócios, careca e de óculos. Olhei o rapaz nos olhos, com respeito, sem intenção de superioridade. De repente virei e perguntei ao senhor: 'por favor, eu preciso de uma ajuda, eu tô tentando achar a Santo Amaro, será que você pode me indicar pra onde que é?'. O senhor, me apontando para o lado do qual eu viera, se despede e segue adiante. Eu volto à frente da multinacional (na direção do suposto parceiro dele), com uma testemunha no local, impossibilitando o rapaz de qualquer ação. Lá, junto dos empregados da empresa, vejo o rapaz seguir em direção à ponte, achando que a situação já está complicada demais. Com as pernas tremendo, peço aos rapazes da multinacional que me deixem sentar. 'Preciso de ajuda. Eu quase fui assaltado'."
"...de repente, meu canto de olho registrou um senhor vindo pela calçada, atrás do rapaz. De maleta de negócios, careca e de óculos. 'Rapaz, tem um senhor vindo pra cá.' avisei o assaltante, olhando-o seriamente nos olhos e começando a caminhar de volta até o portão da empresa com os dois funcionários. 'Presta atenção: você não vai querer complicar mais isso daqui com mais gente envolvida.'
'Fica onde você tá!' comandava o rapaz. Mas eu já estava apressando o passo e andando de costas, quase passando pelo senhor, que já percebi alguma coisa acontecendo.
'Segue andando, cara. Você não escolheu o melhor lugar pra fazer isso.' eu desafiei, tentando não mostrar em momento algum qualquer desrespeito. Ele pareceu inicialmente contrariado como uma criança. Mas depois, percebendo a situação já fora do controle, virou e apressou o passo em direção à ponte.
Da empresa, eu acenei para um taxi na rua, com uma mão trêmula de quem mal conseguia acreditar no que tinha feito."
"...coloquei a mochila no chão. 'Não precisa agachar, levanta!' ele sussurrou, olhando para os lados porque aquilo pareceria suspeito. Avisei que, no meu estado, eu não ia conseguir tirar a carteira da bolsa sem colocá-la no chão. Precisava ganhar tempo. Percebi as calças de moletom, o chinelo Havaianas e o dedinho ralado um pouco infeccionado. Um bandido ralé. Será que ele conseguiria correr rápido de Havaianas?
Enquanto ele olhava para os lados, girei o calcanhar, tomei impulso, e num esforço de baixo pra cima, empurrei o rapaz pela cintura, levantando-o do chão, jogando-o na avenida onde os carros vinham em alta velocidade. Ele conseguiu dar dois passos pra trás, para evitar cair de costas, até que o espelho de um Polo cinza o pegou pelo estômago. O carro derrapou em uma parada brusca e eu tomei a mochila e corri como nunca corri na minha vida, deixando o animal de pelúcia pra trás."
"...me pediu o celular e o relógio. Sem argumentar, entreguei os dois, o relógio que eu amava, dado por meus pais, e o celular que eu comprara recentemente.
De volta pela Roque Petroni, no Shopping Morumbi, pedi ajuda e entrei em contato com a delegacia de polícia local. "Querem pegar um ladrão fácil?" eu propus da forma mais sedutora que minha frustração permitia. Com uma conexão qualquer de internet, acionei o localizador do celular e apaguei a memória, que poderia ser restaurada com os arquivos de back-up. Policiais mais ambiciosos acharam o rapaz em duas horas. Minha raiva não permitia que eu me importasse com o que aconteceria com ele. A classe média e alta se importam com direitos humanos até terem uma frustração dessas. Claro que eu nunca mais vi o relógio ou o celular. Se os policiais os acharam, ficaram com eles. Nada que eu pudesse fazer quanto a isso."
Óbvio que eu dificilmente faria qualquer dessas alternativas. A gente é educado a não reagir diante de bandido, pra não se machucar. A pena é ver que a gente também é educado a não se envolver quando vê alguém não reagindo diante de um bandido.
No meio do caminho, Nana me ligou para dizer que se atrasara. Tudo bem. Eu mesmo, ainda não acostumado à ineficiência do transporte público paulista e às distâncias dessa cidade que pareciam maiores no calor senegalês, já levava meia hora de atraso. O problema é que eu atendi em um celular caro, encostado no canto da parede de uma loja, aproveitando que aquele trecho da Roque Petroni só era povoado pelos carros e mais ninguém a pé. "Você vem de carro?" Nana perguntara. Não, estou andando.
Mesmo assim, eu não tenho certeza se foi nessa hora que ele me viu.
Coisa de uns dez minutos depois, eu acabara de passar pela frente dos portões amplos de uma multinacional perto da ponte Vereador José Diniz. Lembro que dois homens em uniformes de empregados estavam sentados na porta. Logo depois disso, o rapaz me abordou. No começo, eu percebi a camiseta estilo polo, listrada de azul marinho e branco. Cabelos curtos, cacheados como o meu, e barba feita. Um pouco mais baixo e franzino do que eu. Me estendeu a mão, e pediu licença.
Foi o calor. O calor, a fumaça e a caminhada de quase um quilômetro. Minha cabeça ficou letárgica e eu parei de olhar para os lados. Se não, teria visto o rapaz vindo atrás de mim, como normalmente faço, e teria esperado ele passar ao lado dos empregados da multinacional.
Pego de surpresa, e com a tendência a ser gentil, eu lhe dei a mão. Ele segurou firme, perguntando se podia pedir minha ajuda. Segurou firme. E continuou segurando. Tempo demais. Para que eu não escapasse. Não perdeu tempo: "É o seguinte, isso aqui é um assalto. Eu tô armado, mas fica tranquilo que eu não vou te fazer nada. Me passa tudo que você tem e não tenta correr nem fazer nada. Eu já sinalizei ali pro meu parceiro que você tá de boa". Eu respirei fundo. Senti meu corpo tremer enquanto a adrenalina começava a correr. Acho que soltei um "ai, meu Deus". Nessas horas todo mundo é católico.
Me assegurou que nada ia acontecer, mas falou para ir andando. Eu sabia que, lá adiante, ainda ia passar por baixo da ponte, onde o perigo dobrava. Tudo menos a ponte. Precisava ficar lá.
De repente, meu canto de olho registrou um senhor vindo pela calçada, atrás do rapaz. De maleta de negócios, careca e de óculos. Levantei as mãos, disse que estava tudo bem, que eu ia cooperar, e comecei a andar a passos lentos. O senhor nos alcançou. A esperança era que eu pudesse andar junto com ele até um ponto mais povoado, onde o rapaz não teria coragem de me agredir. Mas o senhor percebeu algo estranho, tomou a primeira virada antes da ponte e eu tive receio de envolve-lo no problema. "Não tenta nenhuma outra gracinha, viu?" se exaltou o rapaz. "Não tô tentando, nada! Eu tô cooperando!".
Perguntou pela minha carteira. Avisei que estava na mochila, e que eu ia abrir a mochila bem devagar, na frente dele. Sem problemas. Coloquei a mochila no chão. "Não precisa agachar, levanta!" ele sussurrou, olhando para os lados porque aquilo pareceria suspeito. Avisei que, no meu estado, eu não ia conseguir tirar a carteira da bolsa sem colocá-la no chão. Precisava ganhar tempo. Percebi as calças de moletom, o chinelo Havaianas e o dedinho ralado um pouco infeccionado. Um bandido ralé. Será que ele conseguiria correr rápido de Havaianas?
Peguei a carteira para dar a ele, ele apenas pediu que a abrisse. Pegou meu dinheiro, uma nota de libras britânica que ficara por lá, um cheque de presente da minha avó. Avisei que ele não ia conseguir descontar o cheque e ele prestou atenção no que tinha em mãos. Me devolveu o cheque e as libras. Um bandido criterioso. Será que eu conseguiria enrolar ele? Me pediu o celular e o relógio. Tirei o relógio dado de presente por meus pais, mas mencionei que eu trabalhava com aquele celular e que não o podia dar. Uma coisa com a qual bandido simpatiza é gente tentando ganhar a vida honestamente. Talvez fosse vontade de ser assim algum dia. Tudo bem.
Ele insistiu que eu andasse com ele, enquanto me fazia perguntas. No que que eu trabalho? Pra que preciso do telefone? Onde eu estava indo? Estava sozinho? Apesar de constatar que eu realmente precisava do telefone para receber meus trabalhos de tradução, ele queria ver o telefone. Se ele visse, ia querer levar. Se levasse, não ia conseguir fazer nada com ele. Quebraria ou venderia por dez reais o aparelho que eu bloquearia remotamente, dando o comando para apagar a memória.
Já estávamos debaixo da ponte, que para minha sorte, tinha um ponto de reciclagem de lixo funcionando a todo vapor, caminhões e trabalhadores ocupados por lá. Para meu azar, a área logo em seguida era um parque de mata alta, onde ninguém veria nada. Logo que passei da ponte, tive a idéia.
"Meu celular está na mochila também." Fiz uma volta, mantendo o bolso com o celular sempre escondido dele, ou escondendo-o com o saco acinzentado do bicho de pelúcia. Coloquei a mochila no chão. Passei a revirar a mochila, tirando caderno, livro, estojo. Ele se impacientava mais ainda. Com a mochila inteira revirada, passei a dizer alto "Tô sem meu celular!", como se a revelação fosse uma surpresa. "Não mente pra mim! Você tá sendo assaltado, rapaz!"
Controlando os nervos, olhei para ele: "olha, quanto mais tempo você passar aqui comigo, mais a coisa complica pra você e pra mim também". Foi então que ele percebeu. A turma do ponto de reciclagem olhando, o cruzamento aberto com carros parando no semáforo, a minha mochila escancarada no chão e eu agachado aos seus pés. Ele ainda teve um último instante para olhar para meus pertences e ver o tocador de MP3 barato. "Isso é o celular?" Avisei que não, que aquilo era "outra coisa" que não valia nada. Mesmo assim, ele levou.
Cruzou a avenida correndo e subiu a ponte do outro lado. Corria lento por causa das Havaianas. Corria sozinho, sem parceiro. E eu nunca havia visto indício de arma alguma.
A gente se sente idiota. Covarde. Pensa tanto em como agir nessas horas e não tem coragem de fazer. Vai que existe uma arma, que seja um caco de vidro. Vai que existe um parceiro. Vai que aquele aperto de mão forte de um esfomeado demonstra de fato mais força física do que a sua. Pior do que essas sensações e essa dúvida, são as incontáveis instâncias altamente criativas de "E se..." que passam a desfilar pela mente durante o resto do dia.
"...não perdeu tempo: 'É o seguinte, isso aqui é um assalto. Eu tô armado, mas fica tranquilo que eu não vou te fazer nada. Me passa tudo que você tem e não tenta correr nem fazer nada. Eu já sinalizei ali pro meu parceiro que você tá de boa'. Eu respirei fundo. Senti meu corpo tremer enquanto a adrenalina começava a correr.
Respondi: 'meu amigo, fica calmo, eu vou cooperar. É o seguinte, eu sei que um cara esperto como você entende que bacana que nem eu só respeita outro bacana ou cara que anda armado, né? Tu tá me dizendo que tá armado, e se tu só levantar a camisa de leve pra eu ver a arma, uma faca ou um caco de vidro, eu vou te dar absolutamente TUDO que eu tenho e tu pode sair daqui AGORA, sem problema. Assim de fácil. Eu nem resisto, deixo a mochila e as coisas no chão e vou andando. Quando a polícia chegar, você já vai tá longe. Eu não quero problema. Sério. Mas tu entende que se eu não tiver certeza disso, eu posso tentar correr. Se você me mostrar, eu já não tenho o que fazer. Agora, se tu não tem arma, vira e vai pro outro lado, na boa. Eu não vou chamar polícia nem nada. Vai cada um pro seu canto e você tenta pegar outro bacana que não pense nisso.'
De repente, meu canto de olho registrou um senhor vindo pela calçada, atrás dele. De maleta de negócios, careca e de óculos. Olhei o rapaz nos olhos, com respeito, sem intenção de superioridade. De repente virei e perguntei ao senhor: 'por favor, eu preciso de uma ajuda, eu tô tentando achar a Santo Amaro, será que você pode me indicar pra onde que é?'. O senhor, me apontando para o lado do qual eu viera, se despede e segue adiante. Eu volto à frente da multinacional (na direção do suposto parceiro dele), com uma testemunha no local, impossibilitando o rapaz de qualquer ação. Lá, junto dos empregados da empresa, vejo o rapaz seguir em direção à ponte, achando que a situação já está complicada demais. Com as pernas tremendo, peço aos rapazes da multinacional que me deixem sentar. 'Preciso de ajuda. Eu quase fui assaltado'."
"...de repente, meu canto de olho registrou um senhor vindo pela calçada, atrás do rapaz. De maleta de negócios, careca e de óculos. 'Rapaz, tem um senhor vindo pra cá.' avisei o assaltante, olhando-o seriamente nos olhos e começando a caminhar de volta até o portão da empresa com os dois funcionários. 'Presta atenção: você não vai querer complicar mais isso daqui com mais gente envolvida.'
'Fica onde você tá!' comandava o rapaz. Mas eu já estava apressando o passo e andando de costas, quase passando pelo senhor, que já percebi alguma coisa acontecendo.
'Segue andando, cara. Você não escolheu o melhor lugar pra fazer isso.' eu desafiei, tentando não mostrar em momento algum qualquer desrespeito. Ele pareceu inicialmente contrariado como uma criança. Mas depois, percebendo a situação já fora do controle, virou e apressou o passo em direção à ponte.
Da empresa, eu acenei para um taxi na rua, com uma mão trêmula de quem mal conseguia acreditar no que tinha feito."
"...coloquei a mochila no chão. 'Não precisa agachar, levanta!' ele sussurrou, olhando para os lados porque aquilo pareceria suspeito. Avisei que, no meu estado, eu não ia conseguir tirar a carteira da bolsa sem colocá-la no chão. Precisava ganhar tempo. Percebi as calças de moletom, o chinelo Havaianas e o dedinho ralado um pouco infeccionado. Um bandido ralé. Será que ele conseguiria correr rápido de Havaianas?
Enquanto ele olhava para os lados, girei o calcanhar, tomei impulso, e num esforço de baixo pra cima, empurrei o rapaz pela cintura, levantando-o do chão, jogando-o na avenida onde os carros vinham em alta velocidade. Ele conseguiu dar dois passos pra trás, para evitar cair de costas, até que o espelho de um Polo cinza o pegou pelo estômago. O carro derrapou em uma parada brusca e eu tomei a mochila e corri como nunca corri na minha vida, deixando o animal de pelúcia pra trás."
"...me pediu o celular e o relógio. Sem argumentar, entreguei os dois, o relógio que eu amava, dado por meus pais, e o celular que eu comprara recentemente.
De volta pela Roque Petroni, no Shopping Morumbi, pedi ajuda e entrei em contato com a delegacia de polícia local. "Querem pegar um ladrão fácil?" eu propus da forma mais sedutora que minha frustração permitia. Com uma conexão qualquer de internet, acionei o localizador do celular e apaguei a memória, que poderia ser restaurada com os arquivos de back-up. Policiais mais ambiciosos acharam o rapaz em duas horas. Minha raiva não permitia que eu me importasse com o que aconteceria com ele. A classe média e alta se importam com direitos humanos até terem uma frustração dessas. Claro que eu nunca mais vi o relógio ou o celular. Se os policiais os acharam, ficaram com eles. Nada que eu pudesse fazer quanto a isso."
Óbvio que eu dificilmente faria qualquer dessas alternativas. A gente é educado a não reagir diante de bandido, pra não se machucar. A pena é ver que a gente também é educado a não se envolver quando vê alguém não reagindo diante de um bandido.
terça-feira, dezembro 20, 2011
Cabaret Paulista
Como parte da minha tentativa de manter os hábitos e deleites londrinos por aqui, estive ontem no Cabaret Paulista: uma noite de apresentações burlescas que fazem parte do Projeto Luxúria. O Luxúria é idealizado por Heitor Werneck, ex-estilista e atual empresário de entretenimento alternativo em São Paulo. Por aqui, ele é único, alternativo, esquisito. Por lá, ele seria mais um naquele submundo freak.
Andei lendo que ele de fato baseou o Luxúria no famoso Torture Garden de Londres, o projeto a cujas festas eu fui em Brixton. As festas do TG eram divididas em diversos ambientes, com apresentações burlescas em um lado, a discoteca em outro, e muitos divertimentos estranhos espalhados em diversas salas. A impressão que eu tive era de que o Cabaret Paulista era uma versão light do TG, apenas com as apresentações burlescas. Tanto é que o rígido "dresscode" imposto à clientela nem foi seguido à risca, e a maioria do pessoal apareceu de camisetinha polo e calça jeans. Mas justamente por ser uma versão light, achei que seria o adequado para começar, e como uma primeira experiência para levar minha Lexy.
O veredito? Ainda darei uma chance às festas completas do Luxúria, mas o Cabaret me deixou um tanto desapontado. O apresentador, uma drag queen rotunda, fez o que pode para animar a noite, mas sofreu um pouco com a falta de organização e a demora dos performers em se aprontarem. A maioria dos números parecia altamente improvisada, mas não de uma maneira boa, como eu tinha visto improvisarem por lá. É difícil explicar o que incomodou, mas não foram só coisas como o artista de shibari (técnica de amarração e imobilização com cordas) não conseguir desatar sua vítima no fim do número ou o cara da dupla de pole dancing escorregar e cair na cabeça da moça. Números corretamente ensaiados e apresentados como os da performer Mouse e do Equador, the Wizard ainda estão distantes de aparecerem por aqui (prova disso é que eu sequer lembro do nome de nenhum dos performers de ontem...). Mas isso não me incomodaria tanto mesmo se a galera de Londres errasse.
O que faltou foi um pouco mais de seriedade e de gente que acreditasse em si mesma. A questão do "dresscode" já mostrava que ninguém, nem mesmo a clientela, estava levando a coisa muito a sério (tá certo, isto é uma diversão, mas pra que a coisa funcione, precisa de um mínimo de cooperação da galera) e que todo mundo tinha um certo medo de ser julgado, de estar gordo, feio, ridículo. Muitos dos performers pareciam estar tentando imitar algum ídolo em vez de confiarem no próprio corpo e conhecerem seus movimentos. Quiçá a coisa ficasse menos feia (embora também menos pro meu gosto) se alguém aparecesse lá para mostrar uma performance burlesca que misturasse samba, mulatas, forró e outras brasilidades. Pelo menos os performers teriam mais jeito e mais veracidade.
Veracidade. Talvez seja essa a palavra. Em Londres, mesmo em um ambiente tão fantasioso quanto as boates de fetish, havia uma sensação de veracidade. Eles eram de fato aquilo. Por aqui, no meio da noite, quando o performer de tecido agitou os panos para tentar dar um desnecessário efeito dramático, me peguei pensando: "parecemos macacos imitando o homem branco europeu".
Os melhores da noite ficaram por conta de uma garota que, apesar de imitar a antiga "dança dos leques" e não fazer nada de tão original, sabia muito bem vestir e usar o corpo rechonchudo; e o cantor que entoava Elis Regina e Cazuza com uma bela voz (novamente nada de novo), mas sabia mover o corpo esguio e abusar dos trejeitos afeminados.
Ainda estou curioso a respeito da festa do Projeto Luxúria. Curioso pra saber se o pessoal de fato vai vestido como se deve, se os organizadores de fato barram quem não entra na brincadeira, se rolam tantas loucuras quanto as que rolavam em Londres, se há menos macacos e mais pessoas. Mas não vou com muitas esperanças. Como andei escrevendo por aqui, a experiência que eu tenho do meu próprio povo é bem diferente da imagem libidinosa que temos no exterior. E a experiência no Cabaret Paulista só fez confirmar essa percepção.
No entanto, não posso deixar de terminar o post com uma nota favorável para o organizador Heitor Werneck. Como de costume com essas pessoas, o visual intimidante e altamente expressivo esconde uma pessoa amabilíssima, muito solícita, aparentemente muito culta em relação a esse mundo, e que apenas trabalha arduamente para vê-lo florescer aqui, com a mesmaa força que tem por lá. Tomara que consiga.
Andei lendo que ele de fato baseou o Luxúria no famoso Torture Garden de Londres, o projeto a cujas festas eu fui em Brixton. As festas do TG eram divididas em diversos ambientes, com apresentações burlescas em um lado, a discoteca em outro, e muitos divertimentos estranhos espalhados em diversas salas. A impressão que eu tive era de que o Cabaret Paulista era uma versão light do TG, apenas com as apresentações burlescas. Tanto é que o rígido "dresscode" imposto à clientela nem foi seguido à risca, e a maioria do pessoal apareceu de camisetinha polo e calça jeans. Mas justamente por ser uma versão light, achei que seria o adequado para começar, e como uma primeira experiência para levar minha Lexy.
O veredito? Ainda darei uma chance às festas completas do Luxúria, mas o Cabaret me deixou um tanto desapontado. O apresentador, uma drag queen rotunda, fez o que pode para animar a noite, mas sofreu um pouco com a falta de organização e a demora dos performers em se aprontarem. A maioria dos números parecia altamente improvisada, mas não de uma maneira boa, como eu tinha visto improvisarem por lá. É difícil explicar o que incomodou, mas não foram só coisas como o artista de shibari (técnica de amarração e imobilização com cordas) não conseguir desatar sua vítima no fim do número ou o cara da dupla de pole dancing escorregar e cair na cabeça da moça. Números corretamente ensaiados e apresentados como os da performer Mouse e do Equador, the Wizard ainda estão distantes de aparecerem por aqui (prova disso é que eu sequer lembro do nome de nenhum dos performers de ontem...). Mas isso não me incomodaria tanto mesmo se a galera de Londres errasse.
O que faltou foi um pouco mais de seriedade e de gente que acreditasse em si mesma. A questão do "dresscode" já mostrava que ninguém, nem mesmo a clientela, estava levando a coisa muito a sério (tá certo, isto é uma diversão, mas pra que a coisa funcione, precisa de um mínimo de cooperação da galera) e que todo mundo tinha um certo medo de ser julgado, de estar gordo, feio, ridículo. Muitos dos performers pareciam estar tentando imitar algum ídolo em vez de confiarem no próprio corpo e conhecerem seus movimentos. Quiçá a coisa ficasse menos feia (embora também menos pro meu gosto) se alguém aparecesse lá para mostrar uma performance burlesca que misturasse samba, mulatas, forró e outras brasilidades. Pelo menos os performers teriam mais jeito e mais veracidade.
Veracidade. Talvez seja essa a palavra. Em Londres, mesmo em um ambiente tão fantasioso quanto as boates de fetish, havia uma sensação de veracidade. Eles eram de fato aquilo. Por aqui, no meio da noite, quando o performer de tecido agitou os panos para tentar dar um desnecessário efeito dramático, me peguei pensando: "parecemos macacos imitando o homem branco europeu".
Os melhores da noite ficaram por conta de uma garota que, apesar de imitar a antiga "dança dos leques" e não fazer nada de tão original, sabia muito bem vestir e usar o corpo rechonchudo; e o cantor que entoava Elis Regina e Cazuza com uma bela voz (novamente nada de novo), mas sabia mover o corpo esguio e abusar dos trejeitos afeminados.
Ainda estou curioso a respeito da festa do Projeto Luxúria. Curioso pra saber se o pessoal de fato vai vestido como se deve, se os organizadores de fato barram quem não entra na brincadeira, se rolam tantas loucuras quanto as que rolavam em Londres, se há menos macacos e mais pessoas. Mas não vou com muitas esperanças. Como andei escrevendo por aqui, a experiência que eu tenho do meu próprio povo é bem diferente da imagem libidinosa que temos no exterior. E a experiência no Cabaret Paulista só fez confirmar essa percepção.
No entanto, não posso deixar de terminar o post com uma nota favorável para o organizador Heitor Werneck. Como de costume com essas pessoas, o visual intimidante e altamente expressivo esconde uma pessoa amabilíssima, muito solícita, aparentemente muito culta em relação a esse mundo, e que apenas trabalha arduamente para vê-lo florescer aqui, com a mesmaa força que tem por lá. Tomara que consiga.
terça-feira, dezembro 13, 2011
Conversa no chat do Facebook
Sempre, aos 45 do segundo tempo, quando você está quase desistindo da carreira, acontecem umas conversas como esta:
O "celsinhu" em questão é o Celso Fioravante, organizador do Mapa das Artes, que sai todos os meses com as principais exposições da cidade.
Logo que cheguei de viagem, coloquei os cartões da Filha do Açougueiro na Casa da Xiclet, para uma bem-humorada retrospectiva de 10 anos da casa chamada "10 anos sem sucesso - o fracasso nunca me subiu à cabeça". Nem comentei por aqui, por já estar desiludido com minhas perspectivas como artista.
Minha carreira de artes é aquele paciente na UTI que tá pra morrer, mas ninguém deixa desligarem os aparelhos.
ei pedro
Fala, moça!
quero deixar seus trabalhos no quarto in janeiro pode? sem custo adicional.
pq quem não viu , tem que ver.
Opa! Quer deixar os cartões e o jornal lá em Janeiro?
Tem alguém interessante pra quem você quer mostrar?
isso isso
u celsinhu du mapa perguntou preu la fora de quem e a obra dus cartões du meu quarto
Eba! Maravilha!
yes é nois
Valeuuuuuuu!
imagina euq ue agradeço é bao poder socolocar trabaios bao nu meu quarto pq acordar e dormir com arte é foda
Hahahaha! Certeza!
O "celsinhu" em questão é o Celso Fioravante, organizador do Mapa das Artes, que sai todos os meses com as principais exposições da cidade.
Logo que cheguei de viagem, coloquei os cartões da Filha do Açougueiro na Casa da Xiclet, para uma bem-humorada retrospectiva de 10 anos da casa chamada "10 anos sem sucesso - o fracasso nunca me subiu à cabeça". Nem comentei por aqui, por já estar desiludido com minhas perspectivas como artista.
Minha carreira de artes é aquele paciente na UTI que tá pra morrer, mas ninguém deixa desligarem os aparelhos.
quinta-feira, dezembro 08, 2011
O Modelo Inception
Em um nível simples, o Facebook funciona como qualquer outro serviço proporcionado a nós, que teoricamente somos os clientes. Nós (achamos que) temos uma necessidade, e o serviço supre essa necessidade em troca de algum ganho para o provedor do serviço, que normalmente vem em forma de dinheiro. Só que ninguém paga pelo Facebook, o que complica um pouco essa teoria.
A piadinha me fez pensar bastante nisso: "se você não está pagando por algo, você não é o cliente, você é o produto sendo vendido". Então, quem seria o cliente? Hoje, o Facebook tem links patrocinados. Fica claro que os "clientes" da história acabam virando esses anunciantes, para os quais ele vende um serviço: a visibilidade publicitária com possivelmente a maior audiência do planeta. E dentro desse serviço, o outro serviço que ele presta para nós, "clientes de mentira".
Outra forma de pensar no assunto é que talvez o "produto" dele seja a marca Facebook em si, a empresa. Que, quando ele achar que está pronto, irá vender a quem pagar mais, em uma transação comercial relativamente comum de venda de um bem, no qual está incluído esse serviço que ele presta a nós.
Esse modelo Inception de negócios, que eu digo ser muito pós-moderno, também é posto em prática no mundo das artes por pessoas como a Xiclet, em cuja galeria eu costumava expôr algumas das minhas pinturas. O serviço básico dela é o mesmo de várias galerias, providenciando espaço expositivo para os "clientes" artistas, que acreditam estar exibindo suas obras. Mas pouca ou nenhuma atenção é prestada de fato ao que é exposto na Casa da Xiclet, porque o mais legal são as baladas de abertura e o humor da divulgação, os nomes das exposições. As obras dos artistas lá expostos estão dentro de outra obra maior, que é a própria exposição organizada pela Xiclet, que adquire status de questionadora similar ao de muitos artistas pelo modo como divulga e organiza suas exposições, sempre desafiando o sistema e o mercado das artes. Ou seja, as exposições dela têm uma composição, uma teoria, um valor de entretenimento e uma prática que são mais similares aos de uma performance artística do que aos de uma galeria pura e simples. E ela se promove e adquire exposição no mercado de artes através delas. Mais exposição do que os artistas expostos. O que não acontece nas galerias comuns.
A real relação artista-público acontece entre a Xiclet e os visitantes, não entre os artistas e os visitantes. Da mesma forma, a real relação provedor-cliente acontece entre Zuckerberg e os anunciantes ou compradores do Facebook, não entre ele e os usuários.
E é tão interessante de ver que eu nem consigo me sentir usado por fazer parte desses esquemas...
segunda-feira, dezembro 05, 2011
Modorra
Já faz um mês que estou de volta.
Infelizmente, ainda vou usar este espaço para desabafar um pouco a respeito das minhas impressões da cidade à qual voltei. Bear with me.
O que mais tem ficado aparente para mim nesse mês que se passou por aqui é a modorra. Ando brincando com a idéia para uma ilustração do novo personagem que tem surgido no meu caderno na ausência da Filha do Açogueiro. A idéia de uma gosma que envolve tudo, deixa os movimentos do personagem mais lentos, mais difíceis. É assim a minha sensação de estar aqui. De que tudo precisa de um esforço maior, para equacionar inteligentemente o trânsito, para atravessar a punho de ferro as burocracias, para gastar eficientemente as 24 horas que aqui dão a sensação de 12. Eu tinha essa impressão por lá? Francamente, não me lembro. Digo que não, mas a verdade é que não me lembro.
Há outra modorra dentro da minha cabeça. Ela é composta de uma avalanche de pequenices a resolver. Eu ainda não liguei para aquela pessoa. Nossa, e não respondi o e-mail que me foi enviado há dez dias. Ai, o prazo para aquele projeto de arte está quase acabando. Eu podia organizar esses papéis na minha mesa.
Na verdade, nada disso é importante ou urgente. Tá, alguns são. Mas de repente eu percebo que a manhã inteira já foi embora e eu não fiz quase nada. E a sensação que tenho é de que eu estou me afogando nesse mar de pequenices pragmáticas, nessa gosma que consome meu dia, e não sobra quase tempo algum para qualquer atividade criativa.
Como era possível lá? Como eu conseguia resolver pequenices, cuidar da casa, participar da vida cultural da cidade, desenvolver um mestrado e ainda por cima criar arte? E olha que eu ainda nem estou precisando cuidar da casa direito, porque estou morando com meus pais até o começo do ano que vem.
Talvez seja esta cidade. O modo como as coisas (não) funcionam aqui. Ela mata minha criatividade. E não é só para as artes, mas para viver também. Eu saia lá nos fins de semana meio sem rumo, pronto para a cidade me surpreender, porque era fácil e seguro andar por lá. Porque as próprias pessoas do lugar me interessavam. Não sinto essa vontade aqui. Eu tinha trezentas idéias artísticas legais por dia, por causa da convivência com artistas e de frequentar museus e galerias nos fins de semana. Eram questões relacionadas a arte, masculinidade e afins. Coisas relacionadas com o meu mestrado. Elas ficavam como um murmúrio no fundo da mente e de vez em quando traziam à tona algo produtivo. Era um murmúrio positivo.
Mas hoje percebi que esse murmúrio tinha voltado a ser o que era antes da minha partida pra lá. E não é nada positivo. Passo o dia escutando discussões acaloradas, situações hipotéticas onde eu estou descontando a raiva e dizendo o que penso para algum infeliz. Eu não sei de onde vem todo esse rancor. Mas eu não consigo calar esse murmúrio incessante.
Eu perdi algo. E me faz falta.
Tranquilizo-me dizendo que é só a combinação entre a época de festas e a bagunça de ter chegado de viagem. E que talvez em Janeiro, quando as coisas acalmarem, eu voltarei a ter sossego, concentração e tempo para fazer alguma coisa.
Infelizmente, ainda vou usar este espaço para desabafar um pouco a respeito das minhas impressões da cidade à qual voltei. Bear with me.
O que mais tem ficado aparente para mim nesse mês que se passou por aqui é a modorra. Ando brincando com a idéia para uma ilustração do novo personagem que tem surgido no meu caderno na ausência da Filha do Açogueiro. A idéia de uma gosma que envolve tudo, deixa os movimentos do personagem mais lentos, mais difíceis. É assim a minha sensação de estar aqui. De que tudo precisa de um esforço maior, para equacionar inteligentemente o trânsito, para atravessar a punho de ferro as burocracias, para gastar eficientemente as 24 horas que aqui dão a sensação de 12. Eu tinha essa impressão por lá? Francamente, não me lembro. Digo que não, mas a verdade é que não me lembro.
Há outra modorra dentro da minha cabeça. Ela é composta de uma avalanche de pequenices a resolver. Eu ainda não liguei para aquela pessoa. Nossa, e não respondi o e-mail que me foi enviado há dez dias. Ai, o prazo para aquele projeto de arte está quase acabando. Eu podia organizar esses papéis na minha mesa.
Na verdade, nada disso é importante ou urgente. Tá, alguns são. Mas de repente eu percebo que a manhã inteira já foi embora e eu não fiz quase nada. E a sensação que tenho é de que eu estou me afogando nesse mar de pequenices pragmáticas, nessa gosma que consome meu dia, e não sobra quase tempo algum para qualquer atividade criativa.
Como era possível lá? Como eu conseguia resolver pequenices, cuidar da casa, participar da vida cultural da cidade, desenvolver um mestrado e ainda por cima criar arte? E olha que eu ainda nem estou precisando cuidar da casa direito, porque estou morando com meus pais até o começo do ano que vem.
Talvez seja esta cidade. O modo como as coisas (não) funcionam aqui. Ela mata minha criatividade. E não é só para as artes, mas para viver também. Eu saia lá nos fins de semana meio sem rumo, pronto para a cidade me surpreender, porque era fácil e seguro andar por lá. Porque as próprias pessoas do lugar me interessavam. Não sinto essa vontade aqui. Eu tinha trezentas idéias artísticas legais por dia, por causa da convivência com artistas e de frequentar museus e galerias nos fins de semana. Eram questões relacionadas a arte, masculinidade e afins. Coisas relacionadas com o meu mestrado. Elas ficavam como um murmúrio no fundo da mente e de vez em quando traziam à tona algo produtivo. Era um murmúrio positivo.
Mas hoje percebi que esse murmúrio tinha voltado a ser o que era antes da minha partida pra lá. E não é nada positivo. Passo o dia escutando discussões acaloradas, situações hipotéticas onde eu estou descontando a raiva e dizendo o que penso para algum infeliz. Eu não sei de onde vem todo esse rancor. Mas eu não consigo calar esse murmúrio incessante.
Eu perdi algo. E me faz falta.
Tranquilizo-me dizendo que é só a combinação entre a época de festas e a bagunça de ter chegado de viagem. E que talvez em Janeiro, quando as coisas acalmarem, eu voltarei a ter sossego, concentração e tempo para fazer alguma coisa.
quinta-feira, dezembro 01, 2011
Nan Goldin e a aceitação do corpo brasileira
O meio artístico está em polvorosa por causa do quase cancelamento da exposição da artista americana Nan Goldin, organisada pela curadora Lígia Canongia e patrocinada pela Oi Futuro no Rio de Janiero. Pelo que eu entendi, e corrijam-me se eu tiver informações erradas, a curadora passou dois anos organizando a exposição e lutando para trazer a obra de fotografia para o Brasil. Por algum motivo, a Oi Futuro só tomou conhecimento do teor das fotos recentemente, mesmo depois de ter aprovado o projeto em concorrências acirradíssimas. Já começa aí o brasileirismo. Quando perceberam que as fotos tratavam da comunidade alternativa LGBT de Nova Iorque, a empresa começou a fazer exigências. Queria que tirassem fotos onde indivíduos apareciam se drogando. Goldin aceitou. Mas quando as exigências continuaram e a empresa pediu que ela removesse as fotos com crianças, ela sugeriu que fossem substituídas por quadros pretos com a legenda "censurado" (a artista comenta que não sabia do peso tão forte que a palavra tem no Brasil por causa da ditadura). A partir daí, as negociações desandaram e a Oi ameaçou cancelar o projeto. Depois de ampla reação da comunidade artística brasileira, a Oi Futuro voltou atrás, e decidiu seguir em frente com o projeto, mas transferi-lo ao prédio do MAM no Rio. A atitude me pareceu uma daquelas em que a diplomacia é tão evidente, que fica até feio. "I'll have none of that filth in my house" ("Não vou aceitar essa imundice na minha casa") diz a empresa, mas ainda financia a coisa para salvar sua imagem na mídia. Do jeito que está, ela já prejudicou sua imagem tanto com o público mais conservador, quanto com os artistas.
Achei relevante a colocação do Agnaldo Farias, crítico que esteve na minha banca no curso de artes, dizendo que a empresa deveria mudar o nome para "Oi Passado" ou "Adeus Futuro".
Porém fiquei muito atento à entrevista que Goldin deu ao Estadão. Em determinado momento, ela se disse chocada com o que aconteceu no Brasil:
Fiquei chocada. O Brasil é percebido como um país socialmente livre, de pessoas sem problemas com o corpo, então foi chocante.
É um estereótipo antigo. Mas a experiência de Brasil que eu tenho é de um país que na verdade tem problemas enormes em relação ao corpo. Onde o culto à forma perfeita é exageradamente escancarado nas praias e na publicidade, mas a exibição de um único mamilo ou (Deus me livre!) de um pênis é uma heresia. Onde sexo é estimulado de forma subentendida e subliminar, mas não pode acontecer a olhos vistos (medo de julgarem a sua performance?). Onde acontece a cada ano a maior parada gay da américa latina (com números a cada ano mais... túrgidos), mas os mesmos gays são espancados na mesma avenida da parada. Onde a diferença sexual é discutida e "tolerada" na novela, mas o país ainda não aceitou o matrimônio entre homossexuais e ainda não sabe como lidar com o cartunista cross-dresser.
E o que é exportado é a imagem da mulata do carnaval, que tem sua roupa produzida pelas bibas da escola de samba. O estereótipo ainda prevalece.
Achei relevante a colocação do Agnaldo Farias, crítico que esteve na minha banca no curso de artes, dizendo que a empresa deveria mudar o nome para "Oi Passado" ou "Adeus Futuro".
Porém fiquei muito atento à entrevista que Goldin deu ao Estadão. Em determinado momento, ela se disse chocada com o que aconteceu no Brasil:
Fiquei chocada. O Brasil é percebido como um país socialmente livre, de pessoas sem problemas com o corpo, então foi chocante.
É um estereótipo antigo. Mas a experiência de Brasil que eu tenho é de um país que na verdade tem problemas enormes em relação ao corpo. Onde o culto à forma perfeita é exageradamente escancarado nas praias e na publicidade, mas a exibição de um único mamilo ou (Deus me livre!) de um pênis é uma heresia. Onde sexo é estimulado de forma subentendida e subliminar, mas não pode acontecer a olhos vistos (medo de julgarem a sua performance?). Onde acontece a cada ano a maior parada gay da américa latina (com números a cada ano mais... túrgidos), mas os mesmos gays são espancados na mesma avenida da parada. Onde a diferença sexual é discutida e "tolerada" na novela, mas o país ainda não aceitou o matrimônio entre homossexuais e ainda não sabe como lidar com o cartunista cross-dresser.
E o que é exportado é a imagem da mulata do carnaval, que tem sua roupa produzida pelas bibas da escola de samba. O estereótipo ainda prevalece.
segunda-feira, novembro 28, 2011
Readaptação social
Uma das dificuldades que estou penando para superar e a readaptação social.
Eu passei um ano no qual muita gente se sentiria deprimida por estar sozinha. Mas eu me senti bem. Chega a ser até feio admitir, mas eu me senti bem. Tinha uma liberdade gostosa nessa vida que eu levava lá, de poder mudar de idéia, definir o programa do final de semana na sexta à noite e mudar no sábado de manhã. De experimentar aquelas baladas estranhas e o underground londrino sozinho, sem ter que inventar desculpa pra ninguém ou criar coragem pra vestir algo diferente. A verdade é que havia uma falta de intimidade. Eu não era de fato íntimo de ninguém lá, e aproveitava a liberdade do anonimato e da privacidade.
Mas claro, faltava alguma coisa. Sempre falta. Aquela conversa gostosa no restaurante; os programinhas a dois, três, dez amigos muito próximos; o fim de ano com pessoas que realmente significam algo; a piada interna; a sensação de muita água que já rolou debaixo da ponte.
Agora que eu voltei, estou aproveitando a compania das pessoas de novo. Matando saudades, revendo amigos. Vou admitir, você começa conversas com londrinos muito mais facilmente do que com paulistas. Em qualquer ponto de ônibus, boteco ou evento eles puxam conversa e ninguém olha desconfiado. Em compensação, eles dificilmente vão deixar você ter mais intimidade do que o papo circunstancial do que está rolando naquela situação. Pouquíssimos abrem sua vida pessoal. E estou voltando a saborear o gosto desse tipo de convivência, que eu nem tinha percebido me fazer tanta falta quanto de fato fazia. No entanto, tem certas regras de etiqueta ou simples bom senso para as quais eu devo confessar que perdi o jeito. Vou arriscar desfilar alguns dos meus deslizes.
Fui assistir a uma peça de teatro com a minha Lexy e depois, acostumado ao que eu fazia nas noites de cinema em Brixton, voltei pra casa. Assim, sem jantar a dois nem nada depois. Completa falta de bom senso e gentileza. Claro que não fui poupado de um bom puxão de orelha.
Convidei alguns bons amigos para irem à fazenda no fim de semana, e só não esqueci de levar em consideração a comida porque minha menina perguntou. Estivera acostumado novamente a me virar sozinho e a não me importar com as sessões culinárias na madrugada, aprimorando receitas com o que eu tivesse ainda na geladeira. E ainda por cima fui avançando na receita que escolhi cozinhar para meus convidados sem levar em conta as restrições alimentares deles. Olhando para o meu próprio umbigo de novo.
E claro, esqueci do quão complicadas são as agendas em São Paulo. Onde todo mundo sempre tem uma "festa de aniversário da samambaia da tia-avó do namorado em São Luiz do Passaquatro do Sul" pra ir no fim de semana. Assim que, quando dei notícia por Facebook para que todos viesse em casa uns poucos quatro ou cinco dias antes, apenas um punhado de amigos fiéis apareceram. Vários nem perceberam o evento no Facebook. Não importava que eu estava fazendo 30 anos e que voltava de Londres depois de ter passado um ano fora. As agendas já estavam preenchidas. Pensando bem, eu nunca soube organizar essas coisas direito. Mas sabia ao menos que festa que se preze por aqui tem que ter aviso com várias semanas de antecedência e manobras diplomáticas para garantir presenças. E não só eu estava voltando de Londres muito em cima da hora, como ainda estava acostumado ao modo displicente com o qual estas coisas eram organizadas por lá. Bastava um aviso no mural do Face dois dias antes para que vários dos meus colegas de curso aparecessem no pub para a minha despedida de Londres. Era uma turma mais focada e, mesmo depois do curso acabar, ainda prestávamos muita atenção uns nos outros pelas mídias sociais.
Eu ainda levo um tempo até recobrar um pouco do (parco) bom senso que eu tinha. Por favor tolerem o meu choque cultural às avessas...
Eu passei um ano no qual muita gente se sentiria deprimida por estar sozinha. Mas eu me senti bem. Chega a ser até feio admitir, mas eu me senti bem. Tinha uma liberdade gostosa nessa vida que eu levava lá, de poder mudar de idéia, definir o programa do final de semana na sexta à noite e mudar no sábado de manhã. De experimentar aquelas baladas estranhas e o underground londrino sozinho, sem ter que inventar desculpa pra ninguém ou criar coragem pra vestir algo diferente. A verdade é que havia uma falta de intimidade. Eu não era de fato íntimo de ninguém lá, e aproveitava a liberdade do anonimato e da privacidade.
Mas claro, faltava alguma coisa. Sempre falta. Aquela conversa gostosa no restaurante; os programinhas a dois, três, dez amigos muito próximos; o fim de ano com pessoas que realmente significam algo; a piada interna; a sensação de muita água que já rolou debaixo da ponte.
Agora que eu voltei, estou aproveitando a compania das pessoas de novo. Matando saudades, revendo amigos. Vou admitir, você começa conversas com londrinos muito mais facilmente do que com paulistas. Em qualquer ponto de ônibus, boteco ou evento eles puxam conversa e ninguém olha desconfiado. Em compensação, eles dificilmente vão deixar você ter mais intimidade do que o papo circunstancial do que está rolando naquela situação. Pouquíssimos abrem sua vida pessoal. E estou voltando a saborear o gosto desse tipo de convivência, que eu nem tinha percebido me fazer tanta falta quanto de fato fazia. No entanto, tem certas regras de etiqueta ou simples bom senso para as quais eu devo confessar que perdi o jeito. Vou arriscar desfilar alguns dos meus deslizes.
Fui assistir a uma peça de teatro com a minha Lexy e depois, acostumado ao que eu fazia nas noites de cinema em Brixton, voltei pra casa. Assim, sem jantar a dois nem nada depois. Completa falta de bom senso e gentileza. Claro que não fui poupado de um bom puxão de orelha.
Convidei alguns bons amigos para irem à fazenda no fim de semana, e só não esqueci de levar em consideração a comida porque minha menina perguntou. Estivera acostumado novamente a me virar sozinho e a não me importar com as sessões culinárias na madrugada, aprimorando receitas com o que eu tivesse ainda na geladeira. E ainda por cima fui avançando na receita que escolhi cozinhar para meus convidados sem levar em conta as restrições alimentares deles. Olhando para o meu próprio umbigo de novo.
E claro, esqueci do quão complicadas são as agendas em São Paulo. Onde todo mundo sempre tem uma "festa de aniversário da samambaia da tia-avó do namorado em São Luiz do Passaquatro do Sul" pra ir no fim de semana. Assim que, quando dei notícia por Facebook para que todos viesse em casa uns poucos quatro ou cinco dias antes, apenas um punhado de amigos fiéis apareceram. Vários nem perceberam o evento no Facebook. Não importava que eu estava fazendo 30 anos e que voltava de Londres depois de ter passado um ano fora. As agendas já estavam preenchidas. Pensando bem, eu nunca soube organizar essas coisas direito. Mas sabia ao menos que festa que se preze por aqui tem que ter aviso com várias semanas de antecedência e manobras diplomáticas para garantir presenças. E não só eu estava voltando de Londres muito em cima da hora, como ainda estava acostumado ao modo displicente com o qual estas coisas eram organizadas por lá. Bastava um aviso no mural do Face dois dias antes para que vários dos meus colegas de curso aparecessem no pub para a minha despedida de Londres. Era uma turma mais focada e, mesmo depois do curso acabar, ainda prestávamos muita atenção uns nos outros pelas mídias sociais.
Eu ainda levo um tempo até recobrar um pouco do (parco) bom senso que eu tinha. Por favor tolerem o meu choque cultural às avessas...
quinta-feira, novembro 17, 2011
3.0
Uma vez me explicaram (e corrijam-me se eu estiver falando besteira) que quando um aparelho ou software é lançado em versão atualizada, esses números têm significados específicos. Grandes mudanças na estrutura básica da coisa aumentam o primeiro número, mudanças menores de software e correções de bugs aumentam os números subsequentes. Ou seja, a mudança de um programa 2.5 para 2.6 pode nem ser percebida pelo usuário, mas entre um 2.5 para um 3.0 a mudança já é mais radical.
Neste ano, passei o dia do meu aniversário sem muito alarde. Almoço com a família que ainda estava matando as saudades depois da minha volta de Londres. Não senti aquela ansiedade por "fazer o dia valer", fazer algo memorável. O mais surpreendente é que eu sempre fui muito dado a me importar com números importantes, como mudanças na casa decimal das dezenas. E no entanto, não estava me importando tanto com a minha chegada aos 30. Na verdade, parte de mim se consolava pelo fato de que eu tinha acabado de chegar de um ano no exterior e realmente não tivera tempo para me importar ou preparar qualquer coisa. Outra parte estava fazendo o balanço da minha vida até então e estava satisfeita com as conclusões, não se importanto com a ausência de festas faraônicas para comemorar. E ainda uma terceira parte me lembrava que raríssimas vezes eu vi alguém comemorar essas coisas de formas de fato memoráveis e os que tentavam acabavam sendo apenas memoravelmente deprimentes.
Obviamente, o mais importante nesse balanço de 30 anos era a decada que eu estava encerrando.
A infância, passara-a na fantasia de querer ser adulto, enquanto estava afogado na dor e na delícia de viver na Colômbia. Na confusão, no ser estrangeiro, na vizinhança que lembrava os suburbios dos filmes americanos, numa realidade que ouvia as notícias do narcotráfico como se fossem lendas urbanas, pois que eu nunca vi nesses anos todos um grama de droga ou uma cena de violência.
A adolescência fora um trauma, da volta para meu país até as descobertas sexuais e os relacionamentos que eu julgava complexos. E principalmente na difícil decisão entre teatro, literatura e artes plásticas.
Mas os vinte... Ah, os vinte anos! Passados na vã busca do sucesso de carreira como artista plástico. Dos primeiros anos nas duas faculdades, o tempo desperdiçado na publicidade... Eu confesso que até renunciar a publicidade aos 27, eu achava que estava perdido além das esperanças. Até desisti de comparecer à festa de 10 anos de formados do meu colégio, com vergonha de me apresentar como aquele tremendo fracasso frente à minha antiga turma e seus sucessos. Mas esses últimos anos foram uma tremenda volta por cima. A admissão do amor pelos idiomas, as viagens, o encontrar um outro modo de vida (o meu modo de vida), o lidar com os traumas da adolescência e sexualidade e finalmente as primeiras recompensas profissionais e pessoais.
Claro que este último ano em Londres, para o qual eu estava me preparando desde os 27, tem muito a ver com essa mudança. Eu comentara antes de viajar, que ele seria decisivo. Como a expressão inglesa diz, ele iria make me or break me [me fazer ou me destruir].
Pessoalmente, o ano fez mais do que destruiu. Me deu uma nova compreensão de mim que curou diversos dos meus traumas, me mostrou como viver comigo mesmo, meus gostos, peculiaridades e ideologias.
Profissionalmente, ele destruiu mais do que fez. Destruiu meus contraproducentes delírios de grandeza, parte do meu enorme ego, a crença em um gênio artístico que amigos aplaudíam e profissionais ignoravam. Ele me fez mais humilde. Eu não consegui a carreira artística em Londres, apesar de ter tantos outros sucessos na instituição onde estudei (o catálogo, a indicação para o GAM, o reconhecimento e respeito de colegas e professores, a gratidão dos alunos novos aos quais ajudei). E hoje entendo, jamais conseguirei a tal carreira em São Paulo. Mas essa nova convicção não é triste como soa. É libertadora. Agora eu me permito ir em frente e construir a minha vida, ganhar dinheiro, sair da casa dos pais, eventualmente casar e ter filhos. Em vez de ficar penando para bajular quem jamais se interessou pelo que eu faço. Soa como se eu deixasse de ser artista, mas isso eu sei ser impossível. Eu continuo fazendo minhas coisas, desenhando minhas persoangens (tem um novo surgindo no novo caderno...), botando o atelier para funcionar. Quando Joseph Beuys plantou aquela última árvore e se disse "fora da arte", ele não queria dizer que não ia mais "ser artista". Imagino que, como eu, queria dizer que estava desistindo de bajular galeristas e curadores, da ansiedade de estar "por dentro das tendências", do esforço não-natural de se interessar pelo que não o interessava, das aparências. Mas aposto que continuou fazendo suas pequenas tolicezinhas em casa.
E essa é a principal mudança na minha nova versão 3.0. Uma mudança radical de foco. Estou ainda engajado em últimos esforços, últimos salões de arte, mas pretendo também me colocar "fora da arte". E perseguir o caminho dos idiomas, talvez da literatura, de rumos que atualmente me dão e sempre me deram muito mais retornos positivos (financeiros e pessoais) do que as artes visuais. Não é uma mudança fácil. Nem rápida. Mas vai acontecer ao longo dessa próxima década.
Pra terminar este post em um tom mais agradável, preciso contar que todo o conhecimento sobre artes visuais e os estudos que fiz aos vinte anos não serão jogados fora assim, de uma hora pra outra. Se eles não me renderam a tão sonhada carreira como artista plástico, eles ao menos acabaram de me render uma outra.
Adivinha quem vai ser o novo professor de educação artística do meu antigo Colégio Bandeirantes...
Neste ano, passei o dia do meu aniversário sem muito alarde. Almoço com a família que ainda estava matando as saudades depois da minha volta de Londres. Não senti aquela ansiedade por "fazer o dia valer", fazer algo memorável. O mais surpreendente é que eu sempre fui muito dado a me importar com números importantes, como mudanças na casa decimal das dezenas. E no entanto, não estava me importando tanto com a minha chegada aos 30. Na verdade, parte de mim se consolava pelo fato de que eu tinha acabado de chegar de um ano no exterior e realmente não tivera tempo para me importar ou preparar qualquer coisa. Outra parte estava fazendo o balanço da minha vida até então e estava satisfeita com as conclusões, não se importanto com a ausência de festas faraônicas para comemorar. E ainda uma terceira parte me lembrava que raríssimas vezes eu vi alguém comemorar essas coisas de formas de fato memoráveis e os que tentavam acabavam sendo apenas memoravelmente deprimentes.
Obviamente, o mais importante nesse balanço de 30 anos era a decada que eu estava encerrando.
A infância, passara-a na fantasia de querer ser adulto, enquanto estava afogado na dor e na delícia de viver na Colômbia. Na confusão, no ser estrangeiro, na vizinhança que lembrava os suburbios dos filmes americanos, numa realidade que ouvia as notícias do narcotráfico como se fossem lendas urbanas, pois que eu nunca vi nesses anos todos um grama de droga ou uma cena de violência.
A adolescência fora um trauma, da volta para meu país até as descobertas sexuais e os relacionamentos que eu julgava complexos. E principalmente na difícil decisão entre teatro, literatura e artes plásticas.
Mas os vinte... Ah, os vinte anos! Passados na vã busca do sucesso de carreira como artista plástico. Dos primeiros anos nas duas faculdades, o tempo desperdiçado na publicidade... Eu confesso que até renunciar a publicidade aos 27, eu achava que estava perdido além das esperanças. Até desisti de comparecer à festa de 10 anos de formados do meu colégio, com vergonha de me apresentar como aquele tremendo fracasso frente à minha antiga turma e seus sucessos. Mas esses últimos anos foram uma tremenda volta por cima. A admissão do amor pelos idiomas, as viagens, o encontrar um outro modo de vida (o meu modo de vida), o lidar com os traumas da adolescência e sexualidade e finalmente as primeiras recompensas profissionais e pessoais.
Claro que este último ano em Londres, para o qual eu estava me preparando desde os 27, tem muito a ver com essa mudança. Eu comentara antes de viajar, que ele seria decisivo. Como a expressão inglesa diz, ele iria make me or break me [me fazer ou me destruir].
Pessoalmente, o ano fez mais do que destruiu. Me deu uma nova compreensão de mim que curou diversos dos meus traumas, me mostrou como viver comigo mesmo, meus gostos, peculiaridades e ideologias.
Profissionalmente, ele destruiu mais do que fez. Destruiu meus contraproducentes delírios de grandeza, parte do meu enorme ego, a crença em um gênio artístico que amigos aplaudíam e profissionais ignoravam. Ele me fez mais humilde. Eu não consegui a carreira artística em Londres, apesar de ter tantos outros sucessos na instituição onde estudei (o catálogo, a indicação para o GAM, o reconhecimento e respeito de colegas e professores, a gratidão dos alunos novos aos quais ajudei). E hoje entendo, jamais conseguirei a tal carreira em São Paulo. Mas essa nova convicção não é triste como soa. É libertadora. Agora eu me permito ir em frente e construir a minha vida, ganhar dinheiro, sair da casa dos pais, eventualmente casar e ter filhos. Em vez de ficar penando para bajular quem jamais se interessou pelo que eu faço. Soa como se eu deixasse de ser artista, mas isso eu sei ser impossível. Eu continuo fazendo minhas coisas, desenhando minhas persoangens (tem um novo surgindo no novo caderno...), botando o atelier para funcionar. Quando Joseph Beuys plantou aquela última árvore e se disse "fora da arte", ele não queria dizer que não ia mais "ser artista". Imagino que, como eu, queria dizer que estava desistindo de bajular galeristas e curadores, da ansiedade de estar "por dentro das tendências", do esforço não-natural de se interessar pelo que não o interessava, das aparências. Mas aposto que continuou fazendo suas pequenas tolicezinhas em casa.
E essa é a principal mudança na minha nova versão 3.0. Uma mudança radical de foco. Estou ainda engajado em últimos esforços, últimos salões de arte, mas pretendo também me colocar "fora da arte". E perseguir o caminho dos idiomas, talvez da literatura, de rumos que atualmente me dão e sempre me deram muito mais retornos positivos (financeiros e pessoais) do que as artes visuais. Não é uma mudança fácil. Nem rápida. Mas vai acontecer ao longo dessa próxima década.
Pra terminar este post em um tom mais agradável, preciso contar que todo o conhecimento sobre artes visuais e os estudos que fiz aos vinte anos não serão jogados fora assim, de uma hora pra outra. Se eles não me renderam a tão sonhada carreira como artista plástico, eles ao menos acabaram de me render uma outra.
Adivinha quem vai ser o novo professor de educação artística do meu antigo Colégio Bandeirantes...
sexta-feira, novembro 04, 2011
Touchdown
Meu coração já encolheu um pouquinho quando percebi ainda no aeroporto as pessoas falando em português. Não era tanto o português em si que me incomodava, mas o jeito das pessoas falarem e o que elas falavam. Como todas queriam chegar lá antes dos outros pra embarcarem primeiro, arranjarem mais espaço, mais privilégios, mais, mais mais. E depois de desrespeitarem a organização do embarque, reclamavam quando nada mais fazia sentido. Não sei dar mais detalhes, mas já percebi o quanto eu me acostumara à mentalidade da Europa e o quanto algumas coisas da América iam me incomodar por tempo indefinido. Mais ainda, percebi o quanto isso soava pretensioso e o quanto eu teria que ficar de boca calada em relação ao meu desconforto para não parecer pedante. Era basicamente o mesmo raciocínio que me chamava de exibido por eu ter um bom nível de inglês e entender as piadas nos filmes legendados. Eu não tenho como escrever sobre isso sem fazer parecer uma falha de caráter horrível, mas de fato são coisas que só entende quem viveu fora por um tempo.
De volta ao meu país na América, me surpreendi com a falta de algumas percepções da primeira viagem. Talvez por ter andado em bairros mais sujos de Londres, talvez por ter passado uns dias em Milão, mas não percebi aquela sujeira que tinha percebido na primeira vez. O trânsito, esse sim, continuava tão ou mais insuportável do que antes.
No caminho para casa ("casa?") no carro de minha mãe, conversamos sobre essa cidade nova na qual eu estava entrando. Era uma cidade que estava percebendo que colocar mil carros na rua por dia estava asfixiando-a. Principalmente quando cada carro carregava uma única pessoa. Ciclovias estavam começando a aparecer, ainda que fossem mais um meio de lazer do que transporte cotidiano. Se as empresas se conscientizassem de que se trata de um país tropical e uma cidade de altos e baixos, onde pegar bicicleta mesmo que por três quarteirões é motivo para suor torrencial; se elas disponibilizassem vestiários para duchas rápidas ou outra solução plausível, talvez o trânsito na cidade diminuísse e a saúde das pessoas melhorasse. Não era só isso. Mamãe dizia que a cidade finalmente percebera o óbvio: que uma cidade grande como Londres com quatro linhas de metrô era uma coisa vergonhosa, e obras para novas linhas já tinham começado. Se o problema de transporte na cidade melhorasse, eu talvez não enlouqueceria tanto assim com este lugar.
As outras considerações dariam posts inteiros que eu ainda preciso escrever (assim que conseguir lidar com os atrasos homéricos de coisas que eu queria postar aqui...). Minhas percepções sobre a política de Londres, por exemplo, que poucos meses depois dos tumultos, tinha começado a discutir o que fazer sobre a qualidade de vida e as perspectivas de futuro dos arruaceiros responsáveis que os levaram a propagar os tumultos, em vez de apenas aumentar a repressão policial como em recentes acontecimentos por aqui.
E isso que eu ainda nem toquei em toda a questão de sexualidade que eu andei estudando por lá.
Respire.
Keep calm and carry on.
De volta ao meu país na América, me surpreendi com a falta de algumas percepções da primeira viagem. Talvez por ter andado em bairros mais sujos de Londres, talvez por ter passado uns dias em Milão, mas não percebi aquela sujeira que tinha percebido na primeira vez. O trânsito, esse sim, continuava tão ou mais insuportável do que antes.
No caminho para casa ("casa?") no carro de minha mãe, conversamos sobre essa cidade nova na qual eu estava entrando. Era uma cidade que estava percebendo que colocar mil carros na rua por dia estava asfixiando-a. Principalmente quando cada carro carregava uma única pessoa. Ciclovias estavam começando a aparecer, ainda que fossem mais um meio de lazer do que transporte cotidiano. Se as empresas se conscientizassem de que se trata de um país tropical e uma cidade de altos e baixos, onde pegar bicicleta mesmo que por três quarteirões é motivo para suor torrencial; se elas disponibilizassem vestiários para duchas rápidas ou outra solução plausível, talvez o trânsito na cidade diminuísse e a saúde das pessoas melhorasse. Não era só isso. Mamãe dizia que a cidade finalmente percebera o óbvio: que uma cidade grande como Londres com quatro linhas de metrô era uma coisa vergonhosa, e obras para novas linhas já tinham começado. Se o problema de transporte na cidade melhorasse, eu talvez não enlouqueceria tanto assim com este lugar.
As outras considerações dariam posts inteiros que eu ainda preciso escrever (assim que conseguir lidar com os atrasos homéricos de coisas que eu queria postar aqui...). Minhas percepções sobre a política de Londres, por exemplo, que poucos meses depois dos tumultos, tinha começado a discutir o que fazer sobre a qualidade de vida e as perspectivas de futuro dos arruaceiros responsáveis que os levaram a propagar os tumultos, em vez de apenas aumentar a repressão policial como em recentes acontecimentos por aqui.
E isso que eu ainda nem toquei em toda a questão de sexualidade que eu andei estudando por lá.
Respire.
Keep calm and carry on.
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